Padre António Vieira

A Terra de Deus Cristo: do Amor

(Google)

O Símbolo de Uma Nação… Lusitânia – Portugal.

«(…) a Cruz de Cristo, dos Templários, representando o símbolo do «Homem Universal». Como o intermediário entre a Essência e a Substância, ou o Céu e a Terra: propriamente como síntese integral, entre este dois pólos, da manifestação. Representando assim uma forma perfeita da Tríade: Céu, Terra, Homem. Nela, o homem será o Filho do Céu e da Terra, o ponto de união entre ambos. E aí estará ainda, tal como no símbolo do Sol e da Lua, a perfeição da complementaridade, na união do masculino e do feminino, ou do activo e passivo, na linha vertical e horizontal. Ou como na esfera armilar, pela representação do Céu e da Terra. Porque tudo nesses três símbolos lusíadas falará da unidade primeira. E aqui este da cruz de braços iguais, será o símbolo do ser que realizou a sua natureza humana e divina totalmente, no equilíbrio do acto e da potência. (…) O ser que atingiu o centro, como homem primordial (…)
Olhemos esses três símbolos, a esfera armilar, o escudo e a Cruz de Cristo, (…) como união do céu e da terra, pelo homem.»
Dalila Pereira da Costa, A Nau e o Graal

«(…) Este foi o Mundo passado, e este é o Mundo presente, e este será o Mundo futuro; e destes três mundos unidos se formará (que assim o formou Deus) um Mundo inteiro. Este é o sujeito da nossa História, e este o império que prometemos do Mundo. Tudo o que abraça o mar, tudo o que alumia o Sol, tudo o que cobre e rodeia o Sol, será sujeito a este Quinto Império; não por nome ou título fantástico, como todos os que até agora se chamaram impérios do Mundo, senão por domínio e sujeição verdadeira. Todos os reinos se unirão em um ceptro, todas as cabeças obedecerão a uma suprema cabeça, todas as coroas se rematarão em uma só diadema, e esta será a peanha da cruz de Cristo.

Todos os que na matéria de Portugal se governaram pelo discurso, erraram e se perderam
António Vieira, História do Futuro

«(…) o Reino de Portugal não foi fundado para se estender por Castela, senão para dilatar a fé de Cristo e o reino de Deus pelo mundo
Clavis Prophetarum

«E assim como o mundo se chama mundo, porque é imundo, e a morte se chama Parca, porque a ninguém perdoa, assim a nossa terra se pode chamar Lusitânia, porque a ninguém deixa luzirSermões (VII, 85)

Até quando, Povo-Portugal, deixaremos nós roubar a única Cruz que em Nós vive?
A do Amor. A do Amor que é Pai e Filho em Nós. O nosso Ser?
Que nos importará verdadeiramente o resto? Enquanto vivermos a angustiante Ausência do nosso sumo Ser: do Sol em Nós?
Enquanto não formos Nós, de Novo, o Mudo-Amor: o Amor-Mundo!

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Sermões da Quaresma do padre António Vieira

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Caros Amigos,

No meu blogue (clicar aqui abaixo) vão ser publicados vários comentários aos Sermões da Quaresma do padre António Vieira, na sequência do calendário litúrgico, pelo meio de outras crónicas da actualidade.
Próximas etapas da divulgação de Vieira:
17 a 24 de Março Recife, Pernambuco Gabinete Português de Leitura, Universidade Católica…
24 a 28 de Março Salvador, Bahia, Instituto Histórico e Geográfico, Universidade Católica…
Todos os dias, no blogue
Agradeço desde já os Vossos comentários
A de Abreu Freire

2008 – Pe. António Vieira 400 Anos
http://antonioabreufreire.bloguepessoal.com

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Próxima quinta…

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«A Obra Diplomática do Padre António Vieira» é o tema da conferência que irá ser proferida por Ana Leal de Faria, professora da Faculdade de Letras de Lisboa, no próximo dia 12 de Fevereiro, às 14h30, na Sala de Actos da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade do Algarve, Edifício 1, Campus de Gambelas.

Ana Leal de Faria tem realizado estudos e publicado diversos trabalhos nas áreas da História Diplomática e da Diplomacia, com especial incidência nos séculos XVII, XVIII e inícios do século XIX.

A conferência é organizada pelo Departamento de Línguas, Comunicação e Artes da Faculdade de Ciências Humanas e Socais da UAlg, pela Câmara Municipal de Faro e 2008 – Ano Vieirino.

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Faz hoje 355 anos…

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Faz hoje 355 anos da Rendição dos holandeses e da Diáspora dos Judeus de Pernambuco.
O padre António Vieira estava em Belém do Pará e nem imaginava que um outro V Império nascia nas margens de um outro rio.
Para ler no meu blogue pessoal, clicando aqui abaixo.
A de Abreu Freire

2008 – Pe. António Vieira 400 Anos
http://antonioabreufreire.bloguepessoal.com

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Concerto de Comemoração do 400.º Aniversário de Nascimento do Padre António Vieira


6 de Fevereiro de 2009, às 21h30
Local – Aula Magna
Organização REITORIA – Divisão de Actividades Culturais e Imagem da DSRE Universidade Católica Portuguesa Província Portuguesa da Companhia de Jesus
Entrada Livre

Este concerto insere-se no âmbito das comemorações dos quatrocentos anos sobre o nascimento do Padre António Vieira.

Actuação da Orquestra Metropolitana de Lisboa
Direcção César Viana

Barítono João Merino

Programa

Sousa Carvalho (1745-1799) – Abertura do em Te Deum
Lourenço Rebelo (1610-1661 – Dixit Dominus (orq. César Viana)
Rameau (1683-1764) – Suites Les Indes Galantes

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O destino de Portugal e a visão profética de Joaquim de Flora

(Joaquim de Flora)

(Joaquim de Flora)

Joaquim de Flora (1135-1202) dividiu em três partes a História do Homem, decalcando-as das três pessoas divinas: Idade do Pai, Idade do Filho e Idade do Espírito Santo. Foi precisamente a convicção do abade cisterciense de que a última Idade ainda não tinha chegado que o tornou herético aos olhos da Igreja. Esta acreditava que após a vinda do tempo da “Lei”, que se interpretava como sendo a Idade do Pai, a Idade do Filho, a época da presença de Cristo entre os Homens e a Era atual, o “tempo da Graça” regido pela Santa Igreja. Flora previa que o ano de 1260 fosse o ano do fim da Idade do Filho, começando a Idade do Espírito Santo imediatamente a seguir.

A inspiração do abade provinha diretamente do Antigo Testamento, nomeadamente de Isaías e na leitura que Daniel fez do sonho do rei Nabucodonossor, sobre a visão da estátua, composta por quatro metais diferentes, em níveis diferentes e representando cada um deles um diferente império mundial. A estátua seria destruída pela “pedra”, entendida aqui com um… “Quinto Império”, origem primeira do termo, aliás. Seria este o império que “nunca seria destruído e cuja soberania jamais passará para outro povo, pois submeterá e aniquilará todos os outros, e subsistirá eternamente” (Daniel, II, 44).

A leitura literal da profecia é anacrónica, pelo que a devemos colocar em contexto, naturalmente. Ou seja se Daniel as encarava como sendo uma antecipação na vitoria de Israel sobre os Estados vizinhos, e se depois Flora a interpretou como uma consagração da vitória do Cristianismo sobre os não-crentes. Depois dele, António Vieira buscaria aqui talvez inspiração para os seus impulsos milenaristas e, certamente – porque o claramente disse e escreveu várias vezes – também Agostinho da Silva encontraria em Flora o fundamento para o movimento religioso, social e até político que surgiu em Portugal no reinado de Dom Dinis, cruzando influencias joaquimitas, com o legado trazido de Aragão pela rainha Isabel com um fundo local de fraternidade e humanidade que estava ainda muito vivo no interior português e que em última instância era até mais antigo em Portugal que o próprio Cristianismo.

A segunda parte, que começa com D. Dinis, é a História do mito do Quinto Império, enquanto a História dos Descobrimentos é, em boa medida, a historia da Demanda do Preste João; nos tempos recentes, a História da nossa Restauração é a Historia do reavivar do mito sebástico e do mito do Quinto Império, como a prova a obra do Padre António Vieira na “História do Futuro”.

Portugal confundir-se-ía assim com os propósitos que levaram Bernardo de Claraval a criar a Ordem do Templo. E assim, os destinos, caminhos e objetivos de Portugal e da Ordem do Templo confundir-se-iam. Portugal seria uma criação para a Ordem do Templo, um “reino templário”, um conceito bem compatível com a defesa insistente feita em Portugal contra o mandato papal que exigia a extinção da Ordem. O projeto templário confundia-se com o projeto português e o grande motor da portugalidade que foi o processo dos Descobrimentos e da Expansão portuguesa. O mito do “Quinto Império” que hoje ainda sobrevive com tanta energia na cultura lusófona é uma persistência desse perdido projeto templário, que se tentou concretizar em Portugal e na sua Expansão e que ainda verá a luz do dia, é nossa convicção e crença firmes.

Fonte:

Lima de Freitas; “Porto do Graal”; Ésquilo

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Ainda sobre o estado da educação…

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O modo como a educação está a ser conduzida vai em sentido contrário à visão humanista protagonizada pelo Padre António Vieira. A critica foi feita pelo coordenador científico do Congresso Internacional, que hoje terminou em Lisboa.

Em entrevista à Renascença, Leonel Ribeiro dos Santos explica em que medida este missionário jesuíta soube antecipar a globalização e foi um dos grandes impulsionadores da luta contra a escravatura e na defesa dos direitos humanos.

O padre António Vieira, diz Leonel Ribeiro, é um dos primeiro teóricos que percebe a globalização, que percebe que o mundo é aberto e os continentes se ligam. Para além da globalização, acrescenta, temos um intelectual, um missionário, um pregador, um jesuíta que foi particularmente sensível a esse problema, que deixou páginas de uma sensibilidade e grande crueza na acusação que fazia aos povos europeus pelo trabalho de escravização desumana a que submetiam os povos indígenas.

Padre António Vieira foi pioneiro também na luta dos direitos dos povos.

Se o Padre Antonio Veira comentasse a actual polémica entre docentes e ministra da Educação, ficaria muito surpreendido com o modo como os políticos hoje encaram o ser humano. Não privilegiam a pessoa, mas sim os cifrões, diz Leonel Ribeiro.

A grande mensagem do padre António Vieira para os nossos tempos será a de que devemos orientar as nossas intervenções, não para a mesquinhez do quotidiano, do curto prazo, mas para longos horizontes de humanidade.

A evocação do padre António Vieira no Congresso internacional que hoje terminou em Lisboa para assinalar o quarto centenário do seu nascimento.

