A Escrita Cónia

As Origens da Escrita Cónia: Uma Origem Autóctone? (Sob Influência Fenícia)

Para o Professor Adriano Vasco Rodrigues a escrita cónia encontraria as suas raízes nos desenhos geométricos dos finais do Eneolítico. A estar correcta esta teoria, a origem do alfabeto que ainda hoje utilizamos e que é essencialmente a adaptação romana do alfabeto grego, por sua vez uma importação fenícia, estaria não nos fenícios mas nos cónios… Ou seja, como a semelhança entre os caracteres fenícios e os cónios é inegável, e como as relações genéticas entre as escritas grega e latina e a fenícia são conhecidas, isso colocaria a escrita cónia na fonte do moderno sistema de escrita alfabético ocidental… Uma teoria arrojada, sem dúvida. Estácio da Veiga em 1891 apresentou a tese de que “o alfabeto longe de ter tido origem, como é suposição corrente, na Fenícia, proveio da Península Ibérica“. Também Mendes Correia, em 1928, na sua “História de Portugal” escrevia que “a sua origem oriental é um arreigado preconceito erudito” e apontava os grafitos de Alvão (Trás-os-Montes) como os antepassados da Escrita Cónia. António Navarro acha que “os navegadores fenícios, apenas reduziram e simplificaram o alfabeto que aqui vieram encontrar no Sudoeste Peninsular, dada a grande vantagem comercial que certamente lhes proporcionava. Simplificaram-no, reduzindo-o a um sistema alfabético para eles mas meramente consonântico, sem vogais, sem base mnemónica e, portanto, acrofónicamente desajustado.

Todos os sistemas originais de escrita conhecidos apresentam níveis de evolução. Por exemplo, a escrita minóica Linear B foi classificada por John Chadwick em três fases distintas. Com a Escrita Cónia não temos esse fenómeno. Ela surge, já amadurecida, muito depois dos grafitos de que falávamos no parágrafo anterior e sem vestígios de continuidade evidentes. A única explicação razoável para esta ausência é a origem exógena da escrita, isto para prejuízo da tese de Lopes Navarro.

Na questão da origem do alfabeto, a datação assume naturalmente um papel determinante. Neste ponto, sabe-se que as estelas cónias recuam ao século VII a.C, ou mesmo aos finais do VIII, ou seja, que são anteriores em quase dois séculos às primeiras inscrições ibéricas descobertas na Andaluzia e no Levante espanhóis. Esta é a opinião – substanciada em provas arqueológicas – de Mário Varela Gomes, uma opinião que a coloca como a mais antiga escrita peninsular e da Europa Ocidental, ou seja, a primeira adaptação local do alfabeto fenício, uma adaptação que depois seria enriquecida com contributos esparsos da escrita grega e que estaria na origem de todos os demais sistemas de escrita peninsulares.

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Língua-hipótese: o Cabila

Da tese da origem norte-africana da língua dos Cónios falámos em ponto anterior, e dos argumentos aí apresentados já nos ficou uma forte convicção de que seria na região norte-africana que encontraríamos a língua original dos cónios, aquela língua que através dos seu estudo nos poderia levar ao conhecimento da língua dos cónios. A arqueologia deixou-nos abundantes provas da intensidade de contactos entre o Norte de África e a Península Ibérica. Exemplos como os de que nos fala Carlos Tavares da Silva que no artigo “Influências orientalizantes no Calcolítico do Centro e Sul de Portugal” nos apresenta os achados descobertos por R. J. Harrison e A. Gilman. Estes artefactos de marfim descobertos na Península Ibérica (como fragmentos de marfim por trabalhar, braceletes e contas) eram com efeito, como provariam esses investigadores, de importações norte-africanas. Quanto à origem das contas de casca de ovo de avestruz descobertas em Los Millares ainda menos dúvidas existem. Estes contactos revelarão uma comunidade étnica e linguística entre as duas margens do Mediterrâneo?

Esta tese concorda em absoluto com a que Oliveira Martins apresentou nas primeiras páginas da sua “História da Civilização Ibérica”. Segundo este historiador, “O ibero, cuja tez morena e cabelo crespo (colorati vultus et torsi plerumque crines, Tácito) caracterizam o Sículo, proviria da mesma origem hamita ou afro-semita dos Tuaregues e Berberes, Coptas e Egípcios, em que se filiam os Sículos e os Lígures.”

Deste modo, e através das vagas migratórias que abordámos no ponto 4.3, estas populações norte-africanas ter-se-iam instalado na Península, sobretudo no seu Sul e, mais especificamente, no Cuneus Ager. Em favor desta tese, Oliveira Martins realçava ainda o sufixo Tani que surge na terminação de tantos nomes étnicos das duas margens do Mediterrâneo (Lusitano, Turdetani, Mauretani). O. Martins realça ainda que esta terminação é semelhante a Tah, a palavra berbere que surge em muitos dos antropónimos deste povo.

Mas apresentemos enfim a citação basilar de Oliveira Martins que nos serve de fundamento principal para a tese cabila: “Os cabilas são os genuínos representantes dos Númidas de Massinissa, de Sífax e de Jugurtha, terríveis para os Romanos. As invasões sucessivas destes e dos Vândalos, dos Fenícios e dos Árabes repeliram-nos das costas de África, onde a velha religião e a língua antiga foram vencidas, para o interior, onde se conservaram até nós, puros, alguns documentos da sua existência remota. Quase idêntica ao tuaregue e aos idiomas sarianos, desde o Senegal até à Núbia, para aquém dos negróides do Sudão, a língua cabila ou berbere é afim da do Egipto, o copta”.

Na tese deste autor, tese parcialmente substanciada pelas provas arqueológicas, a língua Cabila, nos seus dialectos Tamazight, Tarifiyt, Taqbayliyt, Tashawit e Tarifit, é uma sobrevivente das línguas do mesmo tronco a que pertenciam os povos que em vagas sucessivas atravessaram o Estreito de Gibraltar e se instalaram na Península Ibérica. De tudo o dito neste ponto e no já mencionado ponto 4.3 a tese cabila/berbere é aquela que nos apresenta como mais próxima da língua que serve de objecto a este ensaio.

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Língua-hipótese: O Lusitano

Segundo Shulten o termo “lusitanos” encontraria a sua origem no povo celtibero dos Lusones, uma tese que Lambrino trataria de aprofundar reforçando deste modo a hipótese da matriz céltica dos lusitanos. Pouco se conhece da sua língua. As raras inscrições em língua lusitana não nos permitem aclarar suficientemente sobre a sua morfologia e natureza. Os raros vestígios existentes indicam uma intensa influência céltica situada sobre uma matriz ibera, um fenómeno aliás evidente nos nomes em –genus. Existem contudo outros antropónimos que revelam um substrato muito antigo, talvez Mediterrâneo e logo, semelhante na sua raiz à língua cónia.

Para Carlos Consiglieri e Marília Abel, em “Os Lusitanos no Contexto Peninsular”, os lusitanos (e aliás, os próprios Cónios) utilizariam uma língua “de influências greco-púnicas-tirsénicas, de características primitivas”.

Mas existirá algum tipo de relação genética entre as línguas cónia e lusitana? A escassez de vestígios de ambas as línguas não nos permite grandes conjecturas, mas a forte influência celta e a aparente ausência desta na civilização cónia (que aliás, atinge o seu apogeu ainda antes da chegada dos primeiros célticos ao Sul de Portugal) permite-nos admitir que o papel do Lusitano no cónio foi muito diminuto e apenas indirecto. De qualquer modo, a escassez de dados sobre a língua dos lusitanos não permite a utilização desta para o estudo da escrita cónia que nos serve de força motriz para este estudo.

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Língua-hipótese: o Grego

Sabe-se que em meados do terceiro milénio a.C. chegaram à Península Ibérica os primeiros mercadores provenientes do Mar Egeu, atraídos pelo comércio do cobre para abastecer os sempre ávidos mercados orientais. Descobriram-se traços deste comércio no povoado fortificado Eneolítico do Zambujal em que se encontraram pedaços de cobre ainda por processar, vestígios de fundições e armas e objectos diversos. Da rota que se estendia desde o litoral centro de Portugal até ao Sul cónio faziam parte os tholoi que foram descobertos em várias regiões do Baixo Alentejo.

Não oferece dúvidas a presença de mercadores destas remotas paragens nas costas do Sul de Portugal durante a Idade do Ferro. Questiona-se apenas o grau da sua influência, e, nomeadamente, se este foi superior ao da conseguida pelos fenícios. Da antiguidade destas viagens nos dá testemunho Estrabão (XIV, 2, 19): “Também se conta dos Ródios que o seu pseudónimo marítimo não se situa apenas no momento em que fundaram a actual cidade mas ainda antes das Olimpíadas eles empreenderam longas travessias para longe da sua pátria, navegando até à Ibéria”.

Um testemunho idêntico é o de Heródoto que narra o curioso episódio de Colaios: “um navio sâmio que tinha por patrono Colaios e que se dirigia para o Egipto foi arrojado para fora da sua rota para a ilha de Plateia; os Sâmios confiaram todo o assunto a Colaios e preparam-lhe um depósito de víveres para um ano. Eles que, a partir das ilhas, tinham avançado com um enorme desejo de chegar ao Egipto, navegaram fora da sua rota, arrastados pelo vento de Leste. Sem deixar de soprar o vento, alcançaram as Colunas de Hércules e, conduzidos por um deus chegaram a Tartessos. Este lugar de comércio estava por explorar nesta época, de forma que ao regressarem, estes Sâmios realizaram com a sua carga maior lucro do até então qualquer grego de que tenhamos referências exactas, se exceptuarmos Sóstratos filho de Laodamante de Egina, que nenhum outro se pode comparar com este. Destes seus lucros, os Sâmios deduziram o dízimo, seis talentos, e mandaram fabricar um jarrão de bronze em forma de cratera argólica.

Para além dos Sâmios também os Focenses (oriundos da colónia grega de Foceia) viajaram para o Ocidente peninsular sendo a colónia de Mainake de sua fundação e o ponto a partir do qual se tornaram numa presença habitual em Tartessos. E no Cyneticum? Recorrendo mais uma vez ao notável trabalho arqueológico de Caetano Beirão, observamos alguns vestígios helénicos nos territórios habitados pelos cónios: Falamos por exemplo do tesouro de Gaio (Sines) com o seu cavalo alado e palmetas helenizantes e um colar de vidro semelhante a outros encontrados em Rodes. Por outro lado, em Monte Beirão o fragmento de uma ânfora grega do século VII a.C. é outra testemunha destes contactos.

Outro vestígio da presença helénica sobreviveu em Pausânias num passo em que nos fala do alistamento de mercenários iberos pelos Espartanos: “Os Gregos, querendo provar a sua bravura, empregaram-nos em diversas batalhas, nas quais estes estrangeiros se portaram valorosamente e mataram grande número de fenícios e aliados. Depois de reconhecerem que mereciam ser distinguidos pelo seu valor e docilidade e de terem utilizado os seus serviços em muitas ocasiões os Espartanos licenciaram-nos com grande mostras de honra.” Mas sendo a região oriental da Península a zona de maior influência grega, não é provável que entre estes soldados estivessem cónios, aliás, um povo sem grandes tradições militares.

Concluímos portanto que a influência grega na civilização grega foi muito diminuta, e certamente inferior à fenícia e, posteriormente, à cartaginesa. Os contactos foram irregulares e pontuais e sempre perturbados pelo domínio afro-asiática que tudo fazia para o impedir e que a partir da batalha de Alalia, os conseguiria afastar definitivamente das paragens peninsulares. Nunca houve nenhuma “colonização” grega, nem sequer na região mais Ocidental da Península, onde Massalia (actual Marselha) exercia a sua influência. Por estas razões, poucas influências gregas se poderão observar na escrita cónia. Existem alguns caracteres da escrita que parecem de origem grega, o que revela a existência de alguma influência, porventura superior ao que os testemunhos arqueológicos nos fazem supor. Julgamos ser também muito possível encontrar palavras, topónimos e termos militares nas inscrições cónias.

