Galiza

Galiza, Lusofonia, Língua, Cultura e Irmandade – livro online

Introdução

“A marca do escravo é falar a língua dos seus amos” Publius Cornelius Tacitus

O mundo contemporâneo é – diz o “Pensamento Único” – o mundo da Globalização. Neste mundo onde as fronteiras comerciais se vão diluindo gradualmente perante o ácido corrosivo segregado pelas poderosas e aparentemente omnipotentes forças do neoliberalismo, as línguas nacionais encontram-se na primeira linha da defesa da identidade dos povos. A força económica do mundo anglo-saxónico determinou que a língua franca das relações económicas e da Internet – cada vez mais o canal privilegiado para todas as comunicações – fosse o inglês. O poder dos meios de comunicação anglo-saxónicos, da “fábrica de ilusões” de Hollywood e dos canais de televisões norte-americanos, britânicos e australianos cerrou a machada definitiva (?) que está a impor o inglês como língua universal, ameaçando aniquilar todas as demais.

 

Perante tamanho Tsunami linguístico não deve surpreender ninguém que a UNESCO, ano após ano, não cesse de engrossar a lista de línguas ameaçadas de extinção. E por cada língua que se perde, perde-se um património inestimável e único. Assim, deveria pertencer ao quadro de prioridades absolutas do Estado Espanhol, a defesa (pela via da promoção na Educação e da sua utilização na Administração Pública) das línguas nacionais, do basco, do catalão e, sobretudo pela parte que mais lusofonicamente nos toca, do Galego, ou melhor dizendo, do português da Galiza. Contudo, bem pelo contrário, assistimos atualmente a uma eclosão dos ataques contra a língua da Galiza que, sob a capa de um pífio “bilinguismo” e de uma “liberdade individual” de fachada procuram colocar o português da Galiza ao mesmo nível da língua do poder, da língua que desde Franco se procurou impor “imperialmente” e que mercê desses ataques continuados é hoje falado por um número cada vez menor de habitantes da Galiza. Quando Espanha procura esmagar as línguas nacionais do seu Estado reduz “a indomável vontade de liberdade” reconhecida pelos romanos, a multiculturalidade e a diversidade criadora que estiveram na direta razão da sua posição entre os “Grandes” deste mundo. Um país monocultural e monolinguístico é tão estéril, tão pouco dinâmico e frágil como uma daquelas gigantescas plantações industriais de monocultura que os europeus espalharam criminosamente em por todos os continentes, criando a fome entre as populações locais e uma doentia dependência perante as caprichosas flutuações dos mercados. Se Espanha quer ser um país cultural, cientifica e economicamente estéril, então deve promover a asfixia mortal de todas as suas línguas nacionais. Se quer sobreviver – até enquanto “Estado” unificado – deve promover o florescimento das suas culturas nacionais.

 

O Nome “Galiza”

O topónimo “Galiza” é certamente de origem pré-romana, muito provavelmente céltica e decorrente do topónimo Portum Cale, que designava uma povoação romana, de fundação indígena situada na foz do rio Douro e que haveria de servir de mote para além de “Galiza” (Cale -> [Gal]iza) mas também a “Portugal” (Portu + Cale -> Portucale -> Portugal), e até aos nomes das cidades do Porto (Portu -> Porto) e de Gaia (Cale -> Gaia)[1]. No topónimo “Portum Cale” encontramos o produto da aglutinação do acusativo “Portum Calem”, a forma em latim vulgar de “Cales Portus”[2]. “Portus” significaria “porto”, termo que encontraria a sua justificação na localização da localidade junto da foz do rio Douro. “Cale” ou “Cales” seria o nome da povoação celta original, da mesma raíz de “Gal-ia” e “Gael-ico” que significaria em indoeuropeu “terra” ou “rochedo” e sobre a qual os romanos assentariam a sua povoação portuária.

 

O uso atual do topónimo “Galiza” não é contudo, pacífico. Ainda que o termo original e historicamente mais correto (e logo, o preferido neste texto) seja “Galiza”, o termo “Galicia” é também utilizado com alguma frequência, sendo uma adaptação da forma castelhana, preferida por muitos centralistas ou bilinguistas galegos, assim como pelas instituições do governo autonómico e por Madrid, por simbolizar a subordinação política e linguística da Galiza ao Reino de Espanha.  O termo é também comum no português do Brasil, essencialmente devido ao desconhecimento do significado político que carrega. Oficialmente, ambos os termos são considerados “nomes oficiais”, havendo uma preferência pelo termo mais castelhanizante “Galicia” por parte da “Real Academia Galega” e do “Instituto da Língua da Galiza”, que o consagraram na sua “normativa de concórdia” datada do ano de 2003. O movimento reintegracionista – que advoga o regresso da Galiza à Lusofonia – optou pelo termo linguística e historicamente mais correto de “Galiza”, que usaremos doravante neste texto, pelo mesmo grau de razões.

 

Entidade Política, Governo e Espectro Político

A Galiza é atualmente uma Comunidade Autónoma do noroeste de Espanha, com extensa fronteira com Portugal. Espanha concedeu-lhe no princípio da década de 80 o estatuto de “nacionalidade histórica” e instituiu como órgãos de governo a Junta da Galiza e o Parlamento Galego.

O Parlamento Galego é atualmente (em 2009) ocupado por 38 deputados do Partido Popular da Galiza (PPdG), 25 deputados pelo Partido Socialista da Galiza (PSdG) e 12 deputados representando os eleitores do Bloco Nacionalista Galego (BNG). Fora do Parlamento, encontramos a Esquerda Unida, com mais de 12 mil votos e o NÓS-UP com menos de dois mil votos.

 

Demografia

Desde a época da Reconquista que muitos galegos emigraram para Portugal. Contudo, o fluxo migratório nunca foi tão intenso como no século XIX – como retratam “Os Maias” de Eça de Queirós – altura em que chegaram a viver em Portugal mais de 80 mil galegos, trabalhando nas mais diversas profissões, desde aguadeiros, a empregados domésticos até a pequenos comerciantes. Esta imigração passados menos de cem anos já teria desaparecido quase por completo, sendo hoje demograficamente insignificante.

A maior cidade da Galiza é Vigo, com 293 mil habitantes, segue-se Corunha, com 243 mil, Ourense com 108 mil, Lugo com 93 mil e, por fim, entre as grandes cidades galegas, Santiago de Compostela a capital administrativa com pouco mais de 93 mil habitantes, mas detendo a sede do Parlamento e a mais prestigiada e antiga universidade da Galiza.

 

História da Galiza

 

Os romanos conheciam os povos célticos ou celtizados do noroeste peninsula como “gallaeci”, nome que viriam a usar para designar uma área de limites imprecisos e móveis conhecida como “Gallaecia”. A divisão da Iberia em Ulterior e Citerior haveria de colocar a Gallaecia no interior da Citerior, mais tarde intitulada Tarraconense, com a capital em Tarraco. Mais tarde, já no reinado do imperador Tibério, a província haveria finalmente de assumir a sua identidade nacional e recuperar a sua primitiva designação e receber o nome de “Província Gallaecia”.

Quando os romanos chegaram ao noroeste em 219 a.C., encontraram os Calaicos, um termo que derivava diretamente de “celticoi” (celtas), explicando assim não somente a ascendência celta da atual nação galega, como a origem celta da particula “gal” que ainda hoje está presente no nome de Portu-gal. A sul dos Calaicos, os romanos encontraram os Lusitanos, povo de matriz étnica ibérica ou indígena, mas de língua celtizada. A designação seria confirmada sob Diocleciano e, mais tarde, haveria de ver nascer o imperador Teodósio.

 

A queda do Império Romano do Ocidente e a chegada dos suevos ao noroeste peninsular a Gallaecia firmou-se enquanto entidade política autónoma. As zonas suévicas eram num perído inicial muito extensas chegando até à Bética e ao Mediterrâneo. Mas a ascensão peninsular do império visigótico haveria de roubar aos suevos a maior parte destes domínios, reduzindo a Gallaecia sueva a um território encravado, mas próspero, entre o Douro e o Mar Cantábrico. Após a expulsão mais para sul dos invasores muçulmanos teve como consequência indireta a definição da fronteira leste da Galiza, pouco clara até então, porque os castelhans passariam a identificar-se de forma distinta dos galegos, quer como Estado, quer na proto-língua que então fundavam a partir da matriz fundadora do galego. Contudo, era ainda uma separação com mais bases políticas do que culturais ou linguísticas, já que na época os muçulmanos recorriam ao termo “galego” para descreverem tdas as populações cristão do norte peninsular que lhes íam fugindo ao controlo…

 

Foi nesta época da Reconquista cristão que se formou o Reino de Leão, e no noroeste peninsular, o da Galiza, estendendo-se ao Návia, a uma boa parte do Berço, à Seabra ocidental e ao território atualmente português de Trás-os-Montes e mais além, para sul, tocando o rio Mondego. Contudo, esa unidade das duas bandas do rio Minho não seria para durar: Cedo se verificaria a divisão pela fronteira do rio Minho, com o nascimento de Portugal, separando-se da mão Galiza. Data do ano de 938 o primeiro documento onde a expressão “Portugal” é utilizada para designar a entidade política independente a sul: “regnante in Galletie et in extrema Minii et in extrema Dorii Ordonius Rex Aldefonsi filius”. Não muito tempo depois, encontramos as atas do Concílio de Corança (1050) onde Portugal e Galiza tornam a figurar de forma separada: “mandamus ut in Legione et in suis terminis, in Galecie, et in Asturiis, et in Portucale, tale sit semper judicium”. O mesmo texto conciliar revela que mesmo depois da separação pelo rio Minho continuaram a existir reis de Portugal e da Galiza, lado a lado.

 

Os muçulmanos – com quem o rei do novo Reino português andava eternamente acometido – não hesitavam nas suas crónicas a identificá-lo como um “nobre galego”. E efetivamente na época, nada na língua ou cultural popular ou ilustrada distinguia os dois Estados, nessa época da Idade Média. Esta comunhão transfronteiriça era especialmente na submissão de ambas ao distrito eclesiástico de Braga, e separando o norte de Portugal do seu sul, incluído então na província religiosa da Lusitânia. Esta é a matriz fundamental que constrói a nossa percepção dessa entidade multinacional Portugal-Galiza a que alguns[4]chamaram de Portugaliza, crismando até com bandeira própria e híbrida da portuguesa e galega: uma entidade em que o norte de Portugal radica numa identidade diferente da do sul e em que se aproxima mais do que a segunda da Galiza. Mas em que o sul, como foi produto de uma Reconquista que se estendeu a partir do norte para sul é, afinal, uma extensão da mesma continuidade trans-minhota.

 

Sob os reinados de Fernando II e de Afonso IX da Galiza, estes monarcas ostentavam o título de “imperadores da Galiza”, sendo na sua época a Galiza um Estado ibérico de pleno direito, incluindo neste “império peninsular” segmentos periféricos das Astúrias, Leão, Zamora, os “Campus Gallaeciae” e inclusivamente terras hoje agregadas à Estremadura espanhola atual. De facto, aquilo que nos livros de História oficial é conhecido como “Reino de Leão”, era efetivamente este “Império da Galiza” e não de uma “Leão” existente apenas no papel.

 

Em momentos posteriores, Castela haveria de submeter esse Reino Galego independente. Não sem impedir contudo várias revoltas rurais na Galiza durante s séculs XII, XII e XIV e até o apoio popular e de muitos nobres à intervenção militar do rei português Dom Fernando na Galiza que em 1369 invade a Galiza e ocupa Corunha fazendo-se nomear aqui rei legítimo da Galiza.

No século XVI, a Galiza seria já pouco mais do que uma simples colónia castelhana, nas palavras de Ramón Vilar Ponte: “o tristeiro papel da Corte que lle tocara en sorte desde comezos do século dezaseis”[5]. Mas a língua portuguesa da Galiza continuaria sendo de uso corrente nas cidades e nos campos até à imposição em Espanha da Ditadura de Primo de Rivera (de 1923 a 1930) com a chegada da educação universal à maioria das cidades e aldeias da Galiza.

A Língua Portuguesa da Galiza (ou “Língua Galega” ou “Língua Própria da Galiza”)

De acordo com a formulação jurídica em vigor na Galiza, o Galego (termo neutro) é a “língua própria da Galiza”. Isso mesmo é reconhecido no Estatuto da Autonomia. O facto transforma o Galego numa língua co-oficial (a par do castelhano) da Autonomia. O Galego não está contudo reduzido ao atual território da Autonomia, já que é língua corrente de algumas comarcas limítrofes nas Autonomias de Leão e Astúrias (a chamada “Galiza Exterior”), desanexadas à Galiza por Madrid no século XVIII e até, se considerarmos que Olivença ainda é terra de fala portuguesa, poderemos também encontrar aqui neste enclave ocupado por Espanha um derradeiro testemunho do português da Galiza. Estas comarcas pertencem pela História, pela Língua e pela Cultura à nação galega e como tal, o seu regresso à matricial entidade nacional galega é reclamado por muitos nacionalistas.

 

Foi em galaico-português que se escreveram, cantaram e declamaram as primeiras obras literárias em língua ibérica: a lírica trovadoresca medieval. Foi a lírica que estruturou aquela que na sua época era uma línguas românicas mais dinâmicas da Europa e que, nas palavras do professor Sílvio Elia[6]torna a língua portuguesa da Galiza na “matriz do mundo linguístico luso-brasileiro”, uma irmã ainda bem viva – apesar de todos os atentados que hoje cometem contra ela – e que nos permite compreender como era a nossa língua portuguesa no momento da sua gestação, verdadeiro “tesouro vivo” que preserva no galego contemporâneo traços linguísticos, assim como na cultura popular e erudita, elementos indispensáveis à compreensão daquilo que Portugal hoje é e para onde caminha no futuro próximo e mais longínquo.

 

A cultura e a identidade nacional galegas conseguiram manter-se relativamente incólumes e deixadas ao seu livre curso, sacrificando a liberdade política, contudo, até à erupção da “modernização” da monarquia dos Bourbon, no século XVIII, levou à substituição do latim pelo castelhano, no ensino, na Igreja e na administração. Por volta de 1800, os “notáveis” espanhóis decretavam a morte de todas as línguas nacionais, e entre elas, da língua da Galiza buscando afirmar a soberania de um “Estado-Nação” espanhol erguido em em torno da hegemonia absoluta do castelhano, ou “língua nacional” de Espanha. A disseminação da escola pública – em castelhano – data também desta época, assim como a multiplicação de mercados e a unificação da moeda em toda a Espanha. O dogma centralista era inequívoco: “convêm à melhor união de todas as Províncias da Monarquia, que é um ponto essencial sobre que deve trabalhar todo o Governo, para que seja deposto todo o espírito provincial se subrogue o laudável da Pátria ou Nação”[7]. Este programa bourbónico de aniquilação de todas as entidades nacionais e – mais especificamente da Galiza, assumia assim claramente a língua própria da Galiza como um alvo privilegiado no plano mais geral que visava utilizar a imposição do castelhano nas três vias da Educação, da Religião e da Administração. Apesar destes esforços, em 1870, a “Gramática castellana” da Real Academia Española” admitia a existência de “antigos idiomas” que “todavia ser conservavam”[8]. Foi contra este “todavia” que se ergueram as “renascenças literárias” catalãs e galegas do século XIX, contra esta ausência gritante das línguas nacionais no Ensino e na Administração, num mutismo que as pretendia silenciar definitivamente.

 

Atualmente, existe um certo clima de incompreensão perante a obstinada recusa de Madrid a que a Galiza assuma a sua ligação umbilical lusófona. Essa teimosia remete-nos para os regimes de Franco e antes dele dos Bourbon com a sua política centralista e aglutinadora de todas as periferias de Espanha, mas hoje encontra um aliado de peso no PPdG (Partido Popular da Galiza), atualmente no poder. Esta política aglutinadora resulta de uma profunda insegurança, como se os espanholistas sentissem que a qualquer momento, o sentir mais profundo do povo galego se pode reassumir e derrubar aqueles que o pretendem submeter a um todo “espanhol” que de facto, existe apenas em Madrid e nos seus subúrbios… Se assim não fosse, pelo bruto medo de perder a Galiza para a independência ou para a re-união com Portugal (a tal “pátria sonhada” dos poetas), nada obstaria a que Espanha, seguindo aliás o seu próprio preceito constitucional, permitisse que a Galiza assumisse a ligação lusófona da sua língua, ou mesmo a designação oficial defendida por alguns reintegracionistas de “língua portuguesa da Galiza”. Nada a não ser o pavor da perda da Galiza. Nada a não o temor de que a ligação de Madrid à Galiza seja mais fraca que a ligação linguística e cultural da Galiza aos mais de 200 milhões de cidadãos lusófonos.

 

Variedades Linguísticas da Língua Portuguesa da Galiza: O Galego Normativo, o Galego Tradicional e a promessa dos Regionalismos

Ainda que a língua portuguesa da Galiza possua em si a individualidade suficiente para ser um corpo único, nem por isso não deixa de apresentar no seu seio várias variedades linguísticas. Desde logo, há que distinguir o galego “normativo” urbano, académico e isolacionista do galego “tradicional”, coloquial, rural ou “do povo”.

O “galego normativo” pode ser encontrado na fala de três grandes grupos de falantes da língua: os neofalantes, os professores e os profissionais dos meios de comunicação, havendo aqui a necessidade de reconhecer que estes últimos muitas vezes só utilizam o galego frente às câmaras, abandonando-o assim que estas são desligadas, algo que está ligado à fraca competência linguística (com fraca acentuação e com múltiplos castelhanismos) que exprimem na sua grande maioria. O artificialismo desta variante produz a sensação de que estamos perante uma variante que se sobrepõe aos regionalismos naturais da comunidade autónoma, sem os substituir, criando nos inquiridos no trabalho de Ana Álvarez[9]expressões bem ilustrativas como “normativo não há quem o fale”; “puro puro não se fala em nenhum lado” ou ainda “galego galego, não o sabemos falar”.

 

A estes dois grandes estratos sucedem outras camadas, menos significativas na sua identidade própria, mas igualmente reais e concretas, e de natureza geográfica exprimindo uma diversidade que é ainda hoje uma das maiores riquezas da língua e um dos seus aspectos mais promissores e potencialmente regeneradores de uma língua em crise, especialmente porque estas variantes regionais não são tão extremas ao ponto de perturbarem a intercomunicação dos seus agentes. Esta diversificação pode parecer anómala a quem desconhecer a realidade da Galiza, porque é deveras admirável que num território relativamente reduzido – e com unidade administrativa, exceptuando a “Galiza Exterior” – existam várias variações regionais. Contudo, é relativamente fácil identificar as causas deste fenómeno: a ausência continuada de um padrão normativo, a repressão estatal durante o Franquismo que impediu a sã comunicação e propiciou ao isolamento regional, e o fechamento da expressão linguística em meios familiares e não públicos. Todos estes fenómenos poderiam ter sido colmatados através da institucionalização da língua através do processo educativo ou da instalação de sistemas de imersão (na função pública e  nos meios de comunicação social), mas a introdução recente de uma norma ortográfica isolacionista, artificial, desligada da matriz lusófona e fortemente castelhanizada, prejudicou a língua portuguesa da Galiza e impediu que ela se tornasse ainda numa língua de cultura, robusta e presente em múltiplos registos. Resta crer que o apoio político inflicta o rumo dos últimos anos e que a ainda existente riqueza regional da língua possa contribuir para o seu ressurgimento nos meios urbanos e juvenis onde tem estado infelizmente em séria crise.

História Sumária da Língua Portuguesa da Galiza

Cronologia elaborada a partir do trabalho de António Gil Hernández[10], elaborada por sua vez a partir do insigne Professor Carvalho Calero:

1230-1350:
O apogeu da língua galega: o Período Trovadoresco.

1350-1500:
Período Pós-Trovadoresco. Desenvolvimento da obra em prosa e estagnação da Lírica.

Séculos XVI-XVII:
Quase total evaporação da produção literária em língua galega. Toda a utilização administrativa do português da Galiza desaparece e os registos notariais nesta língua também desaparecem na totalidade. Este é o momento em que se parte a ligação ortográfica e linguísica entre as duas margens do rio Minho e o castelhano se começa a impôr na Galiza como “língua oficial”.

Século XVIII:
Ilustração

1808-1863:
Primeiro ressurgimento

1863-1891:
Renascimento da cultura em galego.

1891-1913:
Nova crise profunda na utilização culta da língua galega

1914-1939:
Segundo Renascimento: Irmandades da Fala, Grupo “Nós” e Seminário de Estudos Galegos

1940-1950:
Depressão profunda. Exílio dos mais importantes vultos da cultura galega, provocado pela repressão franquista.

1951-1958:
Primeira renovação

1959-1980:
Segunda renovação

1981-dias de hoje:
Crise…

 

A Nacionalidade Galega

 

Segundo o “Estatuto da Autonomia da Galiza” atualmente em vigor, a Galiza é, no seio do Reino de Espanha, uma “nacionalidade histórica”. Na época da coligação entre  PSdG e o BNG chegou-se a ponderar a sua revisão, mas o governo do bipartido tombou e foi substituído pelo muito mais centralista PPdG e a questão saiu da agenda política mais imediata.

 

Portugal e Galiza: Uma só Nação?

Galiza e Portugal são parte de uma só e mesma nação. O autor italiano Sergio Salzi, em 1973 na “Le nazione proibite” citado nas actas do V Colóquio Anual de Lusofonia em Bragança[11], inclui a Galiza entre as “falsas nações” do continente europeu, porque pertence ao triste lote daquelas em que não foi possível erguer a bandeira da independência numa parcela do seu território. A Galiza, segundo o autor, é assim uma parte incompleta de uma única nação a que alguns chamam de Portugaliza. Por razões políticas e históricas, uma parte logrou resistir à energia centrípeta de Castela na Península Ibérica, enquanto que outra, não…

Na corrente linguística Reintegracionista – de cuja natureza trataremos mais tarde – não é raro encontrar quem defenda, como Raquel Miragaia que defende que à aproximação linguística deve suceder necessariamente a aproximação política. Em 1998, a Comissão para a Reunificação Nacional da Galiza e Portugal seguia idêntico caminho ao declarar que “ a Galiza, parte Norte de Portugal, precisa da sua livre determinação, independência e soberania para, livre, determinar a reunificação com Portugal”.

 

A união de destinos entre Portugal e a Galiza é patente até na galegofobia de muito espanhóis, fruto do “desprezo ao vencido” e da lusofobia[12], fruto do ressabiamento incurável de Castela por nunca ter conseguido juntar Portugal à lista de troféus de nacionalidades conquistadas. Unidos até pelo ódio duplo de Castela-Madrid-Espanha, Portugal e a Galiza ficam juntos na parte mais negra do coração dos espanholistas de Madrid e dos serventes no governo do PPdG.

Não falta contudo quem pense de forma diametralmente diversa… Ramon Lôpez-Suevos é um dos académicos galegos que advoga a distinção nacional entre Portugal e a Galiza, sem contudo chegar a negar a similitude das culturas, temperamentos e a comunhão da língua. Isolacionista, por atitude,  Lôpez-Suevos, prefere encontrar pontes de contacto, inspiração e aliança para o seu justo desejo de autonomia cultural e nacional galega nas aspirações independentistas dos outros “Estados incompletos” da Península: Euskaria e Catalunha. O economista não encontra vantagens na re-ligação da Galiza com Portugal, como se houvesse um pudor de menoridade no facto da Galiza ter deixado partir uma parte de si, para o rumo da independência. O autor, parece encontrar maior comunhão de sentimentos e objetivos na comum luta catalã e basca, ambas nações longamente oprimidas pelo centralismo imperial de Castela e Madrid, como a Galiza, do que em Portugal, uma das nações independentes mais antigas da Europa e tida por muito Isolacionistas, como nação “semelhante, mas diversa”.

 

História do Nacionalismo Galego e o seu Papel no Ressurgimento da Língua

Entre o século XIX e o XX coexistem três movimentos paralelos: um proveniente dos grupos mais ligados ao nacionalismo espanhol; outro intitulado “Conservadorismo Galaico” que advoga a continuação da integração com Espanha e um terceiro que defender diversas formas de autonomia e regionalismo que hoje se congrega sob a coligação política formada pelo “Bloco Nacionalista Galego” (BNG)[13]. Este último teve origem na “Unión do Povo Galego” e no “Partido Socialista Galego”, que em 1964, com várias associações estritamente culturais e linguísticas conseguiram romper o denso véu do silêncio erguido pelo franquismo contra a língua própria da Galiza e colocar a questão da língua nacional na ordem do dia. Se estas entidades hoje nem sequer se colocaria a questão da autodeterminação da língua portuguesa da Galiza.

É pelo complexo cruzamento e interpenetração de influências que ocorre o ressurgimento da língua da Galiza no século XIX.

 

Uma Questão de Designação: Galego, Língua Própria ou Língua Portuguesa da Galiza

Ainda que filologicamente a língua da Galiza não se possa efetivamente distinguir da língua portuguesa, há uma realidade sociológica e linguística distinta da língua portuguesa e esta terá que ter uma designação autónoma.

J. M. Montero Santalha, em 1981 terá sido um dos primeiros a utilizar a expressão “Língua Portuguesa da Galiza”[14], uma expressão publicada nas Atas do Congresso Internacional da… Língua Galego-Portuguesa da Galiza, uma outra designação, portanto.

Os oficialistas ligados aos meios académicos patrocinados pelo governo autonómico repudiam a designação “Língua Portuguesa da Galiza” porque sendo Isolacionistas afirmam a independência do Galego frente à realidade lusófona e preferem a forma mais redutora “língua da Galiza”. Havendo uma identidade fundamental entre a língua da Galiza (designação neutra) e a língua portuguesa a designação “Língua Portuguesa da Galiza” é adequada. No âmbito lusófono uma variante direta da expressão é aliás já empregue de forma muito disseminada: Língua Portuguesa do Brasil, ninguém que seja minimamente tomado a sério no Brasil e no mundo usa a expressão “língua brasileira”, então e tendo em conta que o galego e o português são essencialmente a mesma língua porque se deveria falar de “língua da Galiza”?

 

Oficialmente, nas instituições autonómicas, o termo preferido é “língua própria da Galiza”. É isto que sucede na produção legislativa de Espanha com uma insistência que tem bases políticas e que almejam a consolidar a separação artificial entre a Galiza e a demais Lusofonia, à revelia da Tradição, da História e até da comunidade linguística, morfológica e fonética entre estas duas variantes da língua portuguesa[15]. A designação da língua deve contribuir para a consolidação desta enquanto “língua nacional”e servir de instrumento para afirmar a solidariedade lusófona da demais Lusofonia com a realidade galega. A designação poderá ser assim contribuir para a constituição de uma ainda frágil identidade nacional galega. Uma identidade que usará a designação da língua para alicerçar a identidade lusófona da Galiza e depurar a língua, cultura e grafia galegas das influências imperialistas do castelhano.

Doravante, nas linhas seguintes iremos utilizar diversas expressões para designar a língua da Galiza.  Língua Própria (o termo usado no Estatuto da Autonomia), até o termo Isolacionista língua da Galiza, Galego, mas apenas por razões de alternância e de não-saturação textual. Porque de facto, há apenas uma absolutamente correta, do ponto de vista histórico e filológico e essa expressão é: Língua Portuguesa da Galiza.

 

A Estratégia de Menorização da Língua Portuguesa da Galiza (1)

A Constituição espanhola da renovada democracia, de 1978, partindo da anterior Constituição de 1931, afirmava que a língua do Estado seria o castelhano e que todas as outras “línguas espanholas” poderiam ser tomadas como “oficiais” nas respetivas Comunidades Autónomas. Na época, existia ainda a percepção de que existia uma unidade entre a língua portuguesa e a da Galiza. Os novos dirigentes da Comunidade Autónoma iriam embarcar na tarefa de quebrar essa unidade e de forjar uma pretensa “separação”, como forma de afirmar a sua própria autonomia política e um nicho de poder onde se pudessem desenvolver. O enunciado constitucional de 1987 encaixava na perfeição das suas pretensões de âmbito “regional”, já que lhes permitira criar uma oligarquia regional regida por eles. Assim, estes líderes que defendiam as teses Isolacionistas, contentaram-se com a classificação da língua portuguesa da Galiza como uma língua “regional” e não hesitaram em aderir às teses centralistas de Madrid que tornaram a sua língua marginal e secundária, quebrando a sua unidade com o mundo lusófono, efetivo até à sua aparição em cena, isto é, antes de 1978.

 

A Estratégia de Menorização da Língua Portuguesa da Galiza (2)

 
Atualmente, a estratégia dos “notáveis” espanhóis é, desde há muito, a mesma: tornar o galego numa língua “regional” ou num simples “dialeto do castelhano”. Ignoram esses académicos que muito antes do castelhano ser um veículo portador de cultura, já o galego era um idioma “extenso e útil”[16]produtor da primeira expressão lírica e gráfica da Península Ibérica: a Lírica Galaico-Portuguesa, quando no século XIII/XIV o castelhano ainda não era uma língua literária. A sua missão é clara: cumprir o mandato da potencial imperial, absorver os povos vizinhos, usando a força política para submeter a Galiza, reduzindo a sua personalidade própria e repetindo a mesma estratégia que os romanos aplicaram na Península, renovando um desejado sucesso de uma “romanização” que levaria para as brumas irrecuperáveis da História a língua dos Iberos.

 

A Estratégia de Menorização da Língua Portuguesa da Galiza (3)

Esquecendo esta primazia, os espanholistas como Emília Bazán que em 1888 diziam que o Galego era um “dialeto do castelhano”, uma afirmação a que Castelão respondia acutiladamente: “o idioma que vós impuseste pela força é um irmão menor do galego. Por acaso querem dizer que é um dialeto do latim? Pois então chamem dialeto ao francês, ao italiano, ao romeno, porque também são filhos do latim e irmãos do galego”[17]. Em época ainda mais recuada (começos do século XVIII)  também já escrevera que “a língua lusitana ou galega deve considerar-se dialeto separado da latina, e não subdialeto ou corrupção da castelhana, o que se prova, a meu parecer, com a evidência do maior parentesco que tem aquela que esta com a latina”.

 

A Estratégia de Menorização da Língua Portuguesa da Galiza (4)

 

Ao contrário do que pretendem os revisionistas espanhóis, que procuram reescrever a História, menorizando o papel que a Galiza cumpriu na fundação dos reinos cristão da Ibéria, a Galiza começou por ser a língua literária ibérica quando o castelhano ainda não tinha esse estatuto civilizacional. Nesta época essa língua supostamente “menor” foi o cenário do primeiro fenómeno cultural de escala verdadeiramente europeia, a Lírica Trovadoresca Galaico-portuguesa e deriva da Latim popular do alvor da Idade Média, da mesma forma que o castelhano, não lhe sendo posterior, antes contemporâneo, no momento da gestação. Esta “língua menor” é também hoje falada, entendida e escrita por mais de 260 milhões de pessoas no mundo e a sexta segunda língua e a quinta língua nativa mais falada em todo o planeta.

