A Escrita Cónia

Resposta a Francisco Manuel Napoleão sobre a Escrita Cónia

“Que grande confusão aqui vai, e que história tão especulativa. Antes de mais são tudo tretas!”
> Não são “tretas” são opiniões pessoais, devidamente fundadas. Responderei apenas de memória, dado que deixei este tema vão já mais de dez anos… reparei contudo que somos citados como fontes no artigo da Wikipedia sobre os Cónios, pelo que considero o recurso a esse termo como fruto do entusiasmo típico de quem foi mordido pelo “bicho” deste fascinante mistério sud-lusitânico…

“Em Portugal não se usa quase nunca a expreção escrita “sud-lusitana” isso é usado apenas na literatura espanhola. O mais comunemente usado e correcto até novas descobertas é “escrita do sudoeste” e mais nada. Nem sequer é certo que os cónios dos gregos ou o cinetes dos romanos são o povo do sudoeste.”
> Decerto. Mas a expressão nem por isso deixa de ser válida. Ela refere-se a uma escrita (a única indígena) que era usada na região sul da província romana da Lusitânia. Tecnicamente, a designação é válida e não pode ser descartada de forma automática apenas porque “é usada apenas na literatura espanhola”. O termo “Escrita do Sudoeste” é de facto mais comum em Portugal, mas eu prefiro (e tenho essa liberdade) a designação “Escrita Cónia” porque dessas opções é a única que agrega do étimo desse povo do sul do nosso atual território nacional.
> Não é certo que os Cónios/Cinetes são o povo do Sudoeste, mas não poderão ser outra coisa. As datações das necrópoles descobertas por Caetano Beirão e onde foram encontradas Estelas em Escrita Cónia são consistentes com as datas Clássicas e não existem vestígios arqueológicos que comprovem outra grande civilização nessa região do nosso atual território.

“No início da Idade do Bronze o povo do Sudoeste (o das Antas e cromeleque etc) desce das montanhas e dos seus castros e acampa em pequenos povoados em terras baixas, geralmente muito férteis e cujo relevo natural permite rotas comerciais do interior à costa do Alentejo Litoral, Foz do Sado ou à Costa Algarvia.”
> Não é seguro que este povo da Idade do Bronze seja diretamente aquele que mais tarde deu origem à civilização da Idade do Ferro, no século IV a.C. acredito que houve entretanto o afluxo de populações estrangeiras, fenícias (que legaram a maioria dos carateres da Escrita Cónia) e eventualmente, povos do norte de África, que reforçaram os laços linguísticos comuns com os Tamazight (Cabilas) do Tardenoisense dos dois lados dessa banda do Atlântico.

“Mais tarde dedica-se também à exploração mineira. Por volta do séc. VIII antes de cristo adequire a tecnologia da escrita. O Alfabeto terá mais parecência com um alfabeto hihita do mar negro, e não fenício, como se lê muito por aí.”
> A maior parte dos carateres derivam diretamente dos carateres fenícios e terão um valor fonético (ou semisilábico, porque se trata de um semisilabário) semelhante ao seu correspondente fenício ou grego (na minoria de carateres com essa filiação). Morfologicamente não vejo semelhanças com nenhuma das escritas hititas, ainda que existam carateres idênticos, estes encontram na Fenícia a origem comum aos da Escrita Cónia…

“Num processo muito longo do séc. VIII ac ao II ac. estas populações tenderão a abandonar o padrão de habitações redondas para rectangulares por vezes com divisórias internas e casas a ladear ruas, assim como distinções mais claras entre zonas produtivas, habitacionais e necrópoles. Sabemos que estas populações se orientalizaram profundamente, tais como os povos do Castro da Azambuja. Encontram-se peças de várias origens do mediterrâneo, cerâmica grega e fenícia assim como do Levante.”
> É verdade. Os Cónios estavam plenamente inseridos nos circuitos comerciais do Mediterrâneo dessa época, mas parece que apenas por via interposta, através dos Tartessos e dos Fenícios, não tendo nem frota comercial, nem grandes portos marítimos.

“Foram as poucas estelas encontradas em ambientes urbanos actuais, Tavira, as estelas são quase todas contextualizadas em pequenos povoados mineiros e agrícolas, e algo abastadas. Perante a delicadeza dos artefactos encontrados as estelas estão quase todas rudemente gravadas. O que leva a supor muitas hipóteses uma delas de que nestas aldeias haveria pouco uso para a escrita, contudo o uso perlongado da mesma e até a evolução nos caracteres indica que fora usada com praticabilidade. Não sabemos quais eram os centros urbanos deste povo, mas tudo leva a querer situarem-se em actuais centros urbanos, daís a dificuldade arqueológica. Usariam no seu quotidiano provavelmente materiais perecíveis para escrever tais como tecido, barro seco, ou madeira. Não existem sinais de hierárquias sociais fortes nem do uso de escravos.”
> É impossível que uma escrita tão sofisticada e com evidentes períodos distintos não tivesse sido gerada num ambiente culto, ou seja, com produção de mais materiais além das estelas. Existem exemplos de carateres cónios na cerâmica (a assinatura do ceramista ou a marca do proprietário), mas o principal meio era perecível e perdeu-se: papiros, pergaminhos ou madeira eram certamente usados de modo corrente, já que é impossível que uma escrita destas fosse usada apenas num contexto funerário.

“A escrita do sudoeste desenvolveu sobre um alfabeto semita um pseudo-silabário para as letras T/D, K/G, B/P, falso porque contudo o caracteres silábicos eram sempre acompanhados pela letra vogal correspondente (redondâcia).”
> Daí o semissilabismo que acima indico e que é a única explicação plausível para a quantidade de carateres diferentes encontrada: demasiados para um alfabeto, de menos para um silabário.

“O sistema vocálico do sudoeste é inovador e tem paridade com o grego.”
> Fruto dos contactos comerciais com esses rivais históricos dos fenícios…

“Acredita-se que a escrita do sudoeste terá sido levada através do comérico para o levante, escrita tratésia e para o norte onde fora muito prefeccionado pelos celtiberos. Tanto os tartesos como os celtiberos usaram um silabário puro, i.e., perderam os sistema vocálico. Isto também poderá indicar de que se tratam de línguas muito diferentes, a base celtoide dos povos do sudoeste exigiria uma maior presença de vogais do que as línguas de base do ibero.”
> Base celtóide? Mas os primeiros Celtas (de facto, Celtici) chegaram ao Sul muito depois dos Cónios estarem aqui já estabelecidos e firmaram-se a Ocidente dos atuais Alentejo e Algarve, deixando as outras regiões para os Cónios. Não havendo duas “escritas do Sudoeste” (Cónia e Celtici) resta crer que não adotaram a escrita ou que continuaram a usar a Escrita Cónia, com a sua língua, o que seria compatível com o seu escasso número e recorda o fenómeno da ocupação dos Suevos na antiga Galiza: poucos invasores, dominantes e uma sociedade indígena relativamente intocada.

“Não aparece em nenhuma estela a palavra cónio. Aparece sim um conjunto de caracteres que parecem indicar a função das estelas, e o mais sugerido tem sido “aqui jaz”.”
> Obviamente, é discutível… a expressão mais comum nestas estelas é algo que leio como Lopes Navarro: “NADOCONII” com variantes CONI, CONII ou até CONIUM. Obviamente, “NADO” significa “nascido”, “CON” é o étnico e o sufixo final designa a filiação nesse povo.

“Tampouco a função das estelas está totalmente esclarecida. A maioria das estelas encontradas foram reutilizadas (em especial pelos romanos) e estão fora de contexto. Algumas foram econtradas próximo das necrópoles. A maioria das necrópoles saqueadas e violadas.”
> Mas todas as encontradas em contexto, estão num contexto funerário. A presença regular da mesma fórmula final reforça essa utilização funerária, assim como a presença evidente de antropónimos em quase todas elas.

“Encontraram-se estelas na Extremadura espanhola, mas em muito menor número, e são muito mais delicadas do que as encontradas em Portugal o que poderá sugerir que fossem ofertas de visitas aos famosos santuários que havia por essas zonas.”
> Ou pequenas cidades dispersas do outro lado do Anas, teve que prefiro. Porque ofertariam estelas numa língua diferente da do povo do tumulado?

“Por volta do séc. II ac o sul do Alentejo sofre uma invasão de tribus celtas. O povoamento reocupa os antigos castros do início da idade do Bronze e desaparecem no Alentejo quaisquer vestigios da civilização do sudoeste. No Algarve os fenícos instalam feitorias ou mesmo colónias.”
> Correto. Mas eram já celtas misturados com povos ibéricos, daí o termo “céltico” ou “celtici” que reforça esse mesmo caráter miscigenado.

“Logo após a conquista romana serão cunhadas moedas com esta escrita contudo: Não é claro se é turdetana ou do sudoeste, nao é claro que turdetanos tenham ali estado, e nao é claro que tivessem sido cunhadas para uso local ou se foram cunhadas com vista a servirem de pagamento num outro entreposto comercial.”
> Os carateres são cónios… mas concordo, num ponto. Podem não ser originárias de Santiago do Cacém, mas de uma cidade perdida mais a sul e terem sido para aqui levadas no contexto de um qualquer processo comercial.