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Língua-hipótese: A Origem Anatólica

Segundo Caetano de Mello Beirão, Rodney Young teria afirmado que a escrita do Sudoeste teria uma origem anatólica. Não encontrámos, contudo, qualquer indício que permita substanciar esta tese, razão pela qual nos limitamos a mencioná-la sem a levar mais adiante.

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Os Guanches e a Morte

a) Os Guanches e a Morte

Quando falecia um Guanche, especialmente se tratava de um achimencey (nobre), um longo período de luto começava. Segundo os cronistas, os guanches acreditavam na via depois da morte e que os espíritos dos homens maléficos habitavam na ilha de Teide, ou Echeyde, enquanto que os espíritos daqueles que tinham vivido praticando os princípios do bem frequentavam a região de Aguere, um vale paradísiaco situado onde hoje se encontra a cidade de La Laguna. Infelizmente, estas narrações parecem ter sido de algum modo influenciadas pela visão cristã do Mundo do Além.

Um dos rituais praticados nestes momentos pelos guanches consistia na remoção dos órgãos do corpo do morto e a sua colocação num cesto. Um jovem voluntário saltaria de um topo de um penhasco para o mar com esse cesto. Antes de cometer este suicídio ritual, os parentes do falecido dariam ao jovem mensagens para o morto. Obviamente, este ritual só era praticado na morte de um nobre de alta estirpe, caso contrário a população guanche ter-se-ia extinto mesmo se a ajuda dos invasores castelhanos…

Depois do cumprimento deste ritual, o corpo era lavado e recheado com unguentos preparados a partir de várias plantas e minerais segundo uma fórmula que se desconhece. O corpo era então colocado sob o Sol durante várias semanas até que, completamente seco, se tornava numa múmia ou xaxo. Uma vez preparada, a xaxo era enrolada em peles de animais, pintada e marcada de modo a permitir a posterior identificação. O corpo era então colocado numa caverna que servia de jazigo familiar e rodeado de oferendas.

b) A Sociedade Guanche

No topo da sociedade encontrava-se o Mencey, ou monarca. Mais abaixo na hierarquia encontramos os achimencey (nobres), que mantinham um estatuto elevado mercê das suas ligações de parentesco com a família real. Os cichiciquitzos formavam uma espécie de “classe média”, sendo os achicaxna o estrato social mais baixo. Toda a terra e gado pertencia aos Mencey que os distribuía pelas classes mais altas de acordo com os seus méritos e necessidades, ocupando assim um papel central na economia guanche. Não parece ter existido uma classe sacerdotal, sendo as funções religiosas executadas pelos Menceys. Apesar disso existiam os Guañameñe, uma espécie de profetas que percorriam a ilha e que recolhiam grande respeito e veneração.

c) A Origem dos Guanches

Os antepassados dos guanches chegaram às ilhas por mar, a partir do Norte de África, e pertencem ao mesmo estrato étnico dos Berberes das montanhas do Atlas e – segundo Sergi – à matriz Hamítica aparentada com a raça dos iberos. De acordo com os relatos dos conquistadores europeus, os Guanches eram um “raça muito bela, de tez branca, altos, musculosos, com muitos indivíduos louros entre os seus”. A sua alta estatura deve ser compreendida tendo em conta a estatura média dos europeus de então. Quanto aos indivíduos de cabelo loiro, ainda hoje podem ser encontrados esses exemplos por entre os berberes da cadeia do Atlas. Alguns tentaram negar esta origem africana dos Guanches principalmente devido a motivações políticas para refutar reclamações territoriais por parte do Reino de Marrocos.

d) História de Tenerife

De acordo com a tradição, a ilha de Tenerife havia sido inicialmente governada por um único Mencey chamado Tinerfe, o Grande. Parece ter residido na região de Adeje na zona mais ao Sul da ilha. Após a sua morte a ilha foi dividida entre os seus filhos e netos. De qualquer modo, é certo que quando chegaram os primeiros europeus, Tenerife tinha nove reinos, ou Menceys, independentes. Os pequenos reinos eram conhecidos como: Anaga, Tegueste, Tacoronte, Taoro, Icod, Daute, Adeje, Abona e Güimar. Estes reinos estendiam-se desde a costa até às encostas das montanhas do interior. Os cumes das montanhas, e nomeadamente Teide, eram territórios comuns utilizados pelos pastores dos vários reinos e essenciais aos reinos mais pobres do Sul. Por contraste, os mais abastados reinos do norte possuíam campos com diversas culturas agrícolas.

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Língua-hipótese: O Guanche

A cultura dos povos indígenas das Canárias, os Guanches, é claramente uma cultura da civilização aurinhacense. Esta relação é defendida por Osborn, René Verneau e Lord Abercromby, que afirmam que estas ilhas atlânticas eram povoadas pela raça Crô-Magnon que tem sido caracterizada pela utilização desta indústria lítica.

No seu “Races of Europe”, Ripley lança uma tese que interessa directamente ao objectivo deste estudo: os bascos do norte de Espanha e do Sul de França falam ainda hoje uma língua herdada da dos Crô-Magnons, os mesmos bascos que noutro ponto julgamos aparentados com cónios, ainda que pertencendo a outro grupo étnico-linguístico. Outros autores defendem a ligação entre Berberes, Iberos e as populações indígenas das Canárias. De entre aqueles que defendem esta corrente de opinião destacamos o investigador italiano Sergi que designa os Iberos sob o termo “Raça Mediterrânea”, um termo que respeita á região onde exerceram maior influência, mas que não reduz a esta região ao defender igualmente uma presença desta raça nas ilhas britânicas e até ao extremo norte do actual território francês.

Estes habitantes Crô-Magnon das ilhas Canárias perderiam rapidamente a sua cultura após a conquista espanhola. A língua perdeu-se em menos de um século e somente algumas raras palavras sobreviveram até aos dias de hoje. Isto é lógico se nos lembrarmos que se tratou de um choque entre uma cultura neolítica e a Europa do Renascimento e especialmente se nos recordarmos do grau de violência da Conquista espanhola nas Américas e o fanatismo religioso dos seus missionários. Embora pouco se conheça hoje da língua dos guanches, a sua identificação com as línguas mediterrâneas, o seu parentesco com as línguas do norte de África colocam-na entre aquelas que melhor estão posicionadas para o estudo da língua e da escrita dos cónios.

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Os Etruscos e a Estela de Lemnos

a) A Origem dos Etruscos

Os autores clássicos não hesitavam quanto à origem asiática dos Etruscos. Heródoto, afirma-nos nas páginas das suas Histórias (I, 94) que os tirsenos tinham vindo da Lídia, por mar, até às costas italianas. Segundo o Pai da História, quando reinava o rei Atys, filho de Manes, ocorrera na Lídia uma grande fome. Desesperado, o monarca opta pela partida da maior parte dos seus súbditos de modo a proporcionar-lhes mais possibilidades de sobrevivência. Atys fica na Lídia, mas envia o seu filho Tyrsenos com os exilados que partem de Smyrna. Após uma longa viagem, desembarcam nas costas dos Úmbrios, em Itália, e instalam-se entre estas populações. A partir desse momento deixem de usar o nome de Lidios e passam a autodesignar-se segundo o nome do seu líder e tornam-se conhecidos como “tirsenos”.

A unanimidade quanto à sua origem é notável. Virgílio, Horácio e Ovídio repetidamente designam os etruscos como “Lidios”. Os próprios Lidios pareciam acreditar nessa filiação, uma vez que durante o governo de Tibério uma delegação de habitantes de Sardes – a capital da Lídia – se dirigiu a Roma pedindo autorização para a construção de um templo ao Imperador e à sua mãe, Lívia, alegando que devido ao laço etrusco, Lidios e romanos partilhavam o mesmo sangue (Tácito, Anais, IV, 55).

Os investigadores modernos colocam os etruscos entre a raça Mediterrânea, pré-indoeuropeia, e o seu ponto de origem na Ásia Menor, na região que medeia entre a Síria e o Hellesponto e supõe-se que foi a pressão da chegada dos aguerridos hititas, vindos da Ásia Central que terá levado estas populações a embarcar em direcção ao Egeu e para a Península Itálica. Heródoto, Políbio e Tito Lívio já haviam notado semelhanças entre a língua dos habitantes da ilha de Lemnos e a dos Etruscos.

b) Características conhecidas da língua etrusca

O plural é formado pela adição de vários sufixos: -r, -l e –a;
O genitivo-dativo tem desinência em –s, -si e –al;
O locativo em –ti;

c) A Estela de Lemnos

Em 1885 foi descoberta na ilha de Lemnos, perto da localidade de Kaminia, uma estela apresentando um perfil de um guerreiro e, rodeando-o, uma inscrição. Datada do VIII século a.C. e oriunda de uma população pré-grega, esta relativamente longa inscrição apresenta traços que a colocam muito próximo das inscrições etruscas, nomeadamente as desinências, formações de palavras, e até palavras semelhantes às das inscrições etruscas. Embora permaneça ainda intraduzível, distinguem-se aqui nomeadamente as palavras phoke e phokiasiale referentes a cidade grega de Foceia, Morinail da cidade de Lemnos de Murinè, naphoth que se assemelha ao termo de parentesco etrusco nefts ou napti, maraz como o etrusco mar e maru. Existe ainda neste texto lemniano uma fórmula que se repete por duas vezes: zivai sialxveiz aviz e que se encontra também paralelismos na fórmula etrusca: lupum avils maxs ´sealxslc (Corpus Inscriptionum etruscarum 5525), que significa “ele morreu com anos”. O sufixo etrusco formador de números de dezenas –alx parece também estar presente na inscrição de Lemnos. Aqueles que quiserem ver esta inscrição como um caso isolado, e produto de colonos ou mercadores etruscos foram depois desmentidos pela descoberta de várias pequenas inscrições semelhantes a esta.

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Língua-hipótese: o Etrusco

A par de fenícios e gregos, outra potência naval dominava as águas do Mediterrâneo Ocidental à época do florescimento das civilizações cónia e tartéssica: a Federação Etrusca. Embora nunca tivessem obtido as posições vantajosas de fenícios e gregos, os etruscos eram uma presença frequente na costa oriental da Península e aventuravam-se esporadicamente também nas águas atlânticas. Destas navegações é testemunha Diodoro Siculo que afirma: “Pelas razões antes aduzidas, os Fenícios exploraram as costas situadas mais além das Colunas de Hércules, navegando a par das costas de África e foram arrastados pelos ventos até paragens de larga navegação no Oceano. Muitos dias depois, ao cessar a tormenta, chegaram à mencionada ilha, cuja felicidade e natureza reconheceram, comunicando a notícia a todos. Por causa disso os Tirrenos (Etruscos), que então dominavam o mar, projectaram enviar para ali uma colónia, mas os Cartagineses impediram-nos disso pelo temor de que, por causa das excelências da ilha, se estabelecessem nela muitos Tirrenos e porque, ao mesmo tempo, queriam reservar um refúgio para o caso de que, se viesse a produzir um revés da fortuna ou se acontecesse algo de ruinoso para Cartago, eles pudessem fugir com suas famílias para a dita ilha, desconhecida dos vencedores, já que eles eram donos do mar”.