 

As Posições dos Partidos Galegos Quanto à “Questão da Língua”

Partido Comunista de Libertação: “A luta pela defesa e pela dignidade do idioma e da cultura nacional constituiu um dos eixos históricos do combate do nacionalismo galego. Como sem dito o terreno cultural foi o reduto onde nos últimos anos se refugiou o nacionalismo galego, mesmo com mobilizações importantes por determinados feitos concretos. (…) A rejeição do bilinguismo, como simples truque neocolonialista resultou numa aceitação real de certos mínimos para o uso do galego (inclusivamente concretizados no Ensino). (…) perdeu-se o enfrentamento social em favor da dinâmica das escolas intelectualistas.” (…)
Em consequência, acordam-se as seguintes resoluções:

 

1.   Utilização exclusiva do idioma nacional

2.   Fugir das normativas sobre a língua, levando o enfrentamento do terreno da normalização ao do seu uso, sem deixarmos de denunciar a normativa imposta pela RAG-ILG[18]em colaboração com outras instituições coloniais, pelo que supõe de afastamento com o tronco linguístico galego-português. Aumentar as relações com as nações irmãs da língua, em especial com Portugal, rejeitando as relações com camarilhas de inteletuais.”[19]

Assembleia do Povo Unido: “Por outro lado, a defesa da cultura galega foi sempre um elemento que contribuiu em grande maneira para a consciencialização política. Mais concretamente, a defesa e uso da língua têm servido para que muitas galegas e galegos comecem a compreender a opressão nacional. (…) A nível linguístico a defesa intransigente (uma vez que é questão de vida ou de morte) da normalização do nosso idioma em todos os aspectos da atividade social tem que ir acompanhada da coerente defesa da descolonização a nível normativo, o qual não significa outra coisa que não a assumpção do Reintegracionismo. Em consequência, a APU procurará fomentar todo o tipo de relação cultural com Portugal e de acrescentar o mútuo conhecimento das realidades galega e portuguesa.”[20]

União do Povo Galego: “A chamada Lei da Normalização Linguística, aprovada pelo Parlamento autonómico, é a culminação jurídica do processo de submetimento idiomático do povo galego na atual configuração do Estado espanhol. Porque, de acordo com a Constituição, começa por contemplar também o espanhol como língua oficial da Galiza; porque considera os usos atuais do galego e do espanhol como equilibrados; porque não arbitra defesas suficientes e inequívocas contra a discriminação do galego; porque chega a restringir o seu estudo obrigatório; enfim, porque mascara o seu caráter nacional mas subordinado, concedendo-lhe em todo o caso uns direitos individuais que às vezes nem podem ser usados à discrição”.[21]

Partido Socialista da Galiza: “O comportamento dos socialistas em matéria de Política Linguística tem de caraterizar-se por dois princípios básicos (…): liberdade e democracia. Liberdade quanto à normalização e democracia quanto à normativização. Não deve ser do interesse do Partido impor normalização contra-corrente nem uma normativização exclusora, precisamente por serem ambos os aspectos tremendamente delicados e complexos”.

Partido Popular da Galiza: “A aprovação, em 2007, de um Decreto sobre o idioma no Ensino que rompe um direito e uma liberdade que, desde a chegada da democracia, sempre pudemos desfrutar: o direito a expressarmo-nos em galego ou castelhano no nosso país e a liberdade de escolher qualquer das duas línguas”. (…) “Entendemos como um motivo de orgulho que além do castelhano como língua oficial e comum de todos os espanhóis, Espanha goze da riqueza da convivência de diversas línguas. O direito a utilizar as línguas autonómicas, oficiais todas elas nas nossas Comunidades Autónomas, está constitucionalmente reconhecido e o seu uso e proteção é valorizado positivamente pelo povo espanhol. Não obstante, não compartimos, nem compartiremos políticas de discriminação para com as pessoas que utilizam a língua castelhana de forma habitual.”[22]

 

Português e Galego: Uma Mesma Língua: Isolacionismo e Reintegracionismo

Existem vários factos que apontam para a identidade comum entre as línguas faladas em ambas as margens do rio Minho. O ativista e sindicalista pontevedrino Alexandre Banhos, antigo presidente da Associação Galega da Língua (AGAL) numa entrevista ao jornal “Novas da Galiza”, em 2002 dizia que “A nossa língua, o português, que assim é conhecida internacionalmente” atrevendo-se a ir onde muitos não tinham coragem de ir e levando a questão da identidade das duas línguas o mais longe possível. Já em 1919, o galego João Vicente Biqueira escrevia que “o galego, não sendo uma língua irmã do português, mas um português, uma forma de português (como o andaluz do castelhano) tem-se de escrever em consequência como português. Viver no seu seio é viver no mundo, é viver sendo nós próprios!”.

 

 

 

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O processo de separação entre a língua própria da Galiza e o português teve um ponto alto no próprio momento de nascimento do “Instituto da Língua Galega”, em 1971 (depois renomeado para “Instituto da Língua Galega”) que assumiria imediatamente a tarefa de separar o português do galego, estabelecendo diferenças onde havia semelhanças.  E, simultaneamente forjando aproximações entre o castelhano e a língua da Galiza, dando a entender que haveria uma equidistância entre o galego e o português, por um lado, e o castelhano, por outro. Este processo de segregação linguística institucional e académica teria o seu apogeu em 1992 com a separação na Universidade de Santiago de Compostela dos “Estudos de Filologia Galego-Portuguesa” em “Estudos de Filologia Galega” e “Estudos de Filologia Portuguesa”[23]. Que interesses serviam estes académicos? Não devemos incorrer em julgamentos simplistas e anunciar que estavam simplesmente a soldo dos interesses centralistas de Madrid (ainda que isso possa ser verdadeiro em alguns casos), de facto, a situação é muito mais complexa… Desde o egótico desejo de conservar cátedras, ao vão prazer do protagonismo histórico no ato da re-criação de uma língua, até ao simples desejo de agradar a Madrid e de receber subsídios e prebendas várias. A situação atual, de isolamento da língua própria da Galiza da demais Lusofonia serve aos interesses espanholistas e não à Galiza, já que a prazo se arrisca a extinguir a sua língua, e após esta, a sua própria identidade nacional.

Parece-nos claro, a todos os níveis, que português e galego são efetivamente duas variantes do mesmo idioma, já que “todas as estruturas que distinguem galego e português das outras línguas românicas, têm-nas eles em comum”[24]. O insigne linguista António Gil Hernández[25]precisa que “as oralidades galegas têm muitas semelhanças com as portuguesas tanto na musicalidade (ou inflexões melódicas) quanto no léxico patrimonial, assim como nas construções sintáticas”.

Existe um impulso dominante entre os nacionalistas galegos para afirmarem a diferença da língua e ortografia galegas numa corrente separada e isolada (ou “Isolacionista”) daquela seguida na demais Lusofonia. Esta ortografia foi redigida entre 1981 e 1982 pelo ILGa e publicada em abril de 1983 como Anexo ao Decreto 137/1982. Esta norma ortográfica não procurou reconciliar a língua galega com a sua herança e proximidade lusófonas, buscando pelo contrário no “usus, rusticitas e na vetustas”[26]as suas raízes. Estes nacionalistas – independentistas ou espanholistas – pretendem erguer o Galego, sob a forma a que chegou até hoje em “língua de cultura”, fonte de produção cultural e de identidade nacional própria. Sem esta produção própria, numa grafia Reintegracionista e fruto do labor de académicos, escritores, empresários e cibernautas reintegracionistas não será possível fazer vingar este esforço pela sobrevivência da língua galega nem da própria nacionalidade no seio do Reino de Espanha.

O Processo em Curso de “Substituição Linguística” do Galego pelo Castelhano

Em todas as sociedades é possível ascender socialmente através da adesão à língua de Poder (económico ou político). Isso é verdade em Portugal, com a exigência do conhecimento do língua inglesa para determinadas áreas profissionais (informática e hotelaria, por exemplo) e não o é menos na Galiza, onde a mudança linguística é atualmente um dos meios para ascender degraus na pirâmide socio-económica. Não negamos que depois da erupção da democracia em Espanha a situação da língua própria da Galiza melhorou, sobretudo no campo das atitudes formais e no discurso das entidades políticas, mas diminuiu o ritmo com que se perdem galegofantes em cada ano que passa. Este processo de Substituição acaba por diminuir também a qualidade com que a língua substituída é utilizada por parte daqueles redutíveis que se lhe mantêm fiéis, já que a diminuição do uso corrente da língua, diminui a competência social para a usar. Aqueles que deixam de utilizar o galego nos locais de trabalho, acabam por o usar pior, em casa, no meio familiar e entre amigos e isso erode sensivelmente a própria língua. Quantas menores forem as oportunidades de uso, pior será a qualidade do mesmo. Este processo movimenta-se de forma silenciosa, e onde aqueles que são vítimas da sua ação perdem competências linguísticas de uma forma tal que nas suas autoavaliações são geralmente incapazes de determinar até que ponto é nesse processo de Substituição, perdem competências[27].

A Crise da Língua Portuguesa da Galiza

Em junho de 2001, a Junta da Galiza fez publicar um estudo da Real Academia Galega em que se observava o recuo de 20% nos falantes do português da Galiza em comparação com há vinte anos atrás[28]. Esta grave situação foi também confirmada pela própria UNESCO que coloca o Galego na lista de línguas em vias de extinção[29]no seu Atlas Linguístico de 2001, uma presença foi entretanto removida na edição de 2009, por pressões do executivo de Madrid, mas sem que a situação local se tivesse alternado de forma substancial. Dados estatísticos recentes estabelecem uma ligação entre o uso da língua galega e a idade: quanto menores forem os escalões etários, menor é a utilização da língua e o número daqueles que utilizam apenas o castelhano. O fenómeno ainda é mais grave se aplicarmos o critério do habitat já que no meio rural os galegofalantes são mais de 87% do total da população e no meio urbano, apenas 42,7%… Sendo que aqui, no meio urbano, o fenómeno do afastamento da juventude em relação à língua o fenómeno de Substituição linguística é ainda mais intenso com uma taxa de apenas 10% entre os jovens menores de 26 anos para aqueles que usam o galego de forma exclusiva ou maioritária[30]. As cidades mais castelhanizadas encontram-se na costa norte da Corunha e no oeste de Pontevedra e as províncias mais aculturadas são as de Lugo e Ourense[31]. O mundo urbano é aliás no contexto da escolha linguística muito interessante já nos últimos anos se formou um estereotipo – justo ou não – que associa o uso do galego nos meios citadinos a uma expressão ideológica, ligando tal escolha a um “radicalismo” politico e nacionalista galego de Esquerda. É verdade que a obra de Ana Iglesias Álvarez[32]apura que o único grupo estudado pela sua análise que associa cidade e língua galega é o nacionalista, sendo certo que para integrar esses grupos existe o consenso que é necessário recorrer à língua própria e não ao castelhano.

Atualmente ninguém é obrigado a conhecer a língua nacional galega, mas as instituições oficiais do Governo Autonómico estabeleceram e procurar forçar o uso – sob todas as formas, corretas e incorretas – de uma grafia “normalizada”. Esta grafia híbrida galaico-castelhana inclui letras utilizadas no castelhano, a língua cujo domínio é legalmente obrigatório para todos os galegos.

Assim, a língua portuguesa da Galiza sofre ataques simultâneos através dos cinco aspectos apontados argutamente por María García Negro[33]tornando-se:
Oprimida: pelo poder político local e central;
Deprimida: por lhe faltar ainda a utilização normal de uma língua de plena expressão e vida;
Reprimida: porque é alvo de processos de imposição no Estado e pela maioria dos agentes económicos;
Espremida: porque não dispõe de mecanismos de renovação interna e continua demasiado dependente da oralidade e sem suporte literário forte e abundante e
Comprimida: porque não a deixam desenvolver-se na sua plena potencia, nem encontrar o rumo comum com a demais lusofonia, que a poderia refundar.

O saudoso Professor Rodrigues Lapa afirmava em 1935 que “a grande chaga da Galiza dos nossos dias [era] a vergonha de ser ela mesma, a falta de confiança em si, o abandonar-se a todas as dominações”[34].  A língua própria da Galiza está hoje doente. Ainda não irremediavelmente incurável, mas certamente em estado grave o bastante para que receemos pela sua sobrevivência nas próximas gerações, como língua viva e de uso corrente. E a melhor ferramenta para curar este doente é a língua portuguesa, de paredes meias com a irmã Galiza e que somente através de um fenómeno de “repulsão do idêntico”[35]se pode explicar a repulsa que alguns galegos – na corrente isolacionista – sentem pelo país irmão a sul do Douro. Esta cegueira ideológica é antes do mais imbecil: a Galiza é historicamente a mãe da língua portuguesa, e se depois da separação o português se pode desenvolver plenamente como o idioma universal que hoje é por pleno direito, então nada pode ser mais razoável do buscar nesta língua a “normalização” necessária a que o Galego possa expurgar de si os elementos exógenos e destrutivos que o poder de Madrid lhe introduziu com vista a torná-lo de uma língua “extensa e útil” num mutilado dialeto do castelhano. Isto ainda os Isolacionistas ainda não compreenderam: sem português, não pode haver galego daqui a duas ou três gerações. A não ser como objeto de estudo nas cátedras de paleo-linguística.

A Importância de uma Língua Nacional

Em 1916, Antón Vilar Ponte escrevia “quando morre um idioma, morre um povo”[36]. Mais tarde, Émile Benveniste (1902, Cairo – 1976)[37]escreveria que “uma língua é uma máquina de produzir sentido, uma máquina produtiva”[38]. Mas a língua é também uma mundovisão, um filtro que cada
indivíduo utiliza para olhar o mundo que o rodeia e para o descrever aqueles com quem socializa. Isso significa que o olhar muito particular e essencialmente distinto que cada língua-falante é único e central para a formação de um espírito nacional. Sem línguas nacionais (ou “línguas menorizadas”, como a língua portuguesa da Galiza), perde-se o melhor argumento contra a homogeneização cultural e a mais importante função identitária de todas, sobretudo no universo cultural e simbólico.

A importância da língua para a formação de laços sociais que unam uma comunidade, separando o “Nós” dos “Outros” e estabelecendo assim uma fronteira virtual mas muito real entre os dois grupos e delimitando assim o limite de uma “Pátria” é fundamental. A língua, enquanto forma de comunicação, cumpre um papel único e insubstituível nas relações entre os Homens e na transmissão e produção de Cultura e de saber técnico e operativo. Noutro nível, o domínio de uma determinada língua é fulcral para o exercício de um grupo de Direitos Humanos tão essenciais como o Direito de Expressão ou o Direito à Justiça. O aspecto central que a língua desempenha nas sociedades humanas explica porque é que após uma vitória militar, os impérios do passado se apressaram a instalar uma rede de tradutores e de ensino da língua do Conquistador: o sistema judicial, o policial e até a própria estrutura militar dependiam da comunicação com as populações – maioritárias – conquistadas e a comunicação entre as duas entidades era fundamental para garantir algum tipo de estabilidade à sociedade reconstruída resultante da invasão. É assim natural que num dado momento da História a língua predominante numa sociedade corresponda aquela utilizada pela
o detentor do poder político e militar. Esta expressão de uma situação de poder de uma entidade exterior sobre uma interior, sucede apenas enquanto dura o processo de assimilação, findo este, a língua do ocupado confunde-se com a do ocupante, as populações locais deixam de se poder distinguirem dos ocupadores e penetram em todos os estratos da administração política e militar do território. Roma soube, como ninguém, cumprir este papel. A sua “Romanização” foi um processo extremamente bem sucedido que transformou rápidamente Iberos e Gauleses em fiéis cidadãos romanos, em tudo indistinguíveis do habitante do Lácio ou de Milão e… completamente esquecido da língua dos seus antepassados, conhecendo apenas o Latim.

Como dizia Castelão em 1961: “Não esqueçamos que se ainda somos galegos é por obra e gracia do idioma[39]”, alertando para o caráter identitário da língua na existência de uma nacionalidade galega distinta da espanhola, uma expressão que ostento orgulhosamente numa camisola comprada no verão de 2009 em Santiago de Compostela…

Sobre o ensino da língua portuguesa na Galiza

A 3 de fevereiro de 2003, o Bloco Nacionalista Galego (BNG) apresentava no Parlamento da Galiza uma proposta de lei, chumbada então pelos votos coligados do Partido Popular (PPdG) e pela pífia abstenção do Partido Socialista (PSdG). Paradoxalmente, só após a vitória do PP nas últimas eleições regionais galegas, é que o atual presidente do Governo galego Alberto Núñez Feijóo comprometeu-se a avaliar a presença da língua portuguesa como língua de opção nos currículos escolares da Galiza. O atual presidente do Governo galego fez estas declarações após uma reunião com o embaixador português Álvaro de Mendonça e Moura, que visitou a Galiza para estabelecer contactos com entidades públicas e privadas regionais e enquadra-se numa discreta, mas constante, pressão do Governo português no sentido de que o ensino do português seja introduzido nos programas escolares de várias regiões de Espanha, entre as quais a Galiza, a Catalunha e a Extremadura, onde se situa Olivença.

A inclusão do português nos programas espanhóis será facilitada agora que se multiplica a lecionação do castelhano – como opção – em Portugal, tendo o Governo antecipado assim a boa vontade espanhola para corresponder a esta abertura, esperando nós agora que a via seguida seja a correta.

E se em regiões como a Extremadura o português é já hoje opção então não se compreende que a lusófona Galiza esteja atrás no ensino do português naquela que é a verdadeira matriz linguística e cultural de Portugal. Isto mesmo admite Feijóo quando refere a existência de uma “relação especial” entre Portugal e a Galiza. O responsável máximo pelo governo galego afirma que a língua portuguesa é, com o inglês, uma das línguas mais importantes do mundo, desde logo porque se estima que até 2025 existam mais de 360 milhões de lusófonos no mundo, mais do que as duas línguas europeias mais faladas, juntas: o alemão e o francês.

A Galiza tem estado virada de costas para Portugal e Portugal, por sua triste vez, para a Galiza… Mas muitos galegos têm buscado em Portugal e na nossa língua a necessária referência “que idioma limpo, genuíno, vivo e sem artifícios!”[40]Portugal, não tem sabido olhar para e pela Galiza, por imperativos da paralisante “prudência” e pelo medo da mudança características das elites políticas e intelectuais pelo menos desde a ascensão de Dom João III ao poder. A Galiza, por sua vez, tem sido vítima de um processo de centralização, colonização cultural e linguística, que, com o seu auge no Franquismo, ainda se faz hoje sentir de forma particularmente aguda, especialmente no domínio linguístico. É portanto um verdadeiro milagre que existam ainda hoje tantos lusófonos na Galiza, resistindo à pressão “imperialista” do castelhano hoje e sempre.

Na formação de uma “norma culta”, indispensável para a sobrevivência da língua portuguesa da Galiza, e na falta de uma verdadeira “literatura galega”, numerosa, de amplo leque temático, diversa e de amplitude mundial, o recurso ao estudo escolar da literatura portuguesa é uma ferramenta incontornável.

A Lusofonia e a Língua Portuguesa da Galiza

O interesse maior do MIL: Movimento Internacional Lusófono para com os problemas da Galiza e da sobrevivência da língua da Galiza resulta da sua pertença à esfera lusófona. O MIL pretende ser – entre várias coisas – um grupo de pressão, um movimento cívico e cultural que promova a Lusofonia, a língua portuguesa e a cultura dos povos que a utilizam como forma de expressão e meio de comunicação. Por isso, nada mais natural que o MIL apareça defendendo e divulgando a causa da sobrevivência da língua da Galiza na Galiza, nesta época em que se vivem momentos decisivos para a sua passagem até às gerações vindouras.

Mas o que é exatamente esta “Lusofonia” a cuja pertença natural acreditamos ser da Galiza? Como qualquer conceito abstrato, cada individuo que reflita sobre a Lusofonia forma uma ideia própria e subjetiva. Mas há pontos de contato… Desde logo, a Lusofonia não é um constructo abstrato, delieneado a partir de um quantos gabinetes políticos ou académicos. A Lusofonia é uma mundovisão compartilhada por todos aqueles que nos cinco continentes falam a língua de Camões. A Lusofonia é assim uma constatação prática, um efeito de certa forma natural que resulta da Expensão Portuguesa e do processo que a espalhou pelos cinco continentes. A Lusofonia é o “continente imaterial” de Eduardo Lourenço.

A Lusofonia é hoje composta pelos oito estados independentes que formam a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Lorosae. A diáspora da Expansão deixou crioulos do idioma um pouco por todo o mundo, como em Casamansa (Senegal), Ilha de Ano Bom, Ajudá (Benim), Goa, Damão, Diu, Managalor, Mahé, Fort, Cochim, Tellicherry, Chaul, Korlai, Coromandel, Vaipim, Battcaloa, Puttalan (Sri Lanka), Bali, Java, Kuala Lumpur, Penang, Jehove, Tapin, na Oceânia, Olivença e conselhos límitrofes[41](ocupados pela Espanha desde 1801), assim como Curaçao, Aruba e Bonaire e o Suriname. Uma variante do português sobrevive ainda hoje nas Ilhas Maurícias e na Guiné Equatorial, países observadores da CPLP e que no último caso tentam aderir à Comunidade. É a este de países e de povos a que pertence com toda a legitimidade a Galiza. Local matricial da própria língua portuguesa quando esta ainda se designava de Galaico-portuguesa merece figurar a lado de qualquer um dos países fundadores da CPLP com os mesmos direitos e deveres do maior país da Lusofonia, o Brasil ou do país de onde partiu a diáspora lusófona Portugal, porque com ele, compartilha a origem da língua que, afinal, e ao contrário de tantas alianças e coligações pelo mundo fora tem a uni-la não o aço, nem o carvão e muito menos o chumbo ou a espada, mas uma língua universal rica, produto e produtora de cultura, o bem virtual e imaterial que será essencial na Nova Economia e que nas palavras de Rudesindo Soutelo[42]cumpre o importante papel de “elevar a condição humana à categoria de cidadão”.

A Lusofonia é assim bem mais do que uma coligação de políticos ou de órgãos de Governo de diversos países, como a OTAN ou a UE, é um laço virtual que liga escritores, académicos, cientistas, economistas, jornalistas, empresários, pessoas enfim que têm em comum a capacidade de escreverem, lerem e falarem na mesma língua, compartilhando uma mundovisão numa diversidade criadora que abre portas a outras perspectivas, quer aquelas que estejam mais próximas do ponto de vista do temperamento ou da língua como as de línguas românicas, sobretudo com o castelhano, catalão e italiano. Mas a Cultura Lusófona interage com diversas línguas e culturas africanas e, no Brasil, mercê de um denso cruzamento de migrações europeias e africanas, produziu-se uma cultura extremamente rica capaz de grandes realizações que devido a um crónico e continuado déficit no sistema educativo ainda não produziu todos os efeitos que devia.

Existe entre muitos académicos portugueses um sentimento de propriedade sobre a “língua portuguesa”. Essa possessividade transparece num bom número de declarações contra o Acordo Ortográfico de 1990, sobretudo naquele que é o seu “Antipapa”, Vasco Graça Moura, que conseguiram transmitir à maioria da população portuguesa a ideia que já que Portugal é a sede a partir de onde irradiu a língua portuguesa deve ser Portugal que determina os padrões orais e escritos da língua. Em momento algum, rejeitam o conceito de “Acordo Ortográfico”, mas preferiam que este fosse conforme aos padrões portugueses… A seu favor contam com o facto de Portugal ser o país mais homogéneo do continente, com uma única lingua, diferenças dialectais mínimas e, sobretudo, uma única nacionalidade, que, com excepção da anomalia história que é Olivença é único na Europa. Assim, estes académicos – herdeiros do Império de 1973 julgam-se capacitados para estender a sua língua perfeitamente consolidade e uniforme a todas as comunidades que também falam português. A sua forma “clássica” de falar portuuguês, essencialmente fundada em torno de Coimbra e Lisboa procura assim estender a todo o universo lusófono e é a raíz de um sentimento de frustação que transpira nas camadas cultas dos outros dois grandes países da Lusofonia “oficial”: Angola e Brasil.

Apesar do papel historicamente central de Portugal na Lusofonia, hoje, em virtude do seu peso demográfico e económico, é o Brasil que assume efetivamente essa posição central. Pela diversidade dos contributos culturais, étnicos e linguísticos que formam a matriz essencial de uma demografia composta por camadas sucessivas de migração, a língua portuguesa do Brasil é mais heterogénea que a de Portugal e muito mais inovadora, no léxico e na fonética. Contudo, apesar da posição relativamente dominante do Brasil na Lusofonia, a verdade é que algo distingue na essência a Lusofonia da Anglofonia ou da Hispanofobia: enquanto estas línguas universais têm um discurso unificador, na Lusofonia, predomina o discurso da diversidade. Esta aliás é uma das riquezas da Lusofonia frente a estas línguas, porque permite o constante afluxo e renovação da língua portuguesa com o contributo das multiplas línguas africanas e com as influências cruzadas que se desenvolvem no território brasileiro. Esta flexibilidade produz resistência e riqueza cultural, para além de introduzir no quadro das mentalidades sociais uma muito maior disponibilidade para o diálogo e para o intercâmbio social, étnico e cultural do que aquela que existe em língua “imperiais” como o castelhano, o inglês ou o francês. Assim, a língua assume-se como Alma de um Corpo conjunto destes povos tão diversos do ponto de vista étnico e geográfico, mas que pela via dessa causalidade ou providencialidade linguística adquirem a potencia para a partir desta plataforma linguística comum assentarem numa perspetiva social, cultural e até política, comum. O diálogo intercultural que a língua propicia e facilita permite ultrapassar fronteiras mentais e físicas e alavancar uma “união lusófona” que muito antes de existir no papel das chancelarias já tem hoje uma existência mental em cada um daqueles que militando no MIL (passo o pleonasmo), se sentem não apenas portugueses, angolanos, brasileiros, moçambicanos, timorenses, guineenses, caboverdianos ou são tomenses, mas também (ou talvez sobretudo) lusófonos…

É a esta comunidade de fala, de escrita e de sentires a que a Galiza se deve juntar: “Ten Galiza un idioma proprio? Estamos fartos de saber que o povo galego fala un idioma de seu, fillo do latín, irmán do castelán e pai do portugués. Idioma apto e axeitado para ser vehículo d-unha cultura moderna e co que ainda podemos comunicarnos con máis de sesenta millóns de almas”[43]. Hoje não serão já 60 milhões, como em 1937, mas 260 milhões de lusófonos, o que dá uma boa medida da importância que possui esta religação da Galiza à Lusofonia.

Em toda o espaço lusófono, é na Galiza que encontramos hoje a ameaça mais grave à própria permanência desta condição. Ao ritmo de assimilação e espanholização atuais, em pouco mais de uma geração, a lingua portuguesa da Galiza será falada apenas por pequenas minoriais, rigorosamente contidas e limitadas para sempre à triste condição de “língua exótica”. É contra esta situação que todos os cidadãos lusófonos, de todos os países onde se fala a língua portuguesa, se devem bater, procurando cumprir aquela solidariedade que é devida à matriz originária da nossa língua, a Galiza. Nessa defesa, os cidadãos de Portugal e Brasil, através dos seus governos democráticos podem dar um contributo decisivo recordando as chancelarias dos compromissos diplomáticos assumidos no passado entre Espanha, Brasil e Portugal na defesa e sustentação da promoção da língua portuguesa da Galiza. Especificamente, usando a recolha de António Gil Hernández[44]trata-se aqui do Convenio cultural con el Brasil de 25 de junio de 1960 onde se reconhece a “comunidade de tradições sobre as quais se baseia a vida cultural dos dois países” de forma a “tornar ainda mais estreitas e fecundas as relações literárias, artísticas, científicas e técnicas já existentes entre ambos os povos”. Mais tarde, em 1970, Madrid assinaria com Portugal idêntico convénio intitulado “Convenio de relaciones culturales con Portugal, de 22 de mayo de 1970”, reforçado posteriormente pela “Orden de 14 de agosto de 1973” onde se determina a “aprovação das bases de programação da Língua Portuguesa para a segunda etapa da Educação Geral Básica”. Em todos estes casos, Madrid fez letra morta do espírito e da letra destes convénios. Pelo contrário, intensificou os seus esforços em prol da assimilação cultural e linguística numa Espanha cada vez mais aglutinadora e onde o castelhano se confunde com a “língua espanhola”. Cabe assim a todos os cidadãos lusófonos o dever histórico de defenderem a matriz original da sua língua e culturas, partirem em defesa da língua portuguesa da Galiza e forçarem os seus governos democráticos e eleitos a recordarem a Madrid os tratados assinados e logo esquecidos.

Mas a Cultura lusófona só se poderá desenvolver em liberdade. Sem liberdade de expressão não pode haver produção de Cultura. Essa independência não existe na Galiza, onde apenas os inteletuais ligados ao processo de “Normalização Linguística” patrocinada pelo Governo Autonómico recebem apoios e divulgação. Essa produção terá que gerar rendimentos suficientes para suportar esses criadores, já que não podem contar com auxílios estatais (nem de Espanha, nem da Galiza do PPdG), assim dependem da capacidade de se fazerem entender na malha lusófona para sobreviverem, uma vez que dificilmente conseguirão sobreviver contando apenas com os 3 milhões de galegos (dos quais nem todos compreendem a língua portuguesa da Galiza), mas com a adoção do Acordo Ortográfico de 1990 é um mercado cultural de mais de 250 milhões de pessoas que se abre como sustentáculo à produção cultural galega. Assim esta siga a grafia Reintegracionista…

Não confundamos contudo “normalização” com “inclusão”. O processo de “normalização linguística” encetado timidamente pelo Bipartido PSdG BNG e agora travado pelo regresso ao poder do PPdG nunca conseguiu cumprir o seu verdadeiro objetivo: o de realizar a inclusão da língua portuguesa da Galiza na comunidade, já que o galego se “impôs” apenas em doses minúsculas, sempre pela via da planificação linguística nas formas de uso institucionais ou oficiais que – de facto – têm sempre uma incidência muito limitada na vida privada e pública dos cidadãos. Não será assim pelo facto de levar a que alguém numa repartição pública ou empresa utilize uma dada língua que esse alguém depois se sentirá compelido a utilizá-la nas suas redes sociais. O caso da escola é já um tanto diferente, já que se substituiu agora à família como forma principal de conhecimento da língua própria entre os jovens e porque os pais, ao cumprirem as suas tarefas de auxílio dos estudos dos seus filhos acabam eles também por serem introduzidos ao conhecimento da língua.

O Castelhano: Ponta de Lança da Globalização

Um dos veios propulsores da multiplicação do uso do castelhano na Galiza é a Globalização. A imensa massa demográfica de falantes desta língua no mundo (362 milhões), a intensidade das exportações espanholas e da Galiza para a América do Sul, estão a tornar a língua portuguesa da Galiza cada vez menos popular entre os jovens e os círculos urbanos[45].

