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Relato da Conferência de Permacultura Holzeriana com Sepp Holzer

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Conferencia de Permacultura Holzeriana com Sepp Holzer
6 de setembro de 2010
Realizada em parceria com a Quercus e a Tamera na sede nacional do Corpo Nacional de Escutas, na rua Dom Luis I, em Lisboa

Esta conferência teve uma audiência extremamente interessada e que encheu completamente a sala de conferências do CNE, chegando ao ponto de, a dado momento, haver pessoas de pé, ao fundo da sala e no corredor. Esta afluência e nítido interesse de todos pela matéria apresentada reflete o interesse extraordinário que o tema da Permacultura cria entre nós e o prestígio de Sepp Holzer neste meio, um prestígio, que contudo – como veremos – não está contudo isento de polémicas.

A permacultura é essencialmente um sistema de design e uma forma harmoniosa de agricultura. O termo resulta da contração das palavras “Cultura” [agrícola] e “Permanente” e tem como maior objetivo tratar o Homem, o ambiente e a agricultura como um organismo único, coeso e harmónico com o meio e a natureza. A permacultura representa assim um caminho para alcançar a sustentabilidade ecológica com tecnologias apropriadas a cada região e a cada clima. Para os permaculturistas, se a planta esta sã o animal esta são e logo o homem está são e estes são os três conceitos centrais a esta forma de agricultura.

A conferência começa com a apresentação de um – dobrado em castelhano – sobre a primeira experiência agrícola de Sepp Holzer, nas montanhas do seu país, a Áustria. O documentário tem mais de 15 anos e reporta-se à época em que Holzer ainda gastava a maior parte do seu tempo e obtinha a maioria dos seus rendimentos dessa propriedade.

O documentário apresenta várias das técnicas que Holzer desenvolveu (alegadamente) sozinho e que posteriormente viria a reconhecer nas técnicas de um dos pioneiros australianos da permacultura, que, contudo Holzer não identifica completamente com a sua visão, que designa como “Permacultura Holzeriana”, devido às diferenças que apresenta para com a permacultura convencional, por exemplo, na importância da construção de lagos nas curvas de nível, na utilização de maquinaria pesada nessas construções ou na utilização de espécies não locais nas explorações agrícolas a que designa também de agro-florestas.

O documentário lista várias das técnicas da Permacultura Holzeriana, que passaremos a enumerar:

1. De permeio às culturas (como de abóbora) estão as pedras que fazem parte do terreno – pequenas e grandes – e outras que foram deslocadas de altitudes mais elevadas na sua exploração. Segundo o agricultor, estas pedras absorvem o calor e ajudam as abóboras a resistirem assim melhor às variações térmicas. Estas pedras funcionam também como reguladores de humidade através da condensação da humidade matinal. Contudo, não são dados elementos científicos ou quantificáveis da quantidade de água que as plantas recebem através deste método nem de qual é a variação de temperatura junto a estas pedras e a alguma distancia das mesmas. Estas omissões colocam em dúvida os resultados apresentados.

2. um dos traços mais característicos da exploração é a opção por culturas mistas, com varios produtos sendo cultivados ao mesmo tempo, no mesmo terreno. Com efeito, desta forma Holzer repudia a monocultura que – afirma – tem sido responsável por tantos danos ao meio ambiente e aos solos nos últimos anos. Obviamente, tal cruzamento de culturas reduzirá a eficácia económica da exploração, mas como negar as tremendas desvantagens associadas à monocultura intensiva?… pelo menos neste respeito, há que reconhecer alguma validade a esta forma de agricultura.

3. Holzer não recorre a adubos químicos nem a fertilizantes industriais. Pelo contrário, prefere recorrer às mesmas técnicas da agricultura biológica, usando por exemplo plantas como a Digitalia que gera nitrogénio nas suas raízes. Recorre também a amendoins e trevos com os mesmos objetivos plantando estas plantas de permeio a outras culturas aplicando assim o seu princípio de realizar sempre “culturas mistas” nos seus campos agrícolas e reforçando assim um dos seus axiomas: “Agricultura em cooperação e não em confrontação com a Natureza”.

