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Conclusão: Parágrafos agostinianos de pensamento político em “Ir à Índia sem abandonar Portugal”

Talvez cause espanto a alguns a profundidade e a extensão desta visão política de Portugal e do futuro do mundo que Agostinho da Silva dá mostras possuir nestas simples e apenas exemplificativas frases. De facto, a preocupação por temas de índole política, social e económica atravessa praticamente todas as intervenções públicas, orais e escritas do Professor, em Portugal e no Brasil, e ignorá-la, como têm feito alguns “estudiosos de Agostinho” não deixa de ser curioso… Tão curioso, como o comportamento sectário daqueles que sempre tentaram enclausurar o pensamento agostiniano nos esquifes “direita” ou “esquerda”, identificando aqui e ali, as opiniões que mais se conformavam aos seus desígnios e ignorando aquelas que mais se aproximavam da corrente contrária. Agostinho aliás brincava com estas tentativas dizendo que “os de Direita acusam-me de ser de Esquerda, e os de Direita, de ser de Esquerda”…

O dualismo Esquerda-Direita é aliás hoje praticamente obsoleto… Como se observa facilmente pela dificuldade em separar os discursos e políticas de PS e PSD, por exemplo… Não que se possa falar de um “partido agostiniano”, ainda que o seu pensamento político fosse consistente, profundo e extenso, se Agostinho não gostava do termo “discípulos” ou de ter “seguidores”, então nunca poderia ter formado um núcleo para um futuro partido político. Contudo, este pensamento tem as bases suficientes para constituir um alicerce para um conjunto de propostas políticas, consistentes, visionárias e alternativas à estafada dicotomia Esquerda-Direita. Esta poderá aliás a ser uma das formas de manifestação do MIL: Movimento Internacional Lusófono, por enquanto apenas movimento cultural e cívico, de futuro um movimento de intervenção também política advogando as ideias que Agostinho da Silva defendia:

Reunião com a Galiza,
Sociedades gratuitas,
Descentralismo municipalista,
União lusófona,
Libertação do trabalho material,
Rei simultaneamente hereditário e eletivo sem capital própria,
Comunitarismo agrário e pastoril,
Posse coletiva das terras e dos instrumentos de trabalho,
Economia de mercado,
Desenvolvimento da ciência e das técnicas,
Escola da experiência e o aprendizado dos misteres,
Reuniões de Cortes, com representantes democraticamente eleitos dos municípios federados

Se estas frases (algumas delas citações literais e todas presentes nos acima listados parágrafos agostinianos) não são um programa político… Então a cegueira de quem as lê está muito para além de qualquer limitação do órgão de visão.

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6. Parágrafos agostinianos de pensamento político em “Ir à Índia sem abandonar Portugal”: O Trabalho

In Negotium

Página 59

“o século em que seja possível, feito rapidamente, em parte mínima do dia, o trabalho material que houver a realizar, entregarmo-nos depois todos à divina ocupação de refletir e discutir, de passar em revista as doutrinas dos sábios e os interesses da cidade, de inventar, destruir e recompor o mundo dos sentidos e o mais puro universo das ideias. A fadiga que esmaga um corpo depois de oito ou dez horas em frente de um volante ou de um dia inteiro na faina do campo é um crime contra o Jeová que nos criou à sua imagem, um sacrilégio contra a partícula de fogo eterno que palpita por favor dos deuses em cada um de nós. O trabalho não é virtude, nem honra, antes veria nele necessidade e condenação; é, como se sabe, consequência do pecado original. A reconquista do Éden comportaria para o homem a libertação do trabalho, lavá-lo-ia dessa mancha de animal doméstico sob o jugo, havia de o restituir ao que é o seu essencial carácter: o ser pensante.”

Regressa aqui o Professor Agostinho a um dos seus pontos favoritos: a parcela que o Trabalho desumanizante (porque repetitivo e mecânico) deve ocupar na nossa vida deve ser severamente reduzida até à sua expressão mais mínima. Tendo em consideração os atuais níveis de  mecanização e automatização, como se compreende que o único ajustamento de que as sociedades atuais sejam capazes de realizar sejam o aumento do Desemprego e a criação de camadas demográficas inteiras onde o desemprego é crónico, como o é atualmente entre as mulheres com mais de 40 anos. Ainda em meados de 2007, altos responsáveis da Reserva Federal dos EUA alegavam que um dos maiores “problemas” da sua economia era a existência da uma taxa de desemprego de 5 por cento “demasiado baixa” para favorecer a competitividade internacional das exportações dos EUA… O sistema atual incomoda-se com o conceito do pleno emprego, julga-o economicamente ineficiente e procura sob todo os meios manter taxas de desemprego elevadas, acima dos 8 por cento, de forma a manter os salários contidos e as reivindicações laborais e sociais dos trabalhadores num patamar mínimo. É este sistema desumano e cruel que tem que ser abolido.

Ainda que os liberais acreditem apenas no curto prazo e no aforismo segundo o qual “a prazo estaremos todos mortos”, é difícil acreditar num sistema económico cuja saúde depende da exclusão de um número crescente de seres humanos (os desempregados crónicos) e de uma constante erosão dos níveis de rendimento e da distribuição da riqueza. Um tal sistema não se pode sustentar a prazo já que destrói lentamente, mas de forma decisiva a capacidade aquisitiva de um número crescente de agentes, os consumidores… e sem consumidores não há economia.

Importa pois mudar radicalmente a forma de organizar a produção, as organizações e o trabalho humano para que num futuro mais ou menos próximo todos possam ter acesso aquilo de que precisam, de forma digna e em níveis mínimos de subsistência, isto sem instaurarmos sociedades de “subsídio-dependentes” nem hordas de excluídos desesperados e dispostos a tudo para sobreviver. Estamos absolutamente convictos de que a imaginação humana, devidamente empregue nesta demanda será capaz de encontrar variadas e eficazes soluções para este problema da mecanização e do consequente desemprego…

A redução demográfica será sem dúvida um ponto essencial para implementar um tal grau de alteração social… Como absorver tal redução da massa laboral sem reduzir a demografia? Outra forma seria a de reduzir drasticamente a duração das jornadas de trabalho. Não faz sentido manter jornadas de trabalho de sete ou oito horas, se a mecanização e a automatização satisfaz a maior parte do trabalho repetitivo e mecânico, ou seja, a parte desumana do Trabalho, em metade desse tempo. Outra solução poderia ainda ser tornar cada trabalhador num acionista minoritário da sua organização, recebendo uma parcela do lucro e colaborando na sua gestão. Mas de todas as alternativas, aquela que seria porventura a mais interessante teria que passar pelo reforço da inovação e da criatividade organizacional… E isso requer tempo para pensar, um clima corporativo propício ao desenvolvimento e acolhimento da mudança e das novas ideias e intrinsecamente adverso ao conservadorismo estagnante, à piramidização dos organogramas e fluxos de poder e ao papel da Autoridade sobre o da Autonomia e responsabilização de cada um pelo bem coletivo e pela prosperidade da organização onde exerce a sua atividade profissional.