Afirmação Positiva

Os manifestos “Galego. Patrimonio da Humanidade” recebeu já mais de mil e trezentas assinaturas e “Manifesto pela Hegemonia Social do Galego”[46][47], já foram assinados por milhares de cidadãos lusófonos que sublinham o manifesto abandono por parte do atual elenco governativo galego das políticas de “discriminação positiva” delineadas com vigor variável nos mandatos anteriores de Fraga Iribarne e Fernandéz Albor se arrisca a comprometer a prazo a própria sobrevivência da “língua da Galiza” ou “língua portuguesa da Galiza”. Estas políticas de defesa de uma língua proibida durante os longos anos do franquismo estão agora ameaçadas. Alicerçadas em torno da “Lei da Normalização Linguística de 1983” e pelo “Plano Geral de Normalização Linguística de 2004”, estas duas leis fundamentais para a defesa e promoção da lusofonia na Galiza criaram os três pilares de defesa da língua:

Pela consideração da “igualdade” entre o galego e o castelhano em todos os âmbitos sociais e da administração;
Através da obrigatoriedade em garantir a normalização do português da Galiza como língua própria da Galiza.
Assegurar que nenhum cidadão seja descriminado porque utiliza uma ou outra língua: o castelhano ou a língua portuguesa da Galiza.
Estes três consensos atravessaram durante três décadas todo o espectro político galego. Até agora. A pressão dos espanholistas levou a que atualmente este consenso esteja ameaçado e que a pretexto de uma suposta “liberdade de opção” existe uma intenção de impôr a supremacia do castelhano e a transformação da língua portuguesa da Galiza numa relíquia etnográfica, utilizada por apenas uma escassa minoria e com morte anunciada. Esta supremacia insinua-se lenta, mas de forma aparentemente inexorável e começou pela supressão da prova de galego como requisito de acesso à função pública.

Durante a maior parte da história da Galiza, o idioma esteve proibido. Foi assim até à queda da ditadura franquista. Perante uma tão poderosa e frequentemente violenta pressão, os governos autonómicos procuraram (até um passado recente) instalar mecanismos que pudessem reequilibrar a balança e transformar o idioma próprio da Galiza numa renovada alternativa. Esta proteção especial de que gozava a língua portuguesa na Galiza permitiu nas últimas três décadas que a língua não desaparecesse do uso comum, permitindo que a Galiza continuasse a ser efetivamente uma sociedade em que se falam duas línguas. É a esta “proteção especial”, pacífica, assente no sufrágio democrático e superador de velhas injustiças a que os espanholistas designam de “imposição”… Como se os escassos avanços recentes na defesa de uma língua tão reprimida como a língua portuguesa da Galiza se pudesse “impôr” a uma língua imperial, maioritária e de poder, uma acusação absurda como absurdas são as comparações invocadas a este propósito por María Pilar García Negro: “os negros impuseram a sua presença, igualmente a impuseram as mulheres lutadoras pela sua libertação ou os escravos pela sua emancipação”[48]. Obviamente que não. A dita “imposição” que teria estado em vigor durante o governo do bipartido (PsdG / BNG) não foi mais que uma débil tentativa de repôr algum equilíbrio numa equação perturbada pela imposição verdadeira da língua do poder.

Génese da situação atual de ameaça à sobrevivência da língua portuguesa na Galiza

A grave situação atual resulta em primeiro lugar de uma alteração no governo autonómico galego. O governo anterior, do chamado “bipartido” entre o Partido Socialista da Galiza e o Bloco Nacionalista Galego (BNG) pode ter levado à sua própria queda através de uma promoção – segundo alguns – de uma política linguística demasiado intensa, que teria levado ao afrontamento com a poderosa associação “Galicia Bilingüe”[49](de facto, defensores do uso do castelhano na Galiza) e, indiretamente e pelo seu apoio ao Partido Popular da Galiza (PPdG), à vitória por maioria deste nas últimas eleições autonómicas. Os que estabelecem esta ligação entre política linguística hiperativa e a ascenção ao poder dos espanholistas do PP acreditam que essa política repeliu os eleitores do coligado PsdG e levou à vitória do PpdG. Esta argumentação provêm de setores do PsdG, que a utiliza como justificação para a derrota eleitoral que o afastou do poder. Mas enferma de incorreções diversas: desde logo, um dos três pilares essenciais da política linguística do Bipartido, o “Decreto do Uso do Galego” foi da lavra, não do BNG, mas da Conselheira de Educação Laura Sánchez Piñón do PsdG, precisamente. O argumento segundo o qual haveria uma movimentação por parte de pais e alunos contra o uso do galego nas escolas, também não colhe, porque essa movimentação simplesmente não existe, pelo menos de forma organizada e sistemática. Na época, o Decreto foi alvo de vários recursos judiciais, movidos por associações espanholistas e todas foram negadas pelo Supremo Tribunal, que confirmou assim a sua legalidade.

Sendo assim, porque é que estamos então na presente situação, que ameaça a curto prazo a própria sobrevivência da Lusofonia na Galiza?    A causa fundamental deve ser encontrada numa atitude tímida e pífia por parte do Bipartido: a Comissão de Acompanhamento do “Decreto do Uso do Galego” não teve uma atividade digna de nota. O próprio BNG teve uma atitude tímida de defesa da língua, receoso de afrontar os seus parceiros de coligação e os setores mais espanholistas da sociedade, evitando ser rotulado de “radical”. Assim, nos quatro anos de governo do Bipartido não houve a suficiente promoção da língua própria da Galiza e sem essa devida massa crítica, não se criaram as condições necessárias para que o Galego fosse uma verdadeira alternativa linguística. O discurso dominante do BNG pôde aliás ser interpretado como se houvesse uma tentativa de salvar um “animal em vias de extinção” com um tom catastrofistas que se repercutiu na sociedade galega e reforçou o sentimento urbano hoje dominante em muitos meios que a língua portuguesa da Galiza estava à beira da extinção e que, logo, não era razoável aprendê-la, nem usá-la em público ou nas atividades profissionais ou culturais quotidianas[50].

Reação às políticas espanholistas do atual executivo autonómico galego

A questão da língua é hoje muito preemente na Galiza. Prova disso mesmo foi a manifestação de dia 17 de maio de 2009 que reuniu, segundo a polícia mais de 20 mil pessoas, e segundo a “Mesa pela Normalização Linguística” cerca de 50 mil manifestantes. Todos estes galegos, provenientes de vários meios e círculos políticos, concordavam na rejeição das políticas espanholistas do novo presidente da Junta Autonómica, Núñez Feijóo. Alguns espíritos mais inflamados pintaram montras de laranja de estabelecimentos comerciais, como filiais de Bancos espanhóis e de lojas de roupa que praticam políticas laborais hostis à língua portuguesa da Galiza. Provando que as atuais autoridades seguem estas reações com grande desconfiança, estiveram vários polícias, que identificaram vários manifestantes ameaçando-as com multas. Obviamente, estas ameaças não tinham substância legal, mas serviram para a manutenção de um clima de intimidação latente, como aquele que se vie em certos setores da sociedade galega.

A Importância da Língua Portuguesa na Galiza

A língua representa o pilar fundamental de convivência social em qualquer sociedade, logo, perdendo-se a língua, perde-se um aspecto essencial da nacionalidade. Sem uma “língua própria” (termo do “Estatuto da Autonomia” de 1981[51]), a Galiza perderia aquela Alma muito especialmente distinta da Espanhola, que recua até aos tempos do Priscilianismo, e se a perdesse , deixando também absorver a sua grafia por uma derivada da castelhana – espanholista – perderia também o Corpo. Sem ambos, ou um só, destes dois elementos, a identidade galega estaria condenada à extinção pela absorção na “Espanha”.

Virgílio Ferreira escreveu que “uma língua é um lugar de onde se vê o mundo”. No caso da língua própria da Galiza (este termo é o usado no Estatuto da Autonomia de 1981) esta afirmação é particularmente contundente. A defesa da sua sobrevivência na Galiza pode conceder a este povo lusófono condições para que se possa continuar a falar de “identidade galega” no futuro próximo e manter o plurilinguismo na Galiza, assumindo a sua importância para assegurar a própria prosperidade económica da Galiza num mundo onde a língua portuguesa e a castelhana – juntas – reunem hoje mais de 583 milhões de pessoas, dispersas pelos cinco continentes do Globo.

É o Professor I. Alonso Estraviz que aponta para as vantagens que poderiam advir à Galiza da adesão à Lusofonia: “Seria verdadeiramente maravilhoso que a literatura galega fosse conhecida no mundo luso-brasileiro e romper o cerco em que hoje a têm presa […] nós teríamos que fazer uma acomodação aos fonemas portugueses. […] A única solução para as letras galega é arrimar-se a Portugal, arrancar o pano que afasta as duas regiões para trabalhar nos mesmos ciclos. Esta possibilidade foi à algum tempo que começou a ser defendida com alguma força.[52]” É certo que no mundo existem mais falantes de castelhano[53](como primeira e segunda língua, perto de 500 milhões), mas mais importante que este número bruto é a quantidade de países independentes onde um utilizador da língua portuguesa se consegue fazer entender… e foneticamente, sabemos que um falante de português se consegue fazer entender e entender o que lhe dizem em castelhano[54], por isso aos 280 milhões de lusofalantes se podem somar os 500 milhões de castelhanofalantes, mas não o contrário… Por outro lado, os falantes do português estão geograficamente mais dispersos que os do castelhano, incluem dois países centrais aos subcontinentes onde estão inseridos (Sul de África e América do Sul). Não nos devemos também deixar ofuscar pelo suposto clarão representado pelos tais “500 milhões” já que se o número bruto fosse assim tão importante, então o mandarim, a língua mais falada do mundo, seria bem mais importante nas relações comerciais, científicas e culturais do que o inglês, o francês ou alemão… e sabemos que não é assim.

Não é segredo para ninguém que nas sociedades atuais, um dos factores mais importantes é o utilitarismo. As “coisas” são boas ou más em função da sua utilidade imediata; os bens e serviços culturais, bons ou maus, na medida em que conseguem gerar riqueza material, a prazo longo ou curto; e o argumento económico a favor do processo de imposição linguística do castelhano na Galiza recorre abundantemente a este tipo de argumentação economicista… No domínio linguístico, uma língua é hoje “útil” na medida em que possui um extenso horizonte geográfico, comercial e demográfico e esta utilidade aumenta à medida que o uso se multiplica e este círculo auto-alimentado aumenta assim o próprio capital económico associado à língua.

O regresso pleno da Galiza à Lusofonia poderia abrir aos produtores galegos de conteúdos culturais portas no maior país da América do Sul, o Brasil. Mas é certo que o mercado editorial e musical brasileiro não é muito permeável a importações culturais. Segundo alguns especialistas tal deve-se ao facto de que o gosto musical de cada povo ser fundamentalmente o mesmo que brota das suas tradições populares mais genuínas. No Brasil isso é especialmente verdadeiro no campo musical, já que sendo um mercado fortemente exportador, quase não contempla importações significativas do restante mundo lusófono. No campo da edição literária, a grande barreira da ortografia, que desde 1911 (por unilateral decisão da 1ª República portuguesa) é significativa já que a ortografia da língua portuguesa seguida no Brasil é única na Lusofonia, uma vez que os PALOP e Timor seguem ainda hoje a norma lusoafricana. O Acordo Ortográfico de 1990 veio resolver parte do problema imposto por esta barreira já que o número de palavras escritas de forma diferente no Brasil e nos demais países lusófonos reduziu-se de forma apreciável com a aproximação de oito mil palavras lusoafricanas às palavras brasileiras (0,6% do total de 510 mil) e a aproximação respetiva de três mil palavras brasileiras às lusoafricanas. Este esforço comum, de escala eternamente discutível, mas possível em 1990, tornou muito mais simples que um leitor brasileiro possa compreender na totalidade um livro de um autor galego que respeite esta norma ortográfica. Abrem-se assim oportunidades comerciais e de divulgação culturais ínéditas e a produção cultural de todos os países que aderirem ao Acordo de 1990 pode ser potenciada de uma forma notável. A Galiza, cuja literatura e ensaística em português da Galiza esteve até agora essencialmente encastrada na sociedade galego-falante com uma extensão cada vez menor, ano após ano, pode agora libertar-se desse pequeno mundo e interpenetrar em toda a Lusofonia e, especialmente, no enorme e com crescente poder aquisitivo, mercado brasileiro.

A “Questão da Língua” no Setor Educativo

A reinstauração da dinastia dos Bourbon, em finais do século XVIII, e a tentativa de criar um “Estado-Nação” espanhol recorreria ao Ensino do Castelhano como ferramenta central dessa nacionalidade inventada. As línguas nacionais foram relegadas para o plano pessoal e familiar e repelidas do Ensino que então se ia universalizando e que a “abertura” franquista da década de setenta iria amainar um tanto ao permitir que os idiomas nacionais fossem ensinados como opção aos currículos oficiais.

Não existe um modelo linguístico verdadeiramente digno desse nome, no sistema educativo da autonomia galega. Os políticos no poder optaram por aquilo que é conhecido como a “lei dos mínimos” que confessadamente tem como principal objetivo “conseguir um nível equiparável de domínio das duas línguas oficiais na Galiza por parte de toda a sua população”[55]. É esta “lei de mínimos” que, por exemplo, determinar que “nos níveis de Bacharelato, COU e Formação Professional, os alunos receberão o ensino em galego, pelo menos, em duas disciplinas”.

Apesar de todas as dificuldades que a língua própria da Galiza atravessa, sobretudo nas camadas mais jovens e nos meios urbanos, todos os estudos quantitativos indicam que existe um nítido aumento da competência linguística na língua própria. O progresso é especialmente sensível nas competências escritas, com uns notáveis mais de 85% de inquiridos[56]declarando “saber falar galego” e mesmo na franja estatística mais desfavorável – os jovens urbanos – a percentagem desce apenas para 78%, já que estes admitem dominar a expressão oral da língua. Algo que só ocorre devido ao processo educativo de que foram alvo. Sem o aspecto educativo da língua, a situação do galego seria hoje ainda mais grave, já que estando a língua limitada a esta expressão e à sua versão “castrapo” emitida pela televisão. Mas esta expressão limitada está na direta razão dos problemas que a língua portuguesa da Galiza hoje atravessa já que a competência linguística assim adquirida não cria uma expressão fluída – formada no meio unívoco de comunicação – nem gera a variedade de registos que possa garantir a sobrevivência da língua fora deste meio controlado e institucionalizado.

Estas fragilidades poderiam ser facilmente endereçadas através da existência de programas de imersão linguística de intensidade semelhante aqueles que existem atualmente no Euskadi ou na Catalunha, mas que o Bipartido não foi capaz de implementar, preferindo navegar nas tíbias águas de um “Bilinguismo formal” mas coxo, e que agora o PPdG jamais adotará. E é lamentável que assim seja, porque o plurilinguismo verdadeiro (não confundir com o espanholismo mascarado de “bilinguismo” de certos proselitistas) é um factor de sucesso neste mundo globalizado e aberto, já que o conhecimento de uma qualquer língua, além da materna, favorece a aprendizagem de outras,  num efeito multiplicador que multiplica a facilidade com que se adquirem novas competências linguísticas.

O Flagrante Contraste entre a Política Linguística Catalã e a Galega

Na Catalunha existe um processo de promoção linguística bem orientado para uma política de afirmação da identidade nacional. O Catalão, na Catalunha é assumido como peça fundamental de uma política nacional, nas palavras de Jordi Pujol, o presidente da Generalitat catalã: “o caso da Catalunha é peculiar: temos a nossa língua e culturas próprias, como uma nação sem Estado”[57]. Em claro contraste com esta situação, encontramos a Galiza… O objetivo confessado da política linguística – desde os tempos do Bi-partido (PSdG e BNG) é o suposto “bilinguismo harmónico”, que, nas palavras de M. Regueiro Tenreiro, diretor Geral da Política Linguística em 2000: “no contexto do contato das línguas naturalmente presentes na Galiza (castelhano e galego), nós desejamos desenvolver um sistema harmónico de coabitação das duas línguas”[58].

O “Racismo Linguístico”

A partir de 1982 – com a aprovação do “Decreto Filgueira Valverde” – a Direção Geral de Política Linguística desencadeou inspeções em escolas e começou a perseguição a todos os professores que não concordassem com a linha oficial do governo do PPdG. Apesar de todas as represálias há ainda um grupo muito significativo de professores de galaico-português ativos e exercendo a sua atividade, com graves prejuízos para a sua carreira.

Esta é a frente onde se trava o essencial da batalha pela sobrevivência do Galego. Um dos casos mais dramáticos envolveu um professor de matemática, despedido por defender o uso da língua própria da Galiza nas aulas de matemática de um liceu da localidade de Arteijo (A Corunha)[59][60].

Existem igualmente numerosos relatos que dão conta de médicos que recusam cuidados médicos a falantes da língua própria da Galiza, perante uma total passividade da Conselharia da Sanidade, responsável primeira pela tutela desse pelouro na Galiza.

Todos estes estes casos, cada vez mais frequentes, representam a instauração de um verdadeiro “Racismo Linguístico” (termo de Garcia Negro) que está a constituir um apartheid cultural entre galegos e espanholistas que cinde a sociedade galega transversalmente e que objetiva em último grau a total evaporação da língua portuguesa da Galiza a muito curto prazo.

Importância do Acordo Ortográfico de 1990 para a “Questão da Língua”

Se importa fazer regressar a Galiza ao seio da Lusofonia, tal processo só pode ser conduzido com sucesso através de uma conformação da grafia da língua portuguesa da Galiza (ou “língua galega”) ao mesmo corpo físico que assume hoje a cultura lusófona. Ou seja, a grafia comum que o Acordo Ortgráfico de 1990 permite começa a ser sonhada pode re-aproximar a cultura galega da demais cultura galega de quem tem estado separada por capricho político e pela força imperial e imperativa de Madrid, sempre ciosa da sua supremacia sobre as periferias autonómicas… Se a Galiza encontrar a unidade ortográfica com a demais Lusofonia, poderá participar de uma forma muito ativa na produção de conteúdos culturais, importar e exportar cultura, comungar com intensidade da cultura lusófona onde por direito, língua e história pertence e encontrar nesta fronteira virtual, mas física, porque gráfica, a delimitação de que carece para manter a sua individualidade nacional no seio de uma Espanha cada vez mais aculturante. A adoção de uma grafia lusofona comum (na melhor aproximação atual: o Acordo de 1990) poderia ser o passo decisivo para criar uma “língua culta” na Galiza, uma produção cultural consistente e sustentada, alimentada por um mercado interno de 3 milhões de galegos e por um mercado externo de mais de 260 milhões de falantes. Historicamente, a ortografia utilizada em Portugal é aquela que genuinamente se pode declarar como “galega”. O problema está em que após séculos de repressão e de espanholização e colonização, a maioria dos galegos sentem a grafia portuguesa como estrangeira. Este sentimento popular é intensificado pelos “notabili” galegos, políticos ou académicos, que dependem e se desenvolvem nesse meio negacionista e separatista, no contexto em que procuram separar a cultural galega da lusófona. Um dos instrumentos principais desses “notabili” é a invenção de uma escrita para o galego, deslocada a partir da oralidade da língua própria da Galiza e que pretende fazer divergir a língua portuguesa de Portugal da língua portuguesa da Galiza.

A norma ortográfica “isolacionista” elaborada pelos académicos do sistema, completamente deslocada da fala galega evitou que a grande maioria dos habitantes da comunidade autónoma se sentissem como membros da Lusofonia. Pelo abastardamento castelhanizante do idioma, os “notáveis” logram que a língua galega se afaste cada vez mais do uso correto do seu idioma próprio. O processo em curso, suportado por todas as instituições autonómicas, desde a Junta da Galiza, ao Parlamento que usam a ortogragia isolacionista como sustentáculo da sua própria existência e sobrevivência politica. A sua motivação é manter a existência da cultura e língua galegas como separadas da demais lusofonia, de forma a não ameaçar os seus cargos cativos na academia e no poder. Enquanto a grafia galega fôr distinta da grafia da demais lusofonia, a manutenção do status quo de que dependem está assegurada não só pela via da aparente diferença de grafias, mas também pela via da quebra daquilo a que António Gil Hernández[61]descreve de “virtualidade identificadora”, aludindo à capacidade única que uma ortografia possui para construir uma imagem mental de diferença e alteridade em relação ao quadro gráfico castelhano que a rodeia.

A presença da Galiza na implementação do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990[62]foi bastante intensa. O processo foi conduzido essencialmente pela “Academia Galega da Língua Portuguesa” (AGLP), que tomou parte de várias discussões, conjuntamente com académicos portugueses, da Academia de Ciências de Lisboa e aquando do debate público na Assembleia da República (onde também estivemos presentes) havia três delegações galegas. A presença dos especialistas galegos poderia ter criados alguns melindres diplomáticos, mas tal não sucedeu. Talvez porque, como a Academia de Letras brasileira, a AGLP seja uma instituição de direito privada (A Academia de Ciências é pública), ou talvez porque todo o processo tenha sido conduzido sempre com conhecimento prévio e informado da Embaixada de Espanha em Lisboa, o certo é que a AGLP foi reconhecida no seu papel pelas suas congéneres portuguesa e brasileira em todo o processo. Isso mesmo foi admitido pelo professor António Gil Hernández, da AGLP, em entrevista ao jornal “Novas da Galiza”[63].

O espanholismo patente nas ações e declarações do novo governo galego do PPdG podem representar um obstáculo à ação da AGLP a propósito da implementação do Acordo de 1990 na Galiza. Atualmente, a atitude predominante parece ser a de não constituir barreiras, nem fornecer apoios explícitos. De qualquer forma, o estatuto privado da AGLP, a sua independência financeira do Governo (que contrasta com a dependência governamental da “Real Academia Galega” isolacionista) permitem crer que tudo continuará como dantes na defesa e promoção da implementação do Acordo de 1990 na Galiza. O Governo de Madrid, que tem todas as competencias relacionadas com os negócios estrangeiros foi colocado a par de cada movimentação da AGLP, assim como a própria embaixa espanhola em Lisboa.

A intensidade da presença Reintegracionista galega nos debates em torno do Acordo compreende-se  porque a situação de preemente ameaça à sobrevivência da língua portuguesa da Galiza e o fracasso rotundo do Isolacionismo na promoção do uso da língua assim obrigou. De facto, os representantes galegos nos debates do Acordo estavam em alguns pontos mais avançados do que as outras delegações. José Luís Fontenla[64], escritor e ensaísta galego em 2000, defendia uma “ortografia unificada como também uma ortofonia comum mínima ou ortologia, ortoépia; e uma dicionarística comum, terminologia uniforme, etc., pelo que nasceu o VOCT, Vocabulário Ortográfico Comum e de Terminologia, para toda a Lusofonia, na negociação do primeiro Acordo Ortográfico de 1986”[65].

Mais recentemente, em 2001, Rodrigues Lapa, escrevia em Galaxia “Lua de Além-Mar”: “Pensa ele [Guerra da Cal], e muito bem, que devíamos fazer uma reunião entre portugueses, brasileiros e galegos, para lançar as bases de uma reforma ortográfica”.

O “Reintegracionismo”

De forma simplificada, o objetivo do Reintegracionismo, ou “Galeguistas Lusófonicos”[66]é o de reintegrar a língua da Galiza e da “Galiza Exterior” (territórios alienados da Galiza para Asturias e Leão no século XVII) com a língua e a grafia portuguesas em uso a sul do rio Minho e no chamado “Espaço Lusófono”. Através desta reintegração, este movimento visa fazer regressar a língua da Galiza à unidade linguística original que existia quando Portugal e Galiza atuais faziam parte de uma mesma entidade política e administrativa, a Galécia. O Reintegracionismo é assim constituído por um conjunto de movimentos e associação cívicas, não-políticas que defendem os direitos linguísticos dos habitantes da Galiza enquanto parte do espaço cultural lusófono. O movimento visa uma reposição da normalidade da língua portuguesa da Galiza não somente através da sua alma, ou oralidade, mas também através do seu corpo ou forma, a grafia, aproximando ambos dos usos idiomáticos atuais no Brasil e em Portugal.

O termo “Reintegracionismo” terá sido utilizado pela primeira vez neste contexto unificador da cultura portuguesa e galega por Vicente Risco, na década de 20 do século XX quando na histórica revista “Nós” afirmava que “o galego e o português são duas formas do mesmo idioma” (nº160, página 1 de abril de 1922)[67]. Na mesma época, outro autor, de nome Antom Vilar escrevia que “A Galiza considera o português como o galego nacionalizado e modernizado”; “Não há palavra que seja claramente portuguesa que não seja claramente galega e vice-versa”. Também Rafael Blanco Torres referia que era necessário efetuar uma “unificação ortográfica, dez anos depois, na década de trinta e em 1932, Roberto Blanco Torres, no “El Pueblo Gallego” aludia a uma unificação das grafias entre Portugal e a Galiza. Outro autor, Otero Pedraio, escreve: “Por algo a nossa língua é a mesma de Portugal” e “a língua deve voltar a ser a mesma”. João Vicente Biqueira: “O galego, não sendo uma língua irmã do português, senão uma forma de português (como o andaluz do castelhano), tem-se que escrever, pois, como o português”. Álvaro das Casas: “Cuido que deveríamos sujeitar-nos no possível ao português, tanto mais que, na maior parte dos casos, ficávamos mais dentro das nossas formas originárias […] seria muito conveniente um encontro de filólogos portugueses e galegos, para a unificação possível das nossas línguas”[68].

Em finais da década de 60, escrevia o Professor Agostinho da Silva a propósito da reintegração entre o galego e o português: “Parece, portanto que o que se tem de fazer é uma integração geral do Galego, do Português de Portugal e do Português do Brasil […] Deve poder dizer-se indistintamente que o Galego é uma forma do Português, ou o Português é uma forma do Galego”[69]. Na mesma esteira haveria de pronunciar-se aquele que é ainda hoje a figura mais notável do Reintegracionismo, o filólogo português Rodrigues Lapa[70], desde cedo acusado pelos Isolacionistas de “imperialismo linguístico” escreveria em 1979: “sempre considerei a Galiza, essa terra maravilhosa, desgraçada e incompreendida, como sendo a minha própria terra; e, historicamente e geograficamente assim é, pois estou dentro dos limites da velha Galécia, que chegava pelo sul ao rio Mondego” e, noutro texto: “O único remédio eficaz para a salvação do idioma, gravemente ameaçado, deverá ser uma decisiva aproximação com o português, que poderá considerar-se a expressão literária do galego”[71]. Um ano depois, em 1973, Rodrigues Lapa adiantava que “falta ao galego de hoje a consciência de que galego e português foram e são ainda a mesma língua, apesar das diferenças que a uma delas imprimiu o contacto com outra língua, culta e dominadora”. […] Por isso, quaisquer que sejam as vicissitudes que o destino e a cobardia dos homens reservem ao idioma galego, uma coisa temos como certa: esse doce linguajar não morrerá, pois se ouve e se lê em Portugal, onde é uma língua de cultura”[72]. Em 1983, em plena aprovação da Ortografia normalizada pela RAG e pelo IGL, Isaac Estraviz escrevia: “Tentar, portanto, uma ortografia própria para o galego independente da portuguesa, obedece a uma ignorância imperdoável, a um infantilismo linguístico, a um nacionalismo irracional ou a uma manipulação dos servidores do colonialismo para levar a cabo a morte do galego na Galiza”. Estraviz referia-se a um desejo de proclamar a sua fidelidade a “Espanha”, a uma ânsia quase patética de usar a ortografia para se afirmar a negação de uma independência nacional, ou seja, para subverter a verdadeira finalidade da ortografia que é a corporificar uma oralidade. Mas a motivação para esta ortografia espanholizante provêm também de um desejo genuíno por parte destes académicos da “situação” para buscarem na fala popular da Galiza e do norte de Portugal as raízes de uma nova língua culta, capaz de produção literária e científica. É claro que esse afã se revela improdutivo porque é um processo que parte de um erro fundamental: o de assumir que português e galego são duas línguas completamente diferentes quando na verdade – segundo o Professor e muitos outros linguistas – “todas as particularidades fonéticas e morfológicas que se dão em Portugal, dão-se, em maior ou menor medida, na Galiza. E todas as particularidades existentes na Galiza, existem, em maior ou menor proporção, também em Portugal” (Estraviz, 1978), então porque insistir em dividir em duas a grafia de uma língua que, essencialmente, é una? Apenas por motivações politicas, naturalmente… Por outro lado, é o linguista brasileiro Evanildo Bechara[73]que recolhe o argumento mais convincente conta a ortografia Isolacionista quando em 1990 escrevia “a ortografia é fonêmica, e não fonética, isto é, não se preocupa com registar variedades da fala […] unidade ortográfica não significa conformidade de língua se bem que uma língua histórica não deve ter mais de uma ortografia”. Assim se constata que o argumento Isolacionista segundo o qual a ortografia normalizada deve conformar e refletir diretamente a lingua popular rural não colhe uma vez que português e galego são de facto “variedades de uma só fala” e que logo, segundo a expressão do linguista, deveriam conformar-se a uma única ortografia. Um argumento, aliás, a favor do Acordo Ortográfico para a Língua Portuguesa de 1990, discorde-se ou não de determinados pontos do seu arrazoado ou da quantidade de palavras alteradas nos dois lados do Atlântico.

Um termo que tem hoje uma carga pejorativa é o termo “lusista”, usado para identificar os Reintegracionistas da sociedade galega pelos Isolacionistas e pelos próprios quando a designação surgiu na década de 20, isso mesmo reconhece um dos espíritos mais brilhantes do Reintegracionismo, o Professor Carvalho Calero escrevia em 1978, na revista Grial: “A qualificação de lusistas, que, com sentido pejorativo ou neutro, dão alguns aos que professam as ideias expostas, não nos parece feliz, pois do que se trata é de restaurar o caráter puramente ocidental do nosso romance, libertando-o, na medida em que caiba, de contaminações centralistas”. O termo tem hoje uma carga negativa que apela diretamente à paixão nacionalista espanhola de muitos habitantes do país vizinho e até de alguns habitantes da Galiza porque se confunde facilmente com “Lusíadas ->> Portugueses”. A palavra é assim usada como se fosse um signo de “traição” ao Reino de Espanha e de prestação de fidelidade a Portugal. Obviamente, nada mais falso e incorreto… A esmagadora maioria dos Reintegracionistas não é separatista, pelo menos não no sentido em que advogam uma independência de Espanha e uma união política com Portugal. De facto, alguns até defendem uma variante inédita que afetaria os dois países, de igual forma e medida, já defendem uma união política entre a Galiza e o apenas o norte de Portugal. De qualquer forma, são minoritários e o clamor de “traição” que transpira da expressão “lusistas” é absurdo porque estabelece um paralelo automático entre as teses do Reintegracionismo linguístico e o Integracionismo da Galiza em Portugal. O Reintegracionismo – enquanto movimento linguístico e ortográfico – não pretende anular a identidade nacional galega e fundi-la na portuguesa. Tenciona tão somente devolver à língua portuguesa da Galiza a sua própria natureza e oferece uma via alternativa para reconstruir uma língua proibida durante seis séculos além daquela escolhida pela Real Academia Galega e pelo Instituto Galego da Língua: a de construir uma língua culta a partir das sobrevivências rurais, severamente contaminada pelo castelhano, língua do poder económico, político e religioso durante séculos. Assim, a recuperação da língua da Galiza pode apenas ter lugar regressando às suas origens e estas sobrevivem hoje apenas num lugar: na língua portuguesa e por isso se pode usar com toda a propriedade o termo Re-Integracionismo.

Como já tivermos oportunidade de mencionar, os órgãos oficiais do Governo Autonómico na disputa entre Isolacionistas e Reintegracionistas escolheram, desde 1983, a sua posição. A partir daí não têm existido apoios financeiros ou de outro tipo a qualquer género de produção cultural que use as formas reintegracionistas de grafar a língua portuguesa da Galiza. Esta atitude ilegal – já que todos são galegos e igualmente merecedores de apoios públicos – reduziu profundamente a quantidade de material públicado pelos Reintegracionistas a edições de autor e a pequenas editoras.

