O Movimento britânico “38 Graus”: um interessante caso de estudo de democracia participativa

Um pouco por todo o mundo desenvolvido, assistimos a um decrescimo impressionante dos níveis de participacao cidada. Este fenómeno é notório, até nas democracias mais desenvolvidas, como o Reino Unido. No seu relatório anual, o “Audit of Political Engagement”, a “The Hansard Society” revelou que apenas 41% dos inquiridos têm intenção de votar nas próximas eleições legislativas. Além disso, apenas 1% pertence a um partido político. Curiosamente, é também no Reino Unido que hoje cresce e se desenvolve uma das organizacoes cívicas mais interessantes: trata-se do movimento “38 Graus”.

Desde o momento da sua fundação, em 2009, o “38 Graus” agregou mais 1.8 milhões de membros, ou seja, três vezes o número de todos os militantes de todos os partidos britânicos.

O lema do Movimento é “Pessoas. Poder. Mudança”. O Movimento defende uma abordagem cívica focada em causas muito específicas e concretas na convicção de que “pequenas mudanças concertadas podem produzir uma grande mudança”.

Em termos organizacionais internos, o “38 Graus” não segue os modelos convencionais. O foco absoluto é a base da organização: os membros são centrais às decisões tomadas antes e depois de arrancarem com as campanhas. Para propiciar tal efeito, removeram-se ao máximo as camadas piramidais de tomada de decisão que podem ser encontradas nas organizacoes políticas convencionais.

No processo interno de decisão, o “38 Graus” começa por agregar dados qualitativos e quantitativos dos seus membros em meios digitais permitindo que todos os membros participem nas decisões, mesmo nas suas fases mais iniciais. Para tal, usam várias ferramentas, como sondagens aos membros para decidirem sobre decisões estratégicas. Foi assim que se decidiu avançar para uma campanha contra a intenção do Serviço Nacional de Saúde de compilar uma base de dados que, depois, poderia ser usada por empresas privadas do sector: em menos de 24 horas, a sondagem interna teve mais de 137 mil respostas e um apoio de 93%.

O movimento mantem a plataforma eletronica “Campaigns By You”, que permite que os seus membros organizem, eles próprios e de forma autonoma as suas próprias campanhas.

Existe uma equipa central para estruturar as necessidades dos membros do movimento, mas não uma estrutura hierarquica convencional, num modelo a que um dos membros deste coletivo, Pablo Gerbaudo diz ser uma “liderança suave” em que a prioridade desta equipa central é a de organizar e estruturar a ação do coletivo sem interferir com a vontade dos membros individuais. Uma das ferramentas preferidas do movimento são as peticoes eletronicas, mas não somente. Por exemplo, numa campanha recente a favor de mais transparencia no lobbying, os membros do Movimento enviaram uma quantidade massiva de correio eletronico para um deputado do Parlamento. Numa segunda fase, os membros foram convidados a marcarem reuniões com os seus deputados (no Reino Unido, existem círculos uninominais), nas suas circuncricoes locais. Nas fases finais da campanha, realizou-se uma manifestacao junto ao Parlamento e uma campanha nas contas Twitter dos deputados foi lançada paralelamente. Todas estas abordagens requerem normalmente pouco tempo e esforço aos membros e têm precisamente isso em mente quando são desenhadas. Essa é a forma que o “38 Graus” encontrou para responder ao problema que assola a sociedade britânica e muitas outras no Ocidente: os baixos índices de participação cidadã. Tornando a participação granular, o Movimento baixa os níveis de participação dos cidadãos. Esta opção, permite que os cidadãos possam estar atentos e ativos, numa base diária, sem grandes investimentos de tempo, mas sem esquecer as intervencoes (mais raras) que podem requerer um maior investimento em tempo e recursos.

Os membros do Movimento não estão unidos por uma ideologia especial, mas por uma rede difusa de interesses locais e pessoais.

O sucesso do Movimento advém sobretudo da sua capacidade para mobilizar a participação dos cidadãos no contexto atual de desmobilização cidadã e da maximização dos esforços dos seus membros no sentido que eles obtém quanto à eficácia dos mesmos e a sensação que os indivíduos, mesmo isolados, podem produzir impacto na resolução das causas que lhes são mais queridas. O “38 Graus” permite que os seus membros possam influir no processo político de decisão, abrindo novas portas à Democracia Participativa e ao envolvimento dos cidadãos nas suas comunidades locais e na condução dos seus destinos, também à escala nacional. Merece assim ser atentamente seguido e estudado…

Fonte principal:
http://www.opendemocracy.net/participation-now/james-dennis/myth-of-keyboard-warrior-public-participation-and-38-degrees

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Categories: Democracia Participativa, Política Internacional | Deixe um comentário

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