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Passeio Pedonal: A Lisboa de Fernando Pessoa

1. Largo de São Carlos

 
Encontra-se aqui o Teatro de São Carlos, construído entre 1792 e 1793, uma construção em estilo neoclássico da autoria do arquitecto José da Costa e Silva e terminado em apenas seis meses fortemente inspirada na fachada do teatro Scalla de Milão.

Aquele que é considerado como um dos maiores poetas de Portugal, Fernando Pessoa terá nascido em 1888, no Largo de São Carlos, número 4, 4º esquerdo.

Pessoa é um dos expoentes máximos da Cultura Portuguesa, mas foi profundamente influenciado por Lisboa, cidade de onde apenas saiu muito raramente depois do seu regresso da África do Sul e que marcou frequentemente a sua obra poética e em prosa.

Este percurso visa “viver Pessoa” passando pelos locais onde o poeta viveu e desenvolveu o seu pensamento e obra.

“Ó sino da minha aldeia
Dolente na tarde calma
Cada tua badalada
Soa dentro da minha alma”

escreveu Fernando Pessoa, em poema publicado na revista Renascença, em 1914. Escrito aos 25 anos (em 1913) este poema invoca a infância feliz do nosso poeta que nasceu aqui, entre um teatro, o de São Carlos e uma Igreja, a Igreja dos Mártires, entre o teatro das elites (que o seu pai frequentava como crítico literário do Diário de Notícias), onde passavam as grandes obras e uma igreja frequentada pelo povo mais anónimo.

O poeta conservará para sempre a memória desses primeiros cinco anos de vida tranquila e paradisíaca  de “menino da sua mãe” e das “poeiras musicais” do seu pai, de cujo rosto mal se recorda.

No mesmo edifício viria a instalar o “Directório Republicano” (no 1º andar) tendo o nome do Largo sido a partir de 1913, o “Largo do Directório”, precisamente por essa razão. O primeiro Directório Republicano Democrático, o embrião do futuro PRP ou Partido Republicano Português foi eleito em 3 de abril de 1870, legalizado por Dom Luís, em 1876 fazendo então partes Latino Coelho, Elias Garcia e Consiglieri Pedroso, entre outros notáveis republicanos. Um segundo directório é eleito em 1879, fazendo agregar ao grupo inicial mais republicanos como Sousa Brandão e Bernardino Pinheiro. Sob o Estado Novo, em 28 de maio de 1956, este topónimo regressaria à sua designação original, que se mantêm até hoje.

2. Largo de São Carlos para Largo do Chiado pela Rua Serpa Pinto até à Brasileira

Seguimos agora pela Rua Serpa Pinto até ao Largo do Chiado. Esta rua é uma das várias nesta antiga freguesia dos Mártires que recebeu nomes de exploradores portugueses do XIX: Rua Ivens, Rua Capelo, Rua Anchieta. Esta Rua Serpa Pinto resulta da incorporação da Travessa Estevão Falharde e da Rua Nova dos Mártires e foi feita em finais do século XIX pela CML:

Uma das caminhadas habituais do poeta era entre o Largo de São Carlos e o Largo do Chiado, onde se encontra com os outros grandes intelectuais do seu tempo no café “A Brasileira”

Percorremos agora a Rua Garrett, o centro do Chiado, o famoso eixo intelectual de Lisboa no século XX. Encontramos aqui a Livraria Bertrand, fundada em 1732. Esta rua ganhou este nome em 1880. De notar que o nome deste escritor tinha como grafia original “garet” (de origem irlandesa). Foi Garrett que inaugurou o romantismo em Portugal com o poema “Camões” (1825), razão pela qual em 1880, quando se comemorou o tricentenário da morte de Camões a rua receberia este nome.

3. A Brasileira do Chiado
 
A designação “Chiado” tem a sua origem no comportamento ruidoso de um certo Gaspar Dias (“chiar”), que era proprietário de uma taberna no Século XVI, no cruzamento entre as ruas do Carmo e Garrett. Outros autores, contudo, discordam… acreditando que o termo se referia ao poeta António Ribeiro, conhecido por “Chiado” o “O Poeta Chiado” (1520-1591). Este poeta jocoso, contemporâneo de Luiz de Camões viveu nesta zona durante muitos anos, tendo a rua obtido então esse nome (“Rua do Chiado”) que mudaria para “Rua Almeida Garrett” apenas no século XIX. Franciscano, deixou a vida de clausura, mas manteve sempre o celibato e o hábito clerical. Além de poeta, era também conhecido como imitador de figuras da época. A estátua que aqui se encontra foi inaugurada em 1925 pela CML e é da autoria de Costa Motta
 
O Café “A Brasileira” tem o projeto da responsabilidade do arquitecto Manuel Joaquim Norte Júnior (1878-1962), autor de várias obras nas Avenidas Novas como a Casa-Atelier José Malhoa, na 5 de Outubro. A fachada apresenta três portas envidraçadas encimadas por esculturas em estuque, envolvidas por motivos vegetalistas em torno de uma figura masculina que bebe café.

