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A Isthmus Engineering e o modelo de gestão de “Cooperativa de Trabalhadores”

O último documentário de Michael Moore: “Capitalism, a Love Story” depois de se concentrar nas (numerosas) maleitas de que padece e nos faz padecer o sistema Capitalista passa de uma forma mais ou menos superficial a questão dos métodos empresariais alternativos de gestão. Moore concentra-se no modelo das “Cooperativas de Trabalhadores” abordando vários exemplos de sucesso em atividade nos EUA.

Usando o exemplo concreto de uma destas “Cooperativas de Trabalhadores”, a Isthmus, que se dedica à área de conceber e fabricar robots e sistemas de automação, vamos deitar nas próximas linhas uma visão sumária sobre este tipo de organizações:

1. A empresa é detida pelos próprios trabalhadores e o seu sucesso – que deriva necessariamente do desempenho de toda a equipa – é igualmente repartido
por todos que nele efetivamente participam.
2. A empresa é organizada sob o modelo de uma cooperativa, uma organização desenhada para agregar os recursos representados pelos indivíduos que a compõem de forma a alcançar um objetivo comum. Existem vários tipos de cooperativas: de Produção, de Consumidores e de Trabalhadores. A “Isthmus Engineering” escolheu o modelo de “Cooperativa industrial de Trabalhadores”.
3. Uma “Cooperativa de Trabalhadores” é um tipo de cooperativa onde os cooperantes são os mesmos que nela trabalham. As decisões de gestão são sempre tomadas de forma democrática em que cada membro tem um voto, na melhor aplicação do princípio fundamental das democracias: “um Homem, um Voto”.
4. Existe uma distribuição equitativa dos lucros da cooperativa entre todos os seus membros, independentemente das funções que desempenham na organização.
5. As Cooperativas de Trabalhadores têm um enfoque muito forte nas áreas de formação e na educação dos seus cooperantes.
6. Este tipo de organizações também mantêm laços de solidariedade entre os seus membros e as suas famílias, assim como preocupações de responsabilidade social para com a comunidade em que estão inseridos.

Acreditamos que a melhor forma de gerar riqueza e emprego não reside nas empresas públicas ou estatais, mas no empreendedorismo particular, na livre iniciativa em suma no Capitalismo. Mas um Capitalismo de pequena ou média escala e de âmbito local e não multinacional, de Empresas Locais, feitas para e a partir da Comunidade e das pessoas que a compõem e não de e para “conselhos de Administração” egóticos, babilonicamente remunerados e completamente irresponsáveis no que concerne aos efeitos das suas más decisões. Este modelo de gestão privado, apresentado pelas “cooperativas de trabalhadores” é uma opção que hoje nos é apresentado como possível pelo sucesso vincado das empresas que nos EUA e em outros países o escolheram. E sendo um modelo de gestão plenamente democrático é também melhor garantia contra os desmandos e loucuras de gestão a que os “gestores modernos” nos habituaram e porque exige empresas de pequena ou média escala e sempre de âmbito local, muito adequado ao paradigma das “Economias Locais” do economista alemão E. F. Schumacher que por aqui temos vindo a defender.

Fonte:
http://isthmuseng.com/aboutus/workerownedcoop/workerownedcoop.aspx

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Economias Locais: a visão de E. F. Schumacher

Quando em 1955, o economista E.F.Shumacher viajou até à Birmânia como consultor económico não sabia que estava prestes a produzir uma das suas mais importantes obras; “Economia Budista”. Nessa obra sublinhava a importância do “bom trabalho” no desenvolvimento económico e – especialmente – que “a produção de recursos locais para satisfazer necessidades locais era a forma mais racional de vida económica”.

Depois da sua viagem à Birmânia, Schumacher faria muitas outras viagens por outros países do Terceiro Mundo procurando-os convencer a desenvolverem economias auto-suficientes, advogando que estas deviam ser erguidas em torno daquilo que chamaria de “tecnologia intermédia”, uma classificação que agrupava tecnologias amigáveis, acessíveis e ecológicas.