4. Outro traço distintivo das explorações agrícolas holzerianas é a presença de animais soltos pela quinta: porcos, galinhas e patos são aqui presença constante e parte integrante da paisagem. Desta forma se abrem novos caminhos na floresta, entre as árvores, se eliminam ervas daninhas (barreiras afastam os animais das zonas que é preciso preservar) e se vão adubando naturalmente os campos. Todos os animais estão livres durante todo o ano e podem entrar no estábulo escavado no solo e formado por troncos de madeira onde entram quando querem e não porque são para lá levados. Estes estábulos são construídos na terra para se manterem quentes de Inverno e frescos de Verão.

5. As árvores são um dos componentes mais importantes da permacultura holzeriana tanto que uma forma alternativa de a designar é precisamente agrofloresta… as árvores, são com efeito, tratadas de uma forma diferente da agricultura tradicional. Desde logo, não são podadas. As folhas caem e são deixadas sob o solo, formando húmus. O mesmo sucede com a madeira cortada, que fica no solo, criando húmus e acolhendo culturas de cogumelos. As ervas daninhas são cortadas e deixadas no próprio local de corte ao lado das culturas, também para criar mais húmus. Holzer é particularmente crítico da forma como os agricultores modernos cuidam das suas árvores, deixando-lhes apenas raízes rasas, cortes sistemáticos dos ramos e outros maltratos. Perante tal pressão, as árvores entram em stress e tornam-se susceptíveis a todos os tipos de fungos e pestes. Em resultado, os solos perdem sustentabilidade e as chuvas conseguem varrer o que resta do húmus e o solo assim exposto torna-se impossível de suportar para as árvores, que acabam por morrer num ciclo vicioso que leva à desertificação das encostas.

6. Na Permacultura Holzeriana, as culturas são misturadas sem carreiros definidos e estão sempre intercaladas com vegetação natural. Esta opção significa que a colheita tem que ser manual, com o decorrente recurso à técnicas de mão de obra intensiva, elevados custos e lentidão da colheita, mas é uma forma de evitar a sobreutilização dos solos, de criar zonas de retenção das águas das chuvas e de reduzir o impacto da atividade agrícola no meio natural, à custa do seu rendimento, naturalmente.

7. Um dos aspectos mais interessantes desta forma de Permacultura é a construção de lagos artificiais (com maquinaria pesada) que depois são povoados com peixes. Estes lagos são ligados entre si de forma a poderem partilhar a água e são construídos consoantes as curvas de nível naturais de forma a poderem captar a água que de outra forma se perderia para os rios. Holzer gosta de instalar muitos lagos nas propriedades onde faz consultoria, oscilando o seu número entre 6 a 16 por propriedade. Encontramos em Portugal um destes ensaios de Permacultura Holzeriana em Tamera, uma ecoexploração agrícola a 15 km de Tavira onde foram construídos vários lagos povoados depois com peixes (como trutas e esturjões) e onde as técnicas de permacultura coexistem com tecnologias alternativas e de sustentabilidade social. As paredes dos lagos são impermeabilizadas com pedras de vários tamanhos, deslocadas de outros locais do mesmo terreno, mas reservando as de maiores dimensões para efeitos decorativos e para a construção de cascatas artificiais. Por cima dos lagos – sempre que possível – Holzer instala terraços para maximizar a retenção de água já que o segredo para formar estes lagos é reter a agua das chuvas consoante as linhas naturais de agua, geradas durante as grandes chuvas. Os lagos são construídos a diferentes curvas de nível e reforçam os lençóis freáticos que existem sob eles criando assim reservas de água. Se o nível da água dos baixar, os lençóis freáticos recuperam esta falta. No fundo destes lagos, Holzer deposita materiais impermeáveis em caracol mas na – crítica – parte central do dique o permacultor usa materiais muito finos, como pedras pequenas e, por fim, recorre a máquinas pesadas para passar por cima das paredes do dique de forma a consolidar a sua estrutura. De facto, estas máquinas não são usadas para escavar o lago mas para criar este dique e assim, criar o lago artificial. Além da piscicultura a água destes lagos pode ser usada para rega. Sepp Holzer constrói os seus lagos para que sejam o mais alongados e direcionados conforme os principais ventos para gerar ondas e aguas limpas e nas zonas rasas colocam-se nenúfares para filtrar a água. Zonas rasas alternam com fundas para que hajam zonas quentes e frias que levem a deslocação da agua. Tudo isto sem cantos, mas apenas com formas arredondadas para que não haja zonas de agua parada e estagnada.

