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Teixeira de Pascoaes (Parte 8): O Espírito Lusitano ou o Saudosismo

Estátua do poeta, em Amarante

Estátua do poeta, em Amarante

“O Povo português criou a Saudade, porque é a única síntese perfeita do sangue ariano e do semita.
No povo espanhol domina o sangue semita que o tornou ferozmente espiritualista, violento e dramático. No povo italiano domina o sangue ária que o tornou exclusivamente pagão. Veja-se a avidez com que os seus Artistas se abraçaram à arte greco-romana, quando os primeiros investigadores a descobriram. Os próprios Pontífices sentiram a voz do seu sangue dominar e vencer a palavra de Cristo. O casamento que, na Itália, de alguma forma, se deu do Cristianismo adquirido com o Paganismo nato, foi um casamento celebrado a frio, apenas exterior, sem haver tido o verdadeiro amor como causa.
Mas o povo português, criando a Saudade, que é o Desejo e a Dor, que é Vénus e Maria, o Espírito semita e o Corpo ária, viveu a própria Renascença, a qual encontrou portanto, na alma da nossa Raça, a sua expressão vivente e espontânea, a sua força viva que, posa, de novo, em movimento, criará uma nova Civilização. O espírito lusitano abrirá na História uma nova Era.”

É nesta mistura única de cruzamentos e influencias que se encontra precisamente a especial característica da portugalidade: a sua competência para estabelecer pontes entre civilizações e correntes de diálogo entre diferentes religiões e culturas. Ao contrário das crenças norte-européias que dão a mestiçagem como inferior aos paradigmas da pureza racial e cultural, a cultura portuguesa, brotando ela própria do cruzamento de civilizações assume como natural e até benéfica essa mestiçagem.
Quando Teixeira de Pascoaes escreve “O Povo português criou a Saudade, porque é a única síntese perfeita do sangue ariano e do semita”, assume aqui a dúplice matriz que está na origem daquilo a que noutros textos seus identifica como “raça portuguesa”: de um lado a origem indo-europeia que se instalou no ocidente da Península a norte, na Galiza dos gallaeci, na Lusitânia central dos Lusitana e, mais a sul com os celtici que faziam fronteira com os algarvios cónios. Do outro, sobretudo a sul, entre cónios e na costa ocidental, em feitorias fenícias dispersas (Almada, costa algarvia) e depois num afluxo constante, mas sempre ligeiro, durante as presenças cartaginesas, romanas e muçulmanas judeus de várias diásporas oriundos da Palestina ou de outros locais (como o norte de África). Quando Eduardo Lourenço identifica como características fundamentais do povo português o “conservadorismo na ordem dos costumes, autoritária na ordem dos costumes, autoritária no plano da justiça, dogmática na ordem das ideias, intolerante em matéria de crença”. Este conservadorismo e autoritarismo brotam do solo semita da nossa matriz genética mas estes traços não esgotam aquilo que é o português… A estes há que somar o impulso para a descoberta e aventura que os celtas espalharam até ao extremo ocidental ibérico e irlandês e que serviria mais tarde para impulsionar os descobridores até ao Japão e a Ceilão.
E no passo em que Pascoaes fala de “No povo espanhol domina o sangue semita que o tornou ferozmente espiritualista, violento e dramático” encontramos o tipo de visão e presença que ainda hoje é patente em Espanha, não somente na forma apaixonada e absorvente de viver a religião que observamos na devoção popular da “Semana Santa”, encarada com alguma indiferença em Portugal e na própria importação de Espanha da Inquisição e dos seus radicais e cruéis excessos que em Portugal nunca foram tão radicalmente seguidos.

E o poeta amarantino identifica também que “no povo italiano domina o sangue Ária que o tornou exclusivamente pagão”, ou seja, o impulso para o reconhecimento de uma multiplicidade poderes divinos, caprichosos e de curso dificilmente compreensível que explica boa parte da ingovernabilidade italiana e até a juventude de Itália enquanto país, nascida apenas no século XIX quando Portugal tinha já quase novecentos anos de História.

“Sim: a Saudade é a Renascença vivida pela alma de um Povo e não criada pelo artifício das Artes Plásticas, como aconteceu na Itália. A Saudade é espírito lusitano na sua super-vida, no seu aspecto religioso. Ela contêm em si, em vista do exposto, uma nova Religião. Se descende, como demonstramos, de duas religiões (Paganismo e Cristianismo), a Saudade é, sem dúvida, uma nova Religião.”

Se existe cerne na visão política para o futuro de Portugal é este: a arreigada convicção de que é preciso fundar uma nova (re-novada) religião ou – atualizando os termos – uma recuperada visão espiritualista do termo. Esta visão espiritual do mundo, começada a demolir pelo afluxo da influência católica romana e depois, a partir de 1822, com o advento do Constitucionalismo, e posteriormente com o anticlericalismo radical dos Republicanos, terá que ser recuperada se Portugal se quer encontrar a si mesmo e à sua alma perdida.

O processo de recuperação do lodo anímico e depressivo e depressor em que está imerso desde a época do Constitucionalismo só pode ser feito com o tipo e a escala de energias motivacionais e propulsoras de que as religiões são capazes. Assim como foram os Lusíadas que mantiveram viva (pela “Saudade” dos tempos e das glórias que cantavam), também será pela formação de uma verdadeira “igreja lusitana”: tolerante, porque bebendo essa influencia no puro cristianismo, a primeira religião universal anti-étnica e universalista, mas também naturalística e ctónica, na tradição da matriz celta que Dalila Pereira da Costa corretamente reconheceu em “A Nau e o Graal”. Essa religião nova, terá com objeto de adoração a devoção pelo Espirito Santo, como método o Culto do mesmo, ainda hoje bem vivo no Brasil e nos Açores e como vertente intelectual (porque a tem que haver, na sua fundadora) o pensamento sebastianista de Pessoa, Vieira, Agostinho e, claro, do próprio Teixeira de Pascoaes e da Renascença Portuguesa, agora reinterpretada e reatualizada na forma do MIL: Movimento Internacional Lusófono.

“Nós somos, na verdade, o único Povo que pode dizer que na sua língua existe uma palavra intraduzível nos outros idiomas, a qual encerra todo o sentido da sua alma colectiva. A alma lusitana concentrou-se numa só palavra, e nela existe e vive, como na pequena gota de orvalho a imagem do sol imenso. O único povo que sente a Saudade é o povo português, incluindo, talvez o galego, porque a Galiza é um bocado de Portugal sob as patas do leão de Castela. A Galiza é a nossa Alsácia!”

A Saudade é a constatação da temporalidade da existência humana. Não é portanto um exclusivo da portugalidade ou da Lusofonia e existem efetivamente vários termos equivalentes em outras línguas europeias. Mas o termo, em português, tem um significado diferente. Consagra a constante insatisfação do português para com o normal fluir do tempo, expondo a sobrevivência do pensamento mítico bem vivo e atual no seio da cultura e da mundovisão portuguesa atual.

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Teixeira de Pascoaes: Sobre a Saudade – parte 7

“Foi a Saudade, transfigurada em Acção e Vitoria no corpo de Afonso Henriques, que riscou na Ibéria as fronteiras de Portugal. Foi a Saudade o zéfiro do Remoto que enfunou as velas das nossas Naus descobridoras. Foi ela que venceu em Aljubarrota. Foi ela que cantou as estrofes d’os Lusíadas. Foi ela que dobrou o Cabo das Tormentas; e, fitando na noite tempestuosa, o vulto do Adamastor, o converteu num fragoroso promontório. Foi ela que criou, nos seus dias de luto, a misteriosa figura do Encoberto. Foi ela que despedaçou as nossas grilhetas em 1640, e, com um relâmpago dos seus olhos, fulminou o leão castelhano. Foi ainda ela que animou a alma popular no dia 5 de outubro… Essa ultima esperança que não devemos deixar morrer!”

Portugal é um país extraordinário. E não o dizemos em resultado da aplicação acéfala de qualquer nacionalismo bacoco ou anacrónico mas constatando a espantosa e única realidade da nossa própria existência onde as energia centrípetas de Castela e Madrid conseguiram tudo conformar ao seu império. Portugal, foi o único que logrou sobreviver a este Buraco Negro político centrado na meseta ibérica, e essa idiossincrasia nacional não é fácil de explicar. Foi este milagre que levou à presença de uma corrente subterrânea mas constante de providencialismo e messianismo ao longo da nossa Historia, que não pode ser explicado apenas pela presença no nosso sangue de 20% de ascendência judaica ou através da absorção da cultura judaica pela mão dos Cristãos-Novos.

“É absolutamente preciso que a esperança que nos deu o dia 5 de outubro, não morra; e para isso, é absolutamente preciso que a nossa República seja uma República Portuguesa e não uma República afrancesada, como o Constitucionalismo. E porque a monarquia constitucional não soube ser portuguesa, é que ela caiu sem nada legar a Portugal, a não ser os seus vícios e os seus crimes.”