Para Schumacher, a produção local é a melhor forma de conhecer a história ecológica e humana por detrás da manufactura de cada produto industrial ou agrícola. Só assim terá o consumidor verdadeiras hipóteses de saber que tipo de matérias-primas, de que forma foram extraídas ou produzidas, como foram processados os subprodutos ou desperdícios da sua produção e, sobretudo, que tipo de recursos laborais e de que forma de condições foram aquelas que estiveram na base da sua produção. Esta Localização da produção é o oposto exato das Deslocalizações de produção para países do Extremo Oriente que afastam dos consumidores a produção e que permitem as condições laborais e ambientais barbaras que se praticam em países como a China e o Vietname e que estando na base dos baixos custos de produção, não seriam possíveis se os consumidores desses mesmos produtos tivessem que conviver com as consequências ecológicas e ambientais dessa produção, nem se tivessem conhecimento direto – por amigos ou familiares – das condições laborais e humanas que a produção desses bens implica.

Adicionalmente, se a produção é Local, os produtos não precisam de ser transportados a longas distâncias consumindo combustíveis fósseis, poluindo a atmosfera e aumentando as emissões de CO2. Adicionalmente, uma região que utilize a sua força laboral na produção do essencial dos bens que consome está também mais blindada contra as oscilações da economia mundial e contra crises económicas globais como aquela que galopa hoje descontroladamente pelo mundo.

Enquanto cidadãos, o economista alemão acreditava na possibilidade de cada consumidor assumir uma atitude moral nos seus padrões de consumo. O ato de consumir não se esgota assim na mera satisfação de uma necessidade – real ou forjada pela publicidade – mas numa escolha criteriosa que responsabiliza social e ecologicamente todos os agentes económicos. Por isso, o modelo de Economia Local, implica um elevado nível de consciência cívica e de informação.

Cada comunidade local deve procurar bastar-se nos produtos mais básicos como alimentos, vestuário e energia e depender de importações apenas complementarmente e em produções mais especializadas. Por regra, toda a produção que implica volume físico dilatado deve ser local, e todo o bem ou equipamento que exige um elevado nível técnico ou um alto grau de especialização, pode ser produzido localmente, e exportados os seus excedentes. Uma comunidade que se consiga organizar localmente, serve de exemplo para as vizinhas e deixa propagar o seu exemplo contaminante pela região onde se insere. Importa assim fundar uma primeira comunidade seguindo estes moldes, não instaurar o modelo súbita e genericamente em toda uma região ou país, de forma segura e consistente, num único local ou município e depois deixar florescer esse exemplo.

Qualquer sistema económico depende do diálogo harmónico de três factores: terra, trabalho e capital. Por terra, entenda-se além do território, também os recursos naturais que a produção exige, como as matérias-primas, a energia e o espaço físico necessário para a cultura agrícola ou para a instalação da fabrica ou do armazém. O Trabalho é o esforço necessário para fazer a matéria-prima mudar de estado e forma, tornando-se no bem ou serviço consumido. Por fim, o Capital consiste na capacidade organizativa dos dois recursos anteriores: Terra e Trabalho, na energia polarizadora desses recursos e na disponibilidade mobilizadora de ambos. Só o Capital poderá organizar a produção e possibilitar a distribuição dos bens produzidos, sendo assim um aspecto sempre importante de qualquer atividade económica. Compreender esta arquitectura trilateral é essencial para desenvolver Economias Locais prosperas e estáveis.

O elemento primário desta trilogia é a Terra. Sendo primário a uma Economia Local, este elemento deveria ser realmente propriedade de alguém? A terra deve pertencer à comunidade que nela habita, não a um indivíduo em particular, porque só assim poderá realmente participar no desenvolvimento da Economia Local. Não quer isto dizer que somos contra a propriedade privada. Quer dizer que somos contra a propriedade privada da terra e que defendemos neste contexto o conceito de “não propriedade” ou “propriedade comunal” como a que ainda subsiste nalgumas aldeias portuguesas e que era comum nos “bailios” medievais portugueses. O modelo é hoje usado nos EUA sob a forma das “Community Land Trusts” que a E.F.Shumacher Society tem promovido e apoiado.

Nos EUA, as “Community Land Trusts” são empresas não lucrativas com um quadro de diretores democraticamente eleito. As suas terras resultam de ofertas e aquisição e são alvo de um plano de desenvolvimento que se rege pelas necessidades de consumo locais. Os edifícios construídos sobre essas terras comunais são propriedade privada, mas não o solo sobre o qual foram construídos e se forem vendidos, o seu valor deve ser oferecido à “terra comunitária” (Land Trust) ao valor dispendido apenas na sua construção. O proprietário pode assim conservar o produto do trabalho aplicado sobre a terra, mas não a própria terra, que permanece sempre nas mãos da comunidade.