Terá sido aqui que a famosa “bica” ou “café português” terá sido inventada. Terá sido aqui instalada uma das primeiras máquinas de café expresso de Portugal tendo então os primeiros clientes reclamado do sabor muito forte e amargo. A resposta da gerência terá sido a colocação de cartazes “beba isto com açúcar”, o que daria na sigla. B-I-C-A.

Antes de 1905, neste local funcionava um estabelecimento de venda de produtos brasileiros (tapioca, goibada e chá, além de produtos portugueses diversos, como vinho e azeite)

A Brasileira do Chiado abriu as portas a 19 de novembro de 1905 com o objetivo de vender o “genuíno café do Brasil”, onde o seu fundador, Adriano Telles, tinha vivido alguns anos, deixando uma série de contactos empresariais. Em 1908, a Brasileira abria uma “sala de café”, que era muito frequentada pelo elite intelectual da Lisboa de então, contando com frequentadores habituais como Almada Negreiros, Santa Rita Pintor, José Pachelo, Abel Manta e, claro, o “nosso” Fernando Pessoa…

Em 1925, a Brasileira começa a expôr 11 quadros de 7 pintores que frequentavam o estabelecimento (Almada Negreiros, António Soares, Eduardo Viana, Jorge Barradas (com dois quadros cada), Bernardo Marques, José Pacheko e Stuart Carvalhais.

A estátua do Poeta que hoje aqui vemos, em bronze, foi inaugurada em 1988 e é da autoria do escultor Lagoa Henriques.

 
 
4. Descer Rua Garrett
 
A designação desta rua data de 14 de junho de 1880. Aqui funcionou a “Sapataria Lourenço” citada por Eça de Queiroz. Entre os números 90 e 92 estava aqui a “Farmácia Durão” onde decorriam grandes conspirações republicanas, sendo o local de eleição dos partidários de Brito Camacho. Aqui se vendia (em publicidade paga nos jornais da época) produtos como “pó da viscondessa”, “remédios para a solitária”, ou “creme virginal” e “laranjada purgante”…
Onde encontramos hoje a “St. Tropez Kiwi”, que em 1982 substituiu a “Boutique Migacho” no mesmo local onde encontrava a famosa “Leitaria Garret” da canção de Vitorino, inaugurada na década de 1920.
 
A “Paris em Lisboa” foi fundada em 1888 e ainda hoje em dia mantém a atividade.
 
Construída e reconstruída várias vezes, sob o nome de “Ermida dos Mártires”, em honra dos que morreram na batalha pela conquista de Lisboa em 1147 e situada no mesmo local onde funcionou o Convento de São Francisco, esta ermida foi destruída no terremoto. A construção atual é de 1768 e de traços barrocos e neoclássicos sendo da autoria do arquitecto Reinaldo Manuel dos Santos (1731-1791) (autor do Chafariz das Janelas Verdes, de 1755) e que começou a sua carreira como canteiro no convento de Mafra tendo o seu apogeu na construção da  Basílica da Estrela, tendo alterado o projeto primitivo, dando maior grandiosidade à obra. O interior do templo cumpre um programa ornamental da autoria do pintor Inácio de Oliveira Bernardes (1662 – 1732, autor de grande mestria, como comprova um comentário de Frei Agostinho de Santa Maria que, em 1707 diz que os painéis deste pintor e que estavam na Quinta da Ramada, capela [actualmente em Cascais, Casa de Santa Maria] “pareciam ser oriundos da Holanda, tal o grau de perfeição”. A pintura do teto da Ermida é da autoria de Pedro Alexandrino de Carvalho (1729-1810), um dos melhores executantes nacionais da escola do Rococó francês (com passagem pelo Barroco e Neoclássico). Conhecido como “pintor dos frades”, por ter trabalhado em várias igrejas na região de Lisboa, reconstruidas após o terremoto de 1755.
 
