A Mensagem Esotérica da Sé Catedral de Lisboa (notas soltas)

0. Introdução: a Sé Catedral de Lisboa

Uma das lendas da fundação de Lisboa, alude à fundação da cidade por Ulisses, que aqui se terá apaixonado por Ofiussa, a rainha das mulheres-serpente. Quando Ulisses decidiu regressar à sua Ilha de Ítaca, Ofiussa ficou tão furiosa que fez tremer a planície onde estava Lisboa criando assim as Sete Colinas. Onde hoje se erguem sete igrejas, sendo esta, da Sé, uma delas.

No período visigótico já existia neste local algum tipo de atividade religiosa, como comprova uma lápide no flanco exterior norte da Sé. Na época romana, o Fórum de Lisboa parece ter funcionado aqui, o que quer provavelmente dizer que haveria também aqui um povoado pré-romano ou um templo pré-romano. Isto mesmo indicia a proximidade do Teatro (na vertente do Largo de Santiago) e a antiga Porta de Ferro na mesma encosta, construída no mesmo local onde se pensa que existia um arco triunfal romano.

A Sé Catedral de Lisboa teve como primeira designação “Igreja de Santa Maria Maior” (ainda hoje, o nome desta paróquia e agora nome da atual freguesia agregada). Sendo “Santa Maria Maior” outro nome da “Nossa Senhora das Neves“, o qual provém da tradição em que um casal romano, que havia pedido à Virgem um sinal sobre como poderia gastar a sua fortuna. Em sonhos, a Virgem respondeu dizendo que o local onde queria que construíssem uma basílica seria aquele que aparecesse coberto de neve, em agosto. Tal aconteceu, na noite de 4 para 5 no Monte Esquilino, em Roma, tendo sido este então o local se haveria de erguer a Basílica de Santa Maria Maior de Roma.

A Sé foi mandada construir por D. Afonso Henriques em 1150, apenas 3 anos depois de ter tomado a cidade aos muçulmanos, no local onde funcionava uma mesquita almorávida. O projeto segue as grandes linhas da Sé de Coimbra. E a primeira fase de construção, no estilo românico teria cabido a Frei Roberto de Lisboa, mestre dos Monges Construtores (que se presume de origem normanda), coadjuvado pelo mestre Bernardo.

A Sé de Lisboa é posterior à Sé de Coimbra, local onde terão trabalhado os mesmos mestres construtores. A maior diferença entre as duas construções consiste na existência em Lisboa de mais um tramo e de torres, para além de arcos e pilares num estilo românico mais evoluído que o da Sé de Coimbra.

O primeiro bispo de Lisboa foi o cruzado inglês Gilbert de Hastings.

O plano da igreja assume um intenso pendor defensivo, como aliás era típico deste estilo e de um período tão bélico da História nacional e isto apesar de se situar na Cerca Moura, isto é, já dentro do recinto amuralhado da cidade.

Durante a Idade Média, a Sé funcionou como o Fórum romano sobre o qual se pensa ter sido construída, tendo-se realizado no adro e interior algumas das reuniões dos homens-bons da assembleia municipal. Num anexo funcionava também a Escola da Sé que foi frequentada por muitas personalidades ilustres da Idade Média portuguesa, como Santo António de Lisboa (então ainda conhecido como Fernando de Bulhões).

A Sé sofreu muitos danos nos 3 grandes terremotos do século XIV, e, sobretudo, no de 1755 (em que caiu, por exemplo, a torre lanterna de vários andares), tendo sido renovada depois de cada um deles.

Apesar de ter sido alterada várias vezes, a fachada principal mantém a sua estrutura românica: duas torres, uma rosácea e merlões, reconstruídos no século XX).

O portal românico está recolhido e exibe arquivoltas sobre colunelos reentrantes encimados com capitéis decorados com motivos vegetalistas e antropomórficos.

O corpo da igreja revela uma planta em cruz latina, de 3 naves. Os capitéis deste núcleo central da igreja não possuem atualmente qualquer elemento decorativo. O interior é assim muito austero e atualmente sem os embelezamentos feitos na época de D. João V (começos do século XVIII).

