Nova Águia

Sam Cyrous: Crítica ao Hiperconsumismo

“É inquestionável que o modelo dominante português e internacional de desenvolvimento depende da manutenção do consumo vigoroso de bens materiais. Os próprios índices de progresso e prosperidade são feitos com base na capacidade de consumo e acumulação de objetos e confortos materiais.”
Sam Cyrous
Revista Nova Águia
Número 6

Não há futuro para um modelo económico que exige – para sobreviver – um aumento do consumo exponencial. Simplesmente, num dado ponto (num futuro cada vez mais próximo) há de chegar o ponto em que os recursos e a energia ao dispor da economia são insuficientes para sustentar este crescimento e então, dar-se-á o colapso de um Sistema económico que se julgava eterno e eternamente mutável e adaptável…

Sendo inevitável o colapso do Capitalismo, não já pela aplicação de qualquer “desígnio histórico” marxista, mas pelo esgotamento das condições materiais que o sustentam, temos que, todos, começar a trabalhar suavizar os impactos negativos desse colapso e por começar a pensar, ensaiar e introduzir sistemas alternativos. O Capitalismo de Estado ou Sovietismo (confundido por muitos com “Socialismo”, demonstrou a sua incapacidade de forma magistralmente cabal em finais da década de 80… Assim, importa encontrar um modelo alternativo de desenvolvimento entre Esquerda e Direita, fora desta ultrapassada dicotomia sistémica que se esgotou e que quase levou o próprio planeta ao esgotamento total.

Esta alternativa económica não será assim nem de Esquerda, nem de Direita e muito menos de um indefinido e pífio “Centro”. Será oriunda de um horizonte novo e profundamente radicado nas comunidades locais, nos interesses da pessoas, dos locais onde vivem, estudam, trabalham e morrem. Será (queremos sonhar) um sistema económico onde o consumo desenfreado e patológico de Bens observado por Sam Cyrous foi encarado como aquilo que efetivamente é: uma patologia social e tratado injetando na sociedade uma nova Ética de responsabilidade social e ambiental que retornou os Consumidores ao seu estado original de Cidadãos.

O hiperconsumismo da atualidade – induzido por torrentes esmagadoras de Publicidade e pelos Meios de Comunicação Social – é de facto a maior ferramenta de condicionamento mental do Sistema Capitalista atual. Um consumidor preocupa-se sobretudo em consumir, por exibir esse consumo no círculo social, e assim galgar degraus numa pirâmide social onde os patamares mais elevados estão ocupados por aqueles que mais consomem.

Esta alienação tem que ser substituída por uma integração do Homem no seu Meio. No seu Local, na sua Comunidade e a “Economia dos Bens” em que vivemos tem que ser transformada na “Economia das Pessoas”, onde – sem prejuízo da produção de bens essenciais – o grande foco passa a ser o Homem, a sua realização pessoal, pela via da transformação de todos em agentes e produtores de bens e serviços culturais. Precisamos mesmo de trocar de carro de 2 em 2 anos? Dos últimos televisores de plasma ou LCD? Dos últimos Pentium? Do mais recente gadget da Apple? Ou seríamos mais felizes se conseguíssemos cumprir as necessidades básicas e além disso conseguíssemos ir ao cinema, teatro, dança, ler livros, jornais e revistas e simultaneamente participar ativamente na própria produção desses bens e serviços culturais?

Essa é a grande revolução da Língua e da Cultura, antevista pelos grandes poetas e profetas da Lusofonia sob a forma do “Quinto Império”: a revolução pacífica e o império da cultura que poderá assim oferecer uma alternativa sustentável e de futuro ao hiperconsumismo capitalista cuja explosão nos ameaça de forma tão patente…

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Renato Epifânio: “Portugal entrou para a Europa porque, entretanto, havia perdido o seu Império e, sobretudo, pela promessa dos “fundos”, que desenvolveriam finalmente o país”

A Via Lusófona (www.portoeditora.pt)

A Via Lusófona (www.portoeditora.pt)

“Portugal entrou para a Europa porque, entretanto, havia perdido o seu Império e, sobretudo, pela promessa dos “fundos”, que desenvolveriam finalmente o país.
Foi pois, sobretudo, um “negócio”. E os negócios nao merecem a deferência de um referendo.
O povo, aliás, na sua intuitiva sabedoria, sabe que é disso, sobretudo, que se trata: nós estamos na Europa para “sacar” algum dinheiro, o mais que pudermos. Para mais, como bem lembrava Agostinho da Silva, esses “fundos” eram-nos devidos. Se a Europa se tornou historicamente a região mais desenvolvida do mundo foi, desde logo, porque Portugal lhe abriu as portas do mundo. Nada mais justo, pois, do que agora sermos, enfim, pagos por esse nosso feito”

Renato Epifânio
A Via Lusófona 

A questão é contudo a de saber qual seria o resultado de um Referendo em que existisse uma verdadeira imparcialidade das perguntas (rara nos Referendos…) e onde para além de um puro sufrágio à “opção europeia” surgissem também outras opções… agora que a torneira dos Fundos começa secar, o restrito e estéril economicismo fará valer as suas consequências… nomeadamente o seu maior falhanço que é o da incapacidade para criar uma “pátria europeia” ou uma consciência comum alavancada numa alma europeia ou mesmo na existência de uma verdadeira comunhão entre os cidadãos da Europa.

Sem Alma, não pode haver Europa que sobreviva a uma verdadeira crise económica. Os Estados-Nação conseguem sobreviver às Crises porque os seus Povos estão dispostos a suportar sacrifícios em nome de causas imediatistas e mecânicas. O sacrifício coletivo e/ou individual é apenas suportável quando cumprido em nome de uma causa maior. Que não são nem os secos balancetes da Contabilidade dos Estados nem a transferência de parcelas crescentes de Soberania e Liberdade para entidades Supra-estatais não democráticas e fisica e emocionalmente distantes das realidades locais.

Alguns dirão que a Europa está a morrer. Nós diríamos mais: nunca chegou a nascer, porque a atual União Europeia nunca passou o estádio da “comunhão de interesses de curto prazo”, sem visão de longo prazo nem alavancagem anímica num conceito comum de “Pátria” ou “Alma Europeia”. Perante tal situação, a aparição de uma Alternativa Lusófona é inevitável. E tanto mais depressa quanto mais flagrante for o fracasso da construção da tal “casa comum europeia” sonhada pelos seus fundadores, na década de 50…

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Pedro Cipriano: “O poder ainda não é do povo, dois partidos estão continuadamente e alternadamente no poder. O povo limita-se a escolher entre duas pessoas escolhidas por esses partidos”

“O poder ainda não é do povo, dois partidos estão continuadamente e alternadamente no poder. O povo limita-se a escolher entre duas pessoas escolhidas por esses partidos. (…) este ciclo vicioso fez a maioria do povo cair numa apatia, e a prova disso é o nível de abstenção”
Pedro Cipriano
Revista Nova Águia
Número 6

O Rotativismo atual é a expressão acabada de um sistema democrático (na aparência) que se esgotou e que se encontra em fase de fim-de-ciclo. Mas que ameaça ainda sobreviver durante demasiado tempo pelo domínio quase total que detém sobre a Comunicação Social e sobre a Política. Contra este “império da partidocracia” resta às gentes de bem, cidadãos livres e conscientes erguerem-se e com as derradeiras armas que o Sistema ainda lhes reserva, como o Direito de Petição, as Candidaturas Independentes (municipais e presidenciais) forçar a uma mudança que devolva aos cidadãos a capacidade de expressão política que os Partidos lhe confiscaram. Contra deputados fiéis apenas aos partidos, há que erguer cidadãos ativos e participantes na vida e nas causas públicas… e promover a eleição de deputados independentes, uma das grandes causas do MIL: Movimento Internacional Lusófono, como decorre aliás DESTA petição.

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António José Borges: “A sociedade de informação que cria e estupidifica o homem light e o entorpecimento mental levam a dianteira nas causas do estado letárgico de (des)alerta da sociedade contemporânea portuguesa”

António José Borges

António José Borges

“A sociedade de informação que cria e estupidifica o homem light e o entorpecimento mental levam a dianteira nas causas do estado letárgico de (des)alerta da sociedade contemporânea portuguesa.”
António José Borges
Revista Nova Águia
número 6

Sejamos claros: a Sociedade Informação não é “má ou “boa” em si própria. É tão somente uma ferramenta e nada importa nela menos que aquilo que fazemos com ela do que ela própria. Não é, assim, a Sociedade de Informação que é “Light” ou “Hard”. É a civilização pós-moderna em que ela se desenvolveu que propiciou a popularização das simplificações excessivas, da ignorância e escravidão mental das massas. Não foi a tecnologia que nos transformou numa sociedade de abstencionistas, a que apenas o Futebol ou as Novelas, apaixonam. Foi a sociedade de Hiperconsumo, doses massivas de televisão e Imediatismo, mescladas com elites políticas e económicas que prosperaram com a idiotia reinante e com fretes feitos aos “senhores” do norte da Europa.

A culpa do estado a que chegámos nas cabe às Novas Tecnologias, cabe a todos nós, em proporções e medidas variáveis.

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Clara Tavares: “A Língua é o que define melhor o carácter de um Povo”

“A Língua é o que define melhor o carácter de um Povo, principalmente nos seus vocábulos intraduzíveis. Pascoaes chama a atenção para palavras específicas do nosso dialecto, como medo (ao qual está subjacente o desconhecido), remoto, ermo, e saudade. Esta última considera-a a mais significativa, a que traduz melhor a Alma colectiva. Significa nas o passadismo, mas a síntese do passado e do futuro. É o sentimento por excelência Português, a mais intraduzível em outras línguas.”
Clara Tavares
Revista Nova Águia
número 6

Esta riqueza cultural, simbólica e civilizacional que uma língua tão antiga, rica e universal como aquela que se observa na língua portuguesa é hoje um dos maiores patrimónios comuns da Lusofonia, uma alavanca essencial à reconstrução de Portugal e elemento vital para a identidade nacional portuguesa.

Assim como o português da Galiza é hoje elemento identificador da identidade nacional galega e a língua portuguesa funciona como cimento indispensável à coesão de países tão multilingues como Angola, Guiné-Bissau ou Moçambique, também em Portugal a língua assume-se como um dos patrimónios nacionais que economicamente maiores retornos assegura, imprimindo a Portugal um peso no cenário diplomático internacional que de outro modo um país – pequeno e periférico – como Portugal, nunca teria.

A língua portuguesa (língua extensa e de cultura) é pois uma das nossas maiores riquezas. Se recentemente, na sua última deslocação à Europa, o Primeiro-ministro chinês escolheu apenas 4 países e se um destes, foi precisamente, Portugal, tal não se deveu ao nosso peso económico, militar ou político numa Europa que cada vez mais nos renega e quer diminuir. Tal deveu-se ao facto de, graças à língua termos hoje no mundo uma influencia que extravasa em muito a nossa presença económica, demográfica e política e que se deve essencialmente à existência no mundo de 240 lusofalantes.

Se a língua é o nosso “petróleo”, devemos portanto assumi-la enquanto prioridade estratégica nacional. Investir na sua promoção, desenvolvimento e ensino um valor que corresponda à sua importância para a nossa identidade nacional (cada vez mais importante numa Europa plena de ambições assimiladoras e federalistas) e que nos permita ombrear, lado a lado, com essa grande potencia lusófona que é o Brasil, na defesa e na promoção do português pelo mundo fora.

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Descentralização Municipalista em Alexandre Herculano

Alexandre Herculano (http://www.cyvjosealencar.seed.pr.gov.br)

Alexandre Herculano

“A ideia de Município como forma privilegiada de exercer o poder político fê-lo (Alexandre Herculano) exercer a presidência da Câmara Municipal de Belém pelo amor que nutria ao sítio onde residia. Com efeito, procurou estudar na Idade Média a génese do Municipalismo do país acreditando que na sua época a descentralização administrativa era muito incipiente e que poderia ser proveitoso aprofundar a capacidade dos concelhos se governarem com leis próprias. Depreendemos a sua crítica à incapacidade de autonomia administrativa dos concelhos, que aliás o fez afastar-se deste cargo político, quando nos diz na sua História de Portugal o seguinte:
(…) Dizemos que os concelhos eram apenas a fórmula de existência de uma fração do povo, e dizemo-lo muito de propósito. Habituados vermos nos tempos modernos o país dividido todo, não diremos em municípios, mas em simulacros deles, e pertencerem todas as famílias a essa espécie de associações locais quase expirantes (…)”

> Alexandre Herculano foi o grande percursor da visão municipalista de reorganização radical do território que servia de mote fundamental aos primeiros republicanos. Sem ele talvez o sentimento reformista do Estado de pendor municipalista não fosse tão intenso. Sem o seu labor historiográfico talvez o nosso conhecimento da inclinação municipalista das primeiras dinastias não fosse tão seguro… Alexandre Herculano era efetivamente um fervoroso crente nas virtudes de uma descentralização municipalista, mas mais do que isso, era também um praticante, como prova a sua passagem pela presidência da Câmara Municipal de Belém, aliás.

“De facto, a sua concepção de um poder justo passava pelo reforço dos mecanismos decisórios dos municípios, pois acreditava que estes garantiriam menos abusos dos poderosos por, eventualmente, serem melhor controlados pelas bases sociais. Esta ideia de descentralização da administração pública defendida por Herculano, no jornal O Panorama, foi certamente o fundamento do estandarte ideológico dos Republicanos que defenderam este princípio.”

> Este era o cerne da defesa que Herculano fazia do Municipalismo: seria mais difícil que políticos com deficiências no campo da Moral, completamente ineptos na gestão da Res Publica (mas muito capazes a galgarem degraus nos aparelhos partidários) lograssem posições de destaque locais, se fossem provenientes da sociedade civil dos próprios munícipes, se estes os conhecessem pessoalmente como gente honesta, ávida, interesseira ou competente, em lugar de terem que “confiar” nas eternas mentiras do Marketing Político da atualidade, capaz de vender políticos como quem vende detergente ou piaçabas. Contra as armas desiguais do Marketing Político (que diminui até ao Grau Zero a Democracia) há uma defesa imparável: o conhecimento pessoal e direto das populações eleitoras em relação aos candidatos que desejam ser eleitos.

Nuno Sotto Mayor Ferrão
Revista Nova Águia
Número 6

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Aproximação entre Portugal e o Brasil em Alexandre Herculano

Alexandre Herculano (http://www.alcacova.com)
Alexandre Herculano (http://www.alcacova.com)

“O nosso povo não conhece isto inteiramente (as vantagens da aproximação entre Portugal e o Brasil); ainda não percebe até que ponto a fraternidade com os seus irmãos de além-mar lhe pode ser vantajosa. Afiguram muitas pessoas o Brasil como um país ainda inculto e bárbaro; crêem que a civilização, as artes e os cómodos da vida são apanágio só dos europeus. Erro miserável que cumpre derrubar pelo pé.”
Alexandre Herculano
citado em Revista Nova Águia
Número 6

Alexandre Herculano tem aqui uma das suas muitas frases sobre a relação especial entre Portugal e o Brasil. Herculano escrevia estas linhas na primeira metade do século XIX mas estas nem por isso perderam atualidade.

Então, como hoje, muito teriam Portugal e o Brasil a ganharem com uma aproximação cultural, política e económica. O Brasil teria tudo a ganhar se usasse os portos portugueses como pivot de distribuição dos seus produtos na Europa, servindo-se assim da maior proximidade destes e usando as excelentes ligações viárias de Portugal ao resto da Europa. O conhecimento comum que advém do uso da mesma língua e da grande proximidade cultural e de temperamentos, permite o estabelecimento de laços económicos fiáveis e duradouros.

