As Ilhas Míticas do Atlântico

As Ilhas Míticas do Atlântico (livro online)

Cartografia Mencionando Ilhas Míticas

 

1. Hereford de circa 1275

São Brandão

 

2. Angellinus Dalorto de Génova, de 1325

Brazil

Daculi

 

3. Dulcert de 1339

Brazil

Insulle Sa Brandani sine puelan

Diculi

 

4. Laurenziano-Gaddiano de 1351

Mayda

Brazil

 

5. Carta Catalã de 1367

Illa Verde

 

6. Pizigani de 1367

Atullia (Antilia)

Brazil (três ilhas distintas com o mesmo nome)

Mayda

São Brandão

Daculi

 

7. Carta Catalã de 1375

Ie de Brazil

Mayda

 

8. Portulano Mediceu de 1381

Brazil

 

9. Carta Catalã de 1384

Ie de Brazil

 

10. Portulano de Mecia de Vila Destes, de 1413

Brazil

 

11. Giraldo de 1426

Brazil

 

12. Beccario de 1426

Brazil

São Brandão

 

13. Juan de Napoli de 1430

Brazil

 

14. Beccario de 1435

Antilia (incluída no arquipélago: “Insulae de novo repte”)

Reylla

I in Mar

Salvagio

Brazil

São Brandão

Daculi

 

15. Bianco de 1436

Salvagio

Brazil

Man Satanaxio

São Brandão

Antilia

Stokafixia

 

16. Valsequa de 1439

Brazil

 

17. Bianco de 1448

Bentusla

Antilia

Man Satanaxio

de Brazil de Binar

São Brandão (associado à Ilha da Terceira)

 

18. Pareto de 1455

Brazil

São Brandão (associada à Ilha da Madeira)

Antilia

Daculi

Reylla

In in Mar (sem o nome, mas com a forma tradicional)

 

19. Fra Mauro de 1457

Brazil

 

20. Roselli de 1468

Reylla

Saluaega

In Mar

 

21. Carta Catalã de 1480

Attiaela (Antilia)

Brazil

Illa Verde

 

22. Anónimo de Weimar (posterior a 1481)

Antilia (cortada devido a limitações do material e com menores dimensões que as usuais)

Salvagio

Brazil

 

23. Benincasa de 1482

Saluaga (Salvagio)

I in Mar (sem o seu nome, mas conservando a sua forma tradicional)

Antilia

São Brandão (associada à Ilha da Madeira)

Brazil

 

24. Atlas veneziano do Museu Britânico, de 1489

Brazil

Mam

 

25. Globo de Martin Behaim de 1492

Ilha das Sete Cidades (aqui relacionada com Antilia)

São Brandão

 

26. Globo Laon de 1493

Antela (Antilia?)

Salirosa (Salvagio?)

 

27. Juan de la Cosa de 1500

Brazil

 

28. Canerio de 1502

Antilie (associado às Antilhas)

 

29. Mapa português de 1508-1510 (Egerton 2023)

Sete Cidades (na América do Sul)

Antiglia (na América do Sul)

Bracil

Mam

 

30. Atlas da Biblioteca de medicina de Montepellier de 1500-1510

Brazil

 

31. Ruysh de 1508

Maida

Insula daemonorum (duas distintas sob a mesma designação)

Antilia Insula

 

32. Silvanus de 1511

Brazil

 

33. Peter Martyr de Anghiera de 1511

Ilha Verde

 

34. Ptolomeu de 1513

Asmaidas

Obbrasil

 

35. Ptolomeu de 1519

Ilha Verde

Brazil

 

36. Schoner em 1520

Insula Viridis

 

37. Coppo de 1528

Isola Verde

Maida

 

38. Ribero de 1529

Maida

 

39. Sebastian Cabot de 1544

São Brandão

Y. de Demones

 

40. Desceliers de 1546

Ilha Verde

Ilha de São Brandão

Mayda

Ilha das Sete Cidades

Encorporade

Encorporade Adonda

St. X (duas ilhas distintas sob a mesma designação)

St. Anne

 

42. Prunes de 1553

Brazil

Maida

Brazil

Estotilândia

 

43. Ramusio de 1556

Brazil

Ilha dos Demónios

 

44. Nicolao de 1560

Ilha Verde

I Man Orbolunda (Maida)

Brazil

 

45. Zaltieri de 1566

Ilha Verde

Mayda

Brazil

 

46. Ramusio de 1566

Man (Maida)

 

47. Olives de 1568

Brazil

 

48. Mercator de 1569

Grocland

 

49. Ortelius em 1570

Y Verde

Sete Cidades

São Brandão

Brazil

Estotilândia

Drogio

Ilha dos Demónios

 

50. Mercator em 1587

Y Verde

 

51. Hakluyt de 1587

Grocland

 

52. Bispo Thorlaksson de 1606

Estotilândia

 

53. John Seller de 1673

Buss

 

54. Nicolas Visher de 1670

L´as Maidas

 

55. Van Keulen de 1745

Buss

 

56. Atlas Universel de M. Rober de 1757

I. Maida

 

57. Carta do Atlântico de 1814

Mayda

 


Graficos das Ilhas Imaginarias mais frequentemente referenciadas por aparicoes cartograficas e por ano

Existem numerosas representações desta ilha, bastante bem distribuídas no tempo, mas agrupadas em três conjuntos, separados pelas datas de 1425, 1470 e 1625.

Esta ilha foi representada, como vemos, ao longo de um grande perído, embora se note uma certa concentração por volta do ano de 1450.

Chama-se a atenção para a atenção de uma referência atípica, de 1367, excluindo esta a homogeneidade temporal é bastante apreciável.

Conhecemos apenas 5 representações desta ilha, o que explica o carácter atípico deste gráfico.

Mais uma vez, a escassez númerica das suas representações não permitem fazer observações.

Excluindo a representação atípica notada, refira-se a homogeneidade das restantes.

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A Ilha das Sete cidades

lenda dum navio português, que, tendo largado da foz do Douro, fora arrastado por uma tempestade até uma longínqua ilha que se dizia ser a das Sete Cidades – lendária ilha que a imaginação peninsular colocara no Atlântico ocidental como misterioso refúgio dos sete bispos fugidos da Península como muita outra gente ante a sanha dos invasores muçulmanos. E no dizer de Fernão Colombo: “…la quale ham per cosã certa che L’isola delle Sette Cittá, populata da Portoghesi nel tempo che al Re Don Rodérico la Spagna fu tolta daí Mori.
António Galvão, no Tratado das Descobertas, alude ainda ao achamento duma ilha ocidental em que havia sete cidades, pelos anos de 1447.

Dalila Pereira da Costa
A Nau e o Graal

A Ilha das Sete Cidades é, entre todas as ilhas mais ou menos míticas do Atlântico, aquela que mais testemunhos reúne. Os detalhes presentes em varias fontes são também muito mais densos e realistas do que os que surgem em qualquer outra. De facto, é como se tivesse existido mesmo uma Ilha das Sete Cidades, algures no Atlântico até pelo menos meados do século XVI… Existem relatos de visitantes das Ilhas, que terão visitado essa Ilha administrada pelos descendentes desses visigodos e onde o ramo eclesiástico assumia as funções governativas. Mas terá mesmo existido tal ilha?

Ao longo da História foram varias as ilhas que se afundaram ou desapareceram no meio de cataclismos vulcânicos. Esta Ilha das Sete Cidades poderia assim ser uma ilha açoriana destruída por esta forma e que teria desaparecido sem deixar qualquer vestígio… Geologicamente não há traços de tal ilha. Mas e se a “ilha” fosse na América do Sul?…

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Lauro Moreira: “A empresa de Colombo às Índias foi um lance de ousadia, cujo significado permaneceu desconhecido por décadas. Os navegantes portugueses estavam em um empreendimento de um século e meio”


(Diogo Cão erguendo um Padrão dos Descobrimentos no Congo)

“A empresa de Colombo às Índias foi um lance de ousadia, cujo significado permaneceu desconhecido por décadas. Os navegantes portugueses estavam em um empreendimento de um século e meio, cujo real alcance fora concebido com muita antecedência e cuja concretização de fatos inesperados.”
Lauro Moreira

E é por essa razão que o empreendimento dos Descobrimentos assumiu mais do que a forma de um sonho de um homem ambicioso e isolado mas uma autêntica gesta nacional que motivou e propulsou toda a nacao portuguesa para um processo de Expansão que haveria de durar quinhentos anos e deixar os laços perenes que hoje servem de esteio fundador e sólido para a CPLP e para aquilo em que ela se pode tornar: uma Uniao Lusófona.