É certo que para além de um capacete de Bronze, descoberto em Aljezur (Algarve) e que Caetano Beirão classificou um tanto apressadamente de “etrusco” não temos vestígios da passagem deste povo pelo actual território português. A origem dos etruscos está ainda hoje rodeada de uma densa neblina de mistério e é frequentemente invocada a propósito de tudo e de nada. Não cairemos nesse erro. N. Falashi encontrou nos etruscos um laço étnico com os pelasgos e daqui com os cónios. Se a tese deste investigador albanês fosse a correcta, encontraríamos frases, expressões funerárias rituais ou pelo menos palavras etruscas nas estelas cónias. Se esta teoria estivesse certa os caracteres cónios mostrariam semelhanças com os etruscos, o que também não sucede, sendo que afinal se observa que morfologicamente a relação genética do cónio se estabelece com o fenício, enquanto que a da escrita etrusca revela uma forte influência grega, quase ausente na escrita cónia.

Mas também foneticamente existem objecções à existência de uma relação genética entre o etrusco e o ibero ou o cónio: sabe-se que o ibero incluía as vogais a, e, i, o, ora esta última, o o está ausente do Etrusco… Como se concebe assim que fizessem parte da mesma família linguística?

Já tivemos ocasião de defender a pertença da língua dos cónios ao grupo de línguas mediterrâneas. A questão da influência ou não do etrusco sobre as inscrições que servem de objecto ao nosso estudo parece portanto resultar da sua inclusão – ou não – nesse grupo. Ora existe pelo menos um indício que aponta nesse sentido: a base ganda- é claramente um elemento dessa grande língua mediterrânea, e como vimos mais atrás, pode também ser encontrado na Ásia Menor, a terra-mãe dos etruscos. Desta opinião é também o linguista italiano A. Trombetti que defendia que os etruscos representavam uma camada étnica anterior na Itália às invasões indo-europeias, uma camada formada pelas populações eneolíticas e da Idade do Bronze, ou seja, contemporânea aos primórdios da civilização cónia e pertencente, por inteiro, à mesma população de substrato mediterrâneo que os cónios. Trombetti explicava assim os parentescos entre as línguas pré-helénicas da Ásia Menor e o Etrusco, assim como um carácter mediterrâneo que o professor julgava reconhecer na línguas dos Toscanos. Raymond Bloch parece concordar com esta tese quando lança a possibilidade de os termos Tyrrhenoi e Tyrrha poderem ser termos do substrato mediterrâneo.

Por todas estas razões, considerámos que o interesse da língua e da escrita etrusca é reduzido para o nosso trabalho. Podendo contudo existir algumas palavras tirrénicas resultantes de contactos comerciais ou palavras comuns que resultam da eventual pertença do etrusco ao Grupo Mediterrâneo de línguas.

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Língua-hipótese: o Sardo

Alguns textos clássicos mencionam a existência de um parentesco étnico entre os indígenas da Sardenha e as populações da Península Ibérica. Esta pista, apontada por Raymon Bloch, parece indicar que as populações das ilhas do Mediterrâneo pertencem maioritariamente a um estrato étnico e linguístico muito antigo, anterior às invasões indo-europeias. É isto que se deduz quando observamos que os historiadores gregos afirmam que em tempos idos, toda a Sicília estava ocupada pelos Sicanos. Ora estes Sicanos, pelos topónimos que deixaram parecem ser de origem pré-indoeuropeia e provavelmente Mediterrânea. Por estas razões, o estudo do Sardo moderno é importante e será realizado por nós no âmbito deste estudo. Ainda assim, não será realmente o Sardo que se encontrará na base da língua dos Cónios, mas a existência de afinidades entre estas duas línguas do grupo Mediterrâneo é mais do que provável, embora não existam a um nível tão intenso como o de outras proximidades, como aquelas com as línguas do Norte de África.

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Divindades Indígenas sob o Domínio Romano

Embora se desconheçam as designações exactas que os cónios davam às suas divindades, o trabalho precioso de José d´Encarnação[1] permite-nos esboçar qual era o panorama religioso no Sul de Portugal à época da presença romana. É razoável acreditar que tenha havido uma continuidade quanto às divindades cultuadas, uma continuidade entre o período pré-romano e o romano. É por esta razão que passamos a listar as divindades indígenas que este historiador encontrou nas estelas votivas romanas. Devido ao âmbito deste estudo, descreveremos apenas aqueles de que temos testemunhos na zona de acção da civilização cónia: os territórios situados a Sul do Tejo e na imediatamente colocada a norte: o centro de Portugal.

10.9.1.1. Abna

Ara encontrada na freguesia de São Martinho do Campo (Santo Tirso).

10.9.1.2. Aernus

Duas lápides descobertas em Castro de Avelãs (Bragança) e uma terceira em Macedo de Cavaleiros.

Segundo Florentino López Cuevillas (em 1934), Aernus seria um dos deuses da civitate dos Zoelas. Para Blásquez Martinez tratar-se-ia de uma divindade protectora da vegetação mas estreitamente ligada ao castro onde foi achada a ara, dada a referência a uma ordo.

10.9.1.3. Albocelus

Este teónimo surge numa inscrição achada em Vilar de Maçada, no concelho de Vila Real.

Segundo A. Tovar o teónimo estaria ligado ao topónimo Albocela, uma cidade mencionada por Políbio (III, 14, 1) que seria habitada pelos Vaccei.

10.9.1.4. Ameipicer

Presente numa ara descoberta na Quinta de Orjais, a sul da cidade de Braga.

Blásquez Martinez acredita tratar-se de uma ninfa, como uma das Nimphae fontis Ameucni, chamando também a atenção para a semelhança do teónimo com Ameucn, uma divindade aquática.

10.9.1.5. Antiscreus

A ara que menciona esta divindade foi descoberta no Castro de Monte Redondo, no concelho de Braga.

Esta divindade dos Bracari é segundo Leite de Vasconcelos de características salutíferas.

10.9.1.6. Aponianicus Poliscinius

O nome desta divindade indígena está presente numa ara achada na cidade de Lisboa.

Para José d´Encarnação, tratar-se-ia de uma divindade tópica em que Aponianicus seria um epíteto do deus Poliscinius. O ilustre autor acredita ainda que se trataria de uma divindade relacionada com o culto das águas, dado mencionar uma nascente Aponus nos arredores de Pádua.

10.9.1.7. Aracus Aranius Niceus

A ara onde está grafado o nome deste deus foi descoberta em Manique de Baixo, freguesia de Alcabideche, concelho de Cascais.

10.9.1.8. Arantius Tanginiciaecus

Presente numa inscrição da ara descoberta no Rosmaninhal no concelho de Idanha-a-Nova.

F. Alves Pereira crê que Arantius seria a divindade territorial dos Igetani.

10.9.1.9. Arentia e Arentius

Os nomes destas divindades surgiram numa ara encontrada nos arredores de Tinalhas, no concelho de Castelo Branco. Arentius também aparece numa ara de Chão do Touro no Concelho de Idanha-a-Nova.

O culto a esta divindade estava bem marcado territorialmente pelo território dos Igetani, como nos recorda F. Alves Pereira. O autor refere igualmente a possibilidade de se tratar apenas de uma divindade pessoal, exclusiva de um determinado crente.

Aras dedicadas a este par divino foram também encontradas em território espanhol, mas em Portugal todas as quatro aras que referem estes dois deuses foram encontradas nas cercanias de Idanha. A estrita delimitação geográfica indica tratarem-se de divindades tutelares, hipótese além do mais reforçada – como nota José d´Encarnação – pelas ligações étnicas dos sufixos -NT e -ENSIS.

10.9.1.10. Arentius Cronisensis

A ara que apresenta o nome desta divindade foi encontrada na freguesia de Zebras no concelho do Fundão.

10.9.1.11. Arus

Existe uma única referência a esta divindade pré-romana numa ara encontrada numa ponte sobre o rio Paiva, no Concelho de Castro Daire, Distrito de Viseu.

Blázques Martinez acredita tratar-se de uma divindade guerreira, possivelmente assimilável a Marte. O nome, aliás bastante semelhante ao grego Aries, faz acreditar nisso mesmo.

10.9.1.12. Ataegina

Embora no território espanhol tenhamos vários exemplos de dedicatórias a esta deusa, em Portugal temos apenas um único exemplo deste culto numa ara descoberta algures no Distrito de Beja.

Para Leite de Vasconcelos, Ataegina era a deusa da terra e dos seus frutos, comparando os seus atributos com os de Proserpina e com os de Libera, deusa da fertilidade dos campos e da procriação. Esta ligação com o renascimento da natureza na Primavera pode resultar numa ligação com o mundo do Além, tanto mais porque existe pelo menos uma ara em que se lhe faz uma “devotio”. Ataegina teria também algumas características salutíferas dada a existência do epíteto “servatix” observado numa ara espanhola, que significa precisamente “conservadora da saúde”.

O número de aras e a extensão do seu culto mostram que Ataegina era[2] uma das divindades indígenas mais cultuadas ao tempo da dominação romana. Alias, Lambrino acredita que estas duas divindades constituíam um par divino embora não existam aras que reunam os dois teónimos.

10.9.1.13. Aturrus

Este teónimo está presente numa ara descoberta na Avenida da República, em Lisboa.

É T. Scarlat Lambrino que observou que o nome desta divindade correspondia exactamente ao do rio Ador, na Aquitânia francesa. Também surgem aqui vários topónimos com este elemento (por exemplo, Vicus Atora) e o povo Aturenses. Em Portugal temos pelo menos um exemplo da presença deste elemento, no nome Aturo Viriati presente numa ara indígena. Para Scarlat Lambrino e Blázquez Martinez tratar-se-ia de uma divindade ctónica, ligada ao culto infernal.

10.9.1.14. Auga

A referência a Auga foi descoberta numa ara achada em Fontes, Santa Marta de Penaguião. Existe um certo consenso nos autores ao a apontarem como uma divindade de origem grega.

10.9.1.15. Banda-

São numerosas as divindades cujos teónimos começam pelo tema band-. As várias divindades que compartilham este tema parecem exclusivas a regiões onde os celtas estiveram presentes. Para Adolfo Coelho, a raiz estaria ligada ao antigo irlandês bandea, feminino de dia (deus), embora para Leite de Vasconcelos o tema, embora céltico, signifique não “deusa”, mas a ideia de ordenar ou proibir, o que confere com a hipótese de Blázques Martinez que as identifica como divindades tutelares dos castros e cidades indígenas.

O tema é bastante frequente na toponímia galega[3] e em Portugal conforme observa Arlindo de Sousa, no artigo “Langóbriga”: “No pequeno quadrilátero com vértices na vila da Feira, Estarreja, Vouzela e São Pedro do Sul temos as três povoações de Bandavizes (concelho de Vouzela), Bandulha (concelho de Estarreja e São Pedro do Sul) e os deuses Bandavelugus e Bandoga. Entendemos que há relação filológica e histórica entre os três topónimos e o nome do deus Band. Próximo à linha São Pedro do Sul-Vouzela, em Castelo de Penalva, consagrou-se a Bandaioilienaicus ou Bandius Ilienaicus. No quadrilátero um pouco maior, com vértices nos concelhos de Paços de Ferreira, Ribeira da Pena, Santa Marta de Penaguião e Mesão Frio, temos as povoações de Bande e Banduja, o hidrónimo Banduje e o deus Bandaraeicus. Na Galiza os topónimos Bande e Baños de Bande devem estar relacionados com os mitónimos Bandua da inscrição brigantina e da igreja moçárabe de Mixós, em Verin, e de Banduaetobrigus, de Santa Maria de Codesás. Na região dos Igaetani, onde se conservam muitos vestígios da civilização céltica temos Ba…dia e Bandiarbariaicus“.

José d´Encarnação[4] acredita tratar-se de uma divindade masculina, dado os epítetos que geralmente o acompanharam se revelarem do género masculino, embora exista de facto a excepção de Isibraia. De qualquer modo, Banda era sem dúvida ao lado de Endovélico e Ataegina uma das divindades mais cultuadas no nosso território.

10.9.1.16. Banda Brialeacus

Presente numa ara descoberta no concelho da Covilhã, em Orjais

10.9.1.17. Banda Raeicus

Embora a ara em que surgia este teónimo se tenha perdido, sabe-se que foi achada em Ribeira da Pena, no concelho de Vila Real.