“Não há quase nada que possamos dizer sobre a civilização do sudoeste e a sua escrita. Terão de se obter muitos mais artefactos para se poderem fazer mais afirmações. Tém sido feitos avanços grandes nos últimos 10 anos com a descoberta de novos documentos, estelas e faiança, e estudos na área da epigrafia. Sem uma espécie de pedra da roseta pouco se poderá decifrar. Descobrir um povoado de tamanho médio sem ter tido continuação histórica para além do sec. I ac também ajudaria muito a fazer-se luz sobre esta civilização cada vez mais mítificada.”
> O melhor que há é ainda a “estela de estudo” encontrada em Espanha… com duas linhas, a do mestre e a do estudante, mais imperfeita e abaixo da primeira.
> Restam as análises estatísticas… dificultadas pela relativa escassez de materiais achados. A tradução da Escrita Cónia é um problema difícil, por estas condições… mas não impossível, tendo em conta que a maior percentagem dos textos são fórmulas funerárias e antropónimos.

Fontes:
http://escritadosudoeste.no.sapo.pt/caracteres.html
http://www.facebook.com/Francisco.Napoleao
http://pt.wikipedia.org/wiki/C%C3%B3nios
http://movv.org/category/a-escrita-conia/
http://movv.org/2007/11/26/os-valores-foneticos/
http://pt.wikipedia.org/wiki/C%C3%A9lticos

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Merritt Ruhlen e Murray Gell-Mann descobriram a “mãe de todas as línguas”?

Merritt Ruhlen (http://www.syncopatedprod.com)

Merritt Ruhlen (www.syncopatedprod.com)

Uma das maiores questões da paleolinguística é a de saber qual foi a “mãe de todas as línguas” e como seria esta língua. Desde à algum tempo que se sabe que palavras como “ma” (mãe) e “i” para denota proximidade do orador, “ku” (quem), “pal” (dois), “boko” (braço), “sum” (cabelo), entre outras pertencem aos chamados “cognatos globais” estariam já presentes nessa proto-língua.

A linguística atual acredita que esta proto-língua era usada à cerca de 50 mil anos atrás, mas além dos cognatos do parágrafo anterior e de mais alguma mão cheia de outros pouco mais se sabia. Até agora.

Dois investigadores norte-americanos, Merritt Ruhlen e Murray Gell-Mann agruparam mais de 220 línguas pela forma como usam sons semelhantes para designar objetos e conceitos identicos. Os dois investigadores tambem concluiram que as línguas com a construcao sujeito-verbo-objeto (por exemplo, “tu-viste-oceu”) estão ligadas geneticamente umas às outras, e que, consequentemente, a língua original das línguas atuais também seguia essa construção.

Fonte:
http://www.newscientist.com/article/dn21028-language-50000-bc-our-ancestors-like-yoda-spoke.html?DCMP=OTC-rss&nsref=online-news

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E a língua-mãe de todas as línguas humanas é o… Khoisan (click! click!)

Quentin Atkinson (http://www.3news.co.nz)

Quentin Atkinson (http://www.3news.co.nz)

Um psicólogo evolucionista neozelandês acredita ter descoberto a língua-mãe de todas as línguas humanas do globo. Trata-se do Dr. Quentin Atkinson da Universidade de Auckland e o seu trabalho foi desenvolvido em torno de uma aplicação informática que analisou 504 línguas modernas identificando uma língua comum que seria falada pelos primeiros Homo Sapiens no sul de África à cerca de 50 mil anos atrás.

A análise informática do Dr. Quentin Atkinson identificou o Khoisan, uma língua ainda hoje usada pelos Bosquímanos do deserto do Kalahari como sendo a língua viva mais próxima desta língua-mãe.

A atenção de Atkinson focou-se nos fonemas, as entidades linguísticas que compõem as palavras e descobriu que as línguas com mais fonemas eram usadas em África e que as que tinham menos fonemas era as da Polinésia e da América do Sul. A conclusão foi imediata: os locais habitados há mais tempo pelo Homem tinham mais fonemas e os há menos tempo, menos: Algumas línguas dos bosquímanos tinham mais de 100 fonemas, enquanto que as línguas da Polinésia tinham apenas 12.

A conclusão do especialista neozelandês é bastante polémica porque os paleolinguístas não acreditam que existam nas línguas modernas nada que as faça recuar mais do que 9 mil anos, mas ninguém contesta a solidez da metodologia empregue nem a realidade deste fenómeno…

Fonte:
http://www.stuff.co.nz/science/4891397/Kiwi-discovers-mother-of-language

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Os Invasores célticos e o colapso da Civilização Cónia

É por volta do século V a.C. que as regiões a Sul do Tejo assistem à chegada de vagas de invasores vindos do centro da Península ibérica que criam aquela civilização que nos é actualmente conhecida sob a designação de “II Idade do Ferro”. Seriam estas populações[1] que, mercê das suas repetidas investidas e através de um denso processo de assimilação cultural e linguística levariam ao termo da civilização cónia que elegemos como objecto de estudo. Os enterramentos tumulares, com estelas escritas, terminam, e passam a surgir nas estações arqueológicas rituais de incineração, com recolha de fragmentos ósseos dentro de urnas, reveladores da introdução de novos hábitos funerários. J. M. Arnaud e T. J. Gamito encontram cerâmicas decoradas de influência celtibérica que testemunham essas movimentações de povos em direcção ao Sul a partir da Meseta. Curiosamente, ou talvez não, todas estas transformações deste lado do Guadiana coincidem com a decadência do potentado “tutelar” de Tartessos e com o declínio da presença grega na Península após a vitória cartaginesa na Batalha de Alalia. Quebrado o poder do “protector” tartéssico estes aguerridos povos de matriz celta ter-se-iam sentido livres para avançar para Sul acabando eventualmente por chegar ao Cuneum Ager.

Perante esta invasão assistimos a uma multiplicidade de reacções. Temos por um lado, violações de túmulos e broches de bronze inacabados em vários povoados do Baixo Alentejo, juntamente com cerâmica quebrada e madeira queimada (Fernão Vaz); mas temos também estelas inscritas que foram reutilizadas o que indicia um repovoamento com novas populações. O facto de serem desta época de transição as últimas estelas revela uma descontinuidade cultural com os povos da Meseta, e o abandono de diversos povoados revela novas prioridades de povoamento, mais viradas para o litoral do que para os circuitos comerciais terrestres com tartessos que serviam de base à economia dos cónios. Revela também um grau de violência relativamente elevado nestas movimentações populacionais, um grau demasiado elevado para as pacíficas, não-fortificadas povoações cónias do Cuneum Ager.


[1] Desconhecedoras de qualquer sistema de escrita.

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Palavras/Conceitos que podem constar das Inscrições Cónias

“Orar”

Nas suas escavações no Sul de Portugal, Mário Varela Gomes descobriu várias estelas datadas do Bronze Final em que duas figuras antropomórficas que colocadas perto de sepulturas se referiam obviamente ao indivíduos tumulados. Situadas na mesma região geográfica onde a civilização cónia conheceu maior influência (no Algarve), as figuras, de tronco triangular e de pernas abertas em V erguem os braços até à altura dos ombros e têm os dedos esticados em atitude de oração. Estas estelas da Figueira (concelho de Vila do Bispo) pertencem a uma época em que ainda não era usada a escrita, mas a população local, o sistema cultural e religioso e a língua devem ser os mesmos que os cónios usavam durante a Idade do Ferro. Sendo assim, não é improvável que os mesmos temas destas estelas da Idade do Bronze subsistam nas estelas inscritas da Idade do Ferro que servem de objecto ao nosso estudo: “o guerreiro em atitude de oração”, a mesma frase deve constar de pelo menos algumas estelas cónias.
Armas e Cães

A representação de lanças, escudos redondos, escudos que apresentam três círculos concêntricos e escotadura em V é comum na arte antropomórfica da Idade do Bronze. Curiosamente também o cão é representado em pelo menos três estelas[1], ao lado das armas do guerreiro tumulado. Esta presença de armamento subsiste na Idade do Ferro[2], em que são encontradas dentro de algumas sepulturas que apresentavam estelas inscritas.

Daqui se infere que palavras referentes a armamento da Idade do Bronze devem constar muito provavelmente das frases presentes nas inscrições cónias, assim como palavras referentes a “cão”. Ressalve-se aqui a menção que fizemos noutro local quanto ao papel do canídeo enquanto símbolo totémico dos cónios e como origem do próprio étimo “cónii”. Assim se explica esta estranha repetição do animal, aliás também existente na parte final das inscrições (“KONII” e “KONI”).

A Espiga dos Nomes Étnicos

Os nomes étnicos inscritos nas estelas cónias terminam sempre com um carácter que graficamente se assemelha a uma espiga. Este carácter pode ser dobrado, talvez para induzir o sentido plural, mas estas espigas múltiplas não são novas no sistema de signos da Idade do Bronze. Na estela de São Martinho II Varela Gomes encontrou três ramos triplos[3] que identificou como símbolos de fertilidade. Esta leitura é perfeitamente coerente com o sentido de pluralidade. A sua aparição no final do tema CON-, que já identificámos com o cão, o animal totémico destas populações, pode significar “filhos de CON”, ou melhor ainda, “filho(s) do Cão”.