Duas Tendências Reintegracionistas: Tendência Universalizante e Tendência Isoladora

A tónica dominante nos meios culturais e linguísticos que utilizam a língua da Galiza é a divisão. Com efeito, além da divisão entre falantes da língua portuguesa da Galiza e de Castelhano e da divisão entre galeguistas isolacionistas e reintegracionisas, no seio do movimento reintegracionista há também uma divisão interna entre uma Tendência Universalizante e uma Tendência Isoladora.

A Tendência Universalizante era paradoxalmente a dominante na Real Academia Galega (RAG) no princípio do século XX, quando o seu presidente, Manuel Murguia em 1910 escrevia que “o galego e o português, são o mesmo na origem, gramática e vocabulário. Porque não aceitar a ortografia portuguesa? Se nos foi comum em outros tempos, porque não há de sê-lo de novo?[74]” Na época, as teses Isolacionistas que hoje dominam o pensamento e a ação da RAG não existiam e o seu próprio presidente podia pretender combater a confusão de registo escrito em que estava mergulhado a língua da Galiza da sua época, buscando nas raízes galaico-portuguesas uma terra sólida para fazer reflorescer as letras galegas. Hoje em dia, a RAG não segue a mesma corrente. Mas a tese do seu presidente em 1910 foi adotada pelos Reintegracionistas Universalizantes que além dos particulares que dizem respeito às particularidades históricas e culturais que distinguem a língua portuguesa da Galiza das demais variantes, não permitem contudo o seu afastamento desse universo linguístico. No interior da corrente Reintegracionista Universalizante é ainda possível localizar duas divisões,  acentuando a fragmentação do movimento e em flagrante contrate com a unidade Isolacionista: Os Reintegracionistas de Mínimos e os Reintegracionistas de Máximos. Ambos os grupos reconhecem que a língua da Galliza é hoje um híbrido sendo que os primeiros acreditam que nesse híbrido predomina o componente castelhano e os segundos, a componente portuguesa[75].

A outra tendência Reintegracionista é minoritária e congrega aqueles que acreditam que a independência é a única via que garante a sobrevivência da nacionalidade e da língua da Galiza. Não advogam qualquer aproximação política a Portugal, mas a simples separação de Espanha e a formação de um país completamente independente. Os Reintegracionistas Isolacionistas acreditam que a língua da Galiza é diferente de todas as outras línguas do mundo e que é uma “língua de cultura”, contudo, não estão interessados nas questões ortográficas mas apenas no discurso político e nas suas ligações com a questão linguística, não a colocando no centro do debate. É contudo contraditório que defendam uma grafia “só galega”, mas desvalorizam a castelhanização da norma de 1983, admitindo assim implicitamente que a língua galega é subalterna à castelhana, em franca contradição com os seus princípios independentistas.

As principais organizações “Reintegracionistas” ativas atualmente na Galiza

Pouco antes da imposição do modelo ortográfico Isolacionista, em 1983, os cidadãos da Galiza defensores do Reintegracionismo começavam a organizar-se. Em 1980, funda-se a Associação de Amizade Galiza-Portugal que na sua publicação “Hífen” usa as designações “galego-português” e “português da Galiza”. A associação chama a si várias denúncias públicas por discriminações por parte do Governo Autonómico contra professores Reintegracionistas e contra a política linguística da Junta.

Em 1981, seria fundada a Associaçom Galega da Língua (AGAL), tendo a revista “Agália” como órgão oficial, recolhendo apoios no interior e no exterior da Galiza. A AGAL publicou um “Prontuário Ortográfico” em 1985 e um “Guia de Verbos” quatro anos depois, para além de várias obras de literatura usando a ortografia Reintegracionista[76].

Outras associações reintegracionistas estão hoje também muito ativas como a Embaixada Galega da Cultura, O Grupo Reintegracionista Autónomo Meendinho, a Associaçom Reintegracionista Artábria, o Movimento de Defesa da Língua, a Assembleia Reintegracionisa NH, a Assembleia da Língua, a Associação Cultural Pró-Academia Galega da Língua Portuguesa – especialmente ativa nas questões do Acordo Ortográfico de 1990 e no apoio direto e indireto à Academia Galega da Língua Portuguesa[77].

O Erro da Grafia Adotada em 1983

A grave situação presente que vive a língua portuguesa da Galiza encontra uma boa parte da sua razão no erro histórico que foi a adoção em 1983 de uma grafia independente. A grafia do galego então escolhida – sob a regência do asturiano (logo, não-galego) Constantino Garcia – afastava a Galiza da Lusofonia e impedia que os escritores galegos pudessem ser lidos em mercados culturais tão promissores como o Brasil, Portugal, Angola ou os numerosos migrantes da diáspora lusófona. A ortografia defendida pelos Isolacionistas divergia da portuguesa e convergia com a castelhana.

Se na década de 30 e 40 havia uma quase unanimidade entre os intelectuais galegos de que o Galego e o Português eram uma só língua e de que a grafia portuguesa devia ser adotada na Galiza, a partir da década de 70 e, sobretudo a partir de começos da década de 80, os meios académicos e “oficialistas” eram já dominados por aqueles que contradiziam essas teses e defendiam publicamente – com muito foco mediático – de que “a separação hoje entre o galego e o português é enorme. E o feito é que nós, quando vamos a Portugal, não nos entendemos, nem nós a eles. A separação é total”. Obviamente, tal afirmação enferma de profunda má fé e não corresponde de todo à verdade. Na investigação para este texto percorri algumas das maiores cidades galegas sabendo que era precisamente nos meios urbanos que a crise da língua da Galiza era mais acentuada e que estando estes associados nas mentes populares a “crescimento económico e modernismo” e os meios rurais a “atraso e envelhecimento” e que era precisamente nestes que o uso do galego era ainda mais comum. Em todo o lado foi compreendido e compreendi na perfeição. Quanto os meus amigos galegos me visitam em Lisboa, exprimo-me recorrendo ao meu português de sempre, sem concessões “castelhanizantes” e de igual forma, o entendimento é absoluto. Assim tal bombástica e falsa afirmação só pode advir de uma atitude negativa quanto ao entendimento mútuo português-galego com motivações políticas ou espanholistas, no restrito cumprimento da agenda isolacionista.

Na Galiza esta grafia híbrida galego-castelhana é designada por muitos como “Castrapo” ou “Galego mezCLAO[78]” e é aquela que tem recebido o patrocínio das instituições oficiais do governo autonómico: a Universidade de Santiago, com o seu Instituto da língua da Galiza (ILG), a Real Academia Galega (RAG), pelo Conselho de Cultura Galega e pelo Centro Ramón Piñeiro, todos financiados total ou parcialmente com dinheiros públicos. A grafia independente de 1983 foi da lavra destas duas instituições “oficiais”, que sob a liderança de Constantino Garcia produziram as “Normas Ortográficas e Morfológicas” para o idioma galego em 1982, que posteriormente, um ano depois, seria aprovadas sob a forma de alvará pelo governo autonómico. A obra da equipa de Garcia consistiu em abastardar o galego, adaptando a sua grafia à ortografia, morfologia e sintaxe do castelhano, por exemplo, usando o x em lugar do g/j com vogal. Posteriormente houve mais duas reformas menores a este sistema de 1983, em 1995 e em 2003, que não alteraram a inclinação geral para a fusão do ortografia com o castelhano.

Ainda antes da publicação das “Normas Ortográficas e Morfológicas” em 1982, o ILG, já em 1972 dava o mote daquela que seria a sua orientação para os anos vindouros ao carimbar como “lusismos” partículas como os sufixos -ales e abria desde logo caça a todas as expressões populares que lhes parecessem semelhantes às portuguesas, assim procuravam expurgar o galego de todas as formas portuguesas filológicamente válidas e forjava o “bom galego castelhanizado” da feliz expressão de María Pilar Negro[79].

Os Isolacionistas

Os que estiveram na refundação da Comunidade Autónoma da Galiza estabeleceram com os espanholistas e com Madrid uma espécie de pacto secreto não-verbal em que só se permitiam as opções políticas que não colocassem em risco a unidade do Reino de Espanha. Exteriormente, os Isolacionistas, porque é disto que se trata, esforçam-se por evitar invocar a subordinação nacional da Galiza a Espanha e multiplicam-se em declarações vazias e inconsequentes sobre os laços que ligam a Galiza a Portugal e à Lusofonia. Estes nacionalistas galegos de orientação Isolacionista não se identificam com o termo “Isolacionista” alegando rejeitar o “isolamento”[80]da língua portuguesa da Galiza para com a demais Lusofonia e esse é o discurso oficial até entre as forças que integram hoje o NÓS-UP, e diversas forças hoje englobadas no Bloco Nacionalista Galego (BNG): União do Povo Galego, O Movimento Comunista da Galiza e a Coalição Galega[81].

A citada União do Povo Galego (parte do BNG) é a respeito da “questão da língua” particularmente ambígua: no seu IV Congresso de 1983, e a “respeito da disputa normativa” afirma “rejeitar a alternativa espanholista que goza de apoio institucional”, o que poderia ser lido como um apoio às teses reintegracionistas com a Lusofonia, mas afinal esclarece que rejeita igualmente “a homologação total com a variante culta a sul do Douro”, evitando cuidadosamente a utilização da palavra “português” e afirmando afinal pretender criar uma terceira alternativa[82]num exótico exercício que já em começos da década de 90 debatia as grafias da Real Academia Galega, do Instituto da Língua Galega e até da Reintegracionista Associação Galega da Língua, fugindo cuidadosamente qualquer referência à língua portuguesa ou à integração da língua própria da Galiza no universo lusófono e referindo um prazo de dois anos (em 2000) para que as entidades linguísticas acima listadas elaborassem uma única normativa “oficial”, cometendo no ato um erro basilar porque em Espanha não se legisla sobre ortografia, nem da língua oficial do Estado, o castelhano e ainda menos que nas línguas nacionais. Logo, não se poderia legislar jamais assentando numa ortografia oficial, produto deste almejado e utópico consenso entre linguistas, porque tal simplesmente nunca se fez em Espanha.

Os Isolacionistas acreditam que existe uma “língua galega” e têm atrás de si todo o peso das instituições oficiais e académicas do Estado, sobretudo a Junta de Galicia e o Instituto da Língua Galega e a Real Academia Galega. Não revelam problemas em reconhecer que a forma do idioma que defendem é um “crioulo”, um híbrido entre o castelhano e a fala popular rural galega que sobreviveu até ao século XIX.

Ramón Lorenzo, um dos Isolacionistas mais ativos da defesa da sua causa sumariava a sua posição em 1981, um ano antes da aprovação do fatídico “Decreto Filgueira”: “Quando se tratou de normativizar a língua a Academia Galega [Real Academia Galega] e o Instituto de língua da Galiza chegaram a uma norma quase comum, a uns quantos aficcioniados ocorreu-se-lhes apresentar uma norma lusista, ou ‘reintegracionista’, como se diz para dissimular, querendo achá-lo galego ou português na grafia, na morfosintaxe e no léxico (…) Assim chega-se a duas posturas totalmente contrárias, porque a uma excluí a outra e não há possibilidades de entendimento. Estes galegoaprendizes em muitos casos fizeram um mau favor ao galego e contribuiram para que as pessoas se indispuzessem ainda mais contra a nossa língua”[83].

Após aceitar que a língua da Galiza seria uma das duas línguas de uso oficial arrancou o processo de Normativização. Uma língua que tinha sobrevivido desde os finais do século XIV apenas pelo registo popular e rural e que tinha perdido a norma culta ou a maioria dos documentos escritos carecia agora de uma qualquer espécie de acordo público que definisse uma forma comum de escrever as suas palavras. A tese principal dos “notáveis galegos” era de que a norma isolacionista procurava “escrever como se fala”, mas esta pretensa primazia à oralidade para forjar uma normativa para o galego na sua ânsia quase desesperada de afirmar a diferença para com a língua portuguesa esquecia que em Espanha não há “normas” ortográficas, tornando assim a Galiza numa anomalia entre as diversas nacionalidades ibéricas: a única que tinha uma normativa oficial.

A recuperação de uma norma culta poderia advir da reaproximação com a norma culta já em uso extensivo nos países de expressão oficial portuguesa, nem recuando a um passado perdido (como mencionam injustamente os seus críticos), nem perdendo a identidade, mas atualizando, modernizando e integrando numa das línguas cultas mais importantes da atualidade a produção literária galega. Após o predomínio da corrente Reintegracionista, nas décadas anteriores, na atualidade, na Academia Galega [Real Academia Galega] e no Instituto de língua da Galiza, são os Isolacionistas que dominavam já estas duas organizações e por isso essa Normativização decorreu de acordo com os seus princípios. Os termos utilizados pelo linguista reflectem uma discussão que ainda em 1981 e no auge da imposição da sua opção levava ainda os Isolacionistas a diminuírem a imagem pública dos Reintegracionistas agregando-os num termo que a partir daí se tornaria pejorativo: “lusistas” (alegando que estariam rendidos a Portugal e aos seus interesses, contra a Espanha). A imagem intelectual dos Reintegracionistas foi atacada com uma pura argumentação ad hominem em que estes académicos e filólogos eram tratados de “amadores” (“aficionados”) e “galego-aprendizes” (afirmando, falsamente, que conhecia mal a língua da Galiza). Numa ânsia seguidista de agradar ao que julgavam ser os melhores interesses de Madrid estes Isolacionistas não hesitaram em utilizar a falácia de contrastar o “galego” com o “português”, de forma a cativar para si a aprovação dos numerosos colonos de 2ª, 3ª e 4ª geração oriundos de toda a Espanha que apenas falavam castelhano e que toleravam apenas um galego castelhanizado que pudessem compreender mais facilmente, ou até confundir, se contactassem apenas com a sua forma escrita.

O maior objetivo desta grafia de 1983 era político. Visava tão somente persuadir pelo uso, os cidadãos da Galiza de que a língua própria da Galiza não era português, mas uma língua aparentada, mas completamente distinta. Este era o discurso oficial do governo do PPdG de Fraga e fundou as bases daquela corrente que hoje é dominante nos meios académicos e governativos galegos sob a forma de “isolacionismo”.

Com apoio de milhões de euros provenientes dos fundos da Conselharia para a Cultura do governo autonómico, com o apadrinhamento de um número significativo de académicos e até de vários quadrantes do nacionalismo galego, a norma ortográfica isolacionista haveria de dominar, sendo ainda hoje a mais comum na Galiza. Para grande satisfação dos espanholistas, que vêm assim em bom curso o seu processo de absorção gradual e sistemática da língua portuguesa da Galiza…

A Falácia do “Bilinguismo” e o Papel da Televisão no Mesmo
Ainda que seja possível percorrer toda a Galiza, falando apenas português e sendo perfeitamente compreendidos por todos, a verdade é que todos os habitantes deste território ao norte do Minho com perto de 3 milhões de habitantes falam e entendem o castelhano. Existe ainda assim um saudável, produtivo e efetivo “bilinguismo” castelhano-galego na Galiza. A estatística oficial do Estado espanhol (1999) revela que a Galiza é a comunidade bilingue espanhola onde as competências orais da língua nacional são mais elevadas, já que na Galiza 90% da população com 18 ou mais anos é capaz de a falar, enquanto que na muito mais mediática (na sua luta pela identidade e pela língua) esse número não ultrapassa os 80%.  E não devemos negar que o processo de “normalização linguística” do período pós-franquista levou o galego a muitos que o desconheciam. Com efeito, depois dos anos 70, a alfabetização na língua própria da Galiza permitiu fazer descer o número daqueles que desconhecem a língua própria para menos de 20%[84]. Estes factos criaram as condições para um efetivo e salutar bilinguismo na Galiza. Depois da regência tímida (no campo sociolinguístico) e Isolacionista do Bi-partido e com a ascensão do PPdG ao poder assistimos a uma inversão do processo e a uma consolidação do poder e da influência do castelhano na Comunidade Autónoma. Atualmente,  o governo autonómico subsidia – por exemplo – mais livros em língua castelhana, do que na língua própria da Galiza, o que ilustra bem o atual estado de coisas…

A pretexto de defesa de um tíbio “Bilinguismo” que, de facto, pretende apenas reforçar o predomínio do uso do castelhano em muitos campos da produção cultural e artística, o atual executivo autonómico não hesita em assumir a promoção, com fundos públicos, do uso do castelhano na produção cultural. Esta a única leitura possível da declaração produzida conselheiro da área de Cultura do PPdG, Roberto Varela que declarou que “iria dar uma oportunidade à produção cultural em castelhano na Galiza”. Como se fosse preciso derramar ainda mais dinheiro do Estado espanhol e da Autonomia galega sobre a promoção do uso do castelhano… Basta visitar qualquer livraria em Santiago de Compostela, Vigo ou Pontevedra para constatar da quase absoluta predominância da edição livreira em castelhano e a raridade daquela em língua portuguesa da Galiza. Idêntico panorama pode também ser constatado no teatro, no cinema, na música e até na televisão “Compañia de Radio Television de Galicia[85]” (o castelhano da designação oficial é eloquente) e na rádio, o uso do castelhano é já hoje, sem qualquer “oportunidade” financiada pelo erário público predominante[86]. A própria promoção pública do uso do castelhano na Galiza é redundante. Diversas instituições do Estado Espanhol já promovem de forma muito ativa e generosa financiamentos vários à promoção e utilização do castelhano em todo o território do Estado e o poder económico promove de forma muito ativa uma promoção muito intensa da língua dominante do Estado espanhol.

A “Compañia de Radio Television de Galicia” tem sido além do mais um veículo privilegiado para a castelhanização da língua portuguesa da Galiza através de uma deturpação intencional ou ingénua (decorrente da incompetência linguística dos seus responsáveis e locutores) que visa ir transformando a língua própria da Galiza num dialeto menor e secundarizado do castelhano. Na televisão, os locutores verbalizam palavras com os fonemas portugueses “g” e “j”, assimilando as palavras castelhanas correspondentes e abastardando topónimos como “Porto” em “Oporto”… Um dos entrevistados do livro de Ana Álvarez exprime de forma clara a situação de deturpação da língua galega na TVG: “estão ali falando um galego que não é galego para mim não é o galego que falo em casa com os meus pais, não é o galego que falo com os meus avós, entendes?”

A televisão é neste combate pela sobrevivência da língua portuguesa da Galiza uma batalha crucial: é com efeito através dela que os jovens urbanos (a faixa etária onde o uso exclusivo do galego é de apenas 10%) que estes contactam com a língua, para além do meio escolar. Assim, o conhecimento que dela tenham locutores de televisão e, naturalmente, os professores de galego, é fulcral e a competência linguística que ambos os grupos manifestem absolutamente fundamental para a sobrevivência da língua a curto prazo.

A Televisão cumpre assim o seu boçal papel de servente dos poderes instituídos e do genocídio em curso da língua portuguesa da Galiza. Mas se na TVG estamos perante um uso castrado da língua portuguesa da Galiza, nos meios de comunicação escrita a situação é ainda mais grave. Um estudo estatístico recente, realizado no concelho de Vigo indicava que 63% dos inquiridos acreditavam que a imprensa escrita devia usar o castelhano, um valor que curiosamente contrastava com os 23% para os meios televisivos. Uma diferença que se explicava pela ligação mental estabelecida nas mentes dos inquiridos entre “televisão local” e “televisão em galego”, já que uma surgira no mesmo momento temporal que a segunda, enquanto que imprensa escrita já existia – em castelhano – desde há séculos na Galiza. Esta opinião popular exprime a própria dificuldade da língua própria da Galiza em se afirmar como veículo de cultura e em se sedimentar como língua de futuro.

A posição do Estado Espanhol quanto ao “Bilinguismo” fica nítida no jornal El Pais de 27 de outubro, onde o presidente da Real Academia Española (RAE), Rafael Lapesa (1908-2001) dizia (traduzindo do espanhol): “Deus me livre que se prive a propriedade da língua castelhana, da língua espanhola… que tem possibilidades de afirmação mundial infinitamente superiores às das línguas regionais. Impor a proteção do catalão parece-me muito bem, mas não impor o catalão a centenas de milhar de castelhano-falantes. Favorecer que se assimilem aos usos linguísticos da comunidade em que vivem, de acordo, mas não por imposição nem por pressão social excessiva. Isto poderia dar lugar a situações de tensão, como a existente entre flamengos e valões”[87].

O que representa um agregado de falácias. Vejamos apenas as mais evidentes, para não exigir demais da paciência do leitor:

“língua castelhana, língua espanhola”: Não são uma e mesma coisa. Talvez os académicos da RAE não saibam, ou pior, não queiram saber, mas Espanha é mesmo um Estado plurilingue. Talvez fosse mais conforme aos dogmas nacionalistas herdados do franquismo e ainda bem vivos nas mentes de muitos castelhanos e espanholistas como Lapesa, mas existem ainda milhões de cidadãos espanhóis de pleno direito que falam outra língua além do castelhano (galego, catalão, basco, berbere (Ceuta[88]e Melilla[89]) e a “língua espanhola” não devia ser sinónimo de “língua castelhana”. A RAE devia tratar todas as linguas nacionais de Espanha em igual pé, ou então admitir definitivamente que não tem foro sobre outra língua além da castelhana e abster-se de comentar sobre as outras línguas de Espanha.

“que tem possibilidades de afirmação infinitamente superiores às das línguas regionais”: Duas falácias numa só frase… Ainda que o basco e o catalão sejam efetivamente línguas minoritárias, o galego ou língua portuguesa da galiza não é uma língua de escassa “possibilidade de afirmação mundial”. O português (do qual o galego é, como vimos, apenas uma variante regional) é graças aos seus 240 milhões de falantes é a sexta língua mais falada no mundo e a terceira mais falada nos continentes africano e europeu[90]e a língua do país sul-americano que, de forma mais rápida e consistente, está a crescente até se tornar uma superpotencia, o BRIC[91]Brasil e Angola, agora que cessou a louca suicida da longa guerra civil, está a tornar-se muito rapidamente num caso de sucesso em África e é já uma potencia regional indiscutível. Se falar galego ou português da Galiza, não representa para a Galiza uma oportunidade para se introduzir num dos clusters económicos mais dinâmicos do mundo, o da Lusofonia, então não sei o que seja o termo “possibilidades de afirmação”. Quanto ao termo “línguas regionais” é claramente pejorativo e colocado neste contexto frásico visa diminuir a importância destas línguas espanholas em relação ao hegemónico castelhano, imposto por Madrid de forma mandatória e persecutória durante a tirânica ditadura franquista. O galego só é uma “língua regional” se Madrid insistir na sua estratégia de diminuição da língua própria da Galiza num “dialeto” do castelhano (o que é, histórica e linguisticamente falso) e se aplicar o poder esmagador do Estado Espanhol contra a autonomia galega. O Galego não é uma “língua regional”. Ele é falado no ocidente das Asturias por quase 45 mil falantes, em Leão por 30 mil pessoas, em Zamora (Portelas) por dois mil e em Cáceres (Val do Ellas) por mais de 5 mil falantes. Isto sem contar com um milhão de falantes dispersos por toda a Espanha e por uma diáspora migratória especialmente concentrada em França, Suíça, Alemanha, Reino Unido, Holanda, Argentina, Uruguai, Brasil, Venezuela, Cuba, México e Estados Unidos[92]. Tal dispersão, tal massa demográfica não podem fazer do Galego uma simples “língua regional” como o Navajo[93]ou o Minderico[94]mas uma verdadeira “língua universal”, especialmente se for reconhecida a evidente ligação umbilical e de identidade profunda com a língua portuguesa. Este é aliás o maior erro cometido pelos Isolacionistas: ao procurarem classificar um Galego como uma “língua regional” estão a condená-lo a um nicho linguístico mais ou menos exótico e a “desagregá-lo da comunidade linguística lusófona, de que faz parte”, nas palavras de Ângelo Cristóvão Angueira[95]e num simples “dialeto do espanhol [castelhano], numa espécie de castelhano antigo ou de português aldeão”[96].

Mas ainda não referimos a maior falácia de todas: “[não favorecer o ensino das línguas nacionais] não por imposição nem por pressão social excessiva”: este é o argumento ecoado pelos defensores do “bilinguismo” na Galiza, que pela coincidência com o pensamento deste espanholista convicto assim expõe as origens do seu pensamento. A “imposição” de que fala aqui o presidente da RAE é a mesma que “impõe” o ensino da Matemática ou do Castelhano aos alunos de Madrid ou de Granada? As crianças castelhanas não sofrem também de “imposição” quando as forçam a aprender castelhano? Sendo a língua um factor essencial de constituição de uma identidade comum e um factor fundamental para que Espanha se mantenha rica e diversa, não é natural que se leccione nas escolas onde essa língua é originária e culturalmente matricial? Porque é que isso é identificado pelos académicos da RAE como “imposição” na Galiza e como “educação” em Castela? E se se trata aqui de “imposição linguística do galego contra o castelhano”, então porque é que a bilinguização só se produz num único sentido, já que são sempre os que não falam castelhano que o têm que aprender, e nunca ocorre o inverso? Um dos inquiridos no livro de Ana Iglesias Álvarez é a este propósito particularmente eloquente: “hoje em dia se uma pessoa se dirige a ti em castelhano pois deves responder em castelhano porque de outra forma não te irá entender”[97].

“tensão, como a existente entre flamengos e valões”: Pois é precisamente este discurso que visa minorar a importância do galego (“língua regional”) perante o castelhano (“língua universal”). Esta alusão a estas duas comunidades belgas, cujo eterno conflito coloca a Bélgica à beira da cisão é um discurso que visa diretamente o coração dos nacionalistas espanhóis que temem, acima de tudo, a divisão da Espanha em repúblicas independentes. É como se Rafael Lapesa nesta singela frase estivesse a comparar o latente separatismo belga com a língua da Galiza e como se a sua própria existência desta fosse uma ameaça à unicidade de Espanha (entendida aqui como “Grande Castela”). Nesta linha de pensamento lapesista, promover a língua portuguesa da Galiza corresponderia a promover a separação da Galiza do Reino de Espanha e esta é a leitura implícita ao discurso do presidente da RAE e o apelo “emocional” aos nacionalistas espanhóis que aqui faz o académico de uma forma muito pouco subtil.

A pluralidade linguística é uma riqueza, enquanto a existência de uma língua monolítica e “Estatal” é uma fraqueza. Esta tremenda riqueza cultural pode produzir um capital económico que se multiplica através da universalização da língua portuguesa do mundo e dos múltiplos países que a utilizam como língua oficial. A Globalização – que nos dizem ser imparável – favorece estes mecanismos pela via da evaporação de fronteiras laborais e comerciais. Numa sociedade onde as competências são cruciais para a sobrevivência do indivíduo no cada vez mais concorrido mercado laboral, o domínio de várias línguas é fundamental e decisivo para o sucesso de cada um.

O “Plano Espanholista” atualmente em curso na Galiza

Organizações galegas espanholistas como a “Galicia Bilingue” estão a conduzir um plano para a imposiçao gradual, mas inexorável do castelhano na Galiza. No âmbito deste “plano” pretende-se tornar o castelhano como a única língua produtora de cultura, usada na literatura especializada e popular, na Internet, na produção musical, teatral e artística em geral é essencial. Afirmar a língua portuguesa como “estrangeira”, transformando a língua própria da Galiza num dialecto do castelhano e repelindo toda a interação de galegos e instituições galegas que usem a língua portuguesa da Galiza em atos e em relações internacionais é a cereja no topo do bolo desta estratégia descaraterizadora que visa, a curto prazo “tornar o galego inútil” (expressão singular mas eloquente de Valentim Fagim), tornando a língua castelhana na única “língua útil” em utilização na Galiza e remetendo o Galelo para uma utilização doméstica e familiar que em menos de uma geração ditará a sua morte enquanto língua viva, a pretexto de uma “liberdade de escolha” que nunca existiu verdadeiramente, tamanha foi a força e a pressão da proibição entre o século XV e o Franquismo[98]. Todo este discurso em prol de uma suposta sacrossanta “liberdade de uso”, que agora o partido no poder na Galiza, assumiu como seu é o cerne do bilinguismo que faz parte da política linguística oficial na Galiza. De facto, não havendo uma verdadeira liberdade de escolha ou uma situação equilibrada entre as duas línguas deste binómio, os agentes sociais acabam sempre por favorecer a língua dominante, na Economia, na Demografia e na produção de conteúdos culturais. Se existisse uma sincera vontade de um “bilinguismo harmónico”, encontraríamos medidas de incentivo à língua própria da Galiza, fortes, consistentes e sistemáticas. A isso deveria chamar-se de “normalização linguística” plena, e não a “política de mínimos” que atualmente serve de dogma e nutre toda a política educativa galega. A tímida “política de mínimo” é ainda assim alvo de ataques constantes alegando que se trata de uma “imposição linguística” estabelecendo uma ligação com a “liberdade” conquistada após a queda do Franquismo e recorrendo à argumentação da “discriminação” contra os castelhanofalantes, como se esta língua não estivesse já hoje em maioria na Galiza e se o dominante pudesse ser discriminado pelo dominado…

Não nos deixemos iludir. Como declarava Castelão em 1943: “o totalitarismo que se impôs na Espanha não é outra coisa que a reimplantação da hegemonia de Castela – na língua, na cultura, no direito – Castela venceu a Espanha!”.

Quantas mais nacionalidades e línguas co-existirem em Espanha, mais “Espanha” esta será

O dogma vigente em Madrid é de que a unidade de Espanha está intrinsecamente ligada à superordenação das línguas nacionais em Espanha. Este projeto nacional espanholista quer transformar as “nações ibéricas” em “regiões de Espanha” pela universalização do uso da língua “universal” (o castelhano) em todas as expressões de vida social, cívica e administrativa, forjando uma falsa anterioridade do castelhano em relação ao galego e ao catalão (salvando-se o euskari desta visão centralista) e impondo grafias a todas as línguas nacionais que as transformam em subordinações gráficas do castelhano e que – no caso do galego – usam esta expressão visual da língua para afirmar a sua separação anti-natural do português.

Os espanholistas de Madrid – embriagados ainda de um “nacionalismo franquista” reciclado – procuram resistir a todas as pretensões autonómica que julgam terem potencialmente capacidades centrífugas. Desconfiam que se galegos, bascos e catalães ganharam a consciência de que são uma efetiva e independente nacionalidade, berço de cultura e civilização, tão forte ou dinâmica como a própria Castela e a sua macrocéfala Madrid, se afastarão e buscarão o seu próprio rumo, dentro da Península – por óbvios constrangimentos geográficos – mas fora da influência de Madrid.