ML/Domingos Pinto

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Exposição Padre António Vieira em Brasília

Encontra-se patente ao público, no Espaço Chatô, do jornal “Correio Braziliense”, em Brasília, uma Exposição sobre a vida e obra do Padre António Vieira.

Em 22 painéis profusamente ilustrados, é dada a conhecer toda a trajectória de vida do “imperador da língua portuguesa” que se destacou, nos seus sermões, pela defesa dos direitos dos índios e dos judeus e pelas críticas à escravatura.
Uma boa oportunidade de conhecer um pouco da história do Brasil e de Portugal no século XVII.

EXPOSIÇÃO – PADRE ANTÓNIO VIEIRA
Espaço Chatô – Brasília
SIG Q.2, Lt. 340, piso térreo
Mais informações pelo telefone: (61)3214-1350
Quando- De segunda a sexta, das 10 às 18 horas.

Entrada Livre

Fonte: Embaixada de Portugal no Brasil

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A Pedra, a Estátua e a Montanha ou da actualidade do V Império

“[…] o título deste livro consagra os três símbolos fundamentais do sonho de Nabucodonosor, interpretado por Daniel, decerto o texto central do imaginário quinto-imperial, vieirino e não só : a pedra que, sem intervenção de mão alguma, embate violentamente nos pés de ferro e argila da terrível estátua antropomórfica, com cabeça de ouro, peito e braços de prata, ventre e coxas de bronze e pernas de ferro, pulverizando-a e convertendo-se numa “grande montanha”, que enche a terra inteira (Daniel, 2, 31-45). Esta narrativa visionária é susceptível, como tudo o que é simbólico, de uma multiplicidade inesgotável de leituras, consoante as inclinações e níveis de compreensão dos intérpretes. Dela se pode em geral dizer que, abatendo e dissipando o gigantesco ídolo de pés de barro – símbolo de uma realidade aparentemente total e invencível, mas na verdade parcial e extremamente frágil no seu fundamento e composição, interpretada tradicionalmente e por Vieira como os quatro impérios e poderes civilizacionais histórico-mundanos, e interpretável como figura de todas as falsas e frágeis construções humanas, mentais e materiais – , a pedra, figura do Messias, do Cristo ou da consciência desperta e livre, converte-se na montanha cósmica, símbolo da plenitude e da verdadeira totalidade e universalidade ou do eixo que une céu e terra, espírito e matéria, transcendência e imanência. A moral da história da pedra que pulveriza a estátua e se converte em omni-abrangente montanha, é que a imprevisível e espontânea irrupção do que parece mínimo e insignificante faz na verdade evanescer o que parece máximo, sólido e perene, convertendo-se por sua vez na verdadeira integralidade e totalidade, ao contrário da estátua, que por mais monumental era apenas um ente parcial, composto e localizado.
A partir daqui podemos vislumbrar a sempre fecunda actualidade do imaginário quinto-imperial, não só no plano histórico-civilizacional e teológico-político em que tem sido predominantemente interpretado, mas também no da nossa vida pessoal e do nosso crescimento espiritual. Pois não se aplicará a história da pedra, da estátua e da montanha ao nosso presente histórico, com seus impérios, globalizações, padrões de pensamento e ficções em aparência tão esmagadoramente triunfantes e incontornáveis, mas afinal tão frágeis, desde já minados pela ausência de verdadeiro fundamento e à mercê da ínfima pedra que contra eles subitamente se levante, contendo em si uma imensa montanha ? Pois não seremos potencialmente todos e cada um de nós essa mesma pedra, essa mesma tomada de consciência e essa mesma força que imprevisivelmente pode surgir e derrubar pela insustentável base tudo o que interior e exteriormente nos amedronta, violenta e escraviza, sem outro alicerce senão as falsas projecções da nossa ignorância, medos e expectativas, convertendo-se na ou revelando-se a inabalável montanha da descoberta da nossa natureza íntegra e primordial, único fundamento sólido de uma nova sociedade e de um novo mundo?”

– excerto da Introdução a A Pedra, a Estátua e a Montanha. O V Império no Padre António Vieira, Lisboa, Portugália Editora, 2008. Livro apresentado 4ª feira, dia 12, pelas 18.30, na Igreja de São Roque (Largo Trindade Coelho ou da Misericórdia, em Lisboa)

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Já estão agendados 12 lançamentos do nº 2 da revista Nova Águia…

Lista completa de lançamentos: novaaguia.blogspot.com

ANTÓNIO VIEIRA & O FUTURO DA LUSOFONIA

ENSAIO, POESIA E OUTROS TEMAS
Começando com um texto de Adriano Moreira
Inclui O TERRITÓRIO E O MAPA, de João Teixeira da Motta
Com cartas de Agostinho da Silva, Cruzeiro Seixas, Dalila Pereira da Costa e António Quadros
Acabando com um inédito de Jean-Yves Leloup

Como é sabido, a revista A Águia foi uma das mais importantes do início do século XX em Portugal, em que colaboraram algumas das mais relevantes figuras da nossa Cultura, como Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, Raul Proença, Leonardo Coimbra, António Carneiro, António Sérgio, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva. A ideia de relançar a revista, agora sob o nome de NOVA ÁGUIA, pretende ser uma homenagem a essa tão importante revista da nossa História, procurando recriar o seu “espírito”, adaptado aos nossos tempos. Não se trata, nessa medida, de fazer uma revista voltada para o passado, meramente revivalista. Trata-se, antes, de fazer uma revista para os tempos de hoje, para o século XXI.

Tal como n’ A Águia, procuraremos o contributo das mais relevantes figuras da nossa Cultura, que serão chamadas a reflectir sobre determinados temas. O tema do segundo número, que agora lançamos, é “António Vieira e o Futuro da Lusofonia”. Orgulhamo-nos de ter conseguido o contributo de nomes tão ilustres como Adriano Moreira, Aníbal Pinto de Castro, António Paim, António Telmo, Arnaldo do Espírito Santo, Carlos H. do C. Silva, Jean-Yves Leloup, Manuel Ferreira Patrício e Pinharanda Gomes, a par de muitos outros.

Para além disso, neste primeiro número poderá ainda encontrar uma série de outros textos, sobre outras temáticas, conforme o nosso índice:

ÍNDICE DO 2º NÚMERO

EDITORIAL, p. 5

SOBRE ANTÓNIO VIEIRA E O FUTURO DA LUSOFONIA

Adriano Moreira, O CENTENÁRIO DE VIEIRA, p. 8

Aníbal Pinto de Castro, VIEIRA, UMA PERSONALIDADE E UM TEXTO DE PERENE MARCA BARROCA, p. 9

Arnaldo do Espírito Santo, O CORPO E A SOMBRA, p. 11

Carlos Dugos, METÁFORAS DO V IMPÉRIO E DE OUTRAS UTOPIAS, p. 14

Cátia Miriam Costa, O VERBO VIEIRINO, p. 16

Dione Barreto, O SERMÃO DO ESPÍRITO SANTO E A INDIVIDUAÇÃO: AS VOZES  DE PADRE ANTÓNIO VIEIRA E C.G. JUNG, p. 18

Dirk Hennrich, AS LÁGRIMAS DE VIEIRA E A TRISTEZA TROPICAL, p. 22

J. Pinharanda Gomes, UMA «ARTE DE PREGAR» À SOMBRA DE VIEIRA, p. 24

Jorge Martins, O FILO-SEMITISMO DE ANTÓNIO VIEIRA, p. 28

José Eduardo Franco, O PADRE ANTÓNIO VIEIRA E A EUROPA, p. 33

Lélia Parreira Duarte, A ARTE IRÔNICA DE VIEIRA E O QUINTO IMPÉRIO DE PORTUGAL, p. 35

Luís Loia, O PADRE ANTÓNIO VIEIRA E O CONHECIMENTO DOS FUTUROS, p. 38

Maria Cecília Guirado, NOTÍCIAS DO BRASIL NO SÉCULO XVII: VIEIRA E A GLOBALIZAÇÃO, p. 42

Miguel Real, O CABALISMO DO ANO DE 1666 EM PADRE ANTÓNIO VIEIRA, p. 46

Nuno Rebocho, MEMÓRIA DE ANTÓNIO VIEIRA NA CIDADE VELHA, p. 49

Paulo Borges, PADRE ANTÓNIO VIEIRA: GÉNIO E LOUCURA, p. 50

Samuel Dimas, A HISTÓRIA ESCATOLÓGICA DO PE. ANTÓNIO VIEIRA: AS TRÊS VINDAS DE CRISTO, p. 52

Sérgio Franclim, A VIDA E O QUINTO IMPERIALISMO DE PADRE ANTÓNIO VIEIRA, p. 56

António Saias, UM PAPO COM VIEIRA, p. 60

AA.VV., VALEU A PENA?, p. 61

Rui Martins, DO FUTURO DA LUSOFONIA, p. 63

Ana Margarida Esteves, PORTUGAL E A LUSOFONIA COMO PROPULSORES DA INOVAÇÃO SOCIAL: A NECESSIDADE FAZ O ENGENHO, p. 69

Maria Ana Silva, A LÍNGUA PORTUGUESA É O MAR QUE UNE A TERRA: A ALIANÇA ENTRE HOMEM E DEUS, p. 72

Artur Alonso Novelhe, UMA PERSPECTIVA GALEGA DO FUTURO DA LUSOFONIA, p. 75

Cristina Leonor Pereira, 2008: É NOVAMENTE HORA!, p. 77

Eurico Ribeiro, PORTUGAL, QUE MISSÃO?, p. 78

Flávio Gonçalves, A LUSOFONIA, O PAN-LATINISMO E A EURÁSIA COMO ALTERNATIVAS AO ATLANTISMO, p. 87

Joaquim M. Patrício, REALIDADES, DESAFIOS E FUTURO DA LUSOFONIA, p. 88

Paulo Feitais, DAS FLORES AOS FRUTOS: O FUTURO DO MUNDO LUSÓFONO, p. 91

Renato Epifânio, A LÍNGUA-FILOSOFIA PORTUGUESA COMO UMA VIA ABERTA, p. 93

Rita Dixo, DA LÍNGUA PORTUGUESA COMO IMAGEM DA NOSSA ALMA, p. 95

Carlos Magno, LUSOFOBIA, p. 96

Manuel Ferreira Patrício, O PADRE ANTÓNIO VIEIRA, A LUSOFONIA E O FUTURO DO MUNDO, p. 96

AINDA SOBRE A IDEIA DE PÁTRIA

Carlos H. do C. Silva, DO INTERMÉDIO DA PÁTRIA OU DO PERICLITANTE TEMPO NACIONAL, p. 100

DA ARCA

João Teixeira da Motta, O TERRITÓRIO E O MAPA (em anexo, cartas de Agostinho da Silva, Cruzeiro Seixas, Dalila Pereira da Costa e António Quadros), p. 120