A Livraria Sá da Costa mesmo aqui ao lado, conheceu recentemente um processo de insolvência a que se seguiu o pedido da Câmara à Direção-Geral do Património Cultural de classificação da Livraria Sá da Costa “como imóvel de interesse público”. No século XX, a Livraria era uma editora de grande prestígio e sucesso comercial (tendo editado a conhecida coleção “Clássicos Sá da Costa”)
 

Mais adiante, encontramos a Livraria Bertrand. Fundada em 1732 por Pedro Faure na esquina da Rua Direita do Loreto com a Rua do Norte e vendida em 1740-1747 aos irmãos Bertrand (Pierre e Jean Joseph Bertrand) recebendo então o nome “Pedro Faure e Irmãos Bertrand”. O fundador morre em 1753 e a livraria perde o seu nome. Em 1770-1773 muda de local para a Rua Garrett (onde hoje se encontra). Em 2010, o Guinness World Records ganha o título de “a mais antiga livraria em atividade”. A livraria foi frequentada por alguns dos maiores vultos do seu tempo: o político José Fontana que se destacou na luta pela melhoria das condições de vida e trabalho do operariado, promovendo o associativismo e o cooperativismo. Influenciado por Bakunine, foi o autor dos estatutos da Associação Fraternidade Operária (1872) que posteriormente daria origem ao Partido Socialista Português, de quem seria um dos fundadores. Depois de um longo padecimento pela tuberculose, suicidar-se-ia em 1876 na livraria, com apenas 35 anos. Na altura era sócio-gerente, tendo começado aqui como empregado em 1865. Aqui se realizava uma conhecida “tertúlia diária”, nesta época em que participavam alguns dos maiores intelectuais de então, como Alexandre Herculano, Oliveira Martins, Eça de Queirós, Antero de Quental e Ramalho Ortigão, entre outros. O próprio Dom Pedro II era frequentador habitual desta livraria do Chiado…

 
 
5. Descer Rua do Carmo
 
Esta artéria foi traçada em 1904 e recebeu a atual designação em 1910. Antes de 1755, esta zona nas traseiras do Convento do Carmo era conhecida como “O Caracol”, tamanha era a sua inclinação. Após o terremoto, abriu-se uma nova rua através de quintais, jardins, a estreita escadaria assim chamada de “caracol” e edifícios de habitação. Foi nesta época que se construiu a “muralha do Carmo”, uma obra de consolidação de terrenos que hoje se pode ainda observar por detrás de alguns prédios da rua do Carmo onde a partir de 1901 se instalaram várias lojas.
 
Foi nesta rua que em 25 de agosto de 1988 deflagrou o grande incêndio de agosto de 1988 nos Armazéns Grandella. Na altura a incapacidade dos carros de bombeiros em entrarem na Rua do Carmo devido aos canteiros altos de betão permitiu o rápido alastrar do incêndio, perdendo-se assim os Armazéns e a “Perfumaria da Moda” (onde se filmara parte do Pai Tirano) assim como o arquivo histórico de gravações de som da Valentim de Carvalho. O projecto de reconstrução manteve as fachadas originais e foi da responsabilidade do arquiteto Siza Vieira.
 
A expressão popular “Cair o Carmo e Trindade” que significa algo de surpreendente, surgiu devido ao surpreendente e tremendo impacto do terremoto de 1755, em que desabaram vários conventos lisboetas, nomeadamente o do Carmo e o da Trindade.
 
 
6. Atravessar Praça Dom Pedro IV
 
No passado, a Praça Dom Pedro IV era conhecida como Rossio ou Rocio e era o centro efetivo de Lisboa. Na época romana, funcionava aqui um hipódromo. Até ao século XII corria aqui um afluente do Tejo, tendo a zona o nome de “Valverde”, por causa das canas que existiam aqui em grande profusão. Este caneiro foi tapado em Quatrocentos, criando-se uma praça onde se realizavam feiras e mercados.
 
Foi aqui, sob Dom Manuel I que teve palco o grande massacre dos Cristãos Novos de 1506 que durou 3 dias e onde morreram mais de 4 mil pessoas. Tudo terá começado quando na Igreja de São Domingos do convento do mesmo nome (nesta praça) um cristão disse ter visto o rosto do Cristo crucificado iluminar-se no altar quando se rezava pelo fim da seca que então assolava Portugal. Ora, na igreja estava um Cristão Novo que terá dito que a luz que emanava do crucifixo era apenas um reflexo de um raio de sol que entrava por uma fresta. Morto pela turba, que saiu para a praça acompanhada por frades dominicanos, a multidão partiu para a judiaria, dando origem a um dos episódios mais negros da História da nossa cidade. Esta Judiaria situava-se no atual Bairro de Santa Madalena (ruas da Conceição, São Nicolau e Rua Nova do Almada e dos Bacalhoeiros.
 