Este é o eixo estratégico que falta descobrir para Portugal. Levar ao termo os preconceitos mútuos entre portugueses e brasileiros que – assim se constata – eram fundamentalmente os mesmos na época de Herculano e pela via da intensificação do conhecimento mútuo

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Teixeira de Pascoaes e a Descentralização Municipalista

Teixeira de Pascoaes (http://www.snpcultura.org)

Teixeira de Pascoaes (http://www.snpcultura.org)

“(Segundo Pascoaes) o Estado Português derivaria da própria organização municipalista, o que estaria de acordo com o espírito de independência política dos portugueses, como o demonstra a História das cortes em 1211 em que os súbditos falavam directamente com o rei.”
Clara Tavares
Revista Nova Águia
número 6

É a esta matriz original e fundadora que urge regressar. A estrutura centralizada, distante dos cidadãos, globalmente ineficiente e muito corrupta e arrogante que agora nos rege tem que ser reconstruída de cima a baixo. Essa Reconstrução é tão importante, como radical e difícil.

Importante porque há que imprimir à administração do território e ao poder democrático uma nova dinâmica, renovadora e energizadora que imprima ao país – no seu todo – um impulso de desenvolvimento coerente e coeso, em que o Interior e a Ruralidade são tão estratégicos para o país como a Urbanidade e o Turismo e Serviços.

Radical porque pela via da descentralização municipalista se dispersam pelo país fora, nas gentes, no Local, o Poder que hoje se encontra condensa no Terreiro do Paço, em altaneiras pirâmides de vidro, com políticos oriundos não da Sociedade Civil, mas de opacos e interesseiros “aparelhos partidários”. A dispersão do Poder Central pelas Autarquias garantiria a proximidade das populações, o reconhecimento dos piores e dos melhores e o fim do anonimato ou crónica sonolência dos deputados, já que estes políticos profissionais seriam não para-quedistas em Aveiro ou Braga, mas sempre e necessariamente pessoas da sociedade civil local, de obra, valor e méritos localmente reconhecidos.

Difícil porque o Sistema Centralista e Partidocrata está de tal modo alapado à República que seria uma forte barreira a vencer para a reconstrução municipalista do país… os aparelhos partidários controlam hoje de uma forma absolutista e imperial toda a vida política nos municípios e como beneficiam todos eles (pela via do malsano Rotativismo) do Sistema, tudo fariam para bloquear uma reforma que lhes retiraria poder, devolvendo-o à sociedade civil, tornando os passivos “eleitores” em Cidadãos plenos, livres e disputando com eles eleições livres e justas. Em lugar de “deputados ferrados pela disciplina partidária” (que em 25 anos nunca apresentaram uma Proposta, como Alegre) teríamos gente viva, uma sociedade dinâmica e revivificada e uma economia próspera, produtiva e resiliente. Pelo enfoque Local da vida social, cívica, económica e política. Conforma sonhava Teixeira de Pascoaes.

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“Em 1922, Sebastião de Magalhães Lima, defendia a “urgência de renovação do regime republicano através de uma República Federal de base municipalista”

Sebastião de Magalhães Lima (http://www.fmsoares.pt)

Sebastião de Magalhães Lima (http://www.fmsoares.pt)

“Em 1922, Sebastião de Magalhães Lima, defendia a “urgência de renovação do regime republicano através de uma República Federal de base municipalista (…) declarando explicitamente: “Obtida a autonomia municipal, pela qual devemos pugnar sem tréguas nem repouso, impõe-se, como consequência, a federação dos concelhos. (…) Pela federação dos municípios, chegaremos à federação das províncias (…) Enquanto se mantiverem as velhas fórmulas centralistas (…) nunca a república poderá atingir o ideal de solidariedade nacional, que é a base de uma sólida democracia”.
Ernesto Castro Leal
Revista Nova Águia
Número 6

Já o dissemos em vários lugares: a raiz essencial para a ruptura que deverá levar Portugal a novos patamares de desenvolvimento social, económico e humano é a descentralização municipalista. Não deixa de ser irónico que este modelo de administração do território e do exercício da democracia tivesse sido também avaliado durante a Primeira República… Na época, os receios pelo poder e influência do caciquismo pró-monárquico junto das autarquias minaram a aplicação destes princípios municipalistas, tornando a Primeira República muito mais centralista que a própria Monarquia Constitucional que veio substituir.

O modelo de Sebastião de Magalhães Lima era o mesmo que, décadas depois, seria sugerido por Agostinho da Silva: a divisão do território por uma federação de municípios livres, seguindo de perto a tradição medieval portuguesa e que, hoje, é um dos pontos basilares da Declaração de Princípios e Objetivos do MIL. Este modelo municipalista de exercício do poder democrático garantiria um novo grau de aproximação e ligação entre eleitos e eleitores, com a eleição de representantes concelhios que depois seriam enviados para uma assembleia (Cortes, Parlamento, Assembleia ou Senado). Todos os eleitos seriam conhecidos direta e pessoalmente pelos seus eleitores, e haveria a necessária responsabilização direta e uninominal que hoje não existe, tornando os deputados mais fiéis em relação aos seus Partidos, do que aos seus eleitores, numa subversão profunda e corrupta dos princípios da representatividade democrática.

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“Portugal entrou para a Europa porque, entretanto, havia perdido o seu Império e, sobretudo, pela promessa dos “fundos”, que desenvolveriam finalmente o país”

 

"A Via Lusófona" (http://www.almedina.net)

"A Via Lusófona" http://www.almedina.net

 

“Portugal entrou para a Europa porque, entretanto, havia perdido o seu Império e, sobretudo, pela promessa dos “fundos”, que desenvolveriam finalmente o país.
Foi pois, sobretudo, um “negócio”. E os negócios não merecem a deferência de um referendo.
O povo, aliás, na sua intuitiva sabedoria, sabe que é disso, sobretudo, que se trata: nós estamos na Europa para “sacar” algum dinheiro, o mais que pudermos. Para mais, como bem lembrava Agostinho da Silva, esses “fundos” eram-nos devidos. Se a Europa se tornou historicamente a região mais desenvolvida do mundo foi, desde logo, porque Portugal lhe abriu as portas do mundo. Nada mais justo, pois, do que agora sermos, enfim, pagos por esse nosso feito”

Renato Epifânio
A Via Lusófona

A questão é contudo a de saber qual seria o resultado de um Referendo em que existisse uma verdadeira imparcialidade das perguntas (rara nos Referendos…) e onde para além de um puro sufrágio à “opção europeia” surgissem também outras opções… agora que a torneira dos Fundos começa secar, o restrito e estéril economicismo fará valer as suas consequências… nomeadamente o seu maior falhanço que é o da incapacidade para criar uma “pátria europeia” ou uma consciência comum alavancada numa alma europeia ou mesmo na existência de uma verdadeira comunhão entre os cidadãos da Europa.

Sem Alma, não pode haver Europa que sobreviva a uma verdadeira crise económica. Os Estados-Nação conseguem sobreviver às Crises porque os seus Povos estão dispostos a suportar sacrifícios em nome de causas imediatistas e mecânicas. O sacrifício coletivo e/ou individual é apenas suportável quando cumprido em nome de uma causa maior. Que não são nem os secos balancetes da Contabilidade dos Estados nem a transferência de parcelas crescentes de Soberania e Liberdade para entidades Supra-estatais não democráticas e física e emocionalmente distantes das realidades locais.

Alguns dirão que a Europa está a morrer. Nós diríamos mais: nunca chegou a nascer, porque a atual União Europeia nunca passou o estádio da “comunhão de interesses de curto prazo”, sem visão de longo prazo nem alavancagem anímica num conceito comum de “Pátria” ou “Alma Europeia”. Perante tal situação, a aparição de uma Alternativa Lusófona é inevitável. E tanto mais depressa quanto mais flagrante for o fracasso da construção da tal “casa comum europeia” sonhada pelos seus fundadores, na década de 50…

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Lançamento da Revista Nova Águia nº 5

Apresentação pela Dr.ª Elsa Rodrigues dos Santos, presidente da Sociedade da Língua Portuguesa, onde se realizou o evento. Lançamento por Renato Epifânio, diretor da revista.

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A Questão da Galiza: Introdução

O mundo contemporâneo é – diz o “Pensamento Único” – o mundo da Globalização. Neste mundo onde as fronteiras comerciais se vão diluindo gradualmente perante o ácido corrosivo segregado pelas poderosas e aparentemente omnipotentes do neoliberalismo as línguas nacionais encontram-se na primeira linha da defesa da identidade dos povos. A força económica do mundo anglo-saxónico determinou que a língua franca das relações económicas e da Internet – cada vez mais o canal privilegiado para todas as comunicações – fosse o inglês. O poder dos meios de comunicação anglo-saxónicos, da “fábrica de ilusões” de Hollywood e dos canais de televisões norte-americanos, britânicos e australianos cerrou a machada definitiva (?) que está a impôr o inglês como língua universal.

Perante tamanho Tsunami linguístico não deve surpreender ninguém que a UNESCO, ano após ano, não cesse de engrossar a lista de línguas ameaçadas de extinção. E por cada língua que se perde, perde-se um património inestimável e único. Assim, deveria pertencer ao quadro de prioridades absolutas do Estado Espanhol, a defesa (pela via da promoção na Educação e da sua utilização na Administração Pública) das línguas nacionais, do basco, do catalão e, sobretudo pela parte que mais lusofonicamente nos toca, o Galego ou melhor dizendo o português da Galiza. Contudo, bem pelo contrário, assistimos atualmente a uma eclosão dos ataques contra a língua da Galiza que, sob a capa de um pífio “bilinguismo” e da “liberdade individual” procuram colocar o português da Galiza ao mesmo nível da língua do poder, da língua que desde Franco se procurou impôr “imperialmente” e que mercê desses ataques continuados é hoje falado por um número cada vez menor de habitantes da Galiza. Quando Espanha procura esmagar as línguas nacionais do seu Estado reduz a riqueza, a multiculturalidade que esteve na direta razão da sua posição entre os “Grandes” deste mundo. Um país monocultural e monolinguístico é tão estéril, tão pouco dinâmico e frágil como uma daquelas gigantescas plantações que os europeus espalharam criminosamente em África, criando a fome entre as populações e uma doentia dependência perante as caprichosas flutuações dos mercados. Se Espanha quer ser um país cultural, cientifica e económicamente estéril, então deve promover a asfixia mortal de todas as suas línguas nacionais. Se quer sobreviver – até enquanto “Estado” unificado – deve promover o florescimento das suas culturas nacionais.

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NOVA ÁGUIA, Nº 4: “Pascoaes, Portugal e a Europa”

Nova Águia 004 - CAPA RGB

O quarto número da NOVA ÁGUIA, que terá como tema “Pascoaes, Portugal e a Europa”, será lançado pela primeira vez no 8 de Outubro, no Anfiteatro I da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, numa sessão cujo programa poderá consultar no nosso blogue: www.novaaguia.blogspot.com (também em anexo).

Outros lançamentos foram já entretanto agendados. Entretanto, se quiser agendar connosco um lançamento, poderá fazê-lo por e-mail ou por telefone (967044286).

Abaixo, sinopse e índice do quarto número da NOVA ÁGUIA.

Em anexo, a capa.

NOVA ÁGUIA, Nº 4:
“Pascoaes, Portugal e a Europa”

Como é sabido, a revista A Águia foi uma das mais importantes do início do século XX em Portugal, em que colaboraram algumas das mais relevantes figuras da nossa Cultura, como Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, Raul Proença, Leonardo Coimbra, António Carneiro, António Sérgio, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva. A ideia de relançar a revista, agora sob o nome de NOVA ÁGUIA, pretende ser uma homenagem a essa tão importante revista da nossa História, procurando recriar o seu “espírito”, adaptado aos nossos tempos. Não se trata, nessa medida, de fazer uma revista voltada para o passado, meramente revivalista. Trata-se, antes, de fazer uma revista para os tempos de hoje, para o século XXI.

Tal como n’ A Águia, procuraremos o contributo das mais relevantes figuras da nossa Cultura, que serão chamadas a reflectir sobre determinados temas. O tema do quarto número, que agora lançamos, é “Pascoaes, Portugal e a Europa”.

Orgulhamo-nos de ter conseguido o contributo de nomes tão ilustres como Adriano Moreira, António Cândido Franco, António Telmo, Joaquim Domingues, Manuel Ferreira Patrício, Manuel Gandra, Miguel Real e Pinharanda Gomes, a par de muitos outros.

Para além disso, neste número poderá ainda encontrar uma série de outros textos, sobre outras temáticas, conforme o nosso índice:

EDITORIAL

PASCOAES, PORTUGAL E A EUROPA

Pinharanda Gomes, PASCOAES E A ALMA DA EUROPA…8

Pedro Teixeira da Mota, DA ACTUALIDADE DE ALGUNS ENSINAMENTOS DE TEIXEIRA DE PASCOAES…14

Pedro Martins, DA TERCEIRA IDADE À SEGUNDA VINDA: ALGUMAS NOTAS SOBRE O MESSIANISMO DE PASCOAES…21

Paulo Borges, ÍNDIAS ESPIRITUAIS E ILUSÃO EM TEIXEIRA DE PASCOAES E FERNANDO PESSOA…27

Miguel Real, O PERFIL DE PORTUGAL SEGUNDO TEIXEIRA DE PASCOAES…40

Maria Luísa de Castro Soares, SER PORTUGUÊS E SER UNIVERSAL NA OBRA DE TEIXEIRA DE PASCOAES…48

Manuel Ferreira Patrício, A SAUDADE E A PÁTRIA NO LIVRO DE MEMÓRIAS DE TEIXEIRA DE PASCOAES…57

Luís Loia, A ARTE DE SER PORTUGUÊS E A NECESSIDADE DA EDUCAÇÃO PARA A PORTUGALIDADE…63

Luís G. Soto, TEIXEIRA E BARTHES: A METADE DA VIDA NA ESTRADA DE EUROPA…65

José Lança-Coelho, TEIXEIRA DE PASCOAES NO DIÁRIO DE TORGA…69

Fátima Valverde, TEIXEIRA DE PASCOAES E RENÉ CHAR FACE À GRANDEZA UNIVERSAL DO TEATRO…70

Dirk Hennrich, A TERRA TARDINHA EM TEIXEIRA DE PASCOAES…75

César Antonio Molina, TEIXEIRA DE PASCOAES, POETA FILÓSOFO…77

Celeste Natário, TEIXEIRA DE PASCOAES: UMA METAFÍSICA DA SAUDADE…85

António Telmo, O PASSEIO QUE FICOU POR CONTAR…88

António José Borges, IDEALISMO E ÉTICA: SAUDADES FUTURAS DA NOVA ARTE DE SER PORTUGUÊS…89

António Cândido Franco, NOTA CORRIDA SOBRE O PENSAMENTO GEO-ESTRATÉGICO DE TEIXEIRA DE PASCOAES…96

Samuel Dimas, REGRESSO AO PARAÍSO CELESTIAL…101

Rui Martins, PASCOAES: UM TESTEMUNHO VIVO DAS MALEITAS E DOS TORMENTOS DO PORTUGAL DE ONTEM E DE HOJE…103

Risoleta C. Pinto Pedro, A EUROPA COMO REFLEXO DA IMAGEM VERDADEIRA…110

Renato Epifânio, ENTRE PORTUGAL E A EUROPA: CINCO NOTAS E UMA INTERROGAÇÃO…112

Paulo Feitais, PORTUGAL, O ROSTO DA EUROPA? PARA UMA ÉTICA DO ENCONTRO E DA PERDIÇÃO…113

José Eduardo Franco, POLÓNIA, PAÍS GÉMEO DE PORTUGAL NA EUROPA…117

Jorge Telles de Menezes, MUROS E SEBES: DA CIDADE MURADA ÀS ALDEIAS A OESTE DO ÉDEN…120