10.9.1.18. Banda Velugus Toiraecus

A inscrição solitária que contempla este teónimo foi descoberta numa lápide do Castelo de vila da Feira.

10.9.1.19. Banda Arbariaicus

A lápide revelando esta divindade indígena foi encontrada em Capinha, concelho da Guarda.

10.9.1.20. Bandis Isibraia

Duas aras mencionando o nome desta divindade foram achadas na Bemposta, concelho de Penamacor.

10.9.1.21. Bandis Oilienaicus

Registado numa lápide descoberta em Esmolfe, no concelho de Penalva do Castelo.

10.9.1.22. Bandis Tatibeaicus

A lápide que mostra este teónimo foi achada em Queiriz, em Fornos de Algodres. Para Russel Cortez, esta divindade estaria associada ao culto lunar, profusamente registado na Península. Blázques Martinez julga reconhecer na terminação do teónimo um dativo pré-céltico.

10.9.1.23. Bandis Vorteaeceus

A ara onde esta divindade está registada foi descoberta no Salgueiro, concelho do Fundão.

10.9.1.24. Bandoga

Este teónimo foi registado numa lápide votiva descoberta no castro de Mau Vizinho, situado no concelho de São Pedro do Sul. Tratar-se-ia de uma divindade feminina.

10.9.1.25. Bandua

Esta divindade foi descoberta numa ara em Nossa Senhora de Hedra, em Bragança.

10.9.1.26. Bormanicus

São duas as aras que apresentam gravada esta divindade, tendo sido descobertas em Caldas de Vizela, no recentemente criado concelho de Vizela. Cabe a Francisco Sarmento a melhor descrição desta divindade: “Borvo ou Bormânico era um deus céltico, cujos benefícios se manifestaram nos bolhões de água”. Édouard Philibon defende semelhante opinião ao acreditar que o tema Bormo- está próximo do indo-europeu guhormo-, que significaria “quente”. Contudo, F. Russel Cortez defende uma corrente diversa colocando-se ao lado daqueles que acreditam na grande disseminação dos povos lígures pelo sul da Europa, nomeadamente ao ver em Bormânico uma divindade lígure.

10.9.1.27. Brigus

A referência a esta divindade indígena foi descoberta numa ara achada em Delães, no concelho de Vila Nova de Famalicão. O teónimo pode estar relacionado com a palavra celta briga que entra na formação de tantos topónimos peninsulares.

10.9.1.28. Cabar

Embora se tenha perdido à muito o rasto da inscrição que estaria numa parede da igreja de Pinho, no concelho de São Pedro do Sul, o teónimo Cabar que aqui estaria registado parece – segundo Blázquez Martinez – estar ligado ao indo-europeu “kapro” que para o ilustre linguista J. Pokorny teria como significado “cabra”. Poderá assim tratar-se de uma divindade totémica, possivelmente tutelar.

10.9.1.29. Caepus

Este teónimo pode ser encontrado numa ara descoberta na Quinta de São Domingos, no concelho de Sabugal. Leite de Vasconcelos acredita que o vernáculo caepus (cebola) pode estar na origem do teónimo, arriscando afirmar que seria um “deus das cebolas, protector das hortas”.

10.9.1.30. Carneus/Ptarneus

Presente numa ara encastrada nas paredes da Igreja Matriz de Sant´Ana, em Arraiolos, esta divindade segundo José d´Encarnação pode estar ligada a Karneios, a divindade nacional dos Dórios. Tratava-se de um protector dos rebanhos, identificado com Apolo, o que não deverá ser estranho ao indo-europeu kar, kára, karnos associadas precisamente a carneiros e ovelhas.

10.9.1.31. Carus

O teónimo Carus encontra-se num cipo achado em Santa Vaia de Rio de Moinhos no concelho de Arcos de Valdevez. Para Holder a existência de um rio Carus poderia indicar o carácter aquático desta divindade.

10.9.1.32. Castaecae/Castaeci

A ara mencionando esta divindade foi encontrada (e entretanto perdida) em Santa Eulália de Barrosas, em Caldas de Vizela. Se Hübner acreditava tratar-se de uma ninfa, no que era secundado por Leite de Vasconcelos. De qualquer modo, Blázques Martinez salienta que na Gália existia um topónimo Castae, o que parece indicar uma origem céltica para esta divindade.

10.9.1.33. Coronus

A ara mencionando esta divindade pré-romana foi encontrada em Serzedelo, no concelho de Guimarães. Tratava-se provavelmente de um deus da guerra, conforme defende Blázques Martinez, dado ter sido registada a sua aparição conjuntamente com Corotiacus, uma divindade associada a Marte.

10.9.1.34. Cosus

Descoberta em Vale de Ervosa, Santo Tirso, a ara que incluía o nome desta divindade, pode referir-se a um deus ligado à água, dado o potamónimo Cosa, ter sido registado por Dauzat.

10.9.1.35. Cosunae

Presente numa inscrição achada na Citânia de Roriz, este teónimo parece indicar uma ninfa ou ninfas que aí eram adoradas. Essa é a opinião da maioria dos autores (como Leite de Vasconcelos e Blázques Martinez).

10.9.1.36. Dafa

Este teónimo está presente numa inscrição achada no Castro de São Lourenço, no concelho de Esposende.

10.9.1.37. Densus

A ara com este teónimo foi descoberta em Felgar, Moncorvo.

10.9.1.38. Dii Deaeque Coniumbricensium

A ara mencionando este interessante teónimo para o assunto desta obra foi encontrada no concelho de Vila Nova de Foz Côa. Dizemos interessante porque a presença do elemento “conium” já levou alguns investigadores a levantarem a hipótese de os Cónios terem descido do Centro de Portugal para o Sul. Alias, o topónimo Conimbriga seria precisamente um traço de migração.

10.9.1.39. Durbedicus

Encontrada em Ronfe, Guimarães, a ara com este teónimo, segundo Adolfo Coelho podia basear-se no antigo irlandês derb (certo, verdadeiro ou ilustre).

10.9.1.40. Durius

Descoberta na cidade do Porto, a ara em que se achava o nome desta divindade achava-se certamente na origem do nome do rio que banha a Invicta.

10.9.1.41. Endovelicus

Existem mais de sete dezenas de aras e inscrições incluindo este teónimo, todas elas oriundas do mesmo local, o monte de São Miguel da Mota, em Terena, no concelho do Alandroal. O número registado mostra bem a importância deste culto, especialmente se comparado com a média das inscrições com outros teónimos que não excede os 1,2.

O teónimo é grafado em pelo menos três formas: endovellico, endovollico e endovolico.

Este santuário de Endovelicus era muito concorrido, segundo Leite de Vasconcelos, aqui se adivinhava o futuro, o mesmo autor refere que a presença da palavra deus, indicia tratar-se de uma divindade tópica e adianta também tratar-se de uma divindade com carácter naturalístico e um dos génios tutelares da medicina. Mas Lambrino discorda deste carácter medicinal. Para o autor, não se justificaria a sua coexistência com Esculápio, cujo culto foi registado na mesma região, nota igualmente a falta de qualquer nascente medicinal nas redondezas do santuário. Conjuntamente com A. Tovar, defende tratar-se de uma divindade infernal lendo Endo-beles, como “muito negro”. O javali, animal associado a este teónimo, a palma e a coroa de louros levam a acreditar que se trate de um deus dos mortos, representado nas aras pela figura de um génio alado erguendo uma tocha ardente.

10.9.1.42. Frovida

O culto a esta divindade foi registado no concelho de Braga. Leite de Vasconcelos supõe que Frovida seria uma divindade aquática, um risco que aliás corre para muitas divindades sem provas muito substanciais.

10.9.1.43. Genius Civitatis Baniensium

A lápide onde estava registado este teónimo foi encontrada em Mesquita, Moncorvo.

10.9.1.44. Genius Conimbricae

A ara foi descoberta no Fórum de Conimbriga.

10.9.1.45. Genius Cor

A lápide com o nome desta divindade foi encontrada em Soutinho, no concelho de Aguiar da Beira.

10.9.1.46. Genius Depenoris

Esta divindade era adorada no Castro do Mau Vizinho, no concelho de São Pedro do Sul.

10.9.1.47. Genius Laquiniensis

A ara foi descoberta em São Miguel das Caldas de Vizela, no concelho de Vizela.

10.9.1.48. Genius Tiauranceaicus

Este Genius foi descoberto numa ara presente no concelho de Ponte de Lima. Tiauranceaicus é uma palavra claramente ibérica, pelo menos no seu radical. Leite de Vasconcelos afirma a propósito deste teónimo que -aicus é uma terminação presente em genis loci.

10.9.1.49. Genius Toncobricensium

Descoberta em 1882 em Freixo, Marco de Canavezes, esta inscrição do século I apresenta o tema longo-, como a vários nomes peninsulares.

10.9.1.50. Hermes Devorix

A lápide apresentando esta divindade foi descoberta e acha-se ainda na Capela de Nossa Senhora do Rosário, em Outeiro Seco, no concelho de Chaves. Devorix pode encontrar as suas origens no celta deiuos ou no indígena devorus, segundo Maria de Lourdes Albertos.

10.9.1.51. Igaedus

O teónimo foi descoberto em Idanha-a-Nova. D. Fernando de Almeida acredita que esta era a divindade adorada pelos igaeditani. A presença de uma ara com este nome grafado junto de uma fonte medicinal pode indicar que se trata de um deus com personalidade Salutífera.

10.9.1.52. Ilurbeda

Duas aras encontradas em Covas dos Ladrões, Góis, testemunham o culto a esta divindade. O coronel Mário Cardozo escreveu a propósito: “Que Ilurbeda é um nome de ressonância tipicamente ibérica parece não haver dúvida. As raízes i-, ili-, ilur-, são frequentes no onomástico ibérico (…) Há numerosos exemplos de nomes étnicos e geográficos ibéricos com essas raízes: Ilerda (Lérida) e os Ilergetes, os Ileates, do Bétis (Guadalquivir), vizinhos dos Cempsos; Ilucia, a noroeste de Cástulo, Ilici (Elche); Iliturgis, perto de Córdova; Iliberris, etc. Com a raiz ilur-, é citado (…) o nome da divindade (?) ibérica Ilurberrixo, bom como os nomes geográficos Iluro e Ilurco. Shulten cita a tribo dos Ilurgavones.”

10.9.1.53. Issibaeus

Registado numa ara descoberta em Miranda do Corvo, Issibaeus seria para José d´Encarnação mais uma divindade indígena cultuada no actual território português.

10.9.1.54. Iuno Meirurnarum

A estela mencionando este teónimo foi achada em São Veríssimo, no concelho de Felgueiras.

10.9.1.55. Iuno Veamuaearum

A ara mencionando esta divindade foi achada em Freixo de Numão, Meda. Infelizmente, foi dada como perdida e sobre ela nada mais se sabe.

10.9.1.56. Iupiter Assaecus

Descoberta em Lisboa, a divindade presente nesta estela de Belém possui o elemento assa- presente em vários nomes hispânicos. Por outro lado, a terminação -ecus é também frequente nesta onomástica, o que reforça o seu carácter indígena.

10.9.1.57. Lares Caireieses

A ara com este teónimo foi descoberta em Zebreira, no concelho de Idanha-a-Nova.

10.9.1.58. Lares Cerenaeci

Os Cerenecos eram um povo que vivia no concelho de Marco de Canavezes, e o nome desta divindade não é certamente alheia a este nome.

10.9.1.59. Lares Cusicelenses

Esta inscrição dedicada a este teónimo encontra-se no número daquelas que foram perdidas. Foi achada em Couto de Algeriz, Chaves.

