Contos

Conto: A Prova

A cerimónia começara no dia anterior. O cavaleiro Bandis Arbariacus conduzira o jóvem neófito até à Sala Sagrada do Templo onde o guerreiro consagraria o guerreiro. Finda a cerimónia competiria ao neófito o cumprimento de uma tarefa heróica após o que entraria ao serviço do Exército Imperial Ulano durante um período duplo de sete anos. Só depois se tornaria num Senhor e lhe dariam o comando de uma Praça ou Senhorio.

Mas para isso ainda faltavam muitos anos… Hoje, o jovem Bormanicus devia cumprir o jejum que começara à três dias e receber do seu Cavaleiro a Prova a prestar.

A noite aproximava-se agora do seu termo. Depois de horas de total imobilidade levantou-se a custo e dirigiu-se para a sala contígua onde se banharia. Bormanicus estremeceu com a fria água do rio que aqui chegava através de uma complicada canalização, pouco depois saía e envergava o manto branco, símbolo da sua natureza renovada e purificada, e sobre ele um colete negro, para recordar a dissolução da natureza mortal. Saiu então e dirigiu-se para o Altar onde o esperava o Cavaleiro e as suas armas depostas sobre o Altar.

Caminhou pelo estreito corredor que levava ao Altar da Abadia. No topo da pequena plataforma rectangular onde se encontrava o Altar estava o Mosquete. Para o fabricarem os armeiros tinham vestido hábitos rituais e purificado as melhores forjas da armaria. O aço da arma tinha sido temperado com uma técnica secreta, transmitida oralmente desde os tempos anteriores ao Grande Caos.

O Cavaleiro Bandis Arbariacus dirigiu-lhe a palavra:

– No rol das virtudes cavaleirescas fornecida por Bandis Aernus constam a Sabedoria, a Fidelidade e a Força. O Primeiro Cavaleiro fundou a Ordem dos Cavaleiros do Templo – Ordo Templii – nos anos das Trevas quando o Mundo estava mergulhado no caos para conduzir o clã ulana até ao Imperium e ao Domínio Universal.

Bormanicus esperou imóvel que o Cavaleiro terminasse a litania e então, e só então levantou o rosto e pronunciou a sua resposta:

– Renuncio assim a todos os prazeres do mundo pela disciplina dos campos de batalha, com uma Fé que consagro mais com o sangue dos meus inimigos do que com orações. Pelo nome do Primeiro Cavaleiro, Bandis Aernus.

No dia seguinte, quando os primeiros raios do Sol começavam a nascer por detrás da cordilheira, o neófito aparelhou o cavalo, colocando o Mosquete no coldre da sela e o montante na cintura, mesmo ao lado da pistola de dois tiros. Depois citou a fórmula ritual das partidas:

– O paraíso fica na ponta das espadas.

Depois dos dois guardas lhe terem aberto os portões de ferro do Mosteiro, saiu para a madrugada.

Cavalgou durante dois dias, parando somente de noite para comer um naco pão duro com carne seca e dormir algum tempo, partindo ainda antes do nascer do Sol. Durante esses dias ficou matutando sobre a Missão. Bandis Arbariacus tinha-lhe ordenado que caminhasse para sul, para o interior da constelação de pequenos régulos e Senhores da Guerra que controlavam essa zona até ao litoral, onde o Império Otomani mantinha uma presença indirecta através dos seus aliados do sultanato do Eretz Marrocos. Devia avançar até ao reino independente de Al Faghar, governado por um monarca de credo muçulmano, mas aliado do Império Ulano percorrendo terras sem lei, onde abundavam salteadores e desertores e atravessando vários pequenos reinos inimigos ou em plena revolta. O Cavaleiro tinha-lhe indicado o melhor caminho, que passava em boa medida por uma antiga estrada dos Antigos, construída com um estranho material negro e robusto, mas que derretia nas grandes canículas de Verão. Contudo, da missão nada lhe tinha sido dito, e conforme o protocolo ordenava e nada perguntara.

Quando chegou a noite do primeiro dia, desmontou, tirou a sela do cavalo cujos arreios prendeu a uma árvore e montou o modesto acampamento. A noite desceu rapidamente, apanhando-o quase de surpresa.

Durante todo o dia não vira vivalma, o que não o espantara porque aquela era a região menos povoada do território. Passara por duas vezes à vista de quintas fortificadas, mas não os incomodara nem fora incomodado por esses furtivos camponeses, geralmente hostis para todos os estranhos.

O ano passado o Legado Banódis Igaedus atravessara aquela região com a sua Legião de socorro ao baluarte cercado de Sinex, mas ainda não vira nenhum vestígio dessa passagem.