Joaquim Miguel Patrício, PORTUGAL E A EUROPA NUMA ERA GLOBAL…121

João Bigotte Chorão, EUROPA, EUROPAS…129

Adriano Moreira, EUROPA, A MATRIZ DO OCIDENTE…132

DA ARCA

Ilídio Sardoeira, UMA PEDRA ENTRE DOIS POETAS [CAEIRO E PASCOAES]…140

OUTROS VOOS/ OUTRAS VOZES

Markus Gabriel, SOBRE A ORIGEM E A ACÇÃO DA ARTE…142

Jacqueline Kelen, A LUZ LONGÍNQUA DO AMOR…146

RUBRICAS

COISAS E LOISAS, de J. Pinharanda Gomes…150

DO ESPÍRITO DOS LUGARES, de Manuel J. Gandra…155

AS IDEIAS PORTUGUESAS DE GEORGE TILL, de Jorge Telles de Menezes…159

PÁGINAS TEMÁTICAS

LITERATURA ORAL E TRADICIONAL, de Ana Paula Guimarães e Lurdes Cameirão…162

MÚSICA, de Miguel Anastácio…167

REPORTAGEM, Goreti Teixeira e Carlos Machado…170

BIBLIÁGUIO

TRÊS OBRAS SOBRE PASCOAES, por António Cândido Franco…176

JOSÉ RÉGIO, CORRESPONDÊNCIA COM ÁLVARO RIBEIRO, por Pedro Martins…179

A. CAMPOS MATOS, EÇA DE QUEIROZ – RAMALHO ORTIGÃO, RETRATO DA «RAMALHAL FIGURA», por Hugo Pinto Santos…185

A MEMÓRIA COMO GUME DE FACA, por Maria Aparecida Lopes Nogueira…187

PENSAR A SAUDADE, por Rui Lopo…190

TEXTIÁGUIO

Joaquim Domingues, VOOS DA ÁGUIA…202

POEMÁGUIO

António José Queirós, NOITE…6

Francisco Canelas de Melo, PEQUENA LEMBRANÇA DE TEIXEIRA DE PASCOAES…6

Lúcia Helena Alves de Sá, DA SAUDADE DE TEIXEIRA DE PASCOAES…7

Jesus Carlos, TO BE, OR NOT TO BE…138

Alexandre Vargas, UMA PINTURA DE PASCOAES…138

Maurícia Teles da Silva, FUTURO TRANSPASSAR…139

Maria Teresa Mota, DIVAGA…149

Fernando Esteves Pinto, ÁREA AFECTADA…160-161

Maria Leonor Xavier, VAGAS…198

Farídu’d-Din ‘Attár, A CONFERÊNCIA DOS PÁSSAROS…199

Jean-Luc Pouliquen, OS CANTOS DO VALE DO CAFÉ…200

Isabel Mendes Ferreira, TU, PASCOAES…203



E, como oferta, temos ainda um CD com a voz de Pascoaes!

Para mais informações: 967044286

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Sobre os novos domínios raíz do DNS, a partir de 2010 e apresentação da proposta para o .luso

Todos estamos habituados a utilizar os sufixos “.com” e “.org” nos endereços dos sites que visitamos nos nossos web browsers (como o Internet Explorer ou o Mozilla Firefox). Ora, a partir de 2010, a entidade que regula o sistema de nomes de domínios na Internet, a “Internet Corporation for Assigned Names and Numbers” (ICANN) anunciou que iria disponibilizar novos endereços raiz, ou seja novos sufixos primários. Estes novos domínios primários irão cobrir todas as línguas e temáticas.

Com a tecnologia atual, a ICANN permite apenas a criação de domínios com carateres do alfabeto romano padrão, isto é, sem carateres especiais como ç ou á ou í. Ora segundo o diretor de comunicação do ICANN, Brad White a organização vai abrir essa possibilidade a partir da segunda metade de 2010.

A lista de nomes de domínio de topo (DNS) é já relativamente extensa, contendo mais de duas centenas de nomes, para alem dois muito conhecidos .com, .org ou .edu, (respetivamente, “empresas COMerciais”, “ORGanizações” não-lucrativas, “EDUcação)”. A maioria, contudo, designa países como .pt para Portugal, .br para Brasil ou .ao para Angola

Ora é esta lista restrita que se vai abrir em 2010. A partir de então, particulares, empresas e associações e instituições poderão candidatar-se a novos domínios de raiz, quer com objetivos meramente comerciais, por exemplo, empresas como a Nokia, poderão requerer um domínio-raíz “.nokia” e particulares algo como “.nome” de forma a registarem domínios como “billgates”, sem o www (que já aliás já não é necessário) e até sem o “.com” (deselegante se se trata de um site pessoal).

A partir de 2010, será possível propor um nome de domínio raiz novo à ICANN e por pagamento ainda a definir, usá-lo.

Proposta:

Tendo em conta que a partir de 2010, será possível submeter à ICANN novos nomes de domínios raiz, porque não aproveitar esta janela de oportunidade aberta precisamente no meio que mais pode unir os geograficamente dispersos povos da lusofonia, a Internet e propor um nome de domínio raiz lusófono? Porque não abordar a CPLP, que tem precisamente do domínio das tecnologias de informação uma das suas áreas de ação privilegiadas e propor (sob o nome e iniciativa da CPLP) a criação do nome “.luso”?

Com este novo nome de domínio raiz, entidades publicas (como a CPLP) ou privadas que operam comercialmente em vários países lusófonos, como a Portugal Telecom, a Embraer ou o… MIL: Movimento Internacional Lusófono, poderiam adotar domínios como http://www.telecom.luso, http://www.embraer.luso Ou http://www.movimentolusofono.luso.

Fontes:
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1375089

http://www.icann.org/en/topics/new-gtld-program.htm

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Teixeira de Pascoaes (Parte 8): O Espírito Lusitano ou o Saudosismo

Estátua do poeta, em Amarante

Estátua do poeta, em Amarante

“O Povo português criou a Saudade, porque é a única síntese perfeita do sangue ariano e do semita.
No povo espanhol domina o sangue semita que o tornou ferozmente espiritualista, violento e dramático. No povo italiano domina o sangue ária que o tornou exclusivamente pagão. Veja-se a avidez com que os seus Artistas se abraçaram à arte greco-romana, quando os primeiros investigadores a descobriram. Os próprios Pontífices sentiram a voz do seu sangue dominar e vencer a palavra de Cristo. O casamento que, na Itália, de alguma forma, se deu do Cristianismo adquirido com o Paganismo nato, foi um casamento celebrado a frio, apenas exterior, sem haver tido o verdadeiro amor como causa.
Mas o povo português, criando a Saudade, que é o Desejo e a Dor, que é Vénus e Maria, o Espírito semita e o Corpo ária, viveu a própria Renascença, a qual encontrou portanto, na alma da nossa Raça, a sua expressão vivente e espontânea, a sua força viva que, posa, de novo, em movimento, criará uma nova Civilização. O espírito lusitano abrirá na História uma nova Era.”

É nesta mistura única de cruzamentos e influencias que se encontra precisamente a especial característica da portugalidade: a sua competência para estabelecer pontes entre civilizações e correntes de diálogo entre diferentes religiões e culturas. Ao contrário das crenças norte-européias que dão a mestiçagem como inferior aos paradigmas da pureza racial e cultural, a cultura portuguesa, brotando ela própria do cruzamento de civilizações assume como natural e até benéfica essa mestiçagem.
Quando Teixeira de Pascoaes escreve “O Povo português criou a Saudade, porque é a única síntese perfeita do sangue ariano e do semita”, assume aqui a dúplice matriz que está na origem daquilo a que noutros textos seus identifica como “raça portuguesa”: de um lado a origem indo-europeia que se instalou no ocidente da Península a norte, na Galiza dos gallaeci, na Lusitânia central dos Lusitana e, mais a sul com os celtici que faziam fronteira com os algarvios cónios. Do outro, sobretudo a sul, entre cónios e na costa ocidental, em feitorias fenícias dispersas (Almada, costa algarvia) e depois num afluxo constante, mas sempre ligeiro, durante as presenças cartaginesas, romanas e muçulmanas judeus de várias diásporas oriundos da Palestina ou de outros locais (como o norte de África). Quando Eduardo Lourenço identifica como características fundamentais do povo português o “conservadorismo na ordem dos costumes, autoritária na ordem dos costumes, autoritária no plano da justiça, dogmática na ordem das ideias, intolerante em matéria de crença”. Este conservadorismo e autoritarismo brotam do solo semita da nossa matriz genética mas estes traços não esgotam aquilo que é o português… A estes há que somar o impulso para a descoberta e aventura que os celtas espalharam até ao extremo ocidental ibérico e irlandês e que serviria mais tarde para impulsionar os descobridores até ao Japão e a Ceilão.
E no passo em que Pascoaes fala de “No povo espanhol domina o sangue semita que o tornou ferozmente espiritualista, violento e dramático” encontramos o tipo de visão e presença que ainda hoje é patente em Espanha, não somente na forma apaixonada e absorvente de viver a religião que observamos na devoção popular da “Semana Santa”, encarada com alguma indiferença em Portugal e na própria importação de Espanha da Inquisição e dos seus radicais e cruéis excessos que em Portugal nunca foram tão radicalmente seguidos.

E o poeta amarantino identifica também que “no povo italiano domina o sangue Ária que o tornou exclusivamente pagão”, ou seja, o impulso para o reconhecimento de uma multiplicidade poderes divinos, caprichosos e de curso dificilmente compreensível que explica boa parte da ingovernabilidade italiana e até a juventude de Itália enquanto país, nascida apenas no século XIX quando Portugal tinha já quase novecentos anos de História.

“Sim: a Saudade é a Renascença vivida pela alma de um Povo e não criada pelo artifício das Artes Plásticas, como aconteceu na Itália. A Saudade é espírito lusitano na sua super-vida, no seu aspecto religioso. Ela contêm em si, em vista do exposto, uma nova Religião. Se descende, como demonstramos, de duas religiões (Paganismo e Cristianismo), a Saudade é, sem dúvida, uma nova Religião.”

Se existe cerne na visão política para o futuro de Portugal é este: a arreigada convicção de que é preciso fundar uma nova (re-novada) religião ou – atualizando os termos – uma recuperada visão espiritualista do termo. Esta visão espiritual do mundo, começada a demolir pelo afluxo da influência católica romana e depois, a partir de 1822, com o advento do Constitucionalismo, e posteriormente com o anticlericalismo radical dos Republicanos, terá que ser recuperada se Portugal se quer encontrar a si mesmo e à sua alma perdida.

O processo de recuperação do lodo anímico e depressivo e depressor em que está imerso desde a época do Constitucionalismo só pode ser feito com o tipo e a escala de energias motivacionais e propulsoras de que as religiões são capazes. Assim como foram os Lusíadas que mantiveram viva (pela “Saudade” dos tempos e das glórias que cantavam), também será pela formação de uma verdadeira “igreja lusitana”: tolerante, porque bebendo essa influencia no puro cristianismo, a primeira religião universal anti-étnica e universalista, mas também naturalística e ctónica, na tradição da matriz celta que Dalila Pereira da Costa corretamente reconheceu em “A Nau e o Graal”. Essa religião nova, terá com objeto de adoração a devoção pelo Espirito Santo, como método o Culto do mesmo, ainda hoje bem vivo no Brasil e nos Açores e como vertente intelectual (porque a tem que haver, na sua fundadora) o pensamento sebastianista de Pessoa, Vieira, Agostinho e, claro, do próprio Teixeira de Pascoaes e da Renascença Portuguesa, agora reinterpretada e reatualizada na forma do MIL: Movimento Internacional Lusófono.

“Nós somos, na verdade, o único Povo que pode dizer que na sua língua existe uma palavra intraduzível nos outros idiomas, a qual encerra todo o sentido da sua alma colectiva. A alma lusitana concentrou-se numa só palavra, e nela existe e vive, como na pequena gota de orvalho a imagem do sol imenso. O único povo que sente a Saudade é o povo português, incluindo, talvez o galego, porque a Galiza é um bocado de Portugal sob as patas do leão de Castela. A Galiza é a nossa Alsácia!”

A Saudade é a constatação da temporalidade da existência humana. Não é portanto um exclusivo da portugalidade ou da Lusofonia e existem efetivamente vários termos equivalentes em outras línguas europeias. Mas o termo, em português, tem um significado diferente. Consagra a constante insatisfação do português para com o normal fluir do tempo, expondo a sobrevivência do pensamento mítico bem vivo e atual no seio da cultura e da mundovisão portuguesa atual.

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Teixeira de Pascoaes: Sobre a Saudade – parte 7

“Foi a Saudade, transfigurada em Acção e Vitoria no corpo de Afonso Henriques, que riscou na Ibéria as fronteiras de Portugal. Foi a Saudade o zéfiro do Remoto que enfunou as velas das nossas Naus descobridoras. Foi ela que venceu em Aljubarrota. Foi ela que cantou as estrofes d’os Lusíadas. Foi ela que dobrou o Cabo das Tormentas; e, fitando na noite tempestuosa, o vulto do Adamastor, o converteu num fragoroso promontório. Foi ela que criou, nos seus dias de luto, a misteriosa figura do Encoberto. Foi ela que despedaçou as nossas grilhetas em 1640, e, com um relâmpago dos seus olhos, fulminou o leão castelhano. Foi ainda ela que animou a alma popular no dia 5 de outubro… Essa ultima esperança que não devemos deixar morrer!”

Portugal é um país extraordinário. E não o dizemos em resultado da aplicação acéfala de qualquer nacionalismo bacoco ou anacrónico mas constatando a espantosa e única realidade da nossa própria existência onde as energia centrípetas de Castela e Madrid conseguiram tudo conformar ao seu império. Portugal, foi o único que logrou sobreviver a este Buraco Negro político centrado na meseta ibérica, e essa idiossincrasia nacional não é fácil de explicar. Foi este milagre que levou à presença de uma corrente subterrânea mas constante de providencialismo e messianismo ao longo da nossa Historia, que não pode ser explicado apenas pela presença no nosso sangue de 20% de ascendência judaica ou através da absorção da cultura judaica pela mão dos Cristãos-Novos.

“É absolutamente preciso que a esperança que nos deu o dia 5 de outubro, não morra; e para isso, é absolutamente preciso que a nossa República seja uma República Portuguesa e não uma República afrancesada, como o Constitucionalismo. E porque a monarquia constitucional não soube ser portuguesa, é que ela caiu sem nada legar a Portugal, a não ser os seus vícios e os seus crimes.”

Como apontaram justa e com grande acuidade Miguel Real e António Telmo, a grande disfunção da atual forma de “organização estatal” assumida pela Republica resulta do expurgo quase total do papel que a religião e a espiritualidade podem e devem cumprir nas formas de organização das sociedades. A época histórica em que essa sintonia entre Estado e Religião foi maior corresponde à Idade Média portuguesa, sobretudo sob Dom Dinis, o monarca que construiu o país que os seus sucessores saberiam lançar na gigantesca e incrível gesta universalista dos Descobrimentos, malbarantando depois este capital de desenvolvimento ao deixarem-se seduzir pelo ultracatolicismo e pelos princípios centralistas de Maquiavel, já sob o reinado de Dom Manuel e de Dom João III.

