E. F. Schumacher Society

TEM: a Moeda Local da cidade grega de Volos

Volos, na Grécia (http://8dim-volou.mag.sch.gr)

Volos, na Grécia (http://8dim-volou.mag.sch.gr)

Na cidade grega de Volos, muitos cidadãos utilizam de forma frequente uma nova Moeda. Não se trata da Dracma, regressada já do mundo dos mortos, mas da TEM. Esta Moeda Local, circula ao lado do Euro, sem o substituir e de forma tão eficiente que os munícipes acreditam que era impossível que a economia local fosse capaz de funcionar agora sem a TEM.

Como todos sabemos – e até bem demais – a Grécia está exatamente no “olho” tempestade financeira que assola a União Europeia, com doses sucessivas de austeridade recessiva e uma quebra dramática dos padrões de vida da maioria dos seus cidadãos. Foi em resposta a esta situação que um grupo de cidadãos decidiu retomar o controlo da sua vida das mãos dos “senhores do norte da Europa” e criar uma alternativa local ao euro.

Em Volos (Grécia central) quando um dos quase mil aderentes (empresas e retalho) vende bens ou serviços recebe créditos TEM, em que um TEM equivale a um Euro. Consequentemente, nos estabelecimentos comerciais locais, os preços estão quase sempre afixados em TEM, não em euros.

À medida que as poupanças em euros se vão esgotando cada vez mais, os munícipes de Volos acumulam poupanças em TEM a partir de uma miríade de serviços (todos podem fazer alguma coisa pelo seu vizinho e receber TEMs) e de bens e guardarem assim os seus últimos euros para aqueles bens e serviços que não estão localmente disponíveis.

Todo o sistema TEM foi construido na Internet, com computadores no Mercado Municipal processando transações e transferindo TEMs para as contas pessoais dos aderentes.

O fundador é Yiannis Grigoriou, admite que a Moeda Local pode vir a tornar-se a moeda dominante em Volos, mas que por enquanto essa meta ainda está longe e acrescenta que a moeda “é atraente porque as pessoas encontram nela esperança”. Parte muito significativa do sucesso da TEM advém do apoio do município, cujo presidente a promove e defende mantendo contudo a necessidade de respeitar o duplo curso com o euro e afirmando que a intenção da TEM não é a de expulsar o euro: “a Grécia faz parte da Eurozona e nós queremos permanecer na Eurozona. Precisamos ficar na Eurozona”, reitera.

Num dos programas municipais de juventude, por exemplo, os pais são convidados a pagar até 30% dos custos em TEM, com o resto ficando em euros, lado a lado. Noutro exemplo, uma florista vende flores em TEM e depois compra artigos noutro comerciante local na mesma moeda. Desta forma, uma grande parte dos artigos e serviços consumidos localmente são também produzidos localmente e a comunidade municipal conhece assim um dinamismo inédito na maioria das cidades gregas.

Fonte:
http://www.pri.org/stories/business/economic-security/small-greek-community-turns-to-local-currency-as-economy-struggles-9442.html

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Moedas Locais, Bancos do Tempo e LETS

A Depressão que se instala paulatinamente pelo mundo está a levar por uma procura por soluções que ainda que existam já há algumas décadas (tendo estado muito ativos na Grande Depressão) são inovadoras e podem contribuir para a resolução de alguns dos problemas que nos assolam hoje a (quase) todos. Uma destas soluções são os “Bancos do Tempo”.

Os Bancos do Tempo são uma forma de Moeda Local que incentivam os cidadãos a procurarem formas de repensar o trabalho e a como obtêm bens e serviços sem recorrerem a moedas convencionais, como o euro.

Os Bancos do Tempo erguem-se em torno de um conceito relativamente simples: quando se trabalha durante uma hora, recebe-se um crédito de uma hora, a qual depois é gasta num dado serviço a alguém da comunidade de aderentes. Os Bancos do Tempo não são afetados por voracidades fiscais (como aquela que atualmente vivemos) uma vez que são apenas organizações voluntárias de ajuda mútua e não moedas orientadas para os mercados nacionais ou internacionais. Sobretudo, orientam-se apenas para a comunidade local de aderentes e não extravasam para fora dela até à “economia exterior”.

Os Bancos do Tempo permitem que todos nós utilizemos o nosso pleno potencial adormecido por uma economia “exterior” em declínio e asfixiada por um Estado desleixado e inepto, incapaz de comprimir a sua Despesa e que opta – sempre – por comprimir os rendimentos dos seus cidadãos. Todos temos algum tipo de conhecimento ou competências que podemos oferecer aos outros por forma a criar Saúde, Bem Estar, Conhecimento ou a suprimir alguma necessidade. Essa rede pode ser um sustentáculo crucial para uma comunidade local esmagada pela opressão fiscal do Estado central, desenvolvendo conceitos como comunhão, igualdade, reciprocidade e civismo.

É relativamente simples começar um Banco do Tempo. Basta começar por abrir um sistema de registo de pedidos e ofertas num diretório de competências profissionais e depois uma segunda lista que agregue os membros e o seu balanço pessoal de Horas. Tudo isso pode – numa versão básica – ser feito em alguns minutos usando ferramentas online como formulários e folhas de cálculo Google Drive. Outra opção é a de imprimir “papel moeda”, numa nova unidade, que corresponde a uma Hora trabalhada para o Banco do Tempo. Esse foi, por exemplo, o modelo adotado pela ONG norte-americana Ithaka, com as suas notas “Ithaka Hours”. Existe ainda a opção de criar cheques ou vouchers que são enviados por correio e armazenados na sede do Banco do Tempo.

Uma variante menos conhecida dos Bancos do Tempo são os LETS (“Local Employment Trading Systems”) que têm um estilo mais adaptado à economia de mercado que usam unidades que representam a divisa nacional, permitem a negociacao de preços e que para alem de indivíduos isolados, envolvem também PMEs.

Plataformas Gratuitas:

Existem algumas soluções gratuitas, livremente disponíveis na Internet, e que permitem a instalação e adoção fácil deste tipo de soluções.

Uma delas é a “Community Exchange System” que permite realizar trocas básicas sem dinheiro ou sem a exigência de uma assistência técnica profissional. Desenvolvida na África do Sul, o sistema é usado por mais de trinta países.

Outra opção é o hOurworld uma ONG não lucrativa que oferece software para Bancos do Tempo completamente livre de custos.

Outra ainda é a “Open Source Currency” da ONG norte-americana “Austin Time Exchange Network” que tem vários “spin-offs” pelo território dos EUA. Que, pelas suas caraterísticas e alojamento gratuito é provavelmente a melhor alternativa disponível.

O “Community Forge” é mais um LETS que um Banco do Tempo, mas pode ser configurado para funcionar dessa forma.

Fonte:
http://www.shareable.net/blog/just-in-time

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O que são as “Comunidades de Terras Comuns” / “Community Land Trusts” ou CLTs?

Uma Comunidade de Terras Comuns (“Community Land Trust” ou CLT) é uma organização não lucrativa que adquire e gere parcelas de terra em nome dos residentes de uma dada comunidade. Sendo ONGs e focando-se no desenvolvimento de comunidades locais ou de populações em dificuldades económicas, estas Associações não estão sujeitas ao pagamentos de impostos ao Estado ou às Autarquias. O modelo existe nos EUA, Canadá e Reino Unido há mais de quarenta anos. O modelo inspira-se no trabalho do ativista indiano Vinoba Bhave e ao seu modelo “Gramdan”: os proprietários doam voluntariamente a sua terra, ou partes não exploradas da mesma a um fundo comunitário que depois as distribui por quem as queira explorar. Esta cedência é gratuita ou por aluguer e expira ao fim de algum tempo se a terra não for utilizada. O modelo foi posteriormente adaptado por Robert Swan nos EUA para além do restrito uso agrícola, servindo estes terrenos comunitários também para atividades comerciais e empresariais de especial interesse para a comunidade, serviços públicos e habitações a baixos custos. No Reino Unido, este modelo de propriedade tem sido usado sobretudo para auxiliar a resolver o problema da habitação em cidadãos de fracas possibilidades económicas, mas também no estabelecimento de “lojas comunitárias”, especializadas na comercialização de produtos locais ou na recuperação de lojas, cafés, pubs ou restaurantes tradicionais que estavam à beira de fechar.

Uma CLT começa sempre na forma de uma doação. Seja ela financeira (por parte do Governo, da Administração Local ou de particulares) ou de terrenos. Uma vez realizada as construções ou iniciada a exploração agrícola, o terreno fica livre das flutuações de preços do mercado.

Uma CLT é gerida diretamente pela comunidade local, por todos aqueles que residem dentro dos seus limites geográficos, incluindo aqueles que exploram atividades no seu seio. Estes membros daa CLT elegem um Conselho de Voluntários para gerir a Comunidade em seu nome, em que os conselheiros são escolhidos entre residentes, utilizadores e seus trabalhadores, assim como represenatantes dos doadores das terras, por exemplo, o Governou ou a Autarquia.

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A Moeda Local grega Ovolos: Uma resposta à Troika

As Moedas Locais são uma das causas mais antigas do Quintus. São também um dos cernes do pensamento económico de E. F. Schumacher. Foi assim com grande interesse que acompanhei as notícias que davam conta da aparição de moedas “alternativas” na Grécia, de formas de realizar trocar monetárias sem o recurso a euros.

Uma destas moedas é a Ovolos, que começou a ser usada em 2009 e que hoje agrega já mais de 5200 membros. A moeda funciona a partir de um URL na Internet e é usada por todo o país e permite a troca de bens sem o recurso à moeda europeia. A Ovolos é usada sobretudo para trocar bens como azeite, fruta e outros artigos alimentares. Mas serviços, como aulas de línguas ou serviços legais são também aqui, muito frequentes. Os utilizadores desta Moeda Local podem trocar artigos diretamente no site, atribuindo um valor em Ovolos a cada artigo e depois possibilitando assim a troca de cinquenta quilos de batatas por cinco litros de azeite, uma massagem shiatsu ou um corte de cabelo e barba.

Fonte:
http://www.publico.pt/Mundo/nao-e-preciso-ter-euros-para-ter-valor-1544933?utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed%3A+PublicoRSS+%28Publico.pt%29

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Boicote ao Pingo Doce: Apelo ao consumo no Comércio Local


Desde que o Pingo Doce decidiu começar a pagar impostos na Holanda (esvaziando assim ainda mais os cofres da República neste momento de grave crise nacional) que apelo a um Boicote ao Pingo Doce (e ao Continente, que também já está na Holanda). Todos nós, de resto, devemos comprar os nossos produtos no comércio local, na mercearia de rua, nos mercados ou feiras, dando assim a riqueza a pessoas como nós, favorecendo a economia local e o emprego digno e humano que se encontra mais frequentemente nas pequenas superfícies do que nas grandes.

Na verdade, todos os cidadãos têm o dever para consigo e para com a sua comunidade e pátria de exigirem de todos os agentes económicos Ética e Decência. Temos que nos transformar em cidadãos ativos e conscientes, soltar-nos destas amarras bovinizantes com que nos deixámos entorpecer e sacudir o jugo. Comprar e Consumir em consciência, imprimindo às escolhas um valor moral é apenas um aspeto dessa nova atitude ativa e atuante sobre o mundo que todos temos o dever de passar a exercer neste novo Portugal que agora desperta.

Se um determinado agente comercial – o Pingo Doce no caso em análise – acumula lucros atrás de lucros pelo sistemático pagamento de baixos salários e colocam reféns os produtores nacionais abusando da sua posição negocial dominante. Se um determinado agente comercial sistematicamente (e apesar de todas as ocas campanhas de marketing) favorece a produção estrangeiro em desprimor da nacional e se agora – verdadeira cereja podre em topo de bolo azedo – deslocaliza também os seus impostos para a Holanda, e logo para a Holanda, país que na UE e na Historia tem estado sistematicamente CONTRA Portugal então temos não só o Direito, mas o Dever de agir e aplicar um

Boicote ao Pingo Doce.

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Economias Locais: O exemplo de Will Rapp

A E. F. Schumacher Society – entidade que é responsável mundial pela divulgação do original pensamento deste economista alemão – publicou recentemente um ensaio sobre a transformação para uma nova economia que se baseia no trabalho do empreendedor norte-americano Will Rapp. Será este texto que – numa tradução muito livre – iremos passar a apresentar:

 

Gardener’s Supply Company (http://www.gardeners.com)

Gardener’s Supply Company (http://www.gardeners.com)

 

A empresa que fundou em 1983 com o nome de “Gardener’s Supply Company” (http://www.gardeners.com) em Burlington, no Vermont (EUA) tinha desde o início o objetivo de criar um negócio onde as pessoas, o planeta e o lucro estivessem em pé de igualdade. Simultaneamente, disponibilizou ferramentas que permitissem às pessoas que cultivassem a sua própria comida e que tirassem prazer dessa independência.

A partir de dezembro de 2009, a sua empresa tornou-se propriedade dos seus próprios funcionários, em 100%, através da venda de ações da empresa, num programa que começou em 1987. A partir de dezembro de 2009, todos os empregados da empresa eram também donos da sua própria empresa e participavam da divisão de lucros.

Numa época em que muitos empregos no Vermont estão a ser deslocalizados para o Oriente, manter empregos tornou-se numa prioridade de elevada relevância social. Vender a empresa aos seus próprios trabalhadores também se revelou muito mais útil – do ponto de vista social e para a economia local – do que vendê-la a qualquer anónimo grupo de investidores estrangeiros que não fariam mais do que transferir para o seu balancete a dívida da sua aquisição, até nova venda, acabando por fim com a empresa numa espiral louca que já encerrou tantas empresas pelo mundo fora…

 

 

Mas a “Gardener’s Supply” não limitou a esta ação social a sua esfera de intervenção. Em 1990 fundou uma organização não lucrativa para recuperar a terra agrícola de uma antiga agro-pecuária dedicada à produção de suínos, a “Intervale”. Transformou este espaço rural em Burlington no “Intervale Center” (http://www.intervale.org), um espaço com mais de 300 acres de extensão e que hoje inclui jardins orgânicos, quintas independentes, instalações de Compostura, intercalados com corredores para vida selvagem. O exemplo da Intervale, motivou outros habitantes da cidade de Burlington a recuperarem as suas terras desaproveitadas e a aumentarem a sua independência alimentar. O exemplo frutificaria também noutros setores económicos, com o desenvolvimento de novas empresas de mobiliário e de têxteis.

Outras empresas surgiram entretanto nas cidades que rodeiam Burlington, criando assim pelo exemplo do sucesso local de uma pequena cidade do Vermont, outros exemplos de sucesso. Atualmente, existe uma rede local de empresas de compustura, venda de sementes, queijo, carne, fruta e vegetais que geram emprego e riquezas locais e que conseguem exportar os seus excedentes para outras cidades nesta região dos Estados Unidos.

A revivificação económica do Vermont deve muito ao exemplo polarizador de Will Raap, em 1983, mas esta semente não se teria desenvolvido com tanto vigor e esplendor se não existisse uma cultura de otimismo e empreendedorismo onde este exemplo se pudesse desenvolver. Sem a visão de Will Raap não teria ocorrido esta autêntica revolução silenciosa no Vermont. Assim haja mais empreendedores do mesmo jaez noutras partes do globo… com vontade para dinamizarem a economia das comunidades em que estão inseridos e com condições para fazerem vingar o seu exemplo polarizador.

Fonte:
http://www.neweconomicsinstitute.org/documents/willraapjune5.pdf

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Tradução livre do texto “A Grande Transição” da E. F. Shumacher Society

A principal questão que precisamos de obter acerca de qualquer visão do futuro é o que é nela propele a mudança. No caso da Grande Transição, é o custo ascendente de regressar ao “business-as-usual”, ao enorme custo cumulativo das Alterações Climáticas e aos custos cumulativos dos altos níveis de desigualdade.

Os fatores da mudança são frequentemente desconfortáveis, e não estamos perante uma excepção. O que é fascinante com a Grande Transição é que estabelece um caminho credível para vários passos grandes e radicais para uma sociedade e economia capaz de oferecer vidas longas, felizes e equitativas, dentro dos limites impostos pelo planeta.

Esta visão levará contudo a que o PNB “convencional” de um país como o Reino Unido irá cair para um terço do valor atual, contudo assim poderemos evitar algumas das consequências mais trágicas do Aquecimento Global e os custos do colapso social que é iminente nas sociedades ocidentais atuais.

O economista Andrew Simms declarou que “durante anos disseram-nos que não existia alternativa a uma economia que despedaçava o meio ambiente e que piorava a desigualdade. Disseram-nos que vivíamos numa época de prosperidade, quando na realidade não éramos mais felizes do que há 30 anos atrás. Disseram-nos que “crashes”, Bolhas e Recessões eram parte do ciclo natural das economias. Mas confrontados com mudanças climáticas irreversíveis e desigualdade corrosiva, estes são contos de fadas perigosos.”

O problema está em que o PNB é uma medida de progresso muito fraca: os lucros gerados pelo sistema financeiro pelos especuladores das Bolsas são construídos sobre uma pirâmide de derivativos tóxicos e são somados ao PNB. O mesmo sucede com a limpeza dos efeitos da poluição e com os custos de níveis de criminalidade galopantes. Este não é apenas um ponto de vista académico: o que ele mede acaba por determinar aquilo que todos fazemos. A Grande Transição propõe uma deslocação para além do PNB, de forma a começar a medir as coisas que realmente produzem valor, para as nossas comunidades, sociedades e ambiente.