O Caracter Taurino

Já vimos nas linhas e parágrafos anteriores a importância do culto taurino nas civilizações ibérica da Idade do Bronze e do Ferro. Não questionamos aqui a tese de M. Almagro que defendia a origem Oriental do culto e a importação do culto tírio de Reshef, mas é inegável que os símbolos ligados a esse deus, os cornos do touro são frequentes nas representações antropomórficas no Sul da Península Ibérica e especialmente nas de guerreiros. No Mediterrâneo Oriental, as representações deste tipo estão associadas aos conceitos de poder e fecundidade e é provável que iguais significados estejam implícitos nas figurações peninsulares. Nas estelas cónias a aparição do caracter taurino é relativamente rara e incomum, mas aparece em praticamente todas pelo menos uma vez e sempre antecedendo o étnico “CONII”, poderá ser assim um dos raros (juntamente com os ícones solar e lunar) ideogramas presentes na Escrita Cónia, um signo para “pertencente ao bravo clã dos Filhos do Cão (os Conii)”.

A Terminação “briga”

É conhecida a presença de cidades com a terminação céltica “briga” naquela região que é conhecida como “Terra Cónia”. É o caso de Lacobriga, no Promontório Sacro, entre algumas outras. Por essa razão, a terminação –briga é uma das prováveis presenças nas inscrições das estelas cónias, especialmente nas mais tardias, que já são contemporâneas da fase decadente da Civilização Cónia e em que os célticos já viviam entre as populações cónias.

Dos Nomes Pessoais e Familiares

Nas sociedades tradicionais, a escolha dos nomes para a criança que acabava de nascer era uma decisão muito importante, com um forte significado religioso e uma influência determinante para o resto da vida da criança. Em primeiro lugar, o nome escolhido iria [4]determinar aquilo que seria a vida adulta da criança baptizada. Em segundo lugar, dar-lhe-ia a obrigatoriedade moral, religiosa e psicológica para agir consoante o seu nome. O factor continuidade e tradição é também muito comum entre as culturas antigas. Assim se explicam os nomes que não passam de continuações dos nomes dos antepassados, do pai, nas culturas masculinas e solares, da mãe, nas culturas femininas e lunares.

Por outro lado, nas sociedades tradicionais, a principal responsabilidade de cada indivíduo era velar pela transmissão da honra e do nome familiar aos seus descendentes, enriquecendo-o se possível através do cumprimento de feitos notáveis ou heróicos. Deste cumprimento dependia a sua própria imortalidade e por essa razão a representação do seu nome, ou da sua figura, nas estelas funerárias é uma presença obrigatória na maioria das culturas tradicionais. Aplicando esta teoria às estelas cónias podemos desde logo inferir que o nome do indivíduo tumulado é nelas presença obrigatória. Outra presença muito frequente deverá ser a fórmula funerária tradicional, no nosso caso algo como “nadoconio”. Somente nas estelas que apresentam uma decoração mais elaborada e um texto mais extenso (algo que, logicamente, coincide) é encontraremos palavras mais funcionais.

Jean Haudry (“Os Indo-europeus”) descreve-nos o tipo de funções adequado segundo o nome nas civilizações indo-europeias: “Cada condição social tem os seus ideais e, consequentemente, os seus nomes, como aliás recomendam as Leis de Manu II, 31-32: o nome de um brâmane deve ser de bom augúrio; o de um ksatriya deve exprimir poder, protecção; o de um vaisya, riqueza e prosperidade; o de um sudra deve reflectir a sua condição servil e desprezível. É desse modo que são designados os primeiros representantes das classes sociais nórdicas no Canto de Rig: os filhos de Servos (Thraell) chamam-se Gritador, Camponês, Lenha; as do Homem livre (Karl), Homem, Bravo, Fiel; as do Nobre (Jarl) Filho, Herdeiro, Chefe e o mais novo, “aquele que conhece as runas”, Rei.” Como este tipo de mecanismos são geralmente comuns a todas as sociedades tradicionais[5] será razoável conjecturar que encontraremos nos nomes presentes nas estelas que servem de objecto ao nosso estudo exemplos semelhantes.

Uma outra observação nos surge ainda a propósito dos antropónimos: Ventris descobriu nas inscrições do Linear B Minóico um conjunto de palavras derivadas e construídas a partir de nomes de cidades mas que apresentavam um conjunto diverso de terminações. A sua primeira tese foi a de considerá-las como antropónimos derivados dos nomes de cidades[6]. Um processo semelhante poderá também ser encontrado na Escrita Cónia.
Topónimos

Um dos conceitos mais frequentes em todas as inscrições funerárias é o do topónimo. Com efeito, para além do nome dos tumulados, e por vezes, dos seus antepassados, o grupo de palavras que logo seguir mais frequentemente surge é precisamente o nome de localidades a que o tumulado esteve em vida associado. Por esta ordem de razões, a presença destas palavras deve também ser uma constante nas inscrições cónias. Tenhamos contudo um elemento em consideração: se encontrarmos um topónimo numa dada inscrição é mais provável que essa aparição surja porque o tumulado foi enterrado longe do seu lugar de origem (aí referenciado) do que no mesmo onde repousa. Ou seja, estes topónimos poderão não se referir aos locais onde foram encontradas as estelas onde os encontrámos, pelo contrário, é bem provável que seja exactamente o contrário.

Associações arbitrárias, Concidências e Grupos linguísticos

Uma das características mais básicas da linguagem humana é que em todas as suas linguagens se aplica a mesma regra: todas as palavras são apenas associações arbitrárias de um conjunto de sons reunidos sem qualquer significado particular. Seguindo esta lógica, uma palavra – pertencente a qualquer língua humana – pode ser formada pela combinação arbitrária das centenas ou milhares de sons disponíveis a uma determinada língua. É por esta razão que se encontramos palavras semelhantes em duas línguas diferentes é pouco provável que esta proximidade se deva exclusivamente ao acaso, mas antes a uma relação genética de qualquer tipo: dada a imensidade de combinações sonoras aleatórias disponíveis, a probabilidade de uma coincidência é extremamente baixa, e se existe essa semelhança é porque uma das palavras deriva da outra. Obviamente, a probabilidade deste coincidência aumenta com o tamanho das palavras. É assim que a probabilidade de dois palavras com as mesmas consoantes, por exemplo ZERONAI, terem um antepassado comum é muito maior do que por exemplo, CONOI.

[1] Nomeadamente em São Martinho II e Ategua.

[2] Túmulos I e II da necrópole da Chada-Ourique.

[3] Triplos, como o caracter supracitado.

[4] Pelos elementos significantes nele contidos.

[5] E mesmo excluindo, como excluímos, a possibilidade da língua dos cónios não ser uma língua indo-europeia.

[6] Um pouco Lisboa / Lisbonense.

Palavras Simbólicas

Apesar desta regra, existem palavras cujas cadeias sonoros são mais do que um simples fruto do acaso. Falamos dos casos daquilo a que Merritt Ruhlen designa como simbolismo do som. É o caso de i (perto do orador) e de a (longe do orador) ou como as palavras imitadores zumbido e murmúrio em que a sonoridade está na raiz do significado. As palavras mamã e papá, extremamente frequente nas línguas do Mundo são também julgadas como pertencentes a este grupo de palavras simbólicas. Dado o seu quase universalismo, é óbvio que estas palavras têm bastantes probabilidades de surgirem também na língua dos Cónios.

Processos de Importação Linguística

Uma vez que a língua cónia sofreu influências dos mercadores fenícios, influências tão fortes que a fizeram adoptar a forma escrita, é muito provável que tenha também importado algumas palavras do Fenício. Como se processam estes fenómenos de importação? Mais uma vez no respeita aos domínios da Linguística Histórica tentarei socorrer-me do “A Origem da Linguagem” de Merritt Ruhlen. E é precisamente aqui que se lêem as seguintes linhas: “Em primeiro lugar, embora seja verdade que, por vezes, qualquer palavra possa ser emprestada, é igualmente verdade que na maioria dos casos apenas alguns tipos de palavras o são. Dentro destes casos, o mais frequente é o do nome de um artigo que é emprestado juntamente com o próprio artigo, tal como os ubíquos “café”, “tabaco” e “televisão”. Por outro lado, palavras básicas como “eu, tu, dois, quem, dente, coração, olho, língua, não, água” e “morto” raramente são emprestadas, e nunca entre numerosas línguas numa área ampla. Assim, quando descobrimos que o vocabulário básico é partilhado por muitas línguas numa ampla extensão geográfica, podemos escolher a regra do empréstimo como explicação; desconhece-se um tal volume de empréstimo do vocabulário básico na linguagem humana. Quando encontramos palavras de facto semelhantes, espalhadas por uma grande área geográfica, a explicação mais provável é a de que estas semelhanças provenham de uma migração primitiva para essa zona.”

Sendo assim, devemos procurar nas estelas cónias palavras pertencentes aos substrato Mediterrâneo e às línguas do Norte de África como “eu, tu, dois, quem, dente, coração, olho, língua, não, água e morto” e palavras ligadas às actividades bélicas, comerciais e técnicas entre as línguas fenícia e grega.

Processos de Transformação Linguística

Nas línguas do Mundo a transformação de p, t e k em b, d e g é frequente quando aparecem separados por vogais. Aplicando este processo podemos descobrir palavras ligadas por laços genéticos que de outro modo não nos pareceriam relacionadas. Na raiz do fenómeno de transformação destas consoantes quando entre vogais está o facto de as vogais serem fonetizadas através da vibração das cordas vogais, algo que também sucede com as consoantes b, d e g, é esta semelhança que está na origem deste processo de transformação linguística.