Ora a infusão do republicanismo positivista francês (a perniciosa influência de “Paris”) bastas vezes citada por Pascoaes e a – anterior e antecessora – influência britânica da monarquia constitucional tinham esse ponto em comum: o de encontrarem na influencia da religião católica a razão para a “decadência dos povos peninsulares” que haveria de levar Antero de Quental ao suicídio. Mas quer republicanos, quer liberais confundiam a influencia imperialista da Roma (Igreja Católica) de Pascoaes com a influencia da religião e espiritualidade. Sem duvida que podemos localizar na Inquisição, com a sua perseguição fanática e cega aos banqueiros judeus, na sua perseguição a todos os livres pensadores, cientistas e filósofos mais ou menos heréticos uma boa parte da quota de responsabilidade pelo pouco apreço pela inovação e pela ciência que ainda hoje se regista em Portugal. Mas essa influencia negativa à criatividade (sempre pelo medo da diferença, que poderia chamar a atenção perigosa das autoridades inquisitoriais) radica muito mais na visão extremada do catolicismo pós-Trento do que na de um Cristianismo tolerante e popular que se manteve vivo até hoje nos ritos do Culto do Espírito Santo nos Açores e no Brasil e que mais espiritualista do que estatista ou sistémico animava a alma portuguesa que florescendo na nossa Baixa Idade Media e Renascimento formaria um país que é ainda hoje a nação mais antiga da Europa.

A época em que a espiritualidade da religião popular portuguesa melhor coexistiu com as estruturas e órgãos do Estado foi – já o dissemos – a Idade Media. Nela, os concelhos concentravam localmente o essencial das competências do Estado, formando uma malha administrativa que muito se assemelhava à “federação de municípios livres” de Agostinho da Silva. Em Portugal nunca houve verdadeiro feudalismo, pelo menos não sob os modelos francês ou inglês, já que a nobreza nunca deteve aqui, entre nós, a mesma influencia junto dos monarcas, que sempre a souberam enquadrar e domesticar… Sem o peso dominante desse ramo indoeuropeu das sociedades (Clero-Nobreza-Terceiro Estado), a burguesia municipal pôde, com a aliança e cumplicidade dos monarcas forjar um regime de autonomia e liberdade republicana que poderia servir de modelo ainda hoje, quando a questão da “Regionalização” torna a ficar atual…

A República de 1910 não confiava no mundo rural. Via nele (justamente) simpatias pela monarquia que acabara de derrubar nas grandes cidades e reconhecia aqui uma influencia católica que receava… Por isso, destruiu as virtudes da autonomia municipalista que herdara da monarquia e enveredou por uma viva caminhada anticlerical que cedo descambaria para uma deriva anti-religiosa e anti-espiritualista. Extirpando a alma religiosa da portugalidade, a República daria origem a um nadomorto que os movimentos ultracatólicos haveriam de aproveitar a seu favor, lançando as bases para uma reacção extremada que traria cinquenta anos de obscurantismo salazarista.

“O Constitucionalismo nunca se casou com a Nacionalidade Portuguesa, porque foi sempre estrangeiro. Toda a obra que um povo realizar, fora do seu espírito, não vinga, é estéril e condenada a uma morte próxima.”

É a ligação entre corpo nacional e espirito português que se quebrou na monarquia constitucional e que Teixeira de Pascoaes também não tardou em reconhecer na perniciosa ascendência das ideias republicanas francesas entre os republicanos portugueses. Aquilo que a Republica fez, procurou o filósofo de Amarante reatar, buscando numa re-ligação telúrica e naturalística reencontrar o fio de ariadne da espiritualidade portuguesa. A repelida alma portuguesa seria reencontrada na recuperação do ponto central do pensamento pascoaliano: a Saudade.

Desprovido do edifício religioso fornecido durante séculos pelo catolicismo e expurgado (a bem ou a mal) pelo anticlericalismo republicano, Pascoaes assumia que só repondo uma alma religiosa em Portugal poderia o país sair deste torpor suicidário onde vegetava desde a perda do rei nas areias de Alcácer Quibir e via na Saudade o corpo essencial desta espiritualidade perdida. Esse sentimento teorizado Dom Duarte no “Leal Conselheiro” de insatisfação perante a realidade quotidiana, essa energia anímica que empurrava os oestriminios a comerciar com as ilhas britânicas em busca do cobre procurado no extremo ocidente por fenícios e cartagineses e que potenciada pelos célticos e pelos colonos semitas no sul da Península serviria de matriz fundadora do aventureirismo luso.

Será numa versão atualizada deste sentimento religioso popular, telúrico, naturalístico, assente no espirito positivo e motivador da Saúde que hoje é também necessário fazer alicerçar a saída de Portugal para fora deste torpor com cheiro de morte onde os “senhores louros da Europa do norte” de Agostinho da Silva nos encastraram. Sejamos claros: é necessário reinventar a religião portuguesa se queremos que Portugal saia desta caminhada autodestrutiva: uma religião que cumpra o papel de re-ligar o homem com o meio natural, com os pequenos deusas e ninfas das fontes e dos perros do período pré-romano e celtizante, transportado quase intacto até ao são e tolerante politeísmo romano. Essa intemporalidade característica do tempo mítico – completamente distinto do tempo anti-circular do Positivismo – é a essência que se pode antever na busca eterna pelo “Prestes João”, pelo “Caminho das Índias”, pela “Ilha das Sete Cidades”, pela “Ilha dos Amores, por enfim, todas as quimeras extra-mundo que os portugueses sempre buscaram ao longo da Historia, quer conscientemente, embarcando nas naus e caravelas, quer inconscientemente partindo para as feitorias e colónias de África, Brasil e Índia e, mais tarde, partindo na aventura da emigração.

É como se os portugueses tivessem uma consciência inconsciente da impossibilidade da sua existência como país independente e incapazes de suportar a fragilidade económica a que a pobreza dos seus chãos e minas os votou buscassem na Transcendência um refugio para esta existência terreal. Esta fuga para a Transcendência é o movimento para a Saudade que atravessa todas as formas de expressão culturais em Portugal, a começar pela mais perene e influente matriz cultural da História portuguesa que é o Sebastianismo, ele próprio expressão máxima da incapacidade lusa para viver no mundo concreto e da sua recusa pela aceitação de um facto tão material e concreto como a perda de um rei. Se a nem a morte real consegue penetrar a densa malha do sentimento popular é porque essa malha assenta na estrutura mental herdade dos cónios, turdulos e lusitanos. Essa negação – quase doentia – da realidade é a expressão da Saudade e o facto deste Sebastianismo ter conseguido devolver algo que parecia impossível – dada a força do adversário – significa que a Saudade é uma energia positiva, capaz de feitos impossíveis a sistema de pensamento mais práticos, utilitários e “lógicos”, como aqueles que encontramos nos países do norte da Europa que hoje regem a Europa de forma mais ou menos imperial.

“Mas antes de tudo, é preciso que Portugal seja governado por homens representativos da sua Raça, e não por bacharéis desnacionalizados, tendo apenas no cérebro vagas teorias jurídico-sociais, importadas do Estrangeiro, bebidas à pressa na Universidade de Coimbra, esse terrível foco desnacionalizador, por cruel ironia, situado no meio da mais estranha paisagem quinhentista, onde a Sombra de Camões e a Sombra de Bernardim perpassam à luz do luar…”
(…)
“É preciso que as nossas leis não sejam confusas cópias de leis estrangeiras, mas que sejam feitas dentro do carácter português e da época, formando um todo harmónico e orgânico, com uma alma e um corpo, em vez duma jurídica salada exótica…”

De novo, os problemas da Primeira República estão por resolver e persistem ainda hoje… Ontem, como hoje, se existem ainda graves lacunas na boa governança da “coisa pública” portuguesa, esta deve-se à inexistência de uma elite política digna desse nome. A reduzida clique de “líderes políticos” que se alterna no Poder, quer sob o destrutivo “rotativismo” da Primeira Republica, quer sob o atual regime. É esta a elite que Portugal teve o azar providencial de ter e que é a primeira responsável pelo atávico estado de atraso do país. Não podemos contudo deixar de reconhecer que esta elite não é exógena, nem hoje nem na época de Teixeira de Pascoaes: ela brota diretamente da terra nacional e daquele “Povo” que ora despreza (a sua vertente mais “direitista”) ora idolatra de forma paternalista (na sua vertente mais “esquerdista”). Se esta elite enferma de defeitos de fabricação e ação, tal mais não se deve do que à permissão de transfusão do espirito centralista e castradoramente católico, solar e estritamente “masculino” do catolicismo (a “Roma” pascoaliana) e das correntes reativas do Positivismo norteeuropeu do Liberalismo republicano da Primeira República e da União Europeia da atualidade. Um e outro violam o sentimento português e ao serem adoptados tão convictamente pelas elites culturais e políticas acentuam o divórcio entre Povo e a asfixiada “alma portuguesa” de Paulo Loução e as elites que insistem em governar o país como se este fosse apenas mais um “país europeu”.

Obviamente, Portugal pelas sua tripla matriz atlante, céltica e semito-judaica não é um país europeu “normal”, não se entendermos por normalidade aqueles conceitos que a elite reinante desde Dom Dinis aculturou como seus: os de uma religião centralista, formal e externa, os de uma governança centralizada, utilitarista e areligiosa (se não mesmo ferozmente antireligiosa). Por isso não é difícil de antever um mal disfarçado sentimento de frustração nas elites políticas e culturais por este “abestalhamento” do Povo, que arrastam penosamente atrás de si, procurando afanosamente e insessatemente “civilizar” e “europeizar”. A frustração deprime os políticos sinceros e leva-os a acreditar que Portugal é um pântano ingovernável e leva-os a transpor esse sentimento a toda a sociedade, contribuindo assim para um sentimento depressivo que habita aquilo que resta da alma portuguesa…

“A primeira cousa a fazer, é dar às Crianças, nas escolas, o conhecimento mais completo da alma da sua Raça, para que elas a comunguem e adquiram a perdida energia moral. É preciso que a escola, antes de tudo, crie portugueses autênticos. E assim, a reforma da instrução primaria deveria ser feita nesse sentido.”

Como Agostinho da Silva, Teixeira de Pascoaes aponta aqui aquele que é efetivamente o grande travão do nosso desenvolvimento pessoal e enquanto comunidade: a Educação. O poeta de Amarante não detalha, contudo, de uma forma tão aturda como Agostinho o seu plano educativo. Noutros textos, divide este esforço em três áreas distintas: escolas primárias, escolas profissionais e universidades, estando todos estes escalões sob controlo do movimento da “Renascença Portuguesa”, mas além deste objetivo algo vago de “criar portugueses autênticos” e de uma busca por uma recuperação da alma portuguesa das grilhetas que Paris (Europa) e Roma (Igreja católica) lhe deitaram, não vemos mais detalhe… Ainda que em si mesmo, o imperativo de reencontrar a perdida e oprimida alma portuguesa seja amplamente suficiente, naturalmente… Ainda que Pascoaes nunca se tenha alargado muito sobre esta “educação portuguesa”, noutros pontos exprimiu o seu desejo de que esta contivesse um forte enfoque técnico e cientifico, para além de uma tónica principal sobre a literatura e a capacidade e conhecimentos sobre a língua, a sua escrita e até uma forma revivida de religiosidade, contendo esse híbrido único da “religião popular portuguesa”

“A segunda importantíssima reforma seria a da nossa Igreja. Impõe-se a fundação da Igreja Lusitana.”

Se será pela Educação que se recuperará o essencial da adormecida alma portuguesa, esta recuperação só será duradoura se for acompanhada de uma renovação da participação espiritual que a religião ocupa na vida anímica do povo… É imperativo que este cruzamento único que se registou aqui, neste extremo ocidental da Europa, entre a matriz semita e israelita (que contribui, não o esqueçamos, para 20% do genoma português), a matriz celta (naturalística e ctónica, tão flagrante na religiosidade popular pré-romana) e a matriz cristã (neoplatónica e pelágica, logo pessoalista e direta e não mediada nem centralista como aquela versão de cristianismo que Roma nos impôs). É esta versão tríplice, simultaneamente revolucionaria e tradicionalista da religiosidade e espiritualidade que serviria de alicerça à fundação de uma “Igreja Lusitana”, completamente independente de Roma e da hierarquia católica e fiel para com a religiosidade popular que, assim, poderia reemergir e preencher o esvaziado aspecto espiritualista da forma lusa de viver a vida, e que o Positivismo “utilitarista” e “tecnocrático” da atual União Europeia é apenas a forma de despersonalização mais recente que se exerceu sobre Portugal.

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Teixeira de Pascoaes: “Ao Povo Português, A “Renascença Lusitana” – Parte 6

“A Renascença Lusitana é uma associação de indivíduos cheios de esperança e fé na nossa raça, na sua originalidade profunda, no seu poder criador duma nova civilização. Esta fé e esta esperança não resultam de uma ilusão patriótica, mas do conhecimento verdadeiro da alma lusitana, a qual devido a influências estrangeiras de natureza política, artística, literária e sobretudo religiosa, se tem adulterado nos últimos séculos da nossa História perdendo o seu carácter, a sua fisionomia original e, portanto, as suas forças criadoras e progressivas.”

O termo “raça”, utilizado neste ponto por Pascoaes, é hoje em dia anacrónica e conotada de forma diversa daquela de que se revestia na sua época. Mas se “raça” não vale pelo mesmo valor do princípio do século XX, o conceito básico que liga o termo à “portugalidade”, isto é, ao conceito abstrato de ser e sentir-se como “português”, permanece atual. Sobretudo a sua crença de que havia algo de especial e único em Portugal, uma potência para a geração de uma nova civilização, um protótipo de organização social e política, mais livre, local, justa e humana, do que qualquer outra que tenha já surgido na história humana. Teixeira de Pascoaes acreditava que essa promessa não se tinha cumprido e que Portugal caminhava hoje perdido pelas brumas da História, sem rumo nem tino aparente, devido à contaminação desse espírito livre – herdeiro de Viriato – pelas ideias exógenas do norte da Europa (a “Paris” de Pascoaes) que haveriam de abafar a energia criadora e libertária dos portugueses da fundação da Nacionalidade e do primeiro período dos Descobrimentos.

“O fim da Renascença Lusitana é combater as influências contrárias ao nosso carácter étnico, inimigas da nossa autonomia espiritual e provocar, por todos os meios de que se serve a inteligência humana, o aparecimento de novas forças morais orientadoras e educadoras do povo, que sejam essencialmente lusitanas, para que a alma desta bela Raça ressurja com as qualidades que lhe pertencem por nascimento, as quais, na Idade Média, lhe revelaram os segredos dos mares, de novas constelações e novas terras, e, de futuro, lhe deverão desvendar os mistérios dessa nova vida social mais bela, mais justa e mais perfeita.”

Como a Renascença Lusitana de Pascoaes, também o MIL: Movimento Internacional Lusófono deve bate-se de todas as formas e recorrendo a todos os meios que pareçam oportunos ou adequados a idêntico combate. Como a Renascença, devemos procurar expurgar as negativas e castradoras influências de Bruxelas (a nova “Paris” de Pascoaes) e reencontrar nas energias anímicas do povo a força para superar esta tirania das ideias e dos números mascarada de “processo de integração europeia” com que os senhores do norte da Europa nos querem absorver e tornar em epi-colónia periférica turística… Será pela supressão dessa tirania “suave” porque quase invisível e opressora, porque generalizada que Portugal poderá libertar esse jugo redutor e assumir a sua verdadeira identidade.

“Logo que a alma portuguesa se encontre a si própria, reaverá as antigas energias e realizará a sua civilização.”

Porque o apogeu de Portugal enquanto país sucedeu quanto éramos mais autónomos, do ponto de vista cultural e económico, sob o reinado de Dom Dinis, com a sua perfeita descentralização municipalista (depois destruída pela voraz onda normalizadora dos forais manuelinos), até ao reinado de Dom João III. Aqui se forjaram o essencial das realizações técnicas e cientificas que haveriam de sustentar o primeiro império colonial da História e o mais duradouro de todos eles, terminado apenas pela insana teimosia de um regime anacrónico em perpetuar estruturas administrativas coloniais muito para além daquilo que seria razoável.

“Temos, portanto, em vista: dar ao povo uma educação lusitana e não estrangeira; uma arte e uma literatura, que sejam lusitanas, e uma religião no seu sentido mais elevado e filosófico, que seja também lusitana.”