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5. Agostinho da Silva, Ensaios sobre Cultura e Literatura Portuguesa e Brasileira I: “Portugal é, de todos os cantos da Península, o único que tem verdadeiramente génio político, talvez, de todas as gentes que falam latim pelo mundo, o único real herdeiro do povo romano”

Página 30

“Portugal é, de todos os cantos da Península, o único que tem verdadeiramente génio político, talvez, de todas as gentes que falam latim pelo mundo, o único real herdeiro do povo romano.”

De facto, em nenhum outra província, alem da Ibéria houve uma adesão mais profunda e completa à cultura romana. Vários imperadores tinham alias raízes hispânicas e a Hispânia foi das derradeiras províncias a tombarem sob as inclementes espadas germânicas. Foi esta matriz romana que sobreviveu algures dentro da alma dos portugueses de quinhentos e que hoje subsiste numa esquecida centelha presente ainda hoje no coração dos povos da lusofonia. Não que os portugueses tenham a obsessão pelo detalhe, o fascínio pelo aspecto utilitário das coisas e o instinto organizacional dos romanos… Preferimos o esboço de planos grandiosos e enfastiamo-nos com os detalhes e as minúcias organizativas que levavam os romanos ao nirvana… O português é o génio do improviso e da criatividade, e nisso está a léguas do sentimento romano. Mas tem como ele o gosto pelos grandes – e aparentemente impossíveis – projetos. Duarte Pacheco defendendo Diu contra centenas de milhares de naires é o herdeiro do legionário que erguia a sua lança curta contra as hostes ululantes de alanos… Como o romano, também o português despreza o pensamento abstrato, especulativo e estérilmente “filosófico” do grego e hoje, do anglosaxónico ou germânico. Como o romano, o português fala ainda hoje uma variante próxima do… Latim. E é bem conhecida a importância que uma língua tem na formação das matrizes culturais das civilizações.

“Só que, por fatalidade, e logo desde o começo, faltou a Portugal, para uma plena ação, a companhia e a integração de seu complemento natural para os lados do Norte. A ação de Portugal no Brasil não teria sido o que foi, apesar de toda a actuação do minhoto nas Gerais, garantindo um Brasil interior, ou do transmontano sobre o Prata, garantindo afinal a fronteira de Oeste, se não tivesse havido o bandeirantismo dos seus alentejanos e, indiretamente, as suas guarnições algarvias para o sul; a gente mais ou menos mourisca para o sul do Tejo, a gente já de falar crioulo, os que vinham do deserto e de seu gosto aventureiro e livre, serviram de complemento aos de Entre-Minho-e-Tejo, verdadeira base de Portugal, o Portugal da gente que finca o pé na terra e obriga a terra a dar tudo o que tem, metal ou seiva, ou isso mesmo, base a conto de lança (sic). Mas para o norte, a Galiza não estava.”

Este aspeto feminino de Portugal, ou melhor dizendo, da Portugaliza, a entidade composta e completa que reúne a terna e feminina Galiza com o duro e sonhador Portugal é a primeira das prioridades a cumprir se alguma vez se formar algum protótipo de “União Lusófona”.  A União lusófona poderá efetivamente começar de varias formas:
1. Pela união entre Cabo Verde e/ou São Tome e Príncipe e Portugal
2. Pela união entre Portugal e o Brasil, como sonhava Agostinho durante os seus tempos de exílio no Brasil
3. Pela união entre Portugal e a Galiza
4. Pela união – simultânea – de todos os países da CPLP

Entre estas quatro possibilidades aquela que porventura seria mais fácil, assim houve a visão estratégica que rareia na classe política contemporânea, seria a primeira. Se esta possibilidade fosse referendada pelos povos cabo-verdiano, sãotomense e português, temos a certeza que em todos estes países a votação favorável à constituição de uma federação ou confederação comum seria arrasadora. Não há aqui as energias negativas, nem os recalcamentos históricos ou os anticorpos de mentalidade que são ainda comuns nos países africanos lusófonos em cujos territórios se travaram as batalhas da Guerra Colonial. São também países que desde há muito enviam os seus melhores filhos para Portugal, em busca de uma vida melhor, e estão aqui geralmente bem integrados e entrelaçados com famílias e gentes portuguesas. Não receamos uma corrente migratória avassaladora, como porventura temerão alguns… Simplesmente, o mercado laboral acaba sempre por se autoregular, e só existem vagas migratórias consistentes quando há emprego nos locais de destino. Se este não houver em Portugal esses “temidos” emigrantes não virão, se houver, então que venham porque precisamos deles, especialmente devido aos nossos crónicos problemas demográficos…

A tese da união entre Portugal e o Brasil tem a sedução natural aos grandes projetos e compreende-se bem o fascínio de Agostinho pela mesma… O Brasil é hoje o berço maior da língua portuguesa, uma potência económica emergente, uma autentica “superpotência” regional mercê da sua forca militar, económica e demográfica, e de todos os BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) é aquele que pela sua independência em hidrocarbonetos, pelo bioalcóol e sobretudo pela natureza alimentar das suas exportações, será o que melhor resistira à atual recessão mundial. Compreende-se bem assim as vantagens que um país como Portugal pode obter pela unificação com um gigante continental como o Brasil. Num dos seus escritos, Agostinho chega mesmo a defender a simples integração de Portugal na federação brasileira, mantendo a sede em Brasília ou mudando esta para Nova Lisboa (Huambo), já que na época Angola era ainda uma província ultramarina portuguesa.

