Nova Águia

Comentários a “O Entendimento dos Símbolos” (para uma leitura adequada da Mensagem e dos poemas simmbolistas de Fernando Pessoa (in A Mensagem, Edições 70, organização de António Quadros)

“Com a dispersão por todo o mundo e a morte em tantos combates, precisamente daqueles elementos que criavam o nosso progresso, o nosso povo foi pouco a pouco ficando reduzido aos elementos apegados ao solo, aos que a aventura não tentava, a quantos representavam as forças que, numa sociedade, instintivamente reagem contra todo o avanço. É um dos casos mais visíveis da criação de uma predominância das forças conservadoras. Com isto, visto à luz do que se explicou, queda revelado o porquê da nossa decadência.”

Esta é a explicação maior para a decadência de Portugal, visível já na época de Fernando Pessoa (em que se mantinha, pelo menos, uma certa aparência de soberania e independência) e particularmente clara nos tempos de hoje, mercê da idiotia crónica dos nossos líderes políticos no governo e oposição e de um presidente da república mentecapto e inculto. Pessoa acreditava que o gigantismo da tarefa a que os portugueses de Quinhentos se tinham atrevido era tão grande, tão desproporcionado, que o país se havia esvaziado (para a diáspora imperial, para as colónias, para a morte pela guerra e navegações) dos seus elementos mais audazes, mais empreendedores. Esse esvaziamento do país dos seus cidadãos mais ativos, porventura um traço genético, transmissível às gerações futuras, explicaria esta conformação ao destino, esta subjugação atávica e bovina à autoridade, ao situacionismo e a uma passividade coletiva que hoje é particularmente visível entre nós e que permite resolver parte da misteriosa bonomia com que a maioria dos portugueses suporta este jugo opressivo com que hoje todos vivemos.

“O que restava do progressivo desnacionalizou-se depressa. (…) em uns e outros, o nível intelectual, o nível cultural e o nível da vontade prática e útil foi baixando. Um ou outro homem de maior destaque surgia e desaparecia e a sua obra, quando não morria com ele, morria pouco depois, pois não havia coesão social, por onde se propagasse, nem interesse intelectual, por onde, pelo menos, se mantivesse.”

Portugal esvaziou-se de inovadores e progressistas (isto é, de gente descontente com a Situação e com coragem energia bastantes para a desafiar) e encheu-se de conservadores, ao ponto de até os partidos políticos teoricamente mais “progressistas” (como o PCP) serem aqueles com um discurso mais situacionista e conservador. Este fenómeno (que começou depois de 1550) tem sido intensificado em épocas recentes pelo processo de integração europeia e pelo regresso da emigração como principal forma de sobrevivência para muitos portugueses. De um lado, temos a europa do norte – que recrutou uma cáfila de políticos fiéis e acéfalos no seu projeto federal-imperial – do outro temos essa mesma europa que atrai – acenando com salários elevados e empregos sólidos e bem remunerados – os jovens formados pelo Ensino Público de qualidade que todos os portugueses pagam. De um lado, os europeus sangram Portugal, forçando baixos salários, altos níveis de desemprego, baixa auto-estima e níveis simbólicos de soberania, do outro, destroem as forças vivas do país, drenando os mais empreendedores e os jovens. A europa está a desnacionalizar Portugal e a torna-lo numa imensa estância de férias para exportar os seus cidadãos mimados e estupidamente ricos.

“Desnacionálizamos a nossa política,desnacionálizamos a nossa administração, desnacionalizámos a nossa cultura.”

Hoje mais do que nunca… o governo da República não passa de um sátrapa impotente para um Rei dos Reis anónimo e instalado algures na Alta Finança estrangeira, puxando cordéis de marionetas de madeira como Barroso, Hollande ou Merkel. A nossa política é o reino das ficções assentando todo o poder real para fora, nas bandas do norte do continente. E nesta guerra surda que se trava, a desculturação de Portugal é a arma central… os orçamentos da Secretaria de Estado da Cultura (sempre pequenos) foram quase reduzidos à total insignificância… o trabalho meritório dos anteriores governos no campo da investigação científica, destruído… a escola pública (que formou os jovens que agora a alemanha capta) está asfixiada por troikismos dogmáticos e aceites sem questionamento. Um povo sem cultura, é um povo inerte, sem opinião, espírito de resistência ou de afirmação dos seus próprios interesses. E isso faz parte do plano europeu para desnacionalizar Portugal e o tornar num território vazio, apto a ocupar e explorar em total liberdade pelas suas empresas e empresários.

“O primeiro passo para uma regeneração, económica ou outra, de Portugal é criarmos um estado de espírito de confiança – mais, de certeza – nessa regeneração. (…) Há só uma espécie de propaganda com que se pode levantar o nome de uma nação – a construção ou renovação e a difusão consequente e multimodal de um grande mito nacional. (…) temos felizmente o mito sebastianista, com raízes profundas no passado e na alma portuguesa. Nosso trabalho é pois mais fácil: não temos que criar um mito, senão de renova-lo.” (…) Que Portugal tome consciência de si mesmo. Que rejeite os elementos estranhos. Ponha de parte Roma e a sua religião. Entregue-se à sua própria alma. Nela encontrara a tradição dos romances de cavalaria, onde passa, próxima ou remota, a Tradição Secreta do Cristianismo, a Sucessão Super-Apostólica, a Demanda do Santo Graal.”

As ideias têm uma força tremenda…. foi essa ideia de país, forjada pelo sangue e pela grei, nas mentes de cistercienses e pelas espadas dos cavaleiros templários, de uma nação capaz de integrar, de forma tolerante e aberta, as nações judaicas e islâmicas, de ser economicamente autónoma e politicamente soberana que fez nascer Portugal. O espírito, a vontade da independência, sempre foi central nessa ideia coletiva de “ser Portugal” e logrou, até, o falso milagre (falso, por produto do trabalho e não do acaso da sorte) de se manter a independência numa Península que cedia, bloco a bloco, a esse imperialismo castelhano que hoje conhecemos sob o falso nome de “Espanha”.

Um parte central dessa ideia de Portugal é a independência nacional, uma independência forjada nos mitos templários, primeiro, e depois nos mitos providenciais de Ourique, do Reino do Espírito Santo e do Quinto Império. São esses mitos, ou as suas versões modernas, que importa repescar e desenvolver. Os mitos são as ideias e as ideias são aquilo que levam as nações para diante, para fora de um torpor que serve apenas os interesses de um estrangeiro que nos quer passivos, dormentes e recatados em sofás.

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Pedro Cipriano: “A capacidade de pensamento crítico sofreu um declínio durante o último século. (…) a disponibilidade de informação não parece contribuir para uma abertura de horizontes. É claro que a educação contribui de maneira decisiva para a castração do pensamento”

“A capacidade de pensamento crítico sofreu um declínio durante o último século. (…) a disponibilidade de informação não parece contribuir para uma abertura de horizontes. É claro que a educação contribui de maneira decisiva para a castração do pensamento (…) A religião, com os seus dogmas; a cultura, com a sua massificação; a sociedade com a sua alergia à mudança e a educação, com sua componente fortemente cartesiana, contribuem para o adormecimento das mentes, anestesiando-as para a realidade.”
Pedro Cipriano
Revista Nova Águia, número oito

A Educação e o sistema educativo têm, com efeito, contribuído para tornar a sociedade repetitiva, previsível e – globalmente – decadente. Em muitos campo, nos setores culturais e tecnológicos assiste-se já a uma certa estagnação e espírito de repetição e de baixa propensão para a inovação e para o risco, fenómenos que se registavam igualmente no Baixo Império Romano depois da pequena “idade de ouro” dos Antoninos e que indiciam que uma civilização entrou em fase de declínio…

O papel da Educação é aqui crucial: em lugar de formar excelentes memorizadores (ou cabuladores…) a Escola deve procurar estimular a inteligência e a criatividade, abandonar os programas extensos, a acumulação absurda de cadeiras e disciplinas concentrando-se no essencial: português e matemática e abrir o resto da carga horária letiva à descoberta e à criatividade.

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Pedro Cipriano: “A Europa – mesmo a dita “rica” – começa lentamente a redescobrir lentamente a necessidade de tornar a produzir aquilo que os “economistas do sistema” lhe disseram ser incontornável: destruir o seu setor produtivo e passar a fabricar tudo no Oriente”

Lançamento da revista Nova Águia (http://www.porto.taf.net)

Lançamento da revista Nova Águia (http://www.porto.taf.net)

“O poder instituído faz-nos crer que uma economia e moeda globais são a solução para a crise. No entanto, é notório que isso apenas servirá para aumentar o fluxo de riqueza para aqueles que já são ricos, sem que isso melhore em nada a vida dos restantes. Tendemos perigosamente para os ricos ficarem mais ricos e os pobres cada vez mais pobres.”

Uma das explicações para o estado a que chegou a União Europeia é – para além da conhecida incompetência dos seus líderes – é o facto de a crise ter sido planeada e orquestrada a partir dos círculos ocultos de poder que entre a Tripartida e o Grupo de Bilderberg governam o mundo: o seu plano é – sabe-se há muito – construir uma “união mundial” não democrática e governada pelos Grandes Interesses que representam: as “uniões” regionais (NAFTA, Mercosul, UE, ASEAN, etc) são assim passos necessários e graduais para esse modelo malévolo de governação global e a presente recessão global pouco mais que um pretexto para a instaurar, depois de levados os povos – por doses massivas de medo – a aceita-lo como incontornável e como “saída única” para a recessão e para os crescentes níveis de desemprego atuais.

“Um exemplo atual é o caso da União Europeia, em que os estados membros são obrigados a importar produtos que podiam produzir por si mesmos, fazendo com que a sua dívida externa cresça sem parar. As pessoas são obrigadas a aceitar empregos que não querem para pagar os empréstimos que contraíram. Certos países estão lentamente a tornar-se fonte de mão-de-obra barata para outros mais ricos, inclusive dentro da Europa. Os pobres são mantidos pobres para, através do medo, impedirem a classe média de se libertar desta prisão laboral. Em suma, esse ultra-neoliberalismo económico é a escravatura do século XXI.”

Simultaneamente, as Multinacionais ganham fortunas enquanto deslocalizam a produção para a China e entregam o Emprego que ela gera a hordas de escravos passivos e manietados por um regime corrupto e ditatorial. No Ocidente, os Bancos (agentes primeiros desses Grandes Interesses) acumulam imensas fortunas à custa de doses massivas de endividamento, sempre com a benévola cobertura dos Estados e dos impostos (cobrados de forma cada vez mais voraz) dos seus cidadãos.