O relatório “Grande Transição” determina sete áreas fundamentais de intervenção:
1. Uma Grande Reavaliação de forma a garantir que os preços refletem os seus custos sociais e ambientais verdadeiros.
2. Um Grande Reequilibro que determine uma nova relação produtiva entre os Mercados, a Sociedade e o Estado.
3. Uma Grande Irrigação Económica que ajude o capital e o investimento a fluir para onde eles fazem mais falta.

Como chegar a esta visão?

As “Terras Comunitárias” (as “Community Land Trusts” já ativas em vários Estados dos EUA) são centrais a esta Grande Transição. O relatório propõe a redistribuirão do tempo de trabalho pela definição de uma semana de trabalho de 4 dias para todos, esta medida irá reduzir o PNB em um terço, sem implicar uma significativa perda de empregos.

O relatório propõe também uma grande reorganização das empresas, em que aquelas que estejam cotadas na Bolsa devem progressivamente transferir estas ações para os seus colaboradores, dando-lhes controlo real sobre as empresas onde trabalham. Isto levará à criação de uma série de cooperativas de produção, funcionando em Mercados regulados, e sujeitas a competição por parte de outras empresas. Isto irá alterar as relações de trabalho, criando novas formas de democracia económica, precisamente onde a democracia mais tem estado alheada: as empresas, precisamente o local onde a maioria de nós passa a maior parte do seu tempo e onde a democracia não entra.

O relatório recomenda também o estabelecimento de taxas variáveis de consumo que substituam os impostos de rendimentos atuais e que reflitam os custos sociais e ambientes da produção de Bens e Serviços. Uma taxa sobre as empresas de exploração de combustíveis sólidos, por exemplo, poderá servir para financiar projetos de investigação em energias limpas. Recomenda-se também empréstimos diretos do Governo a projetos de Energia Verde e de transportes através de um novo “Banco de Investimentos Verde”, de capitais públicos.

A “Grande Transição” defende igualmente o estabelecimento de novos regulamentos sobre os Bancos que os forcem a dedicar uma parte dos seus investimentos a projetos ligados ao ambiente ou de teor social, algo que também retirará capital da especulação e da formação de bolhas especulativas.

O relatório “Grande Transição” foi concebido como uma forma de responder aos problemas que atualmente pendem sobre a economia britânica, mas muitas das suas medidas podem ser aplicadas em qualquer país desenvolvido e quase todas são altamente polémicas. Mas é exatamente disso de que precisamos agora: de ruturas que quebrem o Status Quo que nos levou até à maior Recessão Global desde 1929 e que não será vencida enquanto a estrutura que a criou não for radicalmente alterada. Algo a que a “Grande Transição” se propõe a fazer, merecendo de nós o mais absoluto apoio.

Fonte:
www.smallisbeautiful.org
www.neweconomicsinstitute.org

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Contradições?

Recentemente, numa boa conversa com um amigo do MIL tive oportunidade para abordar uma questao que aos olhos de alguns pode aparentar ser uma contradição no meu pensamento: a defesa das Economias Locais e a da integração entre empresas dos países lusófonos, especialmente entre grandes empresas (como a GALP e a Petrobras ou a TAP e a TAM).

Existe assim uma contradição entre esta defesa do “Small is Beautiful” e defesa da aproximação destas empresas lusófonas? Não. Defendo com grande ardor a aproximação – a todos os níveis – dos países lusófonos e como bem recordava o professor Mendo Pereira no último debate do MIL a economia é a infraestrutura das sociedades modernas. Como defender assim a aproximação dos países lusófonos sem defender igualmente a aproximação das empresas lusófonas? Não o fazer é que seria contraditório…

Por outro lado, defender a aproximação de grandes empresas lusófonas é contraditório com a defesa de Economias Locais e do “Small is Beautiful”? Sem dúvida, mas apenas numa leitura mais imediatista… as teses do mentor principal do meu pensamento económico é – já se sabe – o professor E. F. Schumacher e este começou a sua carreira como economista ao estudar as ineficiências de uma grande empresa (a siderurgia nacional britânica) e propondo a sua divisão em pequenas empresas, mais eficientes, menos propensas a gerarem desperdícios e – sobretudo – socialmente muito mais úteis. Assim, se por um nível defendo a aproximação a todos os níveis (fusão, compra, parcerias, etc) das empresas lusófonas como forma destas ganharem escala bastante para resistirem às ofensivas de grandes empresas multinacionais, controladas pelos grupos e fundos opacos, apátridas e imorais que hoje dominam a economia global, defendo também formas de neoproteccionismo que defendam a Comunidade Lusófona contra este Capitalismo Global selvagem e imoral. Uma vez repostas as defesas proteccionistas, estas empresas lusófonas poderiam servir de alavancar para reforçar a “alma lusófona” comum que defendemos e serem divididas de forma racional e ponderada nas unidades de exploração menores que recomenda o princípio “Small is Beautiful”.

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Obama começa finalmente a avançar contra os Megabancos. Os tais que eram “grande demais para falhar”

Obama finalmente parece ter despertado da sua modorra quanto a ações contra o setor financeiro que com os seus desmandos e comportamentos irresponsáveis afundou a economia mundial em 2008: Os EUA irão assim limitar a dimensão e a área de ação dos Bancos dos EUA, o que irá obrigar Bancos com o JP Morgan e a Goldman Sachs a venderem empresas que controlam noutros setores.

A medida vai ter impacto nestes “Bancos Grandes Demais para Falhar”, que foram salvos da falência com dinheiro dos contribuintes e que findo o momento da crise se apressaram a distribuir parte desse dinheiro na forma de bónus a gestores. O impacto representará para a JP Morgan uma perda que este estima ser superior a 13 mil milhões de dólares nos Bancos JP Morgan, Goldman Sachs, Morgan Stanley, Crédit Suisse, UBS e Deutsche Bank. Todos estes acumulavam atividades especulativas e de exóticas “engenharia financeira” com atividades de retalho convencionais, criando as condições para novo colapso.

A separação entre Banca de Investimento e Banca da Retalho, desejada por Obama nada de original, já que é no essencial a resposta de Roosevelt à crise semelhante da década de Trinta e, se hoje, voltamos a falar desta separação foi apenas porque os lobbistas conseguiram inverter estas regulações do New Deal, nos mandatos presidenciais de Clinton e Bush. E passa apenas pela reposição de uma separação saudável para as instituições financeiras e a prazo, para as economias mundiais… Mas é apenas o primeiro passo, já que não prevê que os Megabancos se dividam nos Bancos que têm comprado incansavelmente nas últimas décadas, chegando à escala atual, tornando-se imensos geradores de desemprego (cada fusão leva a novos desempregados) e de risco sistémico de falha global. Agora após a separação, falta conjugar um novo advérbio: a divisão…

Fonte:
http://economia.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1419284

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Crescimento Zero: Um novo paradigma económico

Tradução livre de “Maior não é melhor” do economista Peter A. Victor

Não há nada como uma boa crise para nos fazer pensar sobre ideias antigas. A Depressão de 1930 levou à rejeição da ideia então prevalecente de que o desemprego se corrigiria sozinho somente se as pessoas trabalhassem por salários mais baixos. Estas ideias foram derrubadas pela experiência e pela invenção da Macroeconomia moderna por John Maynard Keynes. Na época do fim da Segunda Grande Guerra, a maioria dos governos ocidentais tinham adoptado políticas económicas keynesianas de forma a garantir níveis mínimos de desemprego.

Os economistas keynesianos concluíram que o pleno emprego, hoje, produzia uma economia maior, amanhã, porque algum do investimento necessário para manter baixo o desemprego: infraestruturas, construção e equipamentos também aumentava a capacidade produtiva da Economia. E o mesmo efeito tinham uma população em expansão e uma força laboral crescente. Inicialmente, os governos desejavam o crescimento económico como forma de manter o pleno emprego, mas na década de 50, o crescimento económico tornou-se o objetivo número da política económica e todos os outros, como a produtividade, a inovação, a competitividade, e até a educação tornaram-se em simples meios para alcançar esse fim último do crescimento.

Os economistas neoliberais rejubilavam de contentamento até 2007 altura em que o colapso do mercado imobiliário norte-americano deu indícios claros de que algo estava mal no paraíso neoliberal… E que as peças de dominó iam começar a tombar, umas a seguir às outras. As falências dos bancos especializados no imobiliário, arrastaram seguradoras como loucamente aventureira AIG e grandes bancos como o Bank of America e o Citigroup. A Globalização (outro “filho querido” dos neoliberais) encarregou-se de propagar rapidamente, pelo mundo fora, a crise, transformando-a na recessão que agora vivemos. A necessidade keynesiana de “estimular” as economias tornou-se consensual em todo o mundo, em todos os governos, alinhados ou não à Esquerda ou à Direita. O “pensamento único” que negava o direito à intervenção direta do Estado nas economias, mudou de sentido e tornou-se quase sacrossanto.

O problema é que a solução de Keynes não é adequada aos tempos modernos. A população mundial já triplicou três vezes desde a sua época, e a Economia mundial já se multiplicou por dez, no mesmo período… Um e outro factor significam que estas a exercer uma pressão inédita sobre os recursos limitados do planeta e a emitir mais emissões para a atmosfera do que em qualquer outro período da História. Talvez tenha chegado o momento de colocar em causa o modelo que advoga uma expansão permanente da Economia…

Uma solução intermédia ou de transição poderá ser converter a Economia atual numa “Economia Verde” em que se mantém o paradigma de “crescimento económico” contínuo, mas se reduz o consumo de bens e matérias-primas, através de uma produção mais eficiente de energia e bens manufaturados e pela redução do consumo privado e público. Estas medidas podem servir num período mais imediato, mas a prazo não resolverão o “problema” de termos apenas uma Terra para consumir. Mais cedo ou mais tarde , teremos que mudar o paradigma económico e repensar a relação da Humanidade com a Natureza.

Uma solução de maior foco poderá ser a “Economia Ecológica” que encara a Economia como um subsistema do ecosistema terrestre, sustentada por um afluxo constante de materiais e energia. Estes fluxos não podem ser ignorados, como faz a Economia convencional que ignora completamente a integração com o Ambiente e que julga a “protecção ambiental” como um entre muitos outros “custos”.

É possível manter num país moderno o pleno Emprego, baixos níveis de Pobreza, reduções nas emissões dos gases com efeito de estufa e orçamentos equilibrados num tal modelo de economia? Isto é, sem Crescimento contínuo? Há varias soluções – propostas desta a concepção do conceito “Crescimento Zero” na década de 60 – desde:
1. Uma jornada de trabalho inferior para reduzir o Desemprego sem perder as vantagens do progresso tecnológico. O Tempo Livre remanescente deve ser gasto em fortalecer os laços familiares, dedicando mais tempo às crianças e consumindo e produzindo Bens Culturais (imateriais) de todos os tipos.
2. Um “preço de Carbono” a cada produto de forma a desencorajar as emissões de gases com Efeito de Estufa. Este preço deve constar em cada etiquetagem e sempre de forma separada do preço regular, de forma a instruir cada consumidor sobre a escala da sua Pegada de Carbono e a racionalizar os seus hábitos de consumo.
3. Programas anti-pobreza muito generosos, para estimularem o Consumo e melhorarem a qualidade de vida.

Neste novo modelo de Economia, o sucesso seria medido mais pelo Bem Estar pessoal e comunitário do que por métricas abstratas de crescimento económico. Nesta Economia, seria mais importante o consumo de serviços, culturais, médicos ou de puro lazer, do que o consumo “bruto” de bens e equipamentos. E os Bens consumidos seriam mais privilegiados se duradouros e resilientes do que se estivessem de acordo com o “design” do momento ou a última moda tecnológica (desnecessária, como o Blue Ray ou o HD-DVD). O Uso e a Necessidade seriam mais importantes que o Estatuto Social na escolha de um dado Bem. Só assim o Consumismo desregrado das sociedades modernas poderia ser estancado. Tendo que ser radicalmente alterados os paradigmas que impulsionam o mundo da Publicidade, tão virado para o cego Consumismo e para a promoção de ocos padrões de Estatuto…

Infraestruturas, edifícios e todos os mais diversos tipos de equipamentos devem ser concebidos a pensar na eficiência energética e na sua durabilidade e resistência e não em função de fátuos Modismos. Todo o Consumo deve favorecer a produção Local e não a Globalização com extensos, anti-ecológicos e desumanas cadeias de produção e distribuição.

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Anna Lappe: Uma alimentação ecológica

É oficial: a produção de alimentos é má para o planeta. De facto, é até terrível. Dezoito por cento dos gases de efeito de estufa produzidos pelo Homem resultam somente da produção agropecuária. No conjunto, isso é mais do que toda a industria de transportes combinada. Estes números constam de um relatório da ONU e sublinham – talvez pela primeira vez – a importância do papel da produção de alimentos no problema do Aquecimento Global.

Nos Estados Unidos, uma pessoa muito versada na relação perniciosa entre a produção de alimentos e a mudança climática é a dinâmica Anna Lappe. Esta investigadora tornou-se reconhecida pelo seu trabalho no campa da sustentabilidade, da política alimentar, da globalização e da mudança social e foi incluída na lista de “Quem é quem” da revista Time.

Segundo a investigadora “Houve um grande incremento na atenção para a alteração climática, mas até agora, a alimentação foi apenas uma parte invisível do problema e da solução.” Segundo ela, as razões pelas quais o sistema de produção de alimentos cresceu e a forma como cresceu, cocomo usa o sistema de transportes, fazem com que as emissões de gases com efeito de estufa criadas pela produção de alimentos eja hoje de uns estimados 31% do total das emisssões.

Os dois maiores responsáveis desta elevada taxa são a produção de gado vivo e as quintas agrícolas de grande escala que dependem em grande medida de produtos químicos e de combustíveis fósseis para assegurarem os presentes níveis de produção. Os efeitos desta forma industrial de operação estão a repercutir-se em todo o mundo… Os primeiros alvos são os pequenos e médios agricultores que tentam criar o seu gado ou plantar os seus alimentos de uma forma mais sustentável e que estão a perder a suas quintas por causa dos efeitos do Aquecimento Global (secas, inundações, tempestades, furacões, etc). Atualmente, a produção industrial de alimentos é suficiente em termos de resposta às necessidades mundiais. O problema está em que esta produção não está a ser bem distribuída e existe um sério déficit alimentar, especialmente em África. Não há ainda uma “crise alimentar mundial”, o que enfrentamos é uma “crise financeira alimentar mundial”, já que é cada vez mais dificil a um número crescente de pessoas obter os alimentos que são essenciais à sua sobrevivência.

Anna Lappe recomenda que todos aqueles que têm a opção de mudar o seu estilo alimentar (ou seja, todos os habitantes do mundo desenvolvido) devem escolher as suas dietas baseando-se em quatro factores:
1. Não comprar produtos provenientes da agricultura industrial, desenvolvida em torno do consumo de elevadas quantidades de combustível fóssil
2. Comer muito menos carne, a carne ocupa um papel dominante nos regimes alimentares ocidentais e a quantidade de carne consumida implica geralmente o consumo de uma quantidade proporcional mas piramidalmente superior de produtos vegetais, de meios de transporte, de combustíveis, rações químicas, pesticidas para forragens, etc, incomparavelmente superior. A adopção de alguns dias por semana como “livres de carne” poderia reflectir-se numa notável redução da “pegada ecológica”
3. Evitar alimentos processados… Ou seja, em vez de optarmos por alimentos tratados em que grãos, fruta é tratada, partida e transformada em derivados como cereais, barras, etc. Consumir as frutas inteiras têm um impacto menor no Ambiente porque os processos industriais de tratamento, processsamento e armazenagem se tornam desnecessários. A sua supressão irá reduzir significativamente a Pegada de Carbono até valores muito inferiores aos dos alimentos processados.
4. Evitar consumir produtos exóticos, oriundos de países distantes… Os custos ecológicos desse transporte e armazenamento são enormes, e dispensáveis se preferirmos produtos produzidos localmente ou, idealmente, na nossa vizinhança.

Fontes:

www.smallisbeautiful.org (Tradução livre)

www.etihadairways.com (Kathryn Clark)

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Adaptação livre do artigo “Democratizando a Finança” de Hazel Henderson

Este texto é uma adaptação livre a partir do artigo “Democratizando a Finança”, publicado pela “E. F. Schumacher Society e escrito por Hazel Henderson.

O colapso financeiro originado por Wall Street e pela lógica suicidária do “demasiado grande para falir” está a contribuir para a erupção de uma série de iniciativas locais para descentralizar e democratizar o sector financeiro.

Entretanto, ao nível global, os países do G-20 afirmam a sua intenção em democratizar as estruturas internas do FMI e do Banco Mundial e o próprio facto deste decisão surgir no seio de uma reunião do G-20 e não do G-7 indica que estamos perante um mundo diferente.. Agora, as decisões já não são tomadas no seio de um grupo restrito de países ricos e “ocidentais”, mas como o produto de uma decisão de países tão diversos como a Argentina, a Austrália, o lusófono Brasil, o Canadá, a China, a França, a Alemanha, a Índia, a Indonésia, a Itália, o Japão, o México, a Rússia, a Arábia Saudita, a África do Sul, a Coreia do Sul, a Turquia, o Reino Unido e os Estados Unidos e… A União Europeia. A lista causa alguma estranheza. Desde logo, pela presença da UE, onde o “cherne” aparece num estranho destaque já que o poder efetivo da Comissão é praticamente zero (como aliás, admitiu Barroso, quando reconheceu não ter meios para intervir na atual crise económica) e não sendo eleito, a não ser por uma pandilha de líderes germânicos por ser dócil e servil para com os seus interesses não merece estar ali presente. Há países como a eternamente falida Argentina, o Canadá e a Turquia que não merecem estar aqui. A Argentina porque não tem peso económico nem demográfico, o Canadá, porque não tem peso demográfico e a Turquia porque não tem peso económico, nem diplomático, já que é olhada com justificadas suspeitas por quase todos os seus vizinhos e ocupa militarmente um país soberano (Chipre) e reprime as suas próprias populações curdas. E que dizer da presença da Arábia Saudita? Um dos países menos democráticos, corruptos e menos respeitador dos direitos humanos no mundo?… E não bastando que faz a imperialista China (que ocupa colonialmente o Tibete) num fórum onde a qualidade dos regimes representados devia ser exemplar? Mas pior que as presenças são as ausências… Alguns grandes (demográfica e economicamente) países africanos estão ausentes. Onde estão a Nigéria, a Argélia, Angola e o Egipto? E o mundo islâmico? Porque está tão incompletamente representado? Onde estão o Paquistão e o Irão?