Sem dúvida que a orientação meramente escolástica e eclesiástica que caracterizou a educação em Portugal nos séculos XVII e XVIII marcou decisivamente a decadência de Portugal nos séculos vindouros, até aos dias de hoje. Enquanto que na Europa se começava a instalar o pensamento científico desenvolvido a partir do método experimental de Roger Bacon e Galileo Galilei, em Portugal o essencial da produção literária versava temas religiosos ou revivalistas quanto aos feitos do passado ou (na melhor das hipóteses) recuperando narrativas de viagens dos séculos XVI e XVII. Por isso, o regressa à “educação lusitana” sugerido neste passo por Pascoaes, não poderia ser o regresso a esta forma de “deseducar”, tanto mais porque o poeta era um republicano e a Republica se firmara em grande medida contra a influencia esmagadora e nefasta da Igreja na sociedade portuguesa.

A “educação lusitana” de Teixeira de Pascoaes era aquela educação eminentemente pratica e experimental que no final da nossa Idade Media haveria de construir o edifício cientifico e técnico que instauraria as bases astronómicas, navais, militares e tecnológicas que dariam a Portugal a superioridade absoluta em todos estes domínios nos  mares do mundo durante quase um século e que assegurariam a sobrevivência do país durante a maior parte da sua existência… É que se nas palavras de Eduardo Lourenço, Portugal foi sempre um país que “tinha um Império”, dependendo deste para a sua mais essencial sobrevivência até muito recentemente, se o manteve foi precisamente devido a essa superioridade cientifica… Anulada pela adopção fanatizada da Reforma ultracatólica de Trento e pelo erro babilónico que foi o de tentar sob todas as formas e alem do historicamente razoável conservar um império anacrónico, esquecendo que se ele justificou a sua sobrevivência, procurar conservá-lo poderia ter ditado o seu próprio fim.

“Com efeito, quem surpreender a alma portuguesa, nas suas manifestações sentimentais mais íntimas e delicadas, vê que existe nela, embora sob uma forma difusa e caótica, a matéria duma nova religião, tomando-se a palavra religião como querendo significar a ansiedade poética das almas para a perfeição moral, para a beleza eterna, para o mistério da vida… Ora a alma portuguesa sente esta ansiedade duma maneira própria e original, o que se nota facilmente analisando os cantos populares, as lendas, a linguagem do povo, a obra de alguns poetas e artistas e sobretudo, a suprema criação sentimental da Raça – a Saudade!”

O significado pascoaliano para a “religião da Saudade” é claro: uma eterna procura pela perfeição moral. E esta perfeição seria atemporal, porque correndo no cíclico e eterno tempo mítico de Mircea Eliade e das civilizações pagas (pré-romanas) que o poeta buscava na sua visão naturalista dos penhos e dos cerros, no seu exílio voluntário de Amarante. Esta religião da Saudade – cujas manifestações subterrâneas Teixeira de Pascoaes reconhecia na cultura popular portuguesa teria que ser o eixo da necessária recuperação de Portugal do limbo onde a Republica a deixara. Mesmo Zola reconhecera que a jovem republica portuguesa fizera em dez anos  que levara aos republicanos franceses a cumprir. Nessa pressa de realizar as reformas que a Geração de 70 antevira (justamente) como necessárias e ainda no longo rescaldo da humilhação nacional que fora o Ultimato britânico, a Republica procurara reformar, “europeizar” o país. Frequentemente mais areligiosos do que ateus ou anticlericais os primeiros republicanos, tentaram corroer os alicerces da sociedade portuguesa da época, atacando as estruturas religiosas. No processo, antagonizaram as populações rurais (profundamente católicas e tradicionalistas) criando uma clivagem que o regime do Estado Novo saberia utilizar em proveito próprio.

Desprovido de qualquer esteio profundo, como aquele que a religião oferece, a Republica cavara a prazo o seu fúnebre destino. Incapaz de republicanizar o mundo rural, aliena-o e culpa-o do atraso atávico do país. Encontra nos boçais a responsabilidade pelo atraso cientifico, tecnológico e cultural que a bruta comparação com as grandes capitais europeias torna evidente. Desprezando a maioria do território nacional, cria as bases para o presente ermamento e subdesenvolvimento do interior, considerado a partir de então como a canga metálica que urge decantar para tornar o país capaz de ombrear com os “grandes” do norte da Europa. Forçando e tentando acelerar esse processo centraliza e suprime as liberdades e autonomias municipais que desde Dom Manuel não haviam parado de diminuir, mas que na monarquia ainda eram muito significativas.

Retirando a religião católica do centro da cultura português, a Republica cravara um espeto mortal no corpo de Portugal, extraindo a sua alma e não tentando substituí-la por mais nenhuma outra, porque o Positivismo e a Maçonaria não poderiam jamais ter a adesão popular que o seu padrão de sofisticado intelectual exigia.

“Sim, na alma lusitana há a névoa duma nova religião; e por isso, o catolicismo, importado de Roma, jamais se tornou português, como se tornou espanhol, por exemplo. Todavia, em virtude da insistência com que tem sido cultivado em Portugal, concorreu para desnaturar o nosso carácter; é necessário, portanto, combatê-lo, como a todos os inimigos invasores, ou sejam de casta pedagógica, artística, literária, religiosa ou filosófica.”

Pascoaes encontra na importação, nunca devidamente aclimatada para as especificidades da alma portuguesa, uma das raízes para aquilo a que Antero de Quental designava de “a decadência de Portugal”. Este catolicismo romano, tomara o lugar da religiosidade popular, oprimira-a e forçara-a a mergulhar em subterrâneos de onde nunca mais tornará a sair. E é nesta desnaturação do espirito religioso produzida em Portugal pela repressão da religiosidade popular e pela imposição imperial de um modelo religioso exógeno que se produzira o drama de um povo a quem removeram a alma sem instalar nesse lugar que se produzira esta longa, acentuada e falsamente aparente decadência de Portugal que urgia tanto na nossa como na sua época, ultrapassar reencontrando os valores perdidos e olvidados da portugalidade, contra a civilização importada de Paris (Europa) e a religião importada de Roma (o Catolicismo).

“Esta luta, assim como a obra reconstrutiva da Renascença Lusitana será feita, além doutros meios, por meio de conferências, livros e duma revista de literatura, filosofia ciência, crítica social, etc, que se intitulará A Águia e será o órgão da sociedade.”

Obra que hoje é assumida pela moderna encarnação da Águia que tem a designação de Nova Águia… A Renascença Portuguesa reencarnou – já o dissemos – no Movimento Internacional Lusófono. As conferencia já o MIL as organiza tendo tido a primeira como tema “O Futuro da CPLP”, os livros têm sido regularmente publicados pela Zéfiro na colecção “Nova Águia”. O papel e a missão da Renascença de Teixeira de Pascoaes continua assim, bem vivo e perene… Assim como Portugal e as problemáticas que deram origem a estes dois movimentos, infelizmente.

“Diremos, de passagem que consideramos como os grandes factores do nosso renascimento, a Higiene e a Arte.
Por aquela atingiremos a harmonia física e, por esta a harmonia espiritual.
A Ginástica encerra tanta virtude como a Arte Poética.”

O poeta amarantino esclarece aqui, neste parágrafo, os dois pontos que considera essenciais para o desenvolvimento de Portugal: um foco nas vertentes educativas e governativas da Saúde e da Arte. Pela primeira, se produzirá um povo saudável, capaz de focar a sua atenção e energia nos problemas intelectuais e materiais do Desenvolvimento e a plenitude do génio criativo que caracteriza o português, soterrado por séculos de Inquisições e Santos Ofícios, pelo poder opressivo de um estado paternalista que não aprecia as liberdades dos seus cidadãos.

“A guerra ao álcool, ao tabaco, à alimentação carnívora, por exemplo, é uma guerra santa e confunde-se com a glorificação da Beleza moral, com a apoteose dos sentimentos e das ideias mais puras e transcendentes.”

A Teixeira de Pascoaes repugna o álcool porque este reduz a capacidade criativa e a inteligência do indivíduo que se deixa vencer pela tentação da sedução dos vapores alcoólicos, e o tabaco é outro prazer imediatista que, a prazo, produz a morte e o sofrimento… Se esse vício persiste, persiste apenas pelos rendimentos imorais que dá a ganhar a tantos “empresários da dor e da doença. Quanto à “alimentação carnívora”, esse é um tema particularmente atual… Em termos económicos a eficiência económica de alimentar animais a pastagens representa um enorme desperdício se compararmos as calorias ingeridas por esses animais e a obtidas por nós quando ingerimos a sua carne. Em termos éticos, a operação também não é adequada, já que os animais de criação intensiva passam vidas em condições atrozes, em espaços exíguos, sendo separados muito jovens das suas mães e sendo mortos e transportados em condições que não procuram minimizar o seu sofrimento. O Humanismo (que não se pode apenas aplicar aos sujeitos humanos) não pode coexistir com este tratamento dos animais, por isso alem de nos ser simpática esta defesa do vegetarianismo de Pascoaes, também a assumimos como nossa (pelo menos tendencialmente) na nossa visão pessoal do futuro de Portugal.

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Teixeira de Pascoaes: “O Espírito Lusitano ou o Saudosismo” – Parte 5

“As nações pequenas só podem opor às tendências absorventes das grandes nações, como defesa da sua independência, o caracter, a originalidade do seu espirito ativo e criador, a autonomia moral.
Ora, a nossa Pátria possui felizmente essas qualidades que se ergueram, outrora, quais sentinelas invencíveis, ao longo das nossas fronteiras, e se espalharam depois através dos vastos mares e das longes terras. O que é preciso, antes de tudo, o que é urgentíssimo, é ressuscitá-las, para que readquiram a perdida atividade.”

Explicando-se assim porque é que Portugal conseguiu realizar esse milagre – único à escala peninsular – da independência contra uma vontade centralizadora de Espanha e antes dela, de Castela. O espirito criador, que deu a Portugal os instrumentos para na Idade Media estar ao mesmo nível das demais sociedades europeias e para alavancar a revolução tecnológica, astronómica e naval que teria a sua máxima expressão na espantosa gesta dos Descobrimentos e da Expansão portuguesa. É esta devoção pela liberdade municipal, pela criatividade e pela invenção, pela ciência, enfim, que importa reencontrar, de forma a ressuscitar (nas palavras de Pascoaes) e sair deste limbo torpe e pantanoso em que erramos desde 1580.

“A decadência que sucedeu ao período épico ou camoniano (anterior a Camões) apagou, por assim dizer, o espírito português, preparou a invasão do estrangeirismo desnacionalizador que revestiu vários aspectos, religioso (Inquisição no tempo de Dom João III e o Jesuitismo); literário e político (Constitucionalismo e livros franceses).”

A derrota das hostes portuguesas em Alcácer Quibir, a decapitação das forças vivas da nação e a exaustão financeira decorrentes da derrota de uma campanha insana, mal conduzida e logo aproveitada pela sempre atenta Espanha para deitar as suas garras anexadoras. O espírito religioso português perdeu as réstias de liberdade que lhe restavam ainda dos excessos manuelinos e das vagas intenções de instalar Paris na Praça do Rossio. Para que Portugal possa retomar o rumo perdido e sacudir o jugo anexador que nos têm tentado lançar por várias vezes. Esse regresso, essa verdadeira “Renascença” só pode ser realizada através de uma aposta intensa, continuada e prioritária na Educação e nela, na sua componente mais ligada à investigação, cientifica e à produção cultural. Será pela via de uma aposta na Educação, de teor verdadeiramente exigente e com uma constante preocupação sobre a criatividade em desfavor da mera memorização estéril que Portugal pode reencontrar o seu verdadeiro espírito e mostrar à Europa aquilo que ela pode ainda vir a ser, formando com o Brasil o protótipo de uma União Lusófona não unida pelo dinheiro e pela contabilidade, como a Europa dos “senhores do norte”, mas uma nova forma de organizar as gentes e as economias, mais justa e humana.

“O alto clero sempre foi fiel a Roma, os altos políticos sempre fiéis a Paris, têm sido os obreiros da nossa desnacionalização, os inimigos do nosso espírito e, por isso, da nossa independência.”

Atual… O pensamento do génio do Marão (como lhe chama Paulo Borges) reconhece com acutilância os dois pólos por onde se tem exercido o duplo movimento desportugalizador dos últimos quinhentos anos. A Igreja Católica não se tem poupado a esforços para, primeiro, destruir os vestígios de religiosidade pré-romana, ctónica e matriarcal popular e ainda que esse esforço tenha diminuído em eras mais recentes, a ascensão ao patriarcado de alguém como Ratzinguer demonstra que os antigos fantasmas que levaram à Inquisição e ao Índex de livros proibidos, são tique totalitários que ainda não desapareceram completamente…

“E há mesmo pseudo-cépticos que não crêem na existência duma alma portuguesa original; mas esses homens são cépticos e os cépticos são feitos de carne morte.”

No sentido em que não sendo capazes de escutar o apelo libertário e criador que emana das suas próprias almas lusófonas, estes cépticos são incapazes de serem fiéis às suas próprias pulsões e tendências anímicas. No seu vã afã de procurarem imitar ou emular os povos do norte da Europa, de se “estrangeirarem”, renegando a especificidade da sua alma portuguesa, acabam por se desalmar, anular a sua identidade pessoal e recusando a própria viabilidade de Portugal como Nação independente e absolutamente diversa de todas as outras no mundo, excepção feita apenas para o Brasil e, em certos aspectos para Israel. Com efeito, os portugueses nunca serão bons “alemães” ou “ingleses”. Se pretendem que os emulemos, então terão sempre em nós pálidas e ineptas cópias destes neo-germânicos. Pelo contrário, os portugueses sempre se excederam quando se assumiram verdadeiramente como “portugueses” e rejeitaram a integração em nações mais fortes e extensas, como a Espanha dos Habsburgos, a França de Napoleão ou a Grã-Bretanha de Beresford. Todos os que nos quiseram lançar o seu jugo, acabaram por o ver deitado no chão, por muitos cépticos que conseguissem alinhar, quer pagando-les soldada, quer seduzidos pelo brilho das “Luzes” do centro da Europa.

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PS defende a livre circulação de cidadãos lusófonos

O PS está a estudar a criação de um novo conceito, o Estatuto do Cidadão da CPLP, que na prática poderá proporcionar a livre circulação de pessoas oriundas dos países de expressão portuguesa. A ideia está nas mãos de António Vitorino, coordenador do programa eleitoral do PS, e já é vista pelo secretário de Estado das Comunidades como “um desafio”.”

Fonte: Diário de Notícias

Um “Desafio” germinado a partir da Petição do MIL:
Petição contra a Directiva do Retorno e em prol do “Passaporte Lusófono
E do facto de termos sido recentemente recebidos por vários grupos parlamentares na Assembleia da República?

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Teixeira de Pascoaes: comentário a “Renascença” – Parte 4

Teixeira de Pascoaes em http://www.elpais.com

Teixeira de Pascoaes em http://www.elpais.com

“Criar um novo Portugal, ou melhor ressuscitar a Pátria portuguesa, arrancá-la do túmulo onde a sepultaram alguns séculos de escuridade física e moral, em que os corpos definham e as almas amorteceram.”

Como almejava a Renascença Portuguesa, também o Movimento Internacional Lusófono deve chamar a si a missão histórica de recuperar a Pátria portuguesa, fazendo-a reencontrar a sua Alma perdida por um processo de “assimilação norte-europeia” que descaracterizou a forma portuguesa de estar no mundo: fraterna, cooperativa, comunitária e profundamente religiosa nesta religião de anti-sépticos tão ao estilo germânico dos “senhores altos e loiros” que nos regem e querem imperar a partir da sua altaneira capital imperial de Bruxelas. Depois de obscurantismo provincial salazarismo, mais a sua visão temerosa do mundo e do Homem, depois da uma deriva desorientada mas bem intencionada dos “anos loucos” pós-revolução de Abril e após os anos do Cavaquismo em que Portugal foi o dócil “bom aluno” europeu enquanto asfaltava o seu território para facilitar a entrada das importações europeias e espanholas enquanto arrancavam a sua vinha, despovoava os seus campos e abatia a sua frota pesqueira. Foi este país “de Serviços” com um peso doentiamente elevado do sector financeiro e do turismo contra todos os demais sectores produtivos que nos chegou até hoje.

