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Anjos e Demónios: Erros e Inconsistências do filme de Ron Howard, a partir de um livro de Dan Brown

Anjos e Demónios em http://www.zastavki.com

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Este fim-de-semana fui ao cinema. Tendo em conta a raridade destas deslocações nos dias que correm, isso, poderia até já constituir notícia. Mas não, esse não é o tema deste texto (que seria pouco mais do que irrelevante, claro), mas o filme que fui ver foi o “Anjos e Demónios”. Obviamente, trata-se de um filme de entretenimento, não de um ensaio histórico ou filosófico e – ainda mais obviamente – o filme “comprime” a narrativa e enredo do livro até um ponto tal que chega mesmo a prejudicar a compreensão da história e o desenrolar do enredo, mas enfim… De qualquer forma, essa compressão significa que muitos dos detalhes e erros do romance original de Dan Brown estão omissos na sua versão cinematográfica, o que para ele é sempre uma sorte… Porque são os erros factuais são bastantes, como poderão constatar na Internet, rapidamente.

O que é mais curioso é que Dan Brown vende os seus livros com a alegação de que faz uma investigação muito aturada antes de publicar o que quer que seja, mas depois, dá aos factos este tratamento de polé… No “Anjos e Demónios”, na badana alega por exemplo que “todas as referências a trabalhos artísticos, túmulos, túneis e arquitetura em Roma são inteiramente FACTUAIS.” e se assim o diz, então opta conscientemente por abandonar o terreno firme da História e da Verdade sem o substituir pela ficção e pela criação artística. Na verdade, adultera intencionalmente os factos históricos, não o assume e “vende” os seus produtos como “factos romanceados”, que efetivamente, não são.

Eis uma lista dos 26 erros que me parecem mais evidentes e que podem ser encontrados no filme (já que o livro, esse, não li):

1. Langdon diz a Vittoria que o Panteão “obteve o seu nome da religião original praticada aqui, o Panteísmo, a adoração de todos os deuses“. Em primeiro lugar, os romanos não praticavam o Panteísmo, a religião que defende que Deus está em tudo e parte ativa de todos os fenómenos. Os romanos eram, como os gregos, de onde importaram o essencial da sua religiã politeístas, isto é, adoradores de várias divindades. “Pan” denota “união”, ao invés de “Poli” que denota em latim, pluralidade… Brown confundiu os dois termos.

2. Os Illuminati não são, nem de perto, aquilo que Dan Brown faz deles… Não se tratam (ou tratavam) de um grupo secreto de cientistas e matemáticos devotado à promoção da ciência e do progresso científico, mas de um grupo diretamente oriundo da Maçonaria Alemã e que – oficialmente – teria sido encerrado pela policia da Bavária em 1785. Os Illuminati teriam sido fundados por Adam Weishaupt em 1776. Existe um grande número de historiadores que acredita que o “Great Seal” presente nas notas norte-americanas de dólar testemunha a influência da sociedade secreta na fundação dos Estados Unidos. Os Mações estavam bem dentro dos primeiros governos dos EUA, isso é certo, sendo por exemplo o vice-presidente Henry Wallace um Mações dos mais altos graus. E este selo aparece no filme, mas sem que exista um detalhe explicativo sobre o mesmo…

3. O comandante da Guarda Suíça é um tal de “Olivetti”. Ora esse é um nome italiano e a maioria dos comandantes da Guarda são além de origem suíça, pertencentes à aristocracia de fala alemã. É certo que existem cantões suíços de língua italiana, mas não é daqui que provêem os comandantes da Guarda… O atual é o coronel Daniel Anrig e o seu predecessor era o coronel Elmar Mader, ambos de cepa germânica.

4. Quando o Camerlengo descola num helicóptero da Praça de São Pedro, conseguiria fazê-lo a partir de qualquer helicóptero? Geralmente a certificação é dada para um aparelho e modelo muito concreto e é muito dificil operar aparelhos de fabricantes diferentes com o tipo de habilidade demonstrada nesta cena.