Acordou com os primeiros raios do Sol. Desmontou o seu acampamento improvisado e fez-se novamente ao caminho. Ao fim de algumas horas de caminho na estrada poeirenta teve o seu primeiro encontro. Ao virar de uma curva rodeada de pinheiros bravos deu de caras com um bando de desertores. Eram cerca de dez equipados com uma grande diversidade de uniformes, coleccionando praticamente todas os reinos e impérios que se confrontavam na Península. Pareciam tão surpreendidos quanto ele próprio, e Bormanicus atentou que nenhum tinha armas de fogo, o que lhe dava uma vantagem imediata. Sacou da pistola de dois tiros e apontou-a na sua direcção. Do grupo avançou um desertor que trajava um uniforme de oficial do Império Otomani e um elmo do Reino do Centro:

– Então, então… – Disse, exprimindo-se num Ulano correcto. – Para quê tanta agressividade, jovem Cavaleiro? Não vês nenhum de nós a levantar as suas armas, pois não?

– Não procuro problemas. Passem em paz. Coloquem as vossas armas no chão e passem devagar por mim. Quando eu tiver passado podem depois recolhê-las.

– Sim, claro. Estamos exaustos depois da dura batalha de travámos ontem, faremos como diz.

Bormanicus desconfiou de tanta polidez de linguagem em gente tradicionalmente brutal. Observou-os a poisarem as armas e a caminharem na sua direcção muito devagar. Seguiu-os sempre com a pistola numa mão e um mosquete noutra. Se tentassem alguma coisa, podia pelo menos levar três consigo. Recordou-se da máxima da Casta dos Cavaleiros, proferida em tempos por Bandis Aernus : “Eu sou o Templo plenamente manifestado, destruidor de mundos. Mesmo sem a tua intervenção, estes guerreiros alinhados em frente uns dos outros cessarão todos de viver. Todos estes guerreiros na realidade foram mortos por mim. Tu, sê o instrumento. Combate pois sem temor, e os teus inimigos hás-de vencer na batalha”. A litania devolveu-lhe a frieza e lucidez de espírito temporariamente abalada. E foi essa lucidez devolvida que lhe fez notar que um dos desertores deixara-se ficar um pouco mais trás. Então, subitamente, antes que qualquer um dos outros notasse, fez sair do uniforme completamente negro e de uma só peça uma esfera que arremessou para o meio do grupo de desertores atirandose para o chão um milésimo de segundo depois. A granada – porque era disso que se tratava – explodiu lançando todos os desertores para o chão no meio de um clarão ofuscante.

Minutos depois, Bormanicus retomava consciência. Passaram alguns minutos até conseguir lembrar-se aonde estava e do que tinha acontecido. Ergeu-se a custo e deu de caras com o desertor de negro que de cócoras. O rosto era tão longiforme como o resto do corpo e os olhos ostentavam uma frieza analítica assustadora, quase inumana.

– Lamento o incómodo, mas tinha que pôr toda a gente fora de combate por algum tempo.

– Aquela arma que usou, era uma arma dos Antigos, não era? Já vi algumas nas mãos das tropas de elite do Império Ulano, a Guarda Negra. Como é que lhe chamavam, uma gramada?

– Uma granada. Mais especificamente uma granada de nervos, destinada a paralisar o sistema nervoso central de todos os seres humanos que vejam o clarão por ela emitido. Embora existam cada vez menos armas dos Antigos tenho a minha reserva privativa ainda bastante bem fornecida.

– Mas você não é um desertor? Aliás, onde é que eles estão?

– Ainda a dormir, a paralisia ainda deve durar mais umas quatro horas. A si injectei-lhe um excitante para que despertasse mais cedo. E não, não sou efectivamente um desertor. Pelo menos não a tempo inteiro. Estava com eles, porque de tempos a tempos a minha natureza obriga-me a procurar companhia humana. Uma fraqueza que conservo desde à muito, muito tempo. Aquilo que sou, é o caminho que leva ao cumprimento da sua Prova.

– Da minha missão? Conhece o Cavaleiro Bandis Arbariacus?

– Sim, desde à muitos anos… Mas escuta, o tempo urge. Deixa-me pôr-te a par dos objectivos da tua Prova: Já deves saber que dever ir até ao castelo de Al Faghar, conhecido antigamente pelo nome de Ourique. Como deves saber, o rei local é aliado do vosso Império, mas ainda assim irão pedir-te um Livre Trânsito, entrega-lhes este – e passou-lhe para as mãos um documento em árabe – os selos reais aí presentes farão com que chegues à fala com o monarca. Vai então para a sala do trono e aí encontrarás a tua Prova.

– E o que vou lá encontrar?

– Já te disse: a tua Prova de Cavaleiro. Hum. Queres mais pormenores, não é? Enfim, a tradicional impaciência da juventude… Mas não os terás. Ainda não é o momento. Parte. Na altura certa saberás tudo o que tens de saber. Lembra-te apenas de que o primeiro objectivo de qualquer cavaleiro consiste em abraçar o Graal na sua localização terrestre.

– O Graal é parte da minha missão?

– Basta de conversa. Parte.