Aqui se localizava o Palácio dos Estaus ou da Inquisição, no topo norte do Rossio, onde hoje se encontra o Teatro Nacional Dona Maria II. Estaus significava na época “estalagem” e foi mandado construir pelo regente Dom Pedro para alojar pessoas da Corte sem casa própria e embaixadores estrangeiros e até monarcas que estivessem de visita a Lisboa (daí o nome). Aqui viveria Dom João III a partir de 1540. Aqui morreria Dom Duarte e onde Dom Sebastião recebeu o governo do reino. Em 1571, seria aqui instalado o Tribunal da Inquisição recebendo então o título de “Casa de Despacho da Santa Inquisição”. O Palácio sofreu muitos danos em 1755 (a reconstrução pombalina de Lisboa começou pelo Rossio). Em 1807 seria usado como Paço da Regência. Em 1826 receberia também a Secretaria da Intendência da Polícia, a Escola do Exército e o Tesouro Público. Um grande incêndio, em 1836, destruiria completamente o palácio. No local seria construído o atual teatro, terminado em 1846.
 
O Teatro Dona Maria tem na fachada as seis colunas jónicas que vieram do antigo convento de São Francisco que existia no Chiado antes do terremoto. O frontão tem a estátua de Gil Vicente, de Francisco Assis Rodrigues, rodeado pelas musas da tragédia (Melpomene) e da comédia (Talia). Por baixo, surge Apolo e as sete musas. A sua construção resulta da pressão de Almeida Garrett (então deputado) para que existisse em Lisboa um teatro comparável aquilo que São Carlos era para a música. A proposta de Garrett tinha um nome “Teatro Português” e previa a sua construção já no Rossio, no local onde em 1836 se viam as ruínas do antigo Palácio da Inquisição. Depois de muita pressão, em 1841, o Estado comprava esses terrenos e em 1842 começavam as obras da responsabilidade do arquiteto Fortunato Lodi, uma escolha muito contestada por Garrett e Herculano, que não gostavam da escolha de um artista estrangeiro. O teatro foi usado pela primeira vez no aniversário de Dom Fernando, em 1845, mas não estava ainda concluído… quase a tempo do aniversário de Dona Maria II (1846). Em 1964, um grande incêndio destruiu o teatro, perdendo-se o recheio e uma das mais importantes obras de Columbano Bordalo Pinheiro: a decoração do teto com 20 metros de diâmetro.
 
Onde se situa a Estação do Rossio, estava o Palácio dos Faros, dos Duques do Cadaval.
 
No centro havia um chafariz, dito “Chafariz do Rossio”, fonte monumental com um Neptuno de pedra, de finais do século XVI e destruído em 1786. Era perto daqui que realizavam autos-de-fé, onde foi epicentro da revolta popular do tempo de Dom Fernando e onde se abandonou o corpo do bispo Dom Martinho, atirado da torre da Sé de Lisboa: “Ao passarem pela Sé lembraram-se alguns de que à ida, passando por ali com Álvaro Pais, tinham gritado aos de cima que repicassem os sinos. Mas, repicando em S. Martinho e nas outras igrejas, não quiseram repicar na Sé. E souberam que o bispo estava em cima e que mandara fechar as portas sobre si. E porque ele era castelhano disseram logo que era do partido da rainha e do conde e que fora sabedor da traição e morte que quiseram dar ao Mestre, e que por isso não repicaram.” (Crónica de Fernão Lopes). Aqui também foram decapitados em 1641 os conspiradores Duque de Caminha, o Marquês de Vila Real e o Conde de Armamar. Mais tarde, em 1831, este seria o local onde tiveram lugar os combates na revolta anti-miguelista do Infantaria 4, onde esteve Alexandre Herculano com 21 anos e onde terão perdido a vida mais de 300 homens (menos Herculano que daqui fugiu para um navio francês fundeado no Tejo)
 
Nos famosos cafés do Nicola e das Parras, encontravam-se Barbosa do Bocage e outros poetas da época, tendo sido aqui compostos muitos dos poemas deste poeta satírico.
 