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Navegações fenícias no Atlântico

Não discutiremos as motivações geopolíticas e económicas que levaram o faraó Necao II a decidir tentar a ligação entre os dois mares, o Mediterrâneo e o Vermelho, que transportavam a maioria do comércio para o seu país, mas foi para estudar a viabilidade dessa ligação essa ligação foram contratadas tripulações fenícias. Herodoto, nas suas “Histórias”, IV, 42, dá-nos a conhecer estes acontecimentos: “não há dúvida de que a Líbia, excepto na parte que confina com a Ásia, é circundada pelo mar. O primeiro a demonstrá-lo, tanto quanto consta, foi Necao, rei do Egipto. O qual, depois de ter deixado de escavar o canal do Nilo ao golfo Arábico, mandou marinheiros fenícios a bordo de navios mercantes, com o encargo de regressarem pelas Colunas de Hércules, até chegarem ao mar do Setentrião e ao Egipto. E os Fenícios partiram do mar Vermelho e percorreram o Mar do Meio Dia. Chegado o Outono ancoravam, semeavam a terra nos pontos da Libia onde a sua navegação havia chegado, e esperavam pela colheita. Faziam a colheita do grão e tornavam a partir. Passaram-se dois anos e no terceiro, dobraram as Colunas de Hércules e chegaram ao Egipto. E diziam uma coisa na qual eu, por mim, não acredito, mas outros, talvez sim: isto é, terem visto, durante a circum-navegação da Libia, o Sol à sua direita.”

FENÍCIOS NO BRASIL

É famosa a chamada “Inscrição da Paraíba”, do nome do seu lugar de origem. O primeiro a dar a notícia da sua existência foi, em 1864, o estudioso brasileiro Ladislau de Souza Mello Netto, que se baseou num desenho enviado, dois anos antes, ao Museu do Rio de Janeiro, por um tal Joaquim Alves da Costa. Ninguém, nem mesmo Ladislau Netto, viu, alguma vez, o original. Esquecida durante anos, a inscrição foi trazida para a ribalta, em 1968, pelo americano Cyrus H. Gordon, que a voltou a analisar, afirmando peremptoriamente a sua autenticidade.

É este o texto da inscrição: “Nós somos filhos de Canaan de Sidon, a cidade do rei. O comércio atirou-nos a esta praia distante. Sacrificámos um jovem aos deuses e as deusas, no ano décimo nono de Hirão, nosso rei poderoso. Partimos de Eziongeber no mar Vermelho e viajámos com dez navios. Mantivemo-nos juntos no mar durante dois anos, a volta da Terra de Cam (África), mas a tempestade separou-nos e nunca mais nos encontramos com os nossos companheiros. Assim, viemos ter aqui, doze homens e três mulheres, a uma praia que eu, o almirante, governo. Possam os deuses e as deusas favorecer-nos!”

Cyrus H. Gordon acreditava existirem neste texto particulariedades linguísticas que não podiam ser conhecidas por um falsário em 1872 uma vez que só mais tarde se tornaram do conhecimento dos estudiosos.

Ladislau Netto divulgou a inscrição em 1874. O parecer de uma das maiores autoridades da época, Ernest Renan foi, assim que dela teve conhecimento, absolutamente negativo, classificando-a categoricamente como falsa. Em resposta, Netto, escreve a Renan, em 1885, uma carta aberta. Nesta revela que sempre teve dúvidas sobre o caso, e que teve se interessar pelo problema devido a pressões de D. Pedro II, admirador das culturas clássicas e pré-clássicas e estudioso das línguas semitas. Não tendo conseguido identificar o remetente da carta nem a propriedade de Pousio Alto onde a inscrição fora achada, Netto escreve a cinco pessoas: quatro estrangeiros e um brasileiro, que considera capazes de fabricar a inscrição fenícia.

Na resposta de um deles julga ter encontrado a caligrafia do misterioso Joaquim Alves da Costa; escreve-lhe uma segunda vez e a carta de resposta não lhe deixa nenhuma dúvida, crê ter identificado o falsário, mas nunca chegaria a revelar o seu verdadeiro nome, porquê? Segundo Geraldo Ireneo Joffily, as referências ao soberano tornam-no na principal suspeita, tanto mais porque era precisamente um dos maiores especialistas brasileiros no assunto.

UM BÉTILO CARTAGINÊS NA IRLANDA ?

Um bétilo cartaginês, de imprecisa proveniência, conservado em St. Joneeston, na foz do Foyle, na costa oriental da Irlanda. Este bétilo foi primeiramente publicado pelo reverendo O. Davies no “Journal of Royal Society of Antiquaries of Ireland”, 83, 1953.

ACHADO ARQUEOLÓGICO FENÍCIO NA CIDADE DO CABO ?

C. Finzi, na sua obra “Nos Confins do Mundo” refere que no século passado, perto da Cidade do Cabo, teria sido achado um vestígio arqueológico fenício, não dá, contudo, grande fundamento a notícia. Como esta foi a única referência que até agora descobrimos fazemos menção a esta descoberta com a maior das reservas.

NAVIOS GADITANOS NA ÁFRICA ORIENTAL, A HISTÓRIA DE EUDOXIO

Estrabão, na “Geografia”, II, 3, 4-5, baseando-se na “Corografia” de Pomponio Mela”, III, 9 e em Cornelio Nepos (referido por Plinio, “História Natural”, II, 67), descreve a história de Eudoxio, um grego de Cizico, na Ásia Menor, que depois se terá mudado para o Egipto. Daqui terá partido, por duas vezes, para a Índia. Seria no regresso da segunda viagem que foi arrastado pelos ventos e arremessado para as costas da África Oriental.

Cedo aprendeu a língua dos indígenas e começou a explorar o litoral desse país para onde o destino o atirara. Seria no decorrer dessas viagens que descobriria algo que a partir de então nortearia a sua vida: um pedaço de madeira esculpido com uma cabeça de cavalo, ou seja, um beque (extremidade superior de uma proa). Eudoxio te-lo-á levado para o Egipto. Aqui, capitães experimentados disseram-lhe que não havia dúvidas: o beque viera de Cádis, de uma pequena embarcação usada não por comerciantes, mas por pescadores. Entusiasmado, decidiu percorrer a mesma via que estes supostos pescadores teriam percorrido até a costa oriental de África. Partiu do Egipto para Ocidente. Ao chegar a Cádis, ganhara comerciando o suficiente para armar, às suas custas, uma flotilha composta por “uma grande nave e duas embarcações menores do tipo usado pelos piratas”. Meteu a bordo médicos, músicos, artistas, bailarinos e bailarinas, e rumou a sul, ao longo da costa africana, impelido por bons e “constantes ventos ocidentais”.

A história de Eudoxio é reforçada por uma fonte independente. Trata-se de Plínio, que descreve que navios romanos enviados num reconhecimento em redor da Península Arábica, teriam encontrado elementos de embarcações ibéricas, o que teria levado Roma a ponderar o lançamento de uma expedição de circum-navegação ao continente. A morte de Gaio César no ano de 4 d.C. teria feito abortar este ambicioso projecto.

DESCOBERTA DA ILHA DA MADEIRA POR MARINHEIROS GADITANOS

Diodoro Sículo narra que alguns marinheiros de Gades, ao navegarem pela costa africana, foram arrastados, durante alguns dias, para o largo até avistarem uma grande ilha, onde desembarcaram (81).

Os navegadores exploraram a ilha concluindo que tinha um clima muito suave e um solo extremamente fértil; eram poucas as terras chãs, mas as colinas e montanhas eram muito ricas de árvores valiosas, tanto aromáticas como para construção. Era percorrida por rios navegáveis, sendo possível encontrar, por toda a parte, fontes de óptima água doce.

Por alguma ignorada via, os Etruscos vieram a saber desta descoberta. Na altura o poderio naval Etrusco não conhecia rival, e esse povo terá então concebido – segundo Diodoro Siculo – o projecto de estabelecer aí uma colónia. Cartago, contudo, tudo fez para frustar o projecto deste seu aliado, conseguindo efectivamente que este nunca chegasse a ser concretizado.

Na narrativa um único facto não concorda com a descrição da ilha da Madeira é a referência a rios navegáveis, que é sabido nunca terem existirem nesta ilha. Talvez a explicação para esta incoerência se deva a quer Diodoro, quer ao facto de o pseudo-aristotélico terem escrito muito tempo depois dos acontecimentos narrados, que devemos situar antes de 474 a.C.; isto é, antes da derrota naval de Cuma, da qual a marinha etrusca nunca mais se recompôs. Mas, e apesar do seu desejo inicial, Cartago não chegou a colonizar a ilha, limitando-se a proibir aos seus cidadãos a migração para esse local paradisíaco, reservando-a para um possível futuro êxodo.