POEMÁGUIO

Sérgio Franclim, PADRE DA LOUCURA, p. 128

José Eduardo Franco, VIEIRA, O OUSADO, p. 128

Samuel Dimas, INSTANTES DE PARAÍSO, p. 129

Maurícia Teles da Silva, DA MEMÓRIA EM FEVEREIRO: HOMENAGEM E GRATIDÃO, p. 129

Alexandre Vargas, A MORTE DE PORTUGAL / VITÓRIA, ABRIL/ O ÚLTIMO PORTUGUÊS / FUTEBULIMIA, p. 130

António José Borges, A CAMÕES, p. 132

Dirk Hennrich, UM NOVO ÍCARO, p. 132

Renato Epifânio, ALJUBARROTA, 133

Carlos Lopes Pires, COMO PODE A LUZ, p. 133

Francisco Soares, NOITE ACESA, p. 134

Casimiro Ceivães, QUE TEM GOA, QUE MAGOA, p. 134

Celeste Natário, UMA ALMA AZUL, p. 135

Fernando Botto Semedo, NUMA VEEMENTE SEARA PLENA, 135

Jesus Carlos, A CRIPTA I, II e III, p. 136

Fabrício Fortes, LEMBRANÇA DE ANTES DO TEMPO, p. 137

José Smith Vargas, BAILE NO CEMITÉRIO, p. 137

Luís Carlos dos Santos, A ILHA, p. 138

Ana Margarida Esteves, FADO EMBARCADIÇO, p. 138

Maria Almira Medina, CANTIGA PARA CANTAR NA PRAIA AO ENTARDECER, 139

Saudades do Futuro, DAS SAUDADES QUE HAVIA, p. 139

Amon Pinho Davi, DE SAGRES AO SUBLIME, EXPERIÊNCIA, INSPIRAÇÃO OU IMAGENS DO FEMININO, p. 140

Joana F. D., UMA SERPENTE NO TEJO, p. 142

Manuel da Silva Ramos, PROVÍNCIA MUITO PARADA OU MORTA, p. 142

Fernando Grade, MARÃO CEDO, p. 143

Adriana Costa, O RIO CORRE, p. 143

Paulo Borges, CANTO-TE, p. 144

Duarte Drumond Braga, DOIS POEMAS DO LIVRO OITO VOTOS, p. 144

António Quadros Ferro, SEM EPÍGRAFE/ SUBIR/ A PALAVRA, p. 145

OUTROS VOOS/ OUTRAS VOZES

António Telmo, COINCIDÊNCIAS, p. 146

Gilda Nunes Barata, ACÇÕES OU VENDAVAIS COM ESPUMA?, p. 147

Donis de Frol Guilhade, DA PHILOSOPHIA SITIADA, p. 148

Sam Cyrous, SOBRE O DIÁLOGO INTERCULTURAL, p. 150

Kit-Fai Naess, CARTA A ARNE NAESS, p. 152

José Maurício de Carvalho, CONSCIÊNCIA MORAL E DESAFIO ECOLÓGICO, p. 156
Jorge Neves, SAUDADES DO FUTURO, p. 160

RUBRICAS

COISAS E LOISAS, de J. Pinharanda Gomes, p. 162

DO ESPÍRITO DOS LUGARES, de Manuel J. Gandra, p. 163

AS IDEIAS PORTUGUESAS DE GEORGE TILL, de Jorge Telles de Menezes, p. 165

PÁGINAS TEMÁTICAS

LITERATURA ORAL E TRADICIONAL, de Ana Paula Guimarães, p. 166

ARTES PLÁSTICAS, de Cristina Pratas Cruzeiro e Rodrigo Vilhena, p. 168

TEATRO, de Jorge Telles de Menezes, p. 172

MÚSICA, de Pedro Miguel (com nota introdutória), p. 174

PROJECTOS, de Firmino Pascoal, p. 176

BIBLIÁGUIO

ANTÓNIO VIEIRA, HISTÓRIA DO FUTURO, por Renato Epifânio, p. 178

ANTÓNIO BRAZ TEIXEIRA, O ESSENCIAL SOBRE A FILOSOFIA PORTUGUESA (SECS. XIX E XX), por Joaquim Domingues, p. 179

ARIANO SUASSUNA, ROMANCE D’A PEDRA DO REINO, por Romana Valente Pinho, p. 180

JOÃO RÊGO, CONTOS DA COLUNA DO MEIO, por Joaquim Domingues, p. 181

JOSÉ MAURÍCIO DE CARVALHO, O HOMEM E A FILOSOFIA. PEQUENAS MEDITAÇÕES SOBRE EXISTÊNCIA E CULTURA, por António Paim, p. 183

HELENA BELMONTE, 7 MULHERES PARA D. SEBASTIÃO, João David Pinto Correia, p. 184 (a incluir)

ADOLFO CASAIS MONTEIRO: UM CENTENÁRIO, DESDE A ÁGUIA ATÉ À NOVA ÁGUIA, por Carlos Leone, p. 185

GOLPE D’ASA

Jean-Yves Leloup, TODOS OS CAMINHOS LEVAM À PRAIA: UM NOVO INÍCIO PARA A METAFÍSICA, p. 188

SOBRE A NOVA ÁGUIA

Miguel Real, TEXTO DE APRESENTAÇÃO DA NOVA ÁGUIA, p. 190

Pedro Teixeira da Mota, DO RENASCIMENTO DA NOVA ÁGUIA, p. 192

Renato Epifânio, OS PRIMEIROS NOVE MESES DA NOVA ÁGUIA, p. 194

COLECÇÃO NA, p. 201

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Da atualidade do pensamento de António vieira (cinco axiomas)

O Padre António Vieira deixou-nos alguns dos axiomas mais ricos e profundos de sempre. A partir da compilação dos mesmos organizada por José Eduardo Franco em (Padre António Vieira, Grandes Pensamentos) selecionamos alguns axiomas de entre aqueles que nos parecem mais atuais e plenos de ensinamentos e sabedoria para os problemas que Portugal e o mundo enfrentam na atualidade.

As ações de cada um são a sua essência.
Sermões, i, 212

Vieira referia-se aqui ao divórcio infelizmente tão comum na sua época, como na nossa, entre discurso e ação… Não deixa de haver alguma ironia – talvez não reconhecida pelo jesuíta – pelo facto de tal frase ter sido escrita num sermão e por um dos mais brilhantes oradores da sua época, por isso quando Vieira proferia tal frase, sabia por experiência e uso próprio, aquilo que dizia. E verdade que o jesuíta fora muito mais do que um orador, sendo bem conhecida a sua atividade missionária no Brasil e as sua missões diplomáticas e de espionagem na Europa. Nesta frase criticava aqueles que não seguiam o seu exemplo e que se deixavam ficar pelas estéreis palavras e não as passavam a ação.

A expressão do jesuíta e ainda hoje muito atual…. Não faltam aqueles que em cafés, nas suas habitações e em todo o lugar onde se reunam duas pessoas, opinam sobre tudo e todos. A Internet e neste contexto um caldo de cultura especialmente fértil para que o verbo se multiplique e reproduza em blogues e fóruns de discussão, um verbo multiplicante que sendo virtual, raramente transfere a sua ação para o mundo real e concreto. Na altura das eleições, os portugueses escapulem-se para as praias e recusam cumprir a derradeira e ínfima margem de ação que lhes deixa a democracia parlamentar.

De discursos estará cheio o inferno, e ainda mais cheio estarão as antecâmaras da política. Existe na sociedade portuguesa uma ânsia por políticos fazedores, e uma muito sensível ansiedade por quem renegue o pântano verbal de debates estéreis, de negociações infindáveis quem caracterizaram o consulado Guterres. Esta ansiedade explica a popularidade de Cavaco Silva, tido na época como um tecnocrata e, logo, como um fazedor e, eleito como presidente da republica com o mesmo discurso tecnocrático e operadora que o esvaziamento presente das funções do presidente impossibilitam cumprir e que foi provavelmente um dos maiores logros eleitorais da democracia portuguesa.

Precisamos hoje, tanto ou mais do que na perigosa época em que vivia Vieira, de uma elite política em que a população se consiga rever e que sendo eleita por números realmente significativos dos eleitores possa efetivamente transpor e efetivar as suas aspirações. Uma nova camada governante que saiba aproximar e revivificar a democracia, aproximando-a das populações, descentralizando profundamente e expandindo a amplitude de toda a governança democrática. E para isso precisamos menos de belas e ocas palavras, que se esquecem ou se remetem para o caixote dos “objetivos” e de acoes efetivas e concretas que refundem a portugalidade e possam criar os laços esquecidos entre os povos da Lusofonia que permitam realizar a verdadeira missão de Portugal no mundo: a União Lusófona, o “Quinto Império” sonhado por António Vieira na sua “História do Futuro”.

“As ações generosas, e não os pais ilustres, são as que fazem fidalgos”
Sermões, I, 213

As origens remotas do estatuto de “nobreza” radicam na velha divisão tripartida das sociedades indo-europeias entre guerreiros, mercadores e produtores. A nobreza recolhia os seus panos purpuras de um prestigio passado, consolidado pelos feitos de armas do passado recente e do presente. A nobreza portuguesa continua a existir, acolhida entre as paginas de revistas sociais e uma socialite decadente, mas social e economicamente já não tem qualquer relevância. Esta nobreza de antanho foi substituída nas arenas mediáticas por uma leve camada de novos ricos, alguns dos quais “bem casados”, com descendentes desta “nobreza antiga”, que se espalham por todas posições de liderança nos meios académicos, culturais, empresariais e políticos. Estimamos que um numero não muito superior a 400 famílias distribua assim entre si o Poder efetivo em Portugal. Os seus filhos – sempre com nomes sonantes e repetidos ate a exaustão – são os galvão telo, os bustorff, os cadilhe, os soares, os sousa tavares, etc. que encontramos em todo o lado, vivendo essencialmente do nome dos seus pais e ocupando o lugar que caberia por direito de mérito a outros provenientes de cataduras menos sonantes.

“As coisas não começam do principio como se cuida, senão do fim. O fim porque as empreendemos, começamos e prosseguimos, esse é o seu primeiro principio, por isso ainda que sejam indiferentes, o fim, segundo é bom ou mau, as faz boas ou más.”
Sermões, IX, 269

Em todas as ações ou pensamentos importa sumamente, o destino que lhe queremos dar. Ainda que o provérbio popular ensine que “de boas intenções está o Inferno cheio”, de facto, é na intenção motriz dos atos humanos que esta a essência do valor dos mesmos. Se provocamos a dor ou o sofrimento em alguém de forma involuntária, isso não tem o mesmo significado para o equilíbrio natural das coisas a que os hinduístas e budistas chamam de “karma” ou a que no Ocidente chamamos simplesmente de “destino”. A intenção é tudo.