“A Europa – mesmo a dita “rica” – começa lentamente a redescobrir lentamente a necessidade de tornar a produzir aquilo que os “economistas do sistema” lhe disseram ser incontornável: destruir o seu setor produtivo e passar a fabricar tudo no Oriente. Esta brilhante equação produziu as astronómicas dívidas externas que agora assolam a maioria dos países europeus e tornam evidente hoje que urge reverter esse processo e passar a produzir localmente a maior parte daquilo que foi deslocalizado nas últimas décadas.”

O “Regresso às fábricas” será assim a única via possível para que a Europa possa se livrar das dívidas externas (para o Mundo Árabe e China) que acumulou nas décadas de desregulação comercial e de deslocalizações. Mas esse Regresso vai enfrentar uma furiosa oposição por parte dos Grandes Interesses (sobretudo das Multinacionais) que tudo farão para manter um Status Quo que lhes é muito favorável e que lhes permite continuar a produzir os seus produtos a preços muito baixos, sem considerandos de tipo laboral, humano ou ambiental e abrindo espaço desta forma para elevadas margens de lucro. As Multinacionais tudo farão para impedir a reindustrialização da Europa, não excluindo o – já existente – financiamento de Partidos políticos conformes aos seus interesses e a imposição de “protetorados tecnocráticos” como aqueles que recentemente a UE impôs à Grécia e à Itália.

“Na outra ponta da mesa há a economia e moeda locais, prevendo que a riqueza de uma dada comunidade se mantenha relativamente constante, limitando o fluxo de produtos entre comunidades ao mínimo essencial, sendo exatamente o oposto da economia global, na qual se promove um fluxo contínuo de todo o tipo de bens. “

Pedro Cipriano concorda aqui com aquele que é um dos desígnios económicos mais antigos do MIL: a promoção das virtudes das Economias Locais e da ferramenta indispensável ao seu sucesso que é a Moeda Local. Resposta adequada a esta voragem globalizante, que desumaniza a economia e impõe um foco no “global” e financeiro em vez de na Comunidade e no Homem, um modelo que favoreça a produção para consumo local, coadjuvado regionalmente e usando moedas locais para estimular as trocas económicas intra-comunitárias tem várias vantagens que merecem longa reflexão…

Fonte:
Ensaio sobre o futuro de Portugal, do seu povo e da sua cultura
Pedro Cipriano
Nova Águia, número 8

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A Geração Copy-Paste

“A cultura dos nossos antepassados foi substituída por uma versão mais ligeira, diluída e imediata, em que toda e qualquer referência e espiritualidade ou valores morais é ridicularizada. Alguns lutam pela manutenção de certos rituais, contudo o espírito lusófono raramente existe neles. A maioria apenas quer saber do último escândalo que envolva alguma celebridade ou do resultado do último jogo de futebol, deixando de lado, por exemplo, a leitura de um bom livro que a nossa vasta literatura tem para nos oferecer. É fácil culpar os políticos e os interesses económicos. No entanto, neste caso a culpa não é exclusivamente deles, já que cada um de nós mata o nosso espírito lusófono através da negligência.”

Pedro Cipriano
Nova Águia, número oito

Existe um nítido declínio da quantidade e qualidade de produção cultural na sociedade portuguesa contemporânea: a qualidade do ensino público está na base de uma redução da base populacional que se encontrava preparada para diferir bens culturais de uma sofisticação mais exigente e a mudança de mentalidades que foi criada por uma geração condicionada pelos métodos de pensamento rápidos e imediatistas, por uma geração que exige viver em “tempo real” e onde as tradicionais virtudes do trabalho continuado e esforçado não valem tanto como a rapidez de acesso ou a repetição ad aeternum de fontes copipastadas sem reflexão nem pensamento.

A geração jovem de hoje tem acesso rápido, ubíquo e universal à informação, através da Internet, mas essa facilidade está a favorecer o raciocínio mais primário, imediatista e em “tempo real” que a reflexão inteletual, com a sua maturação muito própria e produtiva… o Pensamento original e criativo requer Tempo e não ocorre num mundo onde as solicitações são múltiplas, diversas e rápidas.

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Comentário à obra de Dalila Pereira da Costa: “A Nau e o Graal”

Dalila Pereira da Costa (http://diariodigital.sapo.pt)

Dalila Pereira da Costa (http://diariodigital.sapo.pt)

Uma das obras mais importantes da filósofa Dalila Pereira da Costa é “A Nau e o Graal”. Texto indispensável para compreender Portugal e a visão que a filósofa portuense tinha do nosso destino e missão coletivas, a “Nau e o Graal” é crucial para compreendermos o que somos e, sobretudo, para onde vamos, num momento de grave crise financeira e social.

1. Perda de Vitalidade

“Além duma real perda de vitalidade houve, por exaustão, após seu portentoso acto ou missão, ou pelo facto de completa realização desse ato ou missão, como revelação terrestre a eles supremamente incumbida na história universal – ter-se-ia dado, a partir do século XVII, uma não-sincronização ou partilha, entre eles e o resto da Europa, duma certa eleição, forma e estrutura de pensamento e conhecimento.”
Dalila Pereira da Costa, A Nau e o Graal

Na visão de Dalila Pereira da Costa, Portugal teria entrado em plena Idade Moderna e – depois – na Pré Industrial, sem ânimo, objetivos de longo prazo ou desígnios nacionais que lhe permitissem alimentar o mesmo grau de intensidade de presença no mundo e de influência planetária dos finais da Idade Média. Depois do grande desaire de Alcácer Quibir, o país porta-se como se lhe tivessem quebrado a espinha dorsal, como se estivesse sem outro destino que não fosse o de sobreviver e de deixar passar dia a dia como se nada fosse realmente importante ou merecesse a pena. Desde a perda do Rei, Portugal age como se estivesse em depressão coletiva, um sentimento intercalado apenas por breves momento de euforia ou de alienação de massas. Neste contexto, a construção do Brasil assume-se como o último grande fôlego de uma aventura que perdeu em finais do século XVI o seu maior fulgor e energia.  Esse esgotamento explicaria a desincronia de desenvolvimento económico e social que Portugal experimenta desde meados do século XVII e que é especialmente evidente depois do século XX com a industrialização do continente europeu que não alcançaria nunca o país.

Depois da escala extraordinária das suas realizações no período dos Descobrimentos e da Expansão, Portugal está desincrónico com a Europa. É um facto, mas poderá estar nesta situação porque na sua mais profunda essência Portugal não será realmente um “país europeu”? Na sua História já milenar, raramente o país esteve inserido no contexto político e diplomático europeu. Quase sempre pautou as suas políticas e desígnios nacionais muito mais pelo Atlântico e por aquilo que havia para além dele (o “além mar”) do que pelo que se passava no continente europeu. Portugal pode estar assim desincrónico apenas porque… Essa é a sua natureza: atlântica e global e não continental e regional. Assim, o “defeito” seria de facto, uma caraterística de um dado ponto – intermédio – do desenvolvimento e da vida coletiva do país e que seria apenas a antecâmara para um novo estádio da vida coletiva de uma nação que ainda não cumpriu plenamente o seu verdadeiro destino.

2. O Regresso de Portugal do Brasil

“Como nova emersão, subida do seio materno, da semente fecundada, para nova vida duma civilização, ela será a segunda vinda da ilha do Encoberto. A Ilha da Promissão dos Santos, que São Brandão procurou durante sete anos, ou Ilha das Sete Cidades, ambas foram e estiveram no apelo e realização da aventura para oeste, que por ela, culminaria na viagem de 1500, que os mareantes de Álvares Cabral, por certo levando uma rota estabelecida, memorizaram pelas palavras de Pêro Vaz de Caminha: “e assim seguimos nosso caminho, por este mar, de longo.
Uma manhã, o monge São Brandão e os seus 14 companheiros, partiram navegando para ocidente em busca “duma certa ilha que o homem de Deus Bariunto lhe tinha falado e que era terra espaçosa e verde e muito frutífera.”
Dalila Pereira da Costa, A Nau e o Graal

Noutros pontos desta importante obra Dalila Pereira da Costa já deixara bem claro que acreditava que Dom Sebastião haveria de regressar numa manhã de nevoeiro (simbólica) vindo da Ilha das Sete Cidades sendo que a filósofa do Porto explica o que seria exatamente essa “ilha”: a mesma que estivera na base do apelo atlântico que impulsionara Portugal à extraordinária gesta dos Bandeirantes e à construção heróica da maior nação da América do Sul: o Brasil.

A “terra espaçosa e muito verde” de São Brandão, a Ilha do Encoberto, a Ilha das Sete Cidades (refúgio dos cristãos visigóticos) e a Terra de Vera Cruz são assim uma e só uma realidade: O Brasil. Interpretando Dalila concluímos assim que a Salvação de Portugal das trevas em que anda imerso desde Alcácer Quibir virá dessa mítica “terra espaçosa e verde”,que a filósofa associa à Terra de Vera Cruz, o Brasil, e que assim, será essa “Ilha Encoberta” de onde virá o Rei do Tempo Futuro que abre assim a era do Quinto Império. Será o Brasil o futuro de Portugal? Virá do Brasil a figura salvífica prevista pelos profetas? Ou… Será simplesmente essa salvação realizada através da materialização do conceito de uma União ou Comunidade Lusófona?…

3. Portugal e a Rússia

“Na Europa, só um outro seu país, e justamente na sua outra extremidade, a oriental – assim, como criados em pólos opostos de simetria equilibrada – a Rússia, deterá tal vontade e poder de messianismo. E de valorização última, sagrada, da história: como justificadora e salvadora.”
Dalila Pereira da Costa, A Nau e o Graal

A Europa não o sabe. Mas ela é de facto uma entidade oscilante que cintila entre um equilíbrio tripolar: Rússia, Portugal e Grécia. Ao contrário do que creem os eurocratas de Bruxelas ou os Neoimperialistas de Berlim o “centro” da Europa não reside nem em Berlim, nem em Paris nem (muito menos) na parasitária e ridícula Bruxelas. O “centro” da Europa são os seus tripolos. É deles que emana a energia que dinamizou o continente que deu ao mundo realizações tão notáveis como a democracia, a ciência ou os direitos humanos.

O centro europeu oscila ora na direção de Portugal sendo então a Europa mundialista e aberta ao mundo. Quando o centro oscila na direção da Grécia, a Europa é racional, criativa e democrática. Quando oscila para a Rússia, é imperial, “romana”, continental, sonhadora e ambiciosa. A Europa não é o seu centro. É a sua periferia, é ela que a define enquanto matriz civilizacional e cultural.