A estátua de Dom Pedro IV, rei de Portugal e imperador do Brasil que aqui se encontra e que dá hoje nome à praça foi inaugurada em 1870. Da execução de Germano José de Sales. As quatro figuras femininas da base aludem à Justiça, Prudência, Fortaleza e Moderação, qualidades que teria esse monarca. O monumento tem também os escudos das 16 maiores cidades de Portugal. Na mão, o rei segura a Carta Constitucional que ele outorgou em 1826 (a segunda Constituição portuguesa e também a que esteve em vigor mais tempo: 72 anos). A lenda segundo a qual esta estátua seria, de facto, a estátua do imperador Maximiliano do México (fuzilado em 1867, quando a estátua estava em trânsito para o México) não tem fundamento: a peça tem vários traços tipicamente portugueses: os escudos de Portugal nos botões, o colar da Torre e Espada e até a Carta Constitucional. Em 2001, numas obras de restauro na base da estátua foram descobertos dois frascos com documentos e a fotografia do rei que teria servido de base à estátua. Pessoa sobre esta estátua escreveria: “Para onde olha D. Pedro, o Imperador do Brasil?” para o Cais das Colunas, onde diz a tradição, irá desembarcar o Encoberto…
 
No mesmo local do monumento a Dom Pedro, existia, desde 1821 um monumento à Constituição de 1820, destruído depois em 1823 por ordem de Dom João VI (que ordenara antes a sua construção…) com o regresso ao Absolutismo real. Este monumento era muito criticado e era popularmente conhecido por “Galheteiro” tendo na base quatro estátuas “África”, “Europa”, “Ásia” e “Oceânia” que depois foram deslocadas para o Palácio de Queluz, em torno da estátua de Dona Maria I, depois de uma breve passagem pela Avenida da Liberdade.
 
Ao lado da estátua, a partir de 1889 foram construídos dois monumentais lagos de pedra, com figuras de ferro, fundidas em França nos locais onde existiam dois poços.
 
A expressão “Meter o Rossio na Betesga” (meter algo grande em algo pequeno) tem aqui a sua origem: a grande praça do Rossio está ligada por uma estreita rua à Praça da Figueira. “Betesga” significa beco e alude ao beco que existia antes de 1755 nesta rua.

A Pastelaria Suíça funciona desde 1910 (“Casa Suissa”), que seria depois expandida com a aquisição de uma casa de lanifícios.

A calçada da Praça foi composta com ondas pretas e brancas entre 1848 e 1849 por presos condenados a trabalhos forçados que estavam detidos no Castelo de São Jorge. Uma parte deste tapete original pode ser ainda visto junto à estátua de Dom Pedro IV.

7. Praça da Figueira

Fernando Pessoa não gostava da ordenação geométrica da Baixa Pombalina, conforme escreve no poema “Praça da Figueira de Manhã” no seu heterónimo Álvaro de Campos:

“A praça da Figueira de manhã,
Quando o dia é de sol (como acontece
Sempre em Lisboa), nunca em mim esquece,
Embora seja uma memória vã.

Há tanta coisa mais interessante
Que aquele lugar lógico e plebeu,
Mas amo aquilo, mesmo aqui… Sei eu
Porque o amo? Não importa. Adiante…

Isto de sensações só vale a pena
Se a gente se não põe a olhar para elas.
Nenhuma delas em mim serena…

De resto, nada em mim é certo e está
De acordo comigo próprio. As horas belas
São as dos outros ou as que não há.”
ou seja, para Pessoa a Praça era “aquele lugar lógico e plebeu”…

A Praça era antes do grande Terremoto de 1755 o local onde estava erguido o Hospital de Todos-os-Santos, conforme se provou quando na construção do parque de estacionamento subterrâneo. Este hospital, também conhecido como Hospital Real ou Hospital dos Pobre foi durante os séculos XVI e XVIII o mais importante de Lisboa, tendo sido construído (em diversas fases) entre 1492 e 1504. A fachada principal do hospital (com mais de 100 metros) estava virada para o Rossio e tinha 3 pisos com arcadas e tendo a meio uma igreja Manuelina, a que se acedia subindo uma escadaria monumental. O Hospital foi destruído pelo terremoto e, sobretudo, pelo grande incêndio que se lhe sucedeu, tendo os doentes sido transferidos para tendas, instaladas no Rossio e para palácios e conventos em Lisboa, menos afetados pela tragédia. Na época, o plano era o de reconstruir o hospital, o que foi parcialmente feito, mas nunca concluído, sendo a função, por fim, transferida para o Colégio de Santo Antão, após a sua confiscação aos jesuítas em 1759, atual Hospital de São José (em homenagem ao monarca).

A partir de então a praça foi usada nas festividades dos Santos Populares e como mercado a céu aberto sendo conhecida por diversos nomes: Horta do Hospital, Praça das Ervas e Praça Nova.