Na verdade, não tem que ser necessariamente assim. Seria Fernando Pessoa quem escreveria que “toda a nação que superiormente se constitui, isto é, que chega a obter uma consciência civilizacional de si própria, representa uma síntese especial de elementos dispersos da civilização a que pertence.” (…) “Um país inferior limita-se, aceitando os elementos gerais de civilização, a imprimir-lhes o cunho nacional suficiente para que não se desnacionalize, recebendo-os. Exemplo, a Suíça, a Holanda, a Bélgica. Este género de países nada de essencial dá à civilização. Podia deixar de existir sem que ela sofresse; e se alguma cousa valem é como buffer states, no sentido superior, fronteiras espessas entre nação e nação definidas.”[99]

Espanha-Madrid não compreendeu ainda – enquanto entidade nacional – que a sua riqueza e até, a sua própria sobrevivência a prazo só podem resultar da sua capacidade para integrar, sem destruir, as suas nacionalidades históricas, e entre elas, aquela que a pode ligar a um dos pólos de desenvolvimento cultural e económico mais promissores do mundo: a Lusofonia. Sublimando a sua própria galeiguidade, Madrid, fecha a porta a todos os paises de expressão oficial portuguesa e recusando cumprir o papel pessoano de “país superior, de síntese”, prefere transformar-se numa tépide e desinteressante “Bélgica ibérica”, amorfa, aculturada e dócilizada até à imbecilidade coletiva.

Ao não cumprir o seu dever histórico e cultural de preservar as línguas nacionais que os acasos da História vieram agrupar sobre a designação “Espanha”, atualmente sobre a tutela efetiva de Madrid na mais plena herança direta do domínio de Castela sobre toda a Península, com excepção de Portugal, Espanha viola além do mais os próprios textos conjuntos que assinou no quadro da União Europeia: “Carta Europeia das Línguas Regionais ou Minoritárias”[100]e a “Declaração Universal de Direitos Linguísticos”[101]. Espanha subscreveu o primeiro texto em 1992 e o segundo em 1996. Mas hoje, o espírito e letra destes tratados são letra morta…

Portugal Esquecido da Galiza

É verdade que por diversas razões, os galegos nunca – desde o século XIII – olharam verdadeiramente para Portugal. Quando buscavam afirmar a sua identidade nacional contra as pretensões anexadoras de Castela e Madrid, encontravam na Catalunha o exemplo a seguir, e mesmo hoje, quando se vive um momento tão crítico para a sobrevivência da sua língua e culturas nacionais é novamente na Catalunha, na sua indomável vontade de resistir à aculturação que os nacionalistas galegos encontram o exemplo a seguir. Esta intencional virada de costas a Portugal, motivada pelo desejo de não afrontar Madrid, despertando nela o ciúme e o medo atávico de que a “sua” Galiza se separasse e procurasse a reunificação com Portugal tornou praticamente ausente do discurso nacionalista galego a reintegração portugalega. Com este afastamento, perdeu-se a oportunidade de depurar a língua galega de todas as contaminações induzidas por séculos de administração castelhana e pela efetiva evaporação do galego de qualquer uso culto ou oficial até ao fim da ditadura franquista.
Por razões não muito diferentes, do lado português, também nunca existiu uma verdadeira vontade de reaproximação e para a maioria dos portugueses os galegos não são mais do que “espanhóis, ainda que um pouco peculiares”[102]. Não encontramos na história portuguesa – desde Dom Fernando – nenhum político ou governante que tivesse colocado a Galiza, a questão da sobrevivência da Língua Portuguesa da Galiza ou a aproximação política e económica com esse nosso irmão do norte, na sua  agenda. Não encontramos nenhum “movimento panlusista” de significado ou expressão sociologicamente relevante. Esta anomalia é intrigante. Escolhemos a palavra “anomalia” porque é de facto disto que se trata. Espanha e sobretudo, a aspiração agregadora de Castela e Madrid, bastas vezes procurou aniquilar o espírito independentista português e, por várias vezes, esteve bastante perto de o conseguir. Espanha é ainda hoje a ilegítima ocupante da única parcela do território nacional português: os três concelhos de Olivença ocupados desde 1801[103]. Portugal assim deveria ter estado sempre interessado na dissolução da unidade estatal espanhola, como forma de reagir a esses múltiplos afrontamentos à sua existência. Contudo, nunca o fez e nunca existiu – até hoje – nenhum Movimento que publicamente levantasse a questão, não da separação da Galiza de Espanha e ainda menos a questão da sua independência e eventual reunificação com Portugal, mas a simples defesa da sua cultura nacional, da língua portuguesa da Galiza e da sua própria nacionalidade e cultura. Essa lacuna é agora finalmente preenchida com a aparição do MIL: Movimento Internacional Lusófono.

O MIL não surge assim num momento historicamente propício em que a continuidade territorial óbvia que une Portugal à Galiza é reforçada pelo desenvolvimento das ligações viárias, muito embora as ligações ferroviárias (TGV) estejam agora novamente comprometidas, depois de alguns sinais encorajadores que as davam como certas até 2013 e as ligações aéreas – muito por vontade de Madrid – entre Portugal e Santiago de Compostela passem ainda por Barajas. Mas agora, como nunca antes no passado, é possível que os galegos venham comemorar o “Dia de Espanha” ao Porto e a Lisboa com relativa facilidade…

Portugal não pode estar interessado na simples e estéril aniquilação da unidade estatal espanhola. Esta ruptura só servirá o interesse de todos os ibéricos (portugueses, galegos, catalães, bascos ou espanhóis) se servir de antecâmara para a transformação de Espanha numa verdadeira federação partidária e justa, onde Portugal e a Galiza possam livremente buscar formas de se aproximarem. Esta aproximação livre das várias nacionalidades da Ibéria eliminaria os sempre possíveis riscos de ver Espanha tornar-se numa Jugoslávia.

Existem muitos interesses na Galiza que se batem pela continuação da separação entre Portugal e a Galiza. Estes interesses estão entrincheirados no governo da Xunta e em Madrid e tudo fazem e farão para que as relações culturais, económicas e políticas entre as duas entidades da Península se limitem ao norte: a Galiza, ao noroeste de Espanha, lidando com o norte de Portugal. Mantendo o diálogo no domínio estritamente regional os interesses espanholistas estão servidos já que assim nada faz sugerir a possibilidade de uma aproximação entre a Galiza e Portugal. Isso serve a alguns caciquismos do norte de Portugal que sonham com a erupção de uma “região norte” cujo patamar de poder possam preencher, mas serve igualmente, os interesses já instalados do dócil (a Madrid) regionalismo galego. Uns e outros opõe-se – juntamente com os espanholistas – a união da Lusofonia ibérica.

Galiza e Portugal fazem efetivamente de uma e mesma nação: linguisticamente (a alma da nacionalidade), ortograficamente (já que usando a grafia reintegracionista galega não há de facto diferenças), e até do ponto de vista do temperamento, da Cultura e até das raízes históricas, estamos perante uma só nação. A continuidade geográfica, a crescente intensidade das relações económicas e laborais entre estas duas partes da mesma nação portugalega não deviam assim poder ser condicionadas ou travadas por terceiros: Madrid hoje, Castela ontem. Mas foram e continuam a ser… Pareceria natural que Portugal se constituísse como paladino da causa galega. Não necessariamente da causa que reclama uma independência de Espanha e – ou não – uma re-união com Portugal, mas da causa que advoga recuperação da longamente reprimida identidade nacional, de uma língua comum reprimida e que urge recuperar enquanto tal ainda é possível e, sobretudo por criar condições para que os galegos possam decidir em devida liberdade para onde querem levar o seu destino: se com Espanha, sem sem ela, ou se com Portugal. Em tal política de defesa da Galiza, não devem os portugueses temer os furores de Espanha. A agenda desta defesa é acima de tudo, estritamente cultural, e depois e naturalmente, de defesa da identidade nacional e cultural galega. Logo que a Galiza recuperar a fortaleza da sua variante local da língua portuguesa, a asfixiada nacionalidade e a liberdade para tomar nas suas mãos o seu destino, então Portugal e os portugueses poderão descansar e deixar a sua irmã do norte escolher as paragens para onde quer aprumar o seu rumo. Que deixem os portugueses clamar os espanhóis, alvitrados pelo irreverente espírito de liberdade galego e sem o temor que os nossos políticos exprimem bastas vezes pela ira espanhola, assumamos como nossa esta causa que é comum a galegos e portugueses: a causa da sobrevivência galega, a qual ao fim ao cabo nada mais é do que uma reedição do nosso próprio processo de independência nacional, entre 1580 e 1640, anos perigosos em Portugal dependeu da coroa dos Filipes e funcionou efetivamente como uma “autonomia” de Madrid. Agora, no século XXI é a Galiza que está prestes a soçobrar perante esse compressor cultural e linguístico que Madrid arremete contra ela, e Portugal e os portugueses não se podem demitir de realizar a sua devida defesa da língua portuguesa a norte do Minho, nem dos seus irmãos matriciais da bela e nordestenha Galiza.

Projeto “Associação de Amizade Portugal-Galiza”

Para sustentar a onda de apoio cívico, cultural e até político que temos que erguer no mundo lusófono de forma a suportar a defesa da língua portuguesa da Galiza, há que buscar o exemplo da já existente Associação de Amizade Galiza-Portugal[104]e usando a já constituída mas ainda em instalação Associação de Amizade Brasil-Galiza presidida por Joám Evans Pim largar também a semente para um terceiro vértice de um triângulo de solidariedade lusófono em torno da Galiza e da preservação da sua (nossa) língua.  Num futuro relativamente próximo em que os dois vértices brasileiro e português estivessem já suficientemente consolidados, poder-se-ía criar uma “federação associativa luso-galega” que congresse os esforços e energias dessas três entidades e desse cumprimento ao plano que António Gil Hernández[105]sabiamente gizou em 2005 e que consistia essencialmente numa abordagem em cinco vertentes simultâneas, a implementar em todo o espaço lusófono, mas com especial enfoque no Brasil e em Portugal e que desde logo se poderia assumir como proto-programa da Associação de Amizade Galiza-Portugal:
a. Cooperação entre instituições públicas e privadas;
b. Encontros desportivos e de juventude;
c. Representações teatrais, espetáculos musicais, cinema, entre outros…;
d. Edições livreiras, audiovisuais e musicais e
e. Recepção das emissões televisivas e de radiodifusão mútuas na Galiza e em Portugal.

Fases Possíveis de uma União Política Galiza-Portugal e visão pessoana “União Ibérica”

Após a invasão das tropas portuguesas de Dom Fernando e até ao século XVII, não existem praticamente referências há existência de galegos ou de entidades galegas que defendessem publicamente a re-união entre as duas partes do rio Minho. Mas a independência portuguesa de 1640 – após um período em que o “bilinguismo” imposto pelos filipes em Portugal não deixava de ter semelhanças com o processo de assimilação linguística atual – entra no discurso popular galego uma corrente subterrânea, mas testemunhada entre 1656 e 1657 por Barrionuevo que com os seus “Avisos” onde se escrevia a dado ponto: “Na Galiza diz-se que puseram em vários lugares muitos pasquins com as mesmas queixas, e que se não as remediam, dizem que têm perto Portugal[106]”, numa alusão clara a uma corrente popular, suficiente significativa para ser referida que defendia a reunião a Portugal como solução para os numerosos agravos que o governo central cometia sobre os galegos no século XVII. Cem anos depois, o Conde de Campomanes escrevia “é inútil, e ainda prejudicial, publicar uma lei sobre esta matéria [da saída de galegos para Portugal] pela impossibilidade atual de a cumprir, e ainda se propõe o Capitão Geral a confiscação dos bens, mas tal é coisa inútil, porque os que saem a Portugal não os têm”. Mas o referido Conde, citado por María Pilar Negro, enunciava um plano para utilizar o descontentamento galego contra a sua miserável condição económica para os virar contra Portugal, oferecendo-lhes o “livre comércio das Índias” em troca do uso dos seus “excelentes portos que bastarão aos corsários galegos para interromper o comércio de Lisboa para o Brasil”. Assim, procurava Espanha instrumentalizar o descontentamento galego contra Portugal, no contexto da Guerra da Independência….

Ainda que haja quem o defenda, em Portugal e na Galiza, não existem na atualidade imediata condições para defender uma união política entre Portugal e a Galiza. Poder-se-á falar a mesma língua nas duas bandas do rio Minho, poderá haver uma comunhão de sentimentos e de Cultura entre ambos os povos, poderá até – inclusive – existir apenas um único Povo e uma só Nação, mas a verdade é que não há condições politicas para estabelecer tal reunião, para que tal possa razoavelmente suceder há que ir fazendo um lento, mas convicto e sistemático “trabalho de sapa”… em que este texto tentará cumprir o seu modesto papel. Em primeiro lugar, haverá que consolidar a identidade nacional galega, pesadamente afetada por quatrocentos anos de repressão castelhana e pelo bífido e torpe “Bilinguismo”, forma mascarada com que a “imposição castelhana” agora se faz impor na Galiza. O reencontrar da Galiza com o perdido espírito nacional não tem que corresponder necessariamente a uma caminhada direta para a independência. É possível encontrar formas de aproximação híbridas, que não ameacem a tão desejada (por Madrid e Castela) “unicidade” do Reino de Espanha, mas que na forma de uma coligação extra-Estatal, como aquela que une os países do Benelux no seio da União Europeia, ligue Portugal à Galiza e até, eventualmente, aos concelhos de Olivença, sem quebrar as fronteiras políticas de Espanha. Esta federação “tímida” poderia enquadrar-se no quadro das alianças regionais que a União Europeia convida os seus membros a formarem e ser aceite por Espanha com relativa bonomia… Sendo otimistas. Consolidada esta federação trans-fronteiriça, haveria espaço para promover uma verdadeira confederação entre as várias nacionalidades ibéricas, resolvendo o já longo problema Basco, oferecendo à Catalunha a satisfação para as suas aspirações independentistas, sem quebrar a ligação ibérica e reunindo Portugal numa “federação livre” de povos ibéricos sonhada na década de 70 por Agostinho da Silva. Só depois de erguido um edifício coeso, livre e paritário que colocasse todas as nacionalidades ibéricas no mesmo patamar seria possível começar a pensar numa União Ibérica realmente funcional, profundamente diversa de uma anexação por Madrid de toda a Península. Esta seria uma “União Ibérica” diferente na essência e expressão, dos sonhos agregacionistas que nunca esqueceram a independência de Portugal, no século XVII e que utilizando a atual predominância da Economia espanhola sobre a portuguesa procuram agora novas formas de subordinação. De facto, Espanha para alcançar a sua aspiração de dominação peninsular absoluta, terá primeiro de se fragmentar e Castela – que para o bem e para o mal – sempre assumiu a condução desse processo centrípeto terá que se reconhecer como apenas mais uma nacionalidade entre tantas outras para lograr cumprir a sua missão histórica de unificar toda a Península, não como senhora das demais, mas como apenas mais uma entre as outras, uma irmã e não um pai autoritário ou dominador, enfim…

Mas uma União Ibérica enfrenta desde logo uma importante adversidade: o tipo de regime. Fernando Pessoa, no começo do século XX, já apontara com obstáculo a tal entidade pan-ibérica a incompatibilidade entre o regime monárquico espanhol e o republicano português[107], desenhando então o poeta a solução para tal incompatibilidade:

1. A abolição da monarquia em Espanha.
2. A separação final da península nas suas três nacionalidades essenciais – a Catalunha, Castela e as províncias que conseguiu submergir na sua personalidade, e o estado galaico-português.”

A proposta não foi provavelmente conhecida fora de Portugal, mas esses tempos estavam preparados para ver tal conceito frutificar fora de Portugal, razão pela qual, em 1918, a reunião da Assembleia Nacionalista Galega, de Lugo[108]concordava em que “simpatizaremos com aquela [forma de governo] que se amostre mais doada para chegar à federação com Portugal” e mais tarde, em 1961, o professor Castelão, dentro da mesma linha, escreveria com a maior razoabilidade e sabedoria que “não ignoramos as dificuldades com que toparíamos para unir as duas Galizas deslocadas; mas se é lícito pensar e falar numa conferação ibérica, será igualmente lícito manter a esperança de que algum dia os galegos e portugueses voltemos a falar e a cantar no mesmo idioma. (…) O nosso caso é muito mais simples que o de bascos e catalães[109].

Reconhecemos assim que somente pela via da pacífica e voluntariosa fragmentação de “Espanha” nos seus múltiplos componentes nacionais se pode efetivamente cumprir a União Ibérica e que nesta, as parcelas lusofónicas perdidas hoje no seio dessa “Espanha” (Olivença e Galiza) teriam que  se reunir a Portugal, alinhando depois esta entidade nacional com as demais nacionalidades: castelhana, basca e catalã, numa entidade supracional, federal ou confederal capaz de dar bom cumprimento às tremendas capacidades da civilização ibérica que os Descobrimentos – cerceados pelo fanatismo religioso – permitiram apenas antever. A visão pessoana para esta “União Ibérica” é aquela que adotamos e nela prevalece o conceito da liberdade paritária das nacionalidades ibéricas, unindo-as apenas pelo fio condutor das alianças culturais, diplomáticas e militares e abrangendo-as numa única fronteira económica, ainda mais alargada que aquela imposta hoje a partir de Bruxelas. Seria esta “federação solta” delineada pelo poeta da “Mensagem” que levaria para diante um programa contornado na resolução dos três grande problemas ibéricos, resistente até à atualidade e completamente contemporâneos:

 

1. A remodelação do Estado Espanhol, reavendo-se Gibraltar.

 

2. A integração do Estado português, pela reintegração de Albuquerque e Olivença, e a anexação da Galiza.

3. A aliança ibérica, como defesa do comum solo espiritual, invadido culturalmente pela França, e dividido territorialmente pela política de Inglaterra.

Apenas no terceiro ponto teríamos que realizar uma certa adaptação à visão do poeta, substituindo a “invasão cultural de França”, também apontada por Teixeira de Pascoaes pela influência da União Europeia, dominada pela chancelarias de Paris e Berlim, por mão de um dócil comissário português e a dominação política e militar britânica pelo anglo-saxónica, ou melhor, pela norte-americana.

Em época mais recente, Antonio Gil Hernandez[110]recorda um artigo publicado na revista Agália em 1986 e onde traçavam dois rumos alternativos para a “organização política” da Galiza, polarizada em torno de dois eixos possíveis:
“1º – A Galiza é Nação, a constituir-se em Estado,
a) Que tem de ser independente […];
b) Que ha de federar-se (ou confederar-se) com o Estado espanhol […] talvez não excluiriam uma possível federação com Portugal.
2º – A Galiza é segmento de Nação (“nacionalidade” ou “região”),
a) Que, com um grau maior um menor de descentralização administrativa, faz parte do Reino de Espanha […];
b) Que se há de integrar na República portuguesa[…].”

Esta exposição – simplista mas precisa – dá uma visão muito concreta das possibilidades que se oferecem à Galiza. Em primeiro lugar, há que esclarecer que cabe apenas aos galegos decidirem a natureza do seu rumo nacional e, mesmo, se a questão se deve colocar ou se pelo contrário se devem deixar diluir na Espanha centralista desejada por Madrid e Castela ao longo dos séculos. Atualmente, as condições para que os cidadãos da Galiza possam livremente decidir do seu destino são escassas, tal é o poder das correntes espanholistas que advogam a transformação da nacionalidade galega numa mera “região autónoma” de Espanha e a imposição linguística do castelhano, nas cidades e entre os jovens, por força da influência dos meios de comunicação de massa e das grandes empresas que vão de uma forma insidiosa mas discreta impondo o castelhano como “língua de negócios” na Galiza.

Mas imaginemos que processo de absorção da Galiza por inanição linguística – por alguma razão – era interrompido – e que era entregue aos galegos a possibilidade de optarem entre a autodeterminação ou um estatuto regional ibérico. A via da independência pura implicaria a quebra definitiva dos seus laços com a demais lusofonia e na verdade é apenas possível de ser seguida na fragmentação total de Espanha, provavelmente pela via violenta, sendo assim altamente indesejável. A via federal (com Espanha, outras nacionalidades ibéricas ou Portugal) é já, por outro lado, mais interessante já que potenciaria o pleno desenvolvimento do espírito livre e independente dos povos ibéricos, oprimido por séculos de centralismo lisboeta ou madrilheno, e porque permitiria devolver o foco da administração e do poder democrático ao Local e ao cidadão, retirando-o a um povo mais ou menos predominante (o castelhano) ou a uma cidade centralista (Lisboa).

Uma Unificação Galiza-Norte de Portugal

A aparição histórica da entidade política unificada entre a Galiza atual e o norte de Portugal recua a imperador romano Marco Aurélio Antonino que no século III d.C. Criou a província da Gallaecia, entidade que atravessaria vários séculos até à sua cisão, já no século XI, politicamente, mas de forma linguística e cultural, de forma mais marcada apenas depois do século XVI.

Uma Globalização Alternativa pela via da Afirmação da Identidade dos Povos

As maleitas da Globalização neoliberal são bem conhecidas. Entre elas, porventura em especial destaque, está a ânsia por parte das grandes organizações multinacionais em todo aglomerar a uma única forma linguística. Não o fazem porque sejam de origem anglosaxónica, já de que facto, hoje em dia o Capital não em nacionalidade e é verdadeiramente impossível compreender se uma dada corporação é “inglesa” ou “alemã”. Essa ficção nacional é hoje meramente artificiosa e meramente alimentada pelas máquinas de Marketing que usam o prestígio “alemão” ou “italiano” à medida das suas ocas campanhas de manipulação e engano. Assim, se hoje domina o inglês, por mercê do predomínio dos EUA e do Reino Unido nas Finanças mundiais, amanhã, com a ascensão [aparentemente] imparável da China, será talvez o Cantonês ou o Mandarim. Contra um e outro, há que congregar forças e hastear alicerces onde eles podem ser mais férteis na criação de formas culturais: nas línguas nacionais. Sem o português de Portugal, sem o português da Galiza, perdem estas duas metades da Portugaliza uma arma fundamental para resistirem a uma Globalização que usa a cultura mediática, musical, televisiva e cinematográfica como ponta de lança de uma ambição económica. Contra estas formas de aculturação, há que refirmar a produção cultural, científica, livresca, teatral, histórica e filosófica, naquele pilar fundamental que é a língua portuguesa. Sem a visão particular do mundo, que representa uma língua é impossível construir as resistências essenciais para resistir ao Tsunami da Globalização e fertilizar o terreno de forma suficientemente capaz para que as identidades nacionais, as próprias liberdades individuais que estas garantem possam resistir aos tremendos meios económicos que a Globalização pode alinhar.

A Portugaliza
Algumas organizações galegas e portuguesas, como a Associação Galega da Língua (AGAL) agregam sob a palavra “Portugaliza” a comunhão linguística, histórica e cultural que une Portugal à Galiza. Trata-se assim não propriamente de um novo país – proposto por um grupo mais ou menos minoritário de portugueses e galegos – mas de uma entidade cultural concreta e efetiva, que se estende, para uns, por toda a extensão geográfica onde na Península Ibérica se falam diversas formas de português, desde o português da Galiza, ou galego, ao português dos concelhos de Olivença passando naturalmente pela língua portuguesa falada em Portugal. Outros, entendem contudo que a Portugaliza se deve estender ao território que sob a dominação romana se intitulava “Gallaecia”. Outros ainda entendem que a região devia compreender apenas o norte de Portugal e a Galiza, excluindo os territórios atualmente portugueses a sul do rio Douro.

A palavra foi usada abundantemente pelos autores portugueses Manuel Rodrigues Lapa e José Rodrigues Miguéis, conhecidos paladinos da causa galega em Portugal e é o centro do “centro de média independente” que assumiu a forma cibernética de http://www.portugaliza.net e que resulta do trabalho colaborativo de voluntários portugueses e galegos, com o objetivo comum de aproximar os dois povos e de aprofundar o conhecimento da língua e grafias portuguesas entre os galegos.

A Questão da Independência da Galiza do Reino de Espanha

Se o atual Reino de Espanha, na forma quase-federal que assume, conhecesse um processo de aprofundamento federal, seria possível que a Galiza procurasse buscar um caminho próprio ou de parceria ou integração total no atual território da República portuguesa. Se a Espanha se transformasse de uma retrógada monarquia numa verdadeira federação, as suas parcelas em que i espírito nacionalista está ainda mais vivo, como a Euskaria, a Catalunha e a Galiza poderiam optar por manter a sua ligação a uma Espanha/Castela/Madrid que tudo fez para aculturar, absorver e anexar todas as nacionalidades da Península, falhando apenas – mas de forma rotunda – com Portugal. A mutação de Espanha de uma monarquia constitucional mais ou menos centralizada numa federação poderia levar algumas destas nacionalidades a procurarem formas diversas de organização, quer federando-se entre si, quer federando-se com a única república independente da Península: Portugal, quer até – como já sugeriu o professor Xavier Vilhar Trilho[111], buscando comunhões com outras nacionalidades de matriz celta no Atlântico ocidental, como a Bretanha, Gales, a Irlanda e a Escócia, também elas oprimidas por poderosos Estados europeus que tudo fizeram para os aculturar e para aniquilarem as suas línguas nacionais. Como observa o professor, o protótipo para tal “federação celta” – que poderia abranger também o norte de Portugal – já existe sob a forma da “Comissão de Regiões Europeias do Arco Atlântico” e as crescentes aspirações independentistas escocesas[112]poderiam servir de impulso propulsor a esta federação “céltica” do Atlântico, forjada com ou sem Portugal, mas à qual este se poderia agregar apelando para a sua herança comum com a Galiza e com os laços históricos com os celtas, desde os celtici do Alentejo e Algarve, até aos Lusitanos do Centro (de língua celta, mas etnia ibera) e aos Galaeci do norte. Assim, a união política entre Portugal e a Galiza poder-se-ía consubstanciar no meio desta federação atlântica de povos de matriz celta, reforçando a capacidade destes povos de resistirem às grandes potencias que os procuraram anular ao longo da História e alavancando a liberdade, o espírito de tolerância e independência que sempre caraterizaram os povos dessa matriz.

Mas temos que ser realistas. Sem cortar o rumo ao sonho (essencial ao progresso e à realização plena do Homem) há que reconhecer que não é provável que esta federação atlântica do professor Xavier Trilho ocorra no presente contexto político europeu. Enquanto os nacionalismos dos “Estados centralizados” forem mais fortes que a União Europeia, estes nunca tolerarão que as nações que anexaram e que colonizaram durante séculos se autonomizem e que procurem, juntas, um destino comum. Mas a erupção de uma Europa federativa, em que o papel e influência das regiões seja inerentemente reforçado, pode mudar este estado de coisas. Paradoxalmente, quanto mais forte for a Eurocracia de Bruxelas, mais hipóteses de singrar terão os povos “satelitizados”, como o Galego, nosso eterno irmão do norte e maior será a probabilidade de a parte “feminina” de Portugal de Agostinho da Silva se re-encontrar com a parte que “barcava”: Portugal, no seio desta federação atlântica ou de uma reunião política entre Portugal e a Galiza. A aproximação entre Portugal e a Galiza poderá assim ser facilitada pelo aprofundamento do processo de integração europeia e a da adopção de uma “Europa dos Povos” preenchendo o atual império da “Europa dos Estados”, tão disfuncional e paralizada pela eterna e frequentemente estéril espiral circular das negociações em Bruxelas.

Efetivamente, já defendemos em vários locais e ocasiões, a saída de Portugal da União Europeia e a formação de uma união política – confederal – entre Portugal e o Brasil ou entre Portugal e Cabo Verde, por isso pode resultar paradoxal esta defesa presente do reforço federal da União Europeia, como forma de aumentar a autonomia das suas periferias e de anular a deriva centralista da tradição dos Estados centralizados europeus. A eurocracia de Bruxelas ainda não compreendeu que é altamente impopular entre os povos da Europa, precisamente porque o é: uma burocracia que ninguém elegeu, com a qual ninguém se identifica e que se rodeia de palácios altaneiros, de luxos exagerados e de privilégios injustificados a um espírito de missão e dever que a devia nortear em primeiro e último lugar. A Europa está hoje desligada do sentimento e mente dos seus povos e se se pretende efetivamente refundar precisa de reencontrar o seu espaço entre os objetivos e aspirações das suas populações, saltando sobre as barreiras dos Estados-Nações novecentistas que hoje a bloqueiam e recolhendo-se diretamente na fonte, descer até às realidades locais, às regiões e municípios e refundando aqui os seus alicerces, de forma democrática e reconhecendo as legítimas aspirações de liberdade nacional dos seus povos.  A União Europeia será tanto mais unida, quando mais buscar nas realidades locais, regionais e municipais, a sua força e quanto menos depender dos Estados nacionais que tantas vezes a bloqueiam.

A ascensão de uma federação europeia abrirá espaço à liberdade política das nações sem Estado, como a Galiza e à obtenção de uma importância inédita para as classes políticas regionais e à evaporação das classes políticas nacionais. São os privilégios e os pruridos pelo seu poder que mais têm bloqueado o processo europeu, assim, é de esperar que qualquer avanço que este obtenha, será sempre contra essa classe política e a favor dos políticos com raízes locais e regionais mais profundas. Neste sentido, portanto, podemos dizer que a unificação europeia é um processo que pode contribuir para a regionalização municipalista que é um ponto central da Declaração de Princípios e Objetivos do MIL e até para a aproximação das duas únicas nações lusófonas da Europa: Portugal e Galiza.

É de esperar que no médio prazo, a União Europeia siga um de dois caminhos: ou a cisão ou a fusão. Ou consegue transformar-se numa confederação ou federação ou – na falta de um projeto comum, unificador e polarizador de vontades – ter-se-á que cindir, pela evidente ausência de pontes entre os seus povos. Quer a História se encaminhe numa direção, quer marche na outra, nada obsta a que Portugal e a Galiza adiantem o seu passo, e se aproximem.

De um ausente Tratado Internacional da Língua Portuguesa entre Portugal e Espanha

O professor Xavier Vilhar Trilho da Universidade de Santiago de Compostela em 2003[113]perguntou-se porque é que Portugal e Espanha não estavam interessados em acordar em estabelecer um protocolo internacional que fixasse a ortografia da língua portuguesa utilizada na Galiza e em Portugal. Um acordo em tudo idêntico fora possível entre holandeses e belgas na forma da Taalunie[114]e a quem mais tarde se juntou o Suriname em 2004. Tal acordo nunca foi possível estabelecer na Península Ibérica porque Espanha sempre quis absorver o galego enquanto “língua própria” da Galiza e transformá-lo numa língua moribunda que por “acaso”, ou melhor: por consequência utiliza a mesma e fonéticamente inadequada grafia castelhana. Espanha não quis acordo, porque esperou sempre absorver. E esta vontade esteve novamente claramente expressa quando se ausentou – enquanto país – de todas as negociações que estiveram na base do Acordo Ortográfico de 1990 e onde tinha o dever de estar presente enquanto Estado que incorpora no seu seio quase 3 milhões de lusófonos. Espanha não participou e concedeu a falsa magnimidade de tolerar a presença independente e autónoma de associação reintegracionistas galegas como a AGLP e a AGAL, ao mesmo tempo que internamente – na Galiza – financiava e encorajava as entidades nacionalistas que encontravam na Mesa pola Normalización Linguística e sobretudo na  Universidade de Santiago.