Embora tenha havido um tom otimista saído diretamente das decisões desta reunião, e Gordon Brown tenha proclamado que “o mundo estava a reagir à crise não com palavras, mas com um plano detalhado e calendarizado”, a verdade é que tudo ainda persiste no domínio estrito do palavreado… As injeções de capitais públicos para cofres de Bancos zombie continuam e os Estados continuam a insistir na aplicação cega do dogma que os impede de participarem na gestão da Banca intervencionada (permitindo o pagamentos de bónus generosos e injustificados), os “Edge Funds” continuam em roda solta, os Paraísos Fiscais navegando em plena impunidade, os sectores financeiros em desregulação quase total, etc, etc, etc. O ambiente para criar e aplicar novas leis que democratizassem o sistema financeiro está mais propício do que nunca e o tempo urge, não sendo agora mais o tempo para ocas palavras (como as de Obama e Brown), mas para acções concretas e duras que imponham novas regras ao sector financeiro e travem a Globalização impondo (sim!) mecanismos de contenção à autentica depredação industrial que a China tem estendido a todo o mundo.

Felizmente, que a sociedade civil ainda existe (nos países onde esta é livre) e começam a surgir novos ou renovados impulsos de renovação… Varias alternativas criativas surgem aqui e acolá, como indica Hazel Henderson:

1. Organizações de pesquisa local como a Freecycle.com ou a Craiglist que agrupam ofertas comerciais locais, potenciando consumo local a partir de bens e serviços produzidos localmente e não no estrangeiro por trabalho semi-escravo ou subremunerado.

2. Há varias Moedas Locais a surgirem e outras a aumentarem a sua circulação no mesmo momento em que os Bancos Centrais revelam a incompetência dos seus administradores (Vítor Constâncio) ou a sua incapacidade operativa e que os grandes Bancos (Citigroup, Bank of America, Royal Bank of Scotland, etc) vegetam, Moedas Locais como a WIR suíça, a Palmas brasileira ou a BerkShares dos EUA prosperam tendo a última emitido o equivalente a dois milhões de dólares em apenas dois anos e sendo aceite por cada vez mais Bancos e empresas no Estado do Massachusetts. Outras Moedas Locais desenvolvem-se e surgem em países tão diversos como o Reino Unido, o Canadá, a Austrália ou a Argentina.

2. Redes de “empréstimos pessoais” e de microfinanciamento conhecem hoje um desenvolvimento ímpar no mundo: “Womens World Banking”, Grameen Bank no Bangladesh, a FINCA e a ACCION, na América do Sul, e variantes cibernéticas como a Microplace ou a Kiva (com quem colaboramos pessoalmente), a Prosper.com norte-americana e a Zopa.com alemã expandem a sua acção e melhoram a vida de um numero crescente de pessoas que os triliões de “ajudas” governamentais aos banqueiros insistem em esquecer.

3. Associações de pequenos Bancos com empresas locais, nos EUA, na forma original de “uniões de crédito” colaboram na recuperação de um tecido empresarial por décadas de desregulação, de empreendedorismo financeiro descabeçado e por uma desindustrialização profunda e quase total. A par destas “uniões de crédito”, organizações de “capital de risco filantrópicas” como a “Rudolf Steiner Foundation” e a Acumen, investem em empresas com utilidade sociais mas reduzidos lucros. Encontramos outros exemplos de organizações de fins semelhantes na “The Business Alliance for Local Living Economics”, na “New Voice of Business”, na “Green America”, na “Social Enterprise Alliance”, no” Fourth Sector Network” e no “Business-NGO Working Group”, organizações em atividade nos Estados Unidos e cuja profusão e intensa atividade reflectem bem o dinamismo, a capacidade de renovação interna da sociedade norte-americana e o prematuro discurso daqueles que dão o “século americano” como terminado…

4. O “Banco do Tempo” é neste contexto uma das propostas mais interessantes. Oriundo a partir de um conceito de Edgar Cahn, nos Estados Unidos, o modelo está agora ativo em diversos países do mundo, como o Japão, vários países europeus e nos EUA. Estes “Bancos do Tempo” estão a ajudar pessoas e empresas locais a ligarem-se, a partilharem informação, recursos e serviços. Cada participante do “Banco do Tempo”, quando precisa de um recurso, artigo ou serviço, contacta primeiro o seu “Banco do Tempo” e este identificará alguém que possa ajudar, seja uma refeição, várias, serviços de babby-sitting, vigilância, partilha de bens ou serviços.
Sistemas idênticos, como os de partilha de automóveis usados em empresas como a ZipCar, nos EUA, e outras semelhantes, no Canadá e em vários países europeus fazem aumentar a partilha de bens, usando as facilidades hoje disponíveis via SMS ou com Blackberrys.

5. Uma empresa privada chinesa, intitulada “Circle Pleasure” comercializa cartões de consumo pré-pagos estabeleceu uma parceria com o motor de busca Qifang de forma a estabelecer um sistema bancário pessoa-a-pessoa, sendo assim a primeira instituição a receber uma licença bancária do Banco central de Pequim, o que reflete a confiança que o projeto merece do sempre desconfiado de inovações, governo comunista…

6. Na Índia e no Bangladesh, surgiram recentemente as “senhoras do telefone”, tratam-se de mulheres que vivem nestes países e que alugam os seus telemóveis a outros aldeões, agricultores e pescadores consultam os preços dos artigos que produzem nos mercados vizinhos e assim vendê-los pelo melhor preço, nos locais onde lhes pagariam preços mais elevados.

7. Na Florida (EUA), agricultores engenhosos estão a descobrir novas formas de curtocircuitar os Bancos gananciosos e mal geridos que estiveram na direta razão da presente recessão mundial… Usando programas locais de rádio, os agricultores divulgam que têm alfaias agrícolas (como tratores) disponíveis em certos dias e horas e que os cedem em troca de outras alfaias, fertilizantes, produtos agrícolas ou sementes. Também na Florida, têm-se multiplicado os mercados agrícolas onde os agricultores vendem diretamente aos consumidores e contratos de produção com consumidores locais a quem entregam os seus produtos, nas quantidades combinadas, sem recorrerem a intermediários.

Todos estes exemplos ilustram formas de as pessoas e empresas locais conseguirem sacudir a manápula opressora que os grandes Bancos procuram lançar sobre as economias, cativando um sector excessivo da riqueza produzida. Em vez da primazia doentia ao setor terciário, estas soluções permitem que os sectores primários e secundários se libertem desta opressão… Assim, os financeiros serão obrigados a reduzir os seus bónus faraónicos, a reduzir os seus lucros crescentes e imorais e a moderar as suas especulações casínicas nas Bolsas. A multiplicação destas alternativas também permitiria reduzir o desequilibrado peso que o sector financeiro tem na economia de países como os EUA ou o Reino Unido, onde representam mais de 25% do PIB…

A perda de prestígio do sector financeiro no Ocidente pode ser também importante para tornar a despertar o interesse da juventude por formações superiores menos ligadas a esses sectores e mais a sectores mais tecnológicos e culturais, que estavam a conhecer um acentuado declínio em inscrições em cursos superiores nos últimos anos, tamanhos eram os rendimentos que se obtinham em empregos nesses sectores mais especulativos. A turbulência nos mercados financeiros relativiza também o valor do dinheiro, que foi tão valorizado (de forma tão fátua e superficial, vê-se agora) no passado recente, em desfavor de critérios mais duradouros e saudáveis para as pessoas e para o planeta.

Fontes:
www.ethicalmarkets.com
www.smallisbeautiful.org
www.youtube.com/efsssociety
www.calvert-henderson.com

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Economias Locais: a visão de E. F. Schumacher

Quando em 1955, o economista E.F.Shumacher viajou até à Birmânia como consultor económico não sabia que estava prestes a produzir uma das suas mais importantes obras; “Economia Budista”. Nessa obra sublinhava a importância do “bom trabalho” no desenvolvimento económico e – especialmente – que “a produção de recursos locais para satisfazer necessidades locais era a forma mais racional de vida económica”.

Depois da sua viagem à Birmânia, Schumacher faria muitas outras viagens por outros países do Terceiro Mundo procurando-os convencer a desenvolverem economias auto-suficientes, advogando que estas deviam ser erguidas em torno daquilo que chamaria de “tecnologia intermédia”, uma classificação que agrupava tecnologias amigáveis, acessíveis e ecológicas.

Para Schumacher, a produção local é a melhor forma de conhecer a história ecológica e humana por detrás da manufactura de cada produto industrial ou agrícola. Só assim terá o consumidor verdadeiras hipóteses de saber que tipo de matérias-primas, de que forma foram extraídas ou produzidas, como foram processados os subprodutos ou desperdícios da sua produção e, sobretudo, que tipo de recursos laborais e de que forma de condições foram aquelas que estiveram na base da sua produção. Esta Localização da produção é o oposto exato das Deslocalizações de produção para países do Extremo Oriente que afastam dos consumidores a produção e que permitem as condições laborais e ambientais barbaras que se praticam em países como a China e o Vietname e que estando na base dos baixos custos de produção, não seriam possíveis se os consumidores desses mesmos produtos tivessem que conviver com as consequências ecológicas e ambientais dessa produção, nem se tivessem conhecimento direto – por amigos ou familiares – das condições laborais e humanas que a produção desses bens implica.

Adicionalmente, se a produção é Local, os produtos não precisam de ser transportados a longas distâncias consumindo combustíveis fósseis, poluindo a atmosfera e aumentando as emissões de CO2. Adicionalmente, uma região que utilize a sua força laboral na produção do essencial dos bens que consome está também mais blindada contra as oscilações da economia mundial e contra crises económicas globais como aquela que galopa hoje descontroladamente pelo mundo.

Enquanto cidadãos, o economista alemão acreditava na possibilidade de cada consumidor assumir uma atitude moral nos seus padrões de consumo. O ato de consumir não se esgota assim na mera satisfação de uma necessidade – real ou forjada pela publicidade – mas numa escolha criteriosa que responsabiliza social e ecologicamente todos os agentes económicos. Por isso, o modelo de Economia Local, implica um elevado nível de consciência cívica e de informação.

Cada comunidade local deve procurar bastar-se nos produtos mais básicos como alimentos, vestuário e energia e depender de importações apenas complementarmente e em produções mais especializadas. Por regra, toda a produção que implica volume físico dilatado deve ser local, e todo o bem ou equipamento que exige um elevado nível técnico ou um alto grau de especialização, pode ser produzido localmente, e exportados os seus excedentes. Uma comunidade que se consiga organizar localmente, serve de exemplo para as vizinhas e deixa propagar o seu exemplo contaminante pela região onde se insere. Importa assim fundar uma primeira comunidade seguindo estes moldes, não instaurar o modelo súbita e genericamente em toda uma região ou país, de forma segura e consistente, num único local ou município e depois deixar florescer esse exemplo.

Qualquer sistema económico depende do diálogo harmónico de três factores: terra, trabalho e capital. Por terra, entenda-se além do território, também os recursos naturais que a produção exige, como as matérias-primas, a energia e o espaço físico necessário para a cultura agrícola ou para a instalação da fabrica ou do armazém. O Trabalho é o esforço necessário para fazer a matéria-prima mudar de estado e forma, tornando-se no bem ou serviço consumido. Por fim, o Capital consiste na capacidade organizativa dos dois recursos anteriores: Terra e Trabalho, na energia polarizadora desses recursos e na disponibilidade mobilizadora de ambos. Só o Capital poderá organizar a produção e possibilitar a distribuição dos bens produzidos, sendo assim um aspecto sempre importante de qualquer atividade económica. Compreender esta arquitectura trilateral é essencial para desenvolver Economias Locais prosperas e estáveis.

O elemento primário desta trilogia é a Terra. Sendo primário a uma Economia Local, este elemento deveria ser realmente propriedade de alguém? A terra deve pertencer à comunidade que nela habita, não a um indivíduo em particular, porque só assim poderá realmente participar no desenvolvimento da Economia Local. Não quer isto dizer que somos contra a propriedade privada. Quer dizer que somos contra a propriedade privada da terra e que defendemos neste contexto o conceito de “não propriedade” ou “propriedade comunal” como a que ainda subsiste nalgumas aldeias portuguesas e que era comum nos “bailios” medievais portugueses. O modelo é hoje usado nos EUA sob a forma das “Community Land Trusts” que a E.F.Shumacher Society tem promovido e apoiado.

Nos EUA, as “Community Land Trusts” são empresas não lucrativas com um quadro de diretores democraticamente eleito. As suas terras resultam de ofertas e aquisição e são alvo de um plano de desenvolvimento que se rege pelas necessidades de consumo locais. Os edifícios construídos sobre essas terras comunais são propriedade privada, mas não o solo sobre o qual foram construídos e se forem vendidos, o seu valor deve ser oferecido à “terra comunitária” (Land Trust) ao valor dispendido apenas na sua construção. O proprietário pode assim conservar o produto do trabalho aplicado sobre a terra, mas não a própria terra, que permanece sempre nas mãos da comunidade.

Nos Estados Unidos há perto de 150 “terras comunitárias”. Sobrevivendo em relativa prosperidade, pela sua escassa área, estas parcelas de solo comum ainda não lograram cumprir a totalidade das suas promessas e dependem ainda da sua expansão e do apoio devoto de muitos entusiastas.

O Capital é o segundo elemento determinante da trilogia económica schumacheriana. O economista admite ao Capital o papel de simples ferramente de obtenção de crédito e de facilitar trocas numa comunidade. Oferecendo o controlo da emissão de moeda a uma coligação de Bancos (o modelo do FED, nos EUA) ou a um Banco Central, mais ou menos governamentalizado (Europa), estamos a criar um sistema onde o grandes emprestadores são favorecidos em relação aos pequenos e a favorecer a concentração bancária excessiva que esteve na raiz do quase colapso do sistema financeiro na presente recessão mundial: concentrar a Banca, pela via das fusões e aquisições sucessivas, criando um pequeno número de mega-bancos, é introduzir um imenso factor único de falha no sistema, porque quanto maior fôr a escala mais difícil será a um governo salvar o banco da falência e maior será o impacto do seu colapso na Economia real. A centralização bancária favorece também a centralização e a aparição de monopólios noutros sectores da economia, já que os grandes bancos preferem emprestar a grandes empresas, de escala semelhante à deles e assim tornam-se inimigos das pequenas e médias empresas e sobretudo, das empresas que apenas têm uma escala e um mercado local, já que favorecem as de vocação exportadora e globalizadas, ou seja, aquelas que pela sua essência, lhes são semelhantes.

Um dos cernes da proposta económica shumacheriana é precisamente o combate a esta concentração e a este monopólio do Capital. Democratizando o Capital pelo estabelecimento de moedas locais, opostas e complementares a moedas nacionais e favorecendo o estabelecimento de bancos de pequena dimensão que as emitam e financiem o consumo e a produção locais.

Nestes três factores de produção falta abortar o mais importante: o Trabalho. Sem a dignificação do trabalhador, com horários e retribuições humanas e razoáveis será impossível assegurar uma economia local minimamente estável.

Nas novas Economias Locais antecipadas por Schumacher, os bens consumidos na região, serão essencialmente produzidos na mesma região, sempre seguindo formas de produção sustentadas, na perspectiva ecológica, social e respeitando os valores e identidades culturais locais. Esta combinação só pode ser alcançada através da injecção de doses massivas de inovação e criatividade no tecido económico local e recorrendo invariavelmente a tecnologias intermédias, de pequena escala física e de capital e capazes de serem implementadas recorrendo apenas aos recursos energéticos locais. Quando os trabalhadores têm acesso a baixo custo à terra e dispõe de Capital a juros baixos podem criar os seus negócios e empresas locais, de pequena e média escala. Esta aproximação entre a propriedade e a produção significa que a riqueza produzida será distribuída de uma forma muito mais equitativa. Neste esquema o papel do consumidor não pode ser passivo ou acrítico, escolhendo apenas o produto que é mais barato, mas aquele que é mais “económico” agindo como um consumidor que escolhe segundo a sua própria consciência cívica e ecológica. E é nosso dever moral apoiar as empresas locais, em que a propriedade seja dos seus próprios trabalhadores em regime comunal (terra e edifícios) ou cooperativo, porque esta é a forma que melhor garante uma distribuição equitativa dos rendimentos do trabalho.

A construção de economias locais sustentáveis é crucial para a sobrevivência do Homem sobre a Terra. Só elas podem oferecer o tipo de pegada ecológica que protege o clima (pela sua escala), o património ecológico local e as especificidades culturais locais.

