Notas e Citações de Várias Fontes sobre a Tapada das Necessidades

 
 
Breve História da Tapada das Necessidades
1580: Lisboa foi vítima de uma vaga da peste que se prolongou durante mais de 20 anos. Fugindo deste flagelo, muitos lisboetas deixaram a cidade e espalharam-se pelas terras em redor. Foi esse o caso de um casal abastado que se refugiou em Ericeira local onde rezavam, frequentemente, numa ermida e a uma imagem de Nossa Senhora da Saúde. Passados alguns, e sem mostrarem sinais da doença, regressaram a Lisboa atribuindo essa salvação à imagem, que trouxeram consigo abrigando-a numa ermida perto de uma tapada que haveria já (pelo menos desde 1604) na zona mais alta de Alcântara. Esta nova ermida, erguida em 1606, tornou-se local de grandes romarias, de nobres e povo que aqui íam rezar perante a imagem pedido a satisfação dos seus pedidos e “necessidades” (o que haveria de baptizar a tapada)
 
1742: D. João V ordena a construção de “uma ermida maior”, um convento e um palácio para sua própria residência, por expropriação (ou compra, segundo algumas fontes) das quintas agrícolas circundantes, pretendendo aqui criar uma “cerca” para o convento (conforme ainda visível, hoje, perto da entrada no Largo das Necessidades). A obra surge por acção de graças pela cura da paralisia do rei e seria entregue à Ordem dos Frades Oratorianos.
1756: Referências de um religioso ao moinho (não ao que existe hoje em dia e que datará da década de 1940) a uma seara, à mãe de água (“pia circular” de outras fontes): “Uma larga terra de semeadura (e vinha?), situada no extremo norte, junto ao moinho, confirmando a vocação de produção agrícola” (…) “e sobre elle (lago) huma cascata de singular arteficio à qual vem dar parte da agoa, que vem da mesma May, se reparte agoa para todos os tanques, fonte do claustro, cosinha e Palacio. A cascata além da perfeyção com que está feyta, e galantaria, lança pellas juntas das conchas e buzio a agoa do dito tanque”
Finais Século XVIII: Reclamando perante a insuficiência da água na cerca, os Padres Oratorianos, a quem tinha sido cedida por D. João V a ocupação do convento e da sua cerca, pediram ao Rei D. José I que fossem abastecidos pelo Aqueduto das Águas Livres. O monarca responderia afirmativamente (embora em clima de contestação popular) e a galeria das Necessidades foi construída no final do séc. XVIII sendo dessa época a Mãe-de-Água ou Pia Redonda, situada no alto da Tapada com um mirante dominando todo o terreno mas que hoje, infelizmente, está obstruída pela vegetação
 
1833: Dá-se a extinção das ordens religiosas e da saída dos padres do Oratório do Convento das Necessidades.
1843: D. Fernando II mandou redesenhar o jardim transformando a zona de hortas em jardim inglês, tarefa executada pelo mestre jardineiro Bonard. Na época, no antigo zoológico, o mesmo jardineiro constrói a “escola hortícola” para aprendizagem dos 11 (!) princípes reais. Este monarca e sua esposa, Dona Maria II, dão continuidade à tradição dos piqueniques reais na Tapada, que continuam até que Dom Luís, irmão de Dom Pedro V ascende ao trono e transfere a residência real para o Palácio da Ajuda. A Tapada entra então num período de dormência que, não impede a sua visita por convidados ilustres como o grande pintor Édouard Manet, que, nas suas Memórias refere que a sua obra-prima “Le déjeuner sur l’herbe” se inspirou, precisamente, numa estadia na Tapada. Sobre esta obra existe uma grande polémica interpretativa, havendo teses muitos díspares que vão desde uma aproximação ao bonapartismo, até uma mensagem críptica de teor esotérico. Será também desta época a  Alameda dos Lodãos, que integra um dos lugares mais importantes (e mais degradados) da Tapada, o antigo jardim zoológico, construído entre 1848 e 1856, com os seus seis torreões rodeados por gradeamentos de ferro, onde se conservavam animais, tais como aves raras e macacos, para aqui trazidos por Dom Fernando II para instrução dos seus príncipes. Também sob Dom Fernando, foi construída a Casa do Fresco,  onde eram conservadas sementes e plantas, refrigeradas de forma inteligente e completamente natural através da estrutura de pedra e de um lago que ainda existe hoje no topo do edifício. Na sua entrada, contudo, encontramos uma estátua decapitada já há alguns anos.
1856 e 1861: D. Pedro V manda construir a estufa circular, uma estrutura espectacular, de vidro e ferro forjado, com o objetivo de impressionar a sua jovem esposa Dona Estefânia e para a usar como zona de cultivo de horticulas. A estufa, recuperada em 2011, pela Câmara Municipal de Lisboa, está hoje, infelizmente, fechada ao público, sem as quadrículas hortícolas originais e diversos vidros quebrados em consequência de actos de vandalismo (aliás uma constante no jardim, como comprovam os tags nas estátuas dos leões, no lago circular e nos antigos edifícios do Ministério da Agricultura, no extremo norte da tapada). É, aliás, deste monarca a última grande remodelação do espaço sendo da sua lavra boa parte dos arranjos que hoje podemos admirar na Tapada. A morte inesperada da raínha, com apenas 22 anos e de difteria, e a sua própria morte, dois anos depois seria motivo para grandes romarias dos lisboetas que aqui viriam os populares monarcas.
 