Se encetamos uma determinada acao e se de permeio esta nos causa dor ou sofrimento mental, se tivermos uma noção clara e determinada do nosso objetivo é mais fácil suportar estas penas se soubermos que após estas tormentas vira a bonança. Esta simples lição já devia ter sido aprendida pelos nossos governantes, mas não o foi ainda, tamanha é a distancia entre as suas altas torres de marfim e as populações que deveriam saber governar. As grandes políticas não são já determinadas localmente, mas cada vez em paragens mais distantes, lá no gélido norte, e os seus termos são cada vez mais obscuros e técnicos, como se buscassem antes do mais estabelecer uma linguagem esotérica impossível de ser compreendida pelas massas, como aliás demonstra bem o que se passou com o “Tratado de Lisboa”. Os fins da política são cada vez menos compreensíveis e isso é a raiz para a compreensão do desinteresse popular sobre a “res publica”. Os meios são os impostos, o ermamento e a retirada do Estado central do interior, mas os fins não podem ser a “estabilidade orçamental” nem uma “construção europeia” desalmada que não diz nada ao coração de ninguém. Os fins que objetivam têm que ser mais altos, claros sem serem absolutamente precisos e na falta deles, surge o vazio – que o cérebro detesta tanto quanto a natureza – e a depressão coletiva. Faltam fins a este Portugal atual, fins que nos energizem e que imprimam a nossa vida individual e coletiva os propósitos que nos permitam vencer os meios presentes. E estes não os temos. Ainda. Busquemos na nossa Historia medieval, no processo dos Descobrimentos e na alma portuguesa o nosso fim, o nosso destino coletivo. Encontremos em Bandarra, no próprio Vieira, em Fernando Pessoa e Agostinho da Silva, o fim pelo qual empreendemos as coisas e descubramos em António Vieira a sabedoria de que precisamos para suster este mundo desumano e cruel do neoliberalismo globalizado das multinacionais e o vero rumo de Portugal: o Quinto Império, fraterno, universal e igualitário do Padre António Vieira.

“A vista dos bens alheios cresce o sentimento dos males próprios.”
Sermões, VII, 56

A inveja é a força motriz dos aspectos mais negros da alma humana. Mas, se por força da nossa vontade e engenho logramos alcançar o milagre se olharmos de fora as nossa próprias desgraças, e encararmos as misérias alheias como se fossem nossas, então, tudo nos parece bem menos grave e maleitoso. Não nos deixemos enredar na depressiva teia do nosso declínio nacional e contemplemos a situação que enfrentam tantos povos por este mundo fora: misérias diversas, catástrofes diversas e sucessivas, guerras civis e externas de estranha violência, causando todas sofrimentos terríveis e um desespero indescritível em varias paragens do mundo. Entre todos estes males, encontramos Portugal. Local de um clima raramente ameno, de níveis de criminalidade dos mais baixos do mundo, com níveis de desenvolvimento económico e social que não sendo os de um pais escandinavo, não são também tão baixos como os da maioria dos países do mundo e são até os mais elevados de todo o mundo lusófono. Portugal, pela mediania da sua situação económica não tem os níveis de riqueza económica que possuem outros países europeus ou do hemisfério norte. Apesar do afluxo e influxo de materialismo dos últimos anos, os portugueses continuam a manter dentro de si o espirito altruísta dos generosos praticantes do bodo dos pobres do Culto do Espirito Santo, e se reconhecermos enfim que o verdadeiro fim da vida não reside em artifícios tecnológicos, em viagens para gaiolas douradas algures nos mares solarengos do sul, então talvez sejamos – portugueses – capazes de encontrar dentro de nos próprios, na cultura, no engrandecimento e avolumando do nosso próprio saber e, sobretudo, no pleno desenvolvimento da nossa inteligência, sabedoria e poder criativo aquilo que é o primeiro passo para o cumprimento do Quinto Império: o cumprimento do mesmo no nosso próprio interior.

“armas alheias, ainda que sejam as de Aquiles, a ninguém deram vitória.”
Sermões, I, 24

Este axioma foi elaborado em plena guerra holandesa no Pernambuco e de independência em Portugal, e referia-se à desilusão sentida então em Portugal quanto aos aliados franceses e ingleses. Contudo, é também uma frase muito atual… Na Defesa, os países devem poder contar antes do mais com os seus próprios recursos e não com os alheios. No contexto atual, de uma forma de guerra de extrema exigência tecnológica e onde os preços unitários de aviões, navios e blindados são varias vezes superiores aqueles correntes há apenas dez anos, é praticamente impossível a um pequeno pais como Portugal suportar os números de equipamento militar suficientes para manter a sempre essencial Defesa e dissuasão credíveis. Assim, é imperativo que se construam alianças regionais, paritárias integradas e organizadas capazes – pela complementaridade de meios – suprir essa lacunas. Portugal não pode sustentar um porta-aviões, nem uma frota de superfície comparável à espanhola ou francesa, mas pode e deve integrar uma aliança regional que não despreze a exiguidade dos seus meios e a qualidade dos seus homens. O quadro atual, coloca-nos – por razões históricas ligadas à Guerra Fria –
na OTAN, mas agora que o Pacto de Varsóvia se esfumou nas brumas do passado não será este o momento de repensar o quadro dos nossos interesses estratégicos?

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António Vieira e a Inquisição

Um dos aspetos mais radicais do pensamento de Vieira e a sua posição perante a Inquisição e a reforma do Santo Oficio. Ao tomá-las e ao as assumir nos mais públicos fóruns do Reino, Vieira sabia certamente que caminhava sobre gelo muito fino.

António Vieira colocava em risco os próprios fundamentos da poderosa instituição, recomendando o fim das denúncias anónimas e até do confisco dos bens. Sem a primeira forma de recolha de informações, perderia grande parte dos seus informadores, e logo da sua eficácia e decorrentes vitimas. Sem a segunda, perderia o sustento dos seus sequazes e da sua densa e numerosa máquina administrativa, e consequentemente, não poderia mais conseguir suportar tantas condenações e execuções e, logo, perderia a parte de leão da sua influência na sociedade que resultava em grande medida da ameaça latente que pendia sobre todos, até sobre os mais ricos e poderosos.

Mas este ataque contra os fundamentos financeiros e contra as fontes de rendimento da Inquisição não satisfez o ímpeto reformador de Vieira… A sua defesa dos judeus e dos cristãos novos é um dos pontos mais conhecidos do seu pensamento, mas também um dos mais centrais. Era sua íntima e profunda convição de que fora a sua perseguição e subsequente expulsão, no século XVI, que estivera na fonte do declínio português a partir dessa época e da consequente perda da independência nacional, após o desaparecimento de Dom Sebastião. Sem o capital, nem o dinâmico espírito empreendedor dos judeus, a Expansão perdera a parte mais ativa da sua energia, e os inimigos do Reino haviam tomado gratuitamente aqueles mesmos refugiados que os haveriam de beneficiar, algo especialmente verdadeiro quanto a Inglaterra e aos Países Baixos onde os judeus ibéricos se tornaram rapidamente no cerne da expansão marítima desses países do norte da Europa. Reconhecendo estes erros que tanto prejudicavam um pais que muito dificilmente tinha reconquistado a sua independência e que travava uma guerra em quatro continentes com as três maiores potencias da sua época (Espanha, Países Baixos e Inglaterra), Vieira defendia que aqueles judeus que não tinham sido expulsos e que convertidos mais ou menos superficialmente ao cristianismo, se designavam agora de CristãosNovos deviam retomar a plenitude dos seus direitos cívicos, algo que contradizia vivamente o pensamento e a ação da Inquisição.

Obviamente, uma tão frontal oposição aos interesses do Santo Oficio haveria inevitavelmente de atrair a atenção do Tribunal sobre o próprio Vieira… A morte do seu protetor, o rei Dom João IV, deixaria solta a sanha inquisitorial contra o jesuíta e esta lograria prender e condenar Vieira. Só no final da década de sessenta do século XVII, após uma visita a Roma e ao próprio Papa e que António Vieira conseguiria anular esta condenação. A mesma extraordinária capacidade oratória que seduzira o governo geral do Brasil, primeiro, e depois, a corte de Dom João VI, iria convencer o Papa e garantir assim a anulação das suas penas e condenações. Mas Vieira conseguiria ainda mais. Entre 1675 e 1681, a atividade da Inquisição esteve suspensa por determinação papal, uma determinação que encontrou o seu maior fundamento nos relatórios sobre os múltiplos abusos de poder que o jesuíta deixou em Roma, nas maos do Sumo Pontifice. Desta forma conseguia dois feitos raros e históricos, por um lado conseguia parar pela primeira vez durante sete anos a atividade do Santo Oficio em Portugal e, feito não menor, lograva escapulir da perigosa malha que inquisidores derramavam sobre si.

Fontes:

Padre António Vieira: Grandes pensamentos

José Eduardo franco. Coordenação

Gradiva

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Um português chamado António Vieira: Introdução

Com este texto inauguramos uma série de curtos artigos sobre essa grande vulto da língua e cultura portuguesa que foi o padre António Vieira e é o nosso muito modesto contributo para as comemorações do “Ano Vieirino” que agora decorrem em vários locais e instituições do país.

Como nota introdutório adicional… Este textos foram convertidos para a nova grafia do Acordo Ortográfico de 1990 pelo programa Acordium… Ver AQUI.

Estes textos foram escritos tendo várias fontes, mas sobre os dois livros absolutamente essenciais sobre Vieira que são:

J. Lúcio de Azevedo, “História de António Vieira – Primeiro Período, o Religioso”

António Lopes SJ, “Vieira o Encoberto”, Principia

Introdução

O Padre António Vieira representa – como outros grandes vultos da portugalidade – aquilo que melhor caracteriza os portugueses: mestiçagem, sangue judeu e… emigrante, de Portugal para o Brasil já que o pai de Vieira, Cristóvão Ravasco era escrivão “das devassas dos pecados públicos da cidade de Lisboa”, profissão que exerceu até 1609, ano em que embarcou para o Brasil, tendo regressado em 1614 para levar a sua mulher e o filho António Vieira, então com apenas seis anos para a Baía. Mais tarde, Vieira embarcaria de volta para o Reino, na missão que o Brasil enviaria a Lisboa para saudar o novo rei Dom João IV, o qual, pouco depois haveria de enviar o padre pela Europa fora em busca da defesa dos interesses de Portugal em missões diplomáticas ou em missões mais ou menos secretas.

António Vieira enquadrava em si mesmo o próprio espírito da mestiçagem que embora muitos acreditem ter sido inventado por Afonso de Albuquerque em Goa, existia de facto desde há muito, gravado bem fundo nas matrizes daquilo que haveria ainda de dar origem a “Portugal”, algures entre o momento em que o primeiro celta misturou o seu sangue com os cónios do sul e com os turdulos do centro. Com efeito, como tantos portugueses de hoje e de ontem, Vieira era um mestiço.

