Do Bloqueio da Sociedade Civil em Portugal

0.
Existe atualmente um notório bloqueio da Sociedade Civil em Portugal: uma grande percentagem dos cidadãos abstêm-se de uma vida cívica, associativa ou política e, até, do simples acto de votar. Este abismo entre eleitos e eleitores não cessa de se aprofundar através da labuta incansável da escavadora da abstenção eleitoral e cívica. Este abismo encontra várias explicações na matriz sócio-cultural do povo português, mas as razões mais poderosas são a inexistência de alternativas credíveis de governação e a baixa densidade da rede associativa em Portugal. Os dois fenómenos são manifestações desta mesma causa: o abstencionismo crónico do português.

1.
Faltam alternativas políticas credíveis: os partidos da Situação (também ditos de “do arco da governação”) alternam-se rotativamente no governo, partilhando prebendas e jobs for the boys e boyas e incumprindo programas eleitorais uns atrás dos outros. A oposição à esquerda, mantêm discursos demagógicos anacrónicos e extremados, sem ligação com a realidade e sem aparente vontade de se assumirem como reais e credíveis alternativas de poder. Faltam verdadeiras alternativas, capazes de oporem de forma consistente às perdas sucessivas de soberania, impostas a partir do norte da Europa e a um servilismo bacoco pelos Grandes Interesses económicos e financeiros que colocaram os Partidos da Situação de joelhos. Falta uma alternativa que seja Participativa por dentro e por fora, avessa a protagonismos, lobbies internos ou derivas autoritárias e permanente aberto aos cidadãos, as suas contribuições e opiniões. Falta um novo partido que recentre a Democracia na Participação dos cidadãos e a afaste desta actual lógica Representativa, condicionada, servil e aparente da nossa Partidocracia.

2.
Faltam associações cívicas e políticas não partidárias. A esmagadora maioria das associações portuguesas são de fim “recreativo”. Isto é, assumem como missão principal a organização e execução de festas e bailaricos. Nada temos contra a “festa” ou aspecto lúdico da vida, mas a inexistência de associações cívicas fortes e numerosas é um reflexo do recuo do cidadãos da condução activa, vigilante ou interveniente na vida da sua comunidade local e nos destinos do seu país. Causas que propelem os cidadãos a organizarem de forma formal, em associações, ou informal em movimentos cívicos, não faltam. Faltam é cidadãos que estejam dispostos a nelas militarem, defendendo sem Medo ou pudor aquilo em que acreditam. Esta carestia de cidadãos activos é – sem dúvida – maior doença da nossa Sociedade Civil. Os que se mexem, que se preocupam, que fazem, são raros e geralmente estão presentes em várias causas… ou seja, estão assoberbados.

Categories: Democracia Participativa, maisdemocracia.org, Política Nacional, Portugal | 1 Comentário

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One thought on “Do Bloqueio da Sociedade Civil em Portugal

  1. Jose Miranda

    Acresce que, para compreendermos os mecanismos de como o poder financeiro internacional tomou conta do poder politico, teriamos que estar dentro desse poder financeiro e nao e o caso da maioria! Tomo a liberdade de recomendar, como fundamental, o filme “Inside job”.

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