1889:  A Tapada regressa a uma fase de grande actividade sob o reinado de Dom Carlos I que torna a escolher o Palácio das Necessidades como residência oficial,  e dá início a grandes obras entre as quais se destacam um campo de ténis para os príncipes Dom Luís Filipe e Dom Manuel e a Casa do Regalo que, a partir de 2007, seria a residência oficial do antigo Presidente da República, Dr. Jorge Sampaio. Seria neste local que existia o observatório astronómico dos Padres da Congregação do Oratório de onde viria, aliás, a designação (“a vista era um regalo”), algo que também daria o mesmo nome à Quinta da Regaleira, em Sintra, pela mesma razão. Este observatório teria sido demolido nesta época estando já sem uso desde a saída os padres oratorianos do Convento das Necessidades. As obras de 2006 e 2007, contudo instalaram um anexo monobloco, completamente inestético e destoando do restante complexo romântico. 
 
São também da época das intervenções de Dom Carlos a Mata Mediterrânica e o Jardim dos Cactos, considerado, noutros tempos, um dos mais belos da europa, muito expandido na década de 1940 e que é, ainda hoje, um dos mais antigos jardins europeus deste tipo.
1910:  Após a morte de Dom Carlos, D. Manuel II, o seu herdeiro, continua a usar a Tapada tendo inclusivamente planeado um piquenique para o dia 6 de Outubro de 1910, como registou no seu diário. Com a República a Tapada passa a conhecer apenas a frequência dos funcionários do Ministério dos Negócios Estrangeiros e permanece fechada ao público.
1916: Com a implantação da República, em 1910, o antigo Convento dos Padres do Oratório foi ocupado por serviços do Exército sendo o Palácio das Necessidades ocupado, posteriormente pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros, em 1916.
1974:  Em 1974 regista-se, infelizmente, a demolição do antigo Picadeiro Real sendo construído neste local o actual edifício do Instituto de Defesa Nacional.
1983:  A Tapada é considerada Zona de Reserva Florestal Nacional, murada e pertencente à Zona Especial de Protecção, da qual faz parte integrante a Tapada, como imóvel de Interesse Público
2003: O IPPAR autoriza a construção do Parque de Estacionamento Provisório do Instituto de Defesa Nacional em terrenos da Tapada das Necessidades.
2007: O antigo Presidente Dr Jorge Sampaio, ocupa, para seu uso pessoal, o antigo atelier de pintura da Rainha D. Amélia, a Casa do Regalo, entretanto sujeito a obras de adaptação de gosto duvidoso e pouco condizente com o espírito da Tapada.
 