4. Paralelismos entre os mitos arturiano e sebástico

“Dom Sebastião continuará o mito do Rei Artur, como modelo exemplar da soberania; do rei que, como oficiante e vitima, se oferta e Imola no sacrifício ritual pelo seu reino, dele seu representante, a ele identificado transcendentemente; e o que, após longa dormição, o virá salvar. E assim como os Cavaleiros da Távola Redonda foram exterminados na batalha de Camlan, assim também o foram os cavaleiros da nobreza do reino lusíada na batalha de Alcácer Quibir: mas também depois da sua morte, seu longo período de pausa e ocultamento, o rei salvador voltará ressuscitado, purificado e iniciado, para redimir e ressuscitar o seu povo. E entretanto, como Artur ficou permanecendo na Ilha de Avalon, centro do mundo, assim também Dom Sebastião ficou permanecendo na sua Ilha Encoberta, como outro centro do mundo.”
Dalila Pereira da Costa, A Nau e o Graal

Os paralelismos entre o mito arturiano do “rei perdido, mas que regressará” e o sebastianismo português, são, como aponta esta grande teórica do movimento lusófono, evidentes. Sebastião é o Artur dos portugueses e Artur o Sebastião dos ingleses. Um e outro pertencem ao mesmo quadro mítico-simbólico de fundo celta, cruzado de elementos messiânicos judaicos. Um e outro mito fundador buscam numa misteriosa e oculta ilha atlântica o refúgio desse Rei perdido. Um e outro construíram um projeto nacional em torno das navegações atlânticas e um e outro ergueram impérios transatlânticos absolutamente ímpares.

Os ingleses de hoje não sentem muitos traços de união com estes seus parentes celtizados, atlânticos e ultraperiféricos, mas a mesma matriz civilizacional continua lá. E o mesmo sucede com Portugal, país que sempre foi muito mais atlântico, que “europeu” (no sentido restrito), muito mais marítimo que continental e muito mais aventureiro do que laborador (no sentido germânico do termo).

5. O Graal é Portugal

“Nas diferentes versões da Demanda, o graal será, na mais antiga, a de Chretien de Troyes (século XII), uma escudela; na de Wolfram Von Echenbach, uma pedra; na de Peredur, do País de Gales, e de autor desconhecido, um prato com uma cabeça; e na Demanda do Santo Graal, atribuída a Robert Boron, o vaso onde Cristo celebrou a última ceia e onde José de Arimateia recolheu no Calvário o santo sangue. Será esta versão, do século XIII, difundida pela Ordem de Cister, a mais lida no Portugal de então. À qual ainda, no mesmo complexo, se juntará, o Livro de José de Arimateia, atribuído ao mesmo autor, e a Crónica do Imperador Vespasiano, como ligados ao mesmo circulo.”
Dalila Pereira da Costa, A Nau e o Graal

Assim, a visão do Graal adotada em Portugal por inspiração de Cister e propagada pelos monges-guerreiros do Templo seria precisamente a do Graal enquanto Vaso ou recetor do Sangue de Cristo. O Graal é em Portugal, o Vaso Sagrado e Portugal assume ele próprio, logo desde a sua fundação (precisamente cumprindo um plano de Cister executado pelos Templários) a essência do próprio Graal que está incluso na sua própria designação “porto-do-graal” e testemunhada no selo de Afonso Henriques e no Mosteiro da Batalha.
Portugal é o Vaso do Graal. O Porto de onde partiram e tornarão a partir as Caravelas sejam elas as de Henrique, ontem, ou da Lusofonia ou do Espaço, amanhã.

6. O Mundo do Futuro

(…) essa semente aqui fossilizada, mas intacta na sua potência germinativa, o que urgirá ofertar ao Ocidente. (…) e não sabendo, ele, que aqui existe preservada numa cultura sua, ocidental atlântica, neste seu extremo, sua Península. (…)
Essa semente, consigo trará o fim dum mundo em si obstruído, morto, nas suas formas ou forças de conhecimento e vida, do qual as aparências, nós por vezes as podemos apontar, como: distanciação do real, impossibilidade de aderência a ele, solipsismo, abstração, inteletualismo e racionalismo, estremes e estéreis; e negação última de possibilidade de vida, como niilismo, ou loucura.”
Dalila Pereira da Costa, A Nau e o Graal

A renovação da Europa virá de Portugal. Portugal não deverá assim “europeizar”, mas pelo contrário deve – como também dizia Agostinho da Silva – tudo fazer para preservar o seu carácter livre e independente e por contaminar com este caráter o continente europeu.
Portugal pode curar a Europa do mal de que esta hoje padece. Fazer com que deixe de ser uma criatura que padece de “solipsismo, abstração, inteletualismo e racionalismo, estremes e estéreis; e negação última de possibilidade de vida” negando a natureza humana das sociedades, dando primazia radical e absoluta ao individualismo e ao egoísmo contra a comunidade e a integração com a natureza e o meio e rendendo – sobretudo – o cívico e o político ao económico e financeiro.

A Europa tem que se recentrar no Homem. Retomar a ligação do Homem com a Vida e sem pudores ou receios admitir que a existência plena do humano no mundo não se faz sem a admissão e inclusão de um plano espiritual.

7. Os tempos do Nigredo

“Este povo, logo após Alcácer Quibir, teria começado, recomeçado por sua vez, na historia individual e coletiva, para merecer o ressurgimento e possessão do bem supremo – e em gesto solidário ao do seu rei – a perfazer em si uma longa prova, tal outra demanda e navegação: como sacrifício ritual. Para futura regeneração. E que seria ao mesmo tempo de ocultação e prova. Ou em termos de alquimia e hermética o tempo de Nigredo.”
Dalila Pereira da Costa, A Nau e o Graal

O Nigredo Português é assim a fase do desenvolvimento nacional em que ainda hoje vivemos. Parte de um Processo maior, significa que Portugal tem que passar por ela para poder evoluir até ao Albedo e daqui para a sua realização mais plena e completa, o alquímico Rubedo ou “Pedra ao Rubro”. Em Alcácer Quibir não morre (se morre) apenas um Rei de um país independente e soberano, cobiçado por Espanha/Castela. Acabe com ele toda uma nação que a partir daí se limita a existir perdendo todo o norte e energia, vagueando ao sabor das circunstâncias, sem projeto nacional ou energia bastante para recentrar uma existência que deixou de ser possível nos mesmos termos em que se desenvolvia depois do sacrifício do rei nas areias do norte de África. Portugal tem que passar, como passou o seu Rei, pela Morte ritual, para poder renascer. Tem que cruzar o Nigredo para chegar ao Albedo. Tem que morrer para poder renascer.

9. O Regresso do Encoberto

“Na Ilha do Encoberto, se dará a morte ritual (ou segunda morte), dum rei e do seu reino, como anulação ou suspensão da sua história. (…) Assim, o Desejado repetirá no Atlântico, o que desde tempos imemoriais desde o paganismo e através do cristianismo, o homem dessa pátria sempre realizou na água, ou Santo Vaso. Dom Sebastião emergirá do mar, na manhã da sua epifania, regenerado como dum Batismo.”
Dalila Pereira da Costa, A Nau e o Graal

O Rei Encoberto só regressará depois de morrer na sua Ilha atlântica onde se encontra hoje refugiado… Essa morte ritual será na água, como um batismo e será sucedida por um renascimento que o fará renascer do lado de cá do Atlântico. O Graal – veiculo da regeneração do Rei, assim como também o foi da sua imortalidade – é nesta leitura – o Vaso que cura o Rei é o Mar… O Mar onde está a Ilha do Encoberto é assim o vetor de Portugal e do seu Renascimento deste pantanal infecto e paralisante onde vegeta desde o desvio do projeto nacional conduzido pelo ultracatolicismo, pela Inquisição e pela adesão ao espírito do Lucro e do Império em desfavor do Espírito criador, das liberdades cívicas e do universalismo fraterno que prometia a primeira fase dos Descobrimentos.

Portugal será reconstruido pelo Mar, por Aquele que dele e por ele virá e o Graal mítico que buscamos e precisamos será simultâneamente esse Rei Redentor e o Mar, eixo fundamental de uma reconstrução que só pode ser feita olhando para e para alem do Atlântico.

10. Um dos Centros Espirituais do Ocidente

“Vejamos Portugal, no seu período de vero esplendor, como sua plena manifestação, o período de inicio da Idade Moderna, como tendo sido então um dos centros espirituais do Ocidente. De que a sua posterior decadência, nada mais seria que a ocultação, como movimento ou processo natural das leis cíclicas da manifestação, que se segue à revelação; e que a posterior face de comércio, de simples ganância e luxo mundano, em que neste reino decaiu a aventura da descoberta da terra, nada mais seria que um sinal concomitante e revelador dessa degenerescência, como sua queda duma primeira função e missão arcada no seu vero plano, num outro puramente material e humano.”
Dalila Pereira da Costa, A Nau e o Graal

Portugal foi grande apenas enquanto assumiu de forma plena e realizada a sua espiritualidade. Fomos grandes enquanto realizámos o Reino do Espírito Santo e o tornámos universal, levando- aos Açores e, mais além, até ao Brasil. O comercio, a ganância e o luxo levaram à decadência e esta à morte ritual de Portugal em Alcácer Quibir. O renascimento, patrocinado por esse Rei Encoberto que há de surgir do Vaso do Graal que é o Mar Oceano passará pela recusa ao luxo e à ganância como formas de vida e pelo regresso a um estilo de vida regrado e contido, mas generoso e sonhador que caraterizava o “reino de ouro” de Dom Dinis e dos alvores da Gesta dos Descobrimentos. Austero e moderado, mas ambicioso e universal, esse será o Portugal dos tempos futuros que hoje já é possível antever por entre as brumas da grave crise social, financeira e de mentalidades que hoje atravessamos.

Texto publicado na Revista Nova Águia

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“Portugal, incluído no planeta, poderá ser melhor daqui a cem anos se…”

“Consideramos assim que Portugal, incluído no planeta,  poderá ser melhor daqui a cem anos,  se a humanidade abominar, desde já, tudo o que impede os homens de uma convivência pacífica e unificadora. Referimo-nos aqui, essencialmente, a três aspetos a repelir: o racismo,  que hierarquiza etnias, quando é reconhecida – desde os descobrimentos portugueses – a variedade de raças na uniformidade do género humano; os nacionalismos totalitaristas, que descura,  o primado do individual e submete,  o homem à massa coletiva; os fanatismos ideológicos (positivos e/ou religiosos) que impedem a tolerância, ao exigir, ao outro o seu modelo de “verdade”.”

Nos Cem Anos da Renascença Portuguesa
Maria Luísa de Castro Soares
Revista Nova Águia, 8

A grande força moral da forma portuguesa de estar no mundo sempre foi aquilo a que Agostinho da Silva designava como “vida conversável” e que servia a que os portugueses pelo mundo fora para estabelecerem pontes e feitorias preferindo sempre usar o comércio em vez do canhão (ainda que não o recusando). Portugal foi assim um país de pontes, que no Oriente só conseguiu manter a sua presença devido a uma cumplicidade participativa com as populações locais e recorrendo ao catolicismo como um apoio decisivo para opor a inimigos muito mais fortes e bem equipados uma presença que se prolongou bem dentro do século XX.