No livro “As Cidades e a Riqueza das Nações”, Jane Jacobs defende que a melhor estratégia para o desenvolvimento económico é apostar industrias capazes de produzir produtos que são atualmente são importados, e transformar matérias primas produzidas localmente, através do Trabalho local. Estas industrias locais são exatamente o oposto das atuais fabricas das multinacionais que abrem e fecham de um dia para o outro, deslocando-se pelo mundo fora ao sabor dos custos de mão-de-obra mais baixos. Inversamente, as empresas locais são mais resistentes aos caprichos da Globalização e estabelecem fortes ancoras locais de desenvolvimento, emprego e progresso.

Uma economia local verdadeiramente autónoma exige a fundação de novas organizações que a possam apoiar. Estas organizações não podem ser governamentais, têm que brotar da comunidade e alimentarem-se da sua dinâmica e do seu voluntarismo. Falamos de associações de consumidores e produtores, cooperando umas com as outras, as primeiras promovendo a partilha de informação sobre um consumo moderado, ético e local, as segundas agregando produtores e recolhendo benefícios da gestão em escala, organizando a produção e partilhando a distribuição e o armazenamento. Estas organizações terão apenas escala local, mas poderão formar confederações nacionais para efeitos de contacto, partilha de “boas práticas” e para manutenção de trocas que possam completar especificidades e necessidades locais. Estas entidades – privadas, porque detidas por indivíduos – trabalharão na comunidade e para a comunidade, respeitando o solo, a terra e usufruindo dos recursos naturais e energéticos de forma sustentável.

A construção deste novo edifício não será fácil nem rápida. Obriga a uma alteração radical dos nossos comportamentos e implica uma modificação profunda dos nossos padrões de consumo: consumir menos e melhor, no sentido em que cada escolha de consumo deve respeitar critérios éticos e deixar de consumir tantos bens materiais e mais bens culturais. Os Homens devem renegar o papel de consumidores passivos onde os neoliberais os querem encaixar e passar a ser co-produtores e criadores de riqueza material e de conteúdos culturais. A instauração de Moedas Locais, de quintas comunitárias, de fundos de capital comunitários, de micro-empresas detidas pelos próprios empregados e de alianças entre empresas locais, todos estes instrumentos poderão ser usados, rua a rua, de grupo de amigos para grupo de amigos, de cidade em cidade, gradual mas seguramente até alcançar todo o país.

Fontes:

http://www.smallisbeautiful.org/local_currencies/2004_conference_report.html
http://www.smallisbeautiful.org/
http://en.wikipedia.org/wiki/E._F._Schumacher
http://www.sustainablelivingsystems.org/Building%20a%20Local%20Economy-%20adapt%20fr%20S.%20Witt.doc
Local Currencies in the Twenty-First Century:
Understanding Money, Building Local Economies, Renewing Community;  Susan Witt and Christopher Lindstrom of the E. F. Schumacher Society

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Em Defesa das Moedas e das Economias Locais contra os malefícios da Globalização

As economias mais sustentáveis – do ponto de vista e ambiental – serão sempre aquelas onde os bens consumidos numa dada região são também aqueles que são produzidos na mesma região, por trabalhadores que residem nas suas imediações. O economista alemão E. F. Schumacher designou este sistema económico como uma “economia da permanência”. O economista apresentaria os seus modelos alternativos de economia ao mundo pela primeira vez em 1974, no seu livro “O Pequeno é Belo, a Economia como se as pessoas importassem”.

Uma das ferramentas mais importantes para propiciar ao surgimento de Economias Locais sólidas e sustentáveis são as Moedas Locais.

Na atual economia globalizada, as moedas nacionais (como o dólar norte-americano) ou transnacionais (como o Euro europeu) têm contribuído para a concentração da riqueza e para o aprofundamento do fosso entre ricos e pobres, para a destruição das comunidades locais pela aniquilação do comercio local e toda a atividade industrial e agrícola que é deslocalizada. Esse interior, cada vez mais desertificado e onde os municípios se constituem inevitavelmente como o primeiro empregador é, nos países ditos “desenvolvidos”, a maior vítima da globalização. Nos países ditos do “terceiro mundo”, é o ambiente, a ecologia e a biodiversidade que sofrem com as culturas intensivas de plantação, com a exploração desregrada das matérias-primas e com condições de trabalho sub-humanas. As Moedas Locais permitirão respeitar as identidades regionais, quer económicas, quer culturais, de uma forma que não sucede com as moedas nacionais (que tudo subjugam em favor dos interesses do Centro) ou transnacionais (que tudo subordinam em favor dos jogos de interesses de uma burocracia pseudo-federal). As Moedas Locais permitem definir uma zona regional de comércio, abrangida pela vigência da Moeda Local e defendida das voracidades e dos “dumpings” laborais, ecológicos e ambientais que caracterizam a Globalização. As pequenas e médias empresas locais não têm a escala para resistir a estes “dumpings” múltiplos patrocinados por gigantescas multinacionais globais, detentoras de recursos quase ilimitados e capazes de destruir, por anexação, todos os negócios locais num verbo que nos EUA já mereceu a invenção do verbo “Walmartização” e que em Portugal se exprime pela voraz multiplicação dos Hipermercados e pelos seus efeitos eucalípticos no pequeno comércio. O uso de Moedas Locais no comércio local funciona como uma membrana protectora porque as grandes empresas globais, de capitais e de propriedade externa à região da vigência da Moeda, ainda que a possam adoptar terão que a cambiar (com os custos e perda de recursos decorrente) antes de exportar a riqueza localmente recolhida.

Uma das experiências modernas com Moedas Locais foi realizada na década de setenta, em Exeter, no New Hampshire (EUA). A experiência foi conduzida por Robert Swann e Ralph Borsodi, da E.F.Schumacher Society. Mais tarde, outras moedas foram ensaiadas, como os Deli Dollars, as Berkshire Farm Preserve Nortes e as BerkShares, estando a última ainda em vigência.

História das Moedas Locais

No século dezanove muitos bancos comerciais emitiam a sua própria moeda. Estas geralmente emissões serviam para financiar um empréstimo “produtivo”, isto é, um que servisse para um investimento em maquinas, equipamentos ou em terrenos que permitisse a prazo aumentar a qualidade ou a quantidade da produção. Foi só em 1913 que as moedas locais foram substituídas pelo dinheiro federal emitido por uma coligação de Bancos privados dos Estados Unidos que hoje assume o papel de “banco central”, sem que nunca verdadeiramente o tenha sido…

A moeda local “The Constant” foi emitida pela primeira vez em 1972 e circulou até 1973 em Exeter, no New Hampshire, circulando entre organizações não-lucrativas. Em 1991, em Ithaca, Nova Iorque, outra experiência foi conduzida com uma moeda local para comércio de bens e serviços locais. Cada nota desta moeda continha unidades de “hora-trabalho”. As “Horas” eram emitidas aos proprietários de pequenos negócios que as queriam utilizar para realizarem trocas de bens e serviços. O conceito era de que as “Horas” seriam sustentadas pela produtividade daqueles a quem emitidas, mantendo assim um valor mesmo apesar de todas as flutuações dos dólares federais.

A moeda local “Horas” haveria de se propagar por mais cinquenta comunidades nos EUA e no Canadá. Em algumas, a Moeda Local continua ainda hoje em atividade e hoje está novamente em expansão com um programa de “seguros de saúde local” e com uma “União Alternativa de Crédito”.

Mas é, contudo, inegável que a “Horas”, sem ser um fracasso rotundo, também não foi um sucesso… Desde logo, porque os grupos comunitários que apoiaram a aparição da dita nestes cinquenta locais não puderam reservar a ela os recursos necessários para a suportar.

No Reino Unido, o advogado Edgar Cahn concebeu um programa a que chamou de “Dólares do Tempo”. Os “Dólares do Tempo” mediam a quantidade de horas em que cada vizinho fazia pequenos serviços a outros vizinhos. Todos os tipos de serviços eram passíveis de merecerem “dólares do tempo” em troca dos seus serviços comunitários. Esta Moeda Local – porque era disso que se tratava – não era usada para trocas comerciais como sucedeu com a maioria das Moedas Locais, mas a experiência revelou-se muito útil para reforçar os laços comunitários e valores humanos como a reciprocidade e o espírito de entre-ajuda. Hoje em dia, há várias moedas locais idênticas ativas nos EUA e no Reino Unido.

O programa “LETS (Local Economic Trading Systems)” teve a sua génese no começo da década de oitenta, no Canadá, em Vancouver e consistia num sistema para-bancário de crédito e débito. Quem quisesse adquirir bens ou serviços disponíveis através do programa LETS contactavam por telefone o coordenador local do programa e pediam-lhe para debitar na sua conta LETS o valor do bem ou serviço adquirido (avaliado na moeda nacional) e este era imediatamente creditado na conta LETS no fornecedor. Este e outros programas idênticos são provavelmente as Moedas Locais mais populares do mundo, mas a sua integração com os sistemas fiscais nacionais não tem sido sempre a mais suave.

Em 1989 surgiu uma outra Moeda Local quando proprietário de uma loja no Massachusetts, de nome “The Deli”, viu recusado um empréstimo num Banco e emitiu uma moeda sua intitulada “Deli Dollars”. Os clientes da loja compravam oito dólares que, posteriormente, trocavam por sopa ou uma sandes.

Em 1991, um grupo de dezassete comerciantes em Great Barrington começou a emitir outra moeda local, as BerkShares. Durante algum tempo, os clientes dessas lojas locais por cada dez dólares gastos nessas lojas, receberam um BerkShare. Esses BerkShares podiam depois ser usados nas lojas aderentes, mas apenas durante três dias, criando um ambiente de “festa” e comemoração na rua principal da cidade. Variantes deste modelo, foram ensaiados e em Toronto e em Vancouver, sempre começando por conversões de dinheiro corrente para uma moeda local em curso apenas em lojas locais.

Outra interessante experiência de “moedas locais”, teve lugar na circunspecta Suíça, em 1934, com a muito bem sucedida “WIR”, um sistema de trocas entre empresas e que não incluía acesso a consumidores finais. Os bens trocados entre empresas eram avaliados em WIR e havia descontos que favoreciam a adopção da Moeda em favor da moeda nacional, o Franco Suíço. Era possível emitir créditos em WIR e a moeda teve na época uma função muito importante na estabilização da economia.

Fontes:

http://www.smallisbeautiful.org/local_currencies/2004_conference_report.html

http://www.smallisbeautiful.org/

http://en.wikipedia.org/wiki/E._F._Schumacher

http://www.sustainablelivingsystems.org

Local Currencies in the Twenty-First Century:

Understanding Money, Building Local Economies, Renewing Communit; Susan Witt and Christopher Lindstrom of the E. F. Schumacher Society

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Réplica a Gaitero sobre as Economias Locais e o Futuro da Lusofonia


(Logotipo da E. F. Schumacher Society in http://www.schumachersociety.org)

Este pequeno artigo é uma réplica aqui deixada pelo nosso comentador habitual Gaitero a propósito da atual recessão mundial no passado dia 6 de fevereiro.

“O sistema capitalista já nasceu com problemas graves e já nasceu fardado a acabar.”

O Capitalismo Liberal é contudo o mais resiliente, porque flexível e adaptável sistema económico jamais concebido pelo Homem. Levado à classe de dogma religioso, o sistema de organização económica designado por “capitalismo” expõe as suas contradições e incapacidades. Capaz de gerar riqueza, não toma em consideração as consequências desta geração no meio ambiente, nem as condições de vida que impõe aos seus produtores. O Capitalismo não é pois um sistema capaz de auto-regulação (como querem os neoliberais), mas tem de a receber do exterior, dos Estados (cuja redução de Poder e amplitude, defendem os neoliberais) e sobretudo das Democracias e dos seus legítimos e eleitos representantes.

“Estamos passando por uma crise das maiores já enfrentadas, tudo graças ao sistema capitalista em sua totalidade, o ser humano não existe única e exclusivamente para o consumismo, não devemos mais pensar desta forma, não podemos mais aceitar a atual conjuntura.”

É aquilo a que Agostinho da Silva intitulava de “cidadão produtor-consumidor”. Uma versão diminuída e acefalamente “limpa” por intermédio de doses massivas de publicidade e de controlo dos meios de comunicação. No atual desregrado sistema capitalista, como dizes, o ser humano é apenas um “recurso humano”, dispensável, redutível à desumana condição de robot, ou, na melhor das hipóteses, de consumidor acrítico e desprovido de critérios morais ou ecológicos na selecção dos bens ou serviços a consumir.

“É preciso, é necessário que se faça que se desenvolva um novo modelo econômico-social, o sistema capitalista significa nada mais que ”tudo na mão de poucos e nada na mão de muitos ”. Este sistema deu espaço para a Burguesia tomar o poder do mundo, os bancos hoje são os verdadeiros governos, muitos seres humanos estão morrendo de fome, morrendo de doenças graves, muitos seres humanos não tem educação, não tem direito a uma vida digna, isto não esta certo.”

A distribuição de riqueza sempre foi o grande problema do Capitalismo. A América do sul é neste contexto um excelente (e simultaneamente, péssimo) exemplo: as políticas neoliberais do FMI foram aplicadas cegamente em muitos países a partir da década de oitenta e a Colômbia é neste contexto provavelmente o melhor exemplo: o aumento dos índices macro-económicos não foi acompanhado pela melhoria dos rendimentos das camadas mais pobres nem pela redução da distancia entre classes sociais. O liberalismo, a forma atual que assume o Capitalismo, produziu riqueza, mas não a soube repartir. Os anos do grande Boom da Globalização de finais da década de oitenta e 2007 são bom sinal disso mesmo: em países como a China e o Vietname houve muitos novos ricos e uma melhoria sensível do nível de vida do geral da população, mas os mais ricos, os empresários e os funcionários do Partido, ganharam incomparavelmente mais do que os operários e, especialmente, que os agricultores e os habitantes das zonas rurais.

“Não estou aqui dizendo para que se volte o socialismo.
Mas que se crie um novo modelo um modelo com base no comunismo, que mantenha a comunhão a sociedade acima de tudo, um novo modelo que tenha por base o ser humano, um modelo que permita a todos direito a água, luz, saneamento básico, saúde, segurança e principalmente educação.”

A palavra “Comunismo” está hoje ferida de morte. Tive a sorte de poder visitar a Checoslováquia dois meses apenas depois do colapso do regime comunista e garanto que na época ninguém, mas ninguém mesmo queria falar de comunismo… O exemplo da aplicação “na Terra” da utopia de Marx, na versão gizada por Lenine e Estaline na década de vinte e trinta, haveria de revelar-se profundamente ferida de irrealidade e de dar origem a algumas das maiores vagas repressivas e tiranias mais cruéis da História.

O falhanço do comunismo, ou melhor dizendo do “sovietismo”, porque é disso que verdadeiramente se tratava, reduziu muito do apelo pela Esquerda, em todo o mundo. A queda do Muro de Berlim arrastou atrás de si, muitos partidos comunistas ou “adoçicou-os” tornando-os mais ou menos “social-democratas”. Esse processo curiosamente não se registou em Portugal, onde o PCP, se manteve fiel à sua “linha dura”. Mas o fim desse “Comunismo” não vedou o futuro a outras alternativas a este Capitalismo neoliberal cujas fragilidades a grave crise económica atual expôs de forma absolutamente gritante. Se as promessa do “Comércio Livre”, de desregulação do sector financeiro nada mais fizeram do que entregar a um grupo muito restrito de especuladores e de Executivos parcelas crescentes de abastança enquanto que a parte do Trabalho era cada vez menor, então é porque estamos num sistema político-económico onde a concentração empresarial corresponde à concentração da riqueza. Onde fusões sucessivas e deslocalizações sistemáticas esvaziam o Ocidente e os países que mais direitos humanos e laborais tinham, e que ameaçam todas as formas de protecção social duramente conquistadas. É preciso acabar com a doentia primazia do sector financeiro sobre o produtivo. Enquanto que um investimento na especulação imobiliária ou bolsista for mais seguro e rentável do que o mesmo investimento num sector produtivo, então estamos no reino do Capital e não do Homem.

“É preciso unir os povos do nosso planeta, unir a nação Lusófona, por exemplo, seria o começo, e criar programas de identidade, nacionalismo, educação e transferência de riquezas, tornarem o povo igualmente rico, igualmente inteligente.
Acabar com a PIG (Partido da Imprensa golpista), acabar com os governos corruptos, tornar a sociedade mais digna, mais harmoniosa.”

Os povos lusófonos têm um papel especial ainda por cumprir na História… Não é por acaso que mesmo nos mais duros anos da ditadura militar nunca o Brasil se lançou em qualquer aventura militar externa. Portugal foi o único império colonial que deixou o seu rei como imperador da colónia emancipada e o único que durante alguns anos deu à colónia o estatuto de capital. Nenhuma outra potência colonial recrutou tantas forças indígenas na sua Guerra Colonial e em nenhuma outra guerra de indulgência, os soldados coloniais, no dia seguinte à assinatura dos acordos de paz, se entregavam a apaixonados jogos de futebol com aqueles que horas antes os atacavam com morteiros e rajadas de Kalashnikov.

A missão que poderá caber a uma união dos povos lusófonos, que poderá ser prefaciada por uma união política Cabo Verde-Portugal, Portugal-Brasil ou Portugal-São Tomé e Príncipe, sendo depois seguida pelas demais nações lusófonas, poderá ser essa: a de anunciar novas formas de organização dos homens e das economias: mais humanas, essencialmente locais e justas, ecologicamente sustentáveis e que privilegiem o Homem e não o Capital, os interesses financeiros e os indicadores macro-económicos.

