Quatro Coisas em que Acredito

1.
Acredito que qualquer projeto de matriz política, cívica ou associativa, ou mesmo empresarial e com fins lucrativos deve basear toda a sua acção e pensamento na Consistência entre a Palavra e Acção, sendo esta consistência expressa numa lógica participativa que sirva de pilar a todas as suas actividades e conceitos internos e externos: Democracia Participativa para dentro e para fora, no mundo cívico e, de idêntica forma, no mundo empresarial. Isto significa que se deve procurar votar – por todos os militantes, trabalhadores ou associados, – tudo aquilo que é proposto pelos órgãos formais da associação, da direcção empresarial ou da gestão intermédia da organização. Esta democracia Interna significa também que esta votação só pode ser expedita (através de mecanismos especialmente criados para o efeito) em propostas, ideias ou iniciativas e projectos que exijam urgência, pela sua natureza ou contexto especiais. O conceito em si nada tem de novo no mundo empresarial sendo aplicado no contexto empresarial cooperativo desde há muitas décadas, com sucesso variado em várias organizações e recebeu recentemente um notável incremento teórico com o desenvolvimento das teorias da “parecon” ou “par-economia” nos EUA.

2.
Acredito que todas as organizações, cívicas, políticas ou empresariais devem ser tão horizontais quanto o possível. Isto consegue-se limitando ao máximo as estruturas geográficas (dispensando, por exemplo, os níveis distritais em organizações cívicas e políticas) e os níveis hierárquicos entre o trabalhador ou associado e a direcção associativa ou empresarial. Quantos menos níveis, maior a fluidez da transmissão da vontade dos associados até à direcção nacional, mais facilmente serão transmitidos do topo para a base as orientações, missões e objectivos da liderança empresarial ou associativa até aos trabalhadores e mais intenso (em quantidade e qualidade) será o feedback destes em relação a atos de gestão e mais fácil será a gestão e a chegada de boas ideias e de uma criatividade produtiva aos órgãos de gestão. Quanto maior for a democracia interna das organizações, menores serão os erros de percurso (reduzindo a amplitude de distorção de mensagem), maior será a consistência e, sobretudo, menos condições se criarão para ver brotar culturas aparelhísticas e de lobbies internos, fragmentação entre departamentos funcionais ou geográficos e maior será a consistência global da organização e a eficácia com que alcança a sua missão.

3.
Liderança sem protagonismo: Sem negar a necessidade da existência de uma coordenação nacional numa organização social, cívica ou empresarial, com capacidade e autonomia para decidir em assuntos de premente e óbvia urgência ou de simples gestão corrente, acredito que todas as organização – independentemente de serem lucrativas ou não lucrativas – devem ter uma liderança exemplar: Exemplar na sua capacidade de abnegação de toda a espécie de protagonismo fácil, privilégios imorais, rendimentos ou regalias muito acima da média da organização, com a negação de toda a autoridade implícita e de profundo e sistemático respeito pelas opiniões contrárias, abrindo sempre espaços para a expressão livre e incondicional (mas regrada e cordata) de todas as opiniões, sobretudo das contrárias. Tanto quanto o possível, esta liderança deve ser multifacetada, enquadrar várias correntes de opinião e ser diversificada, agregando – nas organizações lucrativas – nos órgãos mais altos representantes eleitos pelos trabalhadores e mantendo mecanismos fluidos e permanentes de feedback com a massa associativa nas organizações não lucrativas.

4.
Por fim, acredito na necessidade de estimular, promover e incentivar a existência de correntes de opinião (individuais ou grupais) diversas e a todos os níveis nas organizações. Acredito que qualquer que seja a composição dos órgãos de uma associação cívica ou política, esta deve sempre integrar cidadãos activos, que queiram participar (e possam) nos processos de decisão internos, sem condicionalismos de nenhuma ordem e que é preferível um associação ou organização plena de opiniões contrárias a um bloco unanimista e monocórdico onde os seus membros se abstém cronicamente de tomadas de opinião que contrariem a maioria. Nada é mais salutar a um colectivo de natureza cívica ou empresarial, do que estimular a existência de opiniões contrárias: esta é a forma de manter a direcção dessa organização vigilante e atenta a si própria, procurando erros ou atrasos, mantendo todos (na direcção e nas bases ou trabalhadores) despertos e rápidos no pensamento e acção. O unanimismo favorece a dormência e uma organização com membros dormentes (associados ou trabalhadores) está condenada à extinção, por muito ativa que seja (ou possa parecer) a sua direcção.

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