Como apontaram justa e com grande acuidade Miguel Real e António Telmo, a grande disfunção da atual forma de “organização estatal” assumida pela Republica resulta do expurgo quase total do papel que a religião e a espiritualidade podem e devem cumprir nas formas de organização das sociedades. A época histórica em que essa sintonia entre Estado e Religião foi maior corresponde à Idade Média portuguesa, sobretudo sob Dom Dinis, o monarca que construiu o país que os seus sucessores saberiam lançar na gigantesca e incrível gesta universalista dos Descobrimentos, malbarantando depois este capital de desenvolvimento ao deixarem-se seduzir pelo ultracatolicismo e pelos princípios centralistas de Maquiavel, já sob o reinado de Dom Manuel e de Dom João III.

Ora a infusão do republicanismo positivista francês (a perniciosa influência de “Paris”) bastas vezes citada por Pascoaes e a – anterior e antecessora – influência britânica da monarquia constitucional tinham esse ponto em comum: o de encontrarem na influencia da religião católica a razão para a “decadência dos povos peninsulares” que haveria de levar Antero de Quental ao suicídio. Mas quer republicanos, quer liberais confundiam a influencia imperialista da Roma (Igreja Católica) de Pascoaes com a influencia da religião e espiritualidade. Sem duvida que podemos localizar na Inquisição, com a sua perseguição fanática e cega aos banqueiros judeus, na sua perseguição a todos os livres pensadores, cientistas e filósofos mais ou menos heréticos uma boa parte da quota de responsabilidade pelo pouco apreço pela inovação e pela ciência que ainda hoje se regista em Portugal. Mas essa influencia negativa à criatividade (sempre pelo medo da diferença, que poderia chamar a atenção perigosa das autoridades inquisitoriais) radica muito mais na visão extremada do catolicismo pós-Trento do que na de um Cristianismo tolerante e popular que se manteve vivo até hoje nos ritos do Culto do Espírito Santo nos Açores e no Brasil e que mais espiritualista do que estatista ou sistémico animava a alma portuguesa que florescendo na nossa Baixa Idade Media e Renascimento formaria um país que é ainda hoje a nação mais antiga da Europa.

A época em que a espiritualidade da religião popular portuguesa melhor coexistiu com as estruturas e órgãos do Estado foi – já o dissemos – a Idade Media. Nela, os concelhos concentravam localmente o essencial das competências do Estado, formando uma malha administrativa que muito se assemelhava à “federação de municípios livres” de Agostinho da Silva. Em Portugal nunca houve verdadeiro feudalismo, pelo menos não sob os modelos francês ou inglês, já que a nobreza nunca deteve aqui, entre nós, a mesma influencia junto dos monarcas, que sempre a souberam enquadrar e domesticar… Sem o peso dominante desse ramo indoeuropeu das sociedades (Clero-Nobreza-Terceiro Estado), a burguesia municipal pôde, com a aliança e cumplicidade dos monarcas forjar um regime de autonomia e liberdade republicana que poderia servir de modelo ainda hoje, quando a questão da “Regionalização” torna a ficar atual…

A República de 1910 não confiava no mundo rural. Via nele (justamente) simpatias pela monarquia que acabara de derrubar nas grandes cidades e reconhecia aqui uma influencia católica que receava… Por isso, destruiu as virtudes da autonomia municipalista que herdara da monarquia e enveredou por uma viva caminhada anticlerical que cedo descambaria para uma deriva anti-religiosa e anti-espiritualista. Extirpando a alma religiosa da portugalidade, a República daria origem a um nadomorto que os movimentos ultracatólicos haveriam de aproveitar a seu favor, lançando as bases para uma reacção extremada que traria cinquenta anos de obscurantismo salazarista.

“O Constitucionalismo nunca se casou com a Nacionalidade Portuguesa, porque foi sempre estrangeiro. Toda a obra que um povo realizar, fora do seu espírito, não vinga, é estéril e condenada a uma morte próxima.”

É a ligação entre corpo nacional e espirito português que se quebrou na monarquia constitucional e que Teixeira de Pascoaes também não tardou em reconhecer na perniciosa ascendência das ideias republicanas francesas entre os republicanos portugueses. Aquilo que a Republica fez, procurou o filósofo de Amarante reatar, buscando numa re-ligação telúrica e naturalística reencontrar o fio de ariadne da espiritualidade portuguesa. A repelida alma portuguesa seria reencontrada na recuperação do ponto central do pensamento pascoaliano: a Saudade.

Desprovido do edifício religioso fornecido durante séculos pelo catolicismo e expurgado (a bem ou a mal) pelo anticlericalismo republicano, Pascoaes assumia que só repondo uma alma religiosa em Portugal poderia o país sair deste torpor suicidário onde vegetava desde a perda do rei nas areias de Alcácer Quibir e via na Saudade o corpo essencial desta espiritualidade perdida. Esse sentimento teorizado Dom Duarte no “Leal Conselheiro” de insatisfação perante a realidade quotidiana, essa energia anímica que empurrava os oestriminios a comerciar com as ilhas britânicas em busca do cobre procurado no extremo ocidente por fenícios e cartagineses e que potenciada pelos célticos e pelos colonos semitas no sul da Península serviria de matriz fundadora do aventureirismo luso.

Será numa versão atualizada deste sentimento religioso popular, telúrico, naturalístico, assente no espirito positivo e motivador da Saúde que hoje é também necessário fazer alicerçar a saída de Portugal para fora deste torpor com cheiro de morte onde os “senhores louros da Europa do norte” de Agostinho da Silva nos encastraram. Sejamos claros: é necessário reinventar a religião portuguesa se queremos que Portugal saia desta caminhada autodestrutiva: uma religião que cumpra o papel de re-ligar o homem com o meio natural, com os pequenos deusas e ninfas das fontes e dos perros do período pré-romano e celtizante, transportado quase intacto até ao são e tolerante politeísmo romano. Essa intemporalidade característica do tempo mítico – completamente distinto do tempo anti-circular do Positivismo – é a essência que se pode antever na busca eterna pelo “Prestes João”, pelo “Caminho das Índias”, pela “Ilha das Sete Cidades”, pela “Ilha dos Amores, por enfim, todas as quimeras extra-mundo que os portugueses sempre buscaram ao longo da Historia, quer conscientemente, embarcando nas naus e caravelas, quer inconscientemente partindo para as feitorias e colónias de África, Brasil e Índia e, mais tarde, partindo na aventura da emigração.

É como se os portugueses tivessem uma consciência inconsciente da impossibilidade da sua existência como país independente e incapazes de suportar a fragilidade económica a que a pobreza dos seus chãos e minas os votou buscassem na Transcendência um refugio para esta existência terreal. Esta fuga para a Transcendência é o movimento para a Saudade que atravessa todas as formas de expressão culturais em Portugal, a começar pela mais perene e influente matriz cultural da História portuguesa que é o Sebastianismo, ele próprio expressão máxima da incapacidade lusa para viver no mundo concreto e da sua recusa pela aceitação de um facto tão material e concreto como a perda de um rei. Se a nem a morte real consegue penetrar a densa malha do sentimento popular é porque essa malha assenta na estrutura mental herdade dos cónios, turdulos e lusitanos. Essa negação – quase doentia – da realidade é a expressão da Saudade e o facto deste Sebastianismo ter conseguido devolver algo que parecia impossível – dada a força do adversário – significa que a Saudade é uma energia positiva, capaz de feitos impossíveis a sistema de pensamento mais práticos, utilitários e “lógicos”, como aqueles que encontramos nos países do norte da Europa que hoje regem a Europa de forma mais ou menos imperial.

“Mas antes de tudo, é preciso que Portugal seja governado por homens representativos da sua Raça, e não por bacharéis desnacionalizados, tendo apenas no cérebro vagas teorias jurídico-sociais, importadas do Estrangeiro, bebidas à pressa na Universidade de Coimbra, esse terrível foco desnacionalizador, por cruel ironia, situado no meio da mais estranha paisagem quinhentista, onde a Sombra de Camões e a Sombra de Bernardim perpassam à luz do luar…”
(…)
“É preciso que as nossas leis não sejam confusas cópias de leis estrangeiras, mas que sejam feitas dentro do carácter português e da época, formando um todo harmónico e orgânico, com uma alma e um corpo, em vez duma jurídica salada exótica…”

De novo, os problemas da Primeira República estão por resolver e persistem ainda hoje… Ontem, como hoje, se existem ainda graves lacunas na boa governança da “coisa pública” portuguesa, esta deve-se à inexistência de uma elite política digna desse nome. A reduzida clique de “líderes políticos” que se alterna no Poder, quer sob o destrutivo “rotativismo” da Primeira Republica, quer sob o atual regime. É esta a elite que Portugal teve o azar providencial de ter e que é a primeira responsável pelo atávico estado de atraso do país. Não podemos contudo deixar de reconhecer que esta elite não é exógena, nem hoje nem na época de Teixeira de Pascoaes: ela brota diretamente da terra nacional e daquele “Povo” que ora despreza (a sua vertente mais “direitista”) ora idolatra de forma paternalista (na sua vertente mais “esquerdista”). Se esta elite enferma de defeitos de fabricação e ação, tal mais não se deve do que à permissão de transfusão do espirito centralista e castradoramente católico, solar e estritamente “masculino” do catolicismo (a “Roma” pascoaliana) e das correntes reativas do Positivismo norteeuropeu do Liberalismo republicano da Primeira República e da União Europeia da atualidade. Um e outro violam o sentimento português e ao serem adoptados tão convictamente pelas elites culturais e políticas acentuam o divórcio entre Povo e a asfixiada “alma portuguesa” de Paulo Loução e as elites que insistem em governar o país como se este fosse apenas mais um “país europeu”.