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Maria Dovigo: “Não é por acaso que o escudo da Galiza é o Graal, com toda a sua carga de busca e desejo tão bem relatada nos romances arturicos, vertidos à nossa língua no medievo. Porque a Galiza que desejamos não existiu: é uma procura sem descanso, é filha do desejo, é ao mesmo tempo utopia e ucronia”

“Não é por acaso que o escudo da Galiza é o Graal, com toda a sua carga de busca e desejo tão bem relatada nos romances arturicos, vertidos à nossa língua no medievo. Porque a Galiza que desejamos não existiu: é uma procura sem descanso, é filha do desejo, é ao mesmo tempo utopia e ucronia.”
Maria Dovigo
De Utopias e Ucronias: a Demanda da Galiza e a Profecia do Homem Livre
Nova Águia, número oito

Esta “galiza sonhada”, utópica e imaterial talvez nunca tenha existido… mas existe aquela nação não-Estado que na costa ocidental da Península Ibérica une portugueses e galegos numa comunhão linguística e cultural que nao tem par na Península e que – desde que Madrid não continue no seu criminoso genocídio cultural – ainda há de produzir uma só entidade política e nacional.

Acreditamos que a re-união entre a Galiza e Portugal será concretizada, mais cedo ou mais tarde, assim o queiram os povos de ambas as bandas do rio Minho e o espanholismo de Madrid não logre destruir a identidade nacional galega.

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Pedro Cipriano: “A sociedade atual é modelada pelo medo”

A sociedade atual é modelada pelo medo: medo da fome, medo do desemprego, medo da pobreza, medo do terrorismo, medo da guerra, medo das alterações clima, medo de epidemias e medo de estranhos. Medos de inimigos visíveis e invisíveis, alguns reais e outros criado e impingidos à nossa sociedade. Sob o medo da fome, milhares são obrigados a emigrar, deixando para trás o seu país e, por vezes, a sua cultura, em nome da abundância e prosperidade que nem sempre correspondem à realidade. Sob o medo do desemprego, as pessoas são levadas a aceitar empregos degradantes, tanto para a mente como para o corpo, tornando-se quase escravos dessa parca fonte de rendimentos, que poderá cessar quando já não servir os interesses dos patrões.”

Pedro Cipriano
Nova Águia, número oito

Nas justas palavras de Pedro Cipriano, depois da Idade da Pedra, da Idade do Bronze, do Ferro e do Aço, vivemos hoje numa autêntica “Idade do Medo”. O termo pode parecer exagerado, mas de facto nunca houve tantos direitos e garantias formais e nunca estes foram tão falhos de aplicação. Teoricamente, vivemos num Estado de Direito, na prática, viemos condicionados de múltiplas maneiras e os poderosos possuem hoje à sua disposição de um leque cada vez mais abrangente de ferramentas para imporem a sua vontade sobre os mais fracos.

Os dois principais mecanismos que deviam assegurar a democracia contra os tiranos (económicos ou políticos) estão sequestrados: a Justiça é livremente manipulada pelos ricos que abusam do recursos e das prescrições para a subverterem e a Democracia Parlamentar que está limitada pelo monopólio da partidocracia,  da bovinização popular induzida pelos Media (reféns do poder económico) e por valores absolutamente notáveis de abstencionismo crónico.

O Medo manda. Os poderosos aplicam-no em doses cuidadosamente calculadas por forma a manterem uma ilusão de legalidade e democracia e os pobres aceitam-no sem protestarem enquanto se deixam entreter (pão e circo) por doses massivas de Bola e “diversão” de massas,  docilizante e acefalizante.  Condicionado pelo Medo, o Povo vegeta e, com ele,  todo um país que se deixa assim resvalar para um regime cada vez mais autocrático e sujeito aos grandes especuladores e “empresários” não-produtivos.

Portugal é hoje o País de múltiplos medos e,  sabendo-se que teremos durante pelo menos dez anos,  taxas de desemprego superiores a 12% então estão criadas todas as condições para que esta situação seja cada vez mais intensa e severamente penalizadora da própria energia anímica do país para o conseguir fazer erguer da situação quase terminal em que hoje se encontra.

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António Telmo e o “O Horóscopo de Portugal” de Fernando Pessoa

António Telmo (http://www.oribatejo.pt)

António Telmo (http://www.oribatejo.pt)

“Em 1997 António Telmo publicou O Horóscopo de Portugal para completar a História Secreta de Portugal editada vinte anos antes. (…) entre 1980, (esse horóscopo elaborado por Fernando Pessoa) e 1990, quando o sol transitava do signo da Balança para o de Escorpião se daria uma mutação importante.  Ora, Portugal aderiu à CEE precisamente em 1985!”
(…)
“Ao terceiro Portugal no qual hoje passamos em escuridão e noite, se seguirá o quarto Portugal de que fala Pessoa e ainda um quinto, depois, ambos no alvor prévio ao hemiciclo diurno. Pelas contas que fizemos o quarto Portugal iniciar-se-á em 2008 e correspondera à morte histórica (…) o quinto Portugal trespassara o seu início em 2130.
(…)
“No Horóscopo de Portugal (de Pessoa) há uma frase que muito inquieta a alma e aguça a intuição: “assim no signo oposto ao do Touro que é o Escorpião, o socialismo judaico-cristão, quando estiver realizada na prática a ideia de ser genérico, desembocara numa forma de terror, cuja natureza não saberemos  ainda imaginar.” (António Telmo)

A Crise e o Engenho
Carlos Aurélio
Nova Águia, número oito

Obviamente,  dada a nossa formação científica, não acreditamos na astrologia… mas essa não é aqui a questão: Fernando Pessoa acreditava numa intuição que era sua e que lhe dizia que Portugal iria atravessar nas próximas décadas por uma sucessão de fases refundacionais, que o recentrariam em torno de si mesmo após o confronto com contradições internas que levariam a um momento de Crise,  seguido pouco depois, de Solução, consubstanciada num “quarto Portugal” (o Portugal endividado, improdutivo e desalmado da integração europeia) a que se seguiria um Quinto, o verdadeiro Portugal, oculto pelas cangas da repressão do ultra-catolicismo, da Inquisição, do Índex e da Censura.

Pessoa e Telmo anteviam nas brumas incertas mas seguras da profecia um outro Portugal que cumprisse a potência presente na sua alma coletiva e que na época do Infante se esteve prestes a realizar, algo que não se alcançou fruto da mercantilização da sociedade,  do centralismo cesarista e de um bloqueio à inovação e à criatividade induzido pelo catolicismo radical introduzido em Portugal a partir de Dom João III.

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Portugal: Onde estaremos daqui a cem anos?

Perante um clima de aparente decomposição da União Europeia e do projeto de construção europeia que serviu de pilar mono-temático para Portugal nos últimos trinta anos, há que colocar a questão: há alternativas ao processo de integração europeia?

Há sempre alternativas a qualquer curso estratégico já que na diplomacia e nos desígnios estratégicos de uma Nação há sempre vias laterais e outras opções. Perante a presente crise também as há. Aliás, a presente crise (aparentemente fatal e terminal) pode oferecer a oportunidade que a modorra e placitude de um aparentemente bem sucedido processo de integração europeu impediam de surgir. Agora, desafiados perante uma crise que ameaça aquilo que se assumiu como pilar único da própria construção da democracia em Portugal: a Europa, Portugal tem condições para embarcar numa reflexão criadora sobre si próprio e o seu futuro.

Existe em Portugal um grave défice de reflexão sobre o estado do país e sobre os seus desígnios estratégicos. Essa carência de pensamento estratégico ressurgiu na época do Salazarismo, regime paternalista que reservava a uns quantos “iluminados” o exclusivo e monopólio do pensamento enquanto o resto da sociedade seguia bovinamente o pensamento do “líder”, mas radica de forma mais profunda e indelével nas perseguições da Inquisição. A carência de reflexão estratégica foi depois mascarada pela importação de modelos civilizacionais alheios (o comunismo, a social-democracia e a democracia cristã) depois da revolução de 1975. Mais tarde, a “fuga em frente” da adesão europeia, oferecida como ultima saída para um país cronicamente falido e várias vezes intervencionado pelo FMI dispensou as elites inteletuais nacionais da tarefa de produzirem pensamento estratégico original e criativo. O clima do “pensamento único” era então aparentemente claro e não tolerava derivações: a solução para todos os males portugueses era uma só: Europa e mais Europa.

Agora, contudo, chegou o momento de refletir. E de refletir urgentemente, sem desprezar a busca de ações e medidas concretas de curto prazo. E nessa reflexão sobre a via estratégica que Portugal deve agora seguir a CPLP, a Comunidade Lusófona e a Lusofonia têm que assumir um papel central.

O que Portugal for daqui a cem anos, depende daquilo que hoje botarmos à terra, fertilizado pela presente deriva europeia e por uma crise que aparenta no curto prazo ser impossível de vencer. Os caminhos não se traçam de um momento para o outro, perante o imediatismo das crises, mas a prazo e a distâncias tão longas como a de uma centena de anos. O que escolhermos fazer hoje, coletivamente e enquanto indivíduos vai determinar esse Portugal do futuro.

As escolhas de hoje, que têm que ser o produto de pensamento próprio, original e autónomo e não o resultado de qualquer importação conceptual ou de qualquer futuro “chave na mão” são assim determinantes não somente para a saída de Portugal da mais grave crise financeira dos últimos cem anos, mas também para definir o que será Portugal daqui a cem anos.

O que será Portugal daqui a cem anos terá que ser algo substancialmente diverso que somos hoje. O exaurir da dita “opção europeia”, oferecida como “via única” para o desenvolvimento dita uma de duas saídas: a autonomia ou a integração num novo eixo de alianças. Portugal é – em linguagem geopolítica – uma potencia média, logo, uma potencia incapaz de exercer a sua influência regional ou global fora de um circuito internacional de dependências cruzadas e alianças. O despertar do fátuo e insustentável sonho de riqueza europeia, alimentado pela injeção de fundos europeus e pelo crédito barato vai fazer-nos acordar num contexto de maior contenção e racionalidade de consumos e num padrão de vida mais adequado à nossa real capacidade produtiva. Nesse sentido, qualquer destino futuro do país terá sempre que passar por um grau reforçado de autonomia e independência económica, financeira e política que o atual e, naturalmente, por uma redução sensível dos padrões de consumo. Com efeito, décadas de transferência de soberania para um centro europeu ademocrático e livre do escrutínio eleitoral produziram muito pouco além de uma sociedade economicamente insustentável e dependente. O que formos nas próximas décadas dependerá sempre daquilo que formos capazes de produzir e do grau de independência económica que lograrmos conquistar.