Nos Estados Unidos há perto de 150 “terras comunitárias”. Sobrevivendo em relativa prosperidade, pela sua escassa área, estas parcelas de solo comum ainda não lograram cumprir a totalidade das suas promessas e dependem ainda da sua expansão e do apoio devoto de muitos entusiastas.

O Capital é o segundo elemento determinante da trilogia económica schumacheriana. O economista admite ao Capital o papel de simples ferramente de obtenção de crédito e de facilitar trocas numa comunidade. Oferecendo o controlo da emissão de moeda a uma coligação de Bancos (o modelo do FED, nos EUA) ou a um Banco Central, mais ou menos governamentalizado (Europa), estamos a criar um sistema onde o grandes emprestadores são favorecidos em relação aos pequenos e a favorecer a concentração bancária excessiva que esteve na raiz do quase colapso do sistema financeiro na presente recessão mundial: concentrar a Banca, pela via das fusões e aquisições sucessivas, criando um pequeno número de mega-bancos, é introduzir um imenso factor único de falha no sistema, porque quanto maior fôr a escala mais difícil será a um governo salvar o banco da falência e maior será o impacto do seu colapso na Economia real. A centralização bancária favorece também a centralização e a aparição de monopólios noutros sectores da economia, já que os grandes bancos preferem emprestar a grandes empresas, de escala semelhante à deles e assim tornam-se inimigos das pequenas e médias empresas e sobretudo, das empresas que apenas têm uma escala e um mercado local, já que favorecem as de vocação exportadora e globalizadas, ou seja, aquelas que pela sua essência, lhes são semelhantes.

Um dos cernes da proposta económica shumacheriana é precisamente o combate a esta concentração e a este monopólio do Capital. Democratizando o Capital pelo estabelecimento de moedas locais, opostas e complementares a moedas nacionais e favorecendo o estabelecimento de bancos de pequena dimensão que as emitam e financiem o consumo e a produção locais.

Nestes três factores de produção falta abortar o mais importante: o Trabalho. Sem a dignificação do trabalhador, com horários e retribuições humanas e razoáveis será impossível assegurar uma economia local minimamente estável.

Nas novas Economias Locais antecipadas por Schumacher, os bens consumidos na região, serão essencialmente produzidos na mesma região, sempre seguindo formas de produção sustentadas, na perspectiva ecológica, social e respeitando os valores e identidades culturais locais. Esta combinação só pode ser alcançada através da injecção de doses massivas de inovação e criatividade no tecido económico local e recorrendo invariavelmente a tecnologias intermédias, de pequena escala física e de capital e capazes de serem implementadas recorrendo apenas aos recursos energéticos locais. Quando os trabalhadores têm acesso a baixo custo à terra e dispõe de Capital a juros baixos podem criar os seus negócios e empresas locais, de pequena e média escala. Esta aproximação entre a propriedade e a produção significa que a riqueza produzida será distribuída de uma forma muito mais equitativa. Neste esquema o papel do consumidor não pode ser passivo ou acrítico, escolhendo apenas o produto que é mais barato, mas aquele que é mais “económico” agindo como um consumidor que escolhe segundo a sua própria consciência cívica e ecológica. E é nosso dever moral apoiar as empresas locais, em que a propriedade seja dos seus próprios trabalhadores em regime comunal (terra e edifícios) ou cooperativo, porque esta é a forma que melhor garante uma distribuição equitativa dos rendimentos do trabalho.

A construção de economias locais sustentáveis é crucial para a sobrevivência do Homem sobre a Terra. Só elas podem oferecer o tipo de pegada ecológica que protege o clima (pela sua escala), o património ecológico local e as especificidades culturais locais.

No livro “As Cidades e a Riqueza das Nações”, Jane Jacobs defende que a melhor estratégia para o desenvolvimento económico é apostar industrias capazes de produzir produtos que são atualmente são importados, e transformar matérias primas produzidas localmente, através do Trabalho local. Estas industrias locais são exatamente o oposto das atuais fabricas das multinacionais que abrem e fecham de um dia para o outro, deslocando-se pelo mundo fora ao sabor dos custos de mão-de-obra mais baixos. Inversamente, as empresas locais são mais resistentes aos caprichos da Globalização e estabelecem fortes ancoras locais de desenvolvimento, emprego e progresso.

