A vitória de António José Seguro.

No passado domingo, 28 de Setembro, estive numa mesa de voto das Primárias, em Campo de Ourique (Lisboa). Apenas poucos minutos depois da abertura das urnas, às nove horas, ficou claro que a afluência seria muito grande. Essa foi a primeira surpresa do dia. Num país em que a abstenção nas eleições Presidenciais ou Europeias ultrapassa facilmente os 50%, antecipei a existência de uma elevada abstenção, semelhante a estes valores e idêntica, também, aos registados nas últimas eleições distritais, em Lisboa, para a presidência da, FAUL (federação da área urbana de Lisboa). Antecipei, mas antecipei erradamente: A participação em Lisboa e, de facto, um pouco por todo o país, foi esmagadora. Convidados a tomarem parte activa num processo que até agora tem estado reservado para as direcções e aparelhos partidários, os portugueses responderam de forma muito clara e assertiva provando que os níveis de abstenção que se têm registado ano após ano, eleição após eleição, não são crónicos. São consequência da percepção (correcta) de que o voto nestes sufrágios não é tão eficaz, não tem as consequências práticas e concretas que devia ter. Estes níveis de participação provam que os Portugueses, quando convidados a decidir e a participar na democracia e nos processos democráticos, não só estão disponíveis, como cumprem os seus compromissos, transformando inscrições com simpatizantes em votos efetivos.
O sucesso da participação dos Simpatizantes neste processo eleitoral representa, de facto, e de forma uma tanto paradoxal, um sucesso de António José Seguro. Foi sua a iniciativa de introduzir pela primeira vez em Portugal este processo de decisão para escolha directa de um candidato a Primeiro-Ministro e, indirectamente, a líder partidário. Muito provavelmente, se não fosse a crise criada no Partido Socialista pela avançada de António Costa, e pela resposta consequente de António José Seguro, não teríamos tido eleições Primárias. A este respeito, parte do mérito deste sucesso cabe também ao vencedor da noite de 28 de setembro, uma vez que sem a sua ofensiva ao cargo de Secretário-Geral, também não estaríamos agora a registar o sucesso das Primárias… E isto apesar da suas (públicas) reticências em aceitar participar neste processo eleitoral. De facto, no que concerne estritamente às Primárias, estão todos de parabéns, desde António Costa, a António José Seguro, aos cidadãos que participaram no processo e assim deram aos políticos uma lição de responsabilidade cívica e cidadania, terminando no próprio Partido Socialista que assim assumiu uma posição de liderança num processo de abertura à Sociedade Civil e renovação que agora importa não só aprofundar, como deixar propagar aos outros partidos do sistema político nacional.
Este muito expressivo resultado, no que concerne à baixa abstenção de Simpatizantes (muito inferior à dos próprios militantes, nas secções onde tive acesso a esses números) revela uma Sociedade Civil que está pronta a acolher positivamente outras formas de participação política. Revela que agora é preciso continuar a trabalhar no sentido de tornar cada vez menos Representativa e cada vez mais (em pequenos, mas decididos e consequentes passos) esta nossa democracia. Depois das Primárias, os Partidos precisam prosseguir nessa caminhada simplificando os processos de convocação de referendos por iniciativa cidadã, diminuindo os draconianos requisitos das Iniciativa Legislativas Cidadãs, permitindo a entrada de Deputados Independentes (eleitos fora de listas partidárias) no Parlamento e, sobretudo, permitir que as listas de deputados que cada partido constrói dentro dos seus aparelhos locais possam passar a serem construídas em processos idênticos aos destas Primárias, em listas abertas e onde a ordenação dos candidatos a deputados é construída através do Voto Preferencial e aberto a todos os cidadãos que queiram participar neste processo.
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