Efectivamente, o pai de António Vieira, Cristóvão Vieira Ravasco, nascido em Moura, no Alentejo, tinha tido por mãe uma mulher “de cor”, isto é, alguém que não era de origem europeia (caucasiana) e que podendo ter sido uma índia ou moura, seria, mais provavelmente uma africana ou descendente directa de africanos. Na época – finais do século XVI – havia muitos escravos africanos trabalhando nas herdades alentejanas e quase nenhuns índios (os quais aliás, nem mesmo no Brasil se conseguiam adaptar às lides agrícolas) e os últimos mouros já tinham sido absorvidos na população alentejana. Restam assim os africanos que desde que as primeiras caravelas henriquinas tinham feito as primeiras capturas nas costas a sul de Marrocos estavam a povoar em números crescentes os campos do sul de Portugal.

Esta herança africana é aliás bem patente no mais fiel retrato do jesuíta, o retrato de gravura, feito algures em Roma, a partir do seu próprio cadáver, antes de inumado, como relata o cronista André de Barros.

Alguém já escreveu que em todo o português corria alguma parte de sangue judio, sendo a sua mãe – Maria de Azevedo – a hipotética fonte desse sangue que os seus adversários no Maranhão lhe encontravam (o “baptizado em pé” mencionado por Lúcio de Azevedo). Mais tarde, a Inquisição quando o teve preso nas suas garras, recordaria essas acusações feitas décadas antes no Brasil e as mesmas suspeitas estiveram na base do fundamento para a rejeição da admissão do seu irmão Bernardo Vieira Ravasco na Ordem de Cristo em 1663.

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Um português chamado António Vieira: O Apocalipse em António Vieira

Não encontramos, nos escritos de Vieira, nada de semelhante a um catastrófico Armagedeão. O jesuía alude sempre a uma suave transição para “novos céus e uma nova terra” quando os Homens estiveram interiormente preparados para esse novo estádio de existência. Para tal seria preciso que fosse eliminada da alma de todo e de cada Homem todo o egoísmo e que cada forma de violência fosse substituída por Amor e entrega pelo Outro. No texto intulado “Defesa perante o Tribunal do Santo Ofício”, o jesuíta defende que mesmo aqueles homens e mulheres que nasceram antes da Revelação, recorrendo para tal a Santo Agostinho e às cinco formas por este delineadas… Sendo que entre estas, a primeira é a Iluminação a partir do interior da própria alma, pela via da centelha de Deus deixada em cada alma humana após a Criação e que é conhecida como “Espírito Santo”, o primeiro motor para a transformação do mundo e da vida do Homem sobre o mundo num verdadeiro “Reino do Amor”.

Com efeito, na “Clavis Prophetarum”, Vieira identifica o “Quinto Império” como o “Império do Amor”. no capítulo VII do Livro II onde afirma que o Reino de Cristo será universal e a suprema expressão do “poder da mansidão, da humildade e do amor”, sendo que no capítulo IX torna a sublinhar a importância do Espírito Santo para essa conversão universal onde usa a imagem bíblica das “flores e do canto da rola” como alegoria aos dons do Espírito Santo, que Vieira acredita que seria o responsável pela transmutação da Igreja dos Últimos Dias naquela comunhão universal do Espírito Santo que descreveria o antecipado “Império do Amor” de António Vieira.

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Um português chamado António Vieira: A “Clavis Prophetarum” a Grande Obra de António Vieira

Entre 1659 e 1665 Vieira desenha a estrutura fundamental daquela que já então considerava que seria a sua grande obra, a “Clavis Prophetarum”. Nesses seis anos concebeu o plano para sete livros que deveriam contêr um total de 59 capítulos, respondendo um a cada pergunta que listara nesses anos. Dessa obra ciclópica, somente alguns escritos dispersos ficaram prontos, e destes alguns perderam-se para sempre… Consciente do gigantismo da montanha que tinha perante si, em 1663, somaria a esse plano uma obra introdutória, o “Livro Anteprimeiro da História do Futuro”, a qual, contudo, ficaria tão incompleta quanto a obra principal que devia anteceder. Não só as intensas actividades políticas e diplomáticas o afastaram desse desafio, como a própria actividade polémica de Vieira haveria de atrair a sempre indesejada atenção da Inquisição e logo, de desviar a atenção de Vieira sobre a Clavis, já que os esboços da obra continham vários pontos que íam contra o Dogma católico e poderiam inflamar ainda mais as suspeitas do Santo Ofício…

Para descobrir a chave “Clavis” para o Futuro de que discorreria nesta sua grande obra, Vieira recorre aquela fonte que elege como primeira não só em ordem como em importância: a palavra dos profetas do passado e daqueles que ao longo dos tempos os foram comentando.

Existe uma grande e fundamental diferença de tom entre a “Clavis Prophetarum” e a “História do Futuro”: Se a segunda trata fundamentalmente do futuro de Portugal e do destino deste na transformação do mundo, na “Clavis” estamos perante uma obra quase totalmente dedicada à evangelização futura do mundo. Nesta, o papel de Portugal nessa transformação é reduzido e das poucas referências, a primeira é uma alusão ao mítico “Milagre de Ourique” em que o primeiro rei português, Dom Afonso Henriques recebe um especial mandado de Deus.

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Um português chamado António Vieira: Os “imperadores universais” de António Vieira, após… Dom João IV

A morte de Dom João IV, de quem Vieira esperava o cumprimento de tão altos feitos, haveria de gerar no espírito do jesuíta uma profunda crise interior. Numa primeira fase, Vieira, completamente convicto da veracidade e correcção das profecias de Bandarra e da sua personalização em Dom João IV passa a acreditar e a exprimir a sua plena convicção na ressurreição do monarca. Mas com o tempo, e na falta do esperado regresso dos mortos do monarca defunto, Vieira acaba por evoluir nesse caminho e por passar a defender em 1664: “Por cá não há coisa digna de relação mais que haver-se hoje dado princípio às mesas na sala dos nossos estudos, onde o mestre, que é o P. Francisco Guedes, tomou por problema dos futuros contingentes se havia de vir El-Rey D. Sebastião. E depois de o disputar com aplauso por uma e outra parte, resolveu que o verdadeiro Encoberto profetizado é El-Rey que Deus guarde: D. Affonso. Por sinal que, para eu crer e confessar assim, não foi necessário nenhum dos argumentos que ouvi, porque, depois que observei as felicidades em que assiste o céu a todas as suas acções, estou inteiramente persuadido a isso”. [Carta a Dom Rodrigo de Meneses de 3 de Março de 1664, citada em p. 133]

Mas Vieira não se fica por aqui… Depois de Dom Afonso VI, e como este também não se revelar ser o esperado “imperador universal”, António Vieira elege Dom Pedro II, em 1684, como aquele a que está destinada a “destruição total do Turco está reservada a um rei português e que todas as probabilidades apontam para Dom Pedro II”. Mas passados apenas quatro anos, em 1688, é agora o primogénito de Dom Pedro II esse prometido monarca: “Digo que este Príncipe fatal, tantos séculos antes profetizado, e em nossos dias nascido, não só há de ser Rey, senão Emperador”. Não cessa aqui a lista de “quintos imperadores” de Vieira… Com efeito, com o súbito falecimento do primogénito, é ao seu irmão que compete o trono ficando um “com a posse da púrpura no Céu, o outro com o ceptro na Terra.” Este “futuro imperador” seria… Dom João V, desta feita.

Todas estas hesitações e mudanças de percurso, vistas à perspectiva de trezentos anos lançam dúvidas sobre a personalidade de Vieira. Seriam provenientes de um excessivo prazer pela proximidade do Poder e dos seus favores um defeito que os seus inimigos julgavam reconhecer na personalidade do jesuíta? Vieira era um ser humano, e consequentemente um indivíduo não isento das fragilidades típicas dos mesmos e esse factor não deve ser descartado com leveza. É também possível que o jesuíta se tivesse embriagado pelo canto de sereia dos seus próprios discursos e – enredado dentro da sua própria teia discursiva – acabasse por uma questão de consistência interna do seu próprio pensamento e de refúgio de racionalidade pessoal em acreditar realmente que a figura profetizada do “futuro imperador” se transferia assim de príncipe em príncipe, sucessivamente. Além da tese panegírica dos seus adversários e do “cerco mental” imposto pelo seu próprio universo verbal, há pelo menos mais duas explicações para estas oscilações… Vieira era um grande e fervoroso cristão. Recordemo-nos de que no Brasil, enquanto jovem, fugira de casa dos seus pais para o seminário jesuíta e que durante a sua vida sempre colocou a sua actividade missionária em primeiro lugar, contra todos os poderes e adversidades. Seria assim possível que estas oscilações fossem justificadas por uma necessidade de manter elevada a influência jesuíta na corte portuguesa e, consequentemente, do catolicismo nesta? É uma tese provável, especialmente se fôr conjugada com a sincera convicção de que Bandarra e os profetas biblícos que citava de memória antecipavam correctamente para Portugal um “quinto imperador” e um “quinto império” e de que se António Vieira, humano e falível se enganara com Dom João IV e depois com a sua miraculosa ressurreição, com Dom Afonso VI, Pedro II e, por fim, com Dom João V. Assim, Vieira não oscilaria de “futuro imperador” em “futuro imperador”, oscilaria sim a sua interpretação quando a uma identificação da sua personalidade. Convicto da sua imperfeição, mas igualmente certo da certeza das profecias Vieira buscaria esse Imperador de Príncipe em Príncipe, sempre na absoluta certeza da sua existência futura.

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Um português chamado António Vieira: Da Esperada “Ressuscitação” de Dom João IV: um dos pontos mais estranhos do pensamento de António Vieira


Um dos pontos mais curiosos e estranhos do pensamento de Vieira é a sua crença – muito forte – de que Dom João IV haveria de renascer dos mortos para cumprir o seu destino, o de Portugal e o do mundo. Na sua defesa contra as acusações do Santo Ofício escreve este sumário das suas ideias neste ponto: “O Bandarra é profeta, o Bandarra profetizou que El-Rey Dom João o quarto há-de obrar muitas cousas, que ainda não obrou, nem pode obrar senão ressuscitando: logo El-Rey D. João o quarto há-de ressuscitar”. Vieira leva assim tão longe esta sua crença: não só o Rei vai ressuscitar, como terá que forçosamente de o fazer para que os gentios e descrentes heréticos, judeus e muçulmanos se convertam ao cristianismo e o adoptem como seu “monarca universal”, convencidos tão somente pelo espantoso milagre da sua ressuscitação… E Vieira acredita neste milagre, porque acredita (pelo menos a partir dos seus 51 anos) fielmente nas profecias de Bandarra: se este sapateiro de Trancoso profetizou correctamente para 1640 a Restauração do Reino e outros espantosos feitos para Dom João IV, como a tomada de Jerusalém ou a conquista do império dos turcos, e se morreu sem cumprir tais profecias, então, forçosamente, teria ressuscitar para completar essa derradeira, mas determinante parcela das profecias do Bandarra… Pois se uma profecia estava certa, então, forçosamente, igualmente certas também teriam que estar todas as demais.