A quarta possibilidade é a união política entre Portugal e a Galiza. Existe hoje um pequeno, mas muito ativo grupo de galegos reintegracionistas e existe uma familiariedade do sentir e da fala que comove e arrepia quando encontramos uma fala galega… Erupte então uma amarga sensação de perda, de incompletitude, como se tivéssemos perdido algo, quando Afonso Henriques pelas frias razoes da estratégia diplomática e militar optou por deixar a Galiza entregue ao império de Leão e marchar para sul, para as desunidas taifas muçulmanas. Em termos de desenvolvimento social, económico e cultural, Portugal e a Galiza são sem duvida os membros mais semelhantes da lusofonia, e essas semelhanças facilitariam tal aproximação… Mas há ainda Espanha e diminuído, mas nítido, “império de Madrid”… Nunca a Espanha, toleraria uma saída da Galiza a caminho de Portugal, especialmente porque recearia que depois esse movimento de desagregação se repetisse na Catalunha, em Olivença e no Pais Basco. Mas Madrid não será sempre Madrid. A Europa quer reduzir o poder e as funções dos Estados, e quando o lograr fazer em Espanha… Talvez tenha chegado o momento de unir essas duas metades que a Historia separou: Portugal e a Galiza.

A quinta tese é aquela que se nos afigura mais improvável… Dificilmente assistiremos à união espontânea dos atuais membros da CPLP. É nossa convicção que tal aproximação começará sempre por via de um exemplo, de uma antecipação que demonstre aos demais e mais hesitantes países a possibilidade e as vantagens desse sonho. E esta oportunidade há de surgir… No por vir, o momento em que as profecias se cumprirão e Portugal se fará Portugal, deixando fisicamente de o ser e diluindo-se no seio de uma União lusófona para a qual foi fadado desde o princípio dos tempos.

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5. Parágrafos agostinianos de pensamento político em “Ir à Índia sem abandonar Portugal”: O Sistema de Educação e o Trabalho

O Sistema de Educação e o Trabalho em “Sanderson of Oundle”

Página 75

“E quererá também que toda a oficina passe a ser uma escola (…) que se não esmaguem as faculdades superiores do operário sob o peso e a monotonia de tarefas sem interesse e sem vida; que se faça a clara distinção entre o homem e a máquina; que, finalmente, se ajude o trabalhador a encontrar na sua ocupação, em todas as ideias que a cercam e a condicionam ou que ela própria provoca, o Bem Supremo da sua vida e da vida dos outros.”

A vertente prática do ensino da escola, a necessidade imperativa de transferir para a “oficina” (entendida aqui como o local onde se realiza o trabalho físico e material) a essência de um processo de aprendizagem, é um dos cernes fundamentais da visão agostiniana do sistema de educação. Em lugar de longos e densos programas curriculares, observamos aqui uma vontade de simplificar e de transferir da academia e das salas de aula para os locais de trabalho, para estágios práticos, para opções de estudo que dependem em primeiro lugar do particular interesse ou vocação dos alunos e bem menos de teóricas e abstractas visões pedagógicas.

Mas não são somente os alunos que devem partir para as “oficinas”… São também os trabalhadores das “oficinas” que devem partir para as escolas. Melhor ainda, são as escolas que devem entrar nas oficinas. Se os planos curriculares formais devem ser reduzidos à sua expressão para básica e fundamental, contemplando apenas o ensino da matemática, das artes e da língua portuguesa, num quadro que o Professor arquitectou num outro seu texto, então, todas as demais vertentes teóricas e práticas do conhecimento humano serão propagadas nos locais de trabalho, nas empresas, nas organizações públicas, nas associações sem fins lucrativos, nos diversos órgãos de soberania e do Estado. Estes estágios práticos farão com que existam cruzamentos de experiências nestas “oficinas”, mutuamente frutuosos onde todos aprenderão com a multiplicação de experiência e saberes.

A segunda parte desta citação de Agostinho alude a outro dos pontos centrais da sua visão da sociedade futura: a supressão do trabalho repetitivo, mecânico e intrínsecamente desumano no Homem. Se a natureza soube encontrar para o Homem um cérebro, capaz de perguntar pela natureza das coisas e descobrir os processos que regem as suas relações, então o Homem tem o dever de o utilizar. É este cérebro, esta fonte de infinitas potencias criativas que não pode ser empregue de forma a reduzir a condição humana à de escravo, de simples, passivo e obediente executante de ações físicas repetitivas, que não requerem e que até coexistem mal com o pensamento, o raciocínio e a criatividade. Qualquer forma de Trabalho que implique a monotomia da sua ação, a repetição infinita de tarefas, divididas em minúsculas parcelas até um ponto de fragmentação tal que o operário perca a visão de conjunto daquilo que está de facto a produzir deve ser suprimida. Estas tarefas serão sempre mais eficazmente executadas pelas máquinas e hoje, a tecnologia cibernética e informática já consegue efetivamente fabricar engenhos capazes de satisfazer este tipo de necessidades das fábricas e dos escritórios. Libertos destas tarefas, os Homens poderão dedicar-se a tarefas mais úteis, produtivas e criativas. Não alude aqui Agostinho a uma criatividade especulativa pura já que acreditava “nunca ter havido filosofia portuguesa, com excepção de Espinosa”, sem contudo a excluir explicitamente. Nesta passagem do texto agostiniano há – acreditamos nós – uma referência a um tipo de criatividade e engenho de pensamento prático “todas as ideias que o cercam” e que se é exercido no âmbito concreto e prático que rodeia o ambiente laboral onde o Homem se movimenta. Se o trabalho for consistente com a vocação e o interesse pessoal do trabalhador. Se este se sentir identificado e realizado no seu local de trabalho e se neste existirem condições para que exista um clima propício para a criatividade esta acabará por natural florescer e de fazer desenvolver os seus frutos, aumentando a eficácia e encontrando novos processos mais produtivos que aumentem a saúde económica das suas organizações, produzindo simultaneamente trabalhadores motivados e seres humanos realizados.

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3. Parágrafos agostinianos de pensamento político em “Ir à Índia sem abandonar Portugal”

Página 47
“então, o povo português achou que digno de imperar no Espírito Santo (quer dizer, de ser o Rei, a figura principal do império futuro, da idade futura do mundo), era a criança. Com a sua imaginação, a sua alegria, a sua capacidade de perguntar, todas essas coisas.”

Nestas frases Agostinho desenha aquela visão que tem da sociedade do futuro: uma sociedade assente na imaginação, na alegria e numa constante e permanente capacidade para tudo questionar e de eternamente buscar as razões das coisas. Em vez de “fazer”, de contabilizar as toneladas de aço ou o número de barris de petróleo fabricados ou exportados, as sociedades do futuro devem orientar-se para o mais livre e pleno exercício da imaginação de que o Homem pode ser capaz. Em vez de imensas hostes de fabricadores-consumidores que vegetam vidas inteiras em autênticas colmeias e com cada vez menos direitos e tempo para si próprios, Agostinho antevê nestas sociedades do futuro, prefiguradas pelas celebrações do “Império do Espírito Santo” um novo tipo de recentramento, mais humanista e livre do que qualquer sociedade do passado ou do presente.