“E tudo deve começar pelo sistema econômico, tudo deve começar com um aumento dos lucros dos funcionários, com a redução da jornada de trabalho, com o aumento da escolaridade, com a criação de projetos, de programas, que envolvam a comunidade, que permitam ao povo que vive dentro de seu bairro tirar um dia da semana para realizar ações educativas. Seja arrumar uma praça, seja limpar um rio, ou reflorestar um parque, um terreno, para fazer brotar em cada ser humano um sentimento de comunhão, de união hoje praticamente instinto.”

A Economia, a organização do Trabalho e a sua sustentação ecológica serão sem duvida os pontos mais importantes da ação política nos próximos anos. A redistribuição da riqueza, a devolução aos trabalhadores dos rendimentos que têm vindo a perder desde a década de oitenta assim como o regresso a padrões de vida familiar saudáveis é, de facto, imperativa. É impossível continuar a ver as empresas a encontrarem formas mais ou menos subtis de levarem os seus funcionários a cumprirem jornadas de trabalho diárias de dez e doze horas, a trazerem consigo equipamentos portáteis (laptops com 3G, blackberries, telemóveis de serviço, etc) nas ferias, nas baixas por doença, nos fins-de-semana e noites e esperar que ao fim de anos destes abusos as pessoas continuem a manter os mesmos níveis de produtividade.

Eu não consigo acreditar que o ser humano tenha se tornado fantoche de grandes empresas, que tenha se tornado simplesmente um consumista louco, sem intelectual, sem instinto de discernimento, eu não acredito que nos tornamos monstros prestes a destruir nosso Planeta, prestes a acabar com o próprio povo, prestes a se auto-exterminar. Concordo contigo, quando afirmas que é preciso encontrar formas de ligar as pessoas à comunidade, inserindo-as em associações que se dediquem à melhoria do bairro, da aldeia, enfim, da comunidade local. Todos temos que ter uma intervenção cívica nas nossas comunidades, não deixando esgotar a nossa intervenção política em conversas de café ou em estéreis debates, mas levando-a até às nossas comunidades locais, participando da economia local, consumindo com critérios éticos, ecológicos e favorecendo sempre os produtos produzidos ou transformados por organizações locais. De permeio a tudo, terá que haver um sistema educativo que promova o mérito, a exigência, e, sobretudo, a criatividade em desfavor do ensino escolástico ou demasiado dependente de memorizações massivas. Esta será uma educação popular, no sentido em que respeitará a alma popular e não tecnicismos estéreis tidos como fins em si, quando não passam de meios para alcançar objetivos. Esta “educação popular” respeitará a visão pedagógica de Agostinho da Silva, com uma programação de matérias muito essencial, focada no ensino dos três pilares: matemática, português e artes, deixando todo o demais espaço lectivo para seminários práticos e criativos que respondam à vocação e inclinações de cada um, cobrindo toda as disciplinas do entendimento humano.

Esta é a visão do futuro e do papel nele que julgo ter a Lusofonia, entendida aqui como o cumprimento do verdadeiro destino de Portugal, malbaratado aquando da imposição do “capitalismo de Estado” e da transmutação perversa e megalómana dos Descobrimentos em Expansão imperialista e do decaimento da atividade exploratória do mundo em atividade exploradora.

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A Solução para a Recessão Mundial passa por uma mudança de paradigma: Localização em lugar de Globalização

A presente recessão mundial está para durar. Não é uma simples descida conjuntural resultante de uma  inexistente subida dos preços da energia ou dos combustíveis nem sequer de problemas graves no sector financeiro que reduzem a liquidez de Capital na economia. Pelo contrário, a situação atual tem uma raiz estrutural e como tal, não será sanada rapidamente.

A depressão atual radica nos problemas daquele modelo de Desenvolvimento económico que os economistas do “pensamento único” Neoliberal e globalista nos venderam como única solução e que durante quase vinte anos pareceu funcionar bem, trazendo prosperidade aos países fornecedores de matérias-primas e de produtos manufacturados e mantendo elevados padrões de vida nos países consumidores, algures no Ocidente. Mas algo estava literalmente “quebrado” no sistema: ainda que fosse possível ir transferindo discreta mas paulatinamente todas as indústrias para o Oriente durante algum tempo, este ermamento industrial haveria de se sentir, mais cedo ou mais tarde, nos países que assim iam evaporando a sua tessitura industrial. É que com as fabricas que partiam, partiam também milhões de empregos e com eles milhões de consumidores. No Oriente, a economia ía crescendo à custa de mão-de-obra abundante e barata, no Ocidente, o consumo ía sendo sustentado por níveis de vida mantidos artificialmente altos por elevados níveis de endividamento. Um dia este recurso sistemático ao crédito iria tornar-se impossível alto para continuar a crescer e as primeiras a sentir esta reversão de fluxo seriam precisamente as empresas do sector financeiro. E foi isso precisamente que aconteceu, em meados de 2008…

O problema maior reside portanto num sistema de Globalização que depende de enormes transferencias de bens e equipamentos de um canto para o outro do mundo. Depois de séculos em que o comercio internacional foi considerado acessório e complementar, a partir da década de 90, este tornou-se essencial em quase todo o tipo de produtos. Colheres, facas, cereais, brinquedos, computadores, etc, tudo é fabricado algures no exterior e nada é fabricado localmente. Esse é o paradigma que tem que desaparecer. E enquanto assim não fôr, esta recessão não irá parar de se agravar até criar convulsões sociais e níveis de criminalidade insustentáveis e destrutivas para qualquer sociedade no mundo. No oriente, haverá revoltas sociais porque as fabricas deixaram de fabricar para a exportação ao nível anterior, no ocidente, no ocidente porque os níveis de desemprego serão insustentáveis. Os Bancos que emprestaram desregradamente têm que falir e dar lugar a novas formas de gestão de Capital mais responsáveis e mais locais. Os empregos e as empresas devem refocar-se nos mercados locais, os padrões de endividamento devem reduzir-se dramaticamente, não pela falência dos endividados (empresas ou famílias), mas pela falência dos Bancos que emprestaram sem critério ou razoabilidade. Toda a economia deve abandonar esta obsessão pelo “Global” e reorientar-se para o “Local”, porque ao fim e ao cabo è “localmente” que estão as pessoas, os seus empregos e as suas necessidades! Todos devemos parar de consumir compulsivamente e os economistas e gestores devem esquecer esta obsessão doentia por taxas de crescimento exponenciais e ecologicamente insustentáveis. Esqueçamos aquilo que não podemos ter e concentremo-nos no consumo de bens culturais e na sua produção, já que estes garantem níveis de satisfação muito maiores e mais duradouros do que a última televisão de plasma ou uma viagem à Tailândia. Reformemos uma classe política que se apressou a socorrer os banqueiros que contribuíram generosamente para as suas campanhas eleitorais, mas que deixou metade dos desempregados sem qualquer protecção social. Mudemos o mundo, hoje. Ou iremos acabar com ele. Agora.

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Resposta a M4jor sobre o Neoproteccionismo e as Economias Locais

“O artigo, apesar de muito incompleto, está satisfatório, mas há alguns aspectos que não encaixam, alguns mesmo de contradição.”

-> Um artigo, aqui, nunca pode ser muito longo… Raramente ultrapasso uma página de texto, já que os artigos que violam essa regra raramente são lidos até ao fim pelos cibernautas. Por isso, é resumido, necessariamente e a favor da sua legibilidade…


“Sublinho dois ou três:

“Os mesmos economistas que tão rotundamente falharam em antever esta crise e na fanática defesa da retirada do Estado do seu papel de regulador… Os mesmos que diziam que os mercados funcionavam melhor quando o Estado os deixava em roda livre”

Isto é uma contradição. Acho que o Sr calvis queira dizer e referir-se aos economistas que defendem que o estado seja apenas regulador e não intervencionista. Deixar a roda livre, ou por outras palavras os mercados regularem-se por si só, aniquilando o dispensável e defendendo a livre concorrência e concentração ( inevitável) de capitais, só seria possível com os que “esses” economistas defendem, i.é, o estado regulador não interventivo, directamente, e apenas fiscalizador. Eles não defendem a retirada do Estado em regular e fiscalizar (fanática defesa da retirada do Estado do seu papel de regulador…) mas sim a não intervenção deste directa, criando e desvirtuando por exemplo a livra concorrência, como é o caso por ex da Televisão e receitas de publicidade ( Só é possível à RTP sobreviver e retirar receitas de públicos aos privados, porque apresenta sempre prejuízo e ” nós” é que pagamos; Caso contrário n sobreviveria, também com tanta incompetência, ou para dar prejuízo tinha de fazer para o que foi criada: serviço público), dentre outros.”

-> Refiro.me aqueles economistas que conseguiram fazer introduzir como “pensamento único” que a qualquer regulação é sempre prejudicial ao são andamento das economias. Tempos houve (2007) em que não havia telejornal em que não aparecia alguma dessas eminências pardas proclamando as virtudes da desregulação e como o Estado e os serviços sociais asfixiavam o bom andamento das economias. Esses senhores idolatravam Milton Friedman e a sua escolha de Hong Kong como o “paraíso económico sobre-a-Terra” porque aqui o Estado mínimo (a Minarquia) era o modelo ideal de organização das sociedades. Estes senhores são os mesmos que agora culpam o excesso de desregulação (que curiosamente recua até Clinton, um presidente mais admirado do que merece) e que defendem as intervenções com dinheiros públicos para salvar o moribundo sector financeiro.

-> A roda livre só existia de forma absoluta nos mercados de derivados e em aplicações financeiras muito obscuras. No resto, sempre houve alguma regulação. O que não havia era vontade política e capacidade operativa por parte dos Governos e dos Bancos Centrais para regular, tamanha era a força e energia dos defensores da desregulação. Neste aspecto, veja-se por exemplo o caso do Banco de Vítor Constâncio: porque demorou tantos meses a analisar indícios fortes de dolo e má conduta do BPN e do BCP? Aqui a falta de vontade (ideológica) juntou-se à crassa incompetência (de Constâncio e da sua equipa mais próxima).

“A Segunda grande contradição do Sr clavis é a questão geral do proteccionismo. Ao aplicármos, o Sr clavis contradiz-se nas questões, por exemplo da agricultura de África. Se ficaríamos protegidos da entrada de produtos chineses, afundaríamos dezenas de economias africanas. No continente Americano surgira tb em relação à América do Sul e por aí fora. Há, de facto alguma veracidade no caos teórico.

A única solução, a meu ver e tb do Sr Clavis, é o consumo interno de produtos nacionais. Será impossível consumir-se 100%, ou mesmo 50%, mas ao tapar a cabeça destapa-se os pés. É impossível uma solução satisfatória para todos deste assunto, porque ele é dinheiro e dinheiro nunca foi unânime nem justo.”
-> Nesta questão admito que não tenho uma posição muito habitual. Sou adepto de uma forma nova de neoproteccionismo simultaneamente ética e local. Ética porque não reconheço “comércio livre” nos mecanismos artificiosos que a China (por exemplo) utiliza para potenciar as suas exportações, como subsídios diretos à exportação, dumping remuneratório e extensas cargas horárias, para além de uma escassa cobertura legal para os direitos laborais dos trabalhadores chineses. O mesmo estendo para a União Europeia que subsidia os seus produtos agrícolas e prefere exportar “de graça” os seus excedentes agrícolas para África, aniquilando assim as débeis agriculturas africanas. De um lado, deve impôr-se aos países que exportam o mesmo tipo de coberturas laborais, humanas e ecológicas do que os países para onde exportam. Do outro, os subsídios à produção devem ser limitados a sectores estratégicos e vitais de forma a não afogar as capacidades locais de produção autónoma. Em suma, exportar sim, mas éticamente. Em sempre de forma coadjuvada e sucedânea, mantendo sempre o grosso da produção das necessidades locais, nas economias locais e regionais. Consumir localmente, aqui que é produzido localmente, e complementar estas lacunas com exportações éticas, essa é a minha visão, a qual, aliás, não é nada original (ver AQUI). Obviamente que isso implicaria um recentramento dos padrões de consumo e das expectativas de vida que só poderia (para ser sustentável) vir de dentro dos indíviduos, das “revoluções interiores” de Agostinho e não impostas a partir de fora, por Lei ou por ditadura. O consumo, ele próprio, teria que mudar. De mera expressão de vida, para suplemento acessório para renovadas formas de vida onde a Criação, a Cultura e a vida interior assumiriam um papel que nestas sociedades consumistas e egocêntricas da atualidade já não têm lugar.
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Diálogo com “JC” (nome propositamente omitido) a propósito do Movimento Quintano e do “MIL: Movimento Internacional Lusófono”

JC: “Se não fosse a referência ao E.F. Schumacher, bem que me juntava ao Movimento Quintano…”
 
RM: “E contudo, o “Movimento Quintano” hibernou… Já que aderi ao MIL: Movimento Internacional Lusófono (www.movimentolusofono.org) onde ainda me bato pelas (aparentemente!) impopulares ideias de Schumacher, mas onde estas estão mais diluídas noutras tendências…” 
JC: “De nada, é sempre bom saber que há outras pessoas que admiram o Agostinho da Silva. Em relação ao Schumacher, o problema é que (e peço desculpa pela minha mais que provável ignorância), aparentemente defende a ideia do “orgulhosamente sós”, ou seja, cada pessoa/região/país deverá arranjar formas de autosustentar-se evitando trocas ou aproveitando economias de escala vindas do exterior. Nesse aspecto prefiro a interdependência entre países que resulta da globalização (pelo menos reduz-se a hipótese de guerras graças a essa interdependência) mesmo que isso dê origem a pseudo-países como Portugal, que dependem quase totalmente do exterior. Se Portugal é de facto um país obsoleto que perdeu o seu propósito no Mundo, talvez seja preferível tornar-se uma região de Espanha ou o 27º Estado do Brasil.”
 
RM: “há bastante… até formámos uma Associação 😉 http://www.agostinhodasilva.pt e um Movimento que busca nele o fundamental da sua inspiração… alguns de nós (eu não, infelizmente) tiveram mesmo o privilégio de privar com o Professor e de vez em quando ainda ouvimos umas histórias novas… Schumacher de facto, dá primazia às “economias locais” com as suas “land trusts” e “moedas locais” como forma de desenvolver as economias e sociedades humanas e contrasta-as com as “hiper-empresas fusionadas” da atualidade. É um economista de contra-corrente e o seu trabalho sobre a “Economia Budista” é também extremamente revelador neste contexto. Compreendo o conceito de “interdependência”, que foi aliás o grande segredo dos Descobrimentos e da Expansão portuguesa e a maior virtualidade da Alma Portuguesa no mundo. Em objetivo, no MIL, defendemos a fundação de uma união lusófona… em que nem Portugal seria uma república federada do Brasil, nem o Brasil re-colónia de Portugal… Uma União baseada na “federação de municípios livres e independentes” de Agostinho, ou seja, numa forma avançada de “regionalização municipalista”. Radical, hem? ;-)”
 
JC: “Ainda há pouco tempo vi uma entrevista do Agostinho da Silva na RTP Memória. Simplesmente genial.
Tenho no entanto alguma dificuldade em ver os pontos de ligação entre o Agostinho da Silva e o Schumacher. Se um puxa para a interdependência e soberania supranacional, o outro parece puxar para uma independência e soberania local, conceitos no mínimo contraditórios.
Concordo com uma união federativa de municípios lusófonos (ou até para além de lusófonos!), mas isso implica a existência de um orgão federativo supranacional, que guaranta uma constituição comum, uma moeda comum, uma justiça comum…
Se o Schumacher conhecesse pessoas como o Valentim Loureiro,ou o Narciso Miranda (entre muitos outros) compreendia o risco de deixar nas mãos de caciques locais o funcionamento de orgãos de soberania como a Justiça ou a criação de moeda. Certos assuntos ganham em ser tratados a um nível mais “macro”, desde que respeitado o princípio da democracia (coisa que não acontece por exemplo na União Europeia).
Nas minha opinião as hiper-empresas fusionadas não deveriam meter medo ao cidadão comum, porque elas dependem do cidadão comum. Em última análise, num mundo cada vez menos democratico, o único direito que nos resta é de recusar o consumo de determinados bens (por exemplo, gasolina?), já que é a única forma de “prejudicar” os interesses dessas tais hiper-empresas fusionadas e fazê-las adaptar os seus interesses aos dos cidadãos.”
RM: “Publiquei (com autorização da AAS) boa parte das conversas vadias de Agostinho aqui: http://www.youtube.com/user/ClavisProphetarum a união federativa de municípios é uma ideia de Agostinho, intacta. Caciques haverá sempre… a nível local, nacional ou federal. Quando menor a escala, quanto maiores os mecanismos de controlo (Justiça, democracia ativa e participada, etc) menores os danos que poderão provocar… o facto de existirem os caciques citados indica alías que o nosso modelo “municipalista é inadequado.
as empresas “fusionadas”, não geram emprego, pelo contrário, repelem-no, deslocalizam e fazem outsourcing externalizando custos o mais que podem… as PMEs são locais, criam e distribuem riqueza localmente e… são ainda hoje o principal cerna de todas as economias realmente distibutivas do mundo.
e como recusar consumir os seus produtos se combinam preços (cartelização) entre si e se destroem a concorrência das PME então o monopólio de facto que impõe acaba com a sã competição e eleva os preços… por exemplo, recorda-se do tempo em que havia lojas de informática em cada esquina? onde estão elas? faliram todas… e agora o mercado é dominado a 98% pela Vobis,Worten (do mesmo proprietário) e pela FNAC; prejudicando os consumidores e a economia a seu favor, claro…”
Publicado também na Nova Águia
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Porque aderi ao MIL

1. Porque acredito que Portugal ainda não cumpriu o seu verdadeiro destino histórico, falhado com o maquiavelismo de D. João III, a introdução da Inquisição, as perseguições aos judeus e com o “nacionalcoitadismo” de Salazar e modernas encarnações;

2. Porque acredito que o destino de Portugal é reencontrar a sua outra metade transatlântica, re-integrar-se nela, numa nova federação luso-brasileira, profundamente descentralizada ao nível municipalista, na boa tradição medieval portuguesa e ressuscitada por Agostinho, a qual servirá de propulsor ao eixo Brasília-Lisboa-Luanda e depois, numa terceira fase a uma verdadeira e plena “União Lusófona”;

3. Porque acredito que o futuro das Economias e Sociedades modernas reside muito mais na autonomia e na Localização do que na Globalização e no materialismo, na boa tradição de E.F.Shumacher
Por tudo isto, e porque acredito que estas três razões são compatíveis com os princípios e objectivos corporizados no MIL: Movimento Internacional Lusófono, aderi e MILito no dito.