 
Em 1835, a Praça foi arborizada e iluminada. Em 1848, é construída uma cerca gradeada coberta e com oito portas.
 
Em 1885 construiu-se aqui um grande mercado coberto, que seria demolido na década de 1950, no decurso de uma decisão da vereação para alargar a rede viária da cidade
 
A estátua de bronze que hoje ocupa o lugar central na praça é recente, data apenas de 1971 (a encomenda é de 1968) e representa Dom João I e foi da autoria de Leopoldo de Almeida, escultor considerado por muitos como o melhor do Modernismo português e autor do Monumento a António José de Almeida e do Monumento a Calouste Gulbenkian (Avenida de Berna)
 
Na direção do rio temos o Martinho da Arcada, antes conhecido por Café da Neve e que funciona desde 1778 onde o poeta escreveu uma parte dos seus poemas, nomeadamente os que fazem parte do único livro que publicou ainda em vida: “A Mensagem”.
 
8. Entrar no Metro no Rossio
 
Esta estação foi inaugurada em 1963, na 2ª fase da construção da rede (1959-1963). A estação segue as diretrizes do Arquiteto Falcão e Cunha sendo os azulejos da pintora Maria Keil, também autora do painel O mar, 1958-59 da Infante Santo. As obras expuseram vários vestígios arqueológicos romanos, muçulmanos e ruínas do Hospital de Todos-os-Santos (destruído em 1755) que foram enviados para o Museu da Cidade. Os azulejos de Maria Keil permitiram a recuperação de técnicas que se encontravam quase esquecidas como a da “corda seca” que combina vidros de cores diversas e que é de origem persa (século XIV) substituindo de forma mais económica o mosaico: a passagem do desenho para o molde é feita por papel químico.
 
9. Saída no Metro do Rato
 
A estação do Rato abriu em 1977 e e da autoria do arquiteto Sanchez Jorge com arte de Vieira da Silva e Arpad Szènés com azulejos de Manuel Cargaleiro estando não longe daqui a fundação Arpad Szénés-Vieira da Silva, razão pela qual o Metropolitano de Lisboa decidiu homenagear os dois artistas nesta estação. Aqui se encontram os painéis que reproduzem “Ville en Extension”, uma obra de Vieira da Silva datada de 1970 e “Banquet”, um trabalho de Arpad Szènés de  1948. Manuel Cargaleiro contribui também com o revestimento de azulejos com baixo relevo de motivos geométricos (círculos, quadrados e losangos) nos lambris ao longo dos cais e no enquadramento dos painéis de Arpad e Vieira da Silva e nas galerias das escadas rolantes.

10. Subir a Avenida Álvares Cabral
 
A estátua é do escultor brasileiro de origem mexicana Rodolfo Bernardelli e foi inaugurada em 1940. Oferta do Brasil e inaugurada com honras de Estado.
 
11. Rua da Estrela até Rua Coelho da Rocha (Campo de Ourique)
 
Esta rua homenageia Manuel Coelho da Rocha, um jurisconsulto de começos do século XIX e aqui se encontra a Casa Fernando Pessoa onde termina o nosso passeio.
 
A expressão “Resvés Campo de Ourique” surgiu em 1755 porque esta zona de Lisboa não a atingiu.
 
12. Casa Fernando Pessoa
Esta foi a última casa habitada pelo poeta, hoje transformada em Casa Museu, no prédio em que Fernando Pessoa viveu, entre 1920 e 1935, sendo a sua última morada. A casa foi inaugurada a 30 de novembro de 1993. A casa foi alterada a pedido da Câmara, com projeto de autoria da arquiteta italiana Daniela Ermano.
 
Apresenta em exposição permanente várias obras de pintores consagrados como José de Almada Negreiros (Retrato de Fernando Pessoa no Café Irmãos Unidos), Júlio Pomar, Bartolomeu dos Santos, António Costa e Rodriguez Castañé.
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Fernando Pessoa: “Creio, e absolutamente creio, nos Deuses, na sua agência e na sua existência real e materialmente superior”

Fernando Pessoa (http://noticiasongs.org)

Fernando Pessoa (http://noticiasongs.org)

“Creio, e absolutamente creio, nos Deuses, na sua agência e na sua existência real e materialmente superior. (…) creio nos semideuses, os homens que o esforço (…) ergueram ao solio dos imortais porque, como disse Píndaro, “a raça dos homens e dos deuses é uma só”. (…) creio como os neoplatonicos, no Intermediario Inteletual, Logos na linguagem dos filósofos, Cristo (depois) na mitologia cristã.”