Uma economia local verdadeiramente autónoma exige a fundação de novas organizações que a possam apoiar. Estas organizações não podem ser governamentais, têm que brotar da comunidade e alimentarem-se da sua dinâmica e do seu voluntarismo. Falamos de associações de consumidores e produtores, cooperando umas com as outras, as primeiras promovendo a partilha de informação sobre um consumo moderado, ético e local, as segundas agregando produtores e recolhendo benefícios da gestão em escala, organizando a produção e partilhando a distribuição e o armazenamento. Estas organizações terão apenas escala local, mas poderão formar confederações nacionais para efeitos de contacto, partilha de “boas práticas” e para manutenção de trocas que possam completar especificidades e necessidades locais. Estas entidades – privadas, porque detidas por indivíduos – trabalharão na comunidade e para a comunidade, respeitando o solo, a terra e usufruindo dos recursos naturais e energéticos de forma sustentável.

A construção deste novo edifício não será fácil nem rápida. Obriga a uma alteração radical dos nossos comportamentos e implica uma modificação profunda dos nossos padrões de consumo: consumir menos e melhor, no sentido em que cada escolha de consumo deve respeitar critérios éticos e deixar de consumir tantos bens materiais e mais bens culturais. Os Homens devem renegar o papel de consumidores passivos onde os neoliberais os querem encaixar e passar a ser co-produtores e criadores de riqueza material e de conteúdos culturais. A instauração de Moedas Locais, de quintas comunitárias, de fundos de capital comunitários, de micro-empresas detidas pelos próprios empregados e de alianças entre empresas locais, todos estes instrumentos poderão ser usados, rua a rua, de grupo de amigos para grupo de amigos, de cidade em cidade, gradual mas seguramente até alcançar todo o país.

Fontes:

http://www.smallisbeautiful.org/local_currencies/2004_conference_report.html
http://www.smallisbeautiful.org/
http://en.wikipedia.org/wiki/E._F._Schumacher
http://www.sustainablelivingsystems.org/Building%20a%20Local%20Economy-%20adapt%20fr%20S.%20Witt.doc
Local Currencies in the Twenty-First Century:
Understanding Money, Building Local Economies, Renewing Community;  Susan Witt and Christopher Lindstrom of the E. F. Schumacher Society

Categories: E. F. Schumacher Society, Economia, Movimento Internacional Lusófono | Etiquetas: | 4 comentários

Réplica a Gaitero sobre as Economias Locais e o Futuro da Lusofonia


(Logotipo da E. F. Schumacher Society in http://www.schumachersociety.org)

Este pequeno artigo é uma réplica aqui deixada pelo nosso comentador habitual Gaitero a propósito da atual recessão mundial no passado dia 6 de fevereiro.

“O sistema capitalista já nasceu com problemas graves e já nasceu fardado a acabar.”

O Capitalismo Liberal é contudo o mais resiliente, porque flexível e adaptável sistema económico jamais concebido pelo Homem. Levado à classe de dogma religioso, o sistema de organização económica designado por “capitalismo” expõe as suas contradições e incapacidades. Capaz de gerar riqueza, não toma em consideração as consequências desta geração no meio ambiente, nem as condições de vida que impõe aos seus produtores. O Capitalismo não é pois um sistema capaz de auto-regulação (como querem os neoliberais), mas tem de a receber do exterior, dos Estados (cuja redução de Poder e amplitude, defendem os neoliberais) e sobretudo das Democracias e dos seus legítimos e eleitos representantes.

“Estamos passando por uma crise das maiores já enfrentadas, tudo graças ao sistema capitalista em sua totalidade, o ser humano não existe única e exclusivamente para o consumismo, não devemos mais pensar desta forma, não podemos mais aceitar a atual conjuntura.”

É aquilo a que Agostinho da Silva intitulava de “cidadão produtor-consumidor”. Uma versão diminuída e acefalamente “limpa” por intermédio de doses massivas de publicidade e de controlo dos meios de comunicação. No atual desregrado sistema capitalista, como dizes, o ser humano é apenas um “recurso humano”, dispensável, redutível à desumana condição de robot, ou, na melhor das hipóteses, de consumidor acrítico e desprovido de critérios morais ou ecológicos na selecção dos bens ou serviços a consumir.