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Sobre o aumento da carga fiscal, do “milagre” da redução do déficite e… Small is Beautiful

(http://www.southplainfieldnj.com)

“A carga fiscal portuguesa subiu, durante o ano passado, a um ritmo mais elevado do que o esperado pelo próprio Governo, contribuindo de forma decisiva para a descida do défice público até aos 2,6 por cento do Produto Interno Bruto.”

De acordo com os números das contas públicas divulgados na quarta-feira pelo INE, a carga fiscal da economia portuguesa (calculada como a soma dos impostos e contribuições sociais efectivas cobradas pela Administração Pública em percentagem do PIB) atingiu um novo máximo de 36,5% em 2007, uma subida de 0,8 pontos em relação ao ano anterior. Em Dezembro do ano passado, quando apresentou o Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC), o Governo estava a apontar para uma subida deste indicador de apenas 0,5 pontos percentuais.

Visto de outro modo, a subida da receita fiscal e das contribuições sociais foi de 7,5% por cento face ao ano anterior. Um valor que fica acima dos 6,3% que eram previstos pelo Executivo quando no passado mês de Outubro apresentou a sua proposta de Orçamento para 2008.

Este acréscimo não antecipado das receitas do Estado – explicado pelos ganhos de eficiência da Administração Fiscal e da Segurança Social – foi o factor decisivo para que o défice público ficasse, não nos 3 por centro que nessa altura o Executivo esperava, mas sim em 2,6 por cento. O valor mais baixo das últimas três décadas.”

(…)

“A tendência de subida do nível de subida da carga fiscal em Portugal não é de agora. Verifica-se, quase ininterruptamente, desde os anos 70, quando não ultrapassava os 25%. Ainda assim, agora, permanece abaixo dos 39,6% registados no total da União Europeia”.

Sérgio Aníbal

Público, 28 de Março de 2008

Este artigo de Sérgio Aníbal exprime aquilo que por aqui já várias vezes afirmei: ainda que não se deva retirar mérito ao presente governo por ter feito algo para reverter o descontrolo das contas públicas, o certo é que este controlo se deve essencialmente a um aumento da receita, pela via fiscal. A despesa do Estado não é mais virtuosa, nem mais eficiente. Isto é, o balanço entre os recursos gastos e o retorno dos mesmos não é maior agora do que era nos Governos anteriores, bem pelo contrário, já que houve uma generalizada redução da cobertura social do Estado com o encerramento de Escolas, Centros de Saúde, SAPs, Urgências, Maternidades e da redução da cobertura em caso de doença ou desemprego. Em consequência, houve nestes sectores uma redução da Despesa, mas esta foi compensada pelo aumento dos custos da máquina burocrática, já que o valor da Despesa global aumentou, não reduzindo, como se poderia depreender!

E os ganhos de Receitas registados devem-se a um aumento claro e inequívoco da carga fiscal… Aumentar o peso do Estado, sem aumentar a sua eficiência não pode produzir resultados positivos a longo prazo. No curto, podem cumprir-se os ditamos de Bruxelas, mas a longo, a máquina fiscal há de tornar-se autofágica e devorar o país que supostamente devia alimentar. E como poderá aumentar a eficácia desta Despesa? Descentralizando… aproximando das populações os investimentos, os projectos, as decisões, afastando o mais possível das torres de cristal do poder a decisão e devolvendo às entidades que mais próximas estão dos cidadãos. Quanto menor fôr o grau do Investimento e da Despesa, mais fácil será impedir e controlar desvios. A isso chama-se “Small is Beautiful”, um dos princípios basilares do tipo de política económica que defendemos.

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Hillary Clinton e Barack Obama estão juntos na crítica ao comércio livre e à NAFTA

NAFTA
(http://www.infoescola.com)

(…) “Hillary Clinton e Barack Obama juntos na crítica ao comércio livre. Ambos criticam o NAFTA (North American Free Trade Agreement) que tinha sido calorosamente apoiado pelo Presidente Clinton. E ambos defendem que todos os acordos de troca livre têm de ser revistos pelo próximo Presidente americano. Em suma, ambos parecem concorrer ao título de maior opositor do comércio livre.”

“Na Europa, também parecem crescer as vozes favoráveis ao proteccionismo. o comissário europeu Peter Mandelson tem estado debaixo de fogo devido à sua defesa do comércio livre, em particular devido à sua oposição à imposição de tarifas europeias sobre as importações da China.”

(…) “a troca livre é em regra favorável a ambas as partes. Aos países pobres, obviamente, permite-lhes começar a sair da pobreza, aos países ricos, proporciona aos consumidores acesso a bens mais baratos, elevando o nível de vida geral. É certo que ameaça sectores nacionais onde esses bens são produzidos a custos mais elevados. Mas isso, em contrapartida, liberta recursos que se encaminharão para sectores mais competitivos, gerando no final um acréscimo líquido de postos de trabalho (em regra mais qualificados e mais bem remunerados).

A experiência inglesa e escandinava recomenda mais qualificação profissional e apoio efectivo aos que perdem o emprego, assim como incentivos aos geradores de novos empregos.”

João Carlos Espada; Expresso, 1 de Março de 2008

Após a década em que maior riqueza no mundo se criou (a década de noventa) o mundo parece agora começar a arrepiar caminho e o Ocidente está a reflectir as fragilidades de um sistema económico assente no crescimento exponencial dos padrões e das quantidades de consumo, a troca da transferência massiça e generalizada do sector produtivo para o Oriente. Esta desindustrialização – muito mais intensa nalguns Estados americanos do que em qualquer país ou região europeia – começam a criar uma camada cada vez mais numerosa de cidadãos eleitores descontentes com o presente estado das coisas e que se encontra ou numa situação de desemprego crónico ou numa situação de subemprego ou com novos empregos de remuneração muito inferior à anterior. É que se as estatísticas continuam a dar números impressionantes de criação de Emprego nos EUA, já não espelham tão bem quanto desse novo emprego corresponde a uma remuneração inferior à anterior e, sobretudo, quanto desse novo Emprego não em qualquer Seguro de Saúde… E nos EUA há hoje já mais de 48 milhões de pessoas sem qualquer cobertura de saúde!

Como saberão aqueles que frequentam habitualmente estas paragens, sou um acérrimo defensor das virtudes das Economias Locais e no livre empreendedorismo. Isto é, defendo a empresa privada, mas de pequena e média escala e de âmbito principalmente local e regional. Assim, acredito que a maioria dos bens consumidos numa dada região deve provir precisamente dessa região e daquelas que lhe são imediatamente adjacentes. A esta rede económica local deve ainda corresponder uma rede global, mais ampla e extensa, que inclua todos os países do mundo ou de uma dada região geográfica (a Europa) ou cultural (o mundo lusófono), ou seja, não advogo um isolacionismo económico ou regional, mas o estabelecimento de uma rede de complementaridades onde o essencial da produção é fornecido localmente e a parte acessória e sucedânea coberta pela rede regional (União Europeia ou União Lusófona), cabendo apenas à escala regional a satisfação das necessidades urgentes (crises ambientes ou naturais) ou pontuais (determinados tipos de equipamentos tecnológicos muito raros ou muito específicos).

Estas declarações coincidentes dos dois candidatos democratas indicam que a direcção para onde os ventos sopram na política económica mainstream nos EUA está a mudar… e que as mudanças de política económica a implementar pelo candidato ganhador (provavelmente um destes democratas) serão no sentido de contracorrente às pressões liberalizantes e globalizantes impostas pelos poderosos advogados do “Pensamento Único”, mais nacionais e menos globais… E que este será o tom dominante na reacção à crise de grandes proporções que se prepara para abater sobre a economia dos EUA e que afectará rapidamente – em efeito de bola de neve – aqueles que mais exportam para os EUA (Europa e China) e que trarará uma resposta reactiva de reforço do proteccionismos e das medidas para defesa e incentivo das
economias locais um pouco por todo o mundo.

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As “Community Land Trusts” dos EUA, a questão da propriedade da terra e sobre o crescimento das grandes agroindústrias nos EUA e no mundo


(uma residência construída em terrenos de uma “Community Land Trust” nos EUA, em Lopez Island (San Juan Island cluster) no Estado de Washington)

“A história da terra é mais velha que a história do Homem. A terra chegou primeiro; e não foi criada por nenhum Homem. Cada sociedade, grande ou pequena, deve criar formas pelas quais os seus membros possam partilhar esta oferta. Os elementos da Sociedade devem também determinar sob que condições é que a terra deve passar às próximas gerações. Isto é a Continuidade. E devem também decidir, se, quando e como deve ser vendida a terceiros. Isto é a Troca.”

in “The Community Land Trust: A Guide to a New Model for Land Tenure in
America.”, edição da E. F. Schumacher Society

“Em 1967, o fundador E. F. Schumacher Society, Robert Swann desenvolveu a primeira Comunidade de Terras (“Community Land Trust“) como uma forma de garantir a terra nas mãos dos agricultores afro-americanos da Georgia rural. Slater King, primo de Martin Luther King, foi um dos parceiros de Swann nesta iniciativa. Desta experiência resultou o livro “The Community Land Trust: A Guide to a New Model of Land Tenure in America” que foi determinante para a instalação de mais de duas centenas de comunidades idênticas que funcionam hoje um pouco por todos os Estados Unidos.”

“Uma “Comunidade de Terras” assentam na crença de que “na nossa sociedade, se não mesmo no mundo, respostas insatisfatórias por parte dos poderes institucionais evoluiram para as questões da propriedade, da continuidade, e da troca. Uma “Comunidade de Terras” é apenas uma ideia entre muitas possíveis que são necessárias para reestruturar os nossos sistemas sociais e económicos de forma a uma produzir uma nova ordem mundial, não sem conflitos, mas sem guerras; não sem sofrimento, mas sem a ausência de esperança; não sem desigualdades, mas sem iníquidades.”

Comentário: Acreditamos – como os antigos fisiocratas – que a verdadeira riqueza das Nações assenta na Terra e, nela, na agricultura… É através de um regresso aos Campos que as economias regionais e locais podem tornar a vivificar e que as imensas turbas que hoje se acumulam, digladiam e sofrem psicológicamente nas megacidades de hoje (17 milhões de brasileiros vivem só na área metropolitana de São Paulo!). Mas este regresso à Economias sustentáveis e à escala humana é impossível em sistemas de propriedade que consagrem os princípios absolutos da propriedade da Terra e consintam na existência de imensas extensões de terra abandonada ou dedicada exclusivamente à criação de gado (uma forma aliás muito pouco eficiente de produzir alimento…). Por isso, impõe-se a existência de uma “Reforma Agrária” que redistribua a terra inculta e abandonada, sem os excessos absurdos cometidos no Zimbabwe, mas recentrando na Terra a Economia das Nações e cessando com o predomínio que as grandes agroindustrias têm tido nas últimas décadas à custa do dumping sistemático dos preços e das aquisições das pequenas e médias explorações… Se a propriedade da terra não estiver concentrada nas mãos das grandes multinacionais agrícolas como a preversa Monsanto, os preços agrícolas podem reencontrar os seus valores mais justos e permitir a sobrevivência e a prosperidade de muitos pequenos agricultores… Actualmente, o seu domínio dos circuitos de distribuição e comercialização vicia o mecanismo dos preços e mantêm-nos artificialmente baixos e impossibilita a dignidade da vida nos Campos.

“O sistema de propriedade privada da terra que conduziu a altas produtividades e à independência pessoal há mais de cem anos atrás tornou-se hoje numa das maiores fontes de desigualdade económica e social. A propriedade privada da terra está a traduzir-se crescentemente em propriedade corporativa da terra, e, apesar do aumento da propriedade privada de terras, cada vez mais terra está na mão de um cada vez menor de proprietários. As famílias de rendimentos médios, quando tentam comprar as suas casas, são forçadas a pagar preços inflaccionados, e os pobres, como sempre, são completamente excluídos”.

Comentário: Nos EUA, este movimento é muito intenso: a aquisição de propriedades agrícolas pelas maiores agroindústrias é crescente e tem sido espelhado em muitas produções de Hollywood onde os pequenos agricultores do Interior rural dos EUA vêm as suas propriedades assediadas pelos gigantes industrais que compram todo os terrenos em torno dos seus e que recorrem a técnicas nem sempre legais de pressão para os forçar a vender as suas terras ancestrais… Por cá, o movimento não ocorreu, porque simplesmente, os nossos terrenos não são tão férteis e porque também não temos a mesma escala de agroindustriais que têm que enfrentar os agricultores americanos… Mas estas mesmas agroindustrias estão hoje muito activas no Interior do Brasil, procurando explorar a euforia do Etanol e procurando concentrar nas suas mãos uma produção que hoje ainda provêm em grande número de uma rede muito extensa e dispesa de pequenos produtores.

“Com o movimento ascendente da propriedade da terra para as mãos de algumas muito abastadas corporações e indivíduos a necessidade de um novo sistema de distribuição da terra torna-se claro. O modelo da “Comunidade de Terras” (Community Land Trust), delineado neste livro, oferece uma forma de possessão da terra dando os direitos de propriedade aos indivíduos enquanto que a terra permanece nas mãos da comunidade. «A Comunidade das Terras não está preocupada primariamente com a propriedade comunitária. Pelo contrário, ela tem a ver com a propriedade para o Bem Comum, o que pode ser ou não ser combinado com propriedade comum. A «Community Land Trust» é uma entidade legal, um corpo quase-legal, delineado para manter a terra sob o controlo da Humanidade do presente e do futuro ao mesmo tempo que protege os direitos legítimos dos residentes.”

Comentário: A propriedade estatal das terras, segundo o defunto modelo soviético, ou a posse “comunitária” das terras segundo o exemplo dos baldios medievais portugueses ou da cooperativas alentejanas do pós-25 de Abril, não é assim uma imposição que resulta directamente da aplicação do modelo de propriedade das “Comunidades de Terra” (Community Land Trust) de Swann. De facto, não tem que haver sequer uma cedência formal ou legal dos direitos de propriedade individuais, bastando haver uma delegação dos mesmos e uma transferência informal dos mesmos para a “Comunidade de Terras”… Assim se obtêm as economias de Escala necessárias no mundo moderno, sem as quebras de produtividade que ocorrem geralmente em todos os sistemas comunitários de exploração da terra.
“As terras são conservadas em “Trust”, não estão sujeitas a aumentos especulativos de preços, e logo, podem ser disponibilizadas a particulares com maior equidade. A posse da terra é então o resultado da capacidade produtiva da terra para criar alimento, para disponibilizar um local para a construção de uma residência ou um lugar para um qualquer desenvolvimento racional. As pessoas, quando lhes é permitido o acesso à terra, tem a capacidade de criar Valor. «A propriedade é criada pelo Homem através do seu Trabalho. O Trust inclui a terra, a atmosfera, os rios, os lagos, os mares, as florestas naturais e os recursos minerais da Terra. Como estes não surgiram em resultado do trabalho humano, todas as pessoas devem ter acesso igual a este consórcio de forma a que todos possam criar Valor através do seu trabalho.”
Tradução livre de da newsletter de Junho de 2007: “1972 Community Land Trust Book reprint

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Consumir menos, Partilhar Mais, Viver de forma simples

Tradução livre de texto escrito por Coco Masters para a “E.F.Shumacher Society” (EUA)

“A possibilidade de comprar poluição por carbono – semelhante às Indulgências católicas que provocaram a cisão entre católicos e protestantes – soa como um pecado ambiental para quase todos nós. Mas existe um caminho mais antigo para reduzir o nosso impacto no planeta que é semelhante à visão dos cristãos evangélico e dos budistas. Viver simples, Meditar. Consumir menos. Pensar mais. Vá aos seus vizinhos. Peça emprestado o que precisa e empreste o que lhe pedirem.”

(…)

“Mudar as suas lâmpadas, usar transportes públicos, e criar limites para as emissões de dióxido de carbono são esforços para consumir menos e colocar menos carga nos nossos vizinhos. A afirmação “Small is beautiful”, empregue por E. F. Shumacher é um reconhecimento de todas estas acções.

O “Pequeno é belo” no sentido da redução do uso dos recursos não-renováveis.

O “Pequeno é belo” no sentido de que as emissões de gases com efeito de estufa contribuem para a mudança global do clima.

O “Pequeno é belo” no uso de pesticidas em colheitas agrícolas.

O “Pequeno é belo” no número de viagens de automóvel por semana.

O “Pequeno é belo” na quantidade de lixo que levamos para o Aterro.

O “Pequeno é belo” na capacidade produtiva de um agricultor.