5. A suposta antena Wireless de onde emitia o sinal de vídeo do contentor com a anti-matéria tinha que alcance? Para chegar do Castelo até à Praça de São Pedro temos umas boas dezenas de quilómetros…  muito além de qualquer alcance máximo na tecnologia “wireless” 802.1.

6. A anti-matéria contida (anti-hidrogénio, o átomo mais fácil de criar) na garrafa magnética teria que estar na forma de Plasma, aquele que por ser altamente ionizada pode ser eletricamente carregada. Não pode estar nem no estado sólido, nem no líquido. Ora o estado de Plasma é particularmente difícil de manter e exige condições físicas que manifestamente não eram cumpridas no interior desse pequeno contentor portátil!

7. Dan Brown diz que a garrafa magnética tinha dois magnetos, um em cada extremo. Mas isso não garantiria que a anti-matéria se manteria afastada das paredes de vidro da garrafa, porque cada um teria dois pólos, e essa estrutura iria não manter o anti-hidrogénio no centro, mas empurrá-lo rapidamente para um dos extremos da garrafa, até à aniquilação…

8. A colisão matéria-antimatéria emite radiação. Muita radiação mesmo, estando a maioria dela na banda dos raios gama, a radiação mais perigosa e energética de todas! A explosão de luz no final do filme era uma explosão de raios Gama e aquela distância teria dizimado toda a gente e especialmente o Camerlengo.

9. Ao que parece – a creditar no enredo – o objetivo da equipa do CERN era o de gerar uma fonte de energia fabulosa. Mas… Há um problemazito. É que para gerar anti-matéria (anti hidrogénio, a sua forma mais simples com apenas um positrão e um anti-protão) é precisa uma quantidade tremenda de energia! Um reator de anti-matéria gerada desta forma nunca teria um balanço energético positivo, já que para criar a anti-matéria que consome teria que exigir quantidades fabulosas de energia. No filme, alude-se também ao interesse que as “empresas de energia” teriam no processo de geração de grandes quantidades de anti-matéria, mas de facto, esta não poderá jamais ser usada como fonte de energia (um erro cometido também em Star Trek), é que a anti-matéria não ocorre espontaneamente na natureza, tendo que ser fabricada átomo a átomo. E o retorno energético é segundo a página do CERN de um décimo de um bilião em relação à energia investida! O CERN admite ainda que se reunisse toda a anti-matéria que fabricou ate hoje (fora do LHC) ela mal chegaria para acender uma lâmpada elétrica, quanto mais… criar uma explosão de 5 quilotoneladas!

10. Se há uma câmara a emitir imagens a garrafa magnética, esse sinal teria que poder ser seguido até à fonte!

11. Como poderia uma pequena câmara wireless emitir através das grossas camadas de pedra do Castelo? Na sua casa, o seu sinal wireless dificilmente chega de um extremo da casa ao outro, como poderia assim atravessar grossas paredes de pedra e sair do edifício?

12. A luta na Piazza Navon, um dos locais mais frequentados de Roma poderia ter lugar sem que ninguém estivesse presente e com a praça praticamente vazia, ainda antes das 11 da noite, com todos os restaurantes dessa movimentada praça romana?

13. Se Langdon era mesmo um professor de Harvard, especializado na simbologia do Renascimento, então como é que não é capaz de ler italiano? Como demonstra o episódio em que Vittoria lê para ele o livro de Galileu, porque este admite “não saber ler italiano”.

14. Brown não diz quantos átomos de anti-matéria estão confinados na garrafa. Hum. Mas espera. Se são átomos, então têm carga nula e logo, não podem ser contidos magneticamente por pólos negativos ou positivos! E se houvesse uma massa de alguns centímetros de largura numa garrafa magnético, isso implicaria colocar nesse pequeno volume triliões de triliões de partículas, todas com a mesma carga! Que tipo de energia seria necessária para conter essa massa em tão diminuto volume?