Outra fonte, desta vez a biografia de Sertorio, escrita por Plutarco, relata que os marinheiros gaditanos se ofereceram a Sertorio para o levar para um local em pleno Atlântico onde existiam duas ilhas muito férteis e de clima muito suave. Plutarco chama-lhes “Ilhas Afortunadas”.

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Ilha de Mayda

A ilha de Mayda é geralmente colocada perto da Ilha Verde. À semelhança do escolho de “Green Rock” o seu nome mantêm-se ainda no de um outro escolho, situado perto do primeiro, cujo nome permanece “Maida”. Esta ilha é geralmente representada sob a forma de um crescente e a sua posição mais comum é a Oeste da parte inferior da Bretanha e aproximadamente a Sudoeste da Irlanda. O nome conhece diversas formas desde Maida, Mayd, Mayde, Asmaida e ainda Asmayda. Nos mapas do século XVI a ilha ainda é apresentada, embora esteja omissa dos mapas de Ruysh (de 1508), Coppo (de 1528) e Ribero (de 1529). A partir de meados deste século desaparece e, aparentemente, é substituída pela ilha de Man, associação que sempre parece ter existido.

A ILHA DE MAYDA TRANSFERE-SE PARA AS COSTAS AMERICANAS

O mapa Desceliers de 1546 mostra na latitude de 47 graus esta ilha, aliás, na mesma longitude de São Miguel. O mapa de Nicolao (de 1560) e Zaltieri (de 1566) transferem-na para as águas do Labrador, Nicolao chama-lhe “I man orbolunda”. Zaltieri mantêm o nome Mayda e coloca-a também claramente em águas americanas. O nome de Nicolao “orbolunda” é, para nós, um mistério, que merece uma investigação mais profunda, que não pudemos completar. Ramusio, em 1566, coloca a sua “Man” a Sul do Brasil, nas proximidades das costas irlandesas.

SOBREVIVÊNCIA DE MAYDA EM MAPAS TARDIOS

A ilha sobreviveu na cartografia até tempos relativamente recentes, o mapa de Nicolaas Vischer de 1670 mostra uma “L’as Maidas” na longitude da Madeira e na latitude da Bretanha, um mapa mundi do “Atlas Universel” de M. Robert (1757) possuí uma “I.Maida” na longitude da Madeira e na longitude da Gasconha. Também uma carta do Oceano Atlântico publicada em Nova Iorque em 1814 mostra ainda Mayda na longitude 20 graus Oeste e na latitude 46 graus Norte.

IDENTIFICAÇÃO DA LENDA COM ALGUNS FACTOS REAIS

A identificação com a mais ocidental das ilhas açorianas tem sido proposta por vários autores. Mas o Mapa Laurenziano de 1351 e o “Livro do Monge Espanhol”, escrito em meados do século XIV, mostra todas as ilhas do grupo açoriano, entre as quais a ilha do Corvo juntamente com Mayda. Também Man, ilha frequentemente associada a Mayda, é diversas vezes representada com o arquipélago açoriano completo.

Lembremo-nos que inicialmente se pensava que o Labrador era uma ilha, o que a transforma num forte candidato a identificação com Mayda, por outro lado, mais a Sul, as Bermudas apresentam igualmente boas hipotéses na identificação.

ORIGEM ARÁBICA DA DENOMINAÇÃO “MAYDA”

Logo após a conquista da Hispânia é possível que navegadores islâmicos se tenham feito ao Atlântico. Parecem ter dado nomes a algumas das ilhas dos Açores, pelo menos é isto o que se depreende da leitura do tratado de Edrisi e de outras obras muçulmanas.

A ilha “Asmaidas”, um nome de ressonância arábica, aparece num mapa do Novo Mundo da edição de um Ptolomeu de 1513. Mas não se deve associar necessariamente esse prefixo talvez arábico à origem arábica do nome da ilha. Mostra-se que esta associação pode ser abusiva quando no mesmo mapa nos aparece Gomera transformada em Agomera, Madeira em Amadera, e Brasil em Obrassil. Trata-se assim, muito possivelmente, de um artifício de escrita. De qualquer modo, embora a origem árabe do nome desta ilha fique por esclarecer, o nome Bentusla (ou Bentufla) aplicado a uma ilha em forma de crescente do mapa Bianco de 1448 pode ter efectivamente, segundo Babcock, uma origem arábe.

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Ilha Man Satanaxia

Esta outra ilha fazia parte do já referido grupo das “Insulae de Novo Reportae”. O geógrafo Veneziano Domenico Mauro Negro chama-lhe “ilha de Mana”, Beccaria, “Satanagio” e Bianco, “Satanaxio”, o que sugere ao mesmo tempo o poder mágico do mana, a palavra man, que significa homem, e a ideia de uma mão diabólica que sai do mar.

Formaleoni (18) depois de consultar na biblioteca de São Marcos, em Veneza, o atlas de Andrea Bianco onde aparece esta ilha julga encontrar a explicação para o nome desta ilha num romance de Christoforo Armeno, intitulado “Il Pellegrinaggio di tre giovanni”. Neste romance fala-se de uma certa região da India onde, todos os dias, sai uma mão das águas, que agarra os marinheiros e os arrasta para as profundezas abissais. Como esta mão só pode ser a da Satanás aí encontra Formaleoni a origem da denominação desta ilha. Mas Nordenskiold encontra outra possível origem para esta estranha denominação, acreditando que se trata de uma corrupção do nome de um santo, de “São Anastácio”. Um atlas veneziano, datado de 1489 e conservado no Museu Britânico, representa em quase todas as folhas que cobrem o Atlântico a ilha de “Mam”, em forma de guarda-sol. (92) Também o mapa português, conhecido no Museu Britânico debaixo da designação de “Egerton 2303” e datado de entre 1508 a 1510, mostra “Mam” ao largo de Ushant.

Os icebergs largados da calote polar podem assumir formas estranhas. É possível que alguns deles, tenham podido induzir os marinheiros a ver neles uma mão. Assim poderia ter surgido esta ilha mítica.

Talvez ligada a esta ilha esteja aquela outra representada em Ramusio como “Ilha dos Demónios”, e as que Ruysch desenha como duas “Insulae Demonium” situadas entre o Labrador e a Groenlândia. A actividade vulcânica desta região pode ter explicado o seu desaparecimento e mesmo a denominação infernal. Também um mapa de 1544, atribuído por Konrad Kretschmer a Sebastian Cabot refere uma ‘Y. de Demones”, na mesma região, mas mais perto do Labrador do que em Ruysch.

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Leitura Mítico-Simbólica das Ilhas Imaginárias do Atlântico

É possível estabelecer uma série de paralelismos entre as tradições simbólicas da Alta Idade Média e os nomes, objectos e tradições associados às ilhas imaginárias do Atlântico.

IDENTIFICAÇÃO COM TEMAS MACABROS

Desde a mitilogia egipcia que o oceano ocidental é associado com a morte. Com efeito, os antigos egipcios acreditavam que existia a ocidente uma terra onde os seus mortos levavam uma segunda vida. Esta tradição passou pela Antiguidade Clássica e parece ter influenciado profundamente o imaginário medievo.

Os símbolos associados à morte são muito abundantes por entre as ilhas atlânticas, sejam elas imaginárias ou não. O caso do arquipélago açoriano é a esse respeito bem demonstrativo disso mesmo. Geralmente, a associação estabelecida entre a ave de rapina e o arquipélago explica-se pela presença dessas aves no lugar, contudo, existe uma outra explicação, uma vez que o açor era uma ave associada na iconografia cristã da Idade Media à ideia de morte.

A ilha “Man Satanaxia”, “mão de Satanás”, numa das suas possíveis interpretações, pode, dentro desta leitura simbólica ser interpretada como uma “prova da intervenção do demónio no mundo”, uma vez que a mão é encarada como um símbolo da actividade e poder.

A “Li Conigi”, “ilha dos coelhos”, geralmente associada a uma das ilhas do arquipélago açoriano, encontra-se igualmente neste grupo de ilhas “infernais”. São várias as possíveis leituras simbólicas. Relacionado com a Lua, porque dorme de dia e está vigilante de noite, e também porque ambos são símbolos de fecundidade. Talvez pela relação entre fecundidade e sexualidade, a Biblia considera-o um animal impuro. Também a cabra, da “ilha dos cabras”, é outro símbolo de fecundidade e do demónio. A ilha “Luovo” (lobo) representa um outro símbolo demoníaco, já desde a época da mitologia germânica. A simbologia cristã herda esta tradição negativa, integrando este animal no par cordeiro-lobo, em que o cordeiro simboliza o fiel, e o lobo aqueles que ameaçam a fé cristã. Finalmente, diversos contos populares relacionam-no com as bruxas e o Diabo. Finalmente, a ilha do Corvo, mantem ainda hoje o mesmo nome dos primitivos mapas italianos, representa outro símbolo “infernal” que encontramos nas ilhas do Atlântico. Ave solitária, é, por essa razão, associada no cristianismo ao apóstata e ao infiel.