Fontes Bibliográficas:

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http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/artigo11211.pdf http://www.xunta.es/linguagalega/arquivos/normasrag.pdf
http://groups.google.pt/group/observatorio-lp/web/governo-galego-promete-estudar-incluso-do-portugus-como-lngua-opcional?hl=pt-PT&pli=1

http://www.portugaliza.net (Revista Portugaliza – Revista de Informação e Cultural e Científica [1]Boletim da Academia Galega da Língua Portuguesa; J. Martinho Monteiro Santalha; O nome da Galiza; Academia Galega da Língua Portuguesa; Padrão (Galiza); 2008. Página 13
[2]Dicionário Onomástico e Etimológico; José Pedro Machado; Editorial Confluência.
[3]“Galiza e Portugal: Umha ou duas naçons?” ; José Manuel Barbosa.
[4]http://www.portugaliza.com
[5]De Fala a Lingua: Un Proceso Inacabado; María Pilar García Negro; Edições Laiovento; Ames; 2009.
[6]No I Congresso Internacional da Língua Galego-Portuguesa na Galiza (Ourense, 1984).
[7]Citado em “De Fala a Lingua: Un Proceso Inacabado”; María Pilar García Negro; Edições Laiovento; Ames; 2009. Página 123
[8]Galiza: Língua e Sociedade (XIV Ensaios); Vários Autores, com António Gil Hernández como editor; Academia Galega da Língua Portuguesa; Santiago de Compostela; abril de 2009. Página 21.
[9]Falar Galego “No Veo Por Qué”; Aproximación cualitativa á situación sociolingüísica de Galicia; Ana Iglesia Álvarez; Xerais; 2003; Vigo. Página 205.
[10]Temas de Linguística Política; António Gil Hernández; Associação Amizade Galiza-Portugal; Acrunha; Setembro de 2005; página 43
[11]A recíproca conveniência da Galiza e Portugal. Levar a termo algúm tipo de unificação política… Prof. Doutor Xavier Vilhar Trilho (USC), 2004.
[12]De Fala a Lingua: Un Proceso Inacabado; María Pilar García Negro; Edições Laiovento; Ames; 2009. Página 153
[13]Boletim da Academia Galega da Língua Portuguesa; Jernesto Vázquez Souza; Um ponto de inflexão na reinvidicação nacional: 1916, a Irmandade da Fala; Academia Galega da Língua Portuguesa; Padrão (Galiza); 2008. Página 13
[14]Atas, II Congresso Internacional da Língua Galego-Portuguesa da Galiza, 1989, página 159
[15]Temas de Linguística Política; António Gil Hernández; Associação Amizade Galiza-Portugal; Acrunha; Setembro de 2005; página 66
[16]Temas de Linguística Política; António Gil Hernández; Associação Amizade Galiza-Portugal; Acrunha; Setembro de 2005; página 80
[17]Temas de Linguística Política; António Gil Hernández; Associação Amizade Galiza-Portugal; Acrunha; Setembro de 2005; página 80

[18]RAG-ILG: Real Academia Galega e Instituto da Língua Galega: Duas instituições isolacionistas.

[19]Galiza: Língua e Sociedade (XIV Ensaios); Vários Autores, com António Gil Hernández como editor; Academia Galega da Língua Portuguesa; Santiago de Compostela; abril de 2009. Página 87

[20]Galiza: Língua e Sociedade (XIV Ensaios); Vários Autores, com António Gil Hernández como editor; Academia Galega da Língua Portuguesa; Santiago de Compostela; abril de 2009. Página 86

[21]Galiza: Língua e Sociedade (XIV Ensaios); Vários Autores, com António Gil Hernández como editor; Academia Galega da Língua Portuguesa; Santiago de Compostela; abril de 2009. Página 87

[22]Galiza: Língua e Sociedade (XIV Ensaios); Vários Autores, com António Gil Hernández como editor; Academia Galega da Língua Portuguesa; Santiago de Compostela; abril de 2009. Página 90
[23]De Fala a Lingua: Un Proceso Inacabado; María Pilar García Negro; Edições Laiovento; Ames; 2009. Página 164-5.
[24]Boletim da Academia Galega da Língua Portuguesa; Carlos Durão; Síntese do Reintegracionismo contemporâneo;  Academia Galega da Língua Portuguesa; Padrão (Galiza); 2008;  página 54
[25]Temas de Linguística Política; António Gil Hernández; Associação Amizade Galiza-Portugal; Acrunha; Setembro de 2005
[26]Temas de Linguística Política; António Gil Hernández; Associação Amizade Galiza-Portugal; Acrunha; Setembro de 2005

[27]Falar Galego “No Veo Por Qué”; Aproximación cualitativa á situación sociolingüísica de Galicia; Ana Iglesia Álvarez; Xerais; 2003; Vigo. Página 37-38.
[28]Do Latim às Línguas Nacionais: Introdução à História Social das Línguas Europeias; Lluís V. Aracil; Associação de Amizade Galiza-Portugal; Santiago de Compostela; Novembro de 2004; página 37
[29]http://www.unesco.org/culture/ich/index.php?pg=00206

[30]Falar Galego “No Veo Por Qué”; Aproximación cualitativa á situación sociolingüísica de Galicia; Ana Iglesia Álvarez; Xerais; 2003; Vigo. Página 68-69.

[31]Seminario de Sociolinguistica, 1995.

[32]Falar Galego “No Veo Por Qué”; Aproximación cualitativa á situación sociolingüísica de Galicia; Ana Iglesia Álvarez; Xerais; 2003; Vigo. Página 148.
[33]De Fala a Lingua: Un Proceso Inacabado; María Pilar García Negro; Edições Laiovento; Ames; 2009.
[34]Temas de Linguística Política; António Gil Hernández; Associação Amizade Galiza-Portugal; Acrunha; Setembro de 2005; página 32
[35]De Fala a Lingua: Un Proceso Inacabado; María Pilar García Negro; Edições Laiovento; Ames; 2009.
[36]De Fala a Lingua: Un Proceso Inacabado; María Pilar García Negro; Edições Laiovento; Ames; 2009.
[37]http://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%89mile_Benveniste
[38]Do Latim às Línguas Nacionais: Introdução à História Social das Línguas Europeias; Lluís V. Aracil; Associação de Amizade Galiza-Portugal; Santiago de Compostela; Novembro de 2004; página 36
[39]Temas de Linguística Política; António Gil Hernández; Associação Amizade Galiza-Portugal; Acrunha; Setembro de 2005; página 81
[40]De Fala a Lingua: Un Proceso Inacabado; María Pilar García Negro; Edições Laiovento; Ames; 2009. Página 53
[41]http://www.olivenca.org
[42]Boletim da Academia Galega da Língua Portuguesa; Rudesindo Soutelo; Por um corpus Musicum em liberdade;  Academia Galega da Língua Portuguesa; Padrão (Galiza); 2008;  página 192

[43]http://pt.wikipedia.org/wiki/Alfonso_Daniel_Manuel_Rodr%C3%ADguez_Castelao
[44]Temas de Linguística Política; António Gil Hernández; Associação Amizade Galiza-Portugal; Acrunha; Setembro de 2005; página 133
[45]http://galegopatrimoniodahumanidade.blogaliza.org; O camino da lingua é o noso camino como pobo; Fermin Bouza
[46]Editorial da Revista Galega de Educación, nº 44, Xuno 2009; Manuel Bragado
[47]http://galegopatrimoniodahumanidade.blogaliza.org; Galego. Patrimonio da Humanidade. 1300 adhesións; Casa Galega da Cultura; 10 de xullo de 2009
[48]“De fala a lingua: un proceso inacabado”; María Pilar García Negro; Edicións Laiovento; Noia (Galiza); 2009
[49]http://www.galiciabilingue.es
[50]http://mocidadepolalingua.netau.net; Um novo estigma para o galelo; Alba Nogueira
[51]http://pt.wikipedia.org/wiki/Estatuto_de_Autonomia_de_Galiza
[52]Vieiros; nº 2; México; 1962

[53]http://pt.wikipedia.org/wiki/L%C3%ADngua_castelhana
[54]Um fenómeno injustamente associado a um caráter arrogante por parte dos falantes do castelhano, mas que de facto, resulta da riqueza vocálica do português, que contrasta com as apenas cinco vogais usadas na língua de Cervantes, algo que se conhece desde os trabalhos de Carolina de Michaelis e que agora é um dos pontos de centrais do pensamento do professor Roberto Moreno.
[55]Decreto do Governo da Comunidade Autónoma da Galiza de 16 de março de 1988.
[56]Seminario de Sociolingüistica; 1994.

[57]Falar Galego “No Veo Por Qué”; Aproximación cualitativa á situación sociolingüísica de Galicia; Ana Iglesia Álvarez; Xerais; 2003; Vigo. Página 288.

[58]Falar Galego “No Veo Por Qué”; Aproximación cualitativa á situación sociolingüísica de Galicia; Ana Iglesia Álvarez; Xerais; 2003; Vigo. Página 288.
[59]http://www.pglingua.org/index.php?option=com_content&view=article&id=742:cnt-denuncia-caso-de-repressom-por-razom-de-lingua&catid=2:informante&Itemid=74
[60]http://www.cntgaliza.org/?q=node/771
[61]Temas de Linguística Política; António Gil Hernández; Associação Amizade Galiza-Portugal; Acrunha; Setembro de 2005; página 52
[62]http://pt.wikipedia.org/wiki/Acordo_Ortogr%C3%A1fico_de_1990#cite_note-0

[63]Novas da Galiza, 15 de maio a 15 de junho de 2009; entrevista de António Gil Hernández “As Academias Lusófonas nom podem entender-se com a RAG. É como se a Real Academia Espanhola se entendesse com umha academia de spanglish”

[64]http://www.lusografia.org/fontenla-curriculum.htm
[65]Boletim da Academia Galega da Língua Portuguesa; Carlos Durão; Síntese do Reintegracionismo contemporâneo;  Academia Galega da Língua Portuguesa; Padrão (Galiza); 2008;  página 55
[66]Temas de Linguística Política; António Gil Hernández; Associação Amizade Galiza-Portugal; Acrunha; Setembro de 2005; página 21
[67]Boletim da Academia Galega da Língua Portuguesa; Carlos Durão; Síntese do Reintegracionismo contemporâneo;  Academia Galega da Língua Portuguesa; Padrão (Galiza); 2008;  página 35
[68]Por regra, nesta obra, optar-se-á sempre por adaptar os textos em grafia galega “Isolacionista” ou anterior a 1983 à atual grafia portuguesa decorrente do Acordo Ortográfico de 1990
[69]Boletim do Grupo de Trabalho Galego de Londres, nº9, Natal, 1972, página 1

[70]http://www.irlapa.ua.pt/rlapa.html

[71]A Galiza, o galego e Portugal, conferência de 18 de janeiro de 1971 em Coimbra

[72]Boletim do Grupo de Trabalho Galego de Londres, nº8, abril de 1972, página 2

[73]http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=504&sid=311
[74]Temas de Linguística Política; António Gil Hernández; Associação Amizade Galiza-Portugal; Acrunha; Setembro de 2005; página 22
[75]Temas de Linguística Política; António Gil Hernández; Associação Amizade Galiza-Portugal; Acrunha; Setembro de 2005; página 24
[76]Boletim da Academia Galega da Língua Portuguesa; Carlos Durão; Síntese do Reintegracionismo contemporâneo;  Academia Galega da Língua Portuguesa; Padrão (Galiza); 2008;  página 51
[77]http://www.aglp.net

[78]Falar Galego “No Veo Por Qué”; Aproximación cualitativa á situación sociolingüísica de Galicia; Ana Iglesia Álvarez; Xerais; 2003; Vigo. Página 122.
[79]De Fala a Lingua: Un Proceso Inacabado; María Pilar García Negro; Edições Laiovento; Ames; 2009. Página 84.

[80]Galiza: Língua e Sociedade (XIV Ensaios); Vários Autores, com António Gil Hernández como editor; Academia Galega da Língua Portuguesa; Santiago de Compostela; abril de 2009. Página 74.

[81]Galiza: Língua e Sociedade (XIV Ensaios); Vários Autores, com António Gil Hernández como editor; Academia Galega da Língua Portuguesa; Santiago de Compostela; abril de 2009. Página 74.

[82]Galiza: Língua e Sociedade (XIV Ensaios); Vários Autores, com António Gil Hernández como editor; Academia Galega da Língua Portuguesa; Santiago de Compostela; abril de 2009. Página 76.

[83]El Ideal Gallego; 18 outubro 1981; Ramón Lorenzo; Unhas cantas reflexións sobre o galego.

[84]Falar Galego “No Veo Por Qué”; Aproximación cualitativa á situación sociolingüísica de Galicia; Ana Iglesia Álvarez; Xerais; 2003; Vigo. Página 66

[85]http://www.crtvg.es
[86]http://www.plingua.org; “A dupla moral do conselheiro cosmopolita”; Maurício Castro
[87]Do Latim às Línguas Nacionais: Introdução à História Social das Línguas Europeias; Lluís V. Aracil; Associação de Amizade Galiza-Portugal; Santiago de Compostela; página 36

[88]http://pt.wikipedia.org/wiki/Ceuta

[89]http://pt.wikipedia.org/wiki/Melilla

[90]http://diario.iol.pt/sociedade/lingua-portuguesa-portugues-ensino-governo-alunos/972503-4071.html

[91]http://www.investopedia.com/terms/b/bric.asp

[92]Jornal Festigal 2009 “Crónicas da Repressão Linguística”

[93]http://www.navajo.org

[94]http://pt.wikipedia.org/wiki/Minderico
[95]Boletim da Academia Galega da Língua Portuguesa; Carlos Durão; Síntese do Reintegracionismo contemporâneo;  Academia Galega da Língua Portuguesa; Padrão (Galiza); 2008;  página 53
[96]“A recíproca conveniência de a Galiza e Portugal levar a termo algum tipo de unificação política”, X. Vilhar Trigo, 2003. http://lusografia.org/xaviervilhar.htm

[97]Falar Galego “No Veo Por Qué”; Aproximación cualitativa á situación sociolingüísica de Galicia; Ana Iglesia Álvarez; Xerais; 2003; Vigo. Página 297.

[98]Novas da Galiza, 15 de maio a 15 de junho de 2009; “Língua Nacional: Se eu fosse eles”; Valentim R. Fagim

[99]“Obra em Prosa de Fernando Pessoa, organizada por António Quadros – Páginas de Pensamento Político”; Edições Europa-América

[100]http://www.agal-gz.org/portugaliza/tvsptnagaliza/carta_linguas.pdf

[101]http://www.terminometro.info/ancien/b40/pt/dudl_pt.htm
[102]De Fala a Lingua: Un Proceso Inacabado; María Pilar García Negro; Edições Laiovento; Ames; 2009. Página 90

[103]http://pt.wikipedia.org/wiki/Quest%C3%A3o_de_Oliven%C3%A7a

[104]http://www.lusografia.org/amizadegp
[105]Temas de Linguística Política; António Gil Hernández; Associação Amizade Galiza-Portugal; Acrunha; Setembro de 2005. Página 135
[106]La cultura del barroco; José Antonio Maravall, Barcelona, 1980, página 99.

[107]“Fernando Pessoa: Páginas de Pensamento Político, organização de António Quadros”; Editora Europa-América.
[108]Temas de Linguística Política; António Gil Hernández; Associação Amizade Galiza-Portugal; Acrunha; Setembro de 2005; página 187.
[109]Citado em “Temas de Linguística Política; António Gil Hernández; Associação Amizade Galiza-Portugal; Acrunha; Setembro de 2005”, página 187.

[110]Galiza: Língua e Sociedade (XIV Ensaios); Vários Autores, com António Gil Hernández como editor; Academia Galega da Língua Portuguesa; Santiago de Compostela; abril de 2009. Página 71

[111]Colaborador regular de http://www.portugaliza.net

[112]http://dn.sapo.pt/inicio/globo/interior.aspx?content_id=1353371&seccao=Europa
[113]http://www.lusografia.org/xaviervilhar.htm
[114]http://taalunieversum.org/taalunie/download/brochure_Engels.pdf

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O Galeuro: uma Moeda Local galega

As Moedas Locais começam a surgir um pouco por toda a Europa como uma alternativa realista e concreta ao Euro e a todas as maleitas que estão associadas à Moeda Única, imposta e controlada a partir do norte da Europa. Uma delas é o Galeuro, uma moeda eletrónica que brevemente começará também a ser impressa. A decisão de passar a imprimir ou não esta moeda será tomada numa reunião a 6 de abril.

A Galeuro é o produto da concertação de um grupo de ativistas da “Mancomunidade Integral Galega” (Miga) e nas palavras dos organizadores, a iniciativa resultada da “crise do capitalismo que está a pôr em questão as próprias bases do regime económico em que vivemos”. O Galeuro surge assim como uma “forma de recuperação das velhas formas de cooperação monetária e levantando alternativas eficazes à tirania dos bancos centrais e às suas moedas de curso legal. Moedas sociais locais e complementares, bancos do tempo, mercados de trocas… as iniciativas para a superação do sistema monetário são variadas, criativas e cada vez mais extensas”, mas, segundo a Miga, “falta ainda um sistema de intercâmbio integrador que dê corpo massivo a esta nova economia social”.

O Geleuro poderá assim juntar-se a várias moedas locais já em curso além na Península Ibérica, como o Eusko, no País Basco, ou o Eco, a Mora e a Taruta, em curso na Catalunha, Andaluzia e Castela.

O Galeuro pretende permitir pagamentos entre pessoas e empresas aderentes a esta moeda eletrónica, esperando-se que a sua passagem ao mundo físico possa contribuir para o alargamento do número de utilizadores desta moeda local.

Em Portugal, o www.MaisDemocracia.org tem também nas Medas Locais uma das suas propostas centrais para a recuperacao da economia local e para a implementacao da descentralizacao municipalista. Naturalmente, a candidatura autarquica participava www.MaisLisboa.org que emana diretamente desta associacao ergue a instauracao de uma Moeda Local em Lisboa também como um dos seus objetivos.

Fonte:
http://www.diarioliberdade.org/artigos-em-destaque/404-laboraleconomia/36773-proponhem-reuniom-para-impulsar-moeda-galega-alternativa-ao-euro.html#.UUl9iKjTdik.facebook

Categories: Economia, Galiza, Lusofonia, maisdemocracia.org, Política Internacional, Política Nacional, Portugal | 1 Comentário

Comentário a Entrevista a Joam Evans Prim (Partido da Terra – Galiza)

Joam Evans Prim

Joam Evans Prim

” Esquerda ou direita?
Os dous formam parte da concepção parlamentar da política. Na visão assemblear da democracia direta somos as pessoas as que deliberamos e decidimos sobre cada questão em particular. A experiência vital ou a bagagem de ideias de cada pessoa podem fazer com que optemos por certas posturas e não por outras, mas a rigidez e a ortodoxia próprias da partitocracia carecem de sentido no contexto da assembleia, mesmo porque não são prescritivas em relação à imensa maioria dos problemas que poderiam surgir, por exemplo, num concelho aberto paroquial ou de bairro, onde, a longo prazo, é mais adequada a lógica de procurar o máximo consenso.”

– não temos dúvidas, também, de que a dicotomia clássica Esquerda-Direita está esgotada. E esgotou-se pela simples incapacidade de quando no poder, se afirmarem as verdadeiras diferença entre ambas as tendências e pela cristalização nos “extremos ingovernáveis” das alas mais radicais desse maniqueísmo partidário. Como Joam, não acreditamos que a renovação da Democracia se possa cumprir pela ascensão ao poder de um novo partido (de Esquerda ou Direita), mas pelo desenvolvimento de mecanismos de democracia direta e participativa, capaz de devolver aos cidadãos o mundo cívico e político e a eficácia da governação. A crise da democracia na Europa é, com efeito, a crise da democracia representativa e da partidocracia que sequestrou o sistema. E a sua resolução só pode passar pela dinamização da vida cívica, pela maior participação dos cidadãos na vida política e pela reaproximação entre os eleitos e os eleitores.

(…)
Mas um partido é o instrumento certo?
Com a abstenção apenas, mesmo que seja ativa, não conseguimos (por enquanto) deslegitimar a política profissional. Deslegitimar a “política” e os “políticos” profissionais é uma estratégia essencial para a recuperação da soberania e a nossa condição de pessoas políticas. O PT assume essa estratégia de deslegitimação como uma constante, uma “guerrilha política” (não violenta, é claro) se se quer ver assim. A criação de zonas autónomas com aspiração de permanência onde as fissuras do sistema o permitam, como assembleias paroquiais ou de bairro com a máxima soberania possível, não é utópico. Existindo a vontade é algo que pode ser feito em qualquer município, desprofissionalizando e “desestatalizando” de facto estas estruturas. Acho que o desejo das pessoas que estamos no PT é que este possa ser dissolvido no prazo mais breve possível, pois não há lugar para os partidos na democracia direta e todos temos, com certeza, outras paixões na vida.”

– a forma de “partido político” é de facto aquela que – à luz do quadro legal atual – melhor permite potenciar a intervenção social e política de um grupo de cidadãos. As formas de “associação” e de “movimento informal” têm as suas virtualidades, mas dadas as suas limitações legais tornam mais difícil a sua capacidade de intervenção e de fazer realmente a diferença. A prazo, contudo, e num momento fundacional, de elaboração de pensamentos e princípios, de implantação nacional e de experimentação de mecanismos de democracia participativa interna e de construção organizacional, estas formas intermédias podem ser as mais adequadas. E essa foi – por enquanto – a opção do +D. O Partido da Terra galego está já num outro patamar e as suas experimentações com assembleias populares ou de paroquia são atentamente seguidas em Portugal.

Fonte:
http://www.partidodaterra.net/peteiras/joam-evans/

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ILP Paz-Andrade atingiu 17.000 assinaturas e esta tarde serão entregues no Parlamento da Galiza

Um passo importante para a Lusofonia na Galiza!

http://www.pglingua.org/noticias/informante/5454-ilp-paz-andrade-atingiu-17000-assinaturas-e-esta-tarde-serao-entregues-no-parlamento-da-galiza

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Portugal e a fragmentação de Espanha através da independência da Catalunha

“Os fantasmas do soberanismo e da secessão voltam a pairar sobre a Ibéria. Não, desta vez as ameaças de independência partilhadas pelas elites da Catalunha não se limitam a simples manobras táticas para obter mais recursos do Estado central. O que está em causa é o redespertar de um sentimento nacional acionado por um poderoso factor de confrontação em tempos de crise: a partilha de recursos. A Catalunha, que representa 18% do PIB espanhol, entrega mais 16 mil milhões de euros de impostos do que recebe de Madrid e se essa redistribuição faz parte das regras da progressividade fiscal e dos princípios de coesão social dos Estados descentralizados, a contabilidade da crise transforma esses princípios em reações populistas em que o “roubo” e o “saque” se fazem mais ouvir. (…) Imersa numa grave crise económica, a Ibéria volta a ser assaltada pelo vírus nacionalista. Auguram-se maus tempos para a Espanha. E maus tempos para Portugal, que dificilmente escapará aos danos de uma possível fragmentação do Estado espanhol.”

Fonte:
Editorial do jornal Público

A fragmentação de Espanha é hoje imparável. O agravamento contínuo e sem fim à vista da crise financeira de Espanha torna particularmente chocante a transferência anual de 16 mil milhões de euros para o obeso e ineficiente Estado espanhol e para a sua administração pública.

Num mundo em que o económico é o factor predominante, o impulso centrífugo da Catalunha é imparável, especialmente num contexto de agravamento iminente da carga fiscal decorrente das contrapartidas pelo “resgate” da Troika que Madrid negoceia hoje, nos bastidores. Brevemente, Espanha estará a reclamar ainda mais dinheiro à Catalunha. O tom da resposta catalã já é conhecido e a sua consequência inevitável: a declaração de independência.

Se Espanha perder a contribuição fiscal catalã, num contexto de subida das taxas de juro, de quase insolvência do Estado espanhol e dada a grande dimensão da economia espanhola, o colapso financeiro será impossível de evitar. Com o colapso, as outras regiões solventes de Espanha (Galiza, País Basco/Navarra) terão todas as vantagens em se afastarem desse gigantes com pés de barro e fragmentarem-se sob o peso de uma Madrid anafada e sobredimensionada e uma onda de secessões vai alastrar-se a toda a Espanha.

Portugal será afetado pela turbulência no seu vizinho e maior parceiro comercial, de certo. Mas esta “parceria” é hoje largamente favorável a Espanha, que exporta muito mais para Portugal do que o inverso. No colapso do Estado espanhol poderão brotar condições que estimulem o desenvolvimento de produções industriais e agrícolas de substituição, criando emprego e riqueza em Portugal. Simultaneamente, questões longamente pendentes com Espanha, como os transvases dos rios internacionais, o esbulho das suas águas, a soberania na ZEE e nas Desertas e em Olivença poderão ser finalmente resolvidas.

Numa Península Ibérica livre do poder centrípeto de Madrid, Portugal será – quase automaticamente – a maior potencia ibérica e aproximações políticas e económicas à Galiza e à Catalunha poderão ser determinantes para anular a turbulência resultante da cisão espanhola e alavancar a reconstrução do tecido económico português. Ao contrário daquilo que é articulado no texto do Público, Portugal poderá até sair ganhador (e de forma decisiva) neste processo que começara com a independência catalã e que pode terminar na libertação de toda a Espanha.

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Maria Dovigo: “Não é por acaso que o escudo da Galiza é o Graal, com toda a sua carga de busca e desejo tão bem relatada nos romances arturicos, vertidos à nossa língua no medievo. Porque a Galiza que desejamos não existiu: é uma procura sem descanso, é filha do desejo, é ao mesmo tempo utopia e ucronia”

“Não é por acaso que o escudo da Galiza é o Graal, com toda a sua carga de busca e desejo tão bem relatada nos romances arturicos, vertidos à nossa língua no medievo. Porque a Galiza que desejamos não existiu: é uma procura sem descanso, é filha do desejo, é ao mesmo tempo utopia e ucronia.”
Maria Dovigo
De Utopias e Ucronias: a Demanda da Galiza e a Profecia do Homem Livre
Nova Águia, número oito

Esta “galiza sonhada”, utópica e imaterial talvez nunca tenha existido… mas existe aquela nação não-Estado que na costa ocidental da Península Ibérica une portugueses e galegos numa comunhão linguística e cultural que nao tem par na Península e que – desde que Madrid não continue no seu criminoso genocídio cultural – ainda há de produzir uma só entidade política e nacional.

Acreditamos que a re-união entre a Galiza e Portugal será concretizada, mais cedo ou mais tarde, assim o queiram os povos de ambas as bandas do rio Minho e o espanholismo de Madrid não logre destruir a identidade nacional galega.

Categories: Galiza, História, Nova Águia | 49 comentários

Quids L1: O Reino Suevo

Reino dos Suevos (http://www.terraemania.com)

Reino dos Suevos (http://www.terraemania.com)

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Pontos:

Clóvis Alberto Figueiredo (17) [Kristang, São Tomé e Príncipe, Guerra Civil em Angola, Timor-Leste, Alcácer Quibir, Cinema da Guiné-Bissau, História da Cidade de Luanda, História da Guiné-Bissau (pré-1700), Guerra Civil na Guiné-Bissau, A Guerra de Independência do Brasil, Conhece bem a CPLP?, Poesia Angolana,Programa Espacial Brasileiro, Poesia Timorense,Entrada da Portugal na CEE/UE,O Brasil na Segunda Grande Guerra,O Reino Suevo]
Luis Brântuas (13) [Agostinho da Silva, Literatura Brasileira, Geografia de Moçambique, A Emigração em Cabo Verde, História de Macau,Força Aérea Angolana,GNR em Timor Leste,Cinema Moçambicano,Ilha do Príncipe,Flora e Fauna de Cabo Verde,Portugal e a Exploração do Espaço,Falintil,Literatura de São Tomé e Princípe]
Valdecio Fadrini (1): [Guerra do Paraguai]
Otus Scops (1): [Gilberto Freyre]

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Categories: Galiza, História, Portugal, QuidsL1 | 2 comentários

Sobre a aproximação fronteiriça Galiza-Portugal

“A festa era sobretudo galega, com uma Cavalta de Reis a unir Valença e Tui, mas foram os bombeiros da cidade portuguesa a sorrir de forma especial ao receberem um cheque de 500 euros da autarquia da Galiza. “É uma ajuda dada habitualmente pela autarquia de Tui, pelo apoio que nós prestamos todo o ano”, explicou o presidente da Associação Humanitária dos Bombeiros de Valença. Isto porque o concelho de Tui não dispõe de corpo de bombeiros, pelo que em caso de emergencia o primeiro socorro é prestado pelos “voluntários” de Valença. “Obviamente que não chega para as despesas que temos em prestar o serviço, mas é um apoio importante”.

Diário de Noticias
6 de janeiro de 2012

Este singelo, mas ilustrativo, exemplo das boas relações entre as gentes da raia nortenha, espelha apenas as mútuas vantagens da aproximação luso-galega, as similitudes e proximidades linguísticas, culturais e civilizacionais entre Portugal e a Galiza e demonstram aquilo que uma aproximação entre os dois povos pode produzir: um maior rendimento dos equipamentos culturais e sociais existentes de ambos os lados da fronteira, até como forma de compensar o esvaziamento do interior que carateriza décadas de esvaziamento centralista de Lisboa e Madrid.

Portugueses e Galegos têm tudo a ganhar com esta aproximação. Lisboa e Madrid não perdem, nem ganham. Mas os cidadãos, ganham: em qualidade de vida e no pleno rendimento dos serviços públicos redundantes de ambos os lados da raia.

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Entrevista ao galizalivre.org: “Sendo Português existe um dever moral e histórico de solidariedade para com a Galiza”

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Afinal, vai manter-se a ligação ferroviária entre Portugal e a Galiza

Comboio da CP (http://porto24.pt)

Comboio da CP (http://porto24.pt)

“A ligação ferroviária entre Porto e Vigo vai afinal manter-se. A decisão de suprimir parte desta linha tinha sido anunciada esta semana, mas a CP salvaguardou que tal poderia não acontecer caso a congénere espanhola Renfe aceitasse pagar os custos além fronteiras. Para justificar o fim da linha, a CP alegava um prejuízo mensal de mais de 19 mil euros. (…) O acordo surgiu ontem: a espanhola Renfe pagará à portuguesa CP cerca de 450 mil euros por ano”

Jornal i
9 julho de 2011

Portugal tem todo o interesse em manter abertas vias de comunicação e de transporte com todos os locais onde, no mundo, se fala português. Por essa razão, qualquer privatização da TAP deve acautelar a manutenção das rotas com todos os países da África lusófona. Por essa razão, igualmente a Galiza – onde se fala o Galego ou Língua Portuguesa da Galiza – deve também manter a sua ligação ferroviária com o norte de Portugal.

A Língua Portuguesa tem uma caraterística notável: está espalhada por todos os continentes do globo, mas de forma descontínua, isto é, nenhuma nação lusófona faz fronteira com nenhuma outra. Com uma excepção: Galiza e Portugal. Resultaria assim altamente incompreensível se para além das ligações aéreas (que hoje têm sempre que passar por Madrid, por razões políticas) também se perdessem as ligações ferroviárias entre os dois únicos territórios lusófonos territorialmente contíguos. Felizmente, isso não aconteceu, mas não devido à CP. Mas à espanhola Renfe… Triste…

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Se o espanhol se sabe finito, o português sente-se incompleto pela ausência no seu corpo nacional da sua metade anímica galega e esse sentimento é reforçado pela aparente infinitude do Atlântico que o limita apenas pelas bandas do Ocidente

“Rui Martins, num interessante artigo intitulado “Pascoaes: Um Testemunho Vivo das Maleitas e dos Tormentos do Portugal de Ontem e de Hoje”, explica a identidade de Portugal no seio da Península Ibérica e a necessidade da Galiza para completar o seu ser nacional: “Se o espanhol se sabe finito, o português sente-se incompleto pela ausência no seu corpo nacional da sua metade anímica galega e esse sentimento é reforçado pela aparente infinitude do Atlântico que o limita apenas pelas bandas do Ocidente.”
Boletim da AGAL 2010

Ficamos gratos a estas amáveis palavras, naturalmente, já que “Rui Martins” é de facto um dos nossos alter-egos, mas não queremos também deixar de aproveitar esta oportunidade para regressar a um dos nossos temas de eleição: Portugal não pode ser Portugal se persistir numa via egoísta de virada de costas ao que se passa do outro lado da raia nortenha.