Bormanicus levantou-se e montou o cavalo que, completamente equipado pastava num campo vizinho e arrancou a galope, não sem antes olhar uma última vez para trás para ver o homem de negro que lhe acenava com uma mão. Repetiu o gesto e estugou o ritmo do animal. Lembrou-se então das antigas lendas que falavam de um tipo de máquinas construídas à semelhança do homem, criadas para o servir, mas dotadas de vontade própria e de inteligência e memória fabulosas, um dos últimos prodígios dos anos que antecederam o Grande Caos. Alguma coisa nos modos e gestos rápidos, quase inumanos, do desertor negro, lhe tinha feito recordar essa lenda. Seria que…? Bem, nunca saberia ao certo, dado que o Protocolo impedia que fizesse perguntas ao Cavaleiros Bandis Arbariacus sobre a Prova…

No final da tarde do dia seguinte chegou por fim ao castelo de Al-Faghar. As muralhas eram mais altas que a maioria dos castelos que tinha visto e o aspecto geral era bastante impressionante, especialmente devido à torre de menagem com aquilo que ele avaliava serem mais de quarenta metros de altura.

Desmontou e levou o cavalo até aos portões. Não tardou muito que lhe perguntassem ao que vinha, respondendo em árabe que trazia um Livre Trânsito. Abriu-se uma pequena porta de um dos lados da muralha e sairam uns quatro guerreiros, fortemente armados. Bormaónicus mostrou-lhes o documento que o oficial que os comandava leu atentamente fazendo-lhe depois sinal para que os seguisse para dentro do castelo.

Entrou no pátio, onde alguns cortesãos o olharam com curiosidade e subiu a escadaria que dava para a entrada da torre de menagem. Os dois guardas dos portões após uma breve troca de palavras com o oficial, deixaram-no passar e Bormanicus encentou a subida sempre precedido pela sua escolta. Subiu vários lances até chegar à sala do trono onde o esperava o monarca. Na sala, estavam também quatro guardas e uma escassa dezena de cortesãos. O rei envergava uma armadura completa com elmo fechado e após alguns minutos de silêncio dirigiu-lhe a palavra:

– Está ao corrente da totalidade da sua missão, cavaleiro?

– Não completamente.

– Muito bem. A Prova que deve completar consiste em vir comigo até à antiga capela deste castelo, e enfrentar um guerreiro. Um único adversário, é certo, mas um adversário formidável. Deve defrontá-lo e vencê-lo.

O rei levantou-se e fez sinal a Bormanicus para que o seguisse.

Desceram escadas e atravessaram corredores até chegar à capela abandonada. Então o rei sentou-se numa cadeira e esperou.

Pouco depois, entrava um cavaleiro também de armadura completamente negra como breu. Levantou o montante e começou a correr para Bormanicus. O jovem mal teve tempo para se desviar para o lado quando a pesada espada se abateu sobre ele. A maioria das armas tinham ficado na sela, pelo que trazia consigo apenas a espada e a pistola de dois tiros. A pistola era interdita em tais circunstâncias de combate ritual e assim retirou a única arma viável da baínha e preparou-se para resistir ao segundo assalto do guerreiro da armadura negra. Desta vez o guerreiro carregou com o montante baixo, Bormanicus com a espada conseguiu amortecer boa parte do impacto violento da pesada lâmina, mas quebrou-a e não conseguiu evitar que a sua ponta penetrasse alguns centímetros no seu antebraço direito. Com o braço inutilizado, o neófito recuou para a parede. O guerreiro negro tinha parado e olhava agora para ele pela viseira do seu elmo. Bormanicus podia jurar ter visto luzes violeta no lugar onde deviam estar os olhos do guerreiro, mas estas – se o eram – apagaram-se, deixando o jovem na dúvida. Viu então que sob os seus pés estava o tapete que percorria a capela pelo seu comprimento. Sobre ele estava também o guerreiro negro. Concentrou toda a sua força no pé direito e puxou o tapete. O guerreiro negro perdeu o equilíbrio e caiu, abrindo a oportunidade para que o jovem se abeirasse e com a metade da espada partida a cravasse entre o elmo e o peitoral da armadura.

Curiosamente, não sentiu nenhuma resistência, como se o guerreiro negro não tivesse carne. Mas a criatura perdeu imediatamente vigor e energia.

Bormanicus tirou-lhe o elmo e constatou a inexistência de qualquer ser no interior da armadura negra.

Olhou então para o Rei e viu-o caído entre duas cadeiras. Quando lhe retirou o elmo, observou que também dentro da armadura real não havia nenhum cadáver, nenhum traço de carne ou de sangue, nada, rigorosamente nada, exactamente como encontrara o interior do guerreiro negro.

Saiu da capela e desceu as escadas até ao pátio. Em lado nenhum encontrou soldados, cortesãos, nem qualquer vivalma, só o seu cavalo o aguardava calmamente no estábulo.

Montou e deixou o castelo deserto, esperando ter cumprindo a sua estranha missão, e sabendo também que o Protocolo o impediria de perguntar fosse o que fosse ao Cavaleiro quando voltasse à Abadia. Surgiu-lhe então uma ideia:

– E se fosse essa a verdadeira Prova?

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