Estas novas sociedades, fruto de uma visão joaquimita e providencialista do Futuro que busca muita da sua inspiração em António Vieira, são sociedades orientadas para a produção de bens culturais e não para a produção de bens, materiais e serviços, como o são aquelas que hoje conhecemos. O professor não despreza contudo os bens materiais, pelo menos não aqueles que são essenciais à satisfação das mais básicas necessidades humanas. Bastas vezes, alude à necessidade imperativa de primeiro nutrir o corpo, vestir o nu e descansar a alma, para que, só depois, possa o Homem dar espaço ao desenvolvimento do seu poder criativo, entorpecido ou esquecido se o corpo passa fome e produtivo na sua máxima capacidade se está, pelo contrário, satisfeito.

A criatividade e a imaginação humanas, os dois pontos centrais desta visão agostiniana da sociedade dos tempos vindouros, são aplicadas não somente no campo da produção cultural, mas também nos domínios da investigação científica, da engenharia, da concepção de novos modelos de organização e de pensamento. A criatividade, a inventividade e o poder de improviso, essencial num mundo onde tudo muda tão depressa, são assim também aplicadas a todas as áreas do conhecimento e do trabalho humano. Em vez de fazer assim, “porque sempre se fez assim”, Agostinho preferia sociedades que questionassem internamente todos os seus processos, na satisfação de um eterno ciclo de melhoria contínua, aumento sempre a eficácia dos processos produtivos, pela sua mecanização e automatismo crescentes e libertando assim cada vez mais os homens das tarefas repetitivas e desumanizantes que estes cumprem nas fábricas e campos do mundo desde os alvores da História.

“o ideal do povo português é que, um dia, nós possamos comer sem ser obrigados a apresentar a cedulazinha que garante que nos trabalhamos.”

No tipo de sociedade e economia que o Professor antevê não poderá jamais haver “trabalho” para todos. Pelo menos não o conceito de “trabalho” sob o conceito que atualmente temos dele e que é bem compatível com a origem latina (“tripalium” – instrumento de tortura) do mesmo… Numa economia onde o essencial das tarefas produtivas serão entregues a robots, a complexos e autónomos sistemas de informação e a processos cada vez mais automatizados. Neste futuro, a maioria dos Homens estarão livres para outras tarefas mais humanas e criativas. É assim impossível que todos recolham uma remuneração de fábricas e de serviços que – no essencial – serão automáticos. Um outro tipo de organização social, menos fundada sobre o “dinheiro” e sobre o “trabalho físico e manual” terá assim que ser encontrada… Agostinho da Silva advoga em vários dos seus textos a possibilidade de “sociedades livres”, sem a satisfação do desejo egótico pela “propriedade privada” que marca o aspecto essencial das sociedades pós-modernas da atualidade. Não defende a “propriedade coletiva” que tão maus e nefastos frutos deu nas experiências comunistas e “socialistas” do século XX. Pelo contrário, prefere o conceito de “propriedade comunal” da Idade Média portuguesa ou o de “não propriedade”. Numa sociedade em que “nossas” seriam apenas as coisas que nos eram imediatamente mais próximas, como a roupa e uma habitação, tudo o mais seria gratuito e a ficção do dinheiro e da eterna e fátua necessidade deste seria desfeita. Se precisássemos de transporte, tomá-lo-ía-mos. Se precisássemos de um livro, busca-lo-ía-mos numa biblioteca ou livraria (tornada neste modelo, numa espécie de biblioteca de bairro), se precisássemos de alimentos, ou os buscávamos na nossa horta, plantada com gosto e prazer, ou a procurávamos no mercado automatizado ou provido apenas daqueles vendedores que retirassem prazer do contato humano e da atividade mercantil característica do festivo “espírito de feira” da nossa medievalidade.

“e o que é a Ilha dos Amores? É o império do Espírito Santo entre os homens. É não perder nenhuma das características de ser homem e ganhar todas as que se atribuem a Deus. Porque os homens ali, como se vê pelo seu comportamento com as ninfas, são plenamente homens, comem e bebem no banquete, mas depois estão fora do Tempo e fora do Espaço, como está Deus.”

Essa é a grande diferença desta sociedade do futuro, antevista aqui a partir do sonho camoniano da “Ilha dos Amores”: uma sociedade que realiza as capacidades potenciais do Homem e que acende a fagulha divina que arde na sua alma. Esta visão é diametralmente oposta às sociedades atuais onde essa centelha do divino, criadora como aquela manifestada pelos deus demiurgos do passado, se manifesta de forma sempre reprimida e intensamente desumanizante. Os Homens (marinheiros em Camões, porque são estes aqueles que viajam para o Futuro) cumprem assim a sua potência divina, e isto porque realizam nesta nova sociedade, regida não pelo império da Pimenta ou pelo ferro dos canhões, mas pela transcendência do Amor e pela alquimia dos corpos, a sua divina potência e assim de Homens se transformam em Deuses: livres, plenos e criadores.

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2. Parágrafos agostinianos de pensamento político em “Ir à Índia sem abandonar Portugal”: Galiza

Página 40
“Como essa coisa da Galiza. Como é? Separados ainda pelo rio Minho? Como é isso? Para mim não tem importância nenhuma estar separado ou não estar separado, porque estamos separados de outros lugares por coisas mais importantes do que o rio Minho, pelo Atlântico ou pelo Pacífico. (…) Não vamos agora querer que a Galiza pertença a Portugal ou que Portugal pertença à Galiza; vamos entender que há uma cultura galega como há uma cultura do Minho, como há uma cultura do Algarve, vamos mas é entender as culturas peninsulares.”

Não se trata portanto de uma simplista defesa da reintegração da Galiza num Portugal onde ela afinal nunca pertenceu, nem sequer nos alvores da Fundação da nacionalidade. Agostinho da Silva não defende também a secessão da região portuguesa a norte do rio Douro e a sua adesão à Galiza, antecedendo a sua saída da Espanha e a formação de uma “Portugaliza” nortenha, como advogam alguns “reintegracionistas” do norte de Portugal ou da Galiza. Em vez de um redesenho das simples fronteiras administrativas e políticas de Portugal e de Espanha, Agostinho defende uma separação da Espanha nas suas múltiplas partes, ou “Culturas”, recentrando nas periferias regionais aquilo que o centralismo de Castela quis aglutinar em torno de Madrid.