Obviamente, Portugal pelas sua tripla matriz atlante, céltica e semito-judaica não é um país europeu “normal”, não se entendermos por normalidade aqueles conceitos que a elite reinante desde Dom Dinis aculturou como seus: os de uma religião centralista, formal e externa, os de uma governança centralizada, utilitarista e areligiosa (se não mesmo ferozmente antireligiosa). Por isso não é difícil de antever um mal disfarçado sentimento de frustração nas elites políticas e culturais por este “abestalhamento” do Povo, que arrastam penosamente atrás de si, procurando afanosamente e insessatemente “civilizar” e “europeizar”. A frustração deprime os políticos sinceros e leva-os a acreditar que Portugal é um pântano ingovernável e leva-os a transpor esse sentimento a toda a sociedade, contribuindo assim para um sentimento depressivo que habita aquilo que resta da alma portuguesa…

“A primeira cousa a fazer, é dar às Crianças, nas escolas, o conhecimento mais completo da alma da sua Raça, para que elas a comunguem e adquiram a perdida energia moral. É preciso que a escola, antes de tudo, crie portugueses autênticos. E assim, a reforma da instrução primaria deveria ser feita nesse sentido.”

Como Agostinho da Silva, Teixeira de Pascoaes aponta aqui aquele que é efetivamente o grande travão do nosso desenvolvimento pessoal e enquanto comunidade: a Educação. O poeta de Amarante não detalha, contudo, de uma forma tão aturda como Agostinho o seu plano educativo. Noutros textos, divide este esforço em três áreas distintas: escolas primárias, escolas profissionais e universidades, estando todos estes escalões sob controlo do movimento da “Renascença Portuguesa”, mas além deste objetivo algo vago de “criar portugueses autênticos” e de uma busca por uma recuperação da alma portuguesa das grilhetas que Paris (Europa) e Roma (Igreja católica) lhe deitaram, não vemos mais detalhe… Ainda que em si mesmo, o imperativo de reencontrar a perdida e oprimida alma portuguesa seja amplamente suficiente, naturalmente… Ainda que Pascoaes nunca se tenha alargado muito sobre esta “educação portuguesa”, noutros pontos exprimiu o seu desejo de que esta contivesse um forte enfoque técnico e cientifico, para além de uma tónica principal sobre a literatura e a capacidade e conhecimentos sobre a língua, a sua escrita e até uma forma revivida de religiosidade, contendo esse híbrido único da “religião popular portuguesa”

“A segunda importantíssima reforma seria a da nossa Igreja. Impõe-se a fundação da Igreja Lusitana.”

Se será pela Educação que se recuperará o essencial da adormecida alma portuguesa, esta recuperação só será duradoura se for acompanhada de uma renovação da participação espiritual que a religião ocupa na vida anímica do povo… É imperativo que este cruzamento único que se registou aqui, neste extremo ocidental da Europa, entre a matriz semita e israelita (que contribui, não o esqueçamos, para 20% do genoma português), a matriz celta (naturalística e ctónica, tão flagrante na religiosidade popular pré-romana) e a matriz cristã (neoplatónica e pelágica, logo pessoalista e direta e não mediada nem centralista como aquela versão de cristianismo que Roma nos impôs). É esta versão tríplice, simultaneamente revolucionaria e tradicionalista da religiosidade e espiritualidade que serviria de alicerça à fundação de uma “Igreja Lusitana”, completamente independente de Roma e da hierarquia católica e fiel para com a religiosidade popular que, assim, poderia reemergir e preencher o esvaziado aspecto espiritualista da forma lusa de viver a vida, e que o Positivismo “utilitarista” e “tecnocrático” da atual União Europeia é apenas a forma de despersonalização mais recente que se exerceu sobre Portugal.

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Teixeira de Pascoaes: “Ao Povo Português, A “Renascença Lusitana” – Parte 6

“A Renascença Lusitana é uma associação de indivíduos cheios de esperança e fé na nossa raça, na sua originalidade profunda, no seu poder criador duma nova civilização. Esta fé e esta esperança não resultam de uma ilusão patriótica, mas do conhecimento verdadeiro da alma lusitana, a qual devido a influências estrangeiras de natureza política, artística, literária e sobretudo religiosa, se tem adulterado nos últimos séculos da nossa História perdendo o seu carácter, a sua fisionomia original e, portanto, as suas forças criadoras e progressivas.”

O termo “raça”, utilizado neste ponto por Pascoaes, é hoje em dia anacrónica e conotada de forma diversa daquela de que se revestia na sua época. Mas se “raça” não vale pelo mesmo valor do princípio do século XX, o conceito básico que liga o termo à “portugalidade”, isto é, ao conceito abstrato de ser e sentir-se como “português”, permanece atual. Sobretudo a sua crença de que havia algo de especial e único em Portugal, uma potência para a geração de uma nova civilização, um protótipo de organização social e política, mais livre, local, justa e humana, do que qualquer outra que tenha já surgido na história humana. Teixeira de Pascoaes acreditava que essa promessa não se tinha cumprido e que Portugal caminhava hoje perdido pelas brumas da História, sem rumo nem tino aparente, devido à contaminação desse espírito livre – herdeiro de Viriato – pelas ideias exógenas do norte da Europa (a “Paris” de Pascoaes) que haveriam de abafar a energia criadora e libertária dos portugueses da fundação da Nacionalidade e do primeiro período dos Descobrimentos.

“O fim da Renascença Lusitana é combater as influências contrárias ao nosso carácter étnico, inimigas da nossa autonomia espiritual e provocar, por todos os meios de que se serve a inteligência humana, o aparecimento de novas forças morais orientadoras e educadoras do povo, que sejam essencialmente lusitanas, para que a alma desta bela Raça ressurja com as qualidades que lhe pertencem por nascimento, as quais, na Idade Média, lhe revelaram os segredos dos mares, de novas constelações e novas terras, e, de futuro, lhe deverão desvendar os mistérios dessa nova vida social mais bela, mais justa e mais perfeita.”

Como a Renascença Lusitana de Pascoaes, também o MIL: Movimento Internacional Lusófono deve bate-se de todas as formas e recorrendo a todos os meios que pareçam oportunos ou adequados a idêntico combate. Como a Renascença, devemos procurar expurgar as negativas e castradoras influências de Bruxelas (a nova “Paris” de Pascoaes) e reencontrar nas energias anímicas do povo a força para superar esta tirania das ideias e dos números mascarada de “processo de integração europeia” com que os senhores do norte da Europa nos querem absorver e tornar em epi-colónia periférica turística… Será pela supressão dessa tirania “suave” porque quase invisível e opressora, porque generalizada que Portugal poderá libertar esse jugo redutor e assumir a sua verdadeira identidade.

“Logo que a alma portuguesa se encontre a si própria, reaverá as antigas energias e realizará a sua civilização.”

Porque o apogeu de Portugal enquanto país sucedeu quanto éramos mais autónomos, do ponto de vista cultural e económico, sob o reinado de Dom Dinis, com a sua perfeita descentralização municipalista (depois destruída pela voraz onda normalizadora dos forais manuelinos), até ao reinado de Dom João III. Aqui se forjaram o essencial das realizações técnicas e cientificas que haveriam de sustentar o primeiro império colonial da História e o mais duradouro de todos eles, terminado apenas pela insana teimosia de um regime anacrónico em perpetuar estruturas administrativas coloniais muito para além daquilo que seria razoável.

“Temos, portanto, em vista: dar ao povo uma educação lusitana e não estrangeira; uma arte e uma literatura, que sejam lusitanas, e uma religião no seu sentido mais elevado e filosófico, que seja também lusitana.”

Sem dúvida que a orientação meramente escolástica e eclesiástica que caracterizou a educação em Portugal nos séculos XVII e XVIII marcou decisivamente a decadência de Portugal nos séculos vindouros, até aos dias de hoje. Enquanto que na Europa se começava a instalar o pensamento científico desenvolvido a partir do método experimental de Roger Bacon e Galileo Galilei, em Portugal o essencial da produção literária versava temas religiosos ou revivalistas quanto aos feitos do passado ou (na melhor das hipóteses) recuperando narrativas de viagens dos séculos XVI e XVII. Por isso, o regressa à “educação lusitana” sugerido neste passo por Pascoaes, não poderia ser o regresso a esta forma de “deseducar”, tanto mais porque o poeta era um republicano e a Republica se firmara em grande medida contra a influencia esmagadora e nefasta da Igreja na sociedade portuguesa.