“Por isso, a Sociedade a que me referi, se intitula “Renascença Portuguesa”. Mas não imagine o leitor que a palavra Renascença significa simples regresso ao passado. Não! Renascer é regressar às fontes originárias da vida, mas para criar uma nova vida.”

Esta confusão, cujo esclarecimento mereceu neste ponto o devido esclarecimento do filósofo não ocorre na designação do MIL. Movimento, aqui, significa e encontra raiz no termo latino “motu” comum à palavra “motivar”. E o Movimento assumiu como missão levar Portugal de encontro à sua missão histórica de reencontrar a Alma-Nação que é Portugal consigo mesmo. Como a Renascença, o MIL, procurará, sob varias formas reencontrar Portugal consigo mesmo, recentrando-o sobre aquilo que tem de diverso da massa amorfa e asfixiadoramente uniformizante da Europa do norte. Portugal tem que saber aquilo que é para poder verdadeiramente desenvolver-se e vencer este longo e duradouro sentimento de inferioridade que sentimos desde que o Marquês de Pombal declarou o atraso da nossa sociedade era atávico e permanente e que somente um Estado “sábio” e paternalista poderia gerir. Esta visão paternalista e superior da Sociedade haveria de sobreviver ao Marquês e ao recuo às suas políticas sob Dona Maria e de perpetuar-se no Estado Novo perpassando ainda hoje nalgumas atitudes arrogantes e sobranceiras de boa parte da “intelectualidade” contemporânea.

“A Pátria Portuguesa viveu; atravessou depois alguns séculos de morte; por fim, numa alvorada heróica que fez erguer do sepulcro a sombra de Nuno Álvares, acordou do seu profundo sono, levantou-se num ímpeto sôfrego de vida; e, sob a instantânea luz que a deslumbrou, ei-la ofuscada e cega, tacteando, sem ver o caminho verdadeiro e a terra firme para os seus pés.”

Os “séculos de morte” a que Pascoaes se refere neste passo são aqueles que se seguiram à aventura desastrada de Dom Sebastião em África e a consequente perda da Independência, sob o Império espanhol. Este afastamento do curso autónomo da portugalidade foi reposto pelos insurrectos de 1640 e pela dura guerra de independência que se lhe seguiu. E propulsaria – pela singularidade e dificuldade de uma guerra contra aquela que era à época a maior potência do mundo – a sobrevivência de Portugal até aos dias de hoje. Na época do poeta de Amarante, a Republica recentemente implantada, ameaçava derivar e ofuscada pelas luzes que lhe chegavam de Paris, perder o rumo, repelir o mundo rural com que o poeta mais se identificava e renegando a própria Alma Portuguesa destruir a trama ética e substantiva que servia de base estrutural a Portugal.

“Se não existisse uma alma portuguesa, teríamos de evoluir conforme as almas estranhas, teríamos de nos fundir nessa massa amorfa da Europa; mas a alma portuguesa existe, vem desde a origem da Nacionalidade; de mais longe ainda, da confusão de povos heterogéneos que, em tempos remotos, disputaram a posse da Ibéria.”

E não nos fundiremos jamais, porque não somos verdadeiramente “europeus”, mas portugueses no mais pleno sentido do termo que nos coloca fora de qualquer continente ou território estrita e geograficamente delimitado. A fusão de Portugal na Europa só poderá acontecer se nos anularmos enquanto nacionalidade e individualidade como pretendem os “senhores de Bruxelas” e os seus “mercenários de Armani” que sob seu mandato nos regem. Amorfidade, é a da sanha normalizadora de Berlim, sob o seu entreposto bruxeliano, e contra ela resiste e resistirá sempre um espírito arreigadamente livre de origem Lusitânia e viriática.

“A Saudade é o próprio sangue espiritual da Raça; o seu estigma divino, o seu perfil eterno. Claro que é a Saudade no seu sentido profundo, verdadeiro, essencial, isto é, o sentimento-ideia, a emoção reflectida, onde tudo o que existe, corpo e alma, dor e alegria, amor e desejo, terra e céu, atinge a sua unidade divina.”

Teixeira de Pascoaes encontra na Saudade o sentimento nacional que explica o milagre da sobrevivência de Portugal numa Península onde a voraz centralização de Castela tudo aglutinou. Somente pela presença de uma tão singular expressão de um sentimento nacional tão poderoso como a Saudade se pode explicar esse milagre. A Saudade pascoaliana é esse sentimento de ausência de um futuro eternamente incumprido. A sensação difusa experimentada por todos os portugueses e perpassada destes pelo mundo lusófono de que algo se perdeu, em dado momento no passado, algo que pode ser reencontrado através da transição do país incorpóreo que é “Portugal” e que só por coincidência histórica se confunde com esta realização material incompleta e imperfeita que é o “Portugal Europeu”. A Saudade é o desejo pelo cumprimento do desejo universalista e sem fronteiras que habita na alma portuguesa desde os tempos em que os cónios comerciavam com fenícios e os turdulos trocavam o seu cobre nas britânicas cassitérites. Esta sensação de ausência do tempo perdido não é depressora, não é negativa porque impele a que o sujeito saia de si, se ultrapasse e desafie o reino das possibilidades, alavancando aventuras irrazoáveis e que nunca passariam por germânicas cabeças a não que outros, percursores, mediterrâneos, ibéricos e de matriz lusitana, lhes mostrassem esse caminho.

“E por tudo isto, Portugal não morrerá; nem uma Pátria morre, no instante em que encontra o seu espírito. Portugal não morrerá, e criará a sua nova Civilização, porque vê que a sua alma é inconfundível, que encerra em si um novo sentido da Vida, um novo Canto, um novo Verbo e, portanto, uma nova Ação.”

Esta é a verdadeira questão. Somente pela anulação da alma portuguesa – missão primeira de uma Europa que nos quer “normalizar” – pode Portugal morrer. Assumida apenas a forma, encerrada em fronteiras terrestres escassamente distribuídas numa Península dominada pelo império de Madrid e onde as aspirações autonómicas das periferias são culturalmente subjugadas aos interesses centralizadores da Meseta castelhana, Portugal terá que resistir, enfrentando essa velha pulsão centralizadora de Madrid e os mais jovens impulsos federalistas de Bruxelas que nos quer tornar numa mera “região” europeia, docilizada, domesticada e eternamente submissa aos interesses dos norte germânico. Se lograr cumprir as profecias de Bandarra, Vieira e Pessoa, Portugal será o primeiro esteio, complementado a sudeste pelo segundo esteio salomónico da Lusofonia que é o Brasil, de uma nova civilização, mais humana, menos materialista e cumpridora da promessa universalista e fraterna que os Descobrimentos deixaram antever e que apenas os impulsos mercantis do “capitalismo real” de Dom Manuel e Dom João III deitaram a perder.

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Teixeira de Pascoaes: Portugal e a Europa (parte 3)

Teixeira de Pascoaes, A Saudade e o Saudosismo, Assírio & Alvim

Justiça Social: os Lavradores Caseiros
“Os lavradores são a parte mais esquecida do nosso Povo, porque vivem longe do mundo onde se luta e pensa, em perfeita noite medieval, povoada de bruxas e fantasmas e de todas as superstições católicas que os padres, estreitos e broncos, lhe injectam na alma, como se injecta um veneno – nessa alma que, a nu e a limpo, é aquela Alma excepcional, instintivamente naturalista e mística, que criou a Saudade, promessa duma nova Civilização Lusitana.”

Teixeira de Pascoes elege o catolicismo e nos seus efeitos na sociedade portuguesa ao longo dos tempos como o maior singular responsável pela situação de atraso atávico de Portugal. Não que Portugal fosse necessariamente um país “fidelíssimo” a Roma, pois se assim fosse não teria tido tantos dos seus reis excomungados por Roma… Mas existe efetivamente algo na sua própria génese que propicia a um certo tipo muito pernicioso de fanatismo religioso.

“Defendam-se as classes populares que o sangue alma do País; o resto é uma mixórdia europeia sem carácter, sem pátria, um pouco parisiense e romana, um elemento apenas de dissolução e morte.”

As “classes populares” são em Pascoaes a mais pura e plena expressão do espírito de Portugal. É nas gentes do interior rural e do nascente operariado urbano que o poeta encontra vivo o espírito aventureiro, ctónico e naturalista, com uma visão da religiosidade muito pessoal e algo herética, com laivos priscilianistas e de cultos naturalísticos e à deusa-mãe que sempre provocaram urticária em Roma e que levaram a reacções mais ou menos violentas da hierarquia católica que haveriam de produzir os numerosos excessos da Inquisição e dos “domini cani” que a História registou. Oposta a esta verdadeira portugalidade, com quem se identifica, Teixeira de Pascoaes coloca as camadas urbanas, descaracterizadas e rejeitando a sua própria alma, por influência da cultura norte-europeia que embriagadas num processo de “modernização forçada”, ontem como hoje, se afastam do espírito livre e independente que esteve na génese da nacionalidade e que ao rejeitarem, acabam por pôr em risco.

“Como o Portugal de D. João I, o de 1640, o de 1810, o Portugal republicano só pode e deve contar com o Povo. E o Povo rural e agrícola, a quem a terra oferece a sua mão de Noiva fecunda, depois de educado e libertado, será a base indestrutível duma Democracia rústica e campestre, que há de dar a sua flor original e eterna, sob a invocação de Pã e de Jesus.”

Ainda que seja governado por elites que desde a queda da monarquia se identifiquem mais com o exterior do que com os valores da cultura portuguesa, a verdade é que nos momentos realmente críticos, quando Castela ameaça anexar o país, quando a presença filipina se torna tirânica, quando os franceses delapidam o património físico e cultural ou quando o regime pós-salazarento arrasta o país e as colónias para uma guerra anacrónica e eternizante quem se levanta e quebra o putrefacto estado de coisas é o povo. Não são as elites políticas, compostas por pouco mais de 400 famílias, que se alternam no poder, geração após geração que sacodem o jugo estrangeiro. Não são também as elites culturais, provincianas, no sentido em que se limitam a importar e a adaptar modelos estrangeiros, incultas, no sentido em tentam produzir “cultura” desprezando e considerando como pequeno e estúpido o próprio Povo de cuja matriz provêm e cuja Cultura popular deviam respeitar. Estas elites culturais que voam como luminárias em torno das raras migalhas que o Poder lhes vai deitando, gabando-se por “nunca terem trabalhado” na vida, sempre distantes de todos os temas e problemas quotidianos e desprezando qualquer intervenção “não cultural” e política na Vida são alias, mais do que uma classe política incompetente e corrupta responsáveis pelo pantanoso atual estado de coisas.

Ontem, na primeira República de Pascoaes, e hoje, na terceira, será do povo, do seu levantamento certo e seguro, que nascerá a próxima “República Monárquica” portuguesa. Nela, o Povo encontrará novamente o direito de representatividade numa nova camada de lideres, distinta da decadente e egótica intelectualidade atual ou dos grupos de famílias políticas e identificada num rei electivo e popular, bem ao estilo das monarquias electivas suévicas e visigóticas de Agostinho da Silva. Esta nova elite, em comunhão plena com o povo urbano e rural, devotará à sua Educação o papel prioritário que ela deve ter, porque não há verdadeira democracia sem educação e decisão informada por parte dos eleitores, hoje tão enganados por truques eleitorais e por “actores políticos” telegénicos e de discurso previsível e ensaiado por gabinetes de “marketing político”. Esta nova democracia, pilar de uma quarta república será de caracter “rústico e campestre”, porque assente numa descentralização municipalista que devolverá ao interior e ao local, aquilo que foi literalizado e centralizado desde Dom João III, sempre buscando esse cimento fundamental das civilizações que é o espírito religioso hoje negado pelos “tecnocratas” de Bruxelas, e conciliando “Pã” (as raízes pré-romanas e naturalísticas da religião popular portuguesa) e Jesus (os traços filosóficos, redentores e igualitários do primeiro cristianismo).

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Lima de Freitas: “Portugal como reino independente é filho espiritual de S. Bernardo, confundindo-se a primeira parte da nossa História com a da Ordem do Templo”

“Portugal como reino independente é filho espiritual de S. Bernardo, confundindo-se a primeira parte da nossa História com a da Ordem do Templo.
A segunda parte, que começa com D. Dinis, é a História do mito do Quinto Império, enquanto a História dos Descobrimentos é, em boa medida, a história da Demanda do Preste João; nos tempos recentes, a História da nossa Restauração é a História do reavivar do mito sebástico e do mito do Quinto Império, como a prova a obra do Padre António Vieira na “Historia do Futuro”.
Lima de Freitas; “Porto do Graal”; Ésquilo

Portugal confundir-se-ía assim com os propósitos que levaram Bernardo de Claraval a criar a Ordem do Templo. E assim, os destinos, caminhos e objetivos de Portugal e da Ordem do Templo confundir-se-iam. Portugal seria uma criação para a Ordem do Templo, um “reino templário”, um conceito bem compatível com a defesa insistente feita em Portugal contra o mandato papal que exigia a extinção da Ordem. O projeto templário confundia-se com o projeto português e o grande motor da portugalidade que foi o processo dos Descobrimentos e da Expansão portuguesa. O mito do “Quinto Império” que hoje ainda sobrevive com tanta energia na cultura lusófona é uma persistência desse perdido projeto templário, que se tentou concretizar em Portugal e na sua Expansão e que ainda verá a luz do dia, é essa a nossa convicção, assim como um dos temas do MIL: Movimento Internacional Lusófono: Um novo tipo de organização social e política universalista, fraterna e verdadeira humana.

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Teixeira de Pascoaes: Portugal e a Europa (parte 2)

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(Teixeira de Pascoaes in http://img.photobucket.com)

Ao Povo Português: A Renascença Portuguesa

“A Renascença Portuguesa é uma associação de indivíduos cheios de esperança e fé na nossa Raça, na sua originalidade profunda, no seu poder criador duma nova civilização. Esta fé e esta esperança não resultam duma ilusão patriótica, mas do conhecimento verdadeiro da alma lusitana, a qual, devido a influencias estrangeiras de natureza política, artística, literária e sobretudo religiosa, se tem adulterado nos últimos séculos da nossa Historia perdendo o seu carácter, a sua fisionomia original e, portanto, as suas forças criadoras e progressivas.”

Assim como a Renascença Portuguesa tinha como órgão a revista “Águia”, também o MIL: Movimento Internacional Lusófono tem hoje na revista semestral “Nova Águia” o seu órgão… A terminologia “Raça”, empregue por Pascoaes não é atual, mas o sentido do termo permanece e a esperança na renovação de Portugal continua atual. Na grave situação económica e social que se vive hoje no mundo, e em particular, em Portugal há uma necessidade premente de reencontrar o destino nacional, de reformar em larga escala a estrutura e até o objetivo do Estado. Este reencontro de Portugal consigo mesmo não pode ser feito pela sua descaracterização e pela supressão do seu caracter identitário e pela adopção dos modelos norte-europeus de sociedade e de Cultura. A adopção de um projeto verdadeiramente nacional e polarizador é pois, urgente para assegurar a própria sobrevivência de Portugal nesta Europa cada vez mais federalista e anexadora e do país numa Globalização cujos efeitos

Assim, quando o filósofo declama contra as forças estrangeiras que procuram “normalizar” Portugal segundo os padrões europeus, toca o busílis da decadência do país: é a anulação da sua identidade que está na direta origem de uma decadência que começou com o único momento da sua Historia em que perdeu a sua independência (a dinastia filipina) e que se acentuou sempre que procurou “ser mais europeu, que os europeus”, rejeitando a sua própria alma ibérica e portuguesa em favor de um “espírito europeu” desprovido de sentimentos ou de alma que oferece ao Homem a crua e fria realidade dos números e das padronizações e normalizações ad absurdum tão do agrado do espirito germânico, mas tão avessas à tradição individualista e libertaria da Península.