Se houver um ressurgimento da tradição pré-romana de independência, liberdade e autonomia local, de, enfim uma época em que cada cidade era essencialmente independente, formando coligações e alianças ao sabor das necessidades e conveniências, então encontramos aquele modelo de “federação livre de municípios” que o Professor defende noutra sua obra. Não estamos assim perante uma simples proposta de fragmentação de Espanha, mas perante uma inovadora divisão não somente de Espanha, mas também de Portugal pelas suas regiões, e dentro destas, de uma subdivisão pelos seus municípios. A rede multiforme de entidades semi-independentes quebraria não somente as tendências centralistas de Madrid mas também a atual forma unificada assumida pelo Estado português. Segundo esta visão – extrapolada a partir da de Agostinho – as regiões da Ibéria seriam mais importantes do que as divisões estatais atuais, em Espanha e Portugal. As energias anímicas das regiões peninsulares trariam mais dinamismo e liberdade criadora às novas entidades sub-estatais que nasceriam deste regresso ao Local, recuando a partir desta obsessão doentia pelo Global que os grandes interesses económicos e financeiros nos procuram impor sobre as mais variadas formas, mas recorrendo sempre e sem pudor a um domínio cada vez mais completo de todos os meios de comunicação.

O recuo desde as posições nacionalistas até a posições regionalistas e destas, em sucessão, para o municipalismo aplacaria as tensões que surgiriam naturalmente dos dois lados da fronteira, isto porque não teria mais importância a defesa de fronteiras obsoletas, mas os interesses que ao fim ao cabo são aqueles que interessam sobretudo a todos: os interesses locais. Pelo recentramento na escala administrativa e política mais fundamental, mais próximo dos eleitores e possibilitando um contato direto entre estes e eleitos, este recentramento municipalista da democracia e da autonomia administrativa iria – sem abolir os Estados atuais – possibilitar a pacifica erupção de uma natural re-aproximação de galegos com portugueses, unidos pela língua e cultura, mas separados pelas fronteiras políticas e pelas agruras e erros da História.

Página 41
“A bela colcha de retalhos que é a Península. E vamos insistir nisto: a Galiza tem de ser independente da Península e uma pedra no seu mosaico. Como tem de ser a Catalunha, como tem de ser o Algarve, como têm de ser os Açores ou as Canárias, exatamente isso. E vamos ver se isto não será um bom xarope, um bom tónico, para a Europa tomar e se deixar das besteiras em que anda. Vamos ver como é isso da entrada de Portugal na CEE. Se é um bebé que se vai acolher nas mãos de uma ama ou se é, pelo contrário, alguém, a Península, que vai dizer à Europa como é que ela se tem de humanizar. Como é que, estragada porque andou toda a vida pensando em computador, vai parar essa história e vai voltar atrás para retomar do humano tudo aquilo que perdeu em função da eficiência e do êxito.”

A caminhada encetada pela Europa a partir de Maastricht é clara e aponta para um nítido federalismo onde as necessidades locais são vencidas pelos interesses de “maiorias” nem sempre nítidas e democráticas. Este percurso estritamente utilitarista e economicista está na base desta falta de espírito ou alma europeia que se constata pela Europa fora. As nações que não fazem ainda parte da União Europeia, mas que querem entrar, anseiam não por fazer parte dela, mas pelos seus fundos estruturais. A multiplicidade europeia, que podia ser uma das forças da União Europeia é prova cabal da falta de solidez do edifício europeu: em vez de assumir a necessidade de forjar uma transnacionalidade europeia num continente sempre dilacerado por conflitos nacionalistas, a eurocracia desenraízada de Bruxelas, procurou utilizar os fundos e auxílios estruturais para colmatar essa lacuna anímica e assim “comprar” a adesão a uma coisa europeia que ao fim de cinquenta anos permanece ainda desalmada. Em resultado, encontramo-nos perante um fragilíssimo edifício, mantido num grau mínimo de coesão apenas por um frouxo e financeiro feixe de interesses e não pelo essencial sentimento de comunhão que une os povos no seio das Nações. Enquanto não se puder falar de alma europeia, não haverá “nacionalismo europeu”, e sem este as longas e nunca plenamente resolvidas causas e memorais dos longos conflitos entre os Estados do continente serão sempre mais fortes do que qualquer burocrática e economicista “União Europeia”.

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4. Agostinho da Silva, Ensaios sobre Cultura e Literatura Portuguesa e Brasileira I

Página 30
(…) “numa prefiguração da Commonwealth, haver uma companhia de republicas unificadas por uma Coroa; uma Península que tivesse conservado aquele gosto de conversação, de “vida conversável”, como diria mais tarde um navegador, para cristãos, judeus e árabes, essa Península, para lá de todas as contingências económicas, teria dado modelo a mundo.”

Ainda que possa parecer contraditória, esta visão agostiniana de uma federação de repúblicas encabeçada por um rei, esta fusão de republicanismo com monarquismo, ainda que profundamente original, bebe diretamente na capacidade sincrética que caracteriza a maneira lusófona de estar perante o mundo. As “repúblicas” de Agostinho da Silva são não somente as nações ibéricas como Portugal, Galiza ou a Catalunha e o Pais Basco, mas também os municípios que compõem estes Estados e que o professor sonhava constituírem “repúblicas livres e autónomas”, unidas pela reunião periódica em “cortes” e pela figura um tanto simbólica, mas plenamente unificadora de um rei eletivo.

Desta forma, podemos até dizer que o professor Agostinho era um “iberista”, no sentido em que desejava ver um dia toda a Ibéria reunida sob a tutela de um rei único, respeitador das liberdades e diferenças culturais e linguisticas de todos os povos peninsulares. Seria esta Península unificada, não mais sobre a tutela mais ou menos imperialista de Madrid ou castelhana que melhor seria capaz de manter o respeito pelas idiossincrasias religiosas e culturais que caracterizaram os melhores anos da Península, no dinâmico período pré-romano ou sob o califado de Córdova ou no período das taifas, e, mais tarde na Idade Media. Esta capacidade para a as convivência e para o frutuoso dialogo de culturas é o melhor traço da forma mediterrânea de estar e um dos pontos onde a portugalidade melhor se manifesta, sendo também o aspecto essencial do Culto do Espírito Santo.

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3. Agostinho da Silva, Ensaios sobre Cultura e Literatura Portuguesa e Brasileira I

Página 29

“E aqui, ao que me parece, se insere a grande façanha de Portugal. O que Portugal fez de maior no mundo não foi nem o descobrimento, nem a conquista, nem a formação de nações ultramarinas: foi o ter resistido a Castela. O ter mantido, através do sangue e fogo, o principio da independência dos territórios periféricos.”

