“O mais prudente seria o recurso ao programa cautelar”

“A moeda única foi aplicada a países com estruturas económicas completamente diferenciadas, com necessidades mediatas e imediatas completamente diferentes, com níveis de produtividade completamente diferentes, e que não podiam, objectivamente, sobreviver simultaneamente com a mesma moeda. A moeda única foi um garrote que se abateu sobre os países menos desenvolvidos que estão na zona euro, porque os impediu de crescerem mais rapidamente que os outros países para atingirem a convergência, ou a coesão económica. Desde logo, dentro da zona euro, quando desapareceu o risco cambial, isso favoreceu os países que tinham especializações produtivas mais elevadas e mais sofisticadas e conduziu, designadamente, a que a industrialização se concentrasse nos países do centro, em particular na Alemanha, assistindo-se à desindustrialização dos países da periferia. Fora da zona euro, e fora da União Europeia, a própria evolução da moeda única em termos cambiais – aquilo que se pode designar euro forte ou euro caro – provocou uma perda de competitividade enorme nos países mais frágeis, nos países do Sul. A nossa capacidade de exportação está assente fundamentalmente em produtos em que há uma enorme concorrência em termos de preços. O euro tem-se mantido, com alguns picos ainda superiores, na ordem de 1.30 e qualquer coisa em relação ao dólar. Ora os países exteriores à União Europeia viram a sua competitividade aumentar substancialmente. E Portugal foi muito prejudicado em termos de exportações.
(…)
“O euro tem no seu ADN a perspetiva de ser um euro forte, uma moeda cara, exactamente para embaratecer as aplicações financeiras da União Europeia nos países exteriores à União Europeia.”
(…)
“É evidente que a saída do euro tem custos. Mas há duas coisas: os custos são a muito curto prazo. Veja-se a Islândia há dois ou três anos. A Islândia fez uma desvalorização brutal, superior a 50%. Teve uma inflação de 12%. Mas passado ano e meio, dois anos, além do crescimento económico que teve, a inflação veio para os 4%. A alternativa que nos é apresentada, a desvalorização interna, tem estes inconvenientes. O programa que está a ser aplicado pela troika e pelo governo é formalmente conhecido como desvalorização interna. A recuperação do escudo, da soberania monetária, teria como consequência uma desvalorização, mas os efeitos a muito curto prazo e nas exportações, passados seis meses, teríamos efeitos claros. E na redução de importações pelo consumo de produtos nacionais. A inflação – já fiz cálculos sobre isso, admitindo uma desvalorização de 30% – nunca iria além dos 10%. Saímos do euro, recriamos o escudo e imediatamente determinar-se que um escudo tem o mesmo valor que um euro. Todas as contas são transformadas de euros em escudos com o mesmo valor.”

Octávio Teixeira, entrevista ao jornal i de 1 de março de 2014

Não há muito a comentar a esta resposta de Octávio Teixeira… existem custos da saída do euro, mas estes são menores que – a prazo – a permanência… assim sendo, e enquanto o Euro se mantiver (como é) uma moeda desenhada e mantida para servir os interesses nacionais da Alemanha, não restam muitas alternativas a uma saída lenta, preparada e cuidadosa, mas uma saída, do euro… a modalidade exata da saída é que está por apurar: uma divisão do Euro em duas moedas? Um retorno ao Escudo? O uso paralelo do Escudo para o comércio interno e do Euro para o externo (como fazem muitos países)? Ou… a saída da Alemanha da moeda única?…

Exatamente, não se sabe qual será a saída. Mas as evidências são claras: ficar nesta moeda tão desajustada da nossa realidade social e económica não é uma opção viável a médio prazo.

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Categories: Economia, Europa e União Europeia, Política Internacional, Política Nacional, Portugal | Deixe um comentário

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