Urge começar uma autêntica revolução de desconsumo. Não há dúvidas de que o atual processo de austeridade imposto pela “Troika” não resolverá o essencial do nosso problema da dívida e que em 2013 estaremos praticamente na mesma situação em que nos encontrávamos em 2010: com uma gigantesca dívida externa e com um crescimento económico anémico que não a permite pagar. Se nada fizermos, a situação em 2111 será basicamente a mesma: uma dívida externa colossal e um serviço da dívida asfixiante. A saída só pode assim passar pela recusa do pagamento da mesma e da devolução aos credores daquilo que eles querem que nós assumamos: o risco de conceder empréstimos. Não duvidemos: o Portugal daqui a cem anos, não pode ser um Portugal esmagado por uma dívida externa colossal, não a podendo pagar, pela nossa pobreza endémica em recursos e pela nossa demografia negativa, só nos resta assim exercer a derradeira liberdade de todos os devedores: declarar a bancarrota e recusar aos banqueiros espanhóis e alemães o continuado saque que querem exercer sobre nós nas próximas décadas. O Portugal de 2111 será um Portugal falido, decerto, mas livre para crescer à custa das suas próprias capacidades e sobre a sua própria potencia produtiva.

Reencontrado o Portugal que consegue viver na direta proporção dos seus reais rendimentos e capacidades, recuperados os alicerces sólidos de um desenvolvimento duradouro e sustentável baseado na soberania alimentar, na autonomia industrial e tecnológica, Portugal, recredibilizado, remoralizado e restaurado depois de décadas de protetorado castrador e moralmente depressivo pode abalançar-se em voos mais altos, olhar mais além, para a outra banda do Mar Oceano e buscar um novo espaço de crescimento e desenvolvimento entre os países da Lusofonia. Acreditamos que esta reaproximação lusófona vai ter lugar ainda antes de 2111 e os primeiros sinais adivinham-se já com a multiplicação dos laços migratórios para os países da lusofonia, com a intensificação do comércio inter-lusófono e com a crescente presença do termo “lusofonia” no discurso mediático, cultural e jornalístico.

Daqui a cem anos, Portugal terá já reencontrado um padrão de consumo mais adequado à sua real riqueza, redescoberto o seu Mar e regressado à agricultura, recusado o pagamento de uma dívida impagável e recentrando os seus desígnios estratégicos sobre o Mar e a Lusofonia, promovendo a evolução dessa instituição bloqueada, burocratizada e artrítica que é hoje a CPLP até à verdadeira Comunidade ou União Lusófona que é hoje um dos principais objetivos do MIL: Movimento Internacional Lusófono. Portugal será assim daqui a cem anos, mais Portugal, mais independente, soberano e livre para se abalançar ao seu grande desígnio estratégico que é o do aprofundamento dos laços com os países lusófonos e a fundação dessa União Lusófona antecipada por António Vieira, Fernando Pessoa, Agostinho da Silva.

Publicado na Revista Nova Águia, nº 9

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Portugal é a Grécia do Futuro e a Grécia o Portugal do Passado

“Fernando Pessoa deixou escrito que não é por acaso que Atenas e Lisboa se encontram quase na mesma latitude. Quem somos deslocou-se de oriente para ocidente pela fenda do Mar Mediterrâneo. Nós somos os que só pararam quando chegaram ao fim da terra (finisterra). E somos nós quem parte para o Atlântico – o mar a sério, como diz Platão no Crítias.”
A Língua Portuguesa e o Destino de Portugal
Manuel Ferreira Patrício
Nova Águia, número 8

Portugal é a Grécia do Futuro e a Grécia o Portugal do Passado. As duas Nações são – à escala europeia – dois pequenos países europeus situados respetivamente no extremo oriental e no extremo ocidental. São os dois extremos do pêndulo da civilização europeia que o centro e norte da europa desprezam, mas que sem saberem seguem…

Portugal mostra assim, nas palavras pessoanas, à Europa a via do Futuro: o Ocidente e a via para onde seguir: o Atlântico, eixo de passagem e ponte para a América do Sul e para África, continentes onde se encontra efetivamente o futuro da Europa, não numa China cada vez mais ditatorial, imoral e repressiva nem num Médio Oriente cada vez mais radicalizado.

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Plataforma de Convergência Lusófona


“Uma convergência assente em três princípios estratégicos:
– o principio do reforço da Cidadania: até porque têm sido vitimas da asfixia dos grandes partidos, estes pequenos partidos não podem senão promover esse reforço, o que inclui, entre muitas outras coisas, a defesa das instâncias intermédios do Estado (Municípios e Regiões).”

O monopólio do sistema político pelos partidos não tem – manifestamente – funcionado. Décadas de “rotativismo democrático” produziram pouco mais que o Estado infetado por boys e boyas do bi-partido PS-PSD. A renovação do quadro partidário parlamentar que se observou e observa naturalmente nos outros países europeus nunca ocorreu em Portugal (o BE é a exceção, mas limitada pela existência anterior da UDP) tamanho é o controlo mediático dos grandes partidos e a atávica aversão à mudança dos portugueses. Este quadro artrítico tem que mudar. Tem que haver uma renovação parlamentar e esta – no quadro legal atual – tem que passar pelos ditos “pequenos” partidos.

“- o principio da Convergência Lusófona: cada vez mais pertinente, agora que, como também se tornou evidente para todos, o projeto da “União Europeia”, em que Portugal apostou tudo nestes últimos trinta anos, se encontra em manifesta implosão. Não que o reforço dos laços com os restantes países lusófonos – desde logo, com o Brasil – seja a panaceia para os nossos males.”

Os indicadores económicos, e nestes, o crescimento do PIB mostram de forma cabal e absolutamente insofismável que a integração europeia e, sobretudo, a adesão ao Euro, corresponderam ao período nas décadas recentes de menor crescimento económico. A Europa derramou sobre Portugal dinheiro sem destino ou efeito certo em troca do fim do nosso setor produtivo. Hoje, e desfeito a ilusão de riqueza induzida pelo crédito barato massivo, estamos bem pior que em 1986.

“Arrisco adivinhar que, à luz destes três princípios, mais do que suficientes para compor um programa político consistente e inovador, alguns dos ditos pequenos partidos, mais alguns movimentos que se quisessem juntar, poderiam estabelecer uma Plataforma, a dita “Plataforma Cidadania, Ecologia e Lusofonia”, que seria mais do que suficiente para garantir representação parlamentar.”

Com uma tal Plataforma, alguns pequenos partidos, arredados desde sempre de qualquer possibilidade de representação parlamentar poderiam nesta plataforma obter a tal presença. A democracia – cristalizada – poderia renovar-se através da chegada de novos elementos, de novas propostas e de novos partidos ao principal palco da nossa democracia. Com essa presença, os partidos do bi-partido PS-PSD seria estimulados a regenerar-se (pela via da competição democrática) e novos partidos convidados a surgirem. A democracia renovar-se-ia e o monopólio dos Interesses que hoje rege a República seria ameaçado.

Fonte:
Para a constituição da Plataforma Cidadania, Ecologia e Lusofonia
Renato Epifânio
Finis Mundi, número 3

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Manuel Ferreira Patricio: “Os Estados são vários; a Pátria é uma. O Poeta ensinou-nos bem, não aprendamos mal: “Minha pátria é a língua portuguesa”

“Connosco para todo o lado viajou sempre a língua portuguesa. Andámos pelo Planeta a semear a língua portuguesa. Ela vive hoje, palpitante, em vastos e diversos espaços do Planeta. É grande e multímoda a assembleia de povos que a falam, que nela sentem, amam, pensam, agem e rezam. A nau da iniciação, a nave em que ela viaja, é por ora uma frágil casca de noz. Mas vai crescer transfiguradamente. Tem nome: chama-se Comunidade dos Países de Língua Portuguesa – CPLP. Não confundamos Estado com Pátria. Os Estados são vários; a Pátria é uma. O Poeta ensinou-nos bem, não aprendamos mal: “Minha pátria é a língua portuguesa”.

A Língua Portuguesa e o Destino de Portugal
Manuel Ferreira Patricio
Revista Nova Águia, número 8

A grande riqueza de Portugal é – ao contrario do petróleo saudita ou do ouro sulafricano – perene. É a língua. Seremos tanto mais grandes quando mais for a utilização da língua portuguesa, quanto mais se alavancar o maior pais de língua portuguesa (o Brasil) a um merecido estatuto de potencia internacional e tanto quanto mais conseguirmos defender a sua unidade.

Portugal tem na sua pátria moral, ética, cultural e civilizacional o esteio suficientemente forte para inaugurar uma união politica de novo tipo. Aprofundando a embrionária e muito insuficiente, CPLP e estendendo-a no rumo sonhado por Aparecido de Oliveira e Agostinho da Silva, Portugal pode – conjuntamente com Angola e Brasil – recriar um tripé estratégico que transmute a CPLP numa União Lusófona. Uma entidade multinacional de novo tipo, rigorosamente paritária, democrática e respeitadora dos direitos humanos, multi-continental e reguladora de conflitos e tensões onde quer que eles surjam.

Este era o sonho de Fernando Pessoa, que cabe agora a esta geração – imersa nesta imensa crise – concretizar.

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“Para Pessoa, o Quinto Império, que surgiria após as quatro idades – Grécia, Roma, Cristandade, Europa – é um império de fraternidade e de paz universais”

“Para Pessoa, o Quinto Império, que surgiria após as quatro idades – Grécia, Roma, Cristandade, Europa – é um império de fraternidade e de paz universais, de acordo com o ideal de paz universal adotado pelos rosacrucianos, depois de percorridas as etapas de um percurso iniciático em que o seu humano redescobriria a sua essência perdida, o que significa o reconhecimento do seu elemento divino. Finda a iniciação que conduz à redenção, o ser humano estaria preparado para viver num espaço que se situa fora das fronteiras portuguesas, um espaço universal.”

> Pessoa via assim o Quinto Império como um fenómeno interior e pessoal. A revolução ou o estabelecimento do Quinto Império seriam acontecimentos interiores, a decorrer no interior do indivíduo quando as devidas condições se encontrassem em cruzamento no seu interior e não no mundo exterior pela aparição miraculosa de um qualquer “rei encoberto” ou da expansão militar ou política de um império continental, marítimo ou global. O Quinto Império brotaria na mente dos portugueses, o Encoberto seria materializado dentro de cada lusófono, alavancando assim a transição para um novo estádio de consciência na forma portuguesa de “estar no mundo” e que teria sido levada até ao seu apogeu pelo Brasil e pela “vida conversável” das sociedades africanas de fala portuguesa.