Schumacher escreveu: “O Homem é pequeno, logo, o pequeno é belo. Caminhar para o gigantismo é caminhar no sentido da auto-destruição.”

Fonte: E.F.Schumacher Society

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A Comunidade “Southern Berkshire”

A “E. F. Schumacher Society” tem como um dos seus objectivos a construção de economias regionais independentes, precisamente o tipo de Economias que o economista Fritz Schumacher advogada no seu livro “Small is Beautiful, Economics as if People Mattered”, nestas, os bens consumidos numa região são, produzidos nessa mesma região. Seguindo as ideias de Shumacher, Jane Jacobs descreveu em “Cities and the Wealth of Nations”, uma estratégia para o desenvolvimento económico que passava pela criação de industrias de substituição das importações. Jane Jacobs sugeria que deveríamos examinar aquilo que era importado para as nossas regiões e desenvolver as condições para produzir esses produtos a partir de recursos locais e trabalho local. Ao contrário de um ramo de uma corporação multinacional que podem abrir uma unidade local e encerrá-la precipitadamente, conduzida apenas pelas flutuações caprichosas da Economia Global, um negócio localmente detido e gerido é mais certo que estabeleca uma rede complexa de interacções económicas e sociais em torno das suas raízes regionais, mantendo o negócio no lugar de nascimento e responsável perante as pessoas, terra e pela própria comunidade. Uma economia regional independente requer novas instituições económicas regionais para a terra, trabalho e o capital, adequadas à sua escala, propósito e estrutura.

 

Estas novas instituições não podem ser conduzidas pelo Governo, e essa é a ideia. Elas foram moldadas seguindo a forma de associações livres de consumidores e produtores, trabalhando de forma cooperativa, partilhando o Risco da criação de uma Economia que reflicta a cultura comum e os valores partilhados pelo grupo. Pequenas na escala, transparentes na estrutura, desenhadas para oferecer lucro à comunidade em vez de recolher lucro da comunidade, estas novas instituições podem responder perante as preocupações comuns de segurança e justiça no Trabalho.

Tradução Livre de um segmento de um texto que pode ser encontrado em: www.berkshares.org

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Moedas Locais: Catalisadores para Economias Regionais Sustentáveis (Parte II)

(continuação e final)

“Na década de trinta a Deflacção mundial encorajou muitas formas de troca que competiam com as moedas nacionais. A cidade de Woergel na Austria criou na época um sistema que chamou a atenção internacional. Os habitantes desta pequena cidade austríaca criaram então um sistema monetário que despertou a atenção internacional. Os habitantes desta pequena cidade eram capazes de comerciar trabalho e materiais, que tinham em excesso, usando esta moeda local em vez da moeda nacional austríaca, que não tinham e assim conseguiram manter-se livre da Depressão assolava a Austria no período de alguns meses. As moedas locais também foram populares nos EUA. Um antigo editor do jornal “The Springfield Union” do MAssachusetts contou-nos a história de uma moeda local emitida pelo seu jornal. Na ápoca dos colapsos bancários da década de 1930s, ele era apenas um moço de recados; mas recorda-se de que o editor do jornal Samuel Bowles pagava aos seus empregados nessa moeda. Podia ser usada nas lojas que anunciavam no jornal e as lojas pagavam os seus anúncios com a moeda, fechando o ciclo. A moeda era tão popular que os clientes começaram a pedir o uso da moeda em toda a cidade, dado que esta moeda começava a ser mais popular do que a própria moeda federal. A moeda do jornal auxilou a economia local de Springfield durante a Depressão, facilitando as transacções comerciais, e alcançando um âmbito muito maior do que o originalmente pretendido.

 

Catorze anos mais tarde na cidade de Exeter, no New Hampshire, os economistas Ralph Borsodi e Robert Swann emitiram uma moeda baseada num padrão de valor calculado a partir de 30 bens distintos num índice semelhante ao Dow Jones. A moeda foi designada por “Constant” porque – ao contrário das moedas nacionais – poderia manter o seu valor ao longo do tempo. O “Constant” circulou em Exeter durante mais de um ano, provando que as pessoas eram capazes de usar uma moeda que não era a familiar nota verde americana. Na época, recebeu atenção de meios de comunicação como a Time, a Forbes e de outras revistas americanas. Quando interrogado por um jornalista sobre a legalidade da moeda, Borsodi sugeriu que o repórter confirmasse a mesma com o Departamento do Tesouro, o que este faria, sendo-lhe respondido: “Não nos importamos se ele emite pinhas, desde que sejam camibáveis com o dólar de forma a que estas transacções possam ser registadas para efeitos de imposto.” Isto é tudo o que o Governo exige de uma moeda local, e tudo o que uma moeda local requer da comunidade é confiança. Uma moeda só é forte enquanto fôr forte a confiança que as pessoas têm umas nas outras na sua capacidade de produzir algo com valor. A confiança foi o coração do sucesso em Springfield, Woergel e Exeter…

 

Borsodi abandonou esta experiência ao fim de um ano, mas alcançou o seu propósito: demonstrar a aceitação local e verificar a legalidade das moedas emitidas localmente e não-governamentais.

 

A cidade de Southern Berkshire em Great Barringtom, sede da E. F. Schumacher Society, tem dado passos decididos no sentido de emitir uma moeda de Berkshire. Em 1982 um grupo de debate sobre Economias Regionais conduziu à incorporação da Sociedade na organização não-lucrativa SHARE (“Self-Help Association for a Regional Economy”). O objectivo era o de estabelecer uma base regional para uma moeda local. O primeiro alvo da SHARE era o de fazer empréstimos produtivos para pessoas que não conseguiam que a banca convencional a financiasse, mas que tinha o topo de pequenas emrpresas que produziam bens e serviços de qualidade para consumo local. Alguns destes negócios conseguiam empréstimos a taxas de 15 ou 18 por cento, e a SHARE determinou-se a disponibilizar empréstimos de baixo custo. Os membros da SHARE abriram contas de poupança no “First National Bank” de Berkshires e estas contas foram usadas para colaterizar os empréstimos. O Banco realizava empréstimos e geria a sua contabilidade, mas as decisões de gestão eram fundamentadas em critérios sociais, ecológicos e financeiros.

 

Sue Sellew da quinta de Rawson Brook fazia queijos de cabra a partir do leite das cabras da sua criação e das ervas que recolhia nas suas plantações orgânicas. Sue recebeu 5000 dólares da SHARE para o seu negócio de forma a adaptar a sua actividade para os padrões do Estado. Isto permitiu-lhe passar a vender o seu queijo para lojas e restaurantes.

 

Jim Golden treinava os seus dois cavalos, Spike e Rosie, para transportarem madeira e lenha da floresta da sua quinta. Jim garantia aos seus clientes que as suas madeiras eram tratadas de forma ecológicamente responsável e que os seus animais não sofriam com o stress do seu trabalho pesado. Um empréstimo SHARE permitiu-lhe construir um estábulo na sua quinta para os seus animais.

 

Bonnie Smith nunca tinha pedido dinheiro emprestado, mas tinha uma máquina de costuma e talento para desenhar roupas. Um pequeno empréstimo SHARE permitiu-lhe comprar uma grande quantidade de lã, a baixo custo, o que lhe permitiu baixar o preço final dos seus produtos e estabelecer crédito junto dos seus fornecedores. Pediu um novo empréstimo para uma segunda máquina de costura, logo que pagou o primeiro empréstimo. O seu negócio cresceu, e pediu um terceiro empréstimo para uma nova máquina de costura para o seu primeiro empregado. Os primeiros dois empréstimos permitiram-lhe ter um crédito bancário convencional para o seu negócio, e a SHARE encaminhou a partir daí Bonnie para um Banco que lhe concedeu uma linha de crédito.

 

O registo de retorno financeiro da SHARE foi de 100 por cento, quer devido à sua escala quer devido ao apoio da comunidade aos receptores de empréstimos. Os membros da SHARE ajudaram a manter este registo perfeito através das recomendações que faziam destes negócios aos seus amigos e conhecidos. Muitos empréstimos eram concedidos a novos empreendimentos que precisavam de menos de 3 mil dólares para começarem a sua actividade. Eram conceduidos para equipamentos e inventário, mas não para pagamentos de salários ou campanhas de marketing, e muito menos, para empréstimos de consumo. Um professor de piano comprou um piano com fundos emprestados de forma a poder oferecer lições em sua casa, mas um pedido para um empréstimo para compra de um piano para uso privado foi remetido para um Banco convencional.

 

O programa de colaterização de empréstimos da SHARE é simples e pode ser facilmente duplicado. Programas semelhantes arrancaram já nos Estados Unidos usando o modelo criado em Berkshires. Este foi o responsável pelo sucesso do modelo “familiar” a SHARE: Quando pessoas sem historial de crédito decidem tentar criar o seu próprio negócio, viram-se frequentemente para um membro da família, como uma avó, em busca de ajuda. Em vez de emprestar directamente, a avó pode ofecer uma conta de poupança como colateral a um empréstimo bancário. O programa SHARE estende simplesmente o “circulo de avós”, criando uma “família financeira”.

Original em: E.F.Schumacher Society

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Moedas Locais: Catalisadores para Economias Regionais Sustentáveis (Parte I)

 

 

por Robert Swann e Susan Witt, Fevereiro de 1995

 

Traduzido a partir de: http://www.schumachersociety.org/publications/essay_currency.html

E. F. Schumacher argumentou em “Small is Beautiful: Economics as if People Mattered“, que de um ponto de vista verdadeiramente económico a forma mais racional de produzir seria a partir de “recursos locais, para necessidades locais.” Jane Jacobs, uma das maiores especialistas actuais em Economias Regionais, enfatizou o ponto de vista de Schumacher através das suas análises de uma região saudável como uma região capaz de criar industrias de “importação-substituição” numa base continuada. Uma economia regional bem desenvolvida que produzisse para as suas próprias necessidades é apenas possível quando controla os seus recursos e o seu financiamento reside na própria região. Na actualidade, a propriedade da terra, dos recursos naturais, e da industria são as condições determinantes para receber crédito, isto, a um nível centralizado e nacional. Actualmente todas, com excepção de algumas raras zonas urbanas, têm os seus recursos económicos controlados a partir de fora dessa área.

O sistema bancário é uma das instituições mais centralizada da nossa Economia e um dos maiores obstáculos para o reforço das economias regionais e das comunidades que nelas vivem. E contudo os bancos centralizados são apenas um desenvolvimento recente nos Estados Unidos. O hábito de pedir emprestado e emprestar e até de imprimir papel-moeda cresceu durante gerações nas cidades e comunidades ruras até formar aquilo a que hoje chamamos de “sistema bancário”. Estes sistemas bancários regionais eram de pequena escala, regionais e descentralizados. O Papel-moeda foi tornado padrão e nacional, em 1863, de modo a recolher fundos para a luta contra os Estados Confederados, mas foi só em 1923 que um sistema central se tornou formalizado através do “Federal Reserve Act”. Os bancos centralizados e o controlo do dinheiro exigiam grandes bancos e investidores abastados que pudessem reunir grands quantias de dinheiro, a uma escala sem precedentes. Estes bancos eram centros de dinheiro, com os seus clientes industriais, e podiam pagar mais juros aos seus depositários que os bancos pequenos, e aliás, muitos destes bancos pequenos começaram a enviar os seus próprios fundos para estes grandes bancos das grandes cidades americanas. A criação de uma moeda nacional fez o dinheiro mais fluido e permitiu que os dólares rurais sustentassem o crescimento industrial urbano. Os emprestadores rurais ficaram satisfeitos com o arranjo até que o primeiro banco de Nova Iorque fechou e levou consigo as poupanças de uma pequena cidade e um agricultor local deixou de poder pagar o seu empréstimo porque um banco de Chicago estava a emprestar dinheiro ao seu banco local a uma alta taxa de juro.A moeda nacional facilitou a industrialização dos Estados Unidos, que por seu lugar, criou muitos empregos: contudo, a centralização do sistema monetário serviu também para centralizar os beneficiários do sistema.

O efeito sobre os pequenos agricultores e sobre as economias rurais foi devastador. A contínua “crise das quintas” foi uma manifestação dramática do que foi realmente a crise monetáriaque começou com a profunda depressão das décadas de 1870 e 1880 e que levaria mais tarde ao “Federal Reserve Act”. O crédito para quintas de pequena escala e para pequenos negócios rurais que eram parte da comunidade local secou completamente ainda antes da Depressão da década de 1930, e o governo dos Estados Unidos teve que criar a “Farmers Home Administration” de forma a substituir com dinheiro dos impostos algum do capital rural que havia sido irremediávelmente perdido para as grandes cidades.

A “crise do alojamento” foi também parte desta crise monetária. Os investidores colocaram o seu dinheiro em terra como uma “defesa contra a inflação”, que arrastava os preços da terra e do imobiliário para cima. O alto custo da terra foi um factor determinante na atual escassez de casas acessíveis, e torna a posse da sua própria casa um sonho fora do alcance da maioria dos americanos.

Os sistemas bancários locais e descentralizados de 100 e 50 anos atrás tinham a vantagem da Diversidade. O colapso de um banco local – mesmo de um bando de Nova Iorque – era ainda um colapso local, e os seus custos eram internos. Mas actualmente nos estamos perante a hipótese do colapso de todo o sistema. Considere-se os milhões de dólares de impostos que são gastos pelo sistema nacional de “National Deposit Insurance” para defender as poupanças e a industria dos empréstimos. E recordemo-nos dos biliões que foram somados à dívida nacional americana de forma a evitar que os grandes bancos abrissem falência quando os países em Desenvolvimento falham no cumprimento dos seus serviços da dívida. Estas falhas sistémicas irão ocorrer cada vez com maior frequência se o controlo económico local não fôr reforçado e a centralização sacrificada.

A situação exige uma reorganização das instituições económicas de miodo a que possam ser mais capazes de responder às necessidades e problemas e necessidades locais. Estas novas instituições devem ser descentralizar o controlo da terra, dos recursos naturais, da industria e do financiamento de modo a servirem as pessoas que vivem na área de uma forma equitativa. É preciso criar uma infraestrutura que encoraje a produção local para as necessidades locais. Associações de posse comum de terra (“Community Land Trusts”), detidas pelos seus trabalhadores e encorajando a autogestão, bancos locais sem intuitos lucrativos e moedas regionais podem ser algumas das ferramentas para construir economias regionais fortes.

 

Como crescemos todos a acreditar que as moedas nacionais eram a norma, a moeda regional é frequentemente uma dessas ferramentas menos compreendidas. Jane Jacobs, no seu livro “Cities and the Wealth of Nations” encara a economia de uma região como uma entidade viva no processo de expansão e contracção e uma moeda regional como o regulador mais apropriado para este fluxo vital. Exactamente como sucede com uma nação, uma região que não produz o número suficiente dos bens que consome acaba por depender fortemente das importações, o que resulta sempre numa moeda que é desvalorizada. Os custos de importação aumentam, a troca de bens é reduzida, e a região é obrigada a “pedir emprestado”, o que significa que exporta o seu capital, e não bens e acaba a importar praticamente tudo o que precisa. Mas se a região é capaz de suprir as suas próprias necessidades, então a sua moeda fortalece-se e mantêm o seu valor em relação a outras moedas. As importações são mais baratas, e o comércio mais equitativo ou reduzido em favor de uma região de “substituição de importações” autoconfiante.

Jacobs descreve as moedas como “poderosos transportadores de informação de retorno… Como poderosos gatilhos de ajustes, mas nos seus próprios termos. Uma moeda nacional regista, acima de tudo, a informação consolidada do comércio internacional de uma Nação.” Este retorno (feedback) informa os responsáveis pela política económica e permite-lhe afinar o rumo. Mas devem as regiões industriais dos Grandes Lagos ou os Estados da “Farm-Belt” ajustar as suas economias na mesma forma que os Estados do Sul ou o Silicon Valley? Uma parte muito significativa de qualquer economia regional é governada por um sistema monetário e bancário onde os membros dessa comunidade têm pouco ou nenhum controlo. A dependência das moedas nacionais retira às regiões uma poderosa forma de auto-regulação e permite a criação de bolsas económicas estagnadas numa nação em prosperidade aparente. O que proposto, em lugar deste estado de coisas é o estabelecimento de um sistema com responsabilidades na e para com a comunidade local.

As moedas regionais não são uma invenção recente: a prática já tem vários séculos de idade. O auto-designado “Free Banking Era” da História dos EUA, quando várias moedas circulavam livremente constribuiu substancialmente para erguer o sonho de Thomas Jefferson de uma nação de pequenos, independentes e autónomos agricultores que encontravam crédito junto dos bancos comunitários para produzir e vender os seus bens. Mesmo nos primeiros anos do século XX os bancos locais emitiam a sua própria moeda, que John Kenneth Galbraith dizia ser determinante para o rápido desenvolvimento da economia americana.

Em que é estes bancos são diferentes dos bancos de hoje? Porque estão localizados em pequenas cidades, os banqueiros conheciam as pessoas com quem estavam a lidar de uma forma muito pessoal e podiam fazer empréstimos na base do “carácter”, e não limitando-se estritamente à base teórica de como um dado indivíduo podia ou não suportar um dado empréstimo. Ao contrário de um banco nacional, que abandona uma região logo que realiza o Valor pretendido, a moeda local só pode circular numa zona regional muito restrita; as moedas locais e o capital local não podem viajar até aos centros financeiros para financiar as operações das corporações multinacionais ou pagamentos de dívidas. As decisões de crédito são feitas por banqueiros locais com um conhecimento da realidade local, dos emprestadores, mas também da sua Região como um todo.