“É preciso, é necessário que se faça que se desenvolva um novo modelo econômico-social, o sistema capitalista significa nada mais que ”tudo na mão de poucos e nada na mão de muitos ”. Este sistema deu espaço para a Burguesia tomar o poder do mundo, os bancos hoje são os verdadeiros governos, muitos seres humanos estão morrendo de fome, morrendo de doenças graves, muitos seres humanos não tem educação, não tem direito a uma vida digna, isto não esta certo.”

A distribuição de riqueza sempre foi o grande problema do Capitalismo. A América do sul é neste contexto um excelente (e simultaneamente, péssimo) exemplo: as políticas neoliberais do FMI foram aplicadas cegamente em muitos países a partir da década de oitenta e a Colômbia é neste contexto provavelmente o melhor exemplo: o aumento dos índices macro-económicos não foi acompanhado pela melhoria dos rendimentos das camadas mais pobres nem pela redução da distancia entre classes sociais. O liberalismo, a forma atual que assume o Capitalismo, produziu riqueza, mas não a soube repartir. Os anos do grande Boom da Globalização de finais da década de oitenta e 2007 são bom sinal disso mesmo: em países como a China e o Vietname houve muitos novos ricos e uma melhoria sensível do nível de vida do geral da população, mas os mais ricos, os empresários e os funcionários do Partido, ganharam incomparavelmente mais do que os operários e, especialmente, que os agricultores e os habitantes das zonas rurais.

“Não estou aqui dizendo para que se volte o socialismo.
Mas que se crie um novo modelo um modelo com base no comunismo, que mantenha a comunhão a sociedade acima de tudo, um novo modelo que tenha por base o ser humano, um modelo que permita a todos direito a água, luz, saneamento básico, saúde, segurança e principalmente educação.”

A palavra “Comunismo” está hoje ferida de morte. Tive a sorte de poder visitar a Checoslováquia dois meses apenas depois do colapso do regime comunista e garanto que na época ninguém, mas ninguém mesmo queria falar de comunismo… O exemplo da aplicação “na Terra” da utopia de Marx, na versão gizada por Lenine e Estaline na década de vinte e trinta, haveria de revelar-se profundamente ferida de irrealidade e de dar origem a algumas das maiores vagas repressivas e tiranias mais cruéis da História.

O falhanço do comunismo, ou melhor dizendo do “sovietismo”, porque é disso que verdadeiramente se tratava, reduziu muito do apelo pela Esquerda, em todo o mundo. A queda do Muro de Berlim arrastou atrás de si, muitos partidos comunistas ou “adoçicou-os” tornando-os mais ou menos “social-democratas”. Esse processo curiosamente não se registou em Portugal, onde o PCP, se manteve fiel à sua “linha dura”. Mas o fim desse “Comunismo” não vedou o futuro a outras alternativas a este Capitalismo neoliberal cujas fragilidades a grave crise económica atual expôs de forma absolutamente gritante. Se as promessa do “Comércio Livre”, de desregulação do sector financeiro nada mais fizeram do que entregar a um grupo muito restrito de especuladores e de Executivos parcelas crescentes de abastança enquanto que a parte do Trabalho era cada vez menor, então é porque estamos num sistema político-económico onde a concentração empresarial corresponde à concentração da riqueza. Onde fusões sucessivas e deslocalizações sistemáticas esvaziam o Ocidente e os países que mais direitos humanos e laborais tinham, e que ameaçam todas as formas de protecção social duramente conquistadas. É preciso acabar com a doentia primazia do sector financeiro sobre o produtivo. Enquanto que um investimento na especulação imobiliária ou bolsista for mais seguro e rentável do que o mesmo investimento num sector produtivo, então estamos no reino do Capital e não do Homem.

“É preciso unir os povos do nosso planeta, unir a nação Lusófona, por exemplo, seria o começo, e criar programas de identidade, nacionalismo, educação e transferência de riquezas, tornarem o povo igualmente rico, igualmente inteligente.
Acabar com a PIG (Partido da Imprensa golpista), acabar com os governos corruptos, tornar a sociedade mais digna, mais harmoniosa.”