“A Super-Nação, imagem especular do Éden Primordial, situa-se para além das fronteiras definidas pelos homens e é alcançada através da pulsão humana que encaminha o homem em direção à sua natureza essencial. A criação de uma visão mítica da nossa História transforma o presente num agente criador do futuro da História transforma o presente num agente criador do futuro da História da Humanidade, pois o Quinto Império, que seria vivido na terra, significa a união fraterna entre todos os povos, após o renascimento humano numa outra era”.

> Não pode assim haver Quinto Império pelas armas, nem pela pura e simples via da constituição de alianças militares ou políticas, nem sequer pela direta transmutação da CPLP numa União Lusófona, à imagem e semelhança da União Europeia (e que estaria fadada ao mesmo estéril destino desta, a prazo).
> Antes de reformar as instituições, os Estados e a forma como eles se organizam e distribuem, importa trabalhar no interior do indivíduo: procurando os mecanismos de satisfação e realização pessoal, capacitando os cidadãos para o pleno e empenhado exercício dos seus direitos e deveres de cidadania e induzindo uma revolução interior que depois – pela virtude inexcedível do Exemplo – possa depois propagar-se a toda a comunidade onde este está inserido e depois, a toda a comunidade lusófona que por temperamento, laços culturais e língua lhe estão umbilicarmente ligados.

Gabriela Lança
Revista Nova Águia, número 7

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“Para Fernando Pessoa, o Quinto Império é um império de fraternidade e de paz universais”

“Para Fernando Pessoa, o Quinto Império, que surgiria após as quatro idades – Grécia, Roma, Cristandade, Europa – é um império de fraternidade e de paz universais, de acordo com o ideal de paz universal adoptado pelos rosacrucianos, depois de percorridas as etapas de um percurso iniciático em que o ser humano redescobriria a sua essência perdida, o que significa o reconhecimento do seu elemento divino. Finda a iniciação que conduz à redenção, o ser humano estaria preparado para viver num espaço que se situa fora das fronteiras portuguesas, um espaço universal. A Super-Nação, imagem especular do Éden Primordial, situa-se para além das fronteiras definidas pelos homens e é alcançada através da pulsão humana que encaminha o homem em direcção à sua natureza essencial.”(…)

Gabriela Lança
Revista Nova Águia
Número 7

O Quinto Império cumprir-se-á apenas quando tiver lugar no interior de um número suficiente de indivíduos dentro de uma determinada comunidade. Os povos de fala lusófona estão particularmente preparados para realizarem no seio das suas mentes essa transição para esta nova forma de Estar perante o mundo, para realizarem no seu interior a revolução interior que por meio de uma alquimia mental transformará radicalmente as nossas sociedades, transferindo para o seu (devido) aspecto secundário a Economia e a Finança e colocando de novo o Homem, a Cultura e a Língua nos lugares principais da ação e intervenção humana. As sociedades (e dentro delas, as economias) devem ser capazes de suprir todas as necessidades básicas dos seus cidadãos (Saúde, nutrição e habitação), mas devem focar-se na plena satisfação das potencialidades criativas do indivíduo, única forma pela qual a genialidade latente em cada cidadão se pode manifestar, havendo o devido (e exigido) contexto e sendo este devidamente capacitado pela Educação e por uma sociedade e economia adaptadas por forma a aproveitar em regime ótimo esse contributo individual, enquadrando-o num desígnio comunitário mais global e rentabilizando ao máximo o seu empenhamento na solução dos grandes problemas da atualidade: aquecimento global, ambiente, pobreza, aproximação dos povos lusófonos, descobertas de alternativas à afundante união europeia, energias alternativas, novas formas de cidadania e expressão democrática, etc.

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“O Património Lusófono enriquece o espólio cultural da Humanidade”

“A minha Pátria é a língua Portuguesa” tem uma grande atualidade cultural e cívica, porque o Património Lusófono enriquece o espólio cultural da Humanidade e permite o estreitamento de laços afetivos e institucionais entre os povos de língua portuguesa visando a cooperação humanitária e a ajuda mútua com vista ao desenvolvimento sustentável e ao bem comum.”

Nuno Sotto Mayor Ferrão
Nova Águia 7

A língua portuguesa é assim um vetor crucial de aproximação entre os povos e provavelmente o património mais rico de que Portugal dispõe hoje. Estima-se que perto de 10% do PIB português atual seja proveniente de produtos e serviços culturais e muito mais espaço de crescimento existe hoje se tivermos em conta a virtualização crescente das sociedades e as enormes potencialidades de incremento de comunicação de povos separados pela geografia mas próximos pela Cultura e pela Língua que caraterizam hoje a Lusofonia. Só pela via do cibermundo (Internet) se poderá cumprir a missão de aproximar por todas as vias e formas os povos de fala lusófona. Neste respeito existe uma ligação umbilical entre  Lusofonia e Cibermundo e ambos terão que caminhar lado a lado nesta nossa senda comum de aproximação mútua.

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“O Quinto Império é um projeto para Portugal, para os portugueses e dos portugueses para o mundo”

“O Quinto Império é um projeto para Portugal, para os portugueses e dos portugueses para o mundo. Foi idealizado pelo grande imperador da língua portuguesa, Padre António Vieira, traça as linhas para um mundo novo, uma nova idade, a idade do Espírito Santo”

> A visão de António Vieira para o Quinto Império era fundamentalmente diferente da de Fernando Pessoa ou Agostinho da Silva. A sua visão era muito mais política e missionária do que mental ou cultural, como sucedia com Agostinho e Pessoa.

“O sistema atual de educação em Portugal não foi feito para nem pelos portugueses, sendo uma cópia tirada de outros países da Europa. Uma das suas grandes falhas é a forte influência cartesiana, onde apenas existem respostas corretas e erradas. Eventualmente, este sistema pode funcionar de modo razoável em disciplinas de ciências naturais mas, quando se trata de literatura e Filosofia, esta aproximação não será certamente a mais correta.” (…) “Na verdade, nenhum aluno é livre de apresentar uma opinião própria sobre uma obra, mesmo que fundamentada. (…) Gradualmente, este método leva à castração da mente crítica”.

> o grande nó górdio do desenvolvimento cultural, social e económico português que falta ainda desatar é o da Educação. Embora Portugal tenha hoje uma população universitária considerável e tenha alguns dos melhores cursos e universidades do mundo a verdade é que os nossos alunos continuam a ter menos 3 ou 4 anos de escolaridade que os países mais desenvolvidos do mundo, que a produtividade (medida logo que entram no mercado laboral) é mais baixa que a média dos países da OCDE e que o nosso número de professores por aluno seja dos mais altos do mundo desenvolvido, a verdade é que o nosso desempenho escolar global é medíocre.
Portugal precisa de novos paradigmas.

Comentário a um artigo de Pedro Cipriano
Nova Águia 7

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Clara Ferreira Alves: “A faceta religiosa de Pessoa era detestável”

Clara Ferreira Alves (http://www.truca.pt)

Clara Ferreira Alves (www.truca.pt)

“Em época menos recuada, concedeu Clara Ferreira Alves, na qualidade de diretora da Casa Fernando Pessoa, uma entrevista a um jornal diário, na qual declarava que não lhe interessava nada o “lado religioso” de Fernando Pessoa, faceta que a senhora, de resto, considerava “detestável”.
Pedro Martins
Nova Águia 7

Ignorar ou – pior – desprezar o lado religioso ou para-religioso do pensamento pessoano é escolher ignorar a parcela mais importante do pensamento político e filosófico de Fernando Pessoa.

A latitude religiosa e mental do pensamento e da ação humana é essencial para a realização do indivíduo e desprezá-la (como fez Clara Ferreira Alves) é procurar tornar a Pessoa numa máquina biológica, destituída de mais propósitos além dos reprodutivos e alimentares. E o Homem é imensamente mais do que isso… o aspeto religioso do Homem é determinante nas decisões pessoais e comunitárias desde sempre e condicionou e condicionará sempre as grandes decisões. Na Expansão portuguesa, essa pulsão foi determinante (por muito que António Sérgio não acreditasse nela) e ainda que o mundo contemporâneo possa parecer a-religioso ou mesmo anti-religioso não o é de facto, sob a superfície… os valores fundamentais da sociedade seguem sendo de base judaico-cristã, assim como as motivações finais, pessoais e coletivas e o Lucro não é o “deus” último e acabado que se pensou ser, havendo sinais claros que o paradigma económico está a começar a dar sinais de mudança: empresas cooperativas, índices de felicidade, aquecimento global, preocupações ecológicas e de sustentação ambiental começam a penetrar grande parte das atividades humanas e poderão ser dominantes no mundo económico e social que se seguirá a esta grave crise atual…

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Pedro Cipriano: “A República até agora foi apenas uma experiência que correu mal”

“A República até agora foi apenas uma experiência que correu mal. Continua a haver classes, o Portugal sonhado não existe e o poder ainda não é do povo.”
Pedro Cipriano
Revista Nova Águia
Número 6

Mas deve ser… A República nada é enquanto não for de todos e não apenas dos “donos da democracia” que desde a Primeira República dela se apossaram, captando para si o essencial da riqueza (e tornando no processo, Portugal num dos países mais desiguais da Europa) e excluindo do poder democrático a esmagadora maioria dos cidadãos e levando esta sociedade a uma sociedade de escravos deprimidos e condicionados a sentirem a escravidão e o abstencionismo crónico como estados naturais.

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Sam Cyrous: Crítica à Partidocracia

“(…) humanidade globalmente insatisfeita com os conflitos entre os partidos, farta de consumir notícias de uma corrupção global e endémica, manifestando desalento na classe política ao mesmo tempo que contribui para elevados níveis de abstenção, e que anseia por aquilo que é diferente e fora dos lobbies estabelecidos.”
Sam Cyrous
Revista Nova Águia
Número 6

Os políticos profissionais gostam de acusar os cidadãos pelo seu desinteresse pela Res Publica, quando aludem aos elevados níveis de abstenção. Mas a razão suprema deste desinteresse dos cidadãos pela gestão da “coisa pública” não reside nos próprios cidadãos… assenta no profundo divórcio atualmente existente entre eleitos e eleitores.

Este abismo entre políticos profissionais e cidadãos eleitores tem-se agravado nas últimas décadas, com a solidificação de castas familiares muito exclusivas de onde provêm a maioria dos políticos e com camadas crescentes da população que não têm forma de intervir na política ativa… o Sistema fecha-se e torna-se impermeável, bloqueando o acesso a todos os que nele não vivem já, e o espaço de cidadania recua a olhos vivos, cobrando depois este preço do abstencionismo crónico nas sociedades modernas. Há que sanar este divórcio entre eleitos e eleitores… renovando a democracia e – no processo – suprimindo com esses “intermediários” que são os partidos políticos.