A realidade galega, o seu sentimento de afirmação nacional frente a uma “Espanha” centrípeda e aglutinadora não pode deixar de merecer a maior das simpatias e dos sentimentos de solidariedade frente a um povo submetido a um severo risco de extinção identitária e cultural. Assim como quando a repressão linguística, cultural e colonial da Indonésia atingia o seu paroxismo e o país se erguia no mundo conseguindo assim o impossível que foi o de levar dois pequenos países (Portugal e Timor) a conseguirem vencer a maior nação islâmica do globo, a Indonésia, com todos os seus numerosos e poderosos aliados, agora, Portugal, se quiser e se for necessário, pode também mobilizar-se nesse derradeiro salvamento de um povo irmão… assim queiram os galegos receber essa ajuda (como quiseram os timorenses em noventas). E essa é que é na “questão galega” a verdadeira questão: os galegos querem mesmo ser ajudados? Alguns querem ser, decerto, como o desejam alguns bons amigos que mantemos do outro lado da raia, mas… até que ponto é que são maioritários estes sentimentos de autonomia cultural e linguística? Esta é que é a verdadeira questão da sobrevivência da lusofonia na Galiza.

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José Manuel Barbosa: “Os reis asturleoneses eram coroados em Compostela, Oviedo ou Leão. Os reis falavam galego”

Santiago de Compostela (http://cache.virtualtourist.com)

Santiago de Compostela (http://cache.virtualtourist.com)

“Os reis asturleoneses eram coroados em Compostela, Oviedo ou Leão. Os reis falavam galego e mesmo os filhos dos reis eram criados por tutores da aristocracia galega que marcavam o caráter dos futuros monarcas, marcavam a política e mesmo a diplomática da época, como nos comenta André Pena (1985). (…) Afonso VI perante a morte do seu filho Sancho, herdeiro do trono, na batalha de Uclés em 1109. A língua na que chora o Rei não pode ser outra diferente da que o Monarca tinha por sua: o galego-português e não o castelhano.”
José Manuel Barbosa
Alguns aspectos da pré-história da língua

Este foi apenas uma das muitas “limpezas étnicas” da História promovidas por Castela-Madrid para aculturar toda a Península. Castela, a partir da unificação imperial promovida pelos Reis Católicos, procurou identificar Espanha com uma versão ibérica de Castela, em torno da qual distribuiu todas as nacionalidades “periféricas” encetando um processo de anexação que foi particularmente agudo na Galiza, com a proibição do uso da língua portuguesa da Galiza nos serviços religiosos, na administração pública, nos atos notariais e judiciais e, sobretudo, no Ensino. Acantonada no mundo rural, a “língua própria” conseguiu sobreviver até ao século XX mas vive hoje um período difícil, de quase extinção, sobretudo pela fraca adesão ao galego entre as camadas mais jovens e na população urbana (os “urbanitas” dos estudos demográficos).

Paradoxalmente, Castela-Madrid e os seus lacaios locais na Galiza, tiveram que reescrever o passado e forjarem fontes para diminuírem o “galego” à categoria de dialeto e promoverem a antecedência do castelhano, mas a quantidade e persistência dos seus arremedos contra a língua portuguesa da Galiza arrisca-se a ser bem sucedida a muito curto prazo e a levar o Galego ao triste estatuto de “língua morta”, quanto esta língua portuguesa tem todas as condições para se tornar “extenso e útil”. Assim queiram os galegos continuarem a manterem uma identidade nacional própria e nós – os da outra banda da raia do Minho – os quisermos ajudar.

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Concha Rousia: “Lisboa e as nossas palavras”

Lisboa e as nossas palavras
Crónica
Concha Rousia
(…)
“Fomos a Lisboa um grupo de quatro pessoas, Issac Alonso Estraviz, Ângelo Cristóvão, António Gil, e eu. Desta vez para burlar o vento levávamos as nossas palavras escritas em brochuras e pen-drive. A nossa primeira visita foi ao Movimento Internacional Lusófono na Fundação Agostinho da Silva; a conversa demorou bem duas horas boas, ninguém, nem eles nem nós, se queria despedir daquele encontro.
(…)
“Essa mesma noite regressamos à Galiza. A mim o caminho pareceu-me mais curto do que noutras passadas visitas a Lisboa; talvez porque sabemos que a cada vez vamos deixando lá mais amigos, com os que desde já, contar, não só na ACL (Academia de Ciencias de Lisboa), mas tambem no MIL”

Boletim da AGAL 2010

Tive a honra de estar presente nesta primeira reunião (várias depois se sucederiam) entre estes amigos galegos da AGAL e o MIL. Desde esse momento – antes já havia uma suspeita – que percebemos que a defesa da causa da defesa da língua galega ou língua portuguesa da Galiza se deveria eleger como uma das principais causas públicas do MIL. Como conceber um “movimento lusófono” digno desse nome que não erguesse bem alto a bandeira da defesa da continuidade da existência da Galiza enquanto nacionalidade e a causa da sobrevivência da língua portuguesa precisamente onde esta é matricial e original?

A Galiza e os galegos – como Concha Rousia, Isabel Rei, Alexandre Banhos ou Ângelo Cristóvão – poderão sempre contar com o MIL e com todos os lusófonos do mundo.

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Carlos Reis: “A Galiza e a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa”

Professor Carlos Reis (http://www.nominuto.com)

Professor Carlos Reis (www.nominuto.com)

“A Galiza e a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa

Galiza tem aí um problema a resolver com o Estado espanhol e tem um problema a resolver também com o Estado Português que não quer ter problemas a resolver com o Estado Espanhol, evidentemente. Portanto há aqui uma triangulação política que é um pouco difícil.”
Professor Carlos Reis
Boletim da AGAL 2010

Não defendo pura e simplesmente a independência da Galiza e a sua saída de Espanha. Acredito profundamente que a “questão galega” é isso mesmo: uma questão galega, que cabe aos galegos resolverem. Em último grau, serão os galegos se querem continuar a sê-lo ou se, pelo contrário, preferem dissolver a sua nacionalidade, a sua língua, enfim, a sua própria essência na “Espanha”. A opção pela sobrevivência da Galiza não está disponível a nenhum lusófono, português, brasileiro ou timorense, existe apenas para os galegos e é aí que se deve desenvolver.

Dito isto, contudo, cumpre-me também exprimir a minha maior simpatia por todos aqueles que neste mundo globalizado e aglutinador procuram manter as suas identidades e línguas próprias, lutando frequentemente contra Golias capazes de agregarem em torno de si meios terríveis e de pisarem todos e quaisqueres limites morais. Esse é o caso de “Espanha”, dessa entidade aglutinadora erguida em torno de Madrid e que historicamente Castela sempre usou para afirmar o seu império a todos os cantos da Península de que Portugal não faz parte por mera casualidade histórica e pelo engenho e arte dos nossos antepassados…

Não ignoramos que hoje se vivem dias dramáticos na Galiza: o número de falantes da língua portuguesa da Galiza diminuiu de dia para dia e a situação é particularmente grave entre os jovens e as populações urbanas. No prazo de uma geração, a língua arrisca-se a não ser mais do que uma língua morta ou académica, sem uso útil ou extenso. Ainda é possível, contudo, reverter este ritmo descendente… a língua portuguesa da Galiza ainda é suficientemente entendida na Galiza para poder ser recuperada no espaço de uma geração, assim haja vontade política para o fazer. Este deve ser o papel crucial e insubstituível da comunidade lusófona: apoiar – sob todas as formas – aqueles que na Galiza querem falar português e fornecer-lhes meios materiais que possam sustentar esse renascimento da língua naquele local que foi historicamente o da sua matriz fundadora: a Galiza. Se depois, de a sua-nossa língua estar recuperada, os galegos – em sufrágio livre e universal – decidirem pela independência, pela federação com Espanha, pela aproximação com Portugal e o Brasil, essa já se será outra questão…

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Por vezes, dizem-me que “não gosto de Espanha”

Por vezes, dizem-me que “não gosto de Espanha”. Nada mais incorreto. Não aprecio esta Espanha centralista, unitária e excrescente de Castela que se transferiu para Madrid desde o Franquismo e que a erupção da monarquia parlamentar não fez mais que moderar.

Detesto a Espanha que tentou forjar uma “espanholidade” à custa de tudo e de todos, nomeadamente pela asfixia cultural e linguística dos povos que senhoriou e que busca hoje definitivamente acultural.

Admiro e anseio por uma Espanha onde se possam contar todos os povos da Ibéria, lado a lado e em situação de absoluta paridade. Por uma Espanha onde todas as derivas centralistas (de Madrid e Lisboa) sejam condicionadas às legítimas aspirações de liberdade, independência, identidade nacional e autonomia de todos os povos hispânicos.

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Isabel Rei Sanmartim: “Segundo o atual Estatuto de Autonomia da Galiza, unidade administrativa espanhola, o conhecimento do chamado “idioma galego” é objeto de direito, mas não de dever”

 

Isabel Rei Sanmartim (http://media.lavozdegalicia.es)

Isabel Rei Sanmartim (http://media.lavozdegalicia.es)

 

“Segundo o atual Estatuto de Autonomia da Comunidade Autónoma de Galicia (CAG), unidade administrativa espanhola, o conhecimento do chamado “idioma galego” é objeto de direito, mas não de dever, ao tempo que o conhecimento do castelhano é objeto de dever em todo o Estado. Isso quer dizer que os galegos, como cidadãos, temos a briga de conhecer o castelhano, mas temos a obriga de conhecer a língua própria.”
Isabel Rei Sanmartim
Sobre o conceito de prática genocida

Este desequilíbrio é uma ferramenta a que recorrem os centralistas de Madrid para prosseguirem os seus planos de “espanholização” dando assim seguimento ao plano de Francisco Franco (ironicamente, um galego…) de extinguir todas as nacionalidades e línguas nacionais de Espanha e de forjar uma identidade “espanhola” que de facto, mais não é do que uma versão extrovertida do castelhanismo, a nacionalidade imperialmente dominante em Espanha desde a conquista de Granada. E Castela-Madrid sabe que para prosseguir com o seu rolo compressor esmagador de nacionalidades pela Espanha fora tem que desbravar primeiro o terreno desmatando as milenares árvores linguísticas catalã, basca e galega (língua portuguesa da Galiza)… e é por isso que a espanholização da Península usa a imposição da sua língua “imperial” (o castelhano) pela via económica e estatal para acultural e destruir a nacionalidade galega.

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A evolução dos limites da Galiza no transcurso da História

Palestra de José Manuel Barbosa, na Sociedade de Geografia de Lisboa, a 19 de março de 2010:
O nome da Galiza não se corresponde com o mesmo território segundo a etapa histórica da que estejamos a falar e é por isso pelo que os limites da mesma também não são os mesmos.
O Paradigma galeguista, como contraposição ao Paradigma castelhanista põe sobre a mesa uma narração dos factos no que a Galiza existe como ente protagonista da Idade Média e ainda de outras épocas. Nós tentaremos desvendar aquelas chaves que até agora não levam sido publicitadas porque a Galiza não tinha possibilidade de as expor como sim tem sido possível com a Catalunha e o País Basco dentro do contexto do Reino da Espanha porque nesses países sim há um poder autocentrado que não só permite, mas impulsiona o estudo da própria História como elemento fulcral na (re-)construção nacional, apesar do castelhanismo ideológico que procura deformar a realidade passada dos povos e nações da península Ibérica.

O nome da Galiza não se corresponde com o mesmo território segundo a etapa histórica da que estejamos a falar e é por isso pelo que os limites da mesma também não são os mesmos.O Paradigma galeguista, como contraposição ao Paradigma castelhanista põe sobre a mesa uma narração dos factos no que a Galiza existe como ente protagonista da Idade Média e ainda de outras épocas. Nós tentaremos desvendar aquelas chaves que até agora não levam sido publicitadas porque a Galiza não tinha possibilidade de as expor como sim tem sido possível com a Catalunha e o País Basco dentro do contexto do Reino da Espanha porque nesses países sim há um poder autocentrado que não só permite, mas impulsiona o estudo da própria História como elemento fulcral na (re-)construção nacional, apesar do castelhanismo ideológico que procura deformar a realidade passada dos povos e nações da península Ibérica.

ÁUDIO (De melhor qualidade) em:
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A “Converxencia XXI”: um partido Reintegracionista galego?

Sempre houve no espectro político galego uma lacuna de peso: Não existia um partido político de inspiração “Reintegracionista”, isto é, um partido que se possa afirmar como o herdeiro dos “lusistas” (termo hoje usado de forma injustamente depreciativa) do século passado. Não existia… até agora.

Finalmente, os cidadãos galegos que se identificam com o Reintegracionismo linguístico e cultural encontram uma voz política compatível com os seus interesses e os do movimento lusófono galego.

Na atualidade, existem duas posições diferentes sobre a natureza da língua própria da Galiza: a oficial, que entende que o galego e o português são duas línguas diferentes e que, em consequência, defende que devem possuir duas grafias completamente distintas, sendo a grafia da língua galega mais próxima da do castelhano do que da grafia da língua portuguesa. Esta é a corrente “Isolacionista”, que domina os órgãos do Estado e as Universidades. A outra corrente é conhecida por “Reintegracionista” pelos seus adeptos ou “Lusista” pelos seus adversários e defende que a Língua Galega é mais corretamente identificada pelas expressões “Galego-Português”, “Português da Galiza” (PG) ou ainda como “Portugalego”. Para os Reintegracionista, a língua própria da Galiza é uma variedade do português e consequentemente defendem que a mesma ortografia seguida em Portugal, deve ser utilizada na Galiza, como forma de purificar esta língua dos elementos exógenos castelhanos que a infectaram durante os séculos de repressão e assimilação linguística e cultura de Espanha.

Este novo partido galego de inspiração Reintegracionista é o “Converxencia XXI” (http://www.converxencia.eu) que ainda que recorra à norma oficial isolacionista “oficial” nas suas publicações e na sua presença cibernética, é adepto moderado das teses Reintegracionista sem procurar hostilizar os galegos mais moderados através de uma adopção generalizada e sistemática da grafia Reintegracionista. De orientação mais centrista que o Isolacionista Bloco Nacionalista Galego (partido próximo do Bloco de Esquerda português), a “Converxencia XXI” é um partido centrista que ao se alhear de certo radicalismo estéril existente em algumas correntes extremas do Reintegracionismo pode colher uma representação parlamentar significativa, pelo menos no plano teórico.

O alinhamento Reintegracionista da “Converxencia XXI” fica nítido no seu objetivo q)

“q) considerar a Portugal como espazo próximo de gran valor xeoestratéxico, económico, político, cultural e lingüístico para nós. Defender o Reintegracionismo lingüístico desde un punto de vista exclusivamente utilitarista e para poñer en valor esa avantaxe competitiva do noso país ata agora desaproveitada.”

Um ponto que ainda que esteja escrito com grafia Isolacionista deixa clara a orientação para buscar em Portugal um eixo cultural e político decisivo para refundar a identidade nacional galega.

Com a aparição de um partido galego mais claramente orientado para Portugal e para a sua própria identidade e não para serventias com Madrid ou com redes clientelares locais, será mais fácil congregar apoios à causa galega por parte dos demais países lusófonos, especialmente do fronteiro Portugal e do economicamente cada vez mais poderoso Brasil.

Existe um patente bloqueio entre a Galiza e os países lusófonos. O bloqueio foi criado ao longo dos séculos por políticas concertadas e bem executadas por parte de Madrid, que sempre receou que Galiza e Portugal vissem a evidência da sua proximidade cultural e linguística e buscassem juntos um destino diferente daquele almejado por Madrid. Este bloqueio explica parcialmente porque é que não encontramos entre a Galiza e os outros países lusófonos os mesmos laços que unem a Holanda e a Flandres belga ou entre a Grécia e os cipriotas. Mas não explica tudo… O sucesso das políticas de separação de Madrid tem existido porque os lusófonos, e muito especialmente os portugueses e os seus pífios governantes têm preferido sacrificar os seus irmãos galegos e até o seu próprio território nacional (Olivença) a troco da “doce” simpatia castelhana. O comércio, a tradicional vontade de “não criar problemas” e servilismos crónicos, por parte de Portugal têm feito o jogo de Madrid na perfeição. Enquanto os portugueses quiserem. E cabe ao MIL fazer com que despertem e reencontrem na Galiza que Madrid nos tem tentado (inutilmente?) fazer esquecer.

Fonte:
A partir de uma conversa com José Manuel Barbosa Alvares
(que esteve em Lisboa, a 5 de dezembro para o http://movimentolusofono.wordpress.com/2009/11/03/debate-publico-o-futuro-da-galiza-no-espaco-lusofono-5-de-dezembro-1500/)
http://pt.wikipedia.org/wiki/Reintegracionismo

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Comunicado MIL sobre as Emissões de Rádio e Televisão Portuguesas na Galiza

Considerando que cabe aos galegos determinar o futuro da Galiza, conforme foi expressamente ressalvado no último debate público que promovemos, e não pretendendo suscitar um diferendo diplomático entre o Estado Português e o Estado Espanhol a este respeito, o MIL: MOVIMENTO INTERNACIONAL LUSÓFONO apela a que as emissões de rádio e televisão portuguesas (sobretudo aquelas que privilegiem programas de cariz cultural) sejam recebidas na Galiza, conforme é desejo expresso de múltiplas organizações galegas.

MIL: MOVIMENTO INTERNACIONAL LUSÓFONO
http://www.movimentolusofono.org/

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Réplica a Casimiro Ceivães e Klattu a artigo “A Questão da Galiza: História da Galiza (5ª parte)”

Depois da publicação do meu artigo “A Questão da Galiza: História da Galiza (5ª parte)” o Klatuu e o Casimiro deixaram na caixa de comentários uma série de observações muito interessantes e merecedoras de réplica. Não querendo deixar de lhes responder, e dando a estas respostas o devido destaque, eis que decidi escrever este artigo contendo as minhas respostas…

Casimiro Ceivães:

“Se se tomar como pressuposto que o reino Suevo não se deve confundir com o Império dos Visigodos, e que a Galiza cristã é basicamente a sua continuação, então não faz sentido falar (pelo menos aqui, na faixa ocidental da Península) de “reconquista”: passado o Mondego, os Suevo-Galego-Portugueses estavam em zona onde nunca tinham posto o pé…”

> Efetivamente, é nessa matriz sueva que radica o primeiro Portugal. Mas não cremos que o reino suevo seja o protótipo de Portugal, pelo contrário, ele implantou-se numa região onde encontrou homogeneidade cultural e civilizacional, buscando assim assentamento em estruturas que lhe eram muito anterior, romanas e castrejas. Os Suevos não eram em número suficiente para formarem uma comunidade demograficamente significativa (seriam talvez menos de 20 mil pessoas), e utilizaram habitantes locais galaicoromanos em todos os escalões da sua administração.

“Isso mesmo resulta do documento de 938 (duzentos anos antes de D. Afonso Henriques!) que referes: “em Galiza, na extrema (quer dizer, na fronteira) do Minho (Rio) e na extrema do Douro”.”

> Na direta transposição da “Gallaecia” romana, uma província fundada já em torno das três tribos dos ártabros, dos gróvios e dos astures, todas de etimologia celta e buscando assim os seus traços comuns que justificavam a sua reunião numa única entidade administrativa.

“Essa ‘extrema do Douro’ é que deu a nossa Extremadura (há-as em Portugal e em Espanha), mas refere-se à região que hoje designamos por ‘Beira’, palavra que no falar da gente do Norte quer dizer algo semelhante ao ‘fim’ que vemos em ‘finisterra’: – “parei o carro à beira da estrada porque senti que estava à beira de adormecer”. A ‘Extremadura’ foi descendo à medida que avançava a ocupação militar, detendo-se só (o nome) quando o grande rio Tejo justificou uma nova referência: terras de cima (Riba) e de além Tejo. “

> Bem recordado: Extrema-Douro -> Extremadura. Esse termo no tempo da Fundação designava efetivamente todas as regiões fronteiras a sul do rio Douro e controladas pelos muçulmanos. Depois, foi descendo empurrada pelo avanço para sul da Reconquista.

“Por essas e por outras é que o conde dom Henrique, o pai do nosso primeiro Rei, se declarava em documentos ‘dominante em Portugal e em Coimbra’.”

> E também porque Coimbra foi até Dom Afonso III, era a capital do país e sede de um dos dois condados cristãos, além do de Portucale, no território que se situava a norte do Tejo, antes da aparição de Portugal, enquanto entidade política independente na história peninsular.

Klatuu:

“1. A origem céltica dos Calaicos é pura mitologia nacionalista. Os Calaicos são a «civilização dos castros», claramente ibérica e correspondendo à primeira vaga de invasores da península, mas «alimentando-se» de algo muito mais antigo: a população neolítica autóctone.”

> Será mitologia, mas é informação largamente propagada… E estando o tema imerso nas mais fundas brumas da História, receio bem que nunca venhamos a ter uma informação verdadeira cabal e indiscutível sobre o tema… Em latim, os Calaicos eram conhecidos por “C/Gallaeci”, um termo que é uma óbvia herança do grego Kallaikoi. Sabe-se que – como os lusitanos – não derivavam de um único tronco étnico (já na épica a miscigenação era o traço dominante dos povos hispânicos…), tendo no seu seio diversas heranças étnicas e linguísticas. Com efeito, entre os Calaicos havia povos célticos (não confundir com “celtas”) e povos pré-indoeuropeus, provenientes do mesmo substrato linguístico de onde vieram também os Cónios (fundadores de Conium-briga) e autores da única escrita pré-romana de Portugal (ainda indecifrada). Recordemo-nos também que os Oestrimínios que mantinham relações comerciais por mar, entre a Galiza e a Bretanha e as Ilhas Britânicas desde épocas remotas, provavelmente até desde o Calcolítico, serviram para alguns de matriz original para esse impulso para o Oceano, o Descobrimento e para a Aventura que daria o impulso bastante para levar os portugueses a buscarem dar ao mundo novos mundos… Estes Oestrimínios seriam assim os antepassados remotos dos Galaicos.

“A propósito dos keltoi: ultimamente tenho contactado com uns Galegos «doidos», que acham que na Escócia e Irlanda há um fundo de sangue galego, quando é bem o contrário: os Iberos foram o primeiro povo a colonizar as Ilhas Britânicas, e não eram Celtas.”

– uma tese muito polémica… Não questiono que tenham existido desde épocas muito remotas ligações marítimas mais ou menos regulares entre a Escócia e a Irlanda e noroeste peninsular. A arqueologia e as crónicas gregas indicam isso mesmo. Tal não significa colonização ou migração massiva de um lado para o outro, ou vice-versa. A tese da colonização a partir da Ibéria é interessante e sempre me fascinou, especialmente pela sua ligação ao Megalitismo, fenómeno (quiçá) anterior à aparição dos celtas ou indo-europeus na Europa. Pessoalmente, acho difícil tal movimentação migratória porque se assumirmos que os indo-europeus vieram de facto da Ucrânia (como se crê hoje) a rota mais óbvia é que tenham chegado às Ilhas Britânicas e à Península ao mesmo tempo e não da segunda para a primeira, pela simples constatação da distancia marítima a percorrer (em perigosas águas do Atlântico) entre o noroeste peninsular e a Irlanda e Escócia ou no pacífico e estreito Canal da Mancha.

“Os antigos Calaicos da civilização castrense não são, de origem, célticos, mas sim correspondem a uma bolsa dos primeiros Iberos que se conservou nas montanhas. Os Celtas andaram por toda a Península Ibérica, porém a grande zona da sua fixação é no centro sul e sul.”

– correto. Essa é também a minha opinião. Seriam populações pré-indoeuropeias, aculturadas por estas a um ponto tal que perderam a língua, mas não a herança genética. Um caso idêntico ao dos lusitanos, em suma, outro provo de matriz étnica pré-celta, mas de língua celtizada (como se constata nas raras inscrições lusitanas). Os celtas do sul não eram aqui maioritários. Tanto assim que as fontes coevas (como Rufus Festus Avienus) não os designam de celtii, mas de celtici, isto é, não como “celtas” mas sim como “céltizados”. Esta é designação dos povos que faziam fronteira a leste com os cónios do Algarve e do sul do Alentejo.

“A origem da palavra Galiza (Calécia, Gallaecia), tem a ver precisamente com o radical Cale. Concretamente, com o localizado numa das áreas onde hoje se encontra a cidade do Porto. Mas, antes de abordarmos essa questão, seria bom aproximarmo-nos a algumas das analises que sobre a etimologia e origem linguística Cale se têm realizado.
Hoje sabemos, que a forma Cale, esteve e está, muito presente ao longo de toda a geografia europeia. Especialmente nas áreas geográficas onde perviviu ou pervive um substrato linguístico celta [1] (ainda que se tem registrado também em outras línguas indo-europeias como o eslavo ou o albanês). Daí, por exemplo, que na Europa Atlântica (e não só) tenhamos encontrado denominações como Galia, Calais, Gales, Galatia, Gaia, Galiza ou PortuGal. Palavras, sob as quais, uma simples olhada, dá para ver que é o que têm em comum em relação à raiz Cale/Gal.”

– a derivação de G para C é comum em muitas línguas e sistemas fonéticos. Assim, a ligação céltica do termo é aceitável. Existem aliás referencias latinas a toda a Península Ibérica como sendo a “Gália Inferior”, em que a atual França era a “Gália Superior”.

“O portus cale dificilmente remontará para língua céltica (tudo fantasia), mas sim para o próprio Latim e o Grego; é o Porto Belo: o rio Douro.”

– discordo. A palavra “portus” é efetivamente latina (valendo por “porto” ou “embarcadouro”), mas a palavra surge aqui neste topónimo como prefixo a uma outra palavra de origem indígena (celta), que é precisamente Cale. Não me vou aqui alongar, mas sigo aqueles que referem que “Cal-” era o antepassado mítico (semi-deus) que os celtas acreditavam ter em comum.

“Estudos britânicos recentes comprovam um comum genético entre parte dos Britânicos e os Galegos; que o nacionalismo logo interpretou adentro do pendor maníaco celtista… O que, de facto, se passa (qualquer historiador o sabe) é que foram os Iberos os primeiros invasores das ilhas britânicas (antes dos Celtas), constituindo este «sangue ibérico» o fundo de muita população britânica, e que, por exemplo, aproxima Irlandeses a Portugueses e Galegos.”

– essa leitura não é assim tão consensual… Defendo que houve vagas migratórias de uma banda para outra, mas não nessa direção. Os laços genéticos foram evidenciados pelo trabalho pioneiro da equipa de Cavalli-Sforza, mas não podem exprimir qual é o ramo anterior, com esse tipo de clareza. Não excluo, mas também não incluo, mantendo aqui a minha liberdade de opção e abertura de espírito (comprometendo-me a este propósito de investigar mais sobre o tema).

Klatuu:

“P. S. Quanto à «Portugaliza», nunca passaria de uma «Galenhota»: conluio de Galegos e Minhotos. Além da Língua, de comum origem, a Galiza nada tem que ver com Portugal na sua inteireza; apenas com uma exígua parte do norte de Portugal. Mais próxima, em termos estritamente étnicos, está a Extremadura espanhola, a restante nação lusitana, com capital em Mérida.”

– a Portugaliza teria a mesma viabilidade que tem a Espanha atual, ou ainda mais, já que teria o mesmo tico cultural e linguístico e até o temperamento comum. É impossível visitar a Galiza ou falar com galegos e não sentir uma especial comunhão e proximidade. Resulta particularmente comovente a leitura de textos reintegracionistas, com a grafia portuguesa, que deixam claro até que ponto é Portugal e Galiza são dois aspectos de uma mesma nação, separada por dois Estados. Mas atenção, não quer isto dizer que defenda a secessão da Galiza da Espanha ou uma anexação da comunidade autónoma pelas (inexistentes) divisões portuguesas. Defendo sim, que devem ser concedidas à Galiza todas as possibilidades para que se defenda e promova a língua própria da Galiza em detrimento da sua Substituição (aculturação) pelo castelhano, defendendo assim a identidade nacional galega. Se depois de feita e consolidada esta defesa, os galegos (excluindo colonos) optaram pela secessão, união com Portugal ou com o norte de Portugal, isso é algo que compete unicamente aos galegos, não a mim (nós) que somos cidadãos da República portuguesa. Decidam como decidirem, poderão contar com a minha solidariedade.

Casimiro Ceivães:
“2. O ‘Celta’, na imaginação dos britânico-irlandeses (deste lado e do outro do mar…) é afinal ‘o Outro’ (pode ser também o Índio, a Bruxa, o Vampiro, o Pirata). Se tivéssemos vivido a Revolução Puritana ou o Napoleão, os primeiros niveladores da Europa, e se não tivéssemos no sangue e na alma a estranha herança judaica, saberíamos bem essa alternativa ao sebastianismo que é feito só de urze e carvalhos…”

– É verdade. O “celta” era exatamente isso para os gregos “keltikoi”, eram os povos ainda “soltos” ou “não escravizados”. Era assim uma designação muito lata e generalista que colocava no mesmo saco povos muito diversos… Por exemplo, até que ponto é que os gálatas (partícula gal-) eram o mesmo povo que os gallaeci? Muito pouco, certamente…

“4. O primeiro grande arqueólogo do Norte de Portugal, Martins Sarmento, explorou toda a vida as ‘citânias’ (Castros) do Minho, e principalmente a famosa de Briteiros (perto de Guimarães) que lhe ficava no fundo do quintal. Concluiu pelo seu não-celtismo (claro!) e levou com os historiadores de Lisboa em cima 🙂 Na altura (1860, mais ou menos) a moda era ‘celta’ – os ‘germano-arianos’ ainda não estavam na mó de cima…”

– uma ligação que aliás tem sido usada e abusada pelos extremistas com grande sofreguidão… Nessa época as viriae (viri-ato) eram aliás usadas como prova de que os lusitanos (tidos então como os antepassados dos portugueses) eram celtas, quando de facto eram apenas aculturados e de fala indoeuropeia, mas não indoeuropeus do ponto de vista étnico e cultural.

“5. Chame-se-lhe o que quiser, Celtas, Lígures (como queria o Martins Sarmento) ou outra coisa qualquer: é fácil, são os povos que desconhecem o Toiro e conhecem a Gaita-de-Foles :)”

– sendo os Lígures ainda mais elusivos que os celtas? Quem eram? Que língua falavam? Ninguém sabe, mas o seu deus Lug pode estar presente em vários topónimos portugueses…

“6. Agora, a História. Em meu entender, Suevos e Visigodos são tão irrelevantes uns como outros. Em qualquer caso, do Lima (que passa uns 30 km abaixo do Minho, perto da Foz) para Norte, as povoações deixam de ter maioritariamente nomes germânicos. Desaparecem os Gondomar (‘vila de Gundemir’), os Resende (‘vila de Rodesind’), os Nevogilde (‘vila de Leovigild’) e aparecem outras sonoridades. Só Deus sabe que língua gerou o nome Curcubión (perto da Corunha) ou o Afife (perto de Viana do Castelo). Mas não é árabe (claro!) nem latim, nem germânico…”

– ora bem! De facto, a escassez demográfica dos invasores suevos não lhes permitiram deixar nem um domínio duradouro, nem uma herança significativa, muito além dos testemunhos toponímicos que bem apontas.