Conclusão:
É uma conferência de popularização, não propriamente uma “conferência técnica”, para agricultores, mas direcionada para militantes das causas ecológicas mas que, contudo, pode servir para cativar muita gente para o tão necessário “regresso à terra”.

Muito ficou por dizer neste workshop de 3 horas. A apresentação teve um enfoque demasiado forte nos aspectos mais filosóficos da Permacultura e menos nos aspectos técnicos, talvez devido ao caráter mais “ecologista” e menos “agronómico” da maioria da audiência. Nesse sentido, foi uma desilusão. Não estava ali para ser doutrinado sobre os benefícios da agricultura biológica ou da permacultura ou até da variante criada por este agricultor austríaco. Estava ali para tentar compreender como poderiam estas formas de agricultura sustentável contribuir para reduzir a nossa pegada no clima do globo e se poderiam contribuir para a redução da fome no mundo. Disso, assim como dos aspectos mais económicos e financeiros do problema, nada foi dito, consumindo-se ao invés uma parcela injustificável de tempo com derivas filosóficos e segmentos panegíricos de autentica “gurutização” que não contribuem para divulgar a mensagem, servindo apenas para a desfocar em torno da personagem do orador.

A grande questão está aqui em saber se esta forma de Permacultura, designada pelo próprio com o seu próprio nome como “holzeriana” consegue produzir além do auto-consumo e ser assim socialmente útil e ser economicamente relevante para a sociedade onde se inserem estas explorações. Esta é a questão que vale “um milhão de dólares” e que teremos que procurar na Internet, já que neste workshop de três horas não houve tempo para a responder…

Contudo, e apesar de um certo egocentrismo de um orador, talvez demasiado habituado a discursar para plateias acríticas de não especialistas e a gastar mais tempo em conferências e consultoria do que no real trabalho da terra, tratou-se de uma conferência importante e a Permacultura Holzeriana merece toda a atenção possível enquanto forma de gerar alimentos de uma forma sustentável e ecológica. Os seus processos são muito interessantes, ainda que existam vários pontos que levantam várias críticas:
1. A preferência “experimental” por espécies não locais, como o boi das highlands escocesas ou espécies de porcos croatas na Áustria.
2. Não se referiu algo que é referido em várias fontes como uma das maiores críticas à Permacultura: a sua maior adequação a climas tropicais e mediterrâneos e a menor a climas mais temperados.
3. Os níveis de produtividade são inferiores aos da produção agrícola intensiva e até aos registados pela agricultura biológica.
4.  Sepp Holzer é um conferencista profissional, não o agricultor que era há 19 anos atrás, apesar disso a sua conferência continua a basear-se num documentário dessa época. Desde 1995 que as conferencias e as vendas de livros são a maior fonte de rendimentos da família Holzer.
5. A conferencia focou-se nos vários casos de sucesso das suas intervenções, mas omitiu vários falhanços rotundos, que levaram até a processos de indemnização como o projecto Jena na Hungria.
6. A Permacultura Holzeriana pressupõe uma taxa de ocupação do solo mais intensa que o natural
7. apesar da repetida referencia a “16 diplomas” ou estudos académicos, há quem os coloque em duvida, na sua validade cientifica e qualidade (Toby Hemenway e Greg Williams)
8. se o método é economicamente viável porque é que ao fim de tantos anos ainda só é aplicado em pequenas explorações, de entusiastas ou ativistas ecológicos e não se popularizou?

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Categories: Agricultura, Ecologia, Economia | Etiquetas: , | 2 comentários

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