Tonicostismo e rui-rionismo

Existe na matriz cultural e sociológica do português uma poderosa inclinação para o autoritarismo. Não importa aqui procurar detalhar as suas origens, mas sim as formas através das quais está inclinação se manifesta nos dias de hoje. E manifesta-se através da erupção súbita, e frequentemente inesperada, de líderes “providenciais”, de conductators iluminados, que arrastam hordas de seguidores semifanatizados e são arrastados mais pelo carisma do seu líder, do que pelas suas ideias (que globalmente desconhecem) e por uma convicção pseudo-religiosa na sua infalibilidade e numa vaga “capacidade de liderança”.
Ao longo da nossa História recente tem sido observar a aparição súbita, e logo desmentida pela crua realidade dos factos, deste tipo de líderes providenciais. Desde Salazar, o “Pai do Estado”, que tudo sabia e geria, até Cavaco Silva (com o mito artificial “homem simples” que é eleito “sem qualquer intenção” e quando “fazia a rodagem do carro até à Figueira da Foz”). Este é o mito do “líder providencial” que em Portugal sempre se soube desenvolver com grande facilidade e que parece encontrar algum tipo de eco muito particular na sensibilidade portuguesa.
E, de novo, encontramos sinais dessa construção mítica em curso no ambiente messiânico que rodeia alguns candidatos a líderes partidários nacionais: no PSD, essa figura, do “líder secreto” ou do “líder que virá” está mais embrionária na sua maturação do que no PS, mas existem notáveis paralelismos no constructo mental que se está a erguer em torno de Rui Rio, pelo PSD e de António Costa, pelo PS: ambas as figuras (não confundir com as pessoas) se construíram em torno de um mandato autárquico numa grande capital, dando assim “provas” de capacidade de gestão de um “mini-estado” como o são as grandes autarquias portuguesas. Ambas as figuras se souberam posicionar ao longo dos anos como putativos candidatos à liderança partidária, nunca assumindo uma posição de ruptura total ou radical com a liderança actual (Costa apenas muito recentemente, se abalançou a tal desafio). Ambas as figuras mantêm oculto atrás de um tapete de fumo a verdadeira profundidade e amplitude diferencial em relação aos seus adversários locais. Ambas as figuras, fazem assentar o essencial da sua construção mediática num bom registo oratório e numa ampla e muito generosa cobertura mediática. Ambos, são criações dos Media, que, no essencial, ainda não provaram (ainda?) estar à altura da sua fama ou aura mediática de absoluta sabedoria.
Ambos são perigosos… Constructos mediáticos que são, são artificias e, logo superficiais. Ninguém sabe, de facto, o que lhes vai na mente e do que serão efetivamente capazes… De Costa, sabe-se que nas suas duas passagens ministeriais não deixou nenhum rasgo de ousadia ou criatividade. O mesmo se pode dizer da sua passagem na Câmara de Lisboa, onde, contudo, teve o grande mérito de não se aventurar em nenhum projeto faraónico que arruinasse (ainda mais) o erário municipal… Rio, no Porto, teve a coragem de enfrentar o poderoso Lobby do FCP, e contou pontos a nível nacional nessa sua luta (perdendo-os porventura em alguns segmentos do norte…), mas nunca teve responsabilidades a nível nacional ou de um ministério.
Ambos são, de facto, duas certezas e duas incógnitas. Duas certezas, porque ambos são protegidos dos Media. Duas incógnitas, porque, para além de alguns lugares comuns e genéricas vacuidades, pouco se sabe do que, de facto, pensam.
Categories: Economia, Política Nacional, Portugal | Deixe um comentário

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