A “educação lusitana” de Teixeira de Pascoaes era aquela educação eminentemente pratica e experimental que no final da nossa Idade Media haveria de construir o edifício cientifico e técnico que instauraria as bases astronómicas, navais, militares e tecnológicas que dariam a Portugal a superioridade absoluta em todos estes domínios nos  mares do mundo durante quase um século e que assegurariam a sobrevivência do país durante a maior parte da sua existência… É que se nas palavras de Eduardo Lourenço, Portugal foi sempre um país que “tinha um Império”, dependendo deste para a sua mais essencial sobrevivência até muito recentemente, se o manteve foi precisamente devido a essa superioridade cientifica… Anulada pela adopção fanatizada da Reforma ultracatólica de Trento e pelo erro babilónico que foi o de tentar sob todas as formas e alem do historicamente razoável conservar um império anacrónico, esquecendo que se ele justificou a sua sobrevivência, procurar conservá-lo poderia ter ditado o seu próprio fim.

“Com efeito, quem surpreender a alma portuguesa, nas suas manifestações sentimentais mais íntimas e delicadas, vê que existe nela, embora sob uma forma difusa e caótica, a matéria duma nova religião, tomando-se a palavra religião como querendo significar a ansiedade poética das almas para a perfeição moral, para a beleza eterna, para o mistério da vida… Ora a alma portuguesa sente esta ansiedade duma maneira própria e original, o que se nota facilmente analisando os cantos populares, as lendas, a linguagem do povo, a obra de alguns poetas e artistas e sobretudo, a suprema criação sentimental da Raça – a Saudade!”

O significado pascoaliano para a “religião da Saudade” é claro: uma eterna procura pela perfeição moral. E esta perfeição seria atemporal, porque correndo no cíclico e eterno tempo mítico de Mircea Eliade e das civilizações pagas (pré-romanas) que o poeta buscava na sua visão naturalista dos penhos e dos cerros, no seu exílio voluntário de Amarante. Esta religião da Saudade – cujas manifestações subterrâneas Teixeira de Pascoaes reconhecia na cultura popular portuguesa teria que ser o eixo da necessária recuperação de Portugal do limbo onde a Republica a deixara. Mesmo Zola reconhecera que a jovem republica portuguesa fizera em dez anos  que levara aos republicanos franceses a cumprir. Nessa pressa de realizar as reformas que a Geração de 70 antevira (justamente) como necessárias e ainda no longo rescaldo da humilhação nacional que fora o Ultimato britânico, a Republica procurara reformar, “europeizar” o país. Frequentemente mais areligiosos do que ateus ou anticlericais os primeiros republicanos, tentaram corroer os alicerces da sociedade portuguesa da época, atacando as estruturas religiosas. No processo, antagonizaram as populações rurais (profundamente católicas e tradicionalistas) criando uma clivagem que o regime do Estado Novo saberia utilizar em proveito próprio.

Desprovido de qualquer esteio profundo, como aquele que a religião oferece, a Republica cavara a prazo o seu fúnebre destino. Incapaz de republicanizar o mundo rural, aliena-o e culpa-o do atraso atávico do país. Encontra nos boçais a responsabilidade pelo atraso cientifico, tecnológico e cultural que a bruta comparação com as grandes capitais europeias torna evidente. Desprezando a maioria do território nacional, cria as bases para o presente ermamento e subdesenvolvimento do interior, considerado a partir de então como a canga metálica que urge decantar para tornar o país capaz de ombrear com os “grandes” do norte da Europa. Forçando e tentando acelerar esse processo centraliza e suprime as liberdades e autonomias municipais que desde Dom Manuel não haviam parado de diminuir, mas que na monarquia ainda eram muito significativas.

Retirando a religião católica do centro da cultura português, a Republica cravara um espeto mortal no corpo de Portugal, extraindo a sua alma e não tentando substituí-la por mais nenhuma outra, porque o Positivismo e a Maçonaria não poderiam jamais ter a adesão popular que o seu padrão de sofisticado intelectual exigia.

“Sim, na alma lusitana há a névoa duma nova religião; e por isso, o catolicismo, importado de Roma, jamais se tornou português, como se tornou espanhol, por exemplo. Todavia, em virtude da insistência com que tem sido cultivado em Portugal, concorreu para desnaturar o nosso carácter; é necessário, portanto, combatê-lo, como a todos os inimigos invasores, ou sejam de casta pedagógica, artística, literária, religiosa ou filosófica.”

Pascoaes encontra na importação, nunca devidamente aclimatada para as especificidades da alma portuguesa, uma das raízes para aquilo a que Antero de Quental designava de “a decadência de Portugal”. Este catolicismo romano, tomara o lugar da religiosidade popular, oprimira-a e forçara-a a mergulhar em subterrâneos de onde nunca mais tornará a sair. E é nesta desnaturação do espirito religioso produzida em Portugal pela repressão da religiosidade popular e pela imposição imperial de um modelo religioso exógeno que se produzira o drama de um povo a quem removeram a alma sem instalar nesse lugar que se produzira esta longa, acentuada e falsamente aparente decadência de Portugal que urgia tanto na nossa como na sua época, ultrapassar reencontrando os valores perdidos e olvidados da portugalidade, contra a civilização importada de Paris (Europa) e a religião importada de Roma (o Catolicismo).

“Esta luta, assim como a obra reconstrutiva da Renascença Lusitana será feita, além doutros meios, por meio de conferências, livros e duma revista de literatura, filosofia ciência, crítica social, etc, que se intitulará A Águia e será o órgão da sociedade.”

Obra que hoje é assumida pela moderna encarnação da Águia que tem a designação de Nova Águia… A Renascença Portuguesa reencarnou – já o dissemos – no Movimento Internacional Lusófono. As conferencia já o MIL as organiza tendo tido a primeira como tema “O Futuro da CPLP”, os livros têm sido regularmente publicados pela Zéfiro na colecção “Nova Águia”. O papel e a missão da Renascença de Teixeira de Pascoaes continua assim, bem vivo e perene… Assim como Portugal e as problemáticas que deram origem a estes dois movimentos, infelizmente.

“Diremos, de passagem que consideramos como os grandes factores do nosso renascimento, a Higiene e a Arte.
Por aquela atingiremos a harmonia física e, por esta a harmonia espiritual.
A Ginástica encerra tanta virtude como a Arte Poética.”

O poeta amarantino esclarece aqui, neste parágrafo, os dois pontos que considera essenciais para o desenvolvimento de Portugal: um foco nas vertentes educativas e governativas da Saúde e da Arte. Pela primeira, se produzirá um povo saudável, capaz de focar a sua atenção e energia nos problemas intelectuais e materiais do Desenvolvimento e a plenitude do génio criativo que caracteriza o português, soterrado por séculos de Inquisições e Santos Ofícios, pelo poder opressivo de um estado paternalista que não aprecia as liberdades dos seus cidadãos.

“A guerra ao álcool, ao tabaco, à alimentação carnívora, por exemplo, é uma guerra santa e confunde-se com a glorificação da Beleza moral, com a apoteose dos sentimentos e das ideias mais puras e transcendentes.”

A Teixeira de Pascoaes repugna o álcool porque este reduz a capacidade criativa e a inteligência do indivíduo que se deixa vencer pela tentação da sedução dos vapores alcoólicos, e o tabaco é outro prazer imediatista que, a prazo, produz a morte e o sofrimento… Se esse vício persiste, persiste apenas pelos rendimentos imorais que dá a ganhar a tantos “empresários da dor e da doença. Quanto à “alimentação carnívora”, esse é um tema particularmente atual… Em termos económicos a eficiência económica de alimentar animais a pastagens representa um enorme desperdício se compararmos as calorias ingeridas por esses animais e a obtidas por nós quando ingerimos a sua carne. Em termos éticos, a operação também não é adequada, já que os animais de criação intensiva passam vidas em condições atrozes, em espaços exíguos, sendo separados muito jovens das suas mães e sendo mortos e transportados em condições que não procuram minimizar o seu sofrimento. O Humanismo (que não se pode apenas aplicar aos sujeitos humanos) não pode coexistir com este tratamento dos animais, por isso alem de nos ser simpática esta defesa do vegetarianismo de Pascoaes, também a assumimos como nossa (pelo menos tendencialmente) na nossa visão pessoal do futuro de Portugal.

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Teixeira de Pascoaes: “O Espírito Lusitano ou o Saudosismo” – Parte 5

“As nações pequenas só podem opor às tendências absorventes das grandes nações, como defesa da sua independência, o caracter, a originalidade do seu espirito ativo e criador, a autonomia moral.
Ora, a nossa Pátria possui felizmente essas qualidades que se ergueram, outrora, quais sentinelas invencíveis, ao longo das nossas fronteiras, e se espalharam depois através dos vastos mares e das longes terras. O que é preciso, antes de tudo, o que é urgentíssimo, é ressuscitá-las, para que readquiram a perdida atividade.”

Explicando-se assim porque é que Portugal conseguiu realizar esse milagre – único à escala peninsular – da independência contra uma vontade centralizadora de Espanha e antes dela, de Castela. O espirito criador, que deu a Portugal os instrumentos para na Idade Media estar ao mesmo nível das demais sociedades europeias e para alavancar a revolução tecnológica, astronómica e naval que teria a sua máxima expressão na espantosa gesta dos Descobrimentos e da Expansão portuguesa. É esta devoção pela liberdade municipal, pela criatividade e pela invenção, pela ciência, enfim, que importa reencontrar, de forma a ressuscitar (nas palavras de Pascoaes) e sair deste limbo torpe e pantanoso em que erramos desde 1580.