Se Portugal não houvesse logrado sobreviver às agruras e pântanos da historia, não se falaria hoje de Península Ibérica, mas de Espanha. Será apenas pela independência presente do nosso pais que se prova a possibilidade da existência de Estados independentes no seio do espaço geográfico peninsular. Portugal é assim a prova provada de que é possível resistir ao poder agregador e devorador de nações de Castela e Madrid e o horizonte para onde olham todos aqueles que na Península acalentam ainda sonhos de liberdade e independência… Enquanto houver Portugal, Galiza, Catalunha e demais partes divergentes do corpo peninsular poderão continuar a sonhar com a libertação a partir do centro castelhano e castelhanizante… Por isso, é tão importante para Portugal manter vivo o seu exemplo de independência política e económica, por isso a crescente integração económica de Portugal na Espanha e a integração política de Portugal na Europa (regida pelos “senhores louros” do norte) é tal importante, porque exemplar.

No mundo atual, onde a pressão esmagadora da globalização faz sentir o seu peso sobre todos os aspectos da vida humana, iremos assistir a um numero crescente de reações a esta pressão, exterior e asfixiante… Exterior, porque sendo propulsada por restritos interesses económicos e financeiros é alheia ao Homem; asfixiante, porque na sua ânsia de tudo formatar, de aculturar massivamente tudo em nome da bitola da anglofonia, acaba por se exprimir como um tumor que cresce sem fim, ocupado todo o espaço mental e social, e pela via do domínio imperialista dos meios de comunicação se torna incortornável e “pensamento único”.

Uma das reações possíveis a esta pressão globalizadora poderá ser a “localização”. Ou seja, o regresso a um tipo de sociedade e de economia onde a prioridade não será mais produzir para exportar, nem hiper-especializar a produção, mas produzir localmente (no âmbito do município ou da região) o maior numero de produtos possível. Recentrar, localizando é também a melhor de re-humanizar as desumanas e frias sociedades da atualidade e a mais solida e duradoura forma de garantir a liberdade individual e a independência das nações e culturas do mundo perante o poderoso e ávido monstro da globalização neoliberal.

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2. Agostinho da Silva, Ensaios sobre Cultura e Literatura Portuguesa e Brasileira I

Página 29

“de cada vez que as tais circunstâncias históricas, quem sabe por obediência a que leis internas do mundo, precisaram de espanhol sob pressão, fabricaram-lhe recipientes de grossíssimas paredes; prenderam o espanhol; prenderam-no com os romanos, prenderam-no com os visigodos, prenderam-no com Carlos V, prenderam-no com o breve parlamentarismo e com outros sistemas mais modernos; e talvez outras prisões o esperem, se os fados lhe não correrem favoráveis. Acho que o único recipiente elástico que lhe fabricaram foi o do Califado de Córdova e um pouco o dos reinos de taifas; talvez uma rápida Idade Média, com seus “Comuneros”. Depois, cilindro e válvula; exígua válvula.
O grande instrumento de todas estas prisões sempre foi o castelhano, pagando com os seus defeitos as suas qualidades, pagando com a sua violência a sua paixão”

E agora querem prender o “espanhol” – entendido aqui como o habitante da Península Ibérica, no mais lato sentido – sob as tramas da burocracia, das normativas e dos regulamentos europeus… Mas entretanto, Castela e Madrid – a sua criatura – continua a exercer sobre os povos peninsulares o seu “império”, hoje mais largo e discreto do que nunca, mas presente, ainda assim. Apesar das “autonomias”, Espanha continua a ser um Estado centralista, sem as essências descentralistas de uns Estados Unidos ou até da Alemanha. As “autonomias” sentem esse jugo, e dai as recentes declarações de Rovira, na Catalunha, a adopção do português como terceira língua na Extremadura e as energias centrípedas bem vivas na Galiza.

A Península não precisa de impérios. Não precisa da autoridade de Madrid estendida sobre todas as suas parcelas, como advogam iberistas como José Saramago e precisa ainda menos dos ditames germânicos dos senhores louros do norte da Europa. A Península precisa de reencontrar as suas raízes de liberdade municipal e regional pré-romana e islâmica e sacudir o jugo de todos os centralismos com que a tentam prender. Comecemos por descentralizar, municipalizando, Portugal e depois, aproximemos Portugal à Galiza e aos concelhos lusófonos de Olivença… Por arrasto descentralizemos e esvaziemos as tiranias de Lisboa e Madrid, sem esquecer a sofreguidão federalista de Bruxelas, depois ouçamos os apelos da Catalunha e da Extremadura, assim como a fera autonomia basca e aí… Talvez encontremos em solo peninsular a verdadeira e perdida Ibéria que tantos labores e esforços mereceu a Roma para domesticar.

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1. Agostinho da Silva, Ensaios sobre Cultura e Literatura Portuguesa e Brasileira I

Página 29

“não creio que a verdadeira cultura e a verdadeira humanidade e o verdadeiro futuro do mundo estejam para lá dos Pirenéus. Não creio que aquilo a que se deveria chamar Europa, excluindo cuidadosamente não só a nossa Península Ibérica, mas igualmente o sul de Itália, daquilo a que hoje se chama Europa, não creio que a Europa da gente loira, ordenadora e filosófica seja muito mais do que isso, ordenadora e filosófica, e possa ver-se livre, a não ser por uma transformação que lhe atingiria o próprio cerne, daquele feitio utilitário, pratico e mecânico, que a América do Norte, sua herdeira, levou às ultimas consequências.”

Agostinho não era visivelmente um crente na União Europeia. O conceito de ideal “europeu” que tanto atraiu os português nos primeiros anos após a adesão nunca contagiou o Professor, que sempre a encarou como uma espécie de rendição a um tipo de vida e de cultura civilizacional que é estranha à essência da portugalidade e da forma lusófona de estar perante o mundo. A obsessão geométrica e contabilística dos europeus do norte que se  tem tentado importar – sem sucesso – para Portugal é inadequada para a matriz cultural de Portugal, onde conceitos como a generosidade, o sonho e a imaterialidade são pólos essenciais e absolutamente antagónicos ao utilitarismo estéril onde os herdeiros dos germanos são excelsos. Contra a pontualidade e o formalismo germânico, opomos nos a improvisação e a criatividade, e será nesta contraposição de contrários que nascera inevitavelmente a energia que inevitavelmente nos afastará de uma Europa desalmada e unida apenas por um estreito e monetarista feixe de interesses.