Para além destes casos, existem outros casos de sons semelhantes entre si e que por isso são alvo de substituições quando a mesma palavra transita de uma língua para outra. É o caso das vogais i, e e que são foneticamente muito próximas o que também acontece com u e o. Apesar de serem mais complexas, as consoantes também sofrem processos semelhantes. Assim sucede com os grupos:
1) Pronunciadas com os lábios: p, ph, f, b, 
2) Pronunciadas com a ponta da língua: t, th, d, 
3) Pronunciadas com a parte posterior da língua: k, kh, x, g, 
4) Sibilantes: ts, s, dz, z

Listemos ainda algumas outras transformações:
1) Também os l se transmutam frequentemente em y ou em r um pouco por todo o Mundo, veja-se por exemplo, o rio AmsteL que atravessa a cidade de Amsterdão;
2) Como sucede no Finlandês, o t- inicial pode também transformar-se num s- se for seguido de uma vogal;
3) A vogal u é semelhante à consoante w;
4) A vogal i é semelhante à consoante y;
5) A vogal i, quando precedida por t ou k transforma essa consoante em ch;
6) A sequência ti- transforma-se frequentemente em tsi-, e esta, por sua vez, em si-. Esta transformação não ocorre quando a consoante é seguida pelas vogais u e a.
7) Em algumas línguas o k > c
8 ) ki > ci > si > si > hi > i
9) p > f > h
10) d > z
11) t > th > s
12) i > y
13) u > w

A Família Euro-asiática

O linguista americano Joseph Greenberg descobriu traços comuns entre as famílias indo-europeia, urálica, altaica, coreano-japonesa-aino, chukchi-kamchatkan e esquimó-aleúte, a esta grande “super-família”, Greenberg chamou de euro-asiática. Exemplos desta proximidade podem ser encontrados nas palavras ti “tu”, ya “o quê”, xip “casca”, polm “cegar”, qlai “conversar” e kip “tomar”, que como Merritt Ruhlen observa são comuns a várias línguas desta grande família.

Uma das provas da existência deste grupo é a frequência com que os plurais dos nomes são formados pela adição do sufixo –t enquanto que os duais são formados com a adição de –k.

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Os Valores Fonéticos

A ascendência fenícia dos caracteres da escrita cónia é inegável. Embora existem signos de aparente influência grega, estes encontram-se em franca minoria. Assim sendo é razoável que a caracteres semelhantes correspondam valores semelhantes. Com efeito, seria pouco razoável acreditar que alguém tivesse importado uma escrita encontrando depois correspondências completamente diferentes. Pese embora este argumento, não podemos seguir esta teoria com demasiada fidelidade. Com efeito, temos actualmente os exemplos do cirílico e do português, em que a caracteres semelhantes como X, B, C e P correspondem valores fonéticos completamente diferentes. Esse mesmo erro foi também seguido pelos primeiros investigadores que abordaram a tradução do alfabeto cipriota que procuravam associar os mesmos sons a signos que surgiam nesta e no alfabeto fenício.

Existem alguns caracteres cónios com uma provável origem ideográfica e falamos mais especificamente de
16.jpg, seguindo o princípio da acrofonia é provável que à semelhança do sinal egípcio para “boca”, e que por causa da sua correspondência em r´t assumiu o valor de “r” não é impossível que algo de semelhante se tenha passado com estes caracteres. É então necessário procurar as palavras correspondentes a estes ideogramas nas línguas-hipótese e averiguar da sua validade.

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A Escrita Cónia: Tabela de Valores Fonéticos Admitidos

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Tabela de Variações da palavra “Conii” e estelas onde surgem

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A Origem da Escrita Cónia: Origem Dupla: Fenícia e Grega

J. Untermann assumiu uma tese original quanto às origens da Escrita Cónia: a origem dupla fenícia e grega. Para o autor, a partir de 600 a.C., na região entre Valência e Almeria ter-se-ia verificado a adopção da escrita pelas populações indígenas que influenciadas simultaneamente pelos mercadores gregos e pelos seus concorrentes fenícios aportavam aquelas margens.

É assim que identifica os signos2.jpg(respectivamente “l”, “n”, “´s” e “ke”) como sendo de origem grega, enquanto que, por exemplo,12.jpgseriam de influência fenícia.

A teoria de Untermann apresenta a vantagem de permitir explicar um dos traços mais originais dos diversos sistemas de escrita peninsulares[1]: o seu semissilabismo. Se os primeiros importadores tartéssicos tivessem adoptado primeiro a Escrita Fenícia. Ora nesta, os signos representam apenas consoantes, mas consoantes que se pressupõe serem seguidas de uma vogal, de valor indeterminado, mas que o leitor adivinhava seguindo o contexto da palavra. Os tartéssicos teriam estranhado (não sem razão) este sistema e ter-lhe-iam adicionado signos puramente alfabéticos de uma outra escrita que também conheciam: a Grega.

Trata-se de uma tese de difícil defesa. Não conhecemos outros casos de sistemas de escritas que tivessem sido originados, em simultâneo, por dois sistemas estrangeiros. Por outro lado, a tese da importação múltipla não concorda com a existência da adopção do “i” do fenício, conjuntamente com o “l” e o “n” do grego, ou seja, se os fonemas existiam nas duas escritas, não seria mais simples adoptar os signos a partir de uma única fonte?

É certo que os caracteres da Escrita Cónia revelam influências múltiplas, em que predominam as gregas e fenícias, mas revelam uma dominação dos signos de origem fenícia que discorda da tese de Untermann e que nos leva à teoria de Javier de Hoz, que defende a predominância da escrita fenícia no processo de importação que daria origem à Escrita Cónia.


[1] Algo que, aliás, só por si indica uma origem comum, provavelmente a partir de Tartessos.

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A Escrita Cartaginesa

Ironicamente, foram os cartagineses e não os fenícios que mais contribuíram para a difusão do alfabeto fenício. Para além do cartaginês propriamente dito, que se dividia em monumental e cursivo, duas outras escritas resultaram directamente da sua influência. Falamos da Escrita Líbia (ou Numídica), usada pelos antepassados dos actuais berberes do Norte de África e as escritas ibéricas, utilizadas no lado Oriental do Guadiana pelos Tartessos e povos relacionados. A Escrita Líbia desenvolveu-se transformando-se na Escrita Tamacheque que os tuaregues usam ainda hoje, enquanto que as escritas ibéricas – que analisámos mais acima – influenciaram certamente a fase final da Escrita Cónia numa medida em que a escassez das inscrições nos tornam difícil de avaliar, mas num âmbito que tentaremos determinar no segundo livro deste trabalho, dedicado especificamente à tradução da Escrita Cónia.

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Língua-hipótese: o Lígure

A par dos pelasgos, os lígures são a outra grande lenda da História europeia. Na verdade, ficamos com a sensação de que sempre que existe um grande mistério que resiste a interpretações – como sucedeu por exemplo com o Hitita e o Etrusco – alguém lança a hipótese pelásguica ou a lígure, e às vezes, ambas. O mesmo havia de suceder inevitavelmente com a Escrita Cónia… Thierry, Michelet e Lagneau foram provavelmente os primeiros a associar os lígures aos iberos. Dentro das nossas limitadas capacidades, encontrámos apenas uma única referência à presença de lígures na Península Ibérica, num extracto de Rufus Festus Avieno em que este escreve: “os Cempsos e os Sefes que possuíam colinas elevadas no campo de Ofiussa, e perto dessas situavam-se o ágil ligur e a descendência dos dráganos”. Avieno informa-nos igualmente de que os celtas teriam empurrado os lígures para fora das suas terras. Será esta uma alusão às incursões célticas que levaram à decadência da civilização cónia? Seriam os cónios, lígures? Seria aliás esta citação a fazer nascer em Mário Saa esta convicção do “ligurismo” dos cónios.

Mas os lígures não se reconheciam pelo nome de “lígures”. Segundo se lê em Plutarco, o seu nome nacional era Ambrones, um nome que efectivamente surge nos topónimos peninsulares de Hambrón (Salamanca), Ambroa (Corunha), Ambrães (Marco de Canaveses) e Ambrões (Porto), isto descobriu Menendez Pidal, o autor espanhol que tanto se esforçou por adivinhar os vestígios da presença lígure na Península Ibérica e por descobri-los por entre as outras camadas étnicas e civilizacionais que se sucederem na Ibéria.

Também de raiz lígure seria o sufixo –asco, presente em topónimos como Vipascum, Velasco e Vasco, Panasco, Rabasco, entre outros locais do actual território português. De origem lígure seria igualmente o sufixo -antia/-entia, utilizado na formação de nomes de rios e de cidades surge em Argança (*Argantia), Palença (*Pallentia) e ainda a terminação -ace/-ice/-oce de Queiraz, Queiriz, Queiris, Queiroz e Quirós.