“A decadência que sucedeu ao período épico ou camoniano (anterior a Camões) apagou, por assim dizer, o espírito português, preparou a invasão do estrangeirismo desnacionalizador que revestiu vários aspectos, religioso (Inquisição no tempo de Dom João III e o Jesuitismo); literário e político (Constitucionalismo e livros franceses).”

A derrota das hostes portuguesas em Alcácer Quibir, a decapitação das forças vivas da nação e a exaustão financeira decorrentes da derrota de uma campanha insana, mal conduzida e logo aproveitada pela sempre atenta Espanha para deitar as suas garras anexadoras. O espírito religioso português perdeu as réstias de liberdade que lhe restavam ainda dos excessos manuelinos e das vagas intenções de instalar Paris na Praça do Rossio. Para que Portugal possa retomar o rumo perdido e sacudir o jugo anexador que nos têm tentado lançar por várias vezes. Esse regresso, essa verdadeira “Renascença” só pode ser realizada através de uma aposta intensa, continuada e prioritária na Educação e nela, na sua componente mais ligada à investigação, cientifica e à produção cultural. Será pela via de uma aposta na Educação, de teor verdadeiramente exigente e com uma constante preocupação sobre a criatividade em desfavor da mera memorização estéril que Portugal pode reencontrar o seu verdadeiro espírito e mostrar à Europa aquilo que ela pode ainda vir a ser, formando com o Brasil o protótipo de uma União Lusófona não unida pelo dinheiro e pela contabilidade, como a Europa dos “senhores do norte”, mas uma nova forma de organizar as gentes e as economias, mais justa e humana.

“O alto clero sempre foi fiel a Roma, os altos políticos sempre fiéis a Paris, têm sido os obreiros da nossa desnacionalização, os inimigos do nosso espírito e, por isso, da nossa independência.”

Atual… O pensamento do génio do Marão (como lhe chama Paulo Borges) reconhece com acutilância os dois pólos por onde se tem exercido o duplo movimento desportugalizador dos últimos quinhentos anos. A Igreja Católica não se tem poupado a esforços para, primeiro, destruir os vestígios de religiosidade pré-romana, ctónica e matriarcal popular e ainda que esse esforço tenha diminuído em eras mais recentes, a ascensão ao patriarcado de alguém como Ratzinguer demonstra que os antigos fantasmas que levaram à Inquisição e ao Índex de livros proibidos, são tique totalitários que ainda não desapareceram completamente…

“E há mesmo pseudo-cépticos que não crêem na existência duma alma portuguesa original; mas esses homens são cépticos e os cépticos são feitos de carne morte.”

No sentido em que não sendo capazes de escutar o apelo libertário e criador que emana das suas próprias almas lusófonas, estes cépticos são incapazes de serem fiéis às suas próprias pulsões e tendências anímicas. No seu vã afã de procurarem imitar ou emular os povos do norte da Europa, de se “estrangeirarem”, renegando a especificidade da sua alma portuguesa, acabam por se desalmar, anular a sua identidade pessoal e recusando a própria viabilidade de Portugal como Nação independente e absolutamente diversa de todas as outras no mundo, excepção feita apenas para o Brasil e, em certos aspectos para Israel. Com efeito, os portugueses nunca serão bons “alemães” ou “ingleses”. Se pretendem que os emulemos, então terão sempre em nós pálidas e ineptas cópias destes neo-germânicos. Pelo contrário, os portugueses sempre se excederam quando se assumiram verdadeiramente como “portugueses” e rejeitaram a integração em nações mais fortes e extensas, como a Espanha dos Habsburgos, a França de Napoleão ou a Grã-Bretanha de Beresford. Todos os que nos quiseram lançar o seu jugo, acabaram por o ver deitado no chão, por muitos cépticos que conseguissem alinhar, quer pagando-les soldada, quer seduzidos pelo brilho das “Luzes” do centro da Europa.

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Teixeira de Pascoaes: comentário a “Renascença” – Parte 4

Teixeira de Pascoaes em http://www.elpais.com

Teixeira de Pascoaes em http://www.elpais.com

“Criar um novo Portugal, ou melhor ressuscitar a Pátria portuguesa, arrancá-la do túmulo onde a sepultaram alguns séculos de escuridade física e moral, em que os corpos definham e as almas amorteceram.”

Como almejava a Renascença Portuguesa, também o Movimento Internacional Lusófono deve chamar a si a missão histórica de recuperar a Pátria portuguesa, fazendo-a reencontrar a sua Alma perdida por um processo de “assimilação norte-europeia” que descaracterizou a forma portuguesa de estar no mundo: fraterna, cooperativa, comunitária e profundamente religiosa nesta religião de anti-sépticos tão ao estilo germânico dos “senhores altos e loiros” que nos regem e querem imperar a partir da sua altaneira capital imperial de Bruxelas. Depois de obscurantismo provincial salazarismo, mais a sua visão temerosa do mundo e do Homem, depois da uma deriva desorientada mas bem intencionada dos “anos loucos” pós-revolução de Abril e após os anos do Cavaquismo em que Portugal foi o dócil “bom aluno” europeu enquanto asfaltava o seu território para facilitar a entrada das importações europeias e espanholas enquanto arrancavam a sua vinha, despovoava os seus campos e abatia a sua frota pesqueira. Foi este país “de Serviços” com um peso doentiamente elevado do sector financeiro e do turismo contra todos os demais sectores produtivos que nos chegou até hoje.

“Por isso, a Sociedade a que me referi, se intitula “Renascença Portuguesa”. Mas não imagine o leitor que a palavra Renascença significa simples regresso ao passado. Não! Renascer é regressar às fontes originárias da vida, mas para criar uma nova vida.”

Esta confusão, cujo esclarecimento mereceu neste ponto o devido esclarecimento do filósofo não ocorre na designação do MIL. Movimento, aqui, significa e encontra raiz no termo latino “motu” comum à palavra “motivar”. E o Movimento assumiu como missão levar Portugal de encontro à sua missão histórica de reencontrar a Alma-Nação que é Portugal consigo mesmo. Como a Renascença, o MIL, procurará, sob varias formas reencontrar Portugal consigo mesmo, recentrando-o sobre aquilo que tem de diverso da massa amorfa e asfixiadoramente uniformizante da Europa do norte. Portugal tem que saber aquilo que é para poder verdadeiramente desenvolver-se e vencer este longo e duradouro sentimento de inferioridade que sentimos desde que o Marquês de Pombal declarou o atraso da nossa sociedade era atávico e permanente e que somente um Estado “sábio” e paternalista poderia gerir. Esta visão paternalista e superior da Sociedade haveria de sobreviver ao Marquês e ao recuo às suas políticas sob Dona Maria e de perpetuar-se no Estado Novo perpassando ainda hoje nalgumas atitudes arrogantes e sobranceiras de boa parte da “intelectualidade” contemporânea.

“A Pátria Portuguesa viveu; atravessou depois alguns séculos de morte; por fim, numa alvorada heróica que fez erguer do sepulcro a sombra de Nuno Álvares, acordou do seu profundo sono, levantou-se num ímpeto sôfrego de vida; e, sob a instantânea luz que a deslumbrou, ei-la ofuscada e cega, tacteando, sem ver o caminho verdadeiro e a terra firme para os seus pés.”

Os “séculos de morte” a que Pascoaes se refere neste passo são aqueles que se seguiram à aventura desastrada de Dom Sebastião em África e a consequente perda da Independência, sob o Império espanhol. Este afastamento do curso autónomo da portugalidade foi reposto pelos insurrectos de 1640 e pela dura guerra de independência que se lhe seguiu. E propulsaria – pela singularidade e dificuldade de uma guerra contra aquela que era à época a maior potência do mundo – a sobrevivência de Portugal até aos dias de hoje. Na época do poeta de Amarante, a Republica recentemente implantada, ameaçava derivar e ofuscada pelas luzes que lhe chegavam de Paris, perder o rumo, repelir o mundo rural com que o poeta mais se identificava e renegando a própria Alma Portuguesa destruir a trama ética e substantiva que servia de base estrutural a Portugal.

“Se não existisse uma alma portuguesa, teríamos de evoluir conforme as almas estranhas, teríamos de nos fundir nessa massa amorfa da Europa; mas a alma portuguesa existe, vem desde a origem da Nacionalidade; de mais longe ainda, da confusão de povos heterogéneos que, em tempos remotos, disputaram a posse da Ibéria.”

E não nos fundiremos jamais, porque não somos verdadeiramente “europeus”, mas portugueses no mais pleno sentido do termo que nos coloca fora de qualquer continente ou território estrita e geograficamente delimitado. A fusão de Portugal na Europa só poderá acontecer se nos anularmos enquanto nacionalidade e individualidade como pretendem os “senhores de Bruxelas” e os seus “mercenários de Armani” que sob seu mandato nos regem. Amorfidade, é a da sanha normalizadora de Berlim, sob o seu entreposto bruxeliano, e contra ela resiste e resistirá sempre um espírito arreigadamente livre de origem Lusitânia e viriática.