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Introdução: Parágrafos agostinianos de pensamento político em “Ir à Índia sem abandonar Portugal”

Nos próximos parágrafos iremos comentar alguns segmentos de texto de teor político, económico e social que podem ser encontrados numa interessante obra intitulada “Ir à Índia sem abandonar Portugal – Considerações – Outros textos” editada pela Assírio & Alvim em 1994.

A primeira parte deste pequeno livro de apenas 140 páginas recebeu o título de “Ir à Índia sem abandonar Portugal” e consiste na passagem a escrito de uma conversa de Gil de Carvalho e Manuel Hermínio Monteiro com o professor Agostinho da Silva. A segunda parte do livro, é formadas pela reunião de:
“Considerações”, uma edição de autor de 1944; “Aqui falta saber, engenho e arte, O tempo e o modo”, n.31/Out. 1965;
“De como os portugueses retomaram a Ilha dos Amores”, Lisboa, Bairro Alto, 1982;
“Portugal ou Cinco Idades”, Lisboa, Bairro Alto, 1982;
“Fantasia portuguesa para orquestra de História e de Futuro”, Cultura Portuguesa, Lisboa, 1982.

Ainda que não seja propriamente um escrito de Agostinho da Silva, nem que os textos que o incorporam sejam dos mais citados, são uma fonte importante para compreendermos a visão que o Professor tinha do futuro e do papel que nele iria desempenhar o “homem político”… Sem nunca ter militado em nenhum partido, nem proferido apoios ou desapoios a nenhum partido ou movimento cultural, Agostinho da Silva nem por isso deixava de considerar os temas políticos como os seus favoritos, discorrendo abundantemente sobre eles.. Como veremos nos próximos parágrafos agostinianos de pensamento social e político…

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Agostinho da Silva: 15 anos após a sua morte

“Filósofo, poeta, ensaísta, teólogo, fundador de universidades. Agostinho da Silva marcou o séc. XX português e o seu espírito livre continua a contagiar todos aqueles que se cruzam com a sua obra. Um colóquio sobre o seu legado tem hoje lugar em Lisboa.
“O Legado de Agostinho da Silva: quinze anos depois da sua morte” é o tema do colóquio que decorre hoje na Faculdade de Letras de Lisboa.”

(Videos Sapo)

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Agostinho da Silva: “O Português preferiu a poesia da aventura, do sonho, a ser impelido para as coisas, ao trabalhinho que teve o holandês, que teve o inglês”

“O Português preferiu a poesia da aventura, do sonho, a ser impelido para as coisas, ao trabalhinho que teve o holandês, que teve o inglês. Agora Portugal vai ter problemas. Portugal vai ter o grande problema que nós todos temos, que é sermos o que somos. De nos cumprirmos. O grande problema que nós temos na vida é cumprirmo-nos.” (…) “Nós fomos feitos para o impossível. Deixe o possível para os alemães. O possível, com grande magnanimidade eu deixo para os alemães e para os franceses. Nós o que temos que cumprir é o impossível.”

Agostinho da Silva

Portugal foi formado na beira de um Oceano, não nas margens do Danúbio ou nas escuras florestas góticas da Escandinávia ou nas cinzentas colinas dos Países Baixos. A viva luz ambiente, a pressão -por vezes esmagadora – imposta pela presença de uma imensa e turbulenta massa oceânicas imprimiu desde cedo um carácter muito especial aos povos que foram chegando a este extremo europeu, que aqui se foram mesclando, camada após camada, ate enformarem aquilo que hoje conhecemos como o “português” e que espalhando-se pelo mundo fora, haveria de botar sementes de Lusofonia no Brasil, em África e na Oceânia que ainda hão de frutificar e unir – nesse carácter aventureiro comum – todos estes povos dispersos pela geografia e pelos acasos da Historia.

Foi a paixão pela aventura, que nunca existiu num formato tão essencial e absoluto em nenhum outro povo alem, talvez, excepto, nos gregos e dos fenícios, de que a portugalidade é plena herdeira, quer geneticamente, quer em termos de temperamento e alma. Se holandeses, ingleses e alemães se bastam e satisfazem como formiguinhas metódicas e organizadas, o português aborrece-se de morte nessas tarefas contabilistas e contadoras e sonha com mares abertos, com aventuras em terras distantes e feitos únicos. Por isso um pais tão pequeno conseguiu colonizar um pais continente tão extenso e diverso como o Brasil, por isso o regime de Salazar fez tudo quanto pode para travar os fluxos migratórios para África, por isso a emigração portuguesa foi sempre tão intensa ao longo de tantas décadas (e por isso mesmo regressa agora em plena força). O português não se fez para viver em Portugal. O português é acima de tudo um cidadão do mundo, fiel à aventura do Descobrimento e do Desbravamento e sonhando com novos mares e terras renovadas. Quando tentaram fazer de nos um “país europeu” entrámos em longa depressão coletiva numa Europa de germânicos e eslavos com quem não nos identificamos nem na alma profunda, nem no temperamento superficial. Os nossos irmãos mediterrâneos, espanhóis, italianos e gregos comungam connosco deste sentido sentimento de inferioridade em relação aos Senhores do norte da Europa, mas não têm a força anímica que já revelámos ter, resistindo a duas perdas de independência e mantendo as fronteiras mais estáveis de todo o continente.

Portugal tem a missão e o dever históricos de liderar os povos mediterrâneos, da margem nortenha deste mar, ate um ponto comum, que os separe dos povos do norte que sempre cobiçaram os seus Estados e solarengas paragens, que os afaste para as escuras e húmidas florestas do norte e que refundem em torno dos conceitos mediterrâneos de “vida conversável” e aventura empolgante as formas de vida que os neo germânicos tornaram em contabilidade e aforramento financeiro. O Homem mediterrâneo não foi formado para contar e somar, o mediterrâneo, de onde brota em primeira linha o portugueses e através dele, o lusófono, fez se para viver e contar o que viveu, não para somar o número de pregos que usou na sua caravela, nem os quilos de pimenta que embarcou em Cochim. Foi quando o passámos a fazer que desenhámos o fim de Portugal e preparámos – séculos depois – a adesão a uma Comunidade europeia com a qual nada temos a ver.