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Antero de Quental: “Portugal expia, com a amargura deste momento de humilhação e ansiedade, 40 anos de egoísmo, de imprevidência e de relaxamento dos costumes políticos”

Antero de Quental (http://www.iscsp.utl.pt)

Antero de Quental (http://www.iscsp.utl.pt)

“Portugal expia, com a amargura deste momento de humilhação e ansiedade, 40 anos de egoísmo, de imprevidência e de relaxamento dos costumes políticos – 40 anos de paz profunda, que uma sorte raríssima nos concedeu e que só soubemos malbaratar na intriga, na vaidade, no gozo material, em vez de as aproveitarmos no trabalho, na reforma das instituições e no progresso das ideias.”
Antero de Quental em 1890
citado em Revista Nova Águia
Número 6

Quando leio estes textos sobre a situação do país há cem anos atrás, seja antes, seja depois, da implantação da República, fico sempre com uma certa sensação de “Deja Vu”… É como se nada de realmente substancial tivesse mudado no nosso país durante todo este tempo e após não uma, mas três “repúblicas” sucessivas… ao ingovernismo e instabilidade crónicas da Primeira República, seguiu-se a estagnação e o tacanhismo bacoco do Salazarismo e, agora, sob a regência da Terceira, temos o Clientelismo, a Corrupção e o Sacrossanto Rotativismo.

Porque nas mudou – no essencial – o nosso Portugal depois desta experiência secular de republicanismo? Porque os seus agentes da mudança – no essencial – não mudaram… vejam-se os nomes de família dos primeiros republicanos e, até, dos seus opositores monárquicos. Na imensa maioria, as famílias que eram influentes no tempo de Antero de Quental, continuam hoje a serem influentes na Política, na Economia e nas Finanças. São os mesmos. Os mesmos baronetes medíocres da monarquia, os mesmos deputados republicanos, os mesmos intelectuais, os mesmos, em suma.

Um país é aquilo que são as suas elites. Quando estas são incompetentes, incultas, egoístas e desprovidas de qualquer sentido de Bem Comum, de Serviço Comunitário ou de Cidadania, temos um país desigual, injusto e com uma democracia formal e de baixa qualidade. O que somos – enquanto país – é que a nossa elite é.

Este ciclo vicioso pode ser centenário, mas não é eterno… pode ser quebrado, quebrando a influencia ditatorial e exclusivista que esta elite (que no Parlamento assume a forma de Partidocracia) detém sobre a sociedade portuguesa. Apesar do domínio quase total dos meios de comunicação, é possível expulsar esta corja do seu altaneiro poleiro… pela derradeira via que resta aos povos para a renovar: a eleitoral. Assim haja sabedoria, ensejo e capacidade para o fazer, numa sociedade de escravos longamente condicionados para o serem e onde as oportunidades para furar o sistema são particularmente raras.

Antevi em fevereiro de 2010 uma dessas raras janelas de oportunidade na candidatura presidencial do Dr. Fernando Nobre: um Homem verdadeiramente exterior a esta corja que sequestrou a República, sempre disponível para cumprir os maiores sacrifícios e competente, culto e inteligente, como o são muito poucos partidocratas (dulcificados por décadas de segurança e confortos nababianos). A eleição de janeiro de 2011 é assim uma das daquelas raras janelas de oportunidade em que pela via eleitoral algo pode ser efetivamente mudado… assim o saibamos fazer. E o queiramos… o que é duvidoso.

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Pedro Cipriano: “A indústria controla a cultura”

“A indústria controla a cultura, e isso é a causa da maioria dos problemas, já que a industria não se preocupa com os valores culturais, apenas com o lucro.”
Pedro Cipriano
Revista Nova Águia
Número 6

Por essa razão, defendemos que o Hiperconsumismo capitalista atual deve ser substituído por uma Economia Local, capaz de gerar localmente e de repartir localmente o essencial das necessidades locais e uma Economia Cultural, onde a produção de Bens e Serviços culturais assume a parte de leão não só das atividades económicas como também – e principalmente – da realização do indivíduo.

A Cultura não pode ser encarada como uma Indústria, esperando-se dela que seja “rentável” ou “auto-suficiente”. Ambicionar um ou outro objetivo implica que ambicionamos a ter uma cultura circense (“pão e circo”) feita apenas como forma de condicionamento das massas para a docilidade e boçalidade e não como meio de estas se individualizarem e se realizarem. A Cultura não é – não deve ser – um instrumento de controlo do Estado. A Cultura deve ser a forma essencial e universal de realização plena e global das imensas potencialidades criativas e produtivas do Homem, de expulsar este consumismo patológico que hoje nos domina e que – voraz – ameaça o futuro do próprio globo.

Façamos a nossa Revolução Cultural, revolvendo também os nossos padrões éticos e sociais em novos caldos de sustentabilidade, respeito pelo Outro e pela Diferença, desprezando sempre o Egoísmo, o Imperialismo Cultural ou Económico e reencontrando no Homem aquilo que o Capitalismo Global (neoliberal e financista) julgou ser menor: a capacidade de cada um de nós ser realmente… Humano.

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António Braz Teixeira: o estado da República

Revista Nova Águia

Revista Nova Águia

“O nosso sistema de ensino, apostado em manter a juventude portuguesa num estado de dócil passividade intelectual e de criminosa ignorância da nossa história, da nossa cultura e do nosso pensamento.”

» a principal característica do nosso sistema de ensino não é a sua focagem na formação e no desenvolvimento de cidadãos livres, responsáveis, civicamente ativos e criadores, mas sim a consolidação do poder piramidal que ocupou monoliticamente o poder, excluindo dele todos aqueles que não fazem parte de uma reduzida elite oriunda de perto de 400 famílias e que quer que todo o resto da sociedade não passe de um bando de carneiros ou dóceis escravos.

“Expressões deste estado de coisas são, entre outros:
“- (…) a extinção das auditorias jurídicas dos diversos ministérios e departamentos do Estado e o actual recurso a sociedades de advogados, para lhes prestar assessoria jurídica, preparar projectos de diplomar legais ou, até, para instaurar processos disciplinares”

» A maior parte destas sociedades de advogados tem políticos no ativo, no inativo ou serve de futuro empregados aos mesmos deputados e governantes que contratam estes luxuosos escritórios de advogados de cabo platinado e fatos italianos em jeito de armadura. Sem dúvida que uma forma de reduzir os custos de funcionamento do Estado, hoje e de forma radical, seria dispensar todos estes assessores externos (de advocacia mas também de engenharia) e reforçar os serviços internos dos próprios ministérios. É claro que isso não daria tanto dinheiro a estes poderosos escritórios de advogados e no fim de contas é apenas isso que conta a estes partidocratas.

“- (…) a existência de empresas privadas de segurança, a que o próprio Estado recorre, para desempenhar funções que, por definição cabem ao mesmo Estado”

» a aparição de empresas com poderes pseudopoliciais, como a EMEL (em Lisboa), a sugestão de que a Brisa poderia cobrar multas, a multiplicação de empresas de segurança, enfim, em missões onde até à poucos anos apenas apareciam elementos das polícias refletem um Estado que ultrapassou a fase de pretender cumprir o sonho dos neoliberais e tornar-se numa Minarquia (“estado mínimo”) para caminhar a passadas muito largas num “Estado Raro” onde o Estado se retira das mais básicas funções de soberania e privatiza aquelas que podem gerar lucro.

“- a existência de um sindicato ou associação sindical de Juízes, como se os titulares de um órgão de soberania constituíssem uma vulgar classe de trabalhadores por conta de outrem”

» é incompreensível como é que se tolerou que juízes, os agentes do terceiro pilar da democracia se pudessem constituir como “sindicato” ou até como “corporação”. Por definição um “sindicato” assume a defesa dos interesses de um grupo profissional contra os da restante sociedade. Frequentemente em nome de Direitos que os poderosos lhe tentam furtar ou coarctar, mas esta premissa está ausente nestes casos dos “sindicatos do Juízes”… quem é o Poder (opressor ou não) contra quem se erguem estes sindicatos? O dos cidadãos? A República? O Direito?…

“- a substituição de serviços públicos por fundações, sujeitas ao regime de direito privado”

» é certo que, durante décadas e por necessidade, a Fundação Calouste Gulbenkian assumiu o verdadeiro papel de “Ministério da Cultura”. Na falta do Estado, as fundações privadas colmataram esse incompreensível recuo nos deveres estatais de promoção das Artes e da Cultura. Mas hoje, nas mais de 900 fundações em funcionamento em Portugal, há um largo número delas de reduzido interesse público, sem programa nem atividades públicos, que pouco mais fazem além de sorverem subsídios e pagarem chorudos ordenados a uns quantos administradores e funcionários…

“- o recurso à figura das chamadas parcerias público-privadas, para resolver problemas que melhor seriam enquadrados pelo regime de concessão”

» A História das tristemente famosas Parcerias-Público-Privadas ainda está por fazer… e alguns dos seus capítulos provavelmente nunca serão escritos, nomeadamente aqueles que se reportam ao “peixe” oferecido em troca de favores por parte de empresários menos escrupulosos. Mas algo é já certo: inventadas durante o Cavaquismo decadente, adotadas entusiasticamente no apogeu do Socretismo, as PPP estão aí, ameaçando os nossos filhos com contratos ruinosos ora muito mal negociados, ora corruptamente acertados. E as PPP estão ademais blindadas por faustosos escritórios de advogados de luxo contra qualquer negociação ou revisão dos termos. Em suma: os contratos são maus, prejudicando o Estado, favorecem injustamente Privados e… estão defendidos pelo sistema Judicial. Ad Aeternum.

“- a privatização, já efectuada ou anunciada, de empresas detentoras ou gestoras de bens domínio público (barragens, rede eléctrica nacional, água, aeroportos, etc)”

> Os setores mais estratégicos e alavancadores da Economia nas devem estar em mãos privadas. A lógica do Serviço Público deve prevalecer aqui sobre a lógica do Lucro em todas as entidades económicas que tenham missões estruturantes para as economias e sociedades. Privatizar Serviços Públicos ou funções tradicionais do Estado só pode corresponder a erodir profundamente a sua qualidade e amplitude, devendo portanto ser colocada fora de equação.

“A partidarização do Estado manifesta-se, desde logo, num sistema eleitoral que muito pouco corresponde ao modelo representativo, encontrando-se a escolha dos deputados totalmente refém das cúpulas partidárias – e daí a sua crescente e preocupante mediocridade e o seu verdadeiro estatuto de pessoal descartável ou fungível -, nenhum vínculo efectivo existindo entre os deputados e as populações que se diz representarem mas de que estas, na generalidade dos casos? nem o nome conhecem.”