10.9.1.60. Lares Findenetici

Descoberto em Chaves, a inscrição que incluí este teónimo apresenta como oferente um nome frequente em inscrições hispânicas, conforme nos recorda Blázques Martinez.

10.9.1.61. Lares Erredici

A ara foi encontrada em São Pedro de Agostém, em Chaves.

10.9.1.62. Lares Lubanc

Esta divindade está presente numa ara descoberta em Conimbriga e em que surge o antropónimo indígena CAMAL.

10.9.1.63. Mandiceus

A árula votiva que apresenta esta divindade foi descoberta em Madre de Deus (Sintra) em 1956 e apresenta aquela que Mário Cardozo considera ser “uma divindade indiscutivelmente ibérica”.


[1] “Divindades Indígenas sob o Domínio Romano em Portugal”.

[2] No que se assemelhava a Endovelico.

[3] Como notou Lopez Cuevillas.

[4] O autor que seguimos mais de perto no que respeita às divindades indígenas.

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A Religião dos Cónios

A reconstrução do sistema religioso cónio é, sem dúvida, um exercício particularmente difícil. Desde logo escasseiam os vestígios arqueológicos, os testemunhos monumentais estão completamente ausentes e as fontes escritas ou estão por traduzir, ou escasseiam entre os autores clássicos. Existem contudo alguns elementos disponíveis que podem ser utilizados para tentar uma reconstrução parcial do sistema de crenças dessas populações do Sul do actual território português.

O Cão

No começo do período neolítico as populações Magdelenenses da zona do Mar Báltico introduziram a domesticação do cão. Esta domesticação foi importante para o aumento do sucesso do caçador, o qual podia agora contar com um aliado que possuía um olfacto muito desenvolvido e um elevado grau de mobilidade, para além da fidelidade que lhe é proverbial. Donald Mackenzie acreditava que a este papel deveria corresponder um forte papel religioso, se não entre os Magdalenenses, pelo menos entre os Crô-Magnons.

E, efectivamente, são comuns os exemplos de adoração do Cão nas religiões humanas. No Antigo Egipto, temos Anubis, o protector e guia das almas dos Mortos no Além; assim como Apuatua, outra divindade egípcia que também era um deus-cão. Entre os hindus, Yama, deus dos mortos e Dharma, deus da Justiça, eram deuses com aspecto canídeo. Na complexa mitologia grega, o cão era o guardião do Inferno que Hércules devia vencer. Na mitologia celta, Cuchulin, mata o cão que guarda as portas do Inferno e toma o seu lugar, aliás daqui deriva o seu próprio nome Cu (cão) de Culann. Na Escócia o povo venera ainda hoje as “pedras cão”.

Todos estes vestígios representam uma sobrevivência neolítica do culto do Cão, o facto de terem em comum o seu carácter infernal não deve ser ignorado. A sua presença nas estelas descobertas em território nacional e datadas da Idade do Bronze indica que manteve entre os nossos antepassados o mesmo sentido.

Deusa Salutífera

A confirmada presença fenícia não pode ter deixado de influência a religião das populações indígenas. O arqueólogo Mário Varela Gomes pode ter encontrado vestígios dessas influências em Garvão: “enorme depósito votivo secundário indica ter existido em Garvão (Ourique). Neste local prestava-se culto a uma divindade feminina do tipo da Tanit cartaginesa, senhora da luz, da felicidade, mas também da morte e da regeneração a quem se ofereciam ex-votos, alguns anatómicos, em ouro e prata, além de peças coroplásticas e grande quantidade de recipientes com diversas formas e funções.” Mas aquilo que pode indicar essa influência semítica é negado por se tratar de um santuário “céltico” e pelas características demasiado genéricas da divindade cultuada.

Divindades Guerreiras

Seguindo ainda atentamente o trabalho de Varela Gomes, citamos mais uma passagem do seu artigo “Testemunhos iconográficos na Proto-história do Sul de Portugal: smiting gods ou deuses ameaçadores”: “Foi possível atribuirmos, através da observação da sequência estratigráfica, técnica e estilística, à Idade do Bronze Final, uma cena pintada existente no Abrigo Pinho Monteiro. Este, situa-se nos contrafortes da serra de São Mamede, perto da Aldeia da Esperança, no concelho de Arronches (Portalegre)”.

“A cena que nos propomos agora tratar, e para a qual não detectamos nenhum contexto material, é constituída por dois antropomorfos. Um oferece corpo quase bitriangular, braços caídos e pernas dispostas em V invertido, encontra-se sobre o dorso de um quadrúpede esquemático e tem na cabeça um gorro ou tiara cónica. A parte inferior do corpo e metade das pernas parecem cobertas por um saiote. A identificação do quadrúpede é dado o seu grau de esquematismo, difícil de concretizar. Pois poder-se-á tratar de um equídeo controlado pelo antropomorfo através de uma rédea que este quase agarraria na mão esquerda, ou, antes, de um touro, cuja armação seria representada com certo grau de perspectiva, interpretação para a qual mais nos inclinamos. À esquerda, e pintado da mesma cor mas um pouco mais acima, encontra-se o segundo antropomorfo, ostenta na cabeça o que julgamos ser a representação de um capacete de cornos e, na mão esquerda, segura um bastão. Encontramo-nos, por certo, perante uma figuração de carácter guerreiro.”

Apesar do carácter pacífico dos povoamentos cónios, um aspecto que podemos deduzir a partir da ausência de muralhas ou de qualquer outra estrutura defensiva, o certo é que são frequentes a referências a guerreiros entre os vestígios cónios, como aquelas que Varela Gomes descobriu. Não se tratando de uma sociedade guerreira, quem serão então essas personagens? Líderes tribais? Heróis míticos? Divindades Guerreiras? É difícil saber. Podem ser vestígios de uma época de transição, de uma época em que a ameaça dos invasores célticos vindos da Meseta se começava a fazer sentir, o que explicaria a aparição de homens armados no seio de uma sociedade que não protegia suficientemente as suas povoações. À parte esta questão, a presença do touro, aliás muito comum noutros locais arqueológicos do Sul de Portugal, indica a existência de um culto contínuo desde o Neolítico.

O Culto do Touro

São frequentes as representações de personagens com capacetes de cornos, de cabeças de touro, ou de outros elementos directamente relacionáveis com o touro. Temos provas físicas deste culto entre os cónios na necrópole de Fonte Santa (Ourique) onde não longe do Túmulo VIII, Caetano Beirão encontrou uma máscara de cerâmica em forma de uma cabeça de touro, que se destinava obviamente a ser utilizada num ritual hoje desconhecido. Também no Túmulo IX de uma outra necrópole, desta feita a de Keition (Alcácer do Sal) Vergílio Correia descobriu associados a alguns enterramentos da II Idade do Ferro pequenos bovinos em argila. Não é impossível estarmos aqui perante uma influência oriental, trazida até à Península através de contactos comerciais. De facto, este elemento é comum na civilização micénica, na Idade do Bronze cipriota. Também os soldados do Império Hitita são representados com estes capacetes no alto relevo de Ramsés II que comemora a sua vitória na batalha de Kadesh. Aliás, já Diodoro Sículo mencionava que o Culto dos Touros era comum entre os Iberos, algo a que Estrabão alude indirectamente na sua descrição do mito do roubo dos touros de Geryon por Herakles. Na Irlanda e em Inglaterra, a cabeça de touro era utilizada como um símbolo de adoração divina.

O Mundo dos Mortos

Nas estelas de São Martinho II e Ategua surgem ainda três covas colocadas sob as duas figuras humanas. Varela Gomes julga que estas covas são uma representação do “mundo dos mortos”. Estas mesmas covas estão igualmente presentes na mais conhecida estela cónia e podem ser bastante significativas para a leitura da inscrição que esta apresenta.

O Culto Solar

Os escudos redondos seriam[1] uma representação do disco solar. O escudo seria uma imagem solar que o guerreiro transportaria consigo no combate e de cuja protecção dependeria. Esta interpretação do arqueólogo português concorda com a interpretação que J. Déchelette já tinha proposto em 1909.

O culto solar estava directamente ligado com a aplicação do Poder político, como se depreende da associação do guerreiro com o Sol e com a continuação desta ligação com a administração local durante o período romano, conforme nos testemunham os restos epigráficos desse período.

O Culto Lunar

A Serra de Sintra é identificada por Ptolomeu (século I-II) como “A Serra da Lua”, um tipo de culto astral que deve recuar ao próprio Calcolítico como testemunham as lúnulas descobertas na região. Não existem contudo vestígios deste culto entre os testemunhos arqueológicos que os cónios nos legaram.

Divindades adoradas pelos Cónios: Influências Exteriores

A adopção do culto de divindades salutíferas romanas pode ser um indicador de que já preexistia nas populações a predisposição a este tipo de deuses, ou que cultos semelhantes haviam sido “latinizados” pelo ocupante romano. Testemunho deste processo pode ser o tempo de Esculápio de Miróbriga[2] e a estátua descoberta em Serpa representando ao mesmo semideus.

Não existem sinais suficientes para nos permitir a continuação de um da Deusa-Mãe desde a época neolítica e do megalistismo. É certo que alguns vestígios arqueológicos[3] indiciam a sobrevivência de cultos femininos na Idade do Ferro do Sul, como se depreende dos “dois brincos de orelha, lunulares e terminados com duas pequenas esferas de ouro, na lúnula estão soldadas 14 pequenas cabeças femininas representando talvez Hathor, Astarté ou Aphrodite” que o citado arqueólogo descobriu no Tesouro do Gaio, em Sines.


[1] Ainda segundo Varela Gomes, cujo meritório trabalho seguimos de perto.

[2] Actual Santiago do Cacém, Baixo Alentejo.

[3] Trazidos à luz da nossa era mais uma vez por Caetano Beirão.

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Contactos Comerciais dos Cónios

Se a arqueologia já nos deixou provas de contactos comerciais com as civilizações mercantis do Mediterrâneo Oriental, esses contactos assumem outra escala durante a I Idade do Ferro. Os fenícios fundam entrepostos comerciais como testemunham os achados de Castro Marim, Rocha Branca (Silves), Monte Molião (Lagos) e Alcácer do Sal. Esta presença, a que não é estranho o florescimento do reino de Tartessos entre o século VIII e VI a.C. seria determinante na ascensão civilizacional das populações que Varela Gomes classifica de pré-indoeuropeias, mas nunca teve a importância de uma “colonização” como quis Moisés do Espírito Santo.

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A Organização Política dos Cónios

É no Calcolítico que surge um sistema económico que mercê da hierarquização social e da constituição de uma organização pré-estatal forma uma sociedade que envolta em conflitos com as comunidades circundantes cerca as suas povoações de muralhas defensivas. Estas muralhas ovaladas e irregulares, posteriormente reforçadas com a adição de torres e bastiões indiciam um processo de centralização e organização do trabalho que traria, com sucesso, a paz às suas populações. É assim que notamos que as povoações cónias já são inteiramente desguarnecidas de fortificações de qualquer tipo, conforme já observámos no ponto anterior.

A dispersão dos povoados conhecidos indica uma densidade populacional semelhante à actual, embora em povoados muito menores que os actualmente existentes. A uniformidade do povoamento, assim como a pequenez das povoações, sem que nenhuma predomine sobre as demais pode indicar que os grandes centros administrativos estão ainda por descobrir. É também possível que estes simplesmente não existissem, mas sendo assim dificilmente surgiria a “massa crítica” intelectual suficiente para a introdução de um processo tão revolucionário e complexo como era então a escrita alfabética. A tradição grega fala ainda de uma federação de cidades, o que não entra necessariamente em contradição com a tese da “capital desconhecida”. Com efeito, não é impossível que essa cidade ou cidades partilhassem o seu poder com outras, ainda que de menores dimensões mas de fortes tradições, talvez uma espécie de “berço” dos cónios. Tal situação não seria inédita na História dos povos mediterrâneos.