Fernando Pessoa, 1917

Pertencente ao período neopagão da evolução espiritual pessoana, este segmento ilustra um certo panteismo de inspiração classica (grecoromana) que norteou grande parte da sua vida adulta e serviu de mote a um dos seus mais inspirados heteronimos: Ricardo Reis (cujas “Odes” representam juntamente com “A Mensagem” os dois pontos mais altos da obra pessoana).

Fernando Pessoa estabelece nestas linhas um curioso paralelismo com o pensamento de Nietzche, segundo o qual a grande “falta” do cristianismo (ou “cristismo”, com escreve Pessoa) foi precisamente o de não ter tido a humildade de se afirmar apenas como maus uma crença ou sistema religioso e de se ter procurado substituir a todos, proclamando incansávelmente a sua superioridade. A visão neopaga de Pessoa incorpora uma profunda e intensa espiritualidade que atravessa toda uma mundovisao com a que Pessoa se identifica.

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Fernando Pessoa: Os factores determinantes da decadência portuguesa

No manifesto “O Interregno: defesa e justificação da Ditadura Militar em Portugal” (Lisboa, 1928), Fernando Pessoa enunciara os factores determinantes da decadência portuguesa:
1. A Nação está internamente muito dividida:
“Porque não temos uma ideia portuguesa, um ideal nacional, um conceito missional de nós mesmos”

Embora o poeta tenha aderido filosoficamente ao golpe de Estado que mais tarde haveria de levar Oliveira Salazar ao poder, mais tarde exprimiria varias posições que deixavam bem clara a sua oposição a esse regime. Esta adesão inicial resultava da constatação da existência de um confuso e degradado estado a que a primeira República havia levado o país. Os governos sucediam-se uns após os outros, durando por vezes apenas alguns meses. A situação financeira era terrível e o divórcio entre o interior rural, católico e subdesenvolvido e o litoral, laico e urbano cavava um fosse que o regime republicano se revelava incapaz de transpor.

Quando Pessoa criticava o regime republicano por não ter uma “ideia portuguesa”, referia-se à importação cega e ao transplante forçado e antinatural das doutrinas liberais e republicanas de França, naquilo a que Teixeira de Pascoaes chamaria das influências perniciosas de “Paris”. Victor Hugo diria até que os republicanos portugueses tinham feito em dez anos o que os republicanos franceses tinham demorado duas gerações a fazer. Toda esta pressa em levar Portugal a aproximar-se a passo de trote de uma Europa onde nunca pertencera de alma e coração haveria de criar um país ingovernável, debatendo-se com guerrilhas parlamentares permanentes, com grandes clivagens entre classes e meios urbanos e rurais. O radicalismo de um anticlericanismo que destruiu sem substituir, que centralizou em excesso – marchando contra a tradição municipalista que recuava à Idade Média – e que esqueceu os valores portugueses preferindo importar acriticamente os de Paris, deu no deu… As longas, de meio século, trevas salazaristas…

2. Portugal tornado num Estado de Transição:

“a condição de um país em que estão suspensas as actividades superiores da Nação como conjunto e elemento histórico (…), mas não está suspensa a própria Nação que tem que continuar a viver e, dentro dos limites que esse Estado lhe impõe, a orientar-se o melhor que pode. (…) os governantes de um país em um período destes, têm pois que limitar a sua ação ao mínimo, ao indispensável”

Se assim era no tempo de Pessoa, então que diremos dos dias de hoje? Portugal vive dormente entre as regiões de uma Europa onde o querem agregar e a elite europeia, muito eficiente em congregar uma fiel casta de seguidores nas poucas centenas de famílias que partilham entre si os Meios de Comunicação, a Política e o poder económico. À avidez normalizadora da eurocracia de Bruxelas interessa sumamente suprimir qualquer identidade nacional, recrutando seguidores com “programas Erasmo”, generosos subsídios para abandonar a agricultura e financiando a pavimentação das estradas que levam até nós os produtos manufacturados no norte, deixando a Portugal – Nação esvaziada de gentes e de economia – a mera função periférica e acessória de “solarenga praia dos germanos”. Este é o “Estado mínimo” onde hoje nos querem fazer viver e onde a Primeira República nos levou, no seu cego afã de introduzir “Paris” à viva força em Portugal, esvaziando sem hesitação a essência sóbria, rural e espartana do dito “Complexo Viriatino” de Miguel Real e substituindo por um liberalismo parlamentar confuso e impopular, cujos desmandos haveriam de redundar na longa noite salazarenta.