> O grande obstáculo ao desenvolvimento da sociedade portuguesa é o baixo grau de participação cívica, social e política dos seus cidadãos. Estes baixos índices de civismo são um produto histórico (que recua ao paternalismo salazarista e à aversão pela Diferença induzida pela Inquisição) mas a cristalização dos mecanismos de progressão social que tornam a nossa sociedades numa das mais desiguais da Europa e a monopolização de todo o espaço público pela Partidocracia jogam aqui também um papel decisivo. Sem formas de expressão livres e fora do quadro político-partidário, sem a capacidade para se apresentarem listas independentes à Assembleia da República, a Cidadania em Portugal torna-se em algo de incompleto… Há vida política para além dos Partidos, ainda que estes não o desejem e embora essa seja uma das Causas do MIL, conforme ESTA petição.

Fonte:
António Braz Teixeira
O estado da República
Revista Nova Águia
Número 6

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Sam Cyrous: “A Cultura do Consumismo”

“A cultura do consumismo, não obstante, pretende reduzir seres humanos a homúnculos, competitivos e insaciáveis consumidores de bens, a objetos de manipulação pelo mercado querendo sempre mais, sem mesmo saber porquê!”
Sam Cyrous
Revista Nova Águia
Número 6

A encarnação atual desse demónio resiliente e eternamente (?) mutável chamado “Capitalismo” assume efetivamente hoje uma expressão muito assente no consumo massificado e sempre crescente. Segundo as métricas universalmente adotadas o crescimento da produção e do consumo são permanentes e a crise aparece desde logo, não quando o crescimento se torna em diminuição, mas apenas logo que este abranda!

A prazo o grande paradigma do Capitalismo atual tem em si mesmo o gérmen da sua própria destruição: a impossibilidade material e lógica de que algo possa crescer sem limite e eternamente. O Capitalismo – que exige recursos materiais e energia crescentes – não pode manter-se na sua forma atual durante muito mais tempo. Simplesmente não há “Terras” em número suficiente nem Energia para que persista neste ritmo durante muito mais tempo… Quando, enfim, essa contradição for demasiado evidente, então o Sistema irá colapsar em si mesmo, violentamente e em permeio de muita violência.

O momento do tremendo impulso que leva o Capitalismo é enorme, tamanha é a influência do Capitalismo em todas as atividades humanas atuais, desde a Cultura, à Segurança e Defesa até, sobretudo, à Política. Mas quando este enorme, omnipresente e (aparentemente) omnipotente Monstro cair no abismo da raridade de matérias-primas e energia, o eco da queda será tão grande quanto o é hoje a dimensão do Monstro… e se surgir na nossa geração todos o conheceremos de frente… a menos que consigamos transformar as nossas sociedades em economias sustentáveis, com baixos padrões de consumo, é para este abismo que caminhamos. Impedir este colapso violento é ainda algo que está ao nosso alcance. Ainda. Mas não durante muito mais tempo…

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A “Federação de Municípios” da Primeira República

Teófilo Braga (http://purl.pt)

Teófilo Braga (http://purl.pt)

“O Manifesto-Programa republicano de 1891, elaborado por Teófilo Braga e formalmente em vigor aquando da revolução republicana de 1910. nesse documento político, de forte sensibilidade organicista e federalista, enunciava-se, para o poder legislativo, uma dupla realidade política: os membros da Federação de Municípios legislavam nas Assembleias Provinciais sobre todos os actos respeitantes à segurança, economia e instrução provincial, dependendo nas relações mútuas da homologação da Assembleia Nacional; os membros da Federação de Províncias legislavam na Assembleia Nacional sobre os assuntos gerais e velavam pela autonomia e integridade da Nação.”
Ernesto Castro Leal
Revista Nova Águia
Número 6

Este modelo de organização do Estado, recuperado mais tarde no Programa do Partido Republicano Radical Português (1911-1913) coincide quase exatamente com as propostas do MIL para a reorganização do Estado e da Administração do território.

Desde logo, o programa dos republicanos defendia uma profunda descentralização, de base municipalista e “radical”, propondo a transformação do Estado centralista, adotado pela monarquia, numa “federação de municípios”. Os munícipes elegeriam os seus representantes concelhios, e estes depois seriam a fonte de toda a legislação concernente aos domínios respeitantes à segurança, economia e Educação. Todas as demais competências seriam do Estado central, mas como os seus representantes seriam indiretamente eleitos pelos representantes municipais, de facto, todo o Estado seriam (direta ou indiretamente) de base municipalista.

Infelizmente, a presença de resistências monárquicas e clericais no mundo rural, assim como as tendências centralistas de muitos republicanos e a existência de uma profunda clivagem social e formativa entre os meios urbanos e os rurais vieram a gorar estes planos republicanos para uma descentralização municipalista… e assim adiar o sonho que agora o MIL: Movimento Internacional Lusófono incluiu nas suas propostas da sua Declaração de Princípios e Objetivos.

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António José Borges: “Há uma evidente mediocridade nesta classe política”

“Há uma evidente mediocridade nesta classe política. As causas são, para além das já referidas,
primeiro: a privatização do Estado, em que a economia está acima da política, em que há uma cumplicidade perniciosa nas parcerias públicas e privadas (…)
Segundo, a partidarização do Estado, que vem fragilizar a administração pública”
António José Borges
Revista Nova Águia
Número 6

A cedência sistemática de atribuições clássicas do Estado levou aquilo a que Adriano Moreira já designou (precisamente num lançamento da Nova Águia) de “Estado Mínimo”: a entrega de hospitais, auto-estradas e outros bens públicos a privados em contratos ruinosos contribuiu para a parte de leão do atual desequilíbrio orçamental. Estas ligações entre Estado e Privados são condimentadas por favorecimentos diversos que ora ultrapassam ora beiram o limite da corrupção e que dependem em muitos de agentes que transitam de um mundo para o outro, mercenarizando o conceito de Serviço Público e troca de chorudos vencimentos.

Os agentes responsáveis por estas ruinosas “parcerias público privadas” são os políticos como Vara, Coelho ou Ferreira do Amaral (entre muitos outros) que mercê dos seus conhecimentos pessoais no Estado, tomado de assalto e apoderado imperialmente pelos “partidos de poder” se tornam em facilitadores-corruptores para o prejuízo da Res Publica e Lucro de turvos interesses privados que orbitam em torno da partidocracia contra cujo domínio protestamos AQUI.

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Manuel Abranches de Soveral: “Enveredámos como pacóvios no Carnaval do consumismo delirante e da dissolvência cultural”

“Enveredámos como pacóvios no Carnaval do consumismo delirante e da dissolvência cultural, globalizamo-nos alegremente, empanturrámos o litoral, desertificamos o interior, desordenamos por completo o território, demos cabo da Justiça e da Educação, estamos mais endividados do que nunca, a nossa juventude é em geral de uma ignorância pasmosa e já só a Língua, apesar dos constantes pontapés que lhe dão, nos sustém como um Povo culturalmente distinto no seio da Europa.”
Manuel Abranches de Soveral
Revista Nova Águia
número 6

Esta visão toca nos pontos essenciais da atual fase de decadência de Portugal:
Consumismo
Dissolução Cultural
Ermamento
Crise na Justiça
Crise na Educação
Endividamento

São estes os seis aspectos cruciais da presente fase de decadência de Portugal. É o insano Consumismo que tem dado aos portugueses uma malsana ilusão de riqueza material, que tem contribuído para a sua alienação social, cívica e política. É também este consumismo que está na base dos sucessivos desequilíbrios da balança comercial e tornou Portugal numa sociedade a gastar muito mais do que consome.

Portugal não vai conseguir alimentar esta espiral consumista e suicida durante muito mais tempo. Cedo ou tarde, os Especuladores irão cansar-se de financiar estes nossos crónicos défices comerciais e se o controlo deste processo for deixado unicamente nas suas mãos, este processo de ruptura, de fim desta nossa dependência nacional do crédito internacional será tão brutal como dolorosa.

Manda assim o Bom Senso (ausente nas mentes dos governantes da partidocracia) que travemos imediatamente esta espiral consumista, que imponhamos pesadas taxas de IVA a todos os tipos de artigos importados (queira a Europa ou não), que incentivemos por todas as formas a produção nacional e a consequente geração de Emprego, passando por cima do Euro – se necessário – e por cima das “Diretivas Europeias”. De permeio há que começar a forjar uma nova mentalidade… menos consumista e mais virada para a autor-realização pessoal do individuo pela satisfação das suas potencialidades criativas e de um (hoje diminuído) sentimento de pertença e partilha para com a comunidade onde este e a sua família se inserem.

A saída para esta destrutiva espiral consumista só pode assim passar pela satisfação das necessidades básicas (alimentação, higiene e saúde), de forma a que o seu humano possa substituir o estéril materialismo que tudo coisifica por uma atitude descobridora, pensadora e culturalmente produtiva que torne o homem num verdadeiro e pleno Ser Humano.

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Antero de Quental: “A verdadeira força é outra. não é com canhões que havemos de afirmar a nossa vitalidade nacional, mas com perseverantes esforços da inteligência e da vontade, com trabalho, estudo e rectidão”

Antero de Quental (http://afilosofia.no.sapo.pt)

Antero de Quental (http://afilosofia.no.sapo.pt)

“A verdadeira força é outra. não é com canhões que havemos de afirmar a nossa vitalidade nacional, mas com perseverantes esforços da inteligência e da vontade, com trabalho, estudo e rectidão. Nem a nossa dignidade está dependente de um couraçado, ou de dez ou vinte couraçados, mas só e exclusivamente da energia da nossa moral.”
Antero de Quental em 1890
citado em Revista Nova Águia
Número 6

E é precisamente essa a maior fraqueza do Portugal atual: uma profunda decadência moral que tudo corrói e que mina a estrutura de toda a sociedade. A governação pelo Exemplo, que é de facto a única possível e a única verdadeira e profundamente eficaz é, em Portugal, uma inexistência. Os políticos que alternadamente ocupam o Poder deixam passar uma imagem de incompetência, nepotismo, clientelismo e corrupção que expulsa dessa classe todas as pessoas de Bem que poderiam aspirar a carreiras políticas de sucesso e capaz de beneficiar a Comunidade.

Há que realizar uma verdadeira Revolução Moral na nossa sociedade. Expulsar da política todos aqueles que pelo seu (mau) exemplo tornam a Política e a Ação Cidadã algo de negativo e desprestigiante. E essa expulsão só pode ser feita pela via Judicial e Policial. Mas antes, aqueles que bloqueiam o curso da Justiça – na Política e nas Corporações Judiciais – têm que ser afastados. Por via democrática e pela expressa vontade dos cidadãos.

Se hoje existe uma profunda crise moral em Portugal é porque os exemplos que nos chegam de cima, das “elites” regentes levam muitos a segui-la. A renovação é essencial, hoje, à sobrevivência do próprio país, já que da sua falta só pode provir a dissolução do todo nacional no caos e naquela “federação europeia” em que os lacaios do norte da Europa nos querem colocar…

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