Sobre os líures, adianta ainda Menendez Pidal: “La toponímia nos lleva a dar credito a los textos griegos que señalam ligures em España, pero esos ligures no poblaron toda España, no constituyeron ningun vasto imperio, no dieron unidad racial ni cultural al Occidente europeu; fueron solo un pueblo emigrante que llegó, no solo al Noroeste de Italia y costa mediterranea de Galia hasta los Pireneos, sino que extendió otras tribos por el valle del Rodano, por todo el Noroeste de España y por algunos puntos del Sur en territorio turdetano. No son los ligures en sentido estricto, estabelecidos en la Liguria y tierras vecinas; traen elementos toponímicos que rebasan mucho por el Este y el Norte los limites de la Liguria histórica y tierras liguricas contiguas: alguno de tales elementos no se halla en esa Liguria histórica y si en terraneo que precedió a los ilirios. En fin, ese pueblo inmigrante no era conocido comunmente con el nombre de ligures, sino con el equivalente de ambrones”.

Omisso quanto ao Sul da Península, Menendez Pidal defendia que o Norte de Portugal, a Galiza, as Astúrias e a ocidente de Leão teriam sido povoadas pelos ambroilírios, um povo de raça lígure. Tivessem ou não estado presentes a Norte, quanto à sua presença a sul graves objecções se colocam. Desde logo, Lopes Navarro aponta com exactidão a principal: para além de elementos puramente filológicos nada mais faz crer na presença de lígures na Península. Além do mais, praticamente não se conhece nada sobre a língua deste povo, pelo que esta hipótese não pode ser considerada seriamente para este estudo.

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Língua-hipótese: o Hebraico, o Cónio como uma Língua Afro-Asiática?

Oliveira Martins na sua “História da Civilização Ibérica” defende a pertença dos iberos ao ramo Afro-asiático adiantando que “não sendo lícito confundi-los mais na estirpe dos celtas, como supôs Humboldt, porque estes últimos provêm da raça indo-europeia”. Opinião semelhante tem Guy Rachet que diz outro tanto em “L´Univers de la Archeologie”. Recorrendo às fontes clássicas, encontramos também uma citação bíblica, num passo do Velho Testamento em que o profeta Abdias fornece alguma substância a estas teses quando, escrevendo no século V a.C. que “Os deportados de Jerusalém, que estão em Sefarad (designação da Península Hispânica), possuirão as cidades do meio-dia (Sul da Península Ibérica).”

Estes afro-asiáticas, ou hebreus, para ser mais específico, chegaram efectivamente à Península Ibérica no começo do ano mil a.C. A expansão comercial promovida pelos monarcas hebreus e fenícios Salomão e Hirão levava os mercadores destas nacionalidades até ao Ocidente europeu em busca de estanho e ouro. Não existem contudo provas suficientes que indiquem a existência de uma colonização afro-asiática na Península, mas apenas a presença de entrepostos comerciais e de contactos regulares e sistemáticos. A tese da lavra de Moisés Espírito Santo da pertença da língua cónia a uma família afro-asiática não colhe assim grandes probabilidades de vir a ser provada com sucesso. E torna-se ainda menos provável se nos recordarmo-nos de que nas escritas afro-asiáticas não existem palavras começadas por vogais e que destas temos diversos testemunhos nas estelas cónias.

Por outro lado, um dos traços distintivos das línguas afro-asiáticas consiste no papel desempenhado pelas consoantes nas raízes dos verbos. Com efeito, os radicais verbais nestas línguas são formados por consoantes em que a adição de vogais permite a criação de novas palavras a partir desta raiz. John Healey (“O Primeiro Alfabeto” in “Lendo o Passado”) dá um exemplo deste interessante mecanismo: “(…) existe uma raiz arábica, KTB. Em si mesma KTB não significa nada. Na verdade, é totalmente impronunciável. Mas, se lhe adicionarmos vogais em diferentes combinações (e, às vezes prefixos especiais), a raiz KTB ganha vida e adquire um significado enquanto autêntica palavra da língua: katib significa “escritor”; kataba, “ele escreveu”; kitab, “livro”; kutub, “livros”; kutubi, “livreiro”; kitaba, “escrita”; maktab, “escritório”; e maktaba, “biblioteca, livraria”. Observando essas palavras, podemos confirmar que existe uma raiz KTB e deduzir que está relacionada com “escrita”.” Como é evidente, se a língua dos cónios fosse afro-asiática este traço seria observável nas suas inscrições.

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Língua-hipótese: o Latim

Lopes Navarro defende que a língua dos cónios era, muito simplesmente, o português. A prol deste tese, Navarro encontra em Flávio Arriano (na sua “Táctica Militar”) encontra uma citação em que este autor afirma que os romanos adoptaram os vocábulos do Ibero. A sua teoria, reflectida numa série de publicações, é a de que o latim e o português estão na base da língua dos cónios e para esse efeito ensaia uma série de esforçadas tentativas de tradução das estelas sud-lusitânicas. Provavelmente está muito mais perto da verdade do que qualquer outro autor antes dele e especialmente dos flagrantes falhanços do albanês N. Falaschi. Acerta nomeadamente no caracter primariamente funerário da maioria das inscrições, enquanto que Falaschi força as suas interpretações procurando formar poemas religiosos em que não surgem nomes ou antropónimos pessoais. O problema da tese de Navarro está em que o português é uma criação demasiado recente para poder estar na base do Cónio, quanto ao latim, nada indica que ele – ou uma sua forma primitiva – fosse falada na Península antes da chegada dos romanos. Se assim fosse, estes não deixariam de nos relatar a coincidência dos falares, o que não fizeram. A passagem de Flávio Arriano aponta apenas para uma coincidência de palavras, explicável de vários modos e que não basta para justificar a tese de Lopes Navarro. Apesar destas objecções, é provável que a interpretação das estelas mais curtas esteja muito próximo da realidade e esse mérito não pode ser-lhe tirado.

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Língua-hipótese: o Fenício e as Origens da Escrita Cónia

Desde o começo do Bronze Final que se regista a presença de navegadores do Mediterrâneo Oriental na Península Ibérica. Os fenícios – senhores absolutos do Mediterrâneo nessa época – chegam a estas paragens por volta do século VIII a.C ou mesmo no século X a.C. e impedem a partir de então a chegada de embarcações de outras nacionalidades, cretenses, etruscas e micénicas, nomeadamente. A Península torna-se então território comercial exclusivo das cidades-estado da Fenícia, um papel que só perderiam para o grande império semita do Mediterrâneo: a temível e empreendedora Cartago.

Não são raras as provas da presença de mercadores fenícios no actual território português, as pérolas de vidro, os escaravelhos egípcios de marfim do Tesouro de Gaio e a recente descoberta de um entreposto comercial fenício em Almada são algumas dessas provas. Destes intensos contactos resultarão diversas influências nas populações locais. Elementos religiosos, tais como imagens divinas, amuletos e animais divinizados de tipo oriental são frequentes e já foram bastante bem analisados Mello Beirão e Augusto Tavares, entre outros historiadores que se debruçaram sobre o tema das influências orientalizantes em Portugal.

A própria morfologia dos caracteres cónios também nos indicia a forte influência que estes mercadores fenícios tiveram nas populações indígenas e a intensidade e constância destes contactos torna muito provável a adopção por parte dos cónios de palavras fenícias. Moisés Espírito Santo leva ainda mais longe esta abordagem, ao defender que os cónios eram basicamente colonos fenícios ou hebraicos e propondo a tese segundo a qual a sua escrita seria simplesmente uma variação do alfabeto fenício.

Coloca-se assim a questão: a escrita cónia resultou de um processo de génese e desenvolvimento local ou foi essencialmente o resultado da influência fenícia? Os petroglifos descobertos em Alvão, os seixos ilustrados de Mas d´Azil (Sul de França) e muitos outros sinais geométricos descobertos em Espanha e Itália indicam que as populações neolíticas eram capazes de representar geometricamente conceitos e ideias. Mas não existem indícios suficientes para acreditar (como Lopes Navarro) na existência de um processo de maturação que a partir destes exemplos conduziu à aparição de uma escrita no Sul de Portugal. O nascimento de uma escrita como a Cónia implicaria necessariamente a existência de testemunhos das várias fases intermédias, testemunhos que, contudo, não existem. Aliás, todas as estelas são tão semelhantes que devem pertencer a um lapso de tempo muito concentrado. Não foi encontrado até agora nenhum exemplo semelhante às primeiras inscrições maias, nem à escrita do Sinai (matriz do alfabeto fenício), ganha assim força a tese de A. Augusto Tavares que defendia que a Escrita Sud-lusitânica nascera da adaptação local do alfabeto fenício. António Lopes Navarro defende igualmente que a Escrita Cónio foi o primeiro sistema alfabético do mundo, anterior mesmo ao próprio fenício, mas ao propô-lo ignora a escrita sinaítica, que apresenta em forma embrionário a maioria dos signos fenícios e foi já claramente identificada como a origem do próprio alfabeto fenício.

A importação do sistema de escrita alfabético fenício teve lugar na região meridional da Península, onde a influência fenícia era mais intensa, nomeadamente no reino de Tartessos e sofreu uma adaptação por parte destes turdetanos. A intensidade dos contactos comerciais, culturais e a própria comunhão étnica entre as duas margens do Guadiana influenciou certamente – se não determinou – o próprio processo de adaptação em que os cónios depois se viriam a empenhar. Podemos assim afirmar com alguma segurança que na gestação da Escrita Cónia, tartéssicos e fenícios tiveram um papel igualmente importante, uns como fonte remota os outros como mediadores da transmissão dessa mesma fonte.