Vieira acredita portanto na ressuscitação do Príncipe, mas não usa o título “Imperador do mundo”, ou mesmo “imperador do Quinto Império” (termo que curiosamente sobreviveria até hoje nas festas do Espírito Santo no Brasil e nos Açores). Vieira prefere temo de “Príncipe” e estabelece para o seu regresso milagroso um esboço programático que tem muito mais de religioso do que de laico ou temporal… “o fim da dita ressureição de nenhum modo o teve ele declarante por temporal, senão por muito espiritual, sobrenatural, e divino, qual é a conversão universal da Gentilidade, extirpação da heresia, redução dos judeus à Fé de Cristo, e ruína do Império Otomano”.Assim resumem os inquisidores esta parcela do pensamento do jesuíta… Repare-se como quase todos os pontos desta agenda são de índole religiosa, com excepção única do último ponto, necessário contudo por causa da possessão turca da Terra Santa e assim aqui presente, também ela, por causa das mesmas motivações religiosas… Ou seja, o “imperador do Quinto Império” (termo que Vieira evita), não o é,de facto, sendo essencialmente um “sumo-sacerdote” ou “papa temporal” do mundo convertido todo e monolíticamente às luzes do catolicismo.

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Um português chamado António Vieira: Das Origens Vieirinas na Crença no “Quinto Império”

A crença de António Vieira no destino Quintano de Portugal e do mundo não acompanha o jesuíta desde o primeiro dia… é de facto até bastante tardia. Em 1641, quando parte para a metrópole, na embaixada brasileira ao novo rei Dom João IV, ainda não se lhe conhece nenhum escrito ou sermão sobre o tema. Aliás, o primeiro registo de abordagem de tal conceito ocorre apenas já numa fase relativamente tardia da sua vida, quando aos 51 anos redige a carta ao bispo do Japão, em 1659 onde aborda explicitamente o tema das “Trovas do Bandarra”.

Todos os textos que escreve na primeira fase formativa no Brasil, anterior a 1641, se concentram na “guerra holandesa” e na defesa daquilo que poderia levar à vitória nesta esforçada e difícil guerra contra uma das maiores potencias coloniais e navais da época. Nestes escritos não encontramos referência alguma a “Quinto Império”, “Bandarra”, “Rei ressuscitado”… apenas escassas (“Sermão do Dia de Reis”, em 1641) referências irónicas ao Sebastianismo e louvores ao regime Filipino.

É portanto curioso que só depois de regressado a Portugal o pensamento e a convicção no estabelecimento de um”Quinto Império” se torna evidente no pensamento e no verbo vierino… É como se a necessidade preemente de tal empreendimento só se tornasse evidente perante a perspectiva da fragilidade presente do estado de Portugal perante as ameaças cruzada de Espanha, no continente europeu, e da Holanda, no Brasil, em Angola e no Oriente. Perante as dificuldades aparentemente invencíveis, Vieira reconheceu que Portugal só poderia sobreviver se o seu presente perigoso e cinzento fosse polarizado para um destino universalista e global. Perdendo o foco da estrita e regional guerra luso-holandesa no Brasil, Vieira podia agora ver o Todo e compreender que os destinos de Portugal só poderiam ser cumpridos no mundo, pela conversão do mesmo aos ideais católicos que tanto acarinhava e dos quais esperava encontrar no restaurado rei português o mais importante agente, recorrendo como meio ao império português como forma de projecção desse império terrestre onde a Companhia de Jesus seria o maior instrumento de conversão.

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Um português chamado António Vieira: O projecto de fuga para o Brasil e da independência do Brasil com… Dom João IV e o papel de António Vieira

Um dos episódios menos conhecidos da História portuguesa, envolve Vieira directamente, ou como criador do plano, ou pelo menos, como seu apoiante directo e explícito. Trata-se do projecto urdido por Dom João IV e no mesmo momento em que as negociações com França a propósito de uma aliança que sustentasse Portugal na sua luta desigual contra Espanha se goravam, altura em que o monarca português levanta a possibilidade de antecipar duzentos anos a fuga de Dom João VI para o Brasil de 1807.

Em meados do século XVII, o Brasil não é considerado como uma colónia como tantas outras que Portugal ainda mantinha um pouco por todo o mundo, mas como o derradeiro refúgio da portugalidade, o único local plausível para manter a monarquia e nela, alguma forma derradeira de independência perante as ameaças de invasão: sob Dom João VI, as divisões napoleónicas, e sob Dom João IV, dos tércios espanhóis.

O plano de Dom João IV parecia ser ainda mais ambicioso que o de Dom José, já que passava pela transformação da colónia brasileira num reino completamente autónomo, regido pelo monarca, enquanto que Portugal, deixado para trás e exposto à ameaça que o rei tinha por impossível de debelar se separava e ficava sob a regência do seu filho, Dom Teodósio que o rei procurava casar com uma princesa francesa como forma de lhe assegurar algumas condições de manter o reino independente perante Espanha.

O projecto foi levado a conselho junto dos mais próximos conselheiros do rei, entre os quais António Vieira, que tinha acabado de regressar dos Países Baixos e que juntava as suas preocupações às do Rei já que não conseguira ali assegurar uma paz com a República holandesa. Esta coincidência, e a ousadia costumeira das ideias de Vieira (não era ainda mais arrojado procurar abolir a designação de “Cristão-Novos”?) fazem crer que o projecto pode ter germinado na mente do jesuíta… Não era ele um “brasílico” de coração e formação? Não vinha Vieira desanimado da possibilidade de firmar a paz com a Holanda e receava acima de tudo uma coligação invencível entre os Países Baixos, atacando Portugal nas colónias e Espanha, invadindo as fronteiras raianas?

Tendo recebido do rei, o encargo de levar adiante o projecto, Vieira embarca para Paris e é recebido pelo embaixador português em Paris, Francisco de Sousa Coutinho, que acolhe a proposta com grande desconfiança e imensas reservas. Mas França não parecia muito inclinada a aceitar o projecto e hesitava quanto a enviar para Portugal o Duque de Orleães e propunha em seu lugar Luís de Condé, apenas numa manobra dilatória para atrasar o andamento do plano e descrente da capacidade do reino português – separado do Brasil – de resistir sozinho à potencia castelhana.

Embora alguns, como Oliveira Martins, encontrassem em Vieira o verdadeiro arquitecto deste plano, e nele também a mão da Companhia de Jesus que pretenderia desta forma constituir aquilo que na sua “História de Portugal” chama de “Quinto Império de Deus e dos Jesuítas” no Brasil onde Dom João IV seria a cabeça formal de um “Império Jesuítico nas Américas” que no século XVII alguns críticos quiseram encontrar no Paraguai. Nada indica , contudo, que houvesse tal intenção jesuítica ou que esta fosse a motivação secreta oculta sob as extensas manobras do Padre António Vieira neste sentido. De qualquer forma, o projecto de separação do Brasil de Portugal e da formação de dois reinos autónomos haveria de frustrar-se não só devido à oposição quase unânime dos conselheiros de Dom João IV, mas sobretudo pelas hesitações francesas em o apoiar, e, em primeiro lugar devido à inversão do andamento da guerra no Brasil onde os colonos que mantinham uma revolta contra os invasores holandeses começavam a ganhar ascendente sobre estes e colocavam agora em sério risco a aplicação prática deste arrojado plano.

Em suma, se não houve divisão entre Portugal e Brasil e se o segundo não logrou tornar-se o primeiro país colonial independente do mundo, tal deveu-se sobretudo à vontade dos seus autóctones e à daqueles que vindos de Portugal reconheciam nessa sua nova pátria virtudes e potencial bastante para que merecesse o estabelecimento e o mantimento de uma guerra que apesar de aparentemente perdida à partida, no final, seria ganha, saindo derrotado o invasor holandês e, com ele… Os planos daqueles que como Vieira se batiam pela separação dos dois reinos.

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Um português chamado António Vieira: A Revolta do Pernambuco do jugo holandês e a hesitação de Vieira

Quando os colonos portugueses se revoltam contra o ocupante holandês, coadjuvados por escravos negros e índios cristianizados, Vieira estava na Holanda, procurando negociar a paz desta com Portugal restaurado, quando recebe as notícias da revolta. A sua primeira reacção é escrever para o rei e queixar-se dos “valentões de Portugal”, que não satisfeitos de estarem já metidos com a maior potencia da época, Espanha, agora queriam também bater-se contra a Holanda, com quem ele procurava tão esforçadamente fazer a paz, de forma a garantir a vitória contra a primeira: “Em todo o passado Castela e Portugal não puderam prevalecer assim no mar como na terra contra a Holanda; e como poderá agora Portugal, só, permanecer e conservar-se contra a Holanda e contra Castela?” (Cartas). Posteriormente, haveria de ser menos crítico dos revoltosos, já que conhecera de perto e pessoalmente as agruras da “guerra holandesa” e haveria de ora defender revoltosos, ora aqueles que defendiam a paz com a Holanda. Alguns, em Portugal, e em particular na corte de Dom João IV, defendiam que a paz com a Holanda devia ser assegurada a todo o custo sacrificando inclusivamente os revoltosos que no Brasil no Pernambuco se batiam contra os holandeses e com eles, abandonando qualquer reclamação ao Pernambuco. Outros, menos influentes em Portugal, mas crescendo em número entre o Povo e a Burguesia, e sobretudo entre os colonos brasileiros acreditavam que era preciso enviar reforços para apoiar a revolta e promover a final expulsão dos holandeses do Brasil.

Menos hesitante estivera o rei, que logo que recebera novas da revolta mandara carta ordenando que a coluna que entrara no Pernambuco vinda dos territórios portugueses e que a pedido do governo local e enviada para ajudar a Holanda a suprimir a revolta e que se virara muito compreensivelmente a seu favor voltasse à Baía. A coluna militar violara as suas ordens absurdas e maquiavélicamente calculistas emanadas a partir de Lisboa e batíasse agora com os revoltosos e contra a Holanda no interior do Pernambuco. Já então o Brasil, pela composição das suas forças e pelo espírito de autonomia e de liberdade das suas gentes, começava a agir de forma autónoma e independente, animado pela distância da metrópole e do relativo desinteresse a que esta vota a sua distante colónia… Na revolta contra os europeus do norte estavam todos aqueles que os portugueses tinham trazido e encontrado na terra brasílica: aos portugueses, colonos e militares vindos da metrópole, juntavam-se e batiam-se lado a lado os índios comandados por Filipe Camarão, um índio tupi e os negros do liberto Henrique Dias. A esta congregação de gentes e raças, unidas pelo espírito da liberdade brasílica contra o opressor estrangeiro se juntava o coração de Vieira, criado desde os sete anos na Baía, mas se separava a inteligência do Jesuíta, mais prudente e avisadamente receosa da divisão dos escassos meios entre duas guerras contra duas das maiores potencias militares da época: Espanha e Holanda.