15. O Panteão não é a “igreja católica mais antiga de Roma”. A conversão do templo romano ocorreu em 609 d.C. obviamente a essa data já havia muitas igrejas católicas em funcionamento.

16. Os supostos “baixos-relevos” da Praça de São Pedro, não o são… São apenas parte do Compasso em torno do obelisco e representam os ventos do norte, sul, este e oeste. E se assim é, porque é que Langdon olhou para o do Oeste e decidiu que ele é que era o marcador e não um outro qualquer?

17. A passagem secreta entre o Castelo Sant’Angelo e o Vaticano não é… secreta. A entrada está bem à vista num dos bastiões, e não do castelo propriamente dito e as suas entradas – em ambos os extremos – são públicas e amiúdes vezes visitadas por turistas.

18. No filme e Livro, surge a indicação que que somente um Cardeal poderia ser eleito Papa. Ora, não é assim… Teoricamente, qualquer homem pode ser eleito Papa. Tradicionalmente, é de facto um Cardinal, mas no que concerne ao Direito Canónico, qualquer um pode ser eleito Papa.

19. No que concerne à Eleição Papel, a ideia que apresenta o autor norte-americano é a de um grupo de cardinais fechados na Capela Sistina, votando sem cessar, até escolherem um Papa.Não é assim. É de facto até comum que não votem no primeiro dia, ou que o façam apenas uma vez.

20. Por várias vezes, Brown diz que o Camerlengo é um “padre comum”. Na verdade, é um Cardeal, nada mais nada menos e exerce funções semelhantes a um Ministro doas Finanças e após a morte dos Papas, não assume totalmente a regência interina do Vaticano, mas fá-lo juntamente com três assistentes eleitos.

21. Nada liga Galileu Galilei aos Illuminati.

22. O termo “preferiti” que brown usa para os quatro cardeais que seriam os favoritos a ganharem a eleição papel não existe. O termo comum é, pelo contrário, “papabili” e estes – ao contrário do que parece pensar o autor – não fazem parte de um grupo claramente identificado e, de facto, os favoritos a ganharem a eleição são frequentemente preteridos na Eleição…

23. O “Grande Eleitor2, o Cardeal Mortati que parece presidir à mesa da Eleição Papal não existe como um cargo oficial ou oficioso. Os cardeais que ocupam a mesa são escolhidos aleatoriamente e rodam de três em três dias e são em número de três contadores de votos e três revisores.

24. O termo “Eleição por Adoração” é falso. Desde logo “adoração” é no Catolicismo algo usado sempre em relação a Deus, não a um Ser Humano, mas sobretudo, aquilo que existe é o termo “eleição por aclamação” em que os cardeais se mostram unanimemente de acordo quanto a um candidato, mas não pode ter havido debate, nem negociação, já que tal é encarado como uma inspiração divina. E esse não é o caso da eleição papal aqui apresentada…

25. O corpo de Rafael não foi transferido para o Panteão em 1758, mas de facto, “transferido imediatamente para aqui logo após a sua morte”, como se pode ler na placa no Panteão.

26. Não é plausível que num livro de Galileo surgissem em código palavras em inglês. A língua era certamente desconhecida para um italiano como Galileu, sendo na época considerada pouco mais do que “bárbara”.

Fontes:
http://www.dannyscl.net/2005/01/dan-brown-is-fraud-list-of-errors-in.html
http://en.wikipedia.org/wiki/Angels_and_Demons

http://www.catholicnews.com/data/stories/cns/0902085.htm
http://www.astro.wesleyan.edu/~bill/courses/astr107/wes_only/Lectures/lecture30.htm
http://www.greatseal.com/
http://freemasonry.bcy.ca/texts/Illuminati.html
http://public.web.cern.ch/Public/Content/Chapters/Spotlight/SpotlightAandD-en.html

http://www.imdb.com/title/tt0808151/

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