Parece fora de dúvida que a Escrita Cónia resultou de um processo de importação e adaptação a partir dos caracteres utilizados pelos mercadores fenícios que frequentavam as cidades cónias. É portanto praticamente certo que a maioria dos signos mantêm o mesmo valor fonético que no fenício. Mas as escritas afro-asiáticas apresentam um traço comum que parece ausente na Escrita Cónia: a não representação de vogais. Com efeito, as escritas hamito-semitas votam as vogais a um papel mais secundário do que as da família indo-europeia. Este papel subsidiário das consoantes não significa que um leitor de uma inscrição semítica não as interpretasse no texto, apesar da sua omissão, como se demonstra: n scrvr vgs (não escrever vogais). Consideramos assim que a Escrita Fenícia esteve na origem da Cónia, mas fica ainda por aclarar a antiguidade desta importação. A fundação lendária da colónia de Gades recua até ao ano 1000 a.C., será então possível que tenha sido nessa data que o alfabeto Caananita ou mesmo Proto-canaanita. Essa é a tese de David Diringer e de Joseph Naveh.

Esta influência seria posteriormente reforçada pelos cartagineses. A Península Ibérica era pelas suas riquezas e densidade populacional a possessão mais importante de Cartago. Para conservar esse império era necessário manter no território uma forte presença militar. Mas a cidade africana estava fortemente condicionada pela sua fraca população… Pelo contrário, as suas colónias eram ricas em recursos e em população e, com efeito, foi da Península que os cartagineses retiraram a maioria das tropas mercenárias que durante três séculos defenderam o seu império marítimo e territorial. Estes mercenários, finda a sua vida militar regressavam às suas terras de origem trazendo consigo a cultura e a língua dos seus comandantes e companheiros de armas. Uma língua derivada directamente do fenício e um sistema de escrita que reforçariam a influência fenícia no “Cuneum Ager”. Mas não devemos confundir este reforço de influência semita/afro-asiático com uma transformação étnico-linguística das populações indígenas que manteriam o seu carácter até à chegada da República Romana, para só então começarem a perder a sua identidade.

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Língua-Hipótese: o Trácio

Se Falaschi encontra no albanês moderno a língua dos cónios, Constantin Dragán defende uma teoria ainda mais ousada: “Os emigrantes do Mundo Trácio da Anatólia continuaram o seu caminho até ao Mediterrâneo Ocidental, de onde desceram até ao Sul da Península Ibérica, na actual Espanha e a Portugal, onde desembarcaram nas embocaduras do rio a que chamaram, segundo o seu nome, o “Tartessos” ou do “Tarso”, nome derivado de “Thracetess” ou de “Tarse”, cidade da Anatólia. Sobre a ilha de “Lacus Ligustinus” onde fundaram uma outra cidade com o mesmo nome. Estes colonizadores chegaram até Múrcia e Huelva, chegando até à Costa de Algarve.” Mais uma vez, a ausência de provas materiais e de testemunhos escritos suficientemente convincentes colocam este teoria no campo das hipóteses não fundamentadas. Na realidade, para além da semelhança entre duas palavras (Tarse e Tartessos), pouco mais tem que lhe sirva de substância. Por esta razão a apresentámos aqui, embora com grandes reservas.

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Língua-Hipótese: o Pelásgico-Albanês

Segundo Heródoto, quando na Grécia ainda não havia Helenos, essa região era conhecida como “Pelásguia”. O “pai da História” afirma ainda que seria através deste povo que os gregos aprenderam a trabalhar os metais, a construir fortificações e casas e que onde tinham aprendido os seus mitos e os nomes das suas divindades, as quais assim, seriam realmente de origem pelásguica. O investigador albanês Nermin Vlora Falaschi identifica estes pelasgos com os “Povos de Mar” que surgem violentamente na história da maioria das civilizações do Mediterrâneo num dado período do seu desenvolvimento e que tanta perturbação causaram no Egipto faraónico.

Nora Falaschi defende que numa época pré-histórica a língua pelásguica era falada em toda a bacia mediterrânea, uma afirmação que tem tanto de ousada como de pouco fundamentada uma vez que não encontra nem provas materiais nem testemunhos escritos suficientes em seu favor. Arriscando-se ainda mais, N. Falaschi julga encontrar um sobrevivente moderno do Pelásguico no Albanês, que a teriam recebido directamente dos Ilírios, seus directos antepassados desde os tempos da ocupação romana. Levando ainda mais longe as suas extrapolações acaba por encontrar o Pelasgo na raiz da língua Etrusca, uma afirmação ainda mais arriscada que a anterior e com ainda menos substanciação e que tem como única força uma afirmação de Hellanicos de Mithylène que escreveu que os etruscos provinham de um grupo de pelasgos que, tendo desembarcado no Adriático, haviam subido pelo interior até à Toscânia onde acabariam por se estabelecer e fundar a Etrúria.

Para além de julgar que o pelásguico-albanês se encontra na raiz da língua etrusca, Falaschi defende ainda que a invenção do alfabeto etrusco, que se encontra na base dos alfabetos grego e latino, e indirectamente, do alfabeto moderno. Citemos este investigador: “Plínio, o Antigo explica-nos que as letras do alfabeto tinham sido levadas para a Itália pelos Pelasgos, enquanto que Diodoro da Sícilia, contemporâneo de Júlio César, afirma que os Pelasgos espalharam o seu alfabeto, adoptado de seguida em toda a Europa, com evidentemente as adaptações necessárias. Diodoro defende por sua vez que este alfabeto, conhecido como “pelágico”, tinha sido utilizado por todos os poetas pré-homéricos.” Mais uma vez, contudo, não apresenta provas para reforçar a sua arriscada teoria.

Para coroar a sua teoria, identifica o pelásguico-albanês como a língua das inscrições cónias e apresenta algumas tentativas de tradução que apresentam falhas graves nomeadamente na ausência de reconhecimento da fórmula:

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que surge na maioria das estelas cónias e na leitura das estelas como poemas, ignorando o seu manifesto carácter funerário no seu afã de identificar o albanês na raiz das suas palavras.

Semelhante à tese de Falashi é a do investigador soviético N. Marr (1864-1934) que defendeu a existência da “Família Jafética”, uma família que a maioria dos académicos contesta e que reuniria o Karvelianês, o Abkhazo-Adyghianês, o Nakhês, o Daghestanês para além de outras línguas hoje extintas da Ásia Menor, assim como o Pelásgico e do Etrusco. Nos últimos anos da sua vida Marr tentaria ainda estabelecer uma relação genética entre esta hipotética família e o grupo indo-europeu de línguas.

Mas Nora Falashi não fora o primeiro a procurar semelhanças entre as línguas albanesa e a portuguesa. Com efeito, Oscar Nobiling já chamara a atenção para a existência de algumas proximidades entre estas duas línguas europeias, citando nomeadamente o exemplo do albanês paitoy com o português peitar, o albanês turp, português torpe, albanês rotula, português rotula, albanês vietere, português antigo vedro e ainda o albanês pül com o português paúl, para além de outros exemplos. Mas Nobiling não responsabiliza um antigo estrato étnico, comum a Portugal e à Albânia e atribuível aos pelasgos e aos “Povos do Mar” como causador destas semelhanças, que efectivamente ultrapassam a pura coincidência. Este linguista acredita que quando César e Octávio levaram as águias de Roma até à Ilíria, berço do moderno albanês, criaram as bases para essa semelhança. Com efeito, a tenaz resistência das populações da Ilíria obrigou à presença permanente de fortes guarnições militares, que poderiam ter incluído contingentes lusitanos ou tropas que poderiam ter passado pela Península Ibérica, o que explicaria estas proximidades. Por outro lado, o albanês pertence, assim como o português moderno, ao ramo das línguas indo-europeias. E é aqui que surge precisamente a maior objecção a esta tese: o ramo albanês da família Indo-europeia só é conhecido a partir do século XV, nada indicando que uma sua forma primitiva fosse falada aquando das invasões dos Povos do Mar. E ainda mais importante, o albanês é hoje indubitavelmente uma língua indo-europeia, precisamente aquilo que o cónio não parece ser, estando mais próximo da família Afro-asiática, grupo norte-africano do que das línguas indo-europeias.

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A Língua dos Tartéssicos

Em termos geográficos, a Turdetânia incluía praticamente todo o Sul da Península Ibérica. E neste extenso território, pontificava a mítica cidade de Tartessos. Contudo, não é correcto falar de “reino de Tartessos” ou de “Império Tartéssico” como já tentaram alguns. Com efeito, Tartessos era apenas a mais proeminente das cidades turdetanas e embora fosse certo que dominasse efectivamente algumas delas, nomeadamente aqueles que lhe estavam mais próximas, na maioria dos casos tratava-se de uma influência sobretudo económica e não político/militar.

Estrabão escrevia no século I que os Turdetanos eram os mais cultos dos iberos: “eles conheciam a escrita e tinham documentos devotados à sua história, poemas e leis escritas em verso, como diziam, antigas de 6000 anos”. Este “império” de Tartessos – se existia – era muito fluído e muito diferente do grau de dominação que Roma conseguiria mais tarde no mesmo Sul peninsular. É o mesmo Estrabão que nos diz que a maioria das tribos colocadas sob a tutela tartéssica e turdetana estavam em permanente revolta.