Publicado também na Nova Águia


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Resposta a Renato Epifânio em “SOBRE O PENSAMENTO POLÍTICO DE AGOSTINHO DA SILVA”

“SOBRE O PENSAMENTO POLÍTICO DE AGOSTINHO DA SILVA
Para o Clavis, em jeito de comentário geral à última série de textos que ele aqui publicou. E em homenagem ao seu grande empenhamento neste projecto.”

Obrigado, Renato, mas o meu maior empenhamento será sempre uma fração daquele que lanças sobre os projetos da Nova Águia e do MIL.

“1. Que Agostinho da Silva teve um pensamento político, isso é inegável. Esse pensamento político decorre, muito simplesmente, da sua visão de Portugal, da Comunidade Lusófona e do Mundo. Ora, como sabemos, Agostinho da Silva foi um homem coerente e consequente – logo, não poderia ficar apenas no plano “cultural” e “espiritual”. Para mais, porque ele foi tanto um homem de pensamento quanto um homem de acção. E o melhor contra-exemplo para quem acha que há alguma incompatibilidade entre esses dois planos…”

Sejamos claros: existem varias interpretações e visões para aquilo que o MIL é ou pode ser. Para mim é uma forma de procurar realizar a visão política de Agostinho que sumariamente comentei nestes dez artigos. Agostinho agiu, em Portugal e, sobretudo no Brasil. Não teve uma interpretação do Pensamento como sendo algo que esterilmente se move apenas nos domínios do intelecto ou das abstracções, trabalhando no terreno no Brasil, entre as populações locais e aconselhando políticos e até o presidente do Brasil.

“2. Tendo tido um pensamento político, esse pensamento não se encaixa nos mais vulgares quadros mentais – que tudo dividem entre “esquerda” e “direita”. E, por isso, de facto, Agostinho foi olhado com profunda desconfiança e suspeição quer pela “direita” quer pela “esquerda”. Porque, em última instância, estava para além de uma e de outra. Porque, desde logo, conseguia ser simultaneamente de esquerda – sobretudo, no plano social – e de direita – sobretudo, no plano cultural…”

Por isso não vejo o movimento consubstanciado no MIL como um movimento ou “protopartido” de Direita ou de Esquerda. Se é o pensamento de Agostinho da Silva que lhe serve de propulsor essencial e este não pode ser facilmente encapsulado nesta clássica mas anacrónica estratificação política então não podemos encaixar o MIL em qualquer um destes locais virtuais do espectro político. Talvez resulte daqui alguma da ira que pela blogoesfera mais ligada à Extrema Direita se sente em relação ao MIL e à Nova Águia: a frustração por não terem aqui

“3. Desde logo por isso, o seu comprometimento com o jogo político nunca foi muito efectivo. Mas também não exageremos – no Brasil, Agostinho da Silva foi assessor do Presidente Jânio Quadros, tendo antes apoiado um concorrente deste. Em Portugal, é certo que nunca apoiou expressamente nenhum candidato e/ ou partido. Mas o próprio explicou porquê: tinha regressado a Portugal depois de 25 anos fora; não se queria indispor com ninguém (há uma “Conversa Vadia” em que ele diz isso claramente). E por isso também chegou a recusar uma candidatura própria à Presidência da República…”

O Professor era um arquitecto, no sentido de que sempre se preocupou mais com estabelecer alicerces, lançar ideias e conceitos novos ou adormecidos, do que em correr a alistar-se a qualquer partido ou em alinhar em qualquer disputa por qualquer cargo de poder. Verdadeiro filosofo, sempre optou por terçar no plano das ideias e não dos diretos – e tantas vezes sujos ou promíscuos – combate estritamente políticos. Preferiu plantar a colher e se hoje podemos encarar o seu pensamento político como uma alternativa ao obsoleto, decadente e cada vez menos representativo sistema partidário português, tal deve-se também ao facto de o Professor ter sabido manter-se distante de um simples alinhamento político.

“4. E quanto ao MIL? O MIL tem uma visão de Portugal, da Comunidade Lusófona e do Mundo. Logo, tem uma perspectiva política. Em que medida será coerente e consequente com ela, isso, depois, ver-se-á. Acho que não nos devemos precipitar a esse respeito. O MIL, enquanto tal, não tem sequer um ano de vida…”

È impossível pensar Portugal e a comunidade lusófona sem a pensar politicamente. Não advogo contudo que o MIL se deva transmutar imediatamente num puro movimento ou partido político. Para isso seria necessário refundar o próprio movimento, fazer sufragar a mudança de orientação entre todos os atuais membros do MIL e, sobretudo, seria preciso ganhar uma “massa critica” de intervenção social, cultural e cívica que ao fim de apenas um ano de existência ainda não lográmos obter. O MIL tem tomado (e tomará) varias posições políticas e/ou cívicas e nesse sentido JÁ é até um movimento político… E não poderá deixar-se encastrar no mero enclave da defesa da “cultura lusófona” ou de outros temas académicos e intelectuais. Para ser efetivo, para ser capaz de interferir nos destinos do mundo e cumprir ainda que parcialmente os sonhos de Vieira, Pessoa e Agostinho, tem que ser atuante. E esse espaço de ação tem que ser político, hoje e amanha. Em formas diferentes de acordo com as circunstancias e condicionantes de cada momento. Neste momento sob a forma de “movimento cultural e cívico”, amanha sob a forma que for mais adequada, seja ela qual for…

“5. Algo, contudo, posso desde já antecipar, com toda a certeza (porque te conheço, e porque, conhecendo-te, sei que és uma pessoa coerente e consequente). Se algum dia chegarmos a esse patamar mais declaradamente político, tu serás um daqueles que estarás a bordo…”

A coerência de pensamento não deve ter o valor de um Dogma, mas mudar de opinião quanto a questões fundamentais não é de facto a minha política… Mudo naquilo que deriva delas e sempre que os factos apontam para o erro da posição inicial, mas neste contexto da defesa da Lusofonia, da União lusófona, da primazia das Economias Locais e das moedas locais, do Municipalismo, das economias comunalistas e “gratuitas”, assim como na abolição do “Estado Central”, da Partidocracia e da saída de Portugal da União Europeia não vejo como hei de mudar, sem mudar algo de essencial em mim… Estou nesses combates e estarei sempre, ao lado do MIL, onde essas posições forem consistentes com as do Movimento e à frente ou ao lado dele quando não o forem. Nesse sentido, estarei sempre “a bordo”, ainda que possa navegar no navio do lado ou no galeão da frente…

Texto publicado original na Nova Águia

Categories: Brasil, Movimento Internacional Lusófono, Nova Águia, Política Internacional, Política Nacional, Portugal | Etiquetas: | 5 comentários

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