“7. A embrulhada em que se meteram os historiadores nacionalistas castelhanos e galegos é infinda, no que diz respeito aos primeiros séculos chamados ‘da Reconquista’. Como se não bastasse já a aflitiva falta de documentos. Entre o Pelayo visigodo (!!) e o Reino de Leão ‘que só existiu no papel’ (!!!) é difícil ver claro.”

– não faltando quem acredite na Galiza de que esse “reino de Leão” nunca existiu, havendo apenas um “reino da magna Galiza” que Castela quis transformar em “Leão” para melhor assimilar esses território… Um testemunho desta manobra seria ainda hoje localizável no uso da língua portuguesa da Galiza (“língua galega”) na chamada “Galiza exterior”, na atual comunidade autónoma de Asturias.

8. Em qualquer caso, o momento fundacional de Portugal-Estado (como o vemos agora) não é a batalha de Ourique contra os ‘mouros’ nem a batalha de São Mamede contra a Rainha D. Teresa e os ‘galegos’ – é o momento em que Afonso Henriques desloca o centro de poder, temporal e espiritual, de Guimarães para Coimbra (para Santa Cruz de Coimbra), a cidade moçárabe. Os nobres do Minho e do Douro, os chefes de família pelo menos, não o acompanharam. Ficaram nos seus castelos e paços do Minho (de uma e de outra margem do Minho). Acompanharam-no aventureiros, muitos deles estrangeiros, juristas, filhos segundos com pouca herança. Afonso Henriques fez o que mais tarde faria D. João I em idênticas circunstâncias – uma nobreza nova. E Portugal ‘sem fim’ – desligado da região que lhe dera o nome – nasceu. Depois, tratou-se de conquistar esta simpática cidade onde agora vivo – Lisboa do Mar. Nós, os Minho-Galegos, ficámos onde sempre estivemos. Houve coisas boas – a Inquisição e os Autos de Fé são-nos desconhecidos, e o porco assado tem um sabor especial.”

– o Portugal que conhecemos hoje em dia resulta do resultado de uma opção entre a reunião com a Galiza (e o afrontamento perigoso e eterno com Castela) versus o avanço contra o muçulmano do sul: dividido, enfraquecido e para cuja guerra se poderia sempre convocar o apoio do Papa (impostos e isenções) e da restante cristandade (como os cruzados que ajudaram a libertar Lisboa). Além do mais, não nos esqueçamos do papel vital cumprido na expansão do pequeno reino português das ordens militares: como recorrer a elas se o inimigo fosse também cristão? A escolha era clara e essa razão meramente tática ditou o abandono da irmã Galiza a favor da Real Politik e a divida moral que hoje cabe a cada português tudo fazer para saldar.

Klatuu:
“… Nada por acaso Dom Afonso Henriques toma Tui, e depois inflecte para Badajoz, revelando a sua estratégia, conquistando várias outras praças fortes da Extremadura espanhola. Chefe a chefe, aceitação de Afonso na Extremadura espanhola foi vasta…”

– corretíssimo! Mas teve que recuar, pressionado de novo pela necessidade de manter paz e fronteiras seguras a leste de forma a poder concentrar recursos (escassos) na campanha para sul, contra as taifas.

“Este detalhe é mais do que intrigante para qualquer historiador que não esteja amarrado de grilhetas académicas. As nações têm uma alma mais antiga que os homens…”

– havendo (ou não…) uma estranha corrente de opinião na Extremadura, os Lusitanistas, que defende a saída da comunidade autónoma de Espanha e a formação de uma federação com Portugal, partindo precisamente dessa ligação histórica pré-romana entre a Extremadura e a parte portuguesa da Lusitânia (toda menos a parte a norte do Douro).

Klatuu:
“Foram os Cónios que comerciaram as antepassadas das falcatas lusitanas. Como sabemos, os Cónios foram semitas, e, quiçá (a religião e a língua apontam nesse sentido), uma das «tribos perdidas» de Israel…”

– discordo. Escrevi muito e li ainda mais sobre os cónios, buscando a tradução da sua ainda ignota escrita e língua. E ainda que esse seja a tese de pessoas como Moisés do Espírito Santo, posso assegurar-te que não, que não eram semitas. Não me vou aqui alongar (remeto aqui para os meus numerosos artigos sobre a “A Escrita Cónia” no Movv.org), mas queria só dizer que a sua escrita usa carateres fenícios (semitas) importados no decurso de contactos comerciais com estes e com a sua colónia de Gades e aliada de Tartessos, mas existem novos carateres aqui inventados que só faria sentido aparecerem se existissem fonemas não representados na escrita fenícia na língua dos cónios (conii, conium, konii, kon, cinéticos, etc). E se os há, é porque a língua testemunhada nestas estelas funerárias (e rara cerâmica, mais o único Alfabeto de Espanca) não era semita! A minha tese favorita (mas não definitiva) é que a sua língua era pré-celta e não-semita. Mais especificamente: do substrato mediterrânico ou… Cabila (tamazight).

“Faz mas é um post. A questão não é a «união», seja com que outra nação lusófona for – a própria existência da CPLP supõe uma união evolutiva -, a questão é a forma, os prazos, as prioridades.
Comecemos pelo chão – nem isso ainda temos -, depois virão as paredes (e não te iludas: estaremos todos a fazer estrume quando as paredes forem erguidas), só depois o tecto.
A nós coube-nos em destino fazer o chão… olha para o chão.”

– ei-lo! E sim, a grande e vera questão aqui é o aprofundamento da CPLP e saber até que ponto é que este envolve o futuro de Portugal. E quanto ao chão, é fundamental conhecê-lo de forma a partir de alicerces sólidos, e estes, nas palavras de Agostinho e Pascoaes, estão a norte e ainda mais para cima, na Galiza, nessa “metade feminina de Portugal”, sem a qual Portugal será sempre incompleto!

“Abraço MIL!”
– Dito! Abraço MIL!

Fontes:
http://cvc.instituto-camoes.pt/hlp/biblioteca/formportugal.pdf
http://pt.wikipedia.org/wiki/Suevos
https://www.galizalivre.org/index2.php?option=com_content&do_pdf=1&id=1669
http://pt.wikipedia.org/wiki/Gal%C3%A9cia
http://www.portugaliza.net/numero0/boletim00nova05.htm

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Galiza: Resposta a Casimiro Ceivães

“1. Deixemos de parte a identificação dos povos: não interessa agora se eram celtas, ou Calaicos, ou ligues, ou iguais a povos velhos da Irlanda. Antes de os romanos chegarem, havia de um lado e de outro do Minho – do rio Minho que hoje separa Portugal de Espanha – povos da mesma cultura, provavelmente da mesma origem. Nesses tempos não se faziam mapas nem fronteiras traçadas a lápis: o rio Minho é fácil de atravessar de barco, não é largo nem corta desfiladeiros de pedra como o Douro. A paisagem começa lentamente a mudar, descendo para o Sul, por alturas do rio Lima – talvez por isso, foi a esse e não ao Minho que a tradição diz que as legiões chamaram fronteira: Lethes, rio do esquecimento.”

– sem dúvida. Antes da chegada dos romanos, havia uma absoluta continuidade entre as duas margens do Minho. Sinal disso mesmo é a formação da província romana da Gallaecia, agrupando a Galiza atual (mais a “Galiza Exterior”, anexada às Asturias desde o século XVIII) e os territórios a norte do Douro. Roma agrupava sempre sob uma província territórios com suficiente coerência e homogeneidade cultura e linguista, não traçava fronteiras a esquadro (como os colonialistas europeus em África no século XIX) e se formou a Gallaecia foi porque apesar da sua diversidade, era homogénea o bastante para tal aos olhos dos invasores de Roma.

“2. Romanos chegaram, romanos partiram: no seu lugar povos bárbaros chegaram, Visigodos com a capital em terras hoje de França (Toledo foi só mais tarde), suevos a ocupar não se sabe bem que parte do Noroeste. Talvez a capital fosse Braga. Não sabemos grande coisa sobre os suevos: as crónicas que nos chegaram são visigodas só. Mais importante do que tudo o resto foi talvez a diferença religiosa. Um dia os suevos foram conquistados, o seu reino fez-se memória vaga, e nessa altura faltavam pouco mais de cem anos para que o Império de Toledo, onde se sentavam os herdeiros dos saqueadores de Roma-a-eterna, se desmoronasse por sua vez. Mas notem uma coisa importante: os Visigodos estavam em contacto permanente com os reis merovíngeos dos francos, os reis lombardos de Itália, o império Romano que subsistia em Constantinopla e dominava o Mediterrâneo e mesmo a costa Sul da Península. O Noroeste continuava a ser o que sempre foi: uma terra aonde os príncipes não sabiam ir.”

– brilhante exposição, Casimiro. Ao nível dos teus melhores textos ou mesmo superior ao teu melhor. Acrescento apenas que Bizâncio chegou mesmo a ocupar o atual Algarve e que essa posição periférica da Galiza a poupou à passagem avassaladora de muitas tribos bárbaras (como os Vândalos…). A periferia atraiu um dos povos germânicos menos agressivos e violentos: os suevos que por cá se estabeleceram em relativa boa relação com os povos latinizados da região.

3. Os exércitos muçulmanos – que eram isso mesmo, ao contrário dos Visigodos: um exército e não um povo em marcha – não passaram duravelmente além do Douro. Devem ter ocupado as cidades, e talvez as tenham arrasado; devem ter posto em fuga os chefes tradicionais ou forçado uma vassalagem insegura. Mas não arabizaram, como agora se diz, coisa nenhuma. Não me venham falar depressa demais da influência arábica na língua portuguesa, vou dar só um exemplo: Lisboa está, ainda, atulhada de azinhagas, ao menos na toponímia; uma azinhaga é um caminho estreito ladeado por sebes e arbustos e pequenos muros; e palavra mais portuguesa não há. Mas eu tenho uma bisavó que nasceu em Braga, na quingosta da Bruxas que já nem sequer existe, e quingosta é como nós chamávamos ao que no sul se diz azinhaga (chamávamos, porque depois vieram uns senhores de que já falei há uns dias, que sabem falar e escrever correctamente, e que decretaram a forma congosta). Há excepções, claro: a palavra aldeia vem do árabe, e estende-se até à Galiza. Mas o que importa é que a norte do Douro não houve sequer, propriamente, uma Reconquista: os exércitos norteafricanos e árabes aguentaram-se pouco mais de um século, perderam umas batalhas importantes na região mais central de Leão e Castela, e abandonaram o Noroeste. Em 711 desembarcaram em Gibraltar: em 874, a região do Porto foi pacificamente reocupada pelos condes cristãos, certamente pelos bisnetos dos seus antigos senhores. Comparem isto com os quinhentos anos de domínio do Algarve, os que oitocentos anos de domínio de Granada e Córdoba. Para comparar com o Porto, Coimbra passou definitivamente ao domínio cristão apenas em 1064, e quando D. Afonso Henriques nasceu, cinquenta anos depois, ainda era terra moçárabe. E obviamente não fazia parte de Portugal.”

– é verdade. O domínio islâmico em Portugal ainda hoje me espanta pela pouca presença que tem hoje na nossa língua e cultura. Uma ocupação contínua de quase 400 anos em mais de metade do território nacional, e recuando a “apenas” (historicamente falando) oitocentos anos atrás (o que nas “estruturas lentas” da História não é assim tanto) devíamos ter hoje bem mais sinais do Islão entre nós, além destas raras palavras que citas e de alguns escassos vestígios arqueológicos… A razão para estas raridades talvez se encontre no facto de que a maioria da população das cidades muçulmanas era… Moçarabe, isto é, cristã e pré-islâmica, ou seja, “pagani” cristianizados e usando o latim ou o dito “moçárabe”. Por isso é que um dos feitos dos cruzados ao ocuparem Lisboa foi botarem janela abaixo não o mufti local, mas o bispo e, por isso, e que nas cidades libertadas do Sul, os cristãos se espantavam ao encontrar vinhas nos campos… Havia nestas cidades muçulmanas, muitos mouros (norte-africanos), ligados à administração e ao comércio, e os militares eram compostos em grande medida por migrantes sírios e árabes, mas o grosso da população era pré-islâmica e de confissão cristã ou judaica. E isto explica bem a escassez de vestígios que bem observas.

“4. Não tenho tempo aqui para me deter na fascinante questão da origem de Portugal (para outra vez será). Notem só que o chamado condado portucalense era uma zona pequena, que provavelmente não ultrapassava o rio Lima para Norte, e a sul ficava pela ribeira de Antuã (agora conhecida por haver uma estação de serviço na auto-estrada: tristes tempos), uns vinte quilómetros a sul do Douro. Não abrangia o douro vinhateiro nem Trás-os-Montes nem Viseu nem a actual região de Aveiro. Era uma unidade dentro de uma unidade maior dentro de uma unidade maior, porque assim era a Idade Média: assim saibamos um dia reconstruir a Europa: às vezes dependia do rei da Galiza, outras vezes do rei de Leão, mas isso eram questões de fidelidade pessoal, a vassalagem, e questão de saber se na zona do Norte cristão havia um rei, ou dois, ou três: não afectava em nada o viver dos povos, que era igual e, digamos assim, livre.”

– a origem de Portugal é efetivamente uma questão fascinante (pelos seus aspectos singulares e pela perenidade de uma das mais antigas e constantes nações da Europa), e concordo contigo no ponto em que (infiro) afirmas que as ligações genéticas entre o Condado Portucalenses são… Muito exageradas (como diria Mark Twain!). Se devemos buscar uma origem, então esta reside de facto na Galiza, ou melhor na Gallaecia romana, que depois pela via da cisão de um barão ambicioso (Afonso Henriques) se estenderia para sul, ocupando o vazio deixado pelo caos e divisão (crónica…) dos muçulmanos e quebrando a ligação umbilical com a Galiza, não porque houvesse uma descontinuidade, mas porque tal era necessário para afirmar a sua diferença perante a Galiza.

“5. Ainda antes da independência de Portugal, ou melhor, da proclamação de Afonso Henriques como rei, o seu pai foi feito pelo rei de Leão e de Castela dominante no antigo condado de Coimbra, que nada tinha que ver com Portugal dos portucalenses; Afonso Henriques, por várias razões, fez de Coimbra o novo centro de poder (até aí, Guimarães e principalmente Viseu). E deu-se então o primeiro milagre de Portugal: o condado de Coimbra não ficou subordinado a Portugal, mas tornou-se parte integrante dele. Desapareceu o Portugal galego e nasceu o Portugal universal. Devagarinho, como são sempre os primeiros passos: mas depois o mesmo sucedeu a Santarém e Lisboa, e depois ao resto do que agora para nós é um só país.”

É impossível não estar de acordo. Sem Coimbra, não haveria o Portugal de hoje, já que esse condado se viria a assumir como centro geográfico e estratégico de um território que abandona (quase) definitivamente as suas aspirações de reunião ao norte, à matricial Galiza, e optava decididamente por ver estender para sul, para a raia muçulmana, um novo país, abandonando o “velho” e o cadilho fundacional.

“6. O Minho, tão igual à Galiza em tanta coisa, ficou um pouco para trás: os seus nobres acompanharam a corte, e seguiram para Coimbra e depois para Lisboa, ou ficaram, e lentamente empobreceram. Ficou uma terra de pequena propriedade, sem grandes senhores feudais, unida pelos costumes, por um certo cristianismo pagão e pelo poder eclesiástico dos arcebispos de Braga; o Camilo Castelo Branco ainda conheceu esse Minho, ainda o descreve nos seus romances. Ao contrário da zona alentejana da fronteira, despovoada e eriçada de castelos, o Minho viveu os tempos de paz atravessando o rio: nada mais simples do que os sessenta anos de domínio espanhol, de 1580 a 1640: a reacção de minhotos e galegos foi… casar. Em Viana, em Valença, em Monção, todas as famílias que tivessem algum poder social cruzaram sangues e terras (isso não impediu Monção de sofrer um cerco heróico em 1649, e de fazer a bandeira portuguesa resistir até ao fim; foi obrigado a render-se, e só voltou a Portugal com a paz de 1668).”

– sem dúvida que há muito mais unindo o Minho à Galiza do que ao “Portugal do Sul”. O temperamento, o clima e até os preciosismos linguísticos. Essa aliás é a tese daqueles que advogam a formação de uma federação-união entre o Norte de Portugal e a Galiza. É certo que poderia ter bases para avançar, especialmente tendo em conta o clássico descontentamento do Norte (justo) para com Lisboa. Mas a divisão é a solução para os problemas de Portugal? Tal união serviria que interesses? Seria uma tal entidade política economicamente viável, e sobretudo, teria a identidade nacional suficiente distinta dos seus vizinhos para poder sobreviver?

Resposta a:

http://mil-hafre.blogspot.com/2009/12/minho-portugal-e-galiza.html

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Debate sobre o “Futuro da Galiza no Espaço Lusófono” noticiado no PGL

O debate terá lugar no Sábado 5 de Dezembro às 15h00 na Sociedade de Língua Portuguesa de Lisboa

O debate terá lugar no Sábado 5 de Dezembro às 15h00 na Sociedade de Língua Portuguesa de Lisboa

PGL – O Movimento Internacional Lusófono marcou para o dia 5 de Dezembro, em Lisboa, um debate aberto no que se tratará do futuro da Galiza no espaço lusófono. O acto, que tenciona fazer visível a situaçom da Galiza para o resto da Lusofonia, contará com nutrida presença galega entre as pessoas convidadas.

No mês de Outubro o coordenador executivo do MIL deu umha palestra de apresentaçom da revista Nova Águia em Ourense, e em encontro posterior concretizou-se a data para a realizaçom do acto de Lisboa do dia 5 de Dezembro. Este acto, está pensado para ajudar a melhorar o conhecimento da Galiza e a sua situaçom como espaço lusófono.

As principais questons a tratar som determinar qual é a verdadeira situaçom do português da Galiza na Galiza e como a Lusofonia pode agir de jeito vantajoso para os galegos e galegas na conservaçom e impulsionamento da sua a língua e culturas. O debate terá lugar no sábado dia 5 de Dezembro às 15h00 na Sociedade de Língua Portuguesa de Lisboa, na Rua Mouzinho da Silveira 23 (junto ao Marquês de Pombal).

As intervençons dos membros do Conselho Consultivo vam ser por esta ordem:

Alexandre Banhos, ex-presidente da AGAL, falará sobre A situaçom do português da Galiza e o processo que a Galiza vive de substituiçom linguística e cultural. O problema do galego, como um jeito de ser espanhol e o seu absoluto balizamento no âmbito espanhol. A acçom lusófona na Galiza, como a necessidade de “desgaleguizar” à Galiza, é dizer desidentificar esse nome com Espanha, e deixar de contrapor a Galiza espanhola a Portugal, esquecendo qualquer ideia na relaçom mútua de hierarquia ou dependência -histórica ou sentimental-.

Banhos aponta que «o balizamento da Galiza no quadro lusófono é fulcral entender que a Galiza espanhola muito pouco tem a ver com a Galiza medieval e que desta o seu cerne está em Portugal. Os galegos e galegas só somos e seremos no mundo na nossa língua o português da Galiza, qualquer outra ideia é um miragem».

Por outra parte, os académicos Barbosa e Novelhe, preparárom duas intervençons conectadas entre si.

José Manuel Barbosa falará sobre O novo paradigma histórico da Galiza, em contraposiçom com o paradigma oficial, centralista, que foca a realidade desde o centro peninsular, apagando a Galiza da história.

Artur Alonso Novelhe falará sobre Os novos poderes hegemónicos no mundo, e como a Lusofonia e a Galiza, se deverám adaptar e criar estratégias de futuro, tendo em conta o evoluir dos novos acontecimentos.

Após as intervençons dos galegos haverá tempo para um interessante debate onde os membros do MIL esclarecerám ideias e preconceitos sobre à Galiza espanhola.

Ainda, da executiva do MIL anunciárom a possibilidade de se incorporarem outras pessoas da Galiza ao acto sempre que os membros do Conselho Consultivo da Galiza acharem que a sua intervençom, polo seu especial conhecimento, poda ajudar a cumprir o objectivo que foi marcado para o acto.

Cartaz do evento

O MIL

O Movimento Internacional Lusófono é um movimento da sociedade civil lusófona que se estende por todos os países lusófonos, e os lugares do mundo onde há um importante grupo de pessoas de língua e culturas portuguesas com qualquer das suas variedades e sotaques. O MIL tem o seu centro em Lisboa. Foi a sua criaçom um grande esforço impulsionado pola Associação Agostinho da Silva, e é o primeiro movimento lusófono que inclui à Galiza como um outro território da Lusofonia. Edita a revista Nova Águia, à venda já nalgumhas das mais prestigiosas livrarias da Galiza.

Fôrom já muitos os galegos e galegas de todo tipo de ideologias, que se aderírom ao movimento, aguardando a organizaçom que este numero venha a acrescentar-se significativamente no futuro.

Dirigido por umha Executiva que coordena o professor Renato Epifânio, dentro da Executiva há umhas parcerias especializadas dos membros em distintas tarefas e na coordenaçom dos distintos territórios e espaços lusófonos, correspondendo a Galiza ao professor Rui Martins. Aliás, o MIL dispom dum conselho consultivo na que estám pessoas de todos os países e espaços lusófonos. Rui Martins estivo na Galiza no passado verám olhando a situaçom do país e contactando com distintas pessoas das aderidas ao manifesto ou das que achava de interesse para achegar informaçom, também se dérom outros contactos realizados em Lisboa.

Resultado desse contactos a Comissom Executiva pediu a distintas pessoas da Galiza de se incorporarem ao Conselho Consultivo, figurando no mesmo neste momento os académicos da AGLP Artur Alonso Novelhe e José Manuel Barbosa Alvares, e o ex-presidente da AGAL Alexandre Banhos.

Para aderir ao MIL, basta enviar um correio electrónico para o endereço adesao@movimentolusofono.org, indicando nome, e-mail e área de residência.

Recolha Solidária

Todos os presentes deverám levar alguns livros para apoiar a campanha solidária do MIL, em parceria com a ONG Ajuda Amiga, que tenciona poder levar livros para a Guiné-Bissau.”

Fonte:

http://www.pglingua.org/index.php?option=com_content&view=article&id=1570:o-futuro-da-galiza-no-espaco-lusofono-&catid=4:eventos&Itemid=72

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MIL: MIL-HAFRE, Debate Público sobre a Galiza e Recolha de Livros para a Guiné-Bissau

O MIL TEM AGORA UM BLOGUE…
www.mil-hafre.blogspot.com

Caso queira participar, envie-nos um e-mail para adesao@movimentolusofono.org

EM POUCOS DIAS, JÁ COM MAIS DE MIL VISITAS…

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DEBATE PÚBLICO

O FUTURO DA
GALIZA
NO ESPAÇO LUSÓFONO

ORADORES
Alexandre Banhos Campo * Artur Alonso Novelhe * José Manuel Barbosa

5 de Dezembro, Sábado, 15h00
Sociedade de Língua Portuguesa
Lisboa, Rua Mouzinho da Silveira, 23 (junto ao Marquês de Pombal)

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RECOLHA DE LIVROS PARA A GUINÉ-BISSAU
(todos os presentes deverão levar alguns livros para esta campanha do MIL, em parceria com a ONG “Ajuda Amiga”; quem não consiga estar presente, poderá deixar os livros antes ou depois na morada acima indicada)

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O Nome “Galiza”

O topónimo “Galiza” é certamente de origem pré-romana, muito provavelmente céltica e decorrente do topónimo Portum Cale, que designava uma povoação de romana, de fundação indígena situada na foz do rio Douro e que haveria de servir de mote para além de “Galiza” (Cale -> [Gal]iza) mas também a “Portugal” (Portu + Cale -> Portucale -> Portugal), e até aos nomes das cidades do Porto (Portu -> Porto) e de Gaia (Cale -> Gaia)1.

O uso do topónimo “Galiza” não é contudo, pacífico. Ainda que o termo original e historicamente mais correto (e logo, o preferido neste texto) seja “Galiza”, o termo “Galicia” é também utilizado com alguma frequência, sendo uma adaptação da forma castelhana, preferida por muitos centralistas ou bilinguistas galegos, assim como pelas instituições do governo autonómico e por Madrid, por simbolizar a subordinação política e linguística da Galiza ao Reino de Espanha. O termo é também comum no português do Brasil, essencialmente devido ao desconhecimento do significado político que carrega. Oficialmente, ambos os termos são considerados “nomes oficiais”, havendo uma preferência pelo termo mais castelhanizante “Galicia” por parte da “Real Academia Galega” e do “Instituto da Língua da Galiza”, que o consagraram na sua “normativa de concórdia” datada do ano de 2003. O movimento reintegracionista – que advoga o regresso da Galiza à Lusofonia – optou pelo termo linguística e historicamente mais correto de “Galiza”, que usaremos doravante neste texto, pelo mesmo grau de razões.

1 Boletim da Academia Galega da Língua Portuguesa; J. Martinho Monteiro Santalha; O nome da Galiza; Academia Galega da Língua Portuguesa; Padrão (Galiza); 2008. Página 13

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Debate Público: O Futuro da Galiza no Espaço Lusófono (5 de Dezembro, 15:00)

MIL CARTAZ 05 DEZ

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A Questão da Galiza: Introdução

O mundo contemporâneo é – diz o “Pensamento Único” – o mundo da Globalização. Neste mundo onde as fronteiras comerciais se vão diluindo gradualmente perante o ácido corrosivo segregado pelas poderosas e aparentemente omnipotentes do neoliberalismo as línguas nacionais encontram-se na primeira linha da defesa da identidade dos povos. A força económica do mundo anglo-saxónico determinou que a língua franca das relações económicas e da Internet – cada vez mais o canal privilegiado para todas as comunicações – fosse o inglês. O poder dos meios de comunicação anglo-saxónicos, da “fábrica de ilusões” de Hollywood e dos canais de televisões norte-americanos, britânicos e australianos cerrou a machada definitiva (?) que está a impôr o inglês como língua universal.

Perante tamanho Tsunami linguístico não deve surpreender ninguém que a UNESCO, ano após ano, não cesse de engrossar a lista de línguas ameaçadas de extinção. E por cada língua que se perde, perde-se um património inestimável e único. Assim, deveria pertencer ao quadro de prioridades absolutas do Estado Espanhol, a defesa (pela via da promoção na Educação e da sua utilização na Administração Pública) das línguas nacionais, do basco, do catalão e, sobretudo pela parte que mais lusofonicamente nos toca, o Galego ou melhor dizendo o português da Galiza. Contudo, bem pelo contrário, assistimos atualmente a uma eclosão dos ataques contra a língua da Galiza que, sob a capa de um pífio “bilinguismo” e da “liberdade individual” procuram colocar o português da Galiza ao mesmo nível da língua do poder, da língua que desde Franco se procurou impôr “imperialmente” e que mercê desses ataques continuados é hoje falado por um número cada vez menor de habitantes da Galiza. Quando Espanha procura esmagar as línguas nacionais do seu Estado reduz a riqueza, a multiculturalidade que esteve na direta razão da sua posição entre os “Grandes” deste mundo. Um país monocultural e monolinguístico é tão estéril, tão pouco dinâmico e frágil como uma daquelas gigantescas plantações que os europeus espalharam criminosamente em África, criando a fome entre as populações e uma doentia dependência perante as caprichosas flutuações dos mercados. Se Espanha quer ser um país cultural, cientifica e económicamente estéril, então deve promover a asfixia mortal de todas as suas línguas nacionais. Se quer sobreviver – até enquanto “Estado” unificado – deve promover o florescimento das suas culturas nacionais.

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O MIL: Movimento Internacional Lusófono faz publicar um anúncio no JN de 18.9.2009 sobre a defesa da língua portuguesa da Galiza (Língua Galega)

MIL JN 18.09.09

Categories: Galiza, Lusofonia, Movimento Internacional Lusófono | 1 Comentário

Sobre o ensino do português na Extremadura Espanhola e a questão de Olivença

A Comunidade Autónoma da Extremadura aderiu oficialmente ao acordo entre Portugal e Espanha que possibilita o ensino da língua portuguesa nessa Comunidade. Neste âmbito, o português será ensinado nas escolas da Estremadura por 14 professores portugueses enviados para Badajoz e 3 outros enviados para Cáceres.

O objetivo do governo autónomo é dentro de alguns anos, todos os alunos conheçam língua portuguesa. Do lado português, a situação recíproca está mais avançada, havendo perto de 60 mil alunos de castelhano em Portugal, muitos dos quais no ensino privado e fora de qualquer cobertura institucional, como sucede em Espanha.

A Extremadura coloca-se assim na vanguarda da aplicação deste acordo Luso-Espanhola, bem à frente da Galiza, onde a Xunta (recentemente transitada para o Partido Popular) se mantêm ainda no bífido terreno das promessas…

A introdução do ensino do português na Extremadura reveste-se de especial importância se tivermos em conta que é precisamente nesta Comunidade que se situam os 3 concelhos portugueses ocupados ilegalmente e ao arrepio de tratados internacionais nunca honrados por Espanha desde 1801. Badajoz situa-se muito próximo dos concelhos de Olivença e estes professores de português poderão contribuir para o renascimento da língua de Camões depois de séculos de repressão e de apoio isolado, mas abnegado por parte da associação local Além Guadiana.

A situação da língua portuguesa em Olivença é hoje dramática. Até aos começos da década de cinquenta, a maioria dos habitantes dos três concelhos ainda usavam o português de forma corrente e quotidiana. Mas por volta dessa época o Estado Espanhol começou a introduzir o castelhano, no ensino e na administração local. Usando métodos muito semelhantes à máscara do bilinguismo na Galiza, Madrid conseguiu reduzir a língua destes territórios portugueses ocupados a uma expressão praticamente museográfica. Na década de 60, todos os habitantes eram bilingues – antecipando a plena aculturação – e hoje em dia, em grande medida devido ao afluxo contínuo de colonos e de repressão linguística por parte do Estado central, o português quase desapareceu.

Existem muitos paralelismos entre os concelhos de Olivença e a presente situação da Galiza: o Bilinguismo, o poder do Ensino e da Administração Publica aplicado contra a língua local por parte dos espanholistas e a indução de mitos infundados e desprestigiantes que buscam associar na mente dos habitantes locais o uso do português à ruralidade e à incultura, são instrumentos que já conhecemos e que seguem hoje sendo aplicados na Galiza, sempre com o mesmo objetivo: aculturar a população local e substituir a língua portuguesa pelo castelhano.

Fontes:
http://www.pglingua.org/index.php?option=com_content&view=article&id=1039:portugues-sera-segunda-lingua-do-ensino-na-estremadura&catid=2:informante&Itemid=74http://pt.wikipedia.org/wiki/Extremadura
http://dn.sapo.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1318336
http://www.olivenca.org/historiaDeOlivenca.htm
http://alemguadiana.blogs.sapo.pt/

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