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A Sociedade Cónia

As localidades que os trabalhos arqueológicos nos permitiram conhecer são formadas por pequenos agrupamentos de habitações rectangulares, apresentando vários núcleos habitacionais contíguos. Em comum, para além da sua pequena dimensão, têm também o facto de não terem sido construídas em locais elevados, que seriam mais adequados a posições defensivas. Esta quebra de tradição com os povoados calcolíticos que os precederam na região, indicia uma época sem ameaças militares significativas e mas acabaria por se tornar na causa mais determinante para o rápido e fulminante sucesso dos invasores indo-europeus vindos do centro da Península Ibérica e que submeteriam estas populações pacíficas sem grandes dificuldades.

O sucesso dos invasores célticos resulta em primeiro lugar da falta de preparação militar dos cónios, habituadas a séculos de paz e à ausência de fortificações nas suas povoações, mas, sobretudo, ao carácter descentralizado da sua civilização, muito semelhante a uma federação de cidades como a da Etrúria e destituída de um centro político. Mas tudo seria diferente se estes invasores tivessem encontrado uma civilização no seu apogeu. Não foi efectivamente esse o caso. Temos testemunha disso mesmo nos túmulos. Se inicialmente chegavam a apresentar estruturas envolventes, com círculos de pedras ou muros em ser redor, na fase mais tardia esta monumentalidade decresce e a riqueza das oferendes funerárias diminui.

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A Fonética da Língua Cónia

É por demais evidente a imensa dificuldade de discernir a fonética de uma língua desaparecida e com uma escrita que surge como intraduzível. Não é contudo completamente impossível o exame das tendências fonéticas, exame que terá que ser limitado aos nomes de divindades conhecidos e às raras palavras que podem ser isolados por entre os densos – e desprovidos de separação de palavras – textos cónios.

Sequências de Consoantes

Observamos com alguma frequência a existência de cadeias de consoantes, algumas bastante longas, nas inscrições cónias. Uma interpretação precipitada poderia colocar em causa a valoração consonantal desses signos, mas existe um fenómeno conhecido em diversas escritas e que serve de fundamento ao alfabeto fenício[1] que é o da presunção, por parte do escriba, de que o leitor poderia compreender o significado da palavra, mesmo com a omissão das vogais. Esta omissão pode resultar de uma economia de espaço devida às limitações físicas da pedra epigrafada. Este mesmo mecanismo era também usado escrita hieroglífica egípcia e no cunciforme acadiano.

Um Silabário Simples?

Designam-se de “silabários simples” os sistema de escrita silábicos que apenas têm representações para vogais puras e para consoantes acompanhadas de vogais. Daqui resulta que os signos para as vogais só aparecem no meio de palavras se forem imediatamente precedidas por outra vogal, mas que todas as palavras que tenham uma vogal como primeiro som têm que começar com um signo dessa classe. Torna-se então patente a existência de um padrão que pode ser encontrado nas escritas deste sistema: as vogais simples aparecem raramente a meio das palavras, mas mais frequentemente no seu começo, uma vez que as palavras que tenham vogais no seu início têm que começar com signos vocálicos. A meio das palavras, a maior parte das vogais são antecedidas por consoantes, ou seja, pelo signo que reúne consoante com vogal. Através do mesmo processo, se encontrarmos aquilo que parece ser uma lista e se, no final de cada palavra, surgir sempre um mesmo carácter estaremos muito provavelmente perante a conjunção “e” ou de outra com idêntico valor.


[1] Que serviu de matriz ao Cónio, não o esqueçamos.

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A Origem dos Cónios

Autores gregos e latinos referem que a região hoje chamada Algarve foi habitada, em tempos pré-romanos, pelos Cónios. É provável que em épocas mais antigas fosse maior a área ocupada por eles, como se pode depreender do nome Conimbriga (<Coniumbriga), mas possivelmente a invasão de tribos célticas acabara por os levar mais para o Sul. Representariam eles, assim, uma camada pré-indoeuropeia. Uma camada populacional que, na visão de Menendez Pidal, radicaria nos tempos paleolíticos nas populações capcenses migrantes desde o Norte de África e da Líbia que se estendiam, na Península desde as costas do Sul até ao Norte da Catalunha e que serviriam de matriz para Iberos, Cónios, vetões, e outras populações locais. Em oposição teríamos as populações de matriz cantábrico-pirenaica a partir das quais se formariam os povos basco e asturiano. No âmbito desta tese, não haveria qualquer relação entre cónios e bascos e as teses que julgam encontrar no basco um sobrevivente moderno do Ibero e do Cónio cairiam por terra.

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As Raízes Mediterrâneas dos Lusitanos

Quer os Lusitanos pertençam a velhas populações autóctones, quer sejam Iberos, parece indiscutível a sua pré-celticidade[1].

O professor Mendes Correia, conjugando os elementos da Antropologia, a Arqueologia e da História, apresenta os lusitanos “não como simples recém-vindos Celtas, Iberos ou Celtiberos, mas como um povo que tinha fundas e longínquas raízes no território, relacionando-se genealogicamente com os portadores duma velha cultura ocidental, os construtores dos dolmens. Eram decerto parentes dos Iberos e dos Celtiberos, tinham recebido ou viriam a receber a influência celta. Mas não representavam um estrato fundamentalmente distinto dos remotos habitantes neolíticos do país”.


[1] Apesar disso, o nome do seu mais ilustre líder, Viriato, é derivado de uma palavra celta viriae, “bracelete”.

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O Sistema Fonético Cónio

Segundo o trabalho de Javier de Hoz: “El origen oriental de las antiguas escrituras hispanas y el desarrollo de la escritura del Algarve”, a língua dos Iberos possuía duas vibrantes: “r” e “´r” para além de nasais que assumiam representações gráficas diversas segundo a Escrita ibérica em que eram registadas. Hoz julga reconhecer na fonética da Escrita Meridionais, que é das ibéricas a mais próxima do Cónio e a Ibérica, nortenha, importantes e significativas diferenças. Encontra nos sistemas sulistas um grupo de vogais mais numeroso que o nortenho. Encontra ainda outra diferença nas oclusivas que o Ibérico distingue entre sonoras e surdas, mas que a Escrita Meridional ignora.

Os Três Substratos da População Peninsular

A base indígena da população peninsular tem três elementos essenciais:

a) O pirenaico, originariamente estabelecido no norte, e de que hoje os bascos são representantes, constitui um elemento étnico de origem europeia. A língua vasca, entretanto, é de filiação dificílima, parecendo, depois dos estudos de Schuchardt e de outros, uma língua ibérica. É o que admite Menendez Pidal, admitindo que os vascos se contam entre os povos que mudaram de língua.

b) O pré-ibérico, que pode identificar-se com a civilização chamada de Capsence, a qual no período eneolítico começou a extinguir-se, dela persistindo fortes massas em Portugal, Galiza, Astúrias, Leão, na maior parte da Extremadura, em Castella a Nova. A invasão céltica matizou muitos dos povos indígenas derivados dos Capsences, mas alguns se conservaram mais indemnes, tais como os Astures de boa parte de Astúrias e Leão, e talvez os Cinetes do Sul de Portugal.

c) O ibérico que surge no neolítico, na região sudeste, e é provavelmente de origem africana.

Substrato Mediterrâneo

Hubschmid em 1960 defendia a tese da existência de um “Substrato Mediterrâneo” que, na sua opinião, se podia dividir em duas famílias:

a) A Euro-Africana, que reunia as antigas línguas da Hispânia, da Península Itálica, dos Alpes Ocidentais e que depois chegariam até ao Norte de África.

b) A Hispano-Caucasiana, que a partir da Hispânia avançou até aos Balcãs e à Ásia Menor.

Segundo este autor, a moderna língua Basca teria elementos destas duas famílias, assim como o Etrusco e o Tirreno.

À semelhança de Hubschmid, também o investigador italiano Sergi dedicaria a maior parte do seu trabalho ao estudo das origens da raça Mediterrânea, condensando o seu pensamento nesta citação que fazemos aqui da sua obra: “Mas a geração original não teve o seu berço na bacia do Mediterrâneo, uma bacia adequada à confluência de povos e ao seu activo desenvolvimento; o berço de onde dispersou em várias direcções foi mais provavelmente África. O estudo da fauna e flora do Mediterrâneo exibe o mesmo fenómeno e torna-se outro argumento a favor da origem africana dos povos mediterrâneos.” Sergi leva ainda mais longe a sua tese ao afirmar a existência de relações de parentesco entre a raça Hamítica (que inclui Egípcios, Núbios, Abissínios, Somalis, Berberes e os Guanches) e esta raça Mediterrânea.

De igual maneira se movimentou o professor búlgaro V. Georgiev que anteviu a existência desta língua mediterrânea no livro que publicou em Sófia no ano de 1953 sob o título de “Problemas da Língua Minóica”. Contudo, Georgiev não a designa sob a mesma capa de Sergi, mas debaixo da classificação de “Língua Minóica” que ele considerava tratar-se de uma dialecto de uma língua pré-helénica muito falada na bacia do Mediterrâneo e que julgava relacionada com o hitita e com outras línguas da Anatólia. É verdade – e John Chadwick[1] observou isso mesmo – que a maioria dos topónimos gregos não são formados a partir de palavras gregas. É o caso de Thermopylai (Térmopilas), Athenai (Atenas), Korinthos (Corinto), e muitos outros.

Dos três substratos que apontámos na secção anterior, é o Substrato Mediterrâneo que mais nos interessa. São diversas as provas linguísticas que apontam para a existência em tempos remotos de uma única língua falada nas regiões da bacia do Mediterrâneo. Não está no universo deste trabalho a sua exaustiva enunciação, mas, ainda assim, gostaríamos de listar os seus aspectos mais importantes. Tanto mais porque são traços que também se podem espelhar nas inscrições das estelas cónias:

  • Menendez Pidal: “passagem de f a h, mudança que, além da área hispânica, também se verifica noutras regiões: no norte da Itália, na região de Bergamo, no sul, na Calábria, região de Catanzaro, na Sardenha oriental, na região de Nuoro. Apesar disso, não podemos separar o fenómeno hispânico do substrato ibérico”;
  • Serafim da Silva Neto: “É ainda o caso das mudanças de nd em nn, mb em m, ld em ll, assimilações passíveis de se verificar em qualquer espaço ou tempo, mas que, por singular coincidência, ocupam áreas homogéneas no norte da Península Ibérica e no sul de Itália. A História, suporte humano dos factos linguísticos, esclarece a coincidência, pois aqueles câmbios se podem explicar por influência do osco-úmbrio, substrato das áreas italianas e elemento demográfico significativo na colonização do norte da Hispânia. É ainda, mais ou menos, o caso de câmbios como nt > nd; nk > ng; lt > ld, cuja explicação por influência do substrato fica evidente se atentarmos na coincidência das áreas.
  • No seu “Der Vokalismus des Vulgärlateins”, Schuchardt observava a proximidade linguística entre os dialectos do Sul de Itália e as línguas da Península Ibérica. Um paralelismo que antes também descortinara entre os dialectos galo-itálicos com os de França, os do Sul de Itália e os da Península. Como exemplo deixava as semelhanças entre o calabrês dassare, o siciliano dassari, o castelhano dejar e o português deixar.
  • Rohlfs descobria semelhanças entre os dialectos do Sul de Itália com o romeno, o sardo e o castelhano. Mencionava como exemplos timpa, fervere e afflare, assim como cras, gleba, gremia, horreum, pecus e murrus. Realçava sobretudo a extensa área dos verbos petere e applicare, que se estendia desde o Tejo até às margens do Mar Negro.

Todos estes linguistas concordam com a existência de um substrato linguístico comum às populações mais antigas da bacia do Mediterrâneo, uma camada étnica anterior às invasões indo-europeias e que parece encontrar as suas raízes nas populações neolíticas do Norte de África. Acreditamos que os cónios pertenciam a este substrato e esta será a fundação para o nosso ensaio de tradução.