EXPLICAÇÕES LIGADAS A “PARAÍSOS TERREAIS”

Inversa é a associação com o mundo dos mortos, e, com efeito existem igualmente associações entre as ilhas atlânticas e o Paraíso. A ilha da Madeira, relacionada desde os tempos clássicos com as “Ilhas Afortunadas”, é precisamente um desses casos, por sinal o mais conhecido. E com efeito, a simbologia medieva associava a madeira, com “força vital”, com aquilo que “contem e dá protecção”. Também a ilha “Perdita” é descrita como um lugar paradisíaco.

De igual modo, a “Ilha das Uvas” pode ser associada a este grupo. A videira é, desde cedo, usada como símbolo de abundância e vida. Na iconografia judaica e cristã, é considerada o simbolo do povo de Israel. No Antigo Testamento, o Messias é comparado com o próprio Messias. Por outro lado, a uva trazida pelos espiões é um símbolo de promissão, nos sarcófagos do cristianismo primitivo, simboliza o Reino dos Céus em que entrou a alma do Crucificado.

Uma possível anterior denominação da Ilha do Pico, seria a “Ilha das Pombas” dos mapas italianos. A pomba simboliza, na tradição cristã, a simplicidade e a pureza e, sobretudo, o Espirito Santo.

SIMBOLISMO DAS NAVEGAÇÕES DE SÃO BRANDÃO

Os aspectos simbólicos presentes nas lendas das navegações deste santo irlandês são tão numerosos que lhe atribuimos um capítulo a parte.

O primeiro elemento simbólico que encontramos consiste no número de acompanhantes de São Brandão. O número catorze (uma vez que é dele que se trata), representa no simbolismo cristão a duplicação do sete, um número reconhecidamente sagrado em varias culturas. É também o número da bondade e da misericórdia e, igualmente, dos catorze padroeiros.

Os três meses de provação sofridos pelos aventureiros trazem em si um número pleno de significado simbólico, o número três. Este simboliza o princípio totalizador, a mediação.

As ilhas brancas e negras que o santo e os seus companheiros avistam também possuem, na sua própria cor, um simbolismo inerente. O branco é um símbolo conhecido de pureza e perfeição. A combinação de ilhas negras e brancas, associando essas duas cores liga-se no imaginário medievo à concepção de Absoluto. Esta combinação é particularmente comum em ritos iniciáticos e religiosos. Quanto à cor branca dessas ilhas parece ligar-se ao seu carácter paradisíaco. Com efeito, no cristianismo os anjos e os bem-aventurados aparecem sempre representados com essa cor, aliás, também os cristãos recém-baptizados recebiam roupas dessa mesma cor. As ilhas de cor negra referidas na lenda também possuem um simbolismo que lhes advém da cor com que são descritas. O negro é associado à ausência de vida, ao caos e à morte. Existe também algo que a liga ao Demónio. Na tradição religiosa pré-céltica peninsular o negro é a cor das Deusas-Mães, tradição que aliás sobrevive hodiernamente nas “virgens negras” ainda adoradas nalgumas igrejas de Portugal e da Europa Meridional.

Os sete meses de provação sofridos pelos navegadores após a descoberta da ilha habitada pelos anjos caídos, tem o tantas vezes empregue e ainda mais vezes comentado místico número sete. Originalmente, o seu carácter sagrado pode encontrar-se radicado na observação neolítica do curso dos astros celestes, nomeadamente da Lua, que nas suas quatro fases, demora sete dias em cada uma delas. Simboliza a abundância e a plenitude. Na Bíblia o número aparece diversas vezes, com simbolismos por vezes divergentes. Temos aqui as Sete Igrejas, o livro dos sete selos, os sete céus habitados pelas hierarquias angélicas, os sete anos que Salomão levou a erigir o seu templo, e muitas outras referências. Mas surgem também referências de teor mais negativo: as sete cabeças da besta do Apocalipse, as sete taças da ira divina, etc. Também nos contos populares encontramos o número sete com relativa facilidade. Temos assim vários contos que mencionam “sete irmãos”, “sete corvos”, “sete cabritos”, e outros tantos.

As nozes contendo um líquido, podem ser simplesmente cocos, como mais acima já tivemos ocasião de referir, mas podem também elas ter a sua leitura simbólica. A noz equivale à amêndoa, símbolo conhecido do mistério, daquilo que está oculto, de Cristo. Mas também, surge na literatura cristã como o símbolo do Homem, em que o invólucro verde simboliza a carne; a casca dura, os ossos; e o caroço, a alma. Pode também, como dissemos, ser um símbolo de Cristo, em que o invólucro verde de gosto amargo se transforma no símbolo e a carne de Cristo depois de passar pela amargura da Paixão; a casca, a madeira da cruz; e o caroço, cujo óleo consumido produz luz, a natureza divina de Cristo.

Depois do encontro com as “nozes”, São Brandão encontra uma ilha verdejante, e logo depois, uma outra denominada “ilha da esmeralda”. Ora, a esmeralda e uma pedra plena de simbolismos, também ela. A sua cor verde, liga-se à ideia de fecundidade, o que é reforçado pela presença nessa ilha de vinhedos e árvores de fruto. Na simbologia cristã, a esmeralda simboliza a pureza, fé e imortalidade, ao fim ao cabo precisamente aqueles objectivos que o santo perseguia ao iniciar a sua busca.

Após navegações em paragens nórdicas, o santo chega finalmente à “ilha das maravilhas”, verdadeiro paraíso terreal. Aqui permanecerá durante quarenta dias. Ora, também o número quarenta não é completamente isento de significado. Com efeito, o quarenta, é o número da espera, da preparação, da penitência, do jejum e do castigo. As águas do Dilúvio de Noé cairam durante quarenta dias e quarenta noites, a cidade de Ninive fez penitência durante quarenta dias, a caminhada dos israelitas pelo deserto demorou quarenta anos; Jesus jejuou durante quarenta dias no deserto e apareceu aos seus discípulos após a ressurreição, durante quarenta dias.

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Influência das navegações cartaginesas no Atlântico

Diodoro Siculus, escrevendo no primeiro século depois da era crista, referia uma grande ilha que os Etruscos conheciam, mas que os Cartagineses, os seus descobridores guardavam ciosamente.

MOEDAS CARTAGINESAS NA ILHA AÇORIANA DO CORVO

Humboldt no seu “Examen Critique” refere que no mês de Novembro de 1749, uma tempestade violenta teria abalado as fundações de um edifício parcialmente submerso na ilha do Corvo, quando o mar amainou descobriu-se, por entre as ruínas, um vaso contendo moedas de ouro e cobre. Estas moedas foram levadas para um convento, umas ter-se-iam perdido, mas nove foram preservadas e enviadas ao padre Enrique Flores, em Madrid, que as deu a John Podolyn (82), umas apresentavam a figura de um cavalo por inteiro, outras apresentavam somente a cabeça desse animal. Pelos elementos conhecidos podemos afirmar, com certo grau de certeza, que se tratam de duas moedas fenícias do norte de África, da colónia de Cirene, e de sete moedas cartaginesas.

Alguns, como Conrad Malte-Brun, sugeriram que estas moedas podiam ter sido deixadas nos Açores por navegadores nórdicos ou árabes. Mas, como Humboldt nota com toda a pertinência, isso não confere com o facto de se tratarem exclusivamente de moedas fenícias e cartaginesas, muito mais antigas, nem tão pouco com o facto de, neste lote não constarem nenhumas moedas muçulmanas ou nórdicas, como seria lógico a acreditar nesta teoria. Por outro lado, conhecem-se as expedições regulares que a Fenícia enviava para a costa Atlântica, no comércio do Estanho e do Âmbar, é pois, perfeitamente possível, que uma tempestade tivesse empurrado um desses navios até ao Corvo. Finalmente, embora não seja impossível que moedas cartaginesas de ouro fossem ainda usadas pelos árabes, pelo seu próprio valor intrínseco, bastante mais improvável parece o uso de moedas de cobre, cujo uso só faria sentido para o próprio povo que as havia cunhado. É certo que neste grupo estavam incluídas duas moedas cartaginesas de ouro, mas em minoria clara em relação ao número de moedas de bronze.

