Uma breve investigação MaisDemocracia.org ao estudo do “Centre for Economic Policy Research” (CEPR) sobre o TTIP

Uma breve investigação MaisDemocracia.org ao estudo do “Centre for Economic Policy Research” (CEPR) sobre o TTIP
0.
Recentemente, foi notícia em alguma imprensa e, em particular no canal público, a existência de um estudo, sobre o impacto do TTIP, encomendado ao “Centre for Economic Policy Research” (CEPR), pelo Governo Português, em parceria com a Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa (CCIP) e a Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD). Estes estudo revela uma visão otimista deste tratado, estimando, contudo, um crescimento anémico de… entre 0,56 a 0,76% da riqueza nacional, consoante os termos negociados sejam mais ou menos extensos.
1.
Em primeiro lugar, que organização é este “Centre for Economic Policy Research”? Em primeiro lugar, quem paga, influencia… e este “centro de investigação” é financiado por… gestoras de fundos e grandes bancos multinacionais, precisamente os dois tipos de entidades que mais lobby têm feito a favor do TTIP e dos tribunais arbitrais pró-corporativos que são hoje a grande ameaça aos cidadãos e aos Estados europeus no TTIP. Curiosamente, a página do CEPR onde os seus apoiantes são listados está inacessível (http://www.cepr.org/content/supporters-cepr), mas pode ser ainda lida na cache do Web Archive (http://web.archive.org/web/20140702062515/http://cepr.org/content/supporters-cepr), mas n não (estranhamente) na web cache do Google:

  • Corporate members

    • Alfa Bank
    • BNP Paribas
    • Citigroup
    • Commonwealth Opportunity Capital
    • Credit Suisse
    • Department for Business, Innovation and Skills (BIS)
    • European Investment Bank
    • European Stability Mechanism
    • Grupo Santander
    • HM Treasury
    • Intesa San Paolo
    • Itau Unibanco S.A.
    • JP Morgan
    • KPMG
    • La Caixa
    • Lloyds Banking Group
    • UBS
    • Valtiontalouden tarkastusvirasto
    • Wadhwani Asset Management
Ou seja, este CEPR é composto por investigadores/economistas que são financiados pela grande banca internacional e por uma série de “hedgefunds”… tais como a britânica “Wadhwani Asset Management” ou a “Commonwealth Opportunity Capital”, uma gestora de fundos norte-americana que investe sobretudo na Europa “Also unusual, perhaps, is that a Los Angeles-based global macro fund is focusing most of its investment attention on Europe” http://www.thehedgefundjournal.com/node/7506#sthash.BaTXHmC1.dpuf, ou seja, uma financeira diretamente interessada em valorizar os seus ativos europeus. Nesta lista, está também o “impoluto” banco suíço UBS, recentemente multado por fraude fiscal (http://www.sol.pt/noticia/111205), a KPMG, empresa que auditava as contas (escuras e plenas de crime e fraude fiscal) do BES e que recentemente, em janeiro deste ano entrou em acordo com o Estado holandês, pagando 7 milhões de euros a título de compensação por ter ajudado um seu cliente do ramo da construção civil a “esconder pagamentos suspeitos”. http://www.fcpablog.com/blog/2014/1/13/kpmg-pays-7-million-to-settle-dutch-bribery-case.html#. O próprio fundador da CEPT, o economista britânico Richard Porter, é conhecido por ter recebido amplos financiamentos de bancos islandeses (http://blogs.reuters.com/great-debate/2010/10/12/why-economists-are-part-of-the-problem/) que depois, compreensivelmente, veio defender posteriormente em vários artigos na imprensa especializada.
Outro financiador deste estudo da CEPR foi a… “Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD)”, entidade reconhecidamente usada como um braço económico-diplomático dos EUA, país que está neste momento a pressionar a Comissão Europeia por uma rápida conclusão das negociações antes das eleições presidenciais norte-americanas de 2016.
2.
O estudo da CEPR estima um aumento do emprego… Mas a partir de modelos obsoletos, já que se sabe hoje (a atual retoma da economia dos EUA prova-o) que não basta que uma economia cresça acima dos 2,7% para que se recupere emprego. E mesmo admitindo a validade desses modelos (http://www.eugeniorosa.com/Sites/eugeniorosa.com/Documentos/2012/44-2012-Sem-crescimento-nao-ha-emprego.pdf ), a verdade é que se o TTIP leva a um crescimento entre “0,56 a 0,76%”, então está muito abaixo desses 2,7% a partir dos quais se presumia que o emprego começava a subir e o desemprego a cair, de forma orgânica e sustentável. A previsão de crescimento do emprego é assim falaciosa, não contempla os efeitos na indústria do tomate (ver ponto 3), nomeadamente os cerca de 7 mil empregos do setor em Portugal que assim seriam diretamente ameaçados pelas exportações norte-americanas de tomate barato e produzido em larga escala.
3.
Com efeito, o estudo não dá destaque a uma das maiores ameaças impostas pelo TTIP às exportações portuguesas: o tomate. Portugal é presentemente o 4º maior exportador mundial de tomate transformado, exportando mais de 250 milhões de euros por ano, ora como admite João Machado (http://observador.pt/2014/05/21/comercio-livre-com-os-eua-ameaca-tomate-mas-e-oportunidade-para-a-pera-rocha/): “O preço do concentrado de tomate é mais barato nos EUA e, caso deixem de existir tarifas ou algum tipo de barreiras à entrada deste produto norte-americano na Europa, a indústria do tomate que existe essencialmente em Portugal, Itália, Grécia e Espanha vai ressentir-se”, com ele o emprego, as exportações e um dos setores mais ativos e empreendedores da agricultura nacional.
4.
O estudo não alude aos tremendos efeitos potenciais da presença no TTIP de tribunais arbitrais que permitirão às grandes corporações multinacionais processarem Governos democráticos quando julgarem que os seus lucros presentes ou futuros (!) estão ameaçados, havendo casos, como o do Uruguai em que a Philip Morris (PM) processou o país em virtude deste país ter lançado um pacote legislativo anti-tabaco, conseguir deste país sul-americano o pagamento de uma pesada indemnização de “2,3 mil milhões de euros à empresas de petróleos Occidental, ou seja, 2.5% do PIB deste país!” http://movv.org/2014/07/26/ok-sobre-os-tribunais-arbitrais-do-no-capitulo-investor-state-dispute-settlement-isds-do-ttip-do-capitulo-investor-state-dispute-settlement-isds/. É preciso recordar que em Portugal está em vigor legislação muito semelhante à Uruguaia e que os “930 milhões de euros das exportações portuguesas até 2030” que devem subir devido ao TTIP são menos de… 62 milhões de euros por ano (menos de 1/3 das exportações de tomada que o TTIP vai ameaçar) e que estes 930 milhões nem sequer chegam a metade da multa paga pelo Uruguai à tabaqueira norte-americana? É também preciso recordar que sendo a Tabaqueira, uma empresa da PM (http://www.pmi.com/pt_pt/pages/homepage.aspx), esta terá condições para processar Portugal e levar ao pagamento de uma indemnização três vezes superior, de 6,9 mil milhões de dólares, ou seja, quase tanto como o orçamento anual do Ministério da Saúde?
Fonte original (e que não fez este trabalho de casa):

 

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Categories: Europa e União Europeia, maisdemocracia.org, Política Internacional, Política Nacional, Portugal | Deixe um comentário

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