Uma das maiores objecções para o “Free Banking” do Século XIX e do começo do século XX foram os falhanços de alguns desses bancos e a especulação que alguns deles fizeram com terra e com empréstimos improdutivos. O argumento usado por alguns é de que estes abusos poderiam ter sido evitados se tivesse havido um controlo central. Mas o que de facto faltou foi uma crença na responsibilidade na comunidade e vigilância que faltou aqui e não uniformidade… Os bancos de desenvolvimento comunitário como o South Shore Bank de Chicago e o Grameen Bank do Bangladesh são descentralizados e unificados. A descentralização e a diversidade têm o benefício de impedir o colapso em larga escala de um sistema. Isto é verdade não só no mundo bancário, mas também no mundo natural. Pense-se nas sementes. Se muitos tipos diferentes de milho forem plantadas por agricultores diferentes e uma doença atingir a colheita, alguns tipos vão resistir e haverá colheita. Mas se todos os agricultores mudarem para uma nova semente hibrída e uma doença atingir esta colheita, o resultado será um falhanço global. Como podemos garantir a Diversidade na Banca? Como referiu o economista Frederick Hayek, para manter a Banca honesta seria melhor regressar a um sistema bancário que use moedas que compitam entre si em vez de confiar num único sistema central.

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Biografia de Robert Swann

Em 1974 E. F. Schumacher pediu a Robert Swann para fundar uma organização irmã da sua própria ITDG (“Intermediate Technology Development Group”), mas só em 1980 é que Swann conseguiria estabelecer a “E. F. Schumacher Society” em Great Barrington, no Massachusetts, EUA, sendo o seu trabalho e objectivos um descendente directo da filosofia de Schumacher e uma adaptação tangível da sua mensagem. Schumacher escolheu Swann com muita sabedoria. Robert Swann trouxe as suas capacidades pragmáticas de um construtor para o seu compromisso quer para a comunidade quer para a Economia Descentralizada. Antes de fundar a Sociedade tinha trabalhado com Ralph Borsodi na criação de uma moeda baseada em bens experimental em Exeter, no New Hampshire, um teste pioneiro para as “moedas locais” da actualidade. Em 1978 lançou o “Community Investment Fund” (“Fundo de Investimento Comunitário”), uma das primeiras iniciativas com responsabilidade social, antecipando um movimento nacional em investimento social.

As suas actividades na década de sessenta conduziram a um esforço para obter terra para comunidades de agricultores afro-americanos. Com Slater King fundou a “New Communities” (“Novas Comunidades”) em Albany, na Geogia, usando documentos modelados sobre os do “Jewish National Fund” (“Fundo Nacional Judeu”). Como fundador do “Institute for Community Economics” (“Instituto para a Economia Comunitária”) para auxiliar outros grupos espalhados por todos os Estados Unidos a formar comunidades de partilha de terra semelhantes, este movimento haveria de lhe merecer o título de “pai do movimento de reforma agrária americano”. Continuou o seu trabalho inovador na Sociedade, trazendo os conceitos Schumacherianos para todos os planos da Vida.

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Biografia de E. F. Schumacher

por Nancy Jack Todd, extraído de
People, Land and Community: The Collected E. F. Schumacher Society Lectures
copyright 1997

traduzido com a autorização da “E. F. Schumacer Society”

De acordo com o “The London Times Literary Supplement” de 6 de Outubro de 1995, “Small Is Beautiful” de E. F. Schumacher está classificado entre os cem livros mais influentes publicados desde a Segunda Grande Guerra. A selecção foi feita por um grupo de escritores e académicos que procuravam criar um “Mercado Comum da Mente” para estabelecer uma ponte entre as divisões culturais da Europa do Pós-Guerra. Entre estes nomes encontram-se os de Simone de Beauvoir, André Malraux, Albert Camus, George Orwell, Jean-Paul Sartre, Hannah Arendt, Carl Gustav Jung, e Erik Erikson. Embora menos académico que muitos dos seus outros trabalhos, Small Is Beautiful: Economics As If People Mattered referiu-se com uma extraordinária precisão a muitos dos principais temas com que lidávamos no final do século. Desde a sua publicação em 1973 que a obra foi traduzida para cerca de 20 línguas diferentes.

O economista E. F. Schumacher era um homem alto com uma longa sombra, particularmente no reino das Ideias. À época da sua morte em 1977 ele era classificado como “um profeta resistindo contra a maré” e “um homem que coloca as perguntas certas à sua sociedade e a todas as sociedades num momento crucial da sua História”. Estas afirmações permanencem válidas. Num ambiente de crescente frequência dos “takeover hostis” nas grandes corporações e no uso crescente do termo “downsizing” que originalmente se referia a reduzir o tamanho de carros e agora se usa e abusa no despedimento de pessoal, neste contexto, a compaixão inerente a “uma Economia como se as pessoas importassem” é cada vez mais atraente. Oposta ao consumo excessivo de materiais, crescimento sem sentido, dominação pelas grandes empresas, e sistemas económicos de escala mundial, Shumacher estaria satisfeito por ver como as suas ideias, têm ganhado impulso à medida que passam os anos, e criaram um movimento significativo para contraiar a presente dinâmica dominada pelo GATT.

O génio particular do pensamento de E. F. Shumacher residiu na sua união do teórico com o prático, englobando a rara combinação de uma epistemologia e um sentido pragmático raros. Ele era também um homem profundamente espiritual e com um forte amor e compreensão pelo mundo natural. Embora seja um nome conhecido na Europa desde o final da Segunda Grande Guerra, foi somente com a publicação americana de “Small is Beautiful” que o seu trabalho foi divulgado nos EUA. No momento da sua morte prematura em 1977 o seu nome era reconhecido através dos Estados Unidos e do Canadá e o professor já se tinha encontrado com um número significativo de figuras conhecidas, incluindo o antigo presidente Carter.

A vida de E. F. Schumacher reflectiu directamente os acontecimentos dos primeiros três quartos do século passado. Ele foi, paradoxalmente, um homem muito dentro e muito para além do seu tempo. Como Lewis Mumfords, ele criticava a aceitação irreflectida da inovação tecnológica mascarada como “progresso”, alertando contra as perdas individuais e locais de autonomia e de qualidade de vida. Schumacher, conhecido como “Fritz” pelos seus amigos, nasceu numa família de tradição académica de Bona, Alemanha, em 1911. De acordo com a sua filha, Barbara Wood, na sua biografia E. F. Schumacher: His Life and Thought demonstrou ser, desde cedo, um aluno rápido e talentoso, e em 1930 ele seria escolhido para representar a Alemanha em New College, Oxford. Dois anos mais tarde ele faria a sua primeira viagem à América, onde descobriu uma liberdade intelectual que desconhecera até então. Em 1934, contudo, uma ansiedade crescente sobre a ascendência do Nacional Socialismo na Alemanha, fê-lo deixar uma carreira promissora em Nova Iorque e regressar a casa. A situação local confirmou os seus piores receios. Muitas das pessoas que ele mais respeitava, compreensívelmente intimidada, estavam a fechar os olhos aos demónios que os rodeavam. No coração da sua oposição aos nazis estava a sua rejeição à manipulação da Informação e sua flagrante violação da verdade. Com profunda tristeza, em 1936, deixaria a Alemanha com a sua nova esposa e estabeleceu-se em Inglaterra, o país que passaria a considerar com a sua nova pátria.

A partir de então, quer directamente, quer indirectamente, ele participou nos acontecimentos do seu tempo. Com outros expatriados alemães ele desesperou com o destino do seu país e da Europa. Assim que a Guerra começou, dominado pelo sentimento anti-nazi, Schumacher, foi transferido para o campo para trabalhar como trabalhador rural. A um dado momento foram-lhe retiradas a mulher e filha e conheceu um internamento de 3 meses num Campo de Detenção, onde fez várias alterações no Campo para melhor o sistema sanitário e a qualidade da comida. Mais tarde ele consideraria este período no Campo como sendo a sua verdadeira universidade.

Depois de ter sido libertado do Campo, preocupado com a questão dos pré-requisitos para uma paz duradoura no Europa. Os seus escritos sobre o assunto despertaram a atenção a um número de pessoas proeminentes, e cedo surgiram debates sobre a economia do Pós Guerra. Depois de se tornar um cidadão britânico em 1946, ele foi enviado para a Alemanha como membro da “British Control Commission”.

Na reflexão sobre a reconstrução da indústria alemã, as suas ideias sobre o que era apropriado – uma palavra que seria depois associada consigo – em termos de escala e propriedade começaram a ganhar forma. À medida que estudava a reestruturação da economia alemã, o papel estratégico da energia, o seu pensamento consolidou-se. Ficou igualmente convencido da necessidade da reforma monetária como um meio de prevenir a concentração da riqueza entre um pequeno número às custas da maioria, outro dos legados que continuam muitos vivos no movimento actual para restabelecer as moedas locais.

Nos finais de 1949 Shumacher foi convidado a assumir o papel de conselheiro económico do “National Coal Board” da Grã-Bretanha. Shumacher aceitou o cargo e permaneceu no cargo de “Chief Economic Advisor” durante os vinte anos seguintes. Para acomodar a sua família crescente comprou uma casa com um grande jardim em Surrey. Isto haveria de revelar-se um ponto de viragem para o seu pensamento; ficou fascinado com o jardim e tornou-se um fervoroso adepto da “jardinagem orgânica”. Observando os processos naturais do seu jardim, Shumacher desenvolveu uma compreensão nova da complexidade inter-relacional dos sistemas vivos. Mais tarde, sobre a Tese Gaia escreveria: “Faz sentido que a Natureza seja um sistema incrivelmente complexo e auto-balanceado no qual o uso do conhecimento parcial pode fazer mais mal do que bem. Tanto quanto posso ver, a agricultura química chegou aos seus limites. Trabalha contra a Natureza em lugar de trabalhar com ela.” Em Small Is Beautiful escreveria: “o habitat humano alargado, longe de ser humanizado e enobrecido pelo homem e pelas suas actividades humanas, tornou-se degradante pela fealdade.”

Uma das maiores influências no pensamento de Schumacher foi o trabalho de um economista austríaco pouco conhecido de nome Leopold Kohr. No seu Breakdown of Nations Kohr trata o tema da Escala, atribuindo os males do mundo moderno à grandeza da escala. Escreve a dado ponto, Kohr: “Se uma sociedade cresce acima do seu tamanho óptimo, os problemas vão eventualmente acabar por ultrapassar o crescimento das faculdades humanas que são necessárias para lidar com eles”. Shumacher haveria de se referir a Kohr como “um professor de quem aprendi mais do que qualquer outro”.

Shumacher interessou-se pelos sábios Budistas e Taoístas e impressionou-se pela mensagem não-violenta de Mahatma Gandhi. Em 1955 Shumacher recebeu uma proposta da ONU para trabalhar na Myanmar (então “Birmânia”), tendo ficado fascinado pela cultura local. Impressionado com a capacidade da cultura budista em produzir uma libertação do Materialismo com uma aparente felicidade, reforçou a sua inclinação para olhar para além da abstração económica e escreveria: “A Economia significa uma certa forma de ordenar a vida de acordo com uma filosofia inerente e implícita em Economia. A ciência económica não assenta sobre os seus próprios pés: ela deriva de uma visão do significado e propósito da vida…”

Profeticamente, acrescentaria ainda: “Uma civilização constuída sobre recursos renováveis, como os produtos da floresta e da agricultura, é apenas por esse facto superior a uma outra construída sobre recursos não-renováveis, como o Petróleo, o Carvão, o Metal, etc. Isto é assim porque a primeira pode resistir ao tempo, e a segunda, não. A primeira coopera com a Natureza, enquanto que a segunda rouba a Natureza. A primeira carrega o símbolo da Vida, enquanto que a segunda carrega o símbolo da Morte.”

Mais tarde, num dos seus ensaios mais conhecidos, defendera uma forma budista de Economia baseada na “Forma de Vida Correcta” do “Nobre Caminho Óctuplo” budista. Fundamental a este novo sistema económico seriam a simplicidade e a não-violência, a importância da Comunidade e a necessidade e dignidade do Trabalho. Schumacher regressaria de Myanmar convencido que era necessário encontrar uma forma sustentável de Economia como um caminho possível para o Mundo em Desenvolvimento, um “caminho intermédio entre o materialismo irracional e a imobilidade tradicional”. Shumacher dedicaria o resto da sua vida na busca desta via alternativa.

Shumacher foi igualmente visionário na sua análise do mundo industrial. Em 1958, antes da fundação da OPEP e recebendo muitas críticas dos seus colegas economistas, alertaria a Europa Ocidental para “uma posição de dependência máxima do Petróleo do Médio Oriente… As implicações políticas desta situação era demasiado óbvias para exigir discussão.” Ainda maior era a sua preocupação sobre os conflitos que podiam desencadear uma Guerra Nuclear. Tornou-se num ardente opositor da Energia Nuclear. A acumulaão de grandes quantidades de resíduos tóxicos, declarou: “é uma transgressão contra a vida, ela própria, uma transgressão infinitamente mais séria que qualquer outro crime jamais prepertado…” Influenciado pela filosofia não-violenta de Ghandi escreveria ainda: “Uma forma de vida que esvazia cada vez mais depressa a Terra para se sustentar e acumula um número crescente de problemas cada vez mais insolúveis para as próximas gerações só pode ser chamada de Violenta… A Não-violência deve penetrar em todas as actividades do Homem, se a Humanidade quer estar segura contra uma Guerra de Aniquilação“.

Em 1961, Schumacher fez a sua primeira exposição na Índia sobre a pobreza flagrante neste subcontinente. Shumacher acreditava que a causa desta pobreza moral e física residia no impacto desmoralizador do Ocidente Industrializado nas cultura tradicionais, até então, auto-suficientes. O que era necessário, sublinhou, era um nível de tecnologia mais produtivo e eficiente que utilizasse a técnicas tradicionais em áreas rurais, de uma forma mais simples e menos intensiva em termos de Capital que as tecnologias ocidentais. O conceito de “tecnologia intermédia” começou então a ganhar forma.

A ideia de “Tecnologia Intermédia” foi imediatamente adoptada por um dos seus colegas académicos, um escoçês de nome George McRobie, que seria mais tarde o principal responsável pelo desenvolvimento do conceito. O primeiro artigo de Shumacher sobre “Tecnologia Intermédia” apareceu no jornal britânico “The Observer” em 1965 e receberia um acolhimento entusiástico. Ele e McRobie responderiam formando um pequeno grupo, auto-financiado que seria conhecido com o ITDG (“Intermediate Technology Development Group”), que trataria de realizar pesquisa sobre o tipo de equipamentos que poderiam ser disponibilizados a agricultores de pequena escala e a artesãos. Rápidamente, o grupo elaborou um “Guia de Compras”. Era intenção de Schumacher combinar conhecimentos tradicionais e avançados para criar novas tecnologias que respondessem a questão de impacto e escala. O ITDG cresceu rápidamente em resultado do grande interesse que despertou na comunidade e em todo o mundo. A “Tecnologia Intermédia” foi identificada como uma ferramenta inovadora para abordar e resolver os problemas da Pobreza no mundo. Schumacher foi reconhecido como uma figura de impacto internacional e tornou-se o embaixador da “Tecnologia Intermédia” por todo o mundo.

Schumacher acreditava que era vital que os pobres fossem capazes de se ajudarem a si próprios e que a Tecnologia Intermédia os pudesse a realizar essa necessidade. Viajou por todo o mundo, defendendo as vantagens do seu conceito junto de empresas, em seminários e fábricas. As tecnologias e estruturas comunitárias por ele antevistas produziriam autonomia material em vez de excesso e seriam uma fonte de Trabalho, o qual ele considerava ser necessário para que alguém atingisse a plena humanidade. De novo profético, nas suas visões, convenceu-se que a afluência de emigrantes ao Ocidente não poderia ser mantida indefinidamente e tentou ensinar o conceito de que a esperança para o fim da Pobreza residia na capacidade dos pobres se declararem indepentes da dinâmica corporativa.

Com a publicação de “Small Is Beautiful” em 173, o estaturo de E. F. Shumacher transformou-se no de uma espécie de “guru da Economia”. Realizou várias viagens à América do Norte, onde, especialmente entre os jovens, as suas palavras conheceram grande acolhimento. A sua mensagem não-violenta de “Tecnologia Intermédia” e “Economias de Escala” foi encarada como aplicável ao Mundo Ocidental assim como às ainda não-industrializadas do planete. Schumacher escreveria nesta fase da sua vida: “As palavras-chave da Economia Violenta são Urbanização, Industrialização, Centralização, Eficiência, Quantidade, Velocidade… O problema de evoluir para uma vida económica não-violenta nos países subdesenvolvidos pode revelar-se idêntico ao de evoluir para esta forma de economia os países desenvolvidos.”

Schumacher alertou as pessoas para que fossem constantemente observadores e questionadoras sobre aquilo que as rodeava, sem olharam apenas para a Tecnologia e para a Economia. Alertou-nos para a necessidade de observar com a maior honestidade a fundação e escala e a civilidade das nossas vidas, a nossa vitalidade, integridade, e riqueza espiritual. Shumacher estava envolvida numa busca de uma vida, raramente assentado numa única resposta mas procurando longamente e diligentemente pelos meios mais inteligentes, adaptáveis e sustentáveis que nos permitissem conduzir as nossas vidas como pessoas e como parcelas da própria Natureza.

A biblioteca pessoal de E. F. Schumacher’s está conservada no Schumacher Center e o seu catálogo pode ser consultado on-line.

Fonte: http://www.schumachersociety.org/about/biographies/schumacher_full_bio.html

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