“A Saudade é o próprio sangue espiritual da Raça; o seu estigma divino, o seu perfil eterno. Claro que é a Saudade no seu sentido profundo, verdadeiro, essencial, isto é, o sentimento-ideia, a emoção reflectida, onde tudo o que existe, corpo e alma, dor e alegria, amor e desejo, terra e céu, atinge a sua unidade divina.”

Teixeira de Pascoaes encontra na Saudade o sentimento nacional que explica o milagre da sobrevivência de Portugal numa Península onde a voraz centralização de Castela tudo aglutinou. Somente pela presença de uma tão singular expressão de um sentimento nacional tão poderoso como a Saudade se pode explicar esse milagre. A Saudade pascoaliana é esse sentimento de ausência de um futuro eternamente incumprido. A sensação difusa experimentada por todos os portugueses e perpassada destes pelo mundo lusófono de que algo se perdeu, em dado momento no passado, algo que pode ser reencontrado através da transição do país incorpóreo que é “Portugal” e que só por coincidência histórica se confunde com esta realização material incompleta e imperfeita que é o “Portugal Europeu”. A Saudade é o desejo pelo cumprimento do desejo universalista e sem fronteiras que habita na alma portuguesa desde os tempos em que os cónios comerciavam com fenícios e os turdulos trocavam o seu cobre nas britânicas cassitérites. Esta sensação de ausência do tempo perdido não é depressora, não é negativa porque impele a que o sujeito saia de si, se ultrapasse e desafie o reino das possibilidades, alavancando aventuras irrazoáveis e que nunca passariam por germânicas cabeças a não que outros, percursores, mediterrâneos, ibéricos e de matriz lusitana, lhes mostrassem esse caminho.

“E por tudo isto, Portugal não morrerá; nem uma Pátria morre, no instante em que encontra o seu espírito. Portugal não morrerá, e criará a sua nova Civilização, porque vê que a sua alma é inconfundível, que encerra em si um novo sentido da Vida, um novo Canto, um novo Verbo e, portanto, uma nova Ação.”

Esta é a verdadeira questão. Somente pela anulação da alma portuguesa – missão primeira de uma Europa que nos quer “normalizar” – pode Portugal morrer. Assumida apenas a forma, encerrada em fronteiras terrestres escassamente distribuídas numa Península dominada pelo império de Madrid e onde as aspirações autonómicas das periferias são culturalmente subjugadas aos interesses centralizadores da Meseta castelhana, Portugal terá que resistir, enfrentando essa velha pulsão centralizadora de Madrid e os mais jovens impulsos federalistas de Bruxelas que nos quer tornar numa mera “região” europeia, docilizada, domesticada e eternamente submissa aos interesses dos norte germânico. Se lograr cumprir as profecias de Bandarra, Vieira e Pessoa, Portugal será o primeiro esteio, complementado a sudeste pelo segundo esteio salomónico da Lusofonia que é o Brasil, de uma nova civilização, mais humana, menos materialista e cumpridora da promessa universalista e fraterna que os Descobrimentos deixaram antever e que apenas os impulsos mercantis do “capitalismo real” de Dom Manuel e Dom João III deitaram a perder.

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Teixeira de Pascoaes: Portugal e a Europa (parte 3)

Teixeira de Pascoaes, A Saudade e o Saudosismo, Assírio & Alvim

Justiça Social: os Lavradores Caseiros
“Os lavradores são a parte mais esquecida do nosso Povo, porque vivem longe do mundo onde se luta e pensa, em perfeita noite medieval, povoada de bruxas e fantasmas e de todas as superstições católicas que os padres, estreitos e broncos, lhe injectam na alma, como se injecta um veneno – nessa alma que, a nu e a limpo, é aquela Alma excepcional, instintivamente naturalista e mística, que criou a Saudade, promessa duma nova Civilização Lusitana.”

Teixeira de Pascoes elege o catolicismo e nos seus efeitos na sociedade portuguesa ao longo dos tempos como o maior singular responsável pela situação de atraso atávico de Portugal. Não que Portugal fosse necessariamente um país “fidelíssimo” a Roma, pois se assim fosse não teria tido tantos dos seus reis excomungados por Roma… Mas existe efetivamente algo na sua própria génese que propicia a um certo tipo muito pernicioso de fanatismo religioso.

“Defendam-se as classes populares que o sangue alma do País; o resto é uma mixórdia europeia sem carácter, sem pátria, um pouco parisiense e romana, um elemento apenas de dissolução e morte.”

As “classes populares” são em Pascoaes a mais pura e plena expressão do espírito de Portugal. É nas gentes do interior rural e do nascente operariado urbano que o poeta encontra vivo o espírito aventureiro, ctónico e naturalista, com uma visão da religiosidade muito pessoal e algo herética, com laivos priscilianistas e de cultos naturalísticos e à deusa-mãe que sempre provocaram urticária em Roma e que levaram a reacções mais ou menos violentas da hierarquia católica que haveriam de produzir os numerosos excessos da Inquisição e dos “domini cani” que a História registou. Oposta a esta verdadeira portugalidade, com quem se identifica, Teixeira de Pascoaes coloca as camadas urbanas, descaracterizadas e rejeitando a sua própria alma, por influência da cultura norte-europeia que embriagadas num processo de “modernização forçada”, ontem como hoje, se afastam do espírito livre e independente que esteve na génese da nacionalidade e que ao rejeitarem, acabam por pôr em risco.

“Como o Portugal de D. João I, o de 1640, o de 1810, o Portugal republicano só pode e deve contar com o Povo. E o Povo rural e agrícola, a quem a terra oferece a sua mão de Noiva fecunda, depois de educado e libertado, será a base indestrutível duma Democracia rústica e campestre, que há de dar a sua flor original e eterna, sob a invocação de Pã e de Jesus.”

Ainda que seja governado por elites que desde a queda da monarquia se identifiquem mais com o exterior do que com os valores da cultura portuguesa, a verdade é que nos momentos realmente críticos, quando Castela ameaça anexar o país, quando a presença filipina se torna tirânica, quando os franceses delapidam o património físico e cultural ou quando o regime pós-salazarento arrasta o país e as colónias para uma guerra anacrónica e eternizante quem se levanta e quebra o putrefacto estado de coisas é o povo. Não são as elites políticas, compostas por pouco mais de 400 famílias, que se alternam no poder, geração após geração que sacodem o jugo estrangeiro. Não são também as elites culturais, provincianas, no sentido em que se limitam a importar e a adaptar modelos estrangeiros, incultas, no sentido em tentam produzir “cultura” desprezando e considerando como pequeno e estúpido o próprio Povo de cuja matriz provêm e cuja Cultura popular deviam respeitar. Estas elites culturais que voam como luminárias em torno das raras migalhas que o Poder lhes vai deitando, gabando-se por “nunca terem trabalhado” na vida, sempre distantes de todos os temas e problemas quotidianos e desprezando qualquer intervenção “não cultural” e política na Vida são alias, mais do que uma classe política incompetente e corrupta responsáveis pelo pantanoso atual estado de coisas.

Ontem, na primeira República de Pascoaes, e hoje, na terceira, será do povo, do seu levantamento certo e seguro, que nascerá a próxima “República Monárquica” portuguesa. Nela, o Povo encontrará novamente o direito de representatividade numa nova camada de lideres, distinta da decadente e egótica intelectualidade atual ou dos grupos de famílias políticas e identificada num rei electivo e popular, bem ao estilo das monarquias electivas suévicas e visigóticas de Agostinho da Silva. Esta nova elite, em comunhão plena com o povo urbano e rural, devotará à sua Educação o papel prioritário que ela deve ter, porque não há verdadeira democracia sem educação e decisão informada por parte dos eleitores, hoje tão enganados por truques eleitorais e por “actores políticos” telegénicos e de discurso previsível e ensaiado por gabinetes de “marketing político”. Esta nova democracia, pilar de uma quarta república será de caracter “rústico e campestre”, porque assente numa descentralização municipalista que devolverá ao interior e ao local, aquilo que foi literalizado e centralizado desde Dom João III, sempre buscando esse cimento fundamental das civilizações que é o espírito religioso hoje negado pelos “tecnocratas” de Bruxelas, e conciliando “Pã” (as raízes pré-romanas e naturalísticas da religião popular portuguesa) e Jesus (os traços filosóficos, redentores e igualitários do primeiro cristianismo).

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Teixeira de Pascoaes: Portugal e a Europa (parte 2)

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(Teixeira de Pascoaes in http://img.photobucket.com)

Ao Povo Português: A Renascença Portuguesa

“A Renascença Portuguesa é uma associação de indivíduos cheios de esperança e fé na nossa Raça, na sua originalidade profunda, no seu poder criador duma nova civilização. Esta fé e esta esperança não resultam duma ilusão patriótica, mas do conhecimento verdadeiro da alma lusitana, a qual, devido a influencias estrangeiras de natureza política, artística, literária e sobretudo religiosa, se tem adulterado nos últimos séculos da nossa Historia perdendo o seu carácter, a sua fisionomia original e, portanto, as suas forças criadoras e progressivas.”