A referência a um edificio parcialmente submerso também merece a nossa atenção. As moedas podem ter sido aí guardadas como uma reserva a usar numa próxima passagem dos navios, o que faria especialmente sentido, se não existisse uma presença regular na ilha, o que tendo em vista a sua localização no meio do oceano Atlântico seria perfeitamente natural. Outra explicação possível prende-se com a velha tradição de colocar moedas dentro da estrutura de edificios de modo a assim os proteger de catástrofes. Mas quando assim é, as moedas guardadas são geralmente de baixo valor e nunca de ouro, o que vem reforçar a primeira hipótese acima mencionada.

ESTÁTUAS EQUESTRES

Edrisi escreve que existiam diversas estátuas, a que dá o nome de “Al-Khalidat”, feitas de bronze, viradas para ocidente e colocadas sobre pedestais. A tradição afirmava existirem seis estátuas destas, estando a mais próxima em Cadiz. Uma obra de S. Morewood (“Philosophic and Stastical History of Inventions and Customs”, Dublin, 1838) refere a existência de uma delas na ilha de São Miguel. Por outro lado, Manuel de Faria y Sousa na sua “Historia del Reyno de Portugal”, inclui a seguinte passagem, traduzida para o inglês por Babcock: “In the Azores, on the summit of a mountain which is called the mountain of the Crow, they found the statue of a man mounted on a horse without saddle, his head uncovered, the left hand resting on the horse, the right extended toward the west. The whole was mounted on a pedestal which was of the same kind of stone as the statue. Underneath some unknown characters were carved in the rock” (77).

Esta referência a caracteres recorda uma descoberta numa gruta da ilha de São Miguel, durante a época dos Descobrimentos portugueses, descoberta que nos é relatada por Thevet (78). Um descendente mourisco ou judaico parece ter reconhecido nesta inscrição caracteres hebraicos, mas não foi capaz de a ler, alguns supuseram tratar-se de caracteres fenícios.

É sabido que os cartagineses erigiram diversas colunas comemorativas, por outro lado, o cavalo está presente em quase todas as suas cunhagens.

Humboldt, contudo, não crê na realidade desta tradição, julga antes que terá tido origem num rochedo cuja forma natural terá sugerido a lenda, o que não seria certamente inaudito. E, de facto, esta tese é reforçada na obra “A Trip to the Azores” de Borges de F. Henriques: “Another natural curiosity which has been defaced by the weather and the bad taste of visitors is a rock resembling a horseman with the right arm extended to the westward as if pointing the way to the new world. Some insular writers deny the existance of this rock”.

O PÉRIPLO DE HANÃO

O muito divulgado “Périplo de Hanão” (126) relata uma viagem de colonização até à costa atlântica do Marrocos, embora os historiadores tenham opiniões diversas quanto ao ponto mais a sul alcançado, permanece a certeza da sua realização. Precisamente a última parte desse poema, incluí uma referência que parece indicar uma visita às ilhas de Fernão Pó e do Príncipe:

“Na parte mais profunda, encontrava-se uma ilha, semelhante à precedente, contendo um lago; neste, havia uma outra ilha (Fernão Pó e Príncipe), cheia de homens selvagens. As mulheres, com o corpo coberto de pelos, eram mais numerosas; os intérpretes chamavam-lhes “hapax” (que alguns acreditam tratar-se de gorilas). Tendo-os perseguido, não conseguimos capturar homens, pois fugiam todos, escalando locais escarpados e defendendo-se com pedras, mas apanhamos os que as levavam, não queriam segui-los. Tendo-as morto em consequência, esfolámo-las e levamos as suas peles para Cartago. Na verdade, tendo-nos faltado os víveres, não navegámos mais para a frente.”

PORQUE NÃO EXISTEM PROVAS INQUESTIONÁVEIS ?

Embora existam diversos indícios que apontam para a presença de navegadores fenícios e cartagineses no arquipélago açoriano, não existe nenhuma prova arqueológica que o demonstre irrefutávelmente, conforme já vimos. Esta ausência poderá dever-se a um fenómeno comum ao arquipélago açoriano, e que é referido na já citada obra de F. Henriques: “In many of the islands, but especially in Flores, there are vestiges clearly indicating that formely as well as lately parts of the island have sunk or rather disappeared in the sea.” Cita, inclusivamente, o afundamente de terras ocorrido no Verão de 1847. Por outro lado, nunca deve ter existido uma colonização firme no arquipélago, assim, muitos poucos edifícios de pedra devem ter existido, além daquele já referido, uma vez que construções de madeira serviram muito melhor para as curtas estadias desses possíveis navegadores fenícios.

Como vimos mais acima, a designação de “ilha das Cabras” foi atribuída em diversos mapas a ilha de São Miguel. Julgamos ter reunido provas suficientes para tomar como quase certa a chegada de navegadores fenícios ao arquipélago açoriano, se assim efectivamente sucedeu, e devido ao problema de abastecimentos de carne fresca que preocupava todos os marinheiros da antiguidade é muito provável que aí tivessem deixado cabras, para os alimentarem em futuras passagens, assim teria nascido a denominação: “ilha das Cabras”. Contudo, a documentação da época da redescoberta do arquipélago menciona que o único mamífero que aí habitava era o morcego, não mencionando nenhuma cabra, as quais poderiam ter sido dizimadas por uma qualquer peste ou doença.

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Ilha Verde

Entre a Irlanda, a Terra Nova e os Açores surge nalgumas cartas, como na carta Catalã de 1367 e no Ptolomeu de 1519, a “Isla Verde”. Com a descoberta da América, as referências a esta desaparecem gradualmente, até cessarem por completo.

IDENTIFICAÇÃO COM A GROENLÂNDIA

O primeiro relato literário da Groenlândia surge-nos num autor eclesiástico, Adam de Bremen. No ano de 1069 Adam de Bremen teria falado com o rei Sweyn da Dinamarca, obtendo dele diversos artefactos oriundos desta ilha. Numa obra sua de 1076, a “Descriptio Insularum Aquilonis” dedica algumas linhas a esta ilha, as quais surgiriam depois numa obra clássica do norueguês Fridtjof Nansen “In northern mists: Artic Exploration in Early Times”, foi desta obra que extraímos o seguinte excerto: “it lies farther out in the ocean, opposite the mountains of Suedea, or the Riphen range. To this island, it is said, one can sail from the shore of Nortmannia in five or seven days, as likewise to Iceland. The people there are blue from the salt water; and from this the region takes his name. They live in a similar fashion to the Icelanders, except that they are more cruel and trouble seafarers by predatory attacks.”

No texto de Adam de Bremem não fica clara a localização da ilha, isto apesar de algumas passagens indiquem uma posição aproximada na parte mais ocidental do Atlântico Norte, o que aliás confere perfeitamente com uma associação da “Ilha Verde” com a Groenlândia. O mapa de Coppo (de 1528), coloca junto da posição real da Groenlândia uma massa de terra alongada de Este para Oeste debaixo da designação de “Isola Verde”. No anónimo mapa catalão de 1480 surge uma “Illa Verde” alongada como no mapa de Coppo, situada aproximadamente a sudoeste da Islândia, curioso é aqui o emprego da terminologia portuguesa “illa”. Mas existem representações ainda mais tardias dessa ilha: Schoner, em 1520, refere uma “Insula Viridis”, mas numa latitude mais baixa, mais ou menos ao nível do sul da Irlanda e aproximadamente a meio do oceano Atlântico. O mapa de Nicolao de 1560 coloca a Ilha Verde nos bancos do Labrador, ou seja, ainda mais próximo da costa que a ilha Brazil também aí representada. No mapa de Zaltieri de 1566, a ilha é colocada perto do “C. Ras” (Cape Race).

VÁRIAS “ILHAS VERDES”

Embora a associação entre a “Ilha Verde” e a Groenlândia possa parecer óbvia, diversas “ilhas verdes” representadas na cartografia podem, efectivamente nada ter a ver com esta. O mapa de Peter Martyr de Anghiera de 1511 mostra uma pequena ilha tropical perto de Trinidad, possivelmente a actual Tobago, a vegetação luxuriante que ainda hoje caracteriza esta ilha das Caraíbas ter-lhe-ia merecido este nome.