A claramente distinta escrita empregue pelos Tartéssicos não pode ser comparada morfologicamente com a dos cónios, sendo assim, e tendo em conta que a influência exterior (fenícia, grega e etrusca, principalmente) foi mais forte a leste que a ocidente e que essa terá sido a origem local da escrita cónia. Porque temos uma diferença tão notável entre as duas escritas? A única explicação plausível reside na existência de uma diferença tão notável entre as línguas desses povos que obrigou a uma “reinvenção” do sistema de escrita. Parece-nos assim muito provável que as línguas de Tartessos/turdetanos fossem de um grupo linguístico distinto, ainda que não totalmente, da língua dos cónios.

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A Morfologia do Ibero

Dado o reduzido grau de conhecimento das escritas ibéricas é razoável que pouco se conheça da morfologia da língua que registavam. Entre o pouco que se conhece temos o verbo eban ou ebanen, que deverá ter um valor próximo de “faleceu”, uma dedução que resulta da sua presença frequente nas estelas funerárias ibéricas, uma frequência que aliás nos recorda o KONII das inscrições cónias. Conhece-se ainda o elemento mi com o valor de posse, como no exemplo: “Gargoris mi” (de Gargoris).

Tratava-se aparentemente de uma língua aglutinativa, formando-se as categorias morfológicas e os sufixos pela adição directa à raiz. Sabe-se também que o Ibero era muito mais analítico que o latim, porque temos testemunhos latinos que nos dizem que os iberos tinham dificuldade em compreender as inflectidas do latim, algo que nos permite inferir a diferença que separava as duas línguas e que contradiz a tese de Lopes Navarro que a propósito do Cónio dizia ser este um parente próximo do Latim.

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A Fonética do Ibero

No Ibero, os ditongos estavam ausentes, supondo-se que possuía as vogais a, e, i, o uma característica que a afastava do Etrusco e do Raético (ambas pertencentes ao chamado “Grupo Tirrénico”) onde o “o” é completamente ausente, algo que contraria aqueles que quiseram colocar o Ibero próximo dessas línguas. Também a presença das consoantes k, p e t , assim como as aspiradas h e th e ainda das s, s’ e z, reforçam ainda mais a distância entre o Etrusco e o Ibero, uma vez que no primeiro as consoantes aspiradas são bastante raras. Também a tese que classifica o Basco como um sobrevivente moderno do Ibero saí prejudicada, desta feita, pela raridade das palatais nesta língua do Norte da Península. Aliás, deve dizer-se que segundo aquilo que dele se conhece actualmente, a fonética do Ibero não encontra muitos paralelismos nas línguas europeias conhecidas. Impõe-se assim a tese de uma origem extra-europeia, o que nos leva à tese norte-africana que já defendemos noutro lugar deste texto.

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O Substrato Ibérico no Espanhol, Português e Basco

A chegada dos romanos ao Sul da Península produziu uma importante perturbação no tecido linguístico e cultural indígena. A sua língua indo-europeia cedo suplantou as línguas Mediterrâneas locais, mas como sucede em qualquer processo de aculturação, houve elementos que sobreviveram até aos tempos de hoje nas modernas línguas castelhana e portuguesa. Existem deste processo vários exemplos, por exemplo, foneticamente, o som castelhano s é claramente diferente de todos os outros fonemas semelhantes nas restantes línguas românicas. Também morfologicamente o castelhano apresenta outra incomum dissemelhança: sufixos produtores de palavras, algo em que é positivamente único entre as língua do mundo românico. De qualquer modo, a sobrevivência mais consensual e evidente deste Substrato Ibero nas nossas modernas línguas peninsulares são sem dúvida aquelas que nos legou o vocabulário, uma identificação tanto mais evidente quando comparamos as palavras semelhantes entre o basco e o espanhol e anotamos a ausência destas nas línguas românicas e nas de outras línguas europeias pertencentes à família indo-europeia.

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A Língua dos Iberos

Quanto ao Ibero, a grande discussão que se coloca é a de saber se estamos perante uma única língua ou se, pelo contrário, uma que se dividia em vários dialectos. Aqueles que defendem a pluralidade de dialectos ou de línguas ibéricas encontram um argumento decisivo na existência de vários sistema de escrita em uso simultâneo na Península Ibérica. Julga-se contudo – e seguindo de perto as indicações epigráficas – que o Ibero se dividia em dois grupos dialectais: o Norte-oriental (desde a costa francesa até Castela) e o Sulista (presente sobretudo na Andaluzia).

Esta língua seria gradualmente absorvida pelo intenso e eficaz processo de romanização e não se passaria muito tempo após a consolidação da presença das legiões para que desaparecesse. No tempo de Tácito era já falada por um grupo muito reduzido de indígenas, uma dedução que extraímos de um extracto da obra desse historiador em que este nos fala de um cidadão da Ibéria que respondendo a romanos num julgamento pela morte de um praector usava ainda a sua língua nativa, e em que Tácito o menciona como se essa utilização se tratasse de uma raridade entre os seus companheiros de nação.

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O Substrato Mediterrâneo: Presente nas raízes da língua basca?

Em 1971, o professor Huxley publicou um estudo sobre a etnologia das populações pré-romanas das Ilhas Britânicas. Do seu trabalho – ainda actual – resulta uma conclusão: no princípio da Era Cristã a população da Bretanha era constituída por dois povos distintos, um de tez clara, o outro de tez escura. A população escura assemelhava-se aos aquitanos e aos iberos, e a de tez clara aos gauleses da Bélgica e da Gália. Tácito no seu “Agricola” escreveu que os habitantes da Bretanha apresentavam uma grande variedade de tipos físicos: os caledónios tinham cabelos ruivos e grande estatura, como os germanos, pelo contrário, os siluros apresentavam cabelos encaracolados e uma cor de pele mais escura como os iberos. Estrabão reforça esta posição quando escreve que “os homens da Bretanha são mais altos que os celtas, com cabelo menos amarelo; individualmente são também mais habilidosos”.

Estas palavras dos autores clássicos vão de encontro aos tipos morfológicos encontrados nos túmulos pré-romanos da Bretanha onde se descobrem frequentemente crânios longos e outros mais largos, um fenómeno com paralelismos na Gália. Algo de semelhante foi também registado na Irlanda, sendo contudo aqui mais frequentes os crânios mais longos.

Huxley reconhece esta tipologia mais escura em França, na costa lígure da Itália, na Itália ocidental e do sul, na Grécia, Ásia, Síria e Norte de África, na Península Arábica, no Irão, Afeganistão e até no Indostão. Em França, onde viviam no momento de chegada dos romanos, três nacionalidades: Belgae, Celtae e Aquitani, sabe-se que os primeiros e os segundos se assemelhavam em quase tudo, opondo-se a estes os aquitanos, quer fisicamente, quer no ponto de vista estritamente linguístico. A este povo, que grosso modo corresponderia no continente europeu às populações mediterrâneas ainda hoje sobreviventes na bacia deste Mar, Huxley chamaria de “Melanochroi”. É a partir deste raciocínio que Huxley conclui que existem bastantes provas da existência de uma língua não-indoeuropeia falada pelos “Melanochroi” no extenso território em que habitavam e que no decorrer dos tempos seria sucessivamente reduzido pelo avanço imparável de várias vagas de invasores militarmente superiores. Huxley leva ainda mais longe a sua especulação, reunindo a oposição da maioria dos investigadores, mais especificamente quando concluí enfim que essa língua era o Euskari, a língua nacional dos bascos e que o professor julgava ainda relacionada com o Lígure e o Osco da Península Itálica.

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Língua-hipótese: o Basco

Sobrevivendo ainda no norte de Espanha e no Sul de França, o Basco é hoje utilizado por cerca de 1,3 milhões de indivíduos (900.000 em Espanha, 130.000 em França e aproximadamente 250.000 na América Latina).

Os testemunhos históricos apresentam-nos exemplos de utilização da língua basca numa área muito mais alargada do que aquela em que actualmente a observamos. Com efeito, na Aquitânia francesa, assim como no Aude e no Gard são conhecidos cerca de três centenas de antropónimos, divindades e nomes de povos registados nas inscrições latinas e que revelam semelhanças com palavras da actual língua basca. Aliás, a própria língua Aquitana, conhecida no Sul de França desde o III século a.C. até ao século III d.C. é associada ao Basco e ocupava uma zona que se estenderia em tempos históricos também à Catalunha e às margens mediterrâneas do actual território espanhol.

Embora surja isolada no seio das línguas europeias – todas elas pertencentes ao universo indo-europeu – o basco pertence à família Dene-caucasiana que a associa às línguas caucasianas, para além da burushaski, sino-tibetana, ienisseica e até a família na-dené registada ainda hoje na América do Norte e Novo México. A extensa área ocupada por esta família revela vestígios de uma época em que as suas populações estavam implantadas numa região muito extensa. Bengtson sugeriu também que o Sumério poderia ser incluído neste grupo, mas linguistas como Merritt Ruhlen discordam devido à falta de um número suficiente de provas. A possibilidade de se tratar de uma longa migração que tivesse percorrido praticamente todo o globo também não deve ser descartada, embora deva ser considerada extremamente improvável.