Embora os autores citados – e outros mais – defendam portanto a existência de um substrato comum às populações neolíticas da bacia do Mediterrâneo. Outros, julgam que não se trata propriamente de uma família linguística mas de um agrupamento por localização de uma série de línguas sem qualquer relação genética, mas que não podem ser facilmente classificadas noutras famílias linguísticas.

É possível dividir este grupo Mediterrâneo em três subgrupos:

  • Línguas pré-indoeuropeias do Mediterrâneo Oriental;
  • Línguas não-indoeuropeias e pré-latinas da Itália e
  • Línguas dos Pirineus.

Do primeiro grupo temos como melhor e mais conhecido exemplo, a língua do Linear A cretense (datável do século XVI a.C.), a Escrita cipriota entre outras conhecidas também em Chipre e Creta. Permanecem ainda intraduzidas no essencial, apesar de terem sido já realizadas diversas arremetidas contra a Linear A, especialmente após o sucesso brilhante de Ventris em relação à Linear B.

Das línguas pré-latinas da península itálica temos como exemplo mais evidente o Etrusco. Aparentando, segundo se julga à língua raética e à da língua de Estela de Lemnos. Com estas já se tentado formado um certo “Grupo Tirrénico”, o que se nos afigura difícil, porque o que se conhece delas é tão pouco que se torna pouco mais do que conjecturável a existência ou não de traços comuns. É certo que existem paralelismos fonéticos e morfológicos, identificáveis sobretudo entre a razoavelmente conhecida escrita etrusca e raética, já que da estela de Lemnos pouco se sabe.

O último grupo é o das línguas pré-indoeuropeias da Península Pirenaica. Este é provavelmente aquele que mais testemunhos escritos deixou, exemplos que já abordámos noutro ponto. Apesar deste dinamismo em épocas pré-romanas e até durante a fase republicana da dominação romana na Península Ibérica estas inscrições e as línguas que elas registavam desapareceram. Alguns supõem que o basco seja uma das suas sobrevivências, mas de concreto não existem certezas quanto a esta certeza. A este grupo pertenceriam o antigo Ibero e a celtizada língua lusitana.

Em conclusão, e seguindo de perto a conclusão de Paul M. Dolukhanov, existem vestígios suficientes para ser possível defender a tese da existência de uma língua Mediterrânea e que incluía no seu seio o pré-Basco, o pré-Caucasiano, o Lígure, o Etrusco, o Sumério, o Hatíco, o Hurrita-Urartiano, o Elamita, entre outras. Todas estas línguas derivariam em primeira mão de uma língua falada na bacia do Mediterrâneo e áreas adjacentes na época da última glaciação, em pleno Alto Paleolítico entre 25.000 a 15.000 anos a.C.


[1] O mesmo Chadwick que contribuiria de um modo tão determinante para a tradução da escrita Minóica Linear B.

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Os Grupos Semânticos de Bouda

Em 1949, K. Bouda distinguia – no decorrer de um trabalho de aproximação entre o Indo-Europeu e as línguas Finlandesas – onze grupos semânticos para identificar palavras semelhantes entre essas duas famílias linguísticas:

1 ) Denominações de seres humanos;

2 ) Partes do corpo humano;

3 ) Plantas;

4 ) Industrias domésticas e caseiras;

5 ) Agricultura e gado;

6 ) Fenómenos atmosféricos;

7 ) Solo;

8 ) Numerais;

9 ) Tempo e

10 ) Movimento.

As palavras das línguas-hipótese que acima apontámos que possam ser colocadas em qualquer um destes grupos posicionam-me como candidatas prováveis a surgirem nos textos das estelas.

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Sobre o nome “Cónio”

No início do Neolítico, as populações Maglemosianas do Báltico introduziram na Europa – a partir da Ásia – o cão domesticado. Na Península Ibérica, a domesticação desse animal parece ter sido fruto da migração Capsense vinda do Norte de África por volta de 10.000 a.C. A utilização do animal na caça deu uma nova vantagem a essas populações. A pequena, mas significativa “revolução” pode ter influenciado as crenças religiosas. Aliás, os deuses de forma canídea são frequentes no Mundo: No Antigo Egipto, Anubis era o deus-cão protector das almas na sua caminhada no Além; Apuatua, uma forma primitiva de Osíris, era um deus-cão. Na Índia, Yama e Dharma assumiam também essas formas. Na Grécia, o cão era a sentinela das portas do Hades. Na mitologia gaélica, Cuchullin, mata o cão do Inferno e ocupa o seu lugar até que seja encontrado e treinado outro animal, recebendo o nome de cão (“Cu”) de Culann, isto é, o seu próprio nome. Não é contudo o exemplo único desta composição. Também Conchobar resulta da adição do prefixo “Con”, o genitivo de “Cu” (cão). Encontramos aqui uma forte possibilidade para a explicação do nome totémico dos Cónios. A terminação –ii, ou –nii está registada na língua guanche, eles também – como os cónios – descendentes de emigrantes norte-africanos e com o significado de “descendentes de” ou “pertencentes a” como em Canarii, nome pelo qual eram conhecidos os guanches da ilha de Tamaran. Encontramos outro exemplo desta sufixo mediterrâneo nas misteriosas torres de vigia da Sardenha, datadas da mesma época das inscrições cónias. Conhecidas na língua local, no singular, como nuraghe, no plural referem-se-lhes como nuraghi. Sendo assim –I poderia bem valer pelo plural.

Sendo assim, a palavra “conii” tantas vezes repetida nas inscrições das estelas pode significar algo como “filhos do Cão”, ou melhor, “descendentes do deus-Cão”. Existem duas objecções a esta tese: “con”, sendo um tema encontrado nas línguas célticas da Grã-Bretanha parece ser de origem indo-europeia; a outra está em que o cão foi introduzido a partir do Norte da Europa até ao Sul e não de Sul para Norte. Quanto à primeira: Desde o século XIX que se sabe que os intensos contactos calcolíticos entre o Sul de Inglaterra e a Península Ibérica levaram a alguma miscigenação entre iberos e celtas e pré-celtas na Inglaterra, sendo assim, não é de todo impossível que “con” resultasse desses contactos. Quanto à direcção da expansão da utilização do cão, isso só por si, não significa nada.

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Métodos de Decifração das Inscrições Cónias: Método Indutivo

Procura-se aqui obter o valor das palavras através da análise comparativa das frases e fórmulas empregues nas inscrições.

Na ausência de uma inscrição bilingue – que ainda pode ser descoberta – o estudo das inscrições cónias deve ser construído em torno do exame dos textos isolados e através da sua comparação minuciosa. Este método, contudo, exige muito tempo e intuição, algo que não dispomos propriamente em abundância… E além do mais, os seus resultados são frequentemente escassos e inconclusivos. No nosso caso, os textos disponíveis são tão restritos como, por exemplo, os milhares de inscrições funerárias etruscas permitindo apenas um conhecimento muito limitado da língua dada a repetição de formas funerárias, nomeadamente no nosso caso da frase15.jpg

No que diz respeito a formulas funerárias – e está para além de qualquer dúvida de que é este o teor da quase totalidade das estelas cónias – é razoável esperar encontrar outras semelhantes em inscrições do mesmo tipo descobertas em populações aparentadas às cónias. É assim necessário analisar as estelas gregas, latinas e etruscas, recolhendo essas fórmulas. De especial interesse serão aquelas que foram registadas na Península Ibérica e, especialmente, no Sul de Portugal.

John Chadwick no seu “A Decifração do Linear B” menciona ainda que na tradução de uma escrita antiga existem à disposição do investigador dois métodos distintos:

a) Análise Metódica:

b) Análise por Hipóteses: Por este processo, através da eliminação gradual de erros de cada uma das hipóteses colocadas, chega-se eventualmente à verdadeira. Não é impossível chegar assim a bom porto mas é sempre necessário validar o seu sucesso aplicando os seus resultados a material virgem, dado que não é possível aceder ao material original. Foi este o processo utilizado por Lopes Navarro, Moisés Espírito Santo e Nora V. Falashi nas suas teses. É também o processo que tentaremos seguir através daquilo que designámos por “línguas-hipótese”.

Não é contudo completamente impossível descobrir o grupo de línguas ou a língua conhecida mais aparentados com a utilizada pelos cónios nas suas inscrições. O conhecimento de que o Cretense Linear B (1400 a.C. a 1200 a.C.) empregava uma dialecto grego muito deve ao estudo estatístico da frequência das uniões entre pares dos signos desta escrita silábica e, a partir daqui, foi possível determinar o valor individual da maioria dos caracteres.

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Métodos de Decifração das Inscrições Cónias: Método Dedutivo

Trata-se de comparar as inscrições em análise com uma língua supostamente aparentada e deduzir, através desta comparação minuciosa, o significado das palavras das estelas a partir de palavras semelhantes na língua submetida a julgamento. Este processo depende sobretudo do estudo das mesmas palavras em diversas combinações, razão pela qual é também conhecido por “método combinatório”. Este método pode permitir aclarar ou identificar o sentido de uma palavra e, posteriormente, pode também ser utilizado para – através dessa palavra de “controlo” – possibilitar aferir da correcção de uma tradução, uma vez que esses significados são independentes da valoração fonética dos caracteres que a compõem. Se por exemplo, uma dada palavra é identificada como representando “guerreiro” e se foneticamente lhe é reconhecido o mesmo valor, estamos perante uma confirmação da interpretação e se, pelo contrário, encontramos uma negação, em que o valor conceptual de uma dada palavra discorda do seu fonético urge repensar todo o sistema de interpretação em análise. Conforme resulta das linhas anteriores é essencial ao bom sucesso da aplicação deste método um excelente conhecimento das morfologia dos caracteres estudados, de modo a evitar a confusão entre dois signos distintos e a distorção evidente que isso provocará na análise. A catalogação exaustiva é uma necessidade da aplicação deste método sabendo nós que a maioria das descobertas resultantes destas análises vieram mais de grupos de caracteres semelhantes do que de grupos absolutamente idênticos. A este respeito, temos um bom exemplo nas variações de 14.jpg de que falaremos no próximo capítulo. Finalmente, é a busca de um padrão coerente, repetido e reproduzível em novas inscrições.

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A Escrita Cónia: Alfabética ou Silábica

A maior e principal divisão dos sistemas de escrita fonéticos é aquela que os divide em alfabéticos ou silábicos. As escritas mais antigas eram essencialmente silábicas, um sistema com maior número de caracteres que o alfabético, mas que se baseia no facto de a sílaba ser a menor unidade em que é possível dividir uma palavra. Os silabários são, regra geral, mais flexíveis que as escritas ideográficas – que exigem um número muito maior de signos – mas quando as línguas que os utilizam têm mais do que duas consoantes tornam-se sistemas de manuseio complexo e pouco prático. Foi perante esta dificuldade que algures naquilo que hoje é conhecido como “Médio Oriente” foram inventados os alfabetos com os seus 20 a 26 signos distintos.

A Escrita Cónia apresenta um número de caracteres – 68 – que o coloca à primeira vista dentro do grupo dos silabários. Contudo, muitos dos seus caracteres não passam de caracteres compostos, de resultado da união gráfica de dois ou mais caracteres. Existe também um pequeno grupo de caracteres que parece de teor ideográfico[1] e alguns outros de efectivo teor silábico, em manifesta minoria e resultado de contactos com o silabário tartéssico, utilizado no lado Oriental do Guadiana. Uma opinião que aliás, é idêntica à do erudito espanhol A. Tovar quando afirma que: “O interessantíssimo grupo do Sul de Portugal (…) como demonstrei, não tem nada ou quase nada de silábico.


[1] Uma mistura que também acontece no Linear B cretense.