Os povos lusófonos têm um papel especial ainda por cumprir na História… Não é por acaso que mesmo nos mais duros anos da ditadura militar nunca o Brasil se lançou em qualquer aventura militar externa. Portugal foi o único império colonial que deixou o seu rei como imperador da colónia emancipada e o único que durante alguns anos deu à colónia o estatuto de capital. Nenhuma outra potência colonial recrutou tantas forças indígenas na sua Guerra Colonial e em nenhuma outra guerra de indulgência, os soldados coloniais, no dia seguinte à assinatura dos acordos de paz, se entregavam a apaixonados jogos de futebol com aqueles que horas antes os atacavam com morteiros e rajadas de Kalashnikov.

A missão que poderá caber a uma união dos povos lusófonos, que poderá ser prefaciada por uma união política Cabo Verde-Portugal, Portugal-Brasil ou Portugal-São Tomé e Príncipe, sendo depois seguida pelas demais nações lusófonas, poderá ser essa: a de anunciar novas formas de organização dos homens e das economias: mais humanas, essencialmente locais e justas, ecologicamente sustentáveis e que privilegiem o Homem e não o Capital, os interesses financeiros e os indicadores macro-económicos.

“E tudo deve começar pelo sistema econômico, tudo deve começar com um aumento dos lucros dos funcionários, com a redução da jornada de trabalho, com o aumento da escolaridade, com a criação de projetos, de programas, que envolvam a comunidade, que permitam ao povo que vive dentro de seu bairro tirar um dia da semana para realizar ações educativas. Seja arrumar uma praça, seja limpar um rio, ou reflorestar um parque, um terreno, para fazer brotar em cada ser humano um sentimento de comunhão, de união hoje praticamente instinto.”

A Economia, a organização do Trabalho e a sua sustentação ecológica serão sem duvida os pontos mais importantes da ação política nos próximos anos. A redistribuição da riqueza, a devolução aos trabalhadores dos rendimentos que têm vindo a perder desde a década de oitenta assim como o regresso a padrões de vida familiar saudáveis é, de facto, imperativa. É impossível continuar a ver as empresas a encontrarem formas mais ou menos subtis de levarem os seus funcionários a cumprirem jornadas de trabalho diárias de dez e doze horas, a trazerem consigo equipamentos portáteis (laptops com 3G, blackberries, telemóveis de serviço, etc) nas ferias, nas baixas por doença, nos fins-de-semana e noites e esperar que ao fim de anos destes abusos as pessoas continuem a manter os mesmos níveis de produtividade.

Eu não consigo acreditar que o ser humano tenha se tornado fantoche de grandes empresas, que tenha se tornado simplesmente um consumista louco, sem intelectual, sem instinto de discernimento, eu não acredito que nos tornamos monstros prestes a destruir nosso Planeta, prestes a acabar com o próprio povo, prestes a se auto-exterminar. Concordo contigo, quando afirmas que é preciso encontrar formas de ligar as pessoas à comunidade, inserindo-as em associações que se dediquem à melhoria do bairro, da aldeia, enfim, da comunidade local. Todos temos que ter uma intervenção cívica nas nossas comunidades, não deixando esgotar a nossa intervenção política em conversas de café ou em estéreis debates, mas levando-a até às nossas comunidades locais, participando da economia local, consumindo com critérios éticos, ecológicos e favorecendo sempre os produtos produzidos ou transformados por organizações locais. De permeio a tudo, terá que haver um sistema educativo que promova o mérito, a exigência, e, sobretudo, a criatividade em desfavor do ensino escolástico ou demasiado dependente de memorizações massivas. Esta será uma educação popular, no sentido em que respeitará a alma popular e não tecnicismos estéreis tidos como fins em si, quando não passam de meios para alcançar objetivos. Esta “educação popular” respeitará a visão pedagógica de Agostinho da Silva, com uma programação de matérias muito essencial, focada no ensino dos três pilares: matemática, português e artes, deixando todo o demais espaço lectivo para seminários práticos e criativos que respondam à vocação e inclinações de cada um, cobrindo toda as disciplinas do entendimento humano.

Esta é a visão do futuro e do papel nele que julgo ter a Lusofonia, entendida aqui como o cumprimento do verdadeiro destino de Portugal, malbaratado aquando da imposição do “capitalismo de Estado” e da transmutação perversa e megalómana dos Descobrimentos em Expansão imperialista e do decaimento da atividade exploratória do mundo em atividade exploradora.

Categories: Brasil, E. F. Schumacher Society, Economia, Movimento Internacional Lusófono | Etiquetas: | 18 comentários

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