O mapa Desceliers de 1546, mostra um “ilha verde” na mesma longitude do Labrador, colocando-a como vizinha de uma ilha de São Brandão. Ortelius, em 1570, e Mercator, em 1587, representam uma “Y Verde” a Oeste de Vlanderen, na região a Norte dos Açores. No século XVIII sobrevive ainda na cartografia, e seria somente no século seguinte que as suas aparições cessariam, sobrevivendo hodiernamente num polémico escolho denominado “Green Rock”. Embora o “Hydrographic Office” dos EUA não confirme a existência deste rochedo, guarda um relato curioso: “Captain Tullock, of New Hampshire, states that an acquaintance of his, Captain Coombs, of the ship allas, of Bath, Maine, in keeping a lookout for Green Island actually saw it on a remarkably fine day when the sea was smooth. According to the story, he went out in his boat and examined it and found it to be a large rock covered with green moss. The rock did not seem much larger than a vessel floating bottom upward, and it was smooth all around. The summit was higher than a vessel’s bottom would appear out of the water, being about twenty feet above the surface of the sea. Captain Coombs added that if the object had not been so high he would have thought it to be a cap sized vessel. A sounding taken near this spot shows a depth of 1500 fathoms exists there.”

ORIGEM DO NOME “ILHA VERDE”

Por volta de 985, Eric, o Vermelho, teria sido o primeiro a colonizar a região. Possivelmente usou a denominação “ilha verde” como chamariz para colonos. Esta é a opinião de Ari Frode (71)que relata o seguinte: “This country which is called Greenland was discovered and colonized from Iceland. Eric the Red was the name of the man, an inhabitant of Breidafirth, who went thither from here and settled at that place, which has since been called Ericsfirth. He gave a name to the country and called it Greenland and said that it must persuade men to go thither if it had a good name”.

Efectivamente, algumas partes da Groenlândia possuem erva. Nansen concorda com a posição de Frode, afirmando que a ilha poderia mesmo parecer acolhedora aos olhos de um islandês, desde que comparada com a sua terra natal, o que efectivamente nos parece bastante plausível.

EXPLORAÇÕES GROENLANDESAS

A descoberta da América numa expedição do filho de Eric, Leif, e a existência de uma série de outras viagens que se lhe sucederam, incluindo a colonização liderada por Thorfinn Karlsefni do Labrador, tinham como objectivo explorar as águas próximas a Groenlândia. Discute-se qual o extremo sul dessas expedições, sendo geralmente aceite que não teriam ultrapassado o Sul da Nova Inglaterra. A estas expedições seguiu-se uma expedição missionária liderada pelo bispo Eric Gnupsson, que terá partido da Groenlândia a caminho de Vinland, mas da qual se desconhecem as consequências, ignorando-se inclusivamente se terão ou não conseguido alcançar essas paragens.

Babcock refere que uma expedição britânica realizada em 1824 na Groenlândia teria descoberto uma pequena pedra com caracteres rúnicos numa ilha a Norte de Upernivik, na costa Noroeste da ilha. O original teria desaparecido, mas conservou-se um duplicado seu no Museu de Copenhaga. A inscrição da pedra parece datar de cerca de 1300, mas pode referir-se a acontecimentos mais remotos. Uma tradução do professor Hovgaard produziu o seguinte texto: “Erling Sigvatsson and Bjarne Thordarson and Endride Oddson built this (or these) beacon(s) Saturday after “Cagnday” (25 de Abril) and cleared (the place) (or made the inscription) 1135 (?)”.

Sucessivos ataques dos esquimós foram dizimando a pequena colónia nórdica na Groenlândia. Durante o século XV duas cartas papais referem-se ainda à ilha, embora de um modo já bastante vago. Em 1492 parece ter havido um esforço para restabelecer as comunicações, mas por essa altura já toda a colónia nórdica devia ter sido dizimada, provávelmente os últimos sobreviventes ter-se-ão misturado com a população esquimó, diluindo-se no seio dela e perdendo completamente a sua identidade.

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Ilha das Uvas

Maeldun, um irlandês pré-cristão, é reputado como tendo sido o primeiro a visitar esta ilha. Maeldun terá bebido o sumo das suas uvas e caído logo depois num sono que demorou vinte e quatro horas. Ele e os seus companheiros, deixaram a ilha carregados de cachos de uvas (28). Os irmãos irlandeses Hui Corra numa viagem de penitentes também chegaram a uma ilha maravilhosa coberta de macieiras e com um rio de vinho (29).

O manuscrito irlandês “Voyage of Bran” proclamava que existiam “thrice fifty” ilhas destas. Por outro lado, na “Life of St. Columba” de Adamman’s menciona-se dois macacos que partiram em busca de ilhas desertas. O primeiro deles, de nome Baitan após uma prolongada estadia no mar alto, regressou a casa sem ter encontrado o refúgio que procurava. O segundo, Cormac, tentou encontrá-lo em três viagens sucessivas, mas sempre sem alcançar o sucesso que pretendia.

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A Ilha das Sete Cidades

INTRODUÇÃO

Martin Behaim, no seu famoso mapa-mundi de Nuremberga, datado de 1492, desenhava sobre a ilha das Sete Cidades a seguinte legenda: “Quando corria o ano 714 depois de Cristo, a Ilha das Sete Cidades, acima figurada, foi povoada por um arcebispo do Porto em Portugal, com outros seis bispos e cristãos, homens e mulheres, os quais, tinham fugido de Espanha em barcos, e vieram com os seus animais e fortunas. Foi por acaso que no ano de 1414 um navio castelhano dela se aproximou” (63). Mesmo depois da descoberta da América, Fernando Colombo, na sua “Vida do Almirante” acreditava na existência dessa ilha, e torna a contar a história em termos quase idênticos. “Contam que no oitavo século da era cristã, sete bispos portugueses, seguidos dos seus crentes, embarcaram para essa ilha, onde construíram sete cidades, e que não quiseram mais deixar, tendo queimado os seus navios para eliminar a possibilidade de regresso” (65). Sem discutir a falsidade ou veracidade desta lenda, reconhecemos contudo que o instinto de todos os povos conquistados e de sonhar com a restauração, os bretões não sonhavam com o seu Artur, os judeus não sonhavam com um Messias? Do mesmo modo, segundo Gaffarel, na Hispânia estes godos teriam fugido a ocupação muçulmana para um refúgio atlântico de onde se esperava que viessem para restaurar o reino cristão da Hispânia.

Em 1447 um português, empurrado por uma tempestade no Atlântico, teria desembarcado (1) numa ilha desconhecida, onde encontra sete cidades, nas quais os seus habitantes falavam o português (2). Este últimos teriam querido retê-lo, uma vez que não queriam manter nenhuns contactos com a sua antiga pátria, mas teria conseguido escapar, e regressado a Portugal, onde conta a D. Henrique as suas aventuras. O Navegador critica fortemente o capitão por ter fugido sem ter obtido mais informações, e o marinheiro assustado nunca mais foi visto. Esta história causou polémica na altura em que foi publicada. Alguns eruditos identificaram esta ilha com a ilha fenícia identificada por Aristóteles (3) e por Diodoro da Sicilia (4) e em numerosas cartas, onde surge com o nome de Ilha das Sete Cidades (5).

AS SETE CIDADES DE SÃO MIGUEL

Gaffarel lançou a hipótese de a Ilha de São Miguel nos Açores ser essa ilha mítica. Sem dúvida que os tremores de terra são aí frequentes. Um só ou uma sucessão deles poderiam ter destruído as cidades, mas teriam restado algumas ruínas que ainda hoje fossem visíveis. Somente o nome de Lagoa das Sete Cidades poderá ser uma leve reminiscência, isto a crer nesta hipótese.

Como escrevemos o nome de Sete Cidades sobrevive hoje no arquipélago açoriano. Buache (68) crê ser esta a genuína Sete Cidades. Humbolt (69) tem outra opinião, defendendo a associação desta lenda com a das Sete Cidades de Cibola. Esta última tese não é contudo muito credível – apesar do renome do autor – pois não parece provável que navegantes visigóticos tenham alcançado o México em 711.

Existem relatos antigos de algumas ruínas perto da Lagoa das Sete Cidades, mas, ao que sabemos, não existem actualmente vestígios dessa ordem. (70)

ASSOCIAÇÃO ENTRE AS ANTILHAS E SETE CIDADES

A história da fuga dos sete bispos é-nos contada por Las Casas (90), mas António Galvão relata-nos uma outra ligeiramente diferente no seu Tratado (Lisboa, 1563), concluindo: “E alguns pretendem que estas terras e ilhas que os Portugueses tocaram são aquelas a que agora se chama Antilhas e Nova Espanha, e avançam muitas razões para tal, as quais não menciono porque não quero ser responsável por elas, tal como as pessoas terem o hábito de dizer, de qualquer terra de que nada soubessem, tratar-se da Nova Espanha.” (91) No mapa Ruysch de 1508 existe uma grande ilha na Latitude N 37o e 40o. Chamada “Antilia Insula” tem uma grande legenda que afirma ter sido descoberta há muito tempo pelos espanhóis, cujo último rei godo, Roderico, que aqui se havia refugiado da invasão bárbara (64).