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A Escrita da Sardenha

A Escrita da Sardenha poderia ser a que mais impacto teria no nosso estudo. Com efeito, sendo o sardo uma língua que a maioria dos autores identificam como “mediterrânea” , e tendo em conta que também ela, à sua semelhança usou como ponto de partida o alfabeto fenício, tudo isto a colocaria como uma passagem obrigatória a quem pretendesse estudar a Escrita Cónia. Os processos de adaptação fonética e de caracteres podiam portanto ser de grande importância. Infelizmente, existem apenas duas inscrições incompletas e uma completa, a chamada “Pedra de Nora”, todas datadas do começo do século IX a.C. Ou seja, a escassez de elementos conhecidos sobre a Escrita da Sardenha impede qualquer uso prático da mesma no âmbito de um estudo como o nosso.

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A Escrita Cónia: Três Problemas de Tradução

A Língua da Escrita é Total ou Parcialmente Conhecida Mas a Escrita Pode ser Desconhecida

Foi este o caso da tradução do Persa Antigo, cumprida por Grotefend em 1802. Quando Grotefend encetou os seus trabalhos a escrita Cuneiforme era desconhecida, mas o persa era relativamente conhecido através do estudo dos nomes próprios e dos textos do Avesta.

A Língua da Escrita é Conhecida Mas a Escrita é Desconhecida

Exemplo de um destes casos é o da Escrita Etrusca, escrito com uma variante do alfabeto grego, mas utilizando uma língua desconhecida e isto apesar de – ao contrário do Cónio – existir um numeroso lote de inscrições.
A Língua da Escrita é Desconhecida e a Escrita é Desconhecida

O terceiro problema que pode enfrentar quem quer que se aventure a procurar traduzir uma escrita desconhecida é o de encontrar uma escrita desconhecida que tenha sido utilizada para registar uma língua desconhecida. A tarefa não é absolutamente impossível, como demonstrou o sucesso de Ventris no seu combate pessoal contra a misteriosa Linear B minóica. Surge aqui a questão de saber em qual destes três grupos devemos colocar a Escrita Cónia, uma vez que a sua língua – apesar de algumas propostas frustadas – continua desconhecida. A utilização de uma maioria de caracteres de inspiração fenícia aponta para a sua pertença ao segundo grupo, mas a presença de um numeroso lote de signos novos empurra-a para o terceiro grupo. Contudo, não julgamos que este lote seja tão numeroso que justifique a sua inclusão no terceiro lote. Sendo assim, vamos trabalhar sob o pressuposto de que a maioria dos signos utilizados na Escrita Cónia seguiram a matriz fonética afro-asiática (semítico/fenícia).

Perante uma escrita nestas condições acredita-se geralmente que a única espoleta para a sua compreensão é a descoberta de uma inscrição bilingue. Foi o que sucedeu com a escrita hieroglífica egípcia que, com a descoberta da Pedra de Roseta pelas tropas napoléonicas, permitiu a Champollion chegar à compreensão dessa escrita a partir da compreensão dos nomes contidos na inscrição grega com os caracteres incluídos nas cartelas do texto hieroglífico. Para azar de quem se dedica como nós ao estudo da Escrita Cónio não existe uma inscrição semelhante entre as estelas cónias conhecidas.

Na falta dessa inscrição bilingue resta ao investigador uma última arma: a criptografia. Pela sua utilização é agora teoricamente possível traduzir qualquer código desde que tenhamos o número suficiente de textos codificados. Não cabe aqui enunciar pormenorizadamente os detalhes desta abordagem, mas o processo de análise criptográfica passa – grosso modo – por catalogar todas as inscrições conhecidas de uma dada escrita procurando identificar matrizes e repetições. Perante o número suficiente de textos é possível identificar um conjunto de caracteres como sendo, por exemplo, um artigo. Com este tipo de conhecimento, e perante outros, tais como a função da inscrição, a posição relativa é possível levar ainda mais longe essas conclusões. Perante inscrições utilizando uma língua desconhecida, como é o caso das inscrições cónias, estamos perante um problema evidente: é possível chegar à compreensão de um grupo de signos sem chegar a saber como o pronunciar. Em último grau, é possível compreender todas as inscrições de uma determinada escrita sem nunca alcançar a compreensão do seu valor fonético.

Uma vez identificada a natureza do problema que enfrentamos, urge seguidamente identificar o tipo de escrita que encontramos na Escrita Cónia. Existem apenas três tipos básicos de passar uma língua a formato escrito e todas as escritas conhecidas utilizam um destes sistemas uma combinação. O primeiro usado pelo Homem foi a representação de um conceito através do seu desenho. Nasceu assim a escrita pictográfica. Começando geralmente com formas muito gráficas estes signos vão-se gradualmente estilizando até que, nas suas formas finais, pouco mais resta de identificável com o objecto que lhe deu origem. Embora possam parecer um tanto primitivas, actualmente são ainda muitos os utilizadores de uma escrita deste grupo: falamos da escrita ideográfica chinesa.

Para além do registo ideográfico existe ainda dois outros métodos de passar uma língua a escrito: ambos se baseiam no registo sonoro das palavras. Neste método fonético aparecem duas variantes: o registo de grupos de sons, na sua forma silábica ou o registo de sons isolados, na sua forma alfabética. O registo silábico produz um número total de signos muito inferior ao necessário a uma escrita ideográfica, mas substancialmente superior ao necessário a uma escrita alfabética. Com efeito, a escritas alfabéticas precisam apenas entre 26 a 35 signos para representar todos os fonemas da língua.

Comutação e Monemas

Quando um linguista enfrenta uma dada mensagem escrita uma das suas primeiras tarefas consiste em identificar as unidades reais da mensagem (Monemas). Por exemplo, perante a frase “Aqui Jaz José”, o linguista extrairá pelo menos dois elementos, “Aqui Jaz” e “José”, que depois através de uma operação de Comutação poderá aplicar noutras frases, tais como “Aqui jaz Manuel”. Um método que não é contudo completamente impermeável a erros, como demonstra Georges Mounin: “Assim, por exemplo, a existência, no exemplo francês, de um segmento comutável –ère (p –ère, m –ère, fr –ère) susceptível de ser interpretado como “parente”, poderia incitar a crer na existência de unidades p- (“do sexo masculino”), m- (“do sexo feminino”), fr- “descendente do mesmo grau que o ego”). Mas a própria comutação mostraria rapidamente que não era possível voltar a empregar essas pretensas unidades noutras mensagens. Nunca se encontraria nessa língua nem pcousin ou mcousin, mas cousin e cousine; nem poncle e moncle.”

Algumas Generalidades

As escritas ibéricas, como já vimos, pertencem ao grupo de escritas derivadas do cartaginês. A Escrita Cónia parece aparentar-se mais ao Fenício do que propriamente ao cartaginês, como parece suceder com as outras escritas da Península Ibérica. Mas descendam do fenício ou do cartaginês, todas as escritas da família canaanita têm algo em comum: o número total de caracteres e o seu valor fonético manteve-se essencialmente o mesmo e a direcção da escrita é maioritariamente da direita para a esquerda, como também demonstra o facto de encontrarmos espaços vazios à esquerda de quase todas as inscrições. Daqui se pode razoavelmente inferir que o valor dos caracteres na escrita cónia permanece essencialmente o mesmo. Sabemos que o repertório de signos da Escrita Cónia é muito mais reduzido do que o da Meridional. Sendo assim, podemos partir do princípio de que a signos semelhantes possam corresponder valores fonéticos muito semelhantes. Algo que assume ainda mais força se admitirmos a relação genética entre a Escrita Cónia e a Meridional.

Existem vários exemplos de caracteres que resultaram da união de dois ou mais caracteres. Este fenómeno não é único no universo das escritas alfabéticas e silábicas: o cirílico, forçado pela existência de fonemas estranhos aos do grego, produziu novos caracteres ligando dois caracteres gregos. O mesmo mecanismo surge em vários caracteres cónios.

O alfabeto descoberto recentemente é, obviamente, de grande importância para o nosso estudo e vital para a determinação do valor fonético dos símbolos. Ora precisamente esse alfabeto mostra nas últimas posições os caracteres que são estranhos aos sistemas fenícios e cartagineses. O exemplo do alfabeto latino e do fenómeno por ele sofrido após a invasão da Grécia no século I a.C. revela-nos que os romanos então para registarem os sons Y e Z acrescentaram esses novos caracteres ao seu alfabeto e os colocaram, precisamente, no final da lista de letras. Deduzimos então que os caracteres finais representam fonemas que não existem nas línguas afro-asiáticas. Aliás, a sua própria existência nega substância aqueles que defendem que o cónio era uma língua pertencente a este ramo[1].

Se adoptarmos o sistema de leitura fonética de Javier de Hoz, um dos fenómenos mais curiosos da Escrita Cónia é a aparição frequente de sequências de caracteres silábicos seguidos de vogais, formando conjuntos ka-a ou ke-e. A sua frequência parece excluir o acaso e merece reflexão. Tratar-se-ia de um modo de acentuar vogais, prolongando a sua intensidade e duração vocal? De qualquer modo, trata-se de um traço distintivo da Escrita Meridional e uma indicação que a língua falada dos dois lados do Guadiana não era a mesma.

[1] Como Oliveira Martins e, mais recentemente, Moisés Espírito Santo.

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Tabela de Estelas Cónias: . Generalidades aplicáveis à tradução de todas as estelas cónias

Nesta tabela utilizaremos unicamente os caracteres da Tabela de Caracteres. Os caracteres cónios desenvolvem-se sempre na mesma direcção da escrita e da leitura, mas nas reproduções não respeitaremos essa convenção de modo a ser possível utilizar os mesmos caracteres da supracitada tabela de caracteres.

A tarefa de traduzir as estelas é – já o dissemos – de uma grande dificuldade. Prova disso mesmo é o facto de terem resistido a todas as tentativas de tradução até agora ensaiadas. Mas temos um instrumento precioso e que foi, por exemplo ignorado pelo de Nora Falashi: o tema das inscrições. Com efeito, praticamente todas as estelas que foram encontradas em contextos arqueológicos enquadráveis foram-no no âmbito de enterramentos humanos. Um teor que foi reforçado pela descoberta da Estela 40 (“Mealha III” de Caetano Beirão) que apresentava cunhas de pedra, junto da sua base, o que veio a comprovar a sua posição erecta sobre o túmulo, algo que muito provavelmente se repetia por todas as outras estelas.

Confirmado que está o carácter funerário das inscrições podemos acrescentar a esta uma outra certeza que se reflectirá provavelmente nos textos nelas grafados: a crença numa vida no Além, num “mundo dos mortos”. A existência de diversas divindades funerárias ctónicas (a que aludimos noutro ponto desta obra) e, sobretudo, os enterramentos de indivíduos em posição fetal indicam a crença num novo nascimento, num novo mundo.

Outro ponto fundamental para alcançar o objectivo a que nos propomos, que é a tradução da Escrita Cónia, consiste em pré-determinar quais são os conceitos que poderão constar nas inscrições. Varela Gomes acredita, muito razoavelmente, que a temática presente nas narrativas das estelas da Idade do Bronze deverá permanecer nos textos das estelas cónias. Ou seja, devemos procurar as palavras e conceitos que surgem nestas no universo das línguas-hipótese que listámos em capítulo próprio.

Conforme indicámos no capítulo dedicado às divindades indígenas cultuadas sob o domínio romano no Sul de Portugal, Endovélico é o deus de quem nos restaram mais provas e vestígios de devoção. O número relativamente largo das estelas com o seu nome permite-nos também adivinhar quais eram os processos de substituição fonética em voga entre essas populações. Não seria de estranhar se os encontrássemos também nas estelas cónias. Falamos nomeadamente das substituições o/e, e/o e l/ll testemunhadas pelas três formas: endovellico, endovollico e endovolico.

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A Escrita Cónia: Tabela de Repetições de Pares

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