De entre todas estas influencias exógenas e negativas, aquelas a que Teixeira de Pascoaes dá mais relevância não são aquelas que no moderno espírito positivista e materialista atual poderíamos escolher: não são nem as influencias sociais, nem as políticas, nem as económicas… São as influencias religiosas que mais contribuíram para a perda do caracter português e para a adulteração da nossa especifica forma de encarar e de participar nas coisas do mundo. Esta perda da perspectiva portuguesa de ver a realidade que esteve tão viva em Quinhentos seria a explicação para a evaporação das forças criadoras em Portugal que já era tão visível no começo do século XX e que hoje é gritantemente patente, tamanha é a ausência de um projeto nacional verdadeiramente polarizador e potenciador das energias de Portugal e dos portugueses. Projeto este que julgamos reconhecer no MIL, verdadeira “Renascença Portuguesa” dos tempos contemporâneos e nos seus Princípios e Objetivos, desde a defesa de uma Descentralização municipalista, passando pela defesa das Economias Locais contra os pavores da Globalização e pela proposta de uma “União Lusófona” que multiplique os efeitos benéficos da CPLP e a torne numa alternativa mundial às formas atuais de organização do Estado e das relações internacionais fundadas na força e no poder económico.

“O fim da Renascença Lusitana é combater as influências contrárias ao nosso carácter étnico, inimigas da nossa autonomia espiritual e provocar, por todos os meios de que se serve a inteligência humana, o aparecimento de novas forças morais orientadoras e educadoras do povo, que sejam essencialmente lusitanas, para que a alma desta bela Raça ressurja com as qualidades que lhe pertencem por nascimento, as quais, na Idade Média, lhe revelaram os segredos dos governos dos municípios”

A Educação do Povo assume assim um papel determinante no ressurgimento dessa adormecida alma nacional. Um movimento tão amplo, não pode portanto assentar de forma duradoura e resistente nas elites intelectuais ou económicas da Nação. Não só porque estas – na sua esmagadora maioria – estão arregimentadas pelos interesses de Paris ou de Roma, mas porque este movimento de reencontro consigo mesmo deve partir das bases e de um sentimento popular e este está entorpecido pelos resquícios da Educação castradora e bloqueadora do salazarismo e pela continuada descaracterizadora e hesitante educação do pós-vinte e cinco de abril. Entre os dois modelos – um minimalista e o outro laxista, importa ressuscitar a alma e os valores do Portugal das liberdades municipais que ergueu o essencial das energias criadoras que encontrariam a força para gerar esse movimento mundial chamado Descobrimentos. Nesse indispensável – para a sua sobrevivência – redescobrimento de Portugal em si mesmo, a Educação é pedra basilar, já que somente pela revolução interior de cada um de nós se poderá cumprir o Quinto Império, ou fim (pela concretização da “coisa perdida”) de Portugal e o seu reencontro com aquilo que a nova “Renascença Portuguesa”: o MIL haverá de cumprir no seu devido tempo.

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Teixeira de Pascoaes: Portugal e a Europa (parte 1)

Unamuno e Portugal:
“Disse que Miguel de Unamuno sentiu muito bem a nossa paisagem e a nossa alma, apesar do seu temperamento ser diferente do português. O espanhol é um mármore criado; o português é uma névoa criadora; o espanhol é um ser já definido, e, dentro das suas formas acabadas, terá de evolucionar e progredir; o português é um ser indefinido ainda, ou antes, um ser que tem vivido fora da sua forma própria, fora do seu corpo; e o seu progresso dever-se-á fazer no sentido de encontrar o corpo que por natureza da sua alma, lhe compete.”

Aquilo que separa portugueses de espanhóis, e sobretudo no seio destes, dos castelhanos, é muito maior do que seria de esperar em dois povos fisicamente tão próximos. É certo que esta distância mental foi favorecida pela própria existência de Portugal, já que o país atlântico teve que afirmar a sua própria existência contra os poderosos ímpetos de Castela e navegando contra a grande vaga anexadora que Madrid lançaria sobre toda a Península e que acabaria por engolfar até a dinâmica soberania aragonesa. Portugal logrou afirmar a sua independência, contra e apesar de Espanha, por isso teria que construir uma alma nacional intrinsecamente distinta desta.

A indefinição da alma portuguesa a que alude Pascoaes neste parágrafo é crucial no entendimento daquilo. Diz o poeta e filósofo que Portugal vive (não vivendo) como uma alma sem corpo. Por isso, descontornada e desprovida de forma. Espanha soube procurar e encontrar logo desde cedo aquele que seria o seu objetivo e desígnio nacional supremo: estender-se por toda a Ibéria, estancando apenas nas fronteiras portuguesas. A extensão da Espanha pela Ibéria ocorreu impulsionada pela energia da vontade de Castela, mas também seguindo naturalmente a própria continuidade geográfica entre Espanha e Portugal, já que a separação entre os dois países ibéricos é geograficamente frágil e como refere António Borges Coelho: “Só pela vontade dos homens a fronteira construída divide e os rios, que servem para unir, ficam estéreis a separar”.

“Há uma diferenciação de natureza qualitativa, entre o espanhol e o português; e é por isso mesmo, decerto, que Portugal tanto interessa a Miguel Unamuno -, mais ainda que Portugal, a sua tristeza. É a tristeza lusitana que o seduz, que tem para ele um encanto misterioso.”

Se era assim no tempo de Unamuno, não o será menos nos dias de hoje. Qualquer visitante de terras espanholas, urbanas ou rurais, poderá constatar aqui que existe uma alegria, uma forma contente de viver e gozar a vida, que não é fácil encontrar em Portugal. O espanhol sente-se completo e realizado (apesar de terem níveis de desemprego sempre mais altos que Portugal) e embora seja muito mais diverso, culturalmente e linguísticamente, o espanhol manifesta uma alegria incontida que contrasta com o sisudismo do ultracatolicismo de alguns dos períodos da História de Espanha. O português, em contraste – e em contraste maior pela proximidade geográfica – com o espanhol, caracteriza-se pela melancolia e pela tristeza. E esta melancolia resulta de um sentimento interiorizado e generalizado e que brota da própria alma portuguesa e que resulta da noção de incompletitude. O português sabe-se incompleto e isso entristece-o… Se o Espanhol se sabe finito, o português sente- incompleto e perturba-o a infinidade do Atlântico que o limita pelas bandas do Ocidente. O sentimento da vertigem oceânica empurra o português para a poesia e para a aventura dos Descobrimentos, da Expansão e das migrações, mas quando as circunstâncias pessoais ou económicas o mantêm contra-vontade no solo desta finisterra europeia chamada “Portugal”, o português deixa-se vencer pela melancolia e entristece… O vigor do Sol e o clima generoso contrariam esta tendência nacional para a depressão e impede que esta alcance os níveis autogenocidas da Escandinávia, mas bastam para que todos os estrangeiros que nos visitam, de Byron e Unamuno, reconheçam em nós essa evidente Tristeza…

“A literatura de Portugal, quase sempre influenciada por livros e ideias vindas de França, quase sempre como as nossas classes superiores, e a alma do Povo adulterada pelo catolicismo romano, não permitiriam que o grande escritor espanhol visse o fundo virgem e inédito da alma lusitana, e portanto, da sua tristeza.”

Pascoaes identifica aqui os dois veios principais desse Estrangeirismo que Agostinho da Silva reconheceria depois como sendo o principal factor da decadência de Portugal: a introdução de influencias estranhas, exógenas e diminuidoras no seio da alma de Portugal. O poder destas influencias foi tremendo, porque de um lado influenciou o pensamento, as atitudes e a acção das elites da nação, arrendando a sua fidelidade em troca de pequenos favores e escassas adulações. Arregimentadas as elites, o predomínio norte-europeu poderia impôr-se pacificamente. Manietada a cabeça, o corpo por ela comandado não poderia revoltar-se contra a influencia cultural e política de França (na época de Teixeira de Pascoaes) e hoje, contra a “locomotiva Europeia” que na sua voracidade aglutinadora e normalizadora tudo leva à sua frente, não se comprazendo com idiossincrasias locais, regionais e culturais. Ontem, França, hoje a Europa, tudo farão para tornar Portugal e a sua irmã Galiza em extensões periféricas do seu poder, em dependências eventualmente úteis como destino de férias ou como postos fronteiriços contra os “Outros” do norte de África. Contra a alma portugalega, procurando englobá-la e formar aquela coisa vaga, indefinida e desalmada que é a “Europa”, está a alma portuguesa, livre, independente e heterodoxa, por muito mercenária que sejam hoje as suas elites académicas e políticas, mais as suas “Bolsas” europeias ou as suas “Férias” no Parlamento de Estrasburgo.

Se a domesticação das elites coube a Paris, então a domesticação do indomável, mas redutível, espirito religioso luso, coube a Roma. Como Dalila Pereira da Costa refere, coube a Roma lidar com o seu antónimo anagrâmico: o espírito do Amor (anagrama de r-o-m-a) trovadoresco, lírico e popular que a Poesia Trovadoresca galaicoportuguesa exprimia de forma tão clara. Verdadeira expressão de uma alma nacional que se forjava então na Portugaliza, plena de referencias a formas de religiosidade que brotavam do mesmo terreno onde nascera a heresia peninsular do Priscilianismo, a Trova Lusogalaica fora combatida pelo clero romano logo desde os seus primeiros tempos… E por fim, conquistado o apoio do poder político – que dependia de Roma para recolher o reconhecimento diplomático que a independência exigia, haveríamos de assistir à submersão da liberdade religiosa e cultural que os jograis e trovadores errantes representavam e à sua submissão frente ao poder estrangeiro que os tentáculos romanos lançariam sobre a finisterra peninsular.

“O veio profundo e vivo dessa alma, está sepultado, há séculos, debaixo dum enorme entulho feito de ideias, sentimentos, costumes, modas, etc., etc., importados de Roma para uso do coração, e de Paris para serviço do espirito. E não é fácil trabalho destruir esta espessa e já petrificada camada de cinza, para que surja à luz do dia, esperta e viva, essa divina faúlha de lume que nos deverá alumiar no caminho do progresso e perfeição.
Mas o simples facto do interesse que o poeta da Espanha revela pela tristeza de Portugal, mostra de algum modo, que existe nela o que quer que é de estranho e misterioso, e que não é uma tristeza comum”

A tristeza atávica portuguesa resulta assim da sua supressão imperialista por camadas múltiplas e sucessivas de influencias romanas e europeias. Umas e outras, alternando-se e sucedendo-se criaram a vaga mas certa convicção generalizada entre os portugueses de que faltava ainda “cumprir Portugal” e que o Mar fora cumprido sem lograr recolher ainda o destino e vocação nacional da portugalidade. É nesta Tristeza nacional que assenta a fonte da Saudade pascoaliana: uma memória do tempo perdido e do fado esquecido pela submersão do coração lusitano, da sua natural, plena e espontânea religiosidade, da sua capacidade rara de se re-ligar (etimologicamente fonte de “religião”) com a natureza e o meio. Portugal – antes da chegada dos missionários cristãos-romanos) – era a terra das divindades ctónicas e tópicas, das deusas das fontes, dos rios, dos montes e das arvores. Os Banda, Ataegina, Endovélico eram os deuses dos locais, devorados pelo império religioso de Roma, mas o seu Deus vingador e único, adversário de uma ligação entre o Homem e o Meio que se realizava pessoalmente e sem mediador, o padroado romano não poderia deixar vingar a religiosidade íntima e pessoal que caracterizava a alma portugalega e o quadro divino multiforme pré-romano.

“A tristeza lusitana é a névoa duma religião, duma filosofia e dum Estado, portanto. A nossa tristeza é uma Mulher, e essa Mulher é de origem divina e chama-se Saudade”

Pascoaes estabelece aqui claramente a ligação entre a saudade pela liberdade religiosa perdida, pela independência de pensamento e especulação que ainda no período das Taifas muçulmanas se viviam nas cidades islâmicas do sul. Se há Saudade é porque há Tristeza por aquilo que se sente ter perdido. Tristes, porque reprimidos, saudosos, porque recordando-se daquilo que perderam, os portugueses sentem no seu íntimo, com uma certeza não verbal, que o Deus solar e masculino de Roma, tão compatível com os quadros mentais dos indo-europeus, nada tem a ver com o seu verdadeiro fundo religioso, multiforme e pluriteísta, mas radicado nas religiões femininas e naturalísticas das deusas-mãe do paleolítico. Por isso é que o povo do interior ainda conserva uma devoção muito especial pelo culto da Virgem, apesar de todo o ciúme do Clero romano e da voracidade centralizadora de Roma: pela memória esquecida de um tempo saudoso onde na finisterra lusa se cultuava a “Deusa” e a imensa miríade de divindades tutelares dos campos e da Natureza.

“A Saudade é a eterna Renascença, não realizada pelo artificio das artes, mas vivida dia a dia, hora a hora, pelo instinto emotivo dum povo: a Saudade é a Manhã de Nevoeiro: a Primavera perpétua: é um estado de alma latente que amanhã será Consciência e Civilização Lusitana.”

É neste parágrafo que Pascoaes exprime a diferença conceptual entre aquilo a que vulgarmente chamamos de “saudade” e a interpretação que faz o filósofo: impulso mítico para um Eterno Retorno, para um tempo passado e idealizado, que completa o círculo e realiza o Homem. Esta “Renascença” é um regresso ao momento mítico e atemporal que vive nas nossas memórias colectivas e onde podemos regressar não por intermédio de um qualquer movimento cultural, político u social, mas numa revolução ou renascença interior que sendo interior e pessoal é duradoura e contaminante. Comecemos por realizar a revolução em nos, e preocupemo-nos e faze-la depois no mundo, diria Agostinho da Silva…

“O cinco de outubro foi já um facto de grande alcance, porque nos livrou da influencia de Roma, apagou as lâmpadas de Roma. Agora só resta (e será o mais custoso) apagar os fachos de Paris, e guiarmo-nos pela nossa própria candeia, alimentada com o azeite das nossas oliveiras… É preciso educar este Povo dentro da sua personalidade; um vestuário estrangeiro não lhe fica bem; não foi feito para o seu corpo.”

Neste passo Teixeira de Pascoaes refere-se ao anticlericanismo republicano que após a instauração da República em Portugal afastou a Igreja Católica do Ensino e de uma posição predominante na sociedade e política portuguesas. Contudo, este vigor anticatólico republicano não tinha uma base popular e nunca se conseguiu implantar fora dos círculos urbanos e acabaria por produzir um descontentamento generalizado e surdo que seria aproveitado pelo regime do Estado Novo a seu favor, revertendo o processo de laicização do Estado apressadamente imposto pelos republicanos de Lisboa ao resto do país. Teixeira de Pascoaes reconhece que seria impossível substituir a força estrangeira de Roma, com a sua obsessiva tendência para reduzir a religiosidade multiforme e matriarcal do povo, por uma outra força estrangeira: a do parlamentarismo republicano vindo Paris. Em alternativa a Roma e a Paris, Pascoaes acreditava que era possível sacudir estas cangas estrangeiras e recordar aquilo que saudosamente o Povo ainda recordava: a memória da liberdade religiosa castreja e a recordação da autonomia política e económica dos municípios medievais portugueses.