2008: É assinado um Protocolo entre o Ministério da Agricultura e a CML
 
2011: A CML inicia a recuperação de caminhos, sistema de rega e da Estufa Circular. Mas registam-se concursos falhados, incêndios e concursos incumpridos desde então nada mais de relevante se passou na Tapada.
Estado Actual da Tapada das Necessidades
Presentemente a Tapada das Necessidades é gerida por um conjunto de organismos diferentes:  Ministério da Agricultura,  Ministério dos Negócios Estrangeiros,
Ministério da Defesa Nacional e pela Câmara Municipal de Lisboa.
Depois de recuperados os caminhos, foi lançado um concurso para transformar um antigo jardim zoológico num restaurante. O estabelecimento, que a autarquia pretende que tenha um “nível de exigência superior”, iria funcionar num conjunto de edifícios onde chegou a haver um jardim zoológico. Cinco desses torreões, e um edifício construído mais recentemente no meio deles, iria ser concessionados a um privado, que teria de realizar os trabalhos de reabilitação e reconversão numa empreitada de grande dimensão da empreitada dada a degradação do património edificado. A câmara, que assumiu a gestão deste jardim há menos de três anos (no âmbito de um protocolo com o Ministério da Agricultura), ficará com o sexto torreão, para instalar “um espaço de exposição permanente dedicado à Tapada das Necessidades e à sua história e/ou para prestação de informações sobre assuntos relacionados com agricultura”.
Num local onde a Junta de Freguesia dos Prazeres tinha proposto a instalação de um equipamento social, nomeadamente biblioteca, museu e ateliers para crianças, idosos e frequentadores da Tapada em geral, colocar um restaurante de “alta qualidade” como por diversas vezes refere no concurso público, aumentado o volume do edifício central do antigo jardim zoológico em 3 vezes e utilizando os torreões como armazéns e permitindo um funcionamento ao fim de semana até às 2 da manhã, no meio de uma Tapada, um Jardim Histórico, obrigando a movimentações de viaturas e a uma fase de construção completamente agressiva para um espaço que acabou de ser classificado de interesse público pela Autoridade Florestal Nacional.
“A curto prazo”, refere o assessor do vereador dos Espaços Verdes, a autarquia vai lançar outros concursos públicos, para a conservação e restauro do edifício da Estufa Circular, do muro da alameda e da Casa do Fresco, bem como do Largo Circular. Enquanto isso não acontece, foi já concretizada a primeira fase da recuperação dos caminhos e da rede de drenagem. E estão também a ser feitos estudos para a recuperação do antigo moinho e dos edifícios encostados à Rua do Borja.
João Pinto Soares, do Grupo dos Amigos da Tapada das Necessidades, reconhece que há melhorias visíveis no espaço e diz que ultimamente há “muito mais gente” a calcorrear o jardim. O próprio grupo e a Junta de Freguesia dos Prazeres têm dinamizado uma série de actividades, como visitas guiadas no primeiro domingo do mês, comemorações dos dias da criança e da árvore, piqueniques e aulas de tai chi chuan para crianças.
“O estado em que está o património edificado da Tapada é uma vergonha. Não há uma única coisa que esteja inteira, de pé, à exceção da estufa”, lamentou ao CM Paulo Ferrero, fundador do movimento Fórum Cidadania LX.
Recordando o protocolo assinado em 2008 entre o Ministério da Agricultura e a autarquia, ficando a última responsável pela gestão e manutenção do espaço, Paulo Ferrero lamenta “a falta de iniciativas” para a recuperação da Tapada. “Antes do protocolo, o espaço estava em muito mau estado e continua em mau estado oito anos depois, apesar de intervenções pontuais da câmara de Lisboa, como o restauro da estufa”, afirma. “Se não têm dinheiro, façam protocolos. Desde 2008, não foi criado um programa de intervenções e o património edificado continua ao abandono”
 
A Tapada das Necessidades é um grande jardim de dez hectares, localizado entre Alcântara e a Estrela. Tem duas entradas: uma lateral à igreja do palácio das Necessidades (no largo das Necessidades) e outra na rua do Borja.
A Tapada das Necessidades acolhe ainda árvores autóctones e espécimes provindas de todo o mundo, como alfarrobeiras, dragoeiros, medronheiros, zambujeiros e sóforas-do-japão. O jardim dos cactos, um dos mais antigos na Europa, é outro motivo de interesse.
A circulação de bicicletas e a entrada de cães são proibidas.
O Grupo dos Amigos da Tapada das Necessidades reuniu esta segunda feira, perto do edifício, integrante do complexo de antigos equipamentos, para investigação agrónoma, da Tapada, o qual sofreu um incêndio na semana passada, trazendo mais insegurança para os frequentadores deste espaço verde, que podia ser de facto um oásis na cidade, se a Câmara Municipal de Lisboa, entidade que assumiu a sua gestão, assegurasse o controle da portaria da Rua do Borja.
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