Assim como a Renascença Portuguesa tinha como órgão a revista “Águia”, também o MIL: Movimento Internacional Lusófono tem hoje na revista semestral “Nova Águia” o seu órgão… A terminologia “Raça”, empregue por Pascoaes não é atual, mas o sentido do termo permanece e a esperança na renovação de Portugal continua atual. Na grave situação económica e social que se vive hoje no mundo, e em particular, em Portugal há uma necessidade premente de reencontrar o destino nacional, de reformar em larga escala a estrutura e até o objetivo do Estado. Este reencontro de Portugal consigo mesmo não pode ser feito pela sua descaracterização e pela supressão do seu caracter identitário e pela adopção dos modelos norte-europeus de sociedade e de Cultura. A adopção de um projeto verdadeiramente nacional e polarizador é pois, urgente para assegurar a própria sobrevivência de Portugal nesta Europa cada vez mais federalista e anexadora e do país numa Globalização cujos efeitos

Assim, quando o filósofo declama contra as forças estrangeiras que procuram “normalizar” Portugal segundo os padrões europeus, toca o busílis da decadência do país: é a anulação da sua identidade que está na direta origem de uma decadência que começou com o único momento da sua Historia em que perdeu a sua independência (a dinastia filipina) e que se acentuou sempre que procurou “ser mais europeu, que os europeus”, rejeitando a sua própria alma ibérica e portuguesa em favor de um “espírito europeu” desprovido de sentimentos ou de alma que oferece ao Homem a crua e fria realidade dos números e das padronizações e normalizações ad absurdum tão do agrado do espirito germânico, mas tão avessas à tradição individualista e libertaria da Península.

De entre todas estas influencias exógenas e negativas, aquelas a que Teixeira de Pascoaes dá mais relevância não são aquelas que no moderno espírito positivista e materialista atual poderíamos escolher: não são nem as influencias sociais, nem as políticas, nem as económicas… São as influencias religiosas que mais contribuíram para a perda do caracter português e para a adulteração da nossa especifica forma de encarar e de participar nas coisas do mundo. Esta perda da perspectiva portuguesa de ver a realidade que esteve tão viva em Quinhentos seria a explicação para a evaporação das forças criadoras em Portugal que já era tão visível no começo do século XX e que hoje é gritantemente patente, tamanha é a ausência de um projeto nacional verdadeiramente polarizador e potenciador das energias de Portugal e dos portugueses. Projeto este que julgamos reconhecer no MIL, verdadeira “Renascença Portuguesa” dos tempos contemporâneos e nos seus Princípios e Objetivos, desde a defesa de uma Descentralização municipalista, passando pela defesa das Economias Locais contra os pavores da Globalização e pela proposta de uma “União Lusófona” que multiplique os efeitos benéficos da CPLP e a torne numa alternativa mundial às formas atuais de organização do Estado e das relações internacionais fundadas na força e no poder económico.

“O fim da Renascença Lusitana é combater as influências contrárias ao nosso carácter étnico, inimigas da nossa autonomia espiritual e provocar, por todos os meios de que se serve a inteligência humana, o aparecimento de novas forças morais orientadoras e educadoras do povo, que sejam essencialmente lusitanas, para que a alma desta bela Raça ressurja com as qualidades que lhe pertencem por nascimento, as quais, na Idade Média, lhe revelaram os segredos dos governos dos municípios”

A Educação do Povo assume assim um papel determinante no ressurgimento dessa adormecida alma nacional. Um movimento tão amplo, não pode portanto assentar de forma duradoura e resistente nas elites intelectuais ou económicas da Nação. Não só porque estas – na sua esmagadora maioria – estão arregimentadas pelos interesses de Paris ou de Roma, mas porque este movimento de reencontro consigo mesmo deve partir das bases e de um sentimento popular e este está entorpecido pelos resquícios da Educação castradora e bloqueadora do salazarismo e pela continuada descaracterizadora e hesitante educação do pós-vinte e cinco de abril. Entre os dois modelos – um minimalista e o outro laxista, importa ressuscitar a alma e os valores do Portugal das liberdades municipais que ergueu o essencial das energias criadoras que encontrariam a força para gerar esse movimento mundial chamado Descobrimentos. Nesse indispensável – para a sua sobrevivência – redescobrimento de Portugal em si mesmo, a Educação é pedra basilar, já que somente pela revolução interior de cada um de nós se poderá cumprir o Quinto Império, ou fim (pela concretização da “coisa perdida”) de Portugal e o seu reencontro com aquilo que a nova “Renascença Portuguesa”: o MIL haverá de cumprir no seu devido tempo.

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Teixeira de Pascoaes: Portugal e a Europa (parte 1)

Unamuno e Portugal:
“Disse que Miguel de Unamuno sentiu muito bem a nossa paisagem e a nossa alma, apesar do seu temperamento ser diferente do português. O espanhol é um mármore criado; o português é uma névoa criadora; o espanhol é um ser já definido, e, dentro das suas formas acabadas, terá de evolucionar e progredir; o português é um ser indefinido ainda, ou antes, um ser que tem vivido fora da sua forma própria, fora do seu corpo; e o seu progresso dever-se-á fazer no sentido de encontrar o corpo que por natureza da sua alma, lhe compete.”

Aquilo que separa portugueses de espanhóis, e sobretudo no seio destes, dos castelhanos, é muito maior do que seria de esperar em dois povos fisicamente tão próximos. É certo que esta distância mental foi favorecida pela própria existência de Portugal, já que o país atlântico teve que afirmar a sua própria existência contra os poderosos ímpetos de Castela e navegando contra a grande vaga anexadora que Madrid lançaria sobre toda a Península e que acabaria por engolfar até a dinâmica soberania aragonesa. Portugal logrou afirmar a sua independência, contra e apesar de Espanha, por isso teria que construir uma alma nacional intrinsecamente distinta desta.

A indefinição da alma portuguesa a que alude Pascoaes neste parágrafo é crucial no entendimento daquilo. Diz o poeta e filósofo que Portugal vive (não vivendo) como uma alma sem corpo. Por isso, descontornada e desprovida de forma. Espanha soube procurar e encontrar logo desde cedo aquele que seria o seu objetivo e desígnio nacional supremo: estender-se por toda a Ibéria, estancando apenas nas fronteiras portuguesas. A extensão da Espanha pela Ibéria ocorreu impulsionada pela energia da vontade de Castela, mas também seguindo naturalmente a própria continuidade geográfica entre Espanha e Portugal, já que a separação entre os dois países ibéricos é geograficamente frágil e como refere António Borges Coelho: “Só pela vontade dos homens a fronteira construída divide e os rios, que servem para unir, ficam estéreis a separar”.

“Há uma diferenciação de natureza qualitativa, entre o espanhol e o português; e é por isso mesmo, decerto, que Portugal tanto interessa a Miguel Unamuno -, mais ainda que Portugal, a sua tristeza. É a tristeza lusitana que o seduz, que tem para ele um encanto misterioso.”

Se era assim no tempo de Unamuno, não o será menos nos dias de hoje. Qualquer visitante de terras espanholas, urbanas ou rurais, poderá constatar aqui que existe uma alegria, uma forma contente de viver e gozar a vida, que não é fácil encontrar em Portugal. O espanhol sente-se completo e realizado (apesar de terem níveis de desemprego sempre mais altos que Portugal) e embora seja muito mais diverso, culturalmente e linguísticamente, o espanhol manifesta uma alegria incontida que contrasta com o sisudismo do ultracatolicismo de alguns dos períodos da História de Espanha. O português, em contraste – e em contraste maior pela proximidade geográfica – com o espanhol, caracteriza-se pela melancolia e pela tristeza. E esta melancolia resulta de um sentimento interiorizado e generalizado e que brota da própria alma portuguesa e que resulta da noção de incompletitude. O português sabe-se incompleto e isso entristece-o… Se o Espanhol se sabe finito, o português sente- incompleto e perturba-o a infinidade do Atlântico que o limita pelas bandas do Ocidente. O sentimento da vertigem oceânica empurra o português para a poesia e para a aventura dos Descobrimentos, da Expansão e das migrações, mas quando as circunstâncias pessoais ou económicas o mantêm contra-vontade no solo desta finisterra europeia chamada “Portugal”, o português deixa-se vencer pela melancolia e entristece… O vigor do Sol e o clima generoso contrariam esta tendência nacional para a depressão e impede que esta alcance os níveis autogenocidas da Escandinávia, mas bastam para que todos os estrangeiros que nos visitam, de Byron e Unamuno, reconheçam em nós essa evidente Tristeza…

“A literatura de Portugal, quase sempre influenciada por livros e ideias vindas de França, quase sempre como as nossas classes superiores, e a alma do Povo adulterada pelo catolicismo romano, não permitiriam que o grande escritor espanhol visse o fundo virgem e inédito da alma lusitana, e portanto, da sua tristeza.”