Aqueles que defendem que a actual língua basca está na origem das línguas registadas nas escritas ibéricas meridionais encontraram uma forte oposição no trabalho que Javier de Hoz que distingue entre a nortenha Escrita Ibérica e a Meridional consoantes sonoras e surdas, um fenómeno que não se encontra nas línguas do Sul da Península. Ora, se a língua grafada fosse a mesma, não fariam sentido estas diferenças… Menendez Pidal escreveu também que as línguas originais das populações bascas e Astures pertenciam a uma família diferente das do Sul e R. Lafon concluiu no seu “Current Trends in Linguistics”, que é impossível defender que o basco é um derivado do ibero. Existem contudo alguns vestígios que permitem assumir que a língua deste povo recebeu algumas influências mediterrâneas, como aquelas palavras bascas que J. Hubschmid, “Mediterrane Substrate” descobriu no servo-croata e nas línguas berberes do Norte de África, uma tese semelhante à que defendia aliás Oliveira Martins.

É hoje tido por certa a filiação do basco com as línguas do Sul do Caúcaso, nomeadamente com as do grupo Kartveliano, e efectivamente, nos dias de hoje os gregos ainda chamam aos georgianos: “iberos”. Existem também alguns linguistas que as relacionam com o Etrusco, sendo este por sua vez relacionado com o Hurrita, este com o Hatti e este último com o georgiano. Tratar-se-ia assim de um grupo de línguas pertencente a um substrato anterior ao próprio Substrato Mediterrâneo (por sua vez anterior às invasões indo-europeias). De qualquer modo, desde os trabalhos de Cavalli-Sforza, publicados em 1994, indicam claramente que os genes bascos revelam uma grande dissemelhança com os dos outros povos europeus, nomeadamente pela abundância de genes RH negativos. A genética vem assim comprovar o carácter exógeno dos bascos na Península e a grande diferença que apresentam em relação às restantes populações peninsulares permitem-nos conjecturar de que se tratava de uma população completamente diversa das restantes e nomeadamente das que habitavam no “Cuneus Ager”.

Se os bascos conseguiram salvar a sua língua das várias invasões que assolaram a Península desde tempos Pré-históricos isso deveu-se essencialmente ao aspecto agreste do relevo do Norte da Península e ao seu carácter aguerrido. Apesar dessa combatividade, Javier de Hoz defendeu que os bascos, embora tivessem originalmente uma língua de raiz diversa, acabaram por adoptar uma variação do Ibero, pelo que hoje encontraríamos no basco moderno uma variação da antiga língua dos Iberos. Fosse como fosse, parece-nos certo que a língua cónia embora possa apresentar alguns paralelismos com o basco, não o tem na sua substância como principal sobrevivente moderno. A existência de palavras semelhantes, resultante das próprias penetrações do Substrato Mediterrâneo e do Ibero no Basco e até à resistência de algumas palavras bascas pertencentes a um substrato étnico pré-norte-africano na língua dos cónias não deve ser contudo descartada, embora remetendo-a para o papel de influência e não de língua-mãe ou de língua-filha.

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A Escrita Fenícia

Os primeiros textos em escrita fenícia conhecidos datam do primeiro milénio a.C. Já nessa altura se utilizavam vinte e dois símbolos consonantais, embora se discuta se se tratava de um verdadeiro alfabeto ou se, pelo contrário, se tratava de um silabário em que a presença da vogal era assumida junto de cada consoante, algo que justificaria a total ausência de representação de vogais puras neste sistema de escrita.

Outras Escritas Derivadas do Fenício

Como concluímos mais atrás, a Escrita Cónia resultou de um processo de adaptação a partir do alfabeto fenício. É assim importante estudar também as outras escritas que conheceram processos idênticos. Falamos das escritas do chamado Ramo Colonial Fenício. Este agrupa três variedades:

A Escrita Cipro-Fenícia

Utilizada na Ilha de Chipre entre os séculos X a os II a.C. Trata-se de uma escrita linear, com um total de 45 símbolos geométricos. Todos os signos têm valores fonéticos de sílabas abertas (como ka, ne e ru) ou de vogais. Permanece intraduzida, embora David Diringer suponha que a população era de raça arménia e que podia ter algumas afinidades com a dos hititas.

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A Origem da Escrita Cónia: Origem Fenícia

Como dissemos anteriormente, a origem fenícia da Escrita Cónia ou Sud-lusitânica é a mais provável. Javier de Hoz é o mais notável protagonista desta abordagem, defendendo uma origem por volta do século VII a.C.. Uma origem que teria atravessado o Guadiana, partindo do reino de Tartessos, sob influência fenícia, e chegado às populações cónias do outro lado da fronteira.

Morfologicamente, esta tese concorda com a forma dos signos cónios que efectivamente revelam uma maioria de signos fenícios, puros ou adaptados, para além de um grupo de signos suplementares, obviamente introduzidos para grafar fonemas ausentes no sistema fenício, nomeadamente as vogais. Outros símbolos fenícios seriam utilizados, mas com diferentes valores dos originais. Um processo semelhante à adopção do alfabeto fenício pelos gregos, como descreve Javier de Hoz: “o grego carecia de duas das três velares fenícias pelo que os criadores do alfabeto grego atribuíram o mesmo valor fonético, “k”, aos signos que transcreviam a surda e a enfática fenícias, mas reservando uma das duas, o antecessor do actual “q”, para uso antes de “o” e “u”. No caso da escrita tartéssica foi necessário completar o repertório fenício com uma série de signos novos, inventados, já que, uma vez desenvolvido o sistema, resultava insuficiente para cobrir de forma sistemática todas as situações possíveis.” Por esta razão, surgiriam as sequências duplas que tanto intrigaram os investigadores, como os k(a)a e os k(e)e (segundo a proposta de interpretação de J. de Hoz). Segundo o autor, os signos consonânticos silábicos não eram grafados como tais, isto é, k(a)a valia pela velar “k” e pela vogal “a” e não pela sílaba “ka”.

Hoz conclui a sua tese afirmando a prioridade da Escrita Tartéssica sobre a Cónia. Deduz o autor que se a Escrita Sud-Lusitânica dos Cónios antecedesse a Tartéssica, ao seu repertório de signos não poderia faltar nenhum signo fenício grafado neste, uma vez que esta fora a fonte inspiradora do sistema de escrita. Ora não é isso que sucede, como descobre Javier de Hoz no signo que considera representar a sílaba “bi”, 13.jpgque inventou embora tivesse disponível no sistema fenício o fonema “bet”.

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A Origem da Escrita Cónia: Origem Nórdica

Outrora muito considerada, a teoria da origem na Escrita Rúnica da Escandinávia animou a imaginação de muitos investigadores de nomeada. Entre eles contavam-se Estácio da Veiga, Mendes Correia e Luís Cardim. Inspirada nas semelhanças morfológicas de alguns caracteres com a escrita Rúnica, cedo se revelou incapaz de resistir a uma análise mais prolongada e está hoje praticamente esquecida.

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A Origem da Escrita Cónia: Origem Oriental (Ásia Menor)

Varela Gomes julga reconhecer nas sete dezenas de estelas inscritas cónias traços que permitem adivinhar influências do Mediterrâneo Oriental, nas suas palavras: “Originária do Leste do Mediterrâneo, encontra paralelos nas escritas minorasiáticas da Lídia, Licinia, Cária e Frígia, no grego arcaico (eólio e jónio) e no etrusco, revelando uma raiz comum no modelo semítico da Síria do Norte.” Opinião semelhante – ainda que mais precisa na sua preferência pela origem etrusca – é a de Antonio Guadan. Este numismata defende que a escrita penetrou na Península a partir da sua região Ocidental, do Sudoeste Ibérico, subindo depois o curso do Bétis a escrita chegaria às outras populações peninsulares. Mas também os cónios se situavam no Sudoeste e mantinham com Tartessos relações muito próximas, conforme escrevia o mesmo autor castelhano: “as inscrições do Algarve, que poderiam ser os seus mais longínquos protótipos”.

O posicionamento da Escrita Cónia no ramo afro-asiática, quando ao sistema de escrita, é manifesta, mas não encontramos vestígios etruscos e anatólicos suficientes para poder pensar em qualquer tipo de relação genética que a possa colocar entre os diversos alfabetos gregos do Mediterrâneo Oriental.

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A Origem da Escrita Cónia: Origem no Mar Egeu (Helénica)

A tese da origem egeia da Escrita Ibérica, um sistema de escrita que se sabe próximo da Escrita Cónia, implica um processo de importação com raízes no segundo milénio a.C., um processo que seria posteriormente alvo de influências das presenças gregas e fenícias. Estas são as teses do maior especialista desta Escrita Ibérica, Gomez Moreno e também a do português Rogério Azevedo. Para Gomez Moreno, tratar-se-ia de um Silabário que teria eclodido no Sul da Península Ibérica durante a Idade do Bronze. Contudo, apesar de todo o prestígio de Gomez Moreno, Javier de Hoz criticaria esta posição levantando sobre esta tese uma série de objecções muito pertinentes:

· A pluralidade de origens para os vários signos da Escrita Cónia não é comum entre as escritas conhecidas;

· Problemas estruturais, na notação das consoantes não oclusivas e a redundância tão característica da Escrita Cónia não são coerentes com a tese do Silabário.

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