3. As elites da Nação encontram-se desnacionalizadas:


“Estamos hoje sem vida provincial definida, com a religião convertida em superstição e moda, com a família em plena dissolução . (…) Ora um país em que isto se dá, um país onde (…) não pode (…) haver opinião pública em que elas se fundem ou com que se regulem, nesse país todos os indivíduos e todas as correntes de consenso, apelam instintivamente ou para a fraude ou para a força, pois, onde não pode haver lei, tem a fraude, que é a substituição da lei, ou a força, que é a abolição dela, necessariamente que imperar.”

Pessoa reconhecia aqui o destrutivo centralista do regime da Primeira Republica. Na sua ânsia de “modernizar” o país, os republicanos confiavam apenas em Lisboa e nas suas elites urbanas e esvaziavam de competências os municípios. Paralelamente reconheciam no ensino jesuíta e na influência pró-monárquica da Igreja católico, o seu mais forte adversário, especialmente forte no interior rural português. A decorrente descristianização implicava também uma dessacralização da sociedade que anulava a alma portuguesa e que estaria na base de uma apatia moral e cívica que ainda hoje se sente na sociedade portuguesa e que radica nos primeiros anos do regime republicano em Portugal. Um excesso que haveria de criar uma contra-resposta igualmente excessiva de apelo aos valores tradicionais e católicos sob o regime do Estado Novo de Sidónio Pais, Carmona e Salazar.

Categories: Movimento Internacional Lusófono, Nova Águia, Portugal | Etiquetas: | 3 comentários

Fernando Pessoa: As Três Doutrinas do Interregno

Fernando Pessoa
(Fernando Pessoa in http://br.geocities.com/prosapoesiaecia)

“Três Doutrinas do Interregno:
1. A Nação está divida contra si mesma
“(…) porque não temos uma ideia portuguesa, um ideal nacional, um conceito missional de nós mesmos”.
2. Portugal, hoje, é um Estado de Transição
“(…)a condição de um país em que estão suspensas as actividades superiores da Nação como conjunto e elemento histórico (…), mas não está suspensa a própria Nação como conjunto e elemento histórico (…), mas não está suspensa a própria Nação que tem de continuar a viver e, dentro dos limites que esse Estado lhe impõe, a orientar-se o melhor que pode. (..) os governantes de um País em um período destes, têm pois que limitar a sua acção ao mínimo, ao indispensável.”
3. As esferas superiores da Nação acham-se quase completamente desnacionalizadas
“Estamos hoje sem vida provincial definida, com a religião convertida em superstição e em moda, com a família em plena dissolução. (…) Ora um país em que isto se dá, e em todos sentem que se dá, um país onde (…) não pode (…) haver opinião pública em que elas se fundem ou com que se regulem, nesse paíos todos os indivíduos e todas as correntes de consenso, apela,instintivamente ou para a fraude ou para a força, pois, onde não pode haver lei, tem a fraude, que é a substituição de lei, ou a força, que é abolição dela, necessariamente que imperar.”

Fernando Pessoa, manifesto “O Interregno: Defesa e justificação da Ditadura Milityar em Portugal” (Lisboa, 1928)

Este texto pessoano, redigido em 1928 permanece estranhamente actual… Portugal está dividido. Não já mesma forma em que estava em 1928, mas entre diversos graus de apatia política e de adomercimento, enquanto aqui e ali começam a despontar alguns movimentos cívicos que deixam antever que algo de novo começa a surgir à superfície deste mar quedo e morno que é o Portugal do século XXI… Se não havia “uma ideia portuguesa” em 1928, bem menos a há hoje… Os líderes que nos têm governado desde a feliz eclosão da Democracia, em 1975, não passam de imitadores dos pensamentos que se nos derrama a Europa a partir do norte, e geralmente, são até mais imitadores, e tendo enformar Portugal e a portugalidade numa forma que não pode ser a sua, falham e deixam que o país vegeta e perda cada vez mais o seu orgulho, precisamente porque a bitola a que o tentam conformar, não é sua, nem feita para si, mas para as gentes loiras e frias do norte gélido e germânico que rege a Europa com mão económica de ferro. Portugal precisa de expelir estes corpos estranhos que tentam introduzir na sua Alma e cessar com estes “séculos de transição para coisa nenhuma” que é esta regência dos números, dos índices macroeconómicos e dos orçamentos em nome dos quais tudo e todos se sacrificam apenas para agradar aos “senhores do Norte”.

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