SETE CIDADES NO CONTINENTE AMERICANO

No século XVI muitos julgaram encontrar as Sete Cidades no continente americano. Um padre franciscano, Marcos de Niza (6), com base em lendas, infiltra-se em 1539 na América do Norte, mais especificamenta na Califórnia, com a esperança de encontrar um pais, chamado Cibola pelos indígenas, as sete cidades da lenda. Acompanhado por três franciscanos e de um negro que dizia conhecer o território. A expedição atinge regiões inexploradas, e narra no seu regresso que havia visto ao longe sete cidades brilhantes, das quais havia tomado posse em nome do rei de Espanha. A sua narrativa entusiasta decide o envio de uma expedição considerável, comandada por um nobre de mérito, F. Vasquez de Coronado (7); mas o pequeno exército, depois de ter passado por grandes sofrimentos, chegou ao sopé de um rochedo árido, sobre o qual se erguia com efeito Cibola, mas não a rica Cibola da lenda, e sim uma pobre aldeia índia.

Não se descobriram nem sete cidades cristãs, nem um povo guardando as velhas tradições visigóticas, mas um país nos arredores do Rio Gila, perto da fonte do Rio Del Norte. Curiosamente, a região compreendia 70 burgos repartidos por sete províncias. Parece mesmo que, hoje em dia, em Zuni, a cidade principal da antiga Cibole, se encontram índios de cabelos brancos e de rosto claro. Sobre o seu aspecto escrevia um viajante contemporâneo: (8) “Não são índios! Há muitos entre eles que tem feições tão claras como as dos mestiços. Entre as mulheres, particularmente, muitas tem a pele quase branca, os olhos cinzentos ou azuis”. Por outro lado, uma história contada por Sahagun (9), escrevia sobre a origem dos Nahuatl: “A história que contam os antigos é que eles vieram por mar do lado do norte… Conjectura-se que estes naturais terão saído de sete grutas, e que estas sete grutas são os sete navios ou galeras nas quais chegaram os primeiros colonos.” Este primeiros colonos seriam os sete bispos visigodos e os seus seguidores?

LIGAÇÃO ENTRE A ILHA IMAGINÁRIA DE ANTILIA E SETE CIDADES

M. d’Avezc conta que Antilia era conhecida, marcada e visitada no século XV; Toscanelli, segundo ele, tinha escrito à corte de Portugal as seguintes palavras: “Esta ilha de que tendes conhecimento e que vós chamais das Sete Cidades”…

O filho de Cristovão Colombo, Fernando, na “Vida de Meu Pai”, precisa por seu lado: “Alguns portugueses inscreviam-na nas suas cartas com o nome de Antilia, embora não coincidisse com a posição dada por Aristóteles; nenhum a situava a mais de 200 léguas, aproximadamente, a Ocidente das Canárias e dos Açores. Tem por certo que é a iIha das Sete Cidades, povoada por portugueses no tempo em que a Hispânia foi conquistada, ao rei Rodrigo, pelos Mouros, isto é, no ano 714 depois de Cristo”. Fernando Colombo assegura que, ainda em vida do Infante Dom Henrique, um navio atracou em Antilia/Sete Cidades; os marinheiros foram a igreja e verificaram que aí se praticava o culto romano.

Talvez seja como reflexo destas histórias que circulavam entre os marinheiros que teve início a iniciativa referenciada por Las Casas: “Alguns partiram de Portugal para encontrar esta mesma ilha [das Sete Cidades] que em linguagem vulgar se chama Antilla, e entre os que partiram estava um Diogo Detiene, cujo piloto, chamado Pedro de Velasco, natural de Palos, declarou ao dito Cristovão Colombo, no mosteiro de Santa Maria da Arrábida, que, tendo partido da ilha do Faial e prosseguindo 150 léguas com o vento lebechio (NW), descobriram, no regresso, a ilha das Flores, guiados por muitas aves que viram voando para lá, e reconheceram que eram aves terrestres e não maritimas, e assim pensaram que iam dormir a alguma terra. Em seguida, e dito que navegaram tanto para NE que tinham o Cabo Claro (na Irlanda) para E (94), onde acharam que os ventos eram muito fortes, e os ventos de oeste e para o mar muito suaves, o que acreditavam que devia ser por causa da terra que devia ali existir, a qual lhes oferecia abrigo a Ocidente; a qual não persistiram em explorar, porque já era Agosto e recearam [a aproximação do] Inverno. Ele disse que isto aconteceu 40 anos antes de Cristovão Colombo descobrir as nossas Índias (95)”.

RELAÇÃO COM A ILHA BRAZIL

Pedro de Ayala, embaixador espanhol na Grã-Bretanha, em 1498, relatando as navegações inglesas a Fernando e Isabel, escreveu, conforme menciona Babcock, as seguintes linhas: “The people of Bristol have, for the last seven years, sent out every year two, three, of four light ships in search of the island of Brasil and the seven cities” (62). E, com efeito, ao que tudo parece indicar, realizou-se pelo menos uma expedição em busca da ilha Brazil.

A primeira aparição da ilha Brazil é a do mapa de Dalorto (de 1325), onde surge como uma ilha de forma discóide. No mapa Catalão de 1375 este disco transformou-se num anel rodeando um conjunto de ilhas, para Nordenskiold nove, para Kretschmer sete. Este último número pode representar um fenómeno não raro em diversas ilhas míticas, o cruzamento entre lendas.

FERNÃO DULMO DA TERCEIRA PROCURA A ILHA DAS SETE CIDADES

Existe uma carta de doação, emitida por D. João II a Fernão Dulmo da Terceira, no ano de 1486. Este Fernão Dulmo era na verdade Ferdinand van Olm, um dos flamengos que se haviam estabelecido nos Açores. Dulmo declarara ao monarca que se propunha “procurar e achar uma grande ilha ou ilhas ou terra firme per costa (114), que se presume ser a ylha das Sete Cidades, e tudo isto as suas próprias custas e despesas”. Uma cláusula revela a importância que o monarca atribuía ao descobrimento da dita ilha: ” No caso de ele não conseguir conquistar as ditas ilhas ou terras. Nós enviaremos, com o dito Fernão Dulmo, homens e esquadras de barcos com poder Nosso para efectuar o mesmo, e o dito Fernão Dulmo será sempre Capitão General das ditas esquadras e está por Nós sempre autorizado, porque seu Rei, como Nosso súbdito” (115).

Fernão Dulmo iniciou os preparativos para a expedição chamando para o ajudar João Afonso do Estreito e pedindo que o rei o admitisse na partilha da empresa e dos lucros. Estreito forneceria duas caravelas, aprovisionadas para navegar durante seis meses, que deveriam zarpar no dia 1 de Março de 1487, Dulmo contrataria pilotos e marinheiros e pagar-lhes-ia os salários. Durante quarenta dias Dulmo seria o comandante-general, estabelecendo o rumo para as duas caravelas, e tomando para si todas as terras descobertas, depois do que Estreito seria, por sua vez, capitão-general e se apoderaria de todas as terras avistadas. Tudo isto, o monarca confirmou a 24 de Julho e 4 de Agosto de 1486. (116) Las Casas poderia referir este empreendimento, quando escrevia as seguintes linhas: “Mais adiante, um marinheiro chamado Pedro de Velasco, um galego, contou a Cristovão Colombo em Murcia que, seguindo numa certa viagem a Irlanda, estavam a navegar e a afastar-se tanto para NW, que viram terra a oeste da Irlanda, a qual eles pensaram que devia ser a que um Hernan Dolinos procurou descobrir, tal como agora se deve dizer (117)”. A referência a quarenta dias previstos é curiosa, porque bastaram trinta e seis para fazer Colombo chegar ao Novo Mundo. Mas, se não mais se ouviu falar destes navegadores e porque a sua expedição foi frustada, provávelmente pelas difíceis condições existentes no mês de Março para quem se propõe navegar na direcção Oeste, conforme nota Samuel Eliot Morison na sua obra “As Viagens Portuguesas à América”.

COLONOS PORTUGUESES NO BRASIL ANTES DE 1500?