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Um português chamado António Vieira: O “Quinto Império” em António Vieira: um Constructo Católico

Num “exame”, um texto que Vieira comporia para condensar e facilitar a conversão dos judeus ao catolicismo, o jesuíta aludiria a dado ponto por “… que o tal Quinto Império por qualquer modo que seja há de ser sempre não só católico, mas o mais católico que nunca houve.” Este Império católico, devia assim não enquadrar em si comunidades e religiões de outras matrizes religiosas, mas cumprir-se pela sua conversão ao catolicismo de Roma, e visando assim sobretudo a conversão de judeus, indígenas e muçulmanos. Liderando este Império Universal, Vieira coloca Dom João IV, “porque princípe que gasta com seus vassalos tudo o que recebe deles, não lhe compete menos conquista que a do Mundo, menos Monarquia que a do Universo… Assim prometem as novas profecias… para grande aumento da fé; para grande glória da Igreja; para grande honra da nação portuguesa…”

António Vieira, queria sobretudo que a concepção do Império Universal cristão vingasse. Este Império deveria ser erguido à semelhança da Igreja e, essa construção deveria ser feita – naturalmente – por um príncipe cristão, cabeça de um dos pilares do catolocismo e de missões católicas em todo o mundo, desde o Japão à Índia e por meio das selvas do sertão brasileiro. E esse pilar era Portugal e o seu império ultramarino, com especial destaque para o Brasil que Vieira sentia como sendo a sua primeira pátria.

O “Quinto Império” de Vieira não correspondia politica e administrativamente ao mesmo formato de Império dos quatro impérios precedentes… Assírios, romanos, macedónios e outros, formaram império na base da conquista, anexação e de um controlo centralizado e férreo. Com efeito, este Império de Vieira não era um corpo único e unificado, mas uma entidade multiforme e descentralizada. O Imperador Universal decidiria das contendas e disputas entre os diversos imperadores e reis colocados sob a sua tutela, mas não regiria em seu nome, sempre com a suprema intenção de manter por todo o mundo a paz de Cristo, mas nunca a impondo pela força das armas ou das legiões. Uma imagem que está muito conforme com a visão que hoje em dia alguns têm quanto à essência e ao destino de uma potencial União Lusófona…

A importância de Portugal no lançamento deste constructo universalista católico resultava primariamente do papel de Portugal na missionação do mundo através da extensa rede de missões promovidas pelos portugueses no mundo a partir dos seus estabelecimentos no Oriente e no Brasil. Assim, as conquistas de Portugal, a sua defesa e recuperação (contra a Holanda) seriam fundamentais para criar as bases desse novo e prometido Quinto Império Cristão e por isso dava Vieira tanta importância à Restauração de Portugal e à defesa do reino. Não porque Portugal fosse em si mesmo importante. Mas porque importante era o “império futuro” que ainda haveria de vir e em cuja fundação Vieira encontrava em Bandarra sinais que haveria de partir de Portugal.

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Um português chamado António Vieira: O Espírito de Tolerância Religiosa em António Vieira e a “Conversão do Mundo”

Talvez por cálculo, para enfraquecer a posição da Inquisição no confronto que esta trazia contra a Companhia de Jesus a propósito dos privilégios da Universidade de Évora ou simplesmente por convicção, a partir de 1642 Vieira defenderia publicamente que Roma deveria perdoar todas as heresias conhecidas até à data e que – sobretudo – todos os judeus expulsos de Portugal por séculos de perseguições e confiscos sucessivos deviam regressar, garantindo-se-lhes a segurança das pessoas e dos bens. É claro que para convencer o monarca da validade destas suas radicais (à época) propostas contava o Jesuíta não somente com a sua grande influência junto de Dom João IV, mas também com os cabedais que estes trariam de volta para o país e que vinham financiando as campanhas holandesas no Pernambuco assim como a própria dura luta que Portugal travava na fronteira com Espanha. Eram estes fundos de origem judaica que permitiam manter acesa a chama da resistência contra a Holanda e contra a Espanha e que tanta falta faziam agora ao novo monarca para armar os exércitos que tinham que defender a fronteira contra os tércios espanhóis.
Mas não se pense que o jesuíta defendia que os judeus deviam continuar a praticar publicamente o seu credo. Na verdade, Vieiria proclamava frequentemente e tão alto quanto podia que a maior missão do Quinto Império com que sonhava e que acreditava estar prometido pelo a Portugal era precisamente a conversão dos judeus “coisa tão dificultosa, como é a conversão dos judeus”. Assim como Agostinho acreditava que para que o Império do Espírito Santo se cumprisse, cada um teria que transformar o seu interior, numa aplicação do princípio de comunhão entre o micro e o macrocosmos expresso na “Tábua da Esmeralda”, também António Vieira acreditava que para que o Quinto Império se cumprisse teria que ocorrer primeiro a conversão universal e que o seu momento só poderia chegar quando todos os judeus e infiéis se tivessem convertido a Cristo. Provavelmente nunca ninguém foi capaz de alcançar a plenitude da importância do catolicismo no pensamento de Vieira, mas este era o ponto fulcral de todo o seu pensamento e palavra e se defendia o perdão e o regresso de todos os judeus exilados fazia-o para que este regresso pudesse sustentar com os seus cabedais a defesa do Reino e do Brasil e para que Portugal e o Brasil pudessem formar o coração daquela entidade que Vieira acreditava que formaria no futuro, ainda em vida de Dom João IV, a semente para um Império Cristão Universal liderado pela acção proselitista da Companhia de Jesus, do Papa e do rei português.

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Um português chamado António Vieira: Vieira, a Companhia de Jesus e o Universalismo aPatriotista

António Vieira sempre defendeu um “Quinto Império do Mundo” que casualmente, ou melhor, providencialmente, teria um rei-imperador português. Patriótico, no sentido em que era um dos mais ardentes defensores da independência portuguesa contra Espanha e da liberdade brasileira contra a Holanda, Vieira provinha de um substrato que o moldou, educou e que se tornaria o esqueleto sobre o qual se comporia a carne daquilo que seria o cerne da sua visão do Quinto Império: uma entidade cosmopolita e multinacional exactamente moldada à imagem da Companhia gisada por Inácio de Loyola. Com efeito, a Companhia de Jesus congregava no seio membros oriundos de várias nacionalidades, unidos num propósito comum e falando entre si uma só língua: o latim. Os jesuítas deviam abstrair-se da noção da sua pátria original e os seus membros deviam excluir-se das querelas políticas da governação. Embora Vieira tivesse sido nesse sentido um marginal (sendo muito criticado pelos seus pares precisamente por essa excessiva proximidade ao Poder), não deixava de ser um Jesuíta de formação e sentimento: Como a sua Ordem, defendia uma entidade aPatríotica, a qual aliás procurou fundar o “estado jesuíta” que Pombal quis reconhecer na coligação de aldeias índias regidas por jesuítas no Brasil e estaria na base do mito do “Estado Jesuíta” que inspirou filmes como “A Missão”.

O conceito de “Quinto Império do Mundo”, unido por uma língua comum, o português, e mantendo a “cabeça deste império universal“ em Lisboa e nos “Reis de Portugal os Imperadores Supremos” e congregando em si mesmos povos de vários credos e nacionalidades bem ao estilo do Culto do Espírito Santo do reinado dionisiano é assim plenamente compatível com a visão jesuíta daquele “Estado efectivo” que foi sendo reinventado na mente de Vieira, compondo elementos da Tradição portuguesa medieval, das Trovas de Bandarra, de algum incerto templarismo devidamente condimentadas com o NeoSebastianismo e um messianismo oriundo do substrato judaico do Jesuíta se haveria de equivales ao “Quinto Império” ou ao “Reino do Espírito Santo” dos profetas da portugalidade e do papel futuro de Portugal no mundo.

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Um português chamado António Vieira: Vieira: de Anti-Sebastianista a NeoSebastianista

Num dos seus primeiros sermões, realizado em Janeiro de 1634, convenientemente na festa de São Sebastião, na Baía, António Vieira ergue-se como um crítico daqueles que defendiam a tese do regresso do rei perdido nas areias de Alcácer Quibir, ironizando: “Foi S. Sebastião o encoberto porque o encobriu a realidade da vida debaixo da opinião da morte… Ó milagre! Ó maravilha da providência divina! Na opinião de todos era Sebastião morto, mas na verdade e na realidade estava Sebastião vivo, ferido sim e mal ferido, mas depois das feridas curado; deixado sim por morto de dia na campanha, mas de noite retirado dela, com vozes sim de sepultura e de sepultado, mas vivo, são, valente e tão forte como de antes era. Assim saiu Sebastião daquela batalha e assim foi achado depois dela: na opinião, morto. Mas na realidade, vivo.” E neste sentido, ía Vieira contra a opinião dominante na Companhia de Jesus, já que nesta abundavam aqueles que davam eco aos mitos sebastianistas, como Simão Gomes, dito de O Sapateiro Santo (não confundir com Bandarra).

António Vieira, brasileiro desde os sete anos, participante activo da guerra contra os hereges holandeses e frustado com a condução da luta contra estes, escreveria a propósito do andamento desta guerra e dos feitos dos comandantes reinóis na mesma: “Se foram verdadeiras todas aquelas certidões dos soldados do Brasil, se aquelas rimas de façanhas em papel, foram conformes a seus originais, que mais quereríamos nós? Já não houvera Holanda, nem França, nem Turquia; todo o mundo fora nosso.” Olhava para o então rei Filipe IV como a grande esperança para a boa resolução da guerra holandesa. Com efeito, em Janeiro de 1641 (ainda antes de que a nova da Restauração ter chegado ao Brasil), Vieira declarava num sermão Filipe como “invictíssimo monarca” e lhe desejava a vitória na sua marcha contra os revoltosos na Catalunha. Ou seja, António Vieira desacreditava do regresso de Dom Sebastião, porque acreditava que isso retirava energia à forma como os portugueses no Brasil poderiam beneficar do apoio de Filipe na sua guerra e vontade a este de lhes acudir nestes apuros e, nessa época, acreditava que entre as duas empresas: de restaurar a independência do Brasil ou a de recuperar as terras brasileiras perdidas para a Holanda, a segunda era mais importante e a primeira era danosa uma vez que reduzia o poder e a capacidade do “invictíssimo monarca” de expulsar esses hereges.