Até ao século XIV, era possível observar na cabeceira uma composição tipicamente românica, com abside e dois absidíolos laterais menores. Desta composição restam alguns vestígios nas faces interiores e exteriores do transepto, onde é igualmente possível observar ainda que os absidíolos originais eram muito mais altos que a atual charola. Os anexos que posteriormente foram adicionados na fachada norte datam da transição (finais do século XII e começos do século XIII), ou seja,  entre o românico e o gótico.

Na Capela de Santo Ildefonso encontramos o sarcófago do século XIV de Lopo Fernandes Pacheco, companheiro de armas de D. Afonso IV, e da sua esposa Maria Vilalobos. O túmulo está esculpido com a figura barbuda do nobre, de espada na mão, e da esposa, com um livro de orações e os cães sentados a seus pés. Na capela adjacente encontravam-se os túmulos de D. Afonso IV e da rainha Dona Beatriz.

À esquerda da entrada a capela franciscana contém a pia onde Santo António foi baptizado em 1195, com azulejos que o representam a pregar aos peixes (para alguns, uma alusão aos cátaros do Languedoc). Na capela adjacente existe um Presépio barroco feito de cortiça, madeira e terracota da autoria de Machado de Castro (um dos maiores escultores portugueses e autor da estátua de D. José I, na Praça do Comércio). Ter em conta que a água da pia baptismal é uma alegoria à regeneração e à purificação física, sendo também assim a “fonte da juventude” que é o objetivo último da Pedra Filosofal. Na Alquimia, a Água é o elemento de união das oposições dos dois elementos masculino e feminino (Adão e Eva ou Enxofre e Mercúrio).

A peça mais preciosa do tesouro da catedral é a arca que contém os restos mortais de São Vicente, transferidos do Cabo de São Vicente para Lisboa em 1173. A lenda diz que dois corvos sagrados mantiveram uma vigília permanente sobre o barco que transportava as relíquias. Os corvos e o barco tornaram-se no signo de Lisboa. Diz-se também que os descendentes dos dois corvos originais viveram durante muito nos claustros da catedral…

Existe uma lenda que descreve a existência de um túnel ligando a Sé, o Castelo de São Jorge o Convento do Carmo. Estes locais, sagrados e tendo todos em comum a Flor de Lis correndo uma maldição sobre quem “ouse penetrar essas misteriosas e ocultadas artérias sob o chão de Lisboa”.

Uma lenda alega que a Sé é uma das “sete catedrais do Graal”, juntamente com:
1ª) Abadia de Westminster, Londres, Inglaterra
2ª) Santa Maria Maggiore, Roma, Itália
3ª) Catedral do Precioso Sangue,  Bruges, Bélgica
4ª) Catedral de Santa Maria Maior, Lisboa, Portugal
5ª) Catedral de Washington, Washington, E.U.A.
6ª) Catedral do México, Cidade do México, México
7ª) Basílica do Salvador, São Salvador da Bahia, Brasil

O Graal na Sé Catedral de Lisboa

O Santo Graal terá sido o recipiente que recebeu o sangue de Cristo, recolhido por José de Arimateia e por onde Cristo teria bebido na Última Ceia. Após esta recolha, o Graal teria sido guardado em sete templos no Médio Oriente, naquelas a que o Apóstolo João chama de “7 Igrejas do Oriente“. A partir de finais do século X, o Graal – segundo esta lenda – chega ao Ocidente, percorrendo as 7 catedrais do Ocidente acima listadas tendo estado em Lisboa sob a custódia da Ordem de Mariz (ordem secreta sob a cobertura das Ordens de Avis e do Templo).

Este mito está interligado à lenda do Rei Artur, narrada por Chrétien de Troyes e que teria chegado a Portugal (ainda antes da independência nacional) graças aos Trovadores, protegidos pela Ordem do Templo, sendo Dom Dinis (que ordenou a construção do claustro da Sé) um defensor dos templários, após a extinção da ordem e, simultaneamente, um trovador e poeta…

A este propósito, deve aqui invocar-se a tradição de que 2 dos 12 cavaleiros da Távola Redonda (Tristão e Roldão) seriam portugueses, e que estes cavaleiros tinham como maior objetivo a descoberta do Santo Graal.

A Confraria dos Trovadores e Jograis estava espalhada por toda a Europa e os primeiros ecos da sua existência aparecem na poesia dos séculos X e XI composta por louvores à Mãe de Deus e bendizendo da Humanidade. No seu papel de bardos, os Trovadores, por meio dos seus cantos amorosos e satíricos, espalharam muitas verdades iniciáticas. Eles eram, por assim dizer, os “correios” ou “porta-vozes” entre os Iniciados europeus.

Ligado ao Graal está igualmente o mito da Taça Djin, originalmente criada por Salomão e que o pai de Afonso Henriques teria possuído em 1095, depois da conquista (provisória) de Sintra, perdendo-a depois para os Almorávidas.

Ainda em relação ao Graal, saiba-se que uma das teses para a formação do nome de Portugal, é o de Porto-do-Graal:

Vítor Manuel Adrião, afirma que  “A tradição refere que São Bernardo Claraval mandou recolher, nas galerias do Templo de Salomão, um objecto sagrado que mandou trazer para a Europa”, adiantando: “E quando o conde D. Henrique o convidou para o Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça, o Santo Graal veio para cá.” Por outro lado, no documento de doação de Tomar aos Templários, há um sinal rodado, um selo oficial, onde se pode ler ‘Porto Graal’. Ou seja, Portugal, porto do Graal, faz todo o sentido.”

 

1. Esoterismo, Hermetismo e Linguagem dos Pássaros

Existe uma corrente de historiadores da arte, que acredita que a decoração das catedrais medievais não tem significado. Segundo estes historiadores, a única motivação seria o preenchimento dos espaços vazios…

O que está em cima é como o que está em baixo“, diz o pilar fundamental da visão hermética e inscrita na Pedra Esmeralda de Hermes Trimesgisto. Tudo na Catedral apela à verticalidade e à ligação do Alto, com o Baixo, nas colunas, tectos altos, abóbadas e vitrais. Esta verticalidade, representa o Espírito contraposto à Matéria (o solo), sendo o Espírito a meta do desenvolvimento humano.

A tradição do hermetismo é a de ocultar a mensagem, transmitida diretamente de Adepto para Aprendiz, com auxílio do livro escrito ou do livro de pedra das catedrais e das mansões filosofais (como a de Nicolau Flamel). Aquelas mensagens herméticas que hoje podemos adivinhar (sempre com múltiplas interpretações) são uma parte desse processo de transmissão de conhecimento e de iniciação.

Esta “língua da pedra” é a Linguagem das Aves (que aliás, são omnipresentes na Sé) e que pode ser também usada oralmente, com combinações fonéticas ou jogos de palavras, para transmitir uma mensagem oculta imersa sobre uma mensagem superficial.

No diálogo entre o rei Chalid e o monge Morieno, escreve-se “a base desta arte reside no facto de que todo aquele que a queira transmitir tem, por seu turno, de a ter aprendido com um mestre… e torna-se igualmente necessário que o mestre a tenha praticado com frequência na presença do discípulo… Pois aquele que conhece com exatidão a ordem da obra, aquele que já a realizou com as suas próprias mãos, em nada pode comparar-se àquele que se limitou a estudá-la nos livros“.

Iniciemos então o nosso percurso, começando na porta da catedral, percorrendo a sua lateral direita e penetrando depois no claustro, concluindo o nosso passeio contornando pela direita o edifício e terminando-o na porta sacra oitocentista.

Nas catedrais tudo tinha cores vivas e luz. Matryrius, um bispo e viajante do século XV, ao descrever a Notre Dame de Paris diz que o pórtico era resplandecente como as portas do Paraíso: Púrpura, rosa, azul, prata e ouro estavam por todo o pórtico. Alguns indícios de cor ainda podem aqui ser observados no tímpano da porta principal.

A própria arquitetura das igrejas medievais é – segundo Fulcanelli – uma referência ao matraz cruciforme ponde a matéria prima primeiro morre, é purificada, espiritualizada e transformada, o local onde segundo a Tábua da Esmeralda: “se não decompões os corpos e não corporificas os incorporais, o resultado esperado será nulo.”

Existem vários testemunhos da presença da Alquimia na Idade Média portuguesa. Desde o Convento de Tomar, onde se diz que era praticada a Espagíria, ao Convento dos Capuchos, em Sintra, passando pelo Convento de São Dinis em Odivelas onde Dona Feliciana de Milão (1642-1705) escreveu o seu “Discurso sobre a Pedra Filosofal“. No Convento do Carmo, não muito longe da Sé, encontramos também a figura de um alquimista no túmulo de Dom Fernando

Sabe-se que os conhecidos alquimistas Raimundo Lulio, Arnaldo de Vilanova e Paracelso estiveram em Lisboa. E que portugueses notáveis (talvez alquimistas) estiveram em contacto com alquimistas europeus. É o caso de Pedro Hispano que se correspondeu com Alberto, o Grande. Afonso V, alegadamente, terá escrito o “Lapis Philosophorum” e, depois, o “Divisão dos Quatro Elementos“. Mais tarde, em 1556, a Inquisição acusaria António de Gouveia, dos Açores, de praticar Alquimia e de saber transmutar chumbo em ouro. Na mesma época, a Inquisição mandava queimar a biblioteca alquímica de Frei Vicente Nogueira. No século XVII, Pedro Nunes trocava cartas com Jonh Dee e Duarte Madeira Arrais escrevia o “Novae Philosophiae“. No século XVIII, Anselmo Caetano Munhoz de Abreu e Castelo Branco publicava “A Ennoea ou Aplicação do Entendimento sobre a Pedra Filosofal“. No século XIX, Carvalho Monteiro erguia a sua Quinta da Regaleira, onde os elementos alquímicos são uma constante…

Entre 1325 e 1357 ocorre novo surto construtivo na Sé Catedral durante o reinado de Dom Afonso IV com o erguer de uma nova cabeceira de estilo gótico, com a capela-mor (que o monarca pensou como panteão privado) reparando assim os danos profundos sofridos pela cabeceira românica original do abalo sísmico de 1344. Desta fase de construção data também o deambulatório (a galeria que rodeia a capela-mor, rodeada de nove capelas radiantes, mais baixas por forma a permitir a iluminação direta da capela-mor algo que é um motivo comum na maioria das igrejas de peregrinação da Idade Média).

Em termos de estilos arquitetónicos, a Sé é hoje o produto da combinação de vários estilos diferentes, naquilo a que alguns já chamaram de “pastiche“. No interior, encontramos 3 naves de 6 tramos com a central coberta por uma abóbada de canhão e as laterais por abóbadas de aresta. O transepto é também abobadado, com rosáceas, exibindo este conjunto uma notória influência normanda, porventura por via de mestre Roberto. Estas 3 naves da Sé de Lisboa são hoje, das poucas estruturas que escaparam quase ilesas às várias alterações da igreja.

Em 1649, o arquiteto Marcos da Cruz ergue uma nova sacristia, com uma estatuária em que se destaca a curiosidade de apenas estarem representados santos portugueses.

A Sé Catedral viria a sofrer extensos danos em 1755, no abalo e no incêndio subsequente, perdendo parte do claustro da capela-mor gótica, parte da torre sul da fachada e toda a torre sineira do cruzeiro e a talha interior. A abóbada da nave central colapsa, assim como a da capela-mor. A Sé perde então a sede da diocese de Lisboa, em virtude da grande extensão dos danos sofridos. As capelas radiantes da cabeceira perdem no incêndio a sua decoração, ficando sem a talha, azulejos e muitas das esculturas que as compunham. No mesmo desastre, perdem-se os túmulos de Dom Afonso IV e sua esposa.

A capela-mor é reconstruida a partir de 1777 e o seu interior exibe desde então um claro estilo neo-clássico e perdendo-se assim os estilos românico e gótico que antes definiam esta importante secção do edifício.

No começo do século XX, o então popular (e muito influente) arquiteto Augusto Fuschini concebeu um plano massivo de reconstrução com um grande projeto de estilo neo-gótico (para a nova cabeceira) e neo-clássico (colocando novas colunas na entrada principal, cujos restos estão hoje no claustro). A morte de Fuschini levou ao abandono do projeto, salvando-se assim a severa descaraterização do edifício que se preparava. A partir daqui, as obras na Sé são mais modestas.

Alguns anos depois, António do Couto Abreu procura recuperar as estruturas existentes, recuperando a abóbada da nave central, mas no processo acaba introduzindo elementos neo-românicos que confundem hoje (quanto à data) o visitante desta igreja lisboeta… inauguradas em 1940 (a data “940” pode ser hoje encontrada no muro exterior direito da Sé) estas obras tornam-se numa manobra propangadística do Estado Novo.

O que é a Alquimia?

O fundador mítico da Alquimia é Hermes Trimesgisto. Para os muçulmanos, Hermes seria Ídris, um profeta ante-diluviano que teria enviado por Alá para inspirar os homens a organizarem-se depois do Dilúvio. A palavra “alquimia” é de origem árabe (alkhimiya) e deriva do substantivo egípcio “khemi” (negro), a matéria original da transmutação, em que o negro se torna em ouro depois de passar pelo branco.

Fachada da Sé Catedral de Lisboa

A fachada da Sé de Lisboa mostra um corpo central ladeado por duas torres amuralhadas muito ao gosto românico, quadradas e de face lisa.

A rosácea no corpo central é formada por um vitral executado na Fábrica Ricardo Leone (década de 1920). Sob o vitral, encontramos o arco de entrada na Sé com 8 capitéis  decorados, numa repetição dos números simbólicos 4 (quatro arquivoltas).

Na simbólica alquímica, os 4 elementos da matéria (uma conceção helénica: Terra, Água, Ar e Fogo), o número 8 de Cristo e da “regeneração” (duas vezes o Quatro, o número da Matéria) e somando ambos como faz Vítor Manuel Adrião, chegamos ao 12, o número dos “Cavaleiros Tributários da Távola do Santo Graal, aos 12 Apóstolos do Cristo, dos 12 Signos do Zodíaco” e, claro, das 12 operações da Grande Obra:

Calcinação (Carneiro)
Congelação (Touro)
Fixação (Gémeos)
Dissolução (Caranguejo)
Digestão (Leão)
Destilação (Virgem)
Sublimação (Balança)
Separação (Escorpião)
Incineração (Sagitário)
Fermentação (Capricórnio)
Multiplicação (Aquário)
Projeção (Peixes)

Foto 2988. Rainha-Sereia (coroada)

Eis Melusina, uma figura que surge com alguma frequência em tratados de Alquimia. Originalmente, Melusina seria uma donzela amaldiçoada descoberta por Raymond, o Duque da Aquitânia, que, perdidamente apaixonado lhe rogou que casasse com ele. Melusina concorda, mas impõe a condição de nunca ser incomodada ao Sábado, durante o banho. O duque acede, mas torna-se desconfiado e um dia vai espiá-la no banho, descobrindo que esta se transformava numa sereia (dragão ou serpente, consoante as fontes). No contexto alquímico, Melusina, é um dos muitos símbolos da dualidade: Água e Terra ou Corpo e Espírito. A sereia, neste contexto, é também uma alusão à Iluminação e ao Mercúrio, Dissolvente Universal.

Foto 2989. Cavaleiro-Touro e Cavaleiro-Leão

Estes 2 cavaleiros em luta, um montando um leão, o outro um touro, significam, numa primeira camada simbólica, a luta peninsular entre cristãos e muçulmanos (o cavaleiro de barbas é um cristão e o imberbe um muçulmano) (Sol-Leão-Cristo) (Touro-Cornos-Lua-Islão). Alquimicamente, podemos estar aqui perante uma figuração da oposição Sol-Enxofre, Lua-Mercúrio, o Rei e a Rainha alquímicos.

Foto 2990. Arcanjo São Miguel com dragões a seus pés

Eis o arcanjo São Miguel com a sua espada flamejante, derrotando o dragão da heresia. Ao lado, encontramos os 3 mártires de Lisboa, da Igreja e lenda de Todos-os-Santos (Veríssimo, Máximo e Rufina), cujo culto, de facto, foi começado por Sancha Sanches (1180-1229), filha de Sancho I e neta de Afonso Henriques (monarca ligado à fundação da Sé).

Segundo a lenda, os 3 mártires seriam irmãos, provenientes de Roma (ou de Lisboa) e foram sido supliciados pelas autoridades romanas; após o suplício e morte, os seus corpos foram atados a pedras e deitados ao rio Tejo entre Lisboa e Almada, tendo os sido arrojados à costa num local em Lisboa.

Alquimicamente, este arcanjo é o símbolo do Fogo, um dos Quatro elementos que compõem a matéria. Associado por vezes ao elemento químico Enxofre e tendo como símbolo o triângulo invertido. Na tradição alquímica, os metais são incubados pelo fogo no ventre da Terra, cabendo ao alquimistas unicamente a missão de acelerar esse processo de desenvolvimento natural.

Foto 1. Rosto de Homem acompanhado de rosto feminino

Esta é uma alusão à dualidade Homem-Mulher, ao dualismo sexual Sol-Lua que era replicado por muitos alquimistas na sua procura pela Grande Obra ou perfeita União Alquímica (por exemplo, Flamel e Pernelle).

Estas duas metades do Casal Alquímico são complementares formando um único ser, o Andrógino. E a figuração destes Casais assume frequentemente o valor de Mercúrio (Feminino) e Enxofre (Masculino) como elementos duais da Matéria-Prima (aqui encerrados em perfeita proporção) e que são o primeiro desafio que o Adepto tem que vencer (identificando-a) na Grande Obra (via Seca e via Húmida).

É contudo necessário esclarecer que enxofre e mercúrio nada têm a ver com os “nossos” enxofre e mercúrio. São, princípios, símbolos da metalicidade para o enxofre e da combustibilidade e cor para o mercúrio. O terceiro elemento desta trindade (ver mais adiante) é o Sal, ou “mercúrio dos filósofos“, ou ainda a “ave de Hermes” (e muitas aves estão presentes na gramática decorativa da Sé), o principal agente da transmutação metálica.

Foto 2. Adão e Eva no exterior com árvore e serpente de permeio. Ao lado, dois pássaros beijando-se

Adão e Eva são mais uma referência (como a anterior) do Casal Alquímico. Na simbólica medieval surgem quase sempre com a tentação da serpente.

Adão é originalmente, segundo o Génesis, uma entidade andrógina, feita à imagem de Deus, sendo assim mais uma referência encontrada nesta Sé Catedral ao Andrógino alquímico.

Gólgota é o nome da colina do sepultamento de Adão, representado pelo crânio junto à cruz que frequentemente aparece nas imagens da crucificação. Nesta condição, simboliza Cristo como o novo Adão. Na gramática alquímica, Adão vale frequentemente por Matéria Prima.

A árvore entre Adão e Eva é “Árvore da Sabedoria”, a fonte do conhecimento de onde provém o Saber Operativo e todos os seus riscos (a Serpente ou Ofiussa).

O Casal de Pássaros que trocam este gesto de amor (beijo) é também encontrado na Carta do Tarot Cigano: “Os Pássaros, as Alegrias ou Sete de Ouros”, e é um símbolo de uma vida sentimental feliz mas também de uma vida plena e realizada e da consumação das Núpcias Alquímicas prenunciadas pelas várias referências a Casais Alquímicos que se observam na Sé Catedral de Lisboa. Em triplo sentido, é igualmente uma recordação ao neófito de que existe uma “linguagem dos pássaros” imersa na pedra desta igreja lisboeta.

Foto 3. Dois homens segurando um terceiro (prisioneiro?) pelo pescoço

Nesta aparente cena de tortura, a corda tem um valor simbólico: é aquilo que prende a alma ao corpo. Na Maçonaria, a corda representa também “a comunidade”. No período medieval a “corda com nós” representa a morte quando estes são desatados.

As janelas das catedrais medievais representam, nos seus vitrais, a abundância de cores da Jerusalém Celeste e, como não tem luz própria mas deixa passar a luz através dela, simboliza a Virgem Maria, a mãe de Deus, que traz em si o filho de Deus.

Foto 4. Lavrador que ara a terra e porco que devora planta

Arar, em linguagem simbólica medieval, significa fecundar ou propiciar – através do Homem – a união entre o Céu e a Terra, um dos propósitos explícitos, aliás, das catedrais. No sentido alquímico, significa a fecundação da Matéria Prima pelo alquimista.

Foto 7. Cabeça de Leão com asas de morcego

(Augusto Fuschini pretendeu reinventar uma catedral medieval, com laivos de fantasia neo-gótica (como o projeto para a nova cabeceira) e neo-clássica (com as grandes colunas para a entrada principal, cujos restos repousam ainda no claustro). A sua morte, em 1911, veio determinar o abandono do projecto)

O leão é – já na Idade Média – considerado o “rei dos animais” terrestres, assim como a águia (também presente na gramática decorativa da Sé) é considerada como a “rainha dos animais” do ar. O leão é o símbolo da luz, pela sua força, cor amarelo-dourada e à juba radiante que envolve a sua cabeça, a sua relação com a luz expressa-se também no mito medieval de que o leão nunca fecharia os olhos. Pleno de simbólica, o leão representa também o poder e a justiça, razão pela qual está frequentemente associado ao poder real.

Foto 8. Almas que ascendem ao paraíso

Esta coluna procede de uma das capelas menos utilizadas do claustro e é conhecida como “a coluna das almas”.

Esta imagem da ascensão das almas, em espiral e em torno desta coluna é geralmente feita com as figuras de braços abertos. Esta é uma alusão à união espiritual com Deus e à ascensão das almas ao Céu. Aqui, poderemos encontrar uma certa inspiração na Divina Comédia de Dante.

Foto 10. “Homem Verde” com flores que brotam da sua boca

A boca é o órgão da palavra e da respiração, por Deus insufla a vida e a alma.

Os homens-verdes são comuns nas catedrais góticas. A primeira identificação dos mesmos foi feita por Lady Raglan, em 1939. Especialmente comuns na arte gótica nas igrejas portuguesas, estas figuras surgem também no continente europeu e, em Portugal, na Arte Manuelina.

Segundo o historiador português Paulo Pereira, os Homens Verdes são uma alegoria do tempo e dos ciclos das colheitas, uma ligação que é particularmente clara na igreja de São Baptista de Tomar, cujo orago se liga às festas do solstício. Na Inglaterra medieval, as procissões medievais incluíam frequentemente homens verdes, cobertos de folhagens.

A presença destas figuras alude à passagem do tempo, pelo ciclo da “roda da vida”, como surge, por exemplo, no túmulo de D. Pedro I.

A figura tem óbvias origens pagãs (espírito que protege as florestas), mas permanece muito popular no gótico medieval, especialmente no inglês. Por exemplo, na misteriosa capela de Rosslyn a figura surge nada mais nada menos que 103 vezes, contra apenas uma figuração de Cristo.

O Claustro da Catedral da Sé de Lisboa

A construção do claustro da catedral começou no reinado de Dom Dinis. É com Dom Dinis que através da Rainha Santa Isabel chegam a Portugal as ideias Joaquimitas e se reforça o estudo da Alquimia, tendo sido esta rainha discípula do alquimista catalão Arnaldo de Vilanova (Jaime Cortesão acredita que Arnaldo de Vilanova esteve mesmo em Lisboa).

Um grande período de construção na Sé decorreu entre 1279 e 1325 e concentrou-se no claustro, utilizando a área de um bairro islâmico então demolido. O claustro de Dom Dinis exibe uma volumetria românica (robusta e austera) mas de estilo gótico, sobretudo nas suas galerias, destacando-se aqui as decorações dos capitéis