A lenda de emigrados portugueses numa ilha Atlântica poderá ter algo a ver com repetidos relatos, embora não merecedores de muita confiança, da presença de colonos portugueses no Brasil ainda antes da chegada da armada de Pedro Álvares Cabral. O primeiro relato refere que o mais velho habitante vivo do Brasil teria declarado, no seu leito de morte em 1580, que vivera naquele país “cerca de noventa anos”. Outro relato é o de um certo Estevão Fróis, encarregado de um barco capturado pelos espanhóis: “Tinham má vontade em receber da nossa parte a prova do que alegávamos; nomeadamente, que Vossa Alteza tivera a posse destas terras [Brasil] durante vinte anos e mais, e que já João Coelho da Porta da Cruz habitante de Lisboa ali viera com outros para descobrir” (119) Estas histórias são pouco credíveis uma vez que a primeira colónia, nem sequer foi portuguesa mas francesa, fundada por Christophe Jacques, por volta de 1516. A primeira colónia nacional só se instalaria em Olinda em 1530, sob o comando de Duarte Coelho Pereira.

EM BUSCA DE ANTILIA/SETE CIDADES

Como vimos Fernando Colombo relata como “no tempo do Infante Henrique de Portugal (+-1430), um navio português foi empurrado pelo mar para esta ilha Antilla.” A tripulação foi à igreja com os ilhéus mas receou ficar detida na ilha e fugiu assim que pôde. O Príncipe ouviu a sua história e ordenou-lhes que voltassem à ilha, mas os marinheiros largaram e não tornaram mais a ser vistos. Fernando relata que a areia de Antillia era composta de um terço de ouro puro. Galvão relata uma outra visita mais tardia, ou então uma outra versão da primeira:

“In this yeere also, 1447, it happened that there came a Portugall ship through the streight of Gibraltar; and being taken with a great tempest, was forced to runne westwards more then willingly the men would, and at last they fell upon an Island which had seven cities, and the people spake the Portugall toong, and they demanded if the Moors did yet trouble Spaine, whence they had fled for the losse which they received by the death of the king of Spaine, Don Roderigo.

“The boateswaine of the ship brought home a little of the sand, and sold it unto a goldsmith of Lisbon, out of the which he had a good quantitie of gold.”

“Dom Pedro understanding this, being then governour of the realme, caused all the things thus brought home, and made knowne, to be recorded in the house of justice.”

“There be some that thinke, that those Islands whereunto the Portugals were thus driven, were the Antiles, or Newe Spaine.” (66)

Um outro relato nos chega através de Faria e Sousa, traduzido pelo Capitão John Stevens:

“Depois da derrota de Roderico os mouros espalharam-se pela província, cometendo barbáries inumanas. A maior resistência era em Mérida. Os defensores, muitos dos quais eram portugueses, que pertenciam ao Supremo Tribunal da Lusitânia, eram comandados por Sacaru, um nobre godo. Muitas acções corajosas decorreram neste cerco, mas como não apareciam reforços e as provisões começavam a escassear a cidade rendeu-se sem condições. O comandante da Lusitânia, atravessando Portugal, chegou a uma cidade costeira, onde, reunindo um bom número de navios, lançou-se ao mar, mas ignora-se a que parte do mundo eles foram. Existe uma antiga lenda de uma ilha chamada Antilla no oceano ocidental, habitada por portugueses, mas que ainda não pôde ser descoberta.” (67)

A versão do capitão Stevens acrescenta bastante à versão original. O texto original refere que os fugitivos fizeram-se ao mar para as Ilhas Afortunadas (Canárias ?), a fim de aí poderem preservar a sua raça. O texto menciona igualmente que essa ilha havia já sido alcancada pelos portugueses, sendo habitada por eles nas sete cidades que aí haviam construído: “tiene siete cividades”.

Este último relato menciona uma movimentação a partir de Mérida, o que é perfeitamente credivel, e o comando por um militar também seria admissível natural numa deslocação efectuada em tais condições. Existem portanto algumas provas factuais que podem apoiar esta versão da lenda.

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Ilhas Satíridas

No geógrafo e historiador grego Pausânias encontramos a seguinte citação: “Como gostaria de saber mais sobre os sátiros, falava deles com numerosas pessoas. O cariano Euphenos contou-me que, indo a Itália, fora apanhado por uma tempestade e atirado para o mar exterior, onde por costume não se vai. Ali há muitas ilhas desertas, e noutras ilhas povos selvagens. Eles não queriam desembarcar porque já lá tinham estado antes e conheciam os habitantes. Mas, desta vez, foram obrigados a abordar. Os marinheiros chamam a estas ilhas “Satiridas”. Os habitantes seriam vermelhos como o fogo e teriam uma cauda, comprida como a do cavalo. Quando viram o barco, aproximaram-se das mulheres que iam a bordo. Intimidados, os marinheiros acabaram por lhes dar uma mulher bárbara. Os sátiros atiraram-se a ela para satisfazer a sua lubricidade.”

E na tradução de Jones :

“I, xxiii, 5: Eufemo, o Cariano, disse que numa viagem que realizou a Itália foi desviado da sua rota por ventos que o arrastaram para os mares nunca dantes navegados por marinheiros. Declarou que havia naquelas paragens muitas ilhas desabitadas, ao passo que noutras viviam selvagens… Os marinheiros chamaram-lhes Satirides e os habitantes tinham cabelo ruivo e caudas que não eram muito mais pequenas que as dos cavalos. Assim que se aperceberam da presença dos visitantes, correram para o navio sem pronunciar palavra e assaltaram as mulheres. Os marinheiros, aterrorizados, acabaram por levar uma mulher para a ilha. Os sátiros violentaram-na não da forma usual mas de maneira muito mais chocante.”

E também Pompónio Mela, escrevia :

“Além dos sábios e de Homero, Cornelius Nepos, historiador moderno digno de crédito, afirma que a Terra é inteiramente rodeada pelo mar. Para provar esta afirmação, invoca o testemunho de Q. Metellus Celer. Este teria contado o seguinte: quando era proconsul da Gália (no 62 a.C.), o rei de Botes ofereceu-lhe como presente vários “indios”. Como Metellus Celer perguntasse donde poderiam ter vindo estes homens, responderam-lhe que “marinheiros dos mares das Indias” os haviam apanhado durante uma tempestade através dos mares intermediários, para, no fim, irem desembarcar nas costas da Germânia…”

Mais uma vez a descrição encaixa quase perfeitamente nas Canárias, especialmente a de Pompónio Mela, estranhamos somente a referência a estes “marinheiros das indias”, não porque não seja sobejamente conhecida a existência de laços comerciais entre o Império Indiano dos Guptas e o Império Romano, mas por encontrar estes marinheiros no Atlântico. Existirá porventura alguma relação com as moedas romanas encontradas na Venezuela ?

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A Ilha do Diabo

A “Raccolta” de Ramusio (19) colocava ao Norte da Terra Nova a Ilha dos Diabos. Ruysch, no seu Atlas de 1507-1508, inseria nesta região do oceano uma “insula daemonum”. Corte Real (20) dava igualmente esse nome a uma ilha da costa do Labrador (“Isola de los Demonios”). Thevet (21) na sua “Cosmographie” de 1575, narra os sofrimentos de alguns marinheiros naufragados no arquipélago dos Demónios.

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A Ilha de Buss

DESCOBRIMENTO DA ILHA DE BUSS

A descoberta desta ilha é-nos dada a conhecer por Best e foi publicada numa compilação de Hakluyt sobre a terceira viagem de Frobisher (datada de 1578). Nesta, um dos navios da expedição, o “Emmanuel” fez uma descoberta (note-se que “buss” é um tipo de pequena embarcação de pesca): “The Buss of Bridgewater, as she came homeward, to the southeastward of Frisland, discovered a great island in the latitude of 57 degrees and a half, which was never yet found before, and sailed three days along the coast, the land seeming to be fruitful, full of woods, and a champaign country.” (79)

Posteriormente surgiu o relato de uma testemunha ocular, “Thomas Wiars, a passenger in the Emmanuel, otherwise called the Busse of Bridgewater”, referido por Miller Christy (80). Esta testemunha afirma que largaram de Frisland (segundo Babcock, uma parte da Groenlândia) a 8 de Setembro e, a 12, chegaram a esta ilha, rodearam as suas costas por dois dias. Afirma que nela existia muito gelo, omitindo as referências paradisíacas do parágrafo anterior, o que reforça a credibilidade desta testemunha.

DESAPARIÇÃO DA ILHA DE BUSS

Os esforços para chegar a esta ilha, após o seu descobrimento, foram todos eles frustados. Começou-se então a sugerir hipóteses para explicar o seu súbito desaparecimento. Van Keulen, numa Carta de 1745 incluia a seguinte inscrição: “The submerged land of Buss is nowadays nothing but surf a quarter of a mile long with rough sea. Most likely it was originally the great island of Frisland”. A partir daqui a denominação “Sunken Land of Buss” ter-se-ia tornado corrente.

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Quids S5-38: Que mito é aqui retratado?

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