Ao contrário de alguns, mas seguindo a maioria, Vieira alinha com aqueles que aclamam o novo rei, Dom João IV, assim que as novas da Restauração chegam ao Brasil. Pouco tempo depois, embarca para Lisboa e após atribulada viagem desembarca em Peniche. Vieira, em resultado da sua cultura e eloquência, cedo se torna num dos esteios principais do novo regime. Continua descrente quanto ao regresso do rei perdido em Marrocos, mas não é mais um simples descrente em Dom Sebastião, o Jesuíta compreende então que o novo rei podia beneficiar de todo o profundo e intenso sentimento popular que desejava o regresso de Dom Sebastião em seu proveito e como auxílio determinante para a guerra contra Castela e de Anti-Sebastianista, transmuta-se em Neo-Sebastianista. Daí em diante passa a propagar a interpretação das profecias do Sapateiro de Trancoso como uma antecipação da chegada de Dom João IV ao poder, atribuindo ao novo regime uma renovada legitimidade, refundando-o sobre as expectativas populares do regresso do seu antigo monarca.

Esta passagem de Anti-Sebastianista a Neo-Sebastianista não é, em Vieira, um artíficio discursivo ou uma conveniência política. É algo de sentido e de profundamente vivido. A partir daí, Vieira haveria de percorrer o caminho que o levaria a defender Dom João IV como o líder do dito”Quinto Império do Mundo” de uma forma tão convicta e profunda que marcharia até bem perto das perigosas atenções da Santa Inquisição.

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Um português chamado António Vieira: Vieira e o Mau Andamento da Guerra Holandesa no Pernambuco

Embora fosse um homem da sua época, formatado pelos padrões de normalidade e conceitos da sua época, Vieira não tinha a mesma concepção de “império” que a maioria dos seus contemporâneos defendia e aplicava. A dado ponto escreve o jesuíta: “Perde-se o Brasil, Senhor (digamo-lo em boa palavra) porque alguns ministros de Sua Majestade não vêm cá buscar o nosso bem, vêm buscar os nossos bens”. Acrescentado depois: “Muito deu em seu tempo Pernambuco, muito deu e dá hoje a Baía, e nada se logra, porque o que se tira do Brasil tira-se do Brasil; o Brasil o dá, Portugal o leva.”

Desde logo, é curioso como neste lamento pela “perda do Brasil”; Vieira assume-se em primeiro lugar como “brasileiro”, (“nossos bens”), como um “outro” a quem o Reino europeu procura perder na ânsia daqueles que lhe envia para o governar de rápidamente enriquecerem… Vieira dá neste ponto mostras do primeiro momento da erupção do sentimento nacionalista brasileiro, com este desabafo perante a atitude predatória destes ministros do Reino perante a colónia brasílica e também exprime a sua desilusão perante a persistência do Pernambuco nas mãos holandesas e perante a transformação do Brasil em mero ponto de partido de riquezas para sustentar as élites dirigentes do Império, em Lisboa. Estas expressões, e muitas outras proferidas por Vieira a favor dos direitos dos índios e dos escravos negros haveriam de granjear-lhe uma viva animosidade por parte dos colonos portugueses no Brasil.

Ao descrever a novo governador do Brasil, Dom Jorge Mascarenhas, marquês de Montalvão, a situação da guerra com os holandeses no Pernambuco, Vieira diz sobre os quatro generais que comandaram a campanha antes da chegada do marquês que “nenhum governou a guerra que a não entregasse ao seu sucessor em pior estado do que a recebera”, e a propósito daqueles militares que regressavam a Portugal e pediam benesses em nome dos seus feitos no Brasil: “Se foram verdadeiras todas as certidões dos soldados do Brasil, se aquelas rimas de façanhas em papel foram conformes a seu originais, que mais queríamos nós? Já não houvera Holanda, nem França, nem Turquia, todo o mundo fora nosso.” De novo, neste ponto, Vieira exprime a desilusão daqueles que além-Atlântico se começavam a sentir mais brasileiros que portugueses e que sentiam uma grande e crescente revolta perante a fraca qualidade dos generais que de Lisboa lhes íam enviando e que se revelavam incapazes de recuperar aos Países Baixos o terreno perdido em campanhas anteriores, e sobretudo, o rico e próspero Pernambuco.

De qualquer modo, é irónico que depois de ter consumido tanta energia e tempo a motivar os seus conterrâneos brasílicos animando-os na difícil “guerra holandesa” quando é forçado a abandonar o Brasil, pressionado pelo poderosos colonos que se reviram no famoso “Sermão de Santo António aos Peixes” (1654) e embarca num navio com destino a Lisboa quando este naufraga é recolhido precisamente por… um navio corsário holandês, que o salva e leva a bom porto, até à Graciosa, nos Açores. Ironias do destino, às quais nem Vieira estava imune…

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Um português chamado António Vieira: O “Milagre” de Vieira; de aluno medíocre a génio

Ao contrário do que se poderia supor, e devido a António Vieira se ter tornado num tão excelso artista da língua portuguesa, esperaríamos que o Jesuíta no Seminário da Baía tivesse sido desde sempre um excelente aluno. Contudo,  tendo aprendido as primeiras letras com a mãe, padeira dos frades de São Francisco, em Lisboa, Vieira nos primeiros tempos do seminário da Baia revelara-se um aluno medíocre em todas as disciplinas, ainda que extremamente devoto. Descontente consigo próprio, passava longas horas orando à Virgem das Maravilhas, suplicando-lhe um melhor desempenho no Seminário. Então, subitamente, terá sentido “estalar” algo no cérebro, e imediatamente sentido uma dor intensa, quase mortal. A partir desse episódio, narrado na biografia de Lúcio de Azevedo, a memória do futuro jesuíta seria extensa e robusta, as suas capacidades de compreensão das matérias leccionadas multiplicar-se-íam e as suas energias oratórias cresceram e Vieira transformou-se, do dia para a noite (de acordo com a lenda) no melhor aluno do Seminário. Este episódio chegou-nos por via da obra do Padre André de Barros, “A Vida de António Vieira”, que teria escutado este relato de alguém que o teria ouvido da boca do próprio jesuíta.

Além deste espectacular desenvolvimento das capacidades mentais de Vieira, existe um outro episódio “fantástico” na vida de Vieira. Após ter terminado com o citado brilhantismo os estudo preparatórios no Seminário, Vieira foi enviado para a aldeia do Espírito Santo onde os jesuítas tinham agrupado um grupo de indígenas e, certo dia, perdeu-se no caminho entre o Seminário e a aldeia. Pela frente, encontrou o rio Joanes e ameaçado já pela escuridão hesitou sobre se continuaria à busca do caminho para a aldeia ou se voltaria para trás, para a cidade. Então, assustado, o jovem Vieira encomendou-se ao Anjo da Guarda e eis que, de novo, a providência acorre em seu socorro: surje um menino envolvido envolto por luz, o próprio Anjo da Guarda que caminhando silenciosamente à frente de Vieira até à aldeia, desaparecendo assim que foi cumprida a sua missão.

A época de Vieira é uma época de reacção contra a expansão do Protestantismo na Europa, uma batalha onde os Jesuítas se encontravam na linha de frente e onde o recurso a milagres eram useiro para reforçar junto da população mais hesitante a vantagem do catolicismo contra o protestantismo. Para além de um clima que propiciava à aparição de milagres e à promoção de futuros santos, a época era também uma época mentalmente muito diversa da nossa onde existia uma compreensão ainda muito limitada da Natureza e dos fenómenos naturais (Vieira sente-se compelido a designar um novo “imperador do futuro” depois de ver um cometa no Brasil), onde o misticismo e o maravilhoso permeavam toda a visão do mundo e a presença do Homem no mesmo. Estes episódios, aqui narrados, podem ter tido origem na tentativa póstuma de reabilitar a imagem maculada pela Inquisição de Vieira ou terem brotado do mesmo substrato mítico de onde surgiram tantas hagiografias no século XVII. De uma forma ou de outra, estas histórias ou mitos contribuiram para forjar uma aura mística e fantástica em torno de António Vieira que perdura até hoje.

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Nova Águia

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Lançamento da revista “Nova Águia”: HOJE !

Como é sabido, A Águia foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal, em que colaboraram algumas das mais relevantes figuras da nossa Cultura, como Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, Raul Proença, Leonardo Coimbra, António Carneiro, António Sérgio, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva.

A NOVA ÁGUIA, pretende ser uma homenagem a essa tão importante revista da nossa História, procurando recriar o seu “espírito”, adaptado ao século XXI, conforme se pode ler no nosso Manifesto.

Tal como n’ A Águia, procuraremos o contributo das mais relevantes figuras da nossa Cultura, que serão chamadas a reflectir sobre determinados temas.
O primeiro número, a ser lançado em Maio, terá como tema “a ideia de Pátria: sua actualidade”.
O segundo, a ser lançado em Novembro, terá como tema “António Vieira e o futuro da Lusofonia”.

A Revista resulta de uma parceria entre a Editora Zéfiro, a Associação Marânus/Teixeira de Pascoaes, que será a nossa sede a Norte, e a Associação Agostinho da Silva, que será a nossa sede a Sul (Rua do Jasmim, 11, 2º andar – 1200-228 Lisboa; E-Mail: agostinhodasilva@mail.pt; Tel.: 21 3422783 / 96 7044286; http://www.agostinhodasilva.pt/).

LANÇAMENTOS DA NOVA ÁGUIA

30 de Abril – 15h00: Fundação José Rodrigues (Rua da Fábrica Social, Porto). Conferência de imprensa de apresentação da NOVA ÁGUIA.

19 de Maio – 21h30: Fundação José Rodrigues (Porto)
24 de Maio – 15h00: Galeria Artur Bual (Amadora)
28 de Maio – 21h30: Atrium Chaby (Mem Martins)
31 de Maio – 17h00: Palácio Pombal (Lisboa)
– 20h00: Biblioteca Municipal de Sintra
3 de Junho – 15h00: Universidade de Évora
6 de Junho – 21h30: Galeria Matos-Ferreira (Lisboa)
7 de Junho – 16h00: Livraria Livro do Dia (Torres Vedras)
– 21h30: Casa Bocage (Setúbal)
11 de Junho – 15h00: Universidade de Aveiro
– 17h00: Casa Municipal da Cultura (Coimbra)
14 de Junho – 18h30: Livraria Arquivo (Leiria)
15 de Junho – 17h00: Vila da Batalha/ Batalha Medieval
18 de Junho – 18h00: Universidade do Algarve (Faro)
20 de Junho – 18h00: Amarante
22 de Junho – 16h00: Quinta dos Lobos (Sintra)

Setembro, dia 25, 18h00: Hemeroteca Municipal de Lisboa
Outubro: Universidade do Minho (Braga)

Para agendar um lançamento: novaaguia@gmail.com ; 967044286

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