Pascoaes identifica aqui os dois veios principais desse Estrangeirismo que Agostinho da Silva reconheceria depois como sendo o principal factor da decadência de Portugal: a introdução de influencias estranhas, exógenas e diminuidoras no seio da alma de Portugal. O poder destas influencias foi tremendo, porque de um lado influenciou o pensamento, as atitudes e a acção das elites da nação, arrendando a sua fidelidade em troca de pequenos favores e escassas adulações. Arregimentadas as elites, o predomínio norte-europeu poderia impôr-se pacificamente. Manietada a cabeça, o corpo por ela comandado não poderia revoltar-se contra a influencia cultural e política de França (na época de Teixeira de Pascoaes) e hoje, contra a “locomotiva Europeia” que na sua voracidade aglutinadora e normalizadora tudo leva à sua frente, não se comprazendo com idiossincrasias locais, regionais e culturais. Ontem, França, hoje a Europa, tudo farão para tornar Portugal e a sua irmã Galiza em extensões periféricas do seu poder, em dependências eventualmente úteis como destino de férias ou como postos fronteiriços contra os “Outros” do norte de África. Contra a alma portugalega, procurando englobá-la e formar aquela coisa vaga, indefinida e desalmada que é a “Europa”, está a alma portuguesa, livre, independente e heterodoxa, por muito mercenária que sejam hoje as suas elites académicas e políticas, mais as suas “Bolsas” europeias ou as suas “Férias” no Parlamento de Estrasburgo.

Se a domesticação das elites coube a Paris, então a domesticação do indomável, mas redutível, espirito religioso luso, coube a Roma. Como Dalila Pereira da Costa refere, coube a Roma lidar com o seu antónimo anagrâmico: o espírito do Amor (anagrama de r-o-m-a) trovadoresco, lírico e popular que a Poesia Trovadoresca galaicoportuguesa exprimia de forma tão clara. Verdadeira expressão de uma alma nacional que se forjava então na Portugaliza, plena de referencias a formas de religiosidade que brotavam do mesmo terreno onde nascera a heresia peninsular do Priscilianismo, a Trova Lusogalaica fora combatida pelo clero romano logo desde os seus primeiros tempos… E por fim, conquistado o apoio do poder político – que dependia de Roma para recolher o reconhecimento diplomático que a independência exigia, haveríamos de assistir à submersão da liberdade religiosa e cultural que os jograis e trovadores errantes representavam e à sua submissão frente ao poder estrangeiro que os tentáculos romanos lançariam sobre a finisterra peninsular.

“O veio profundo e vivo dessa alma, está sepultado, há séculos, debaixo dum enorme entulho feito de ideias, sentimentos, costumes, modas, etc., etc., importados de Roma para uso do coração, e de Paris para serviço do espirito. E não é fácil trabalho destruir esta espessa e já petrificada camada de cinza, para que surja à luz do dia, esperta e viva, essa divina faúlha de lume que nos deverá alumiar no caminho do progresso e perfeição.
Mas o simples facto do interesse que o poeta da Espanha revela pela tristeza de Portugal, mostra de algum modo, que existe nela o que quer que é de estranho e misterioso, e que não é uma tristeza comum”

A tristeza atávica portuguesa resulta assim da sua supressão imperialista por camadas múltiplas e sucessivas de influencias romanas e europeias. Umas e outras, alternando-se e sucedendo-se criaram a vaga mas certa convicção generalizada entre os portugueses de que faltava ainda “cumprir Portugal” e que o Mar fora cumprido sem lograr recolher ainda o destino e vocação nacional da portugalidade. É nesta Tristeza nacional que assenta a fonte da Saudade pascoaliana: uma memória do tempo perdido e do fado esquecido pela submersão do coração lusitano, da sua natural, plena e espontânea religiosidade, da sua capacidade rara de se re-ligar (etimologicamente fonte de “religião”) com a natureza e o meio. Portugal – antes da chegada dos missionários cristãos-romanos) – era a terra das divindades ctónicas e tópicas, das deusas das fontes, dos rios, dos montes e das arvores. Os Banda, Ataegina, Endovélico eram os deuses dos locais, devorados pelo império religioso de Roma, mas o seu Deus vingador e único, adversário de uma ligação entre o Homem e o Meio que se realizava pessoalmente e sem mediador, o padroado romano não poderia deixar vingar a religiosidade íntima e pessoal que caracterizava a alma portugalega e o quadro divino multiforme pré-romano.

“A tristeza lusitana é a névoa duma religião, duma filosofia e dum Estado, portanto. A nossa tristeza é uma Mulher, e essa Mulher é de origem divina e chama-se Saudade”

Pascoaes estabelece aqui claramente a ligação entre a saudade pela liberdade religiosa perdida, pela independência de pensamento e especulação que ainda no período das Taifas muçulmanas se viviam nas cidades islâmicas do sul. Se há Saudade é porque há Tristeza por aquilo que se sente ter perdido. Tristes, porque reprimidos, saudosos, porque recordando-se daquilo que perderam, os portugueses sentem no seu íntimo, com uma certeza não verbal, que o Deus solar e masculino de Roma, tão compatível com os quadros mentais dos indo-europeus, nada tem a ver com o seu verdadeiro fundo religioso, multiforme e pluriteísta, mas radicado nas religiões femininas e naturalísticas das deusas-mãe do paleolítico. Por isso é que o povo do interior ainda conserva uma devoção muito especial pelo culto da Virgem, apesar de todo o ciúme do Clero romano e da voracidade centralizadora de Roma: pela memória esquecida de um tempo saudoso onde na finisterra lusa se cultuava a “Deusa” e a imensa miríade de divindades tutelares dos campos e da Natureza.

“A Saudade é a eterna Renascença, não realizada pelo artificio das artes, mas vivida dia a dia, hora a hora, pelo instinto emotivo dum povo: a Saudade é a Manhã de Nevoeiro: a Primavera perpétua: é um estado de alma latente que amanhã será Consciência e Civilização Lusitana.”

É neste parágrafo que Pascoaes exprime a diferença conceptual entre aquilo a que vulgarmente chamamos de “saudade” e a interpretação que faz o filósofo: impulso mítico para um Eterno Retorno, para um tempo passado e idealizado, que completa o círculo e realiza o Homem. Esta “Renascença” é um regresso ao momento mítico e atemporal que vive nas nossas memórias colectivas e onde podemos regressar não por intermédio de um qualquer movimento cultural, político u social, mas numa revolução ou renascença interior que sendo interior e pessoal é duradoura e contaminante. Comecemos por realizar a revolução em nos, e preocupemo-nos e faze-la depois no mundo, diria Agostinho da Silva…

“O cinco de outubro foi já um facto de grande alcance, porque nos livrou da influencia de Roma, apagou as lâmpadas de Roma. Agora só resta (e será o mais custoso) apagar os fachos de Paris, e guiarmo-nos pela nossa própria candeia, alimentada com o azeite das nossas oliveiras… É preciso educar este Povo dentro da sua personalidade; um vestuário estrangeiro não lhe fica bem; não foi feito para o seu corpo.”

Neste passo Teixeira de Pascoaes refere-se ao anticlericanismo republicano que após a instauração da República em Portugal afastou a Igreja Católica do Ensino e de uma posição predominante na sociedade e política portuguesas. Contudo, este vigor anticatólico republicano não tinha uma base popular e nunca se conseguiu implantar fora dos círculos urbanos e acabaria por produzir um descontentamento generalizado e surdo que seria aproveitado pelo regime do Estado Novo a seu favor, revertendo o processo de laicização do Estado apressadamente imposto pelos republicanos de Lisboa ao resto do país. Teixeira de Pascoaes reconhece que seria impossível substituir a força estrangeira de Roma, com a sua obsessiva tendência para reduzir a religiosidade multiforme e matriarcal do povo, por uma outra força estrangeira: a do parlamentarismo republicano vindo Paris. Em alternativa a Roma e a Paris, Pascoaes acreditava que era possível sacudir estas cangas estrangeiras e recordar aquilo que saudosamente o Povo ainda recordava: a memória da liberdade religiosa castreja e a recordação da autonomia política e económica dos municípios medievais portugueses.

“Oxalá que seja num sentido genuinamente lusitano que se proceda à reforma da nossa instrução e educação. É certo que atualmente, todo o trabalho de reformas está em mãos europeizadas; mas há de chegar o dia feliz, em que o génio da Raça, tornado Consciência e Ação, surgirá vitorioso, integrando Portugal na sua própria alma progressiva.”

É impossível implantar a democracia, sem que esta implantação de um novo regime não seja também acompanha por uma revolução das mentalidades. A rapidez com que a Republica se impôs em Portugal impediu a suave e gradual mudança (necessariamente lenta) de quadros mentais da generalidade da população. Reconhecendo a fragilidade do regime republicano, os republicanos escolheram a Educação como o principal mecanismo para alavancar o novo regime nos meios rurais. Essa é a reforma a que Pascoaes alude neste parágrafo, com a crítica direta de que esta reforma não seria conforme ao sentimento português, mas importado a partir da Europa. Exógeno, tal como anterior sistema de Ensino católico, esta reforma do sistema de ensino estaria também ela fadada ao fracasso. Uma e outra estavam ainda longe do sentimento e da alma portuguesa, a qual importava saber reconhecer e recuperar de forma a poder implantar uma verdadeira republica em Portugal.

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