“Oxalá que seja num sentido genuinamente lusitano que se proceda à reforma da nossa instrução e educação. É certo que atualmente, todo o trabalho de reformas está em mãos europeizadas; mas há de chegar o dia feliz, em que o génio da Raça, tornado Consciência e Ação, surgirá vitorioso, integrando Portugal na sua própria alma progressiva.”

É impossível implantar a democracia, sem que esta implantação de um novo regime não seja também acompanha por uma revolução das mentalidades. A rapidez com que a Republica se impôs em Portugal impediu a suave e gradual mudança (necessariamente lenta) de quadros mentais da generalidade da população. Reconhecendo a fragilidade do regime republicano, os republicanos escolheram a Educação como o principal mecanismo para alavancar o novo regime nos meios rurais. Essa é a reforma a que Pascoaes alude neste parágrafo, com a crítica direta de que esta reforma não seria conforme ao sentimento português, mas importado a partir da Europa. Exógeno, tal como anterior sistema de Ensino católico, esta reforma do sistema de ensino estaria também ela fadada ao fracasso. Uma e outra estavam ainda longe do sentimento e da alma portuguesa, a qual importava saber reconhecer e recuperar de forma a poder implantar uma verdadeira republica em Portugal.

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Lima de Freitas: os dois mitemas fundamentais à Cultura portuguesa

O mestre Lima de Freitas identifica no “Porto do Graal” os dois mitemas essenciais que impulsionaram o processo dos Descobrimentos portugueses no século XIV e XVI:

1. Demanda do Preste João, que incorpora a Demanda do Graal, da procura pelo Paraíso terreal, enfim, da procura do “centro do mundo” evoliano que reponha o Homem em comunicação com o Divino.

2. O mitema da unificação do mundo, sob a forma do estabelecimento físico e mental do “reino do Espirito Santo” ou “Quinto Império”, enfim, todos os temas oriundos do mesmo fundo milenarista de raiz judaica de onde brotou a vinda do Paracleto, o retorno de Dom Sebastião, assim como a “Ilha dos Amores” de Camões e a espera pela “nova Terra e novos céus” dos profetas do Antigo Testamento.

Compreender esta dualidade, é compreender o essencial da missão portuguesa no mundo. É esta dualidade que esta na base de toda a criação literária, mental, erudita e popular verdadeiramente “portuguesa” e isenta de estrangeirismos. É a busca pelo Graal que forma a base da fundação da Nacionalidade, exposta pela importância que esse mitema tinha no sistema mental templário. Após esta fundação, o movimento para o retorno a um mundo perdido, mais justo e humano é retomado em força, a partir de Dom Dinis, com a generalização do culto do Espírito Santo. O Graal era o motor da busca, o Reino o local.

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As organização abertas (open source): Uma nova e revolucionária forma de organização do trabalho?

Quem se move mais na área das Tecnologias de Informação conhecerá – pelo menos de nome – o conceito “Open Source”. Este tipo de abordagem ao desenvolvimento de software deu amplas provas de sucesso, como demonstram as múltiplas distros de Linux (como o Ubuntu e o Linpus, que uso), o Firefox (que provavelmente usa para ler estas linhas), o Apache (que disponibiliza boa parte de todas as páginas Web na Internet) e várias aplicações Office.

O conceito de “Open Source” gira em torno de um grupo flexível de pessoas, cada uma trabalhando por sua conta e risco, nas áreas que sentem mais importantes ou interessantes. Realizações notáveis como o Linux, o Firefox e o Apache, que concorrem com aplicações criadas por grandes corporações multinacionais, com recursos quase infinitos, provaram o valor do modelo na área das Tecnologias de Informação.

O fundamental de uma organização “open source” é a capacidade que cada elemento tem para decidir sozinho em que é que vai trabalhar. Sem esta liberdade básica, todas as demais são irrelevantes.

O grande problema com o conceito de “open source” é, naturalmente… Como viver dele. Este dilema já conheceu varias “soluções”, sem que, contudo, nenhuma conseguisse cumprir a primeira liberdade básica: a escolha do trabalho.

Uns tentaram criar uma empresa que vendesse o suporte sobre o software desenvolvido em “open source“, como sucedeu por exemplo com a distro de Linux, RedHat. Outros deixaram-se engolir por uma grande empresa que lhes garantia o ordenado, como sucedeu com o MySQL (hoje em integração por osmose com a Oracle). Um e outro modelo, implicam o fim da liberdade básica de escolha do “open source” já que em ambos, os membros acabaram a receber ordens de um “patrão”. De facto, esse é o grande problema, quem estará disposto a pagar a alguém que faça apenas aquilo de que gosta? A saída para este dilema tem passado por aturar trabalhos repetitivos de dia e guardar os interessantes para a noite, como hobby… Escrevendo por exemplo, estas linhas. É claro que assim teremos pessoas que podem ser inovadoras e criativas cumprindo tarefas chatas e enfadonhas a maior parte do tempo e relegando para aquele que devia ser o seu tempo de lazer ou descanso os seus momentos de maior criatividade em que, precisamente, poderiam ser socialmente mais úteis.

Agostinho da Silva já discorreu sobre vertente escravizante do “trabalho” recorrendo para tal ao seu conhecimento das sociedades clássicas e explicando-o pela sua ligação à palavra latina para um instrumento de tortura. E se a ligação existe é porque para a maioria de nós, “trabalhar” corresponde a fazermos algo de que não gostamos. E sempre foi assim. Ou não? Não, no mundo do “open source”, razão pela qual a transposição deste modelo de organização poderá ser tão interessante para as sociedades do futuro. E na verdade, nem se pode realmente dizer que seria um modelo de organização original: a maior parte da existência do Homo Sapiens sobre a Terra correu sob um regime de caçadores-recolectores, sem efetiva sem reais estruturas hierárquicas e de Poder, onde qual se adaptava e seleccionava as atividades que mais lhe agradavam e que melhor julgava poder desempenhar. Ou seja, respeitando o essencial do regime “open source”… Na época o conceito de “trabalho” (que Agostinho bem ligava à origem latina do termo em “tripallium”, um instrumento de tortura) ainda não existia e de facto foi exatamente assim durante 90% da existência do ser humano. Foi somente a partir do momento em que a população explodiu e houve necessidade de impor a especialização do trabalho, que este – propriamente dito – surgiu.

Uma possível forma de aplicar no mundo empresarial o conceito de “open source” poderia ser pela formação de micro empresas, concebidas a partir do autoemprego de um único indivíduo, produzindo um produto ou um serviço de software proprietário. Assim seremos apenas nós próprios a decidir o que fazer. O modelo não está, contudo, isento de fragilidades… O facto de sermos só um, quer dizer que teremos que fazer tudo, mesmo aquilo que não queremos fazer ou que fazemos menos bem. E, é claro, se algo lhe acontecer, como um acidente ou uma doença que o torne improdutivo, a empresa pode não sobreviver, já que os clientes cujo desenvolvimento tenha sido interrompido não lhe irão perdoar e poderão sofrer até prejuízos significativos se planearam em função do seu compromisso de entrega, que, agora não pode manter por motivos compreensíveis mas de impacto profundo no seu negocio. Oferecer o código fonte da aplicação pode resolver parte deste problema, já que outros poderão estudar e modificá-la consoante o necessário.

Assim temos na “Empresa Aberta” um conceito de organização empresarial em que não há patrões nem empregados, em que qualquer um pode juntar-se ou sair a qualquer momento, participando apenas nos projetos que ache verdadeiramente motivadores, durante exatamente o tempo que melhor lhe aprouver.

Este é o modelo em que foram criados programas como o Apache ou o popular browser Mozilla Firefox, mas o modelo não se esgota nas funções de programadores ou analistas informáticos. Uma organização precisa de muito mais de informáticos para sobreviver. Todas as áreas, do helpdesk ao marketing podem ser alvo da mesma metodologia de organização do trabalho. O grande problema de manter uma organização assim será sempre o de encontrar mecanismos de compensação e remuneração adequados. Em projetos como a Wikipedia ou o Firefox o reconhecimento de mérito inter-pares é fundamental. Mas numa organização mais privada, menos voluntariosa e mais comercial como estes projetos não-comerciais o simples reconhecimento inter-pares é insuficiente para cativar e preservar os melhores, mais produtivos e criativos elementos que, naturalmente, serão seduzidos por organizações mais tradicionais a um ritmo muito elevado.

Uma das formas de estabelecer formas de compensação adequadas para uma organização “Open Source” pode ser uma tecnologia conhecida como “Trust Metrics“. Com esta tecnologia, cada colaborador avalia o seu par, mas elaborando os níveis de escala de uma forma que torna qualquer forma de “batota” ineficazes. Esta é essencialmente a mesma tecnologia empregue pelo Pagerank da Google, com tanto sucesso na relevância dos resultados do incontornável motor de busca norte-americano. Baseando a compensação financeira em ratings contínuos é possível ir ajustando a quantidade de tempo reservada para projetos “open source” e ir ajustando este às variações destes ratings, até um ponto em que eventualmente a compensação se torna tão alta que se pode deixar o emprego “normal”.

Nestas organizações, ninguém pode impedir alguém de participar num dado projeto, mas também ninguém pode ser despedido. Isto faz com que estas organizações sejam formas de vida muito mais seguras que as tradicionais, livres da arbitrariedade, dos favores de chefes ou gestores, assim da vaga oscilação dos seus favorecimentos ou das suas birras irracionais. O papel de cada colaborador nestas organizações “open source” depende unicamente das capacidades e do empenho de cada um no seu seio.

Atualmente, a maioria das organizações publicas e privadas já possuem programas de avaliação de desempenho. Estes, contudo, são sempre mais ou menos opacos, com parte das métricas fora da compreensão ou controlo dos colaboradores avaliados e determinadas de forma quase invariável sem o seu conhecimento ou consentimento, pelas chefias e sem participação direta dos colaboradores avaliados. Com esta metodologia de ratings pelos pares, todos terão pleno acesso às formas de avaliação e como estas são produzidas.

Uma vez estabelecido o mecanismo de “Trust Metrics” há que elaborar os mecanismos de compensação. Desde logo, fica evidente que ainda que a remuneração salarial fixa seja a que corresponde ao salário mínimo (nos países onde este existe) o essencial do plano de compensação será variável e alimentado diretamente a partir dos lucros da organização que serão distribuídos por todos os colaboradores consoante o seu rating no sistema de “Trust Metrics“.

Fonte principal:
http://e-texteditor.com/blog/2009/opencompany

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O Governo galego avalia a adoção da língua portuguesa nos currículos escolares

Depois de algumas hesitações governamentais e de um receio de um recuo nítido após a vitória da direita nas últimas eleições regionais galegas, a notícia segundo a qual o presidente do Governo galego Alberto Núñez Feijóo se tinha comprometido a avaliar a presença da língua portuguesa como língua de opção nos currículos escolares da Galiza é uma boa surpresa.

O atual presidente do Governo galego fez estas declarações após uma reunião com o embaixador português Álvaro de Mendonça e Moura, que visitou a Galiza para estabelecer contactos com entidades públicas e privadas regionais e enquadra-se numa discreta, mas constante, pressão do Governo português no sentido de que o ensino do português seja introduzido nos programas escolares de várias regiões de Espanha, entre as quais a Galiza, a Catalunha e a Extremadura, onde se situa Olivença.

A inclusão do português nos programas espanhóis será facilitada agora que se multiplica a leccionação do castelhano – como opção – em Portugal, tendo o Governo antecipado assim a boa vontade espanhola para corresponder a esta abertura, esperando nós agora que a via seguida seja a correta.

E se em regiões como a Extremadura o português é já hoje opção então não se compreende que a lusófona Galiza esteja atrás no ensino do português naquela que é a verdadeira matriz linguística e cultural de Portugal. Isto mesmo admite Feijóo quando refere a existência de uma “relação especial” entre Portugal e a Galiza. O responsável máximo pelo governo galego afirma que a língua portuguesa é, com o inglês, uma das línguas mais importantes do mundo, desde logo porque se estima que até 2025 existam mais de 360 milhões de lusófonos no mundo, mais do que as duas línguas europeias mais faladas, juntas: o alemão e o francês.

A Galiza tem estado virada de costas para Portugal e Portugal, por sua triste vez, para a Galiza… Portugal, não tem sabido olhar para e pela Galiza, por imperativos da paralisante “prudência” e pelo medo da mudança características das elites políticas e intelectuais pelo menos desde a ascensão de Dom João III ao poder. A Galiza, por sua vez, tem sido vítima de um processo de centralização, colonização cultural e linguística, que, com o seu auge no Franquismo, ainda se faz hoje sentir de forma particularmente aguda, especialmente no domínio linguístico. É portanto um verdadeiro milagre que existam ainda hoje tantos lusófonos na Galiza, resistindo à pressão “imperialista” do castelhano hoje e sempre.

Fonte:
http://groups.google.pt/group/observatorio-lp/web/governo-galego-promete-estudar-incluso-do-portugus-como-lngua-opcional?hl=pt-PT&pli=1

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CARTA AO DIRECTOR DO JORNAL “PÚBLICO”

Exmo Senhor
Director do Jornal “Público”

Enquanto subscritor da Petição “Não Destruam os Livros!”, lançada pelo MIL. MOVIMENTO INTERNACIONAL LUSÓFONO, bem como da “Carta Aberta ao Primeiro-Ministro de Portugal”, que foi entretanto enviada aos órgãos de comunicação social, gostaria antes de mais de esclarecer que nada nos move contra ninguém em particular – a nossa única motivação é, como se diz no texto da Petição, “que as editoras nacionais, e em particular a Imprensa Nacional – casa da Moeda, não destruam as obras em questão, oferecendo-as antes às bibliotecas, escolas e centros culturais nacionais, aos leitorados de Português e departamentos onde se estuda a língua e a cultura portuguesas nas universidades estrangeiras, bem como às universidades e centros culturais dos países lusófonos”.

Feito este esclarecimento prévio, gostaria em primeiro lugar de manifestar a minha estranheza perante a notícia publicada na edição de hoje (Sexta, dia 3 / 7/ 09), notícia não assinada sobre a Imprensa Nacional – Casa da Moeda (cf. caderno 1, p. 17), de clara resposta à Petição e à Carta Aberta, sem que, contudo, nem a Petição nem a Carta Aberta seja referidas. Isto para além do facto da notícia ter numerosas semelhanças com uma outra surgida em Novembro de 2008 no JL, essa a respeito do surgimento da Agenda INCM para 2009.

Quanto à notícia propriamente dita, registamos que se mantém a possibilidade da destruição de livros. É esse o título da notícia: “Casa da Moeda pode ter que destruir livros”. Isto caso não se encontrem instituições disponíveis para “acolher as obras publicadas há mais de quatro anos e que não tiveram sucesso comercial”.

Ora, instituições disponíveis para acolher essas obras é o que, no espaço lusófono, não faltam. O que falta, tão-só, é vontade para as fazer chegar lá. Mas, para tanto, como se diz ainda no texto da Petição: “os Ministérios da Cultura, da Educação e dos Negócios Estrangeiros (este através do Instituto Camões), bem como a TAP AIR Portugal, devem-se articular com as Editoras na estratégia da distribuição e transporte dos livros a nível nacional e internacional. Em vez de se destruir património precioso e insubstituível, esta é uma óptima oportunidade de se prestar um serviço à cultura e à educação nacionais, bem como de promover a cultura portuguesa no espaço lusófono e no mundo, tarefa por todos reconhecida como fundamental na qual o Estado não se tem empenhado devidamente.”

Ao contrário do se diz na notícia, os livros não são “feitos para ser vendidos”. Mas para ser lidos. Eis toda a diferença.

Muito cordialmente
Renato Epifânio


Fonte:

http://novaaguia.blogspot.com/2009/07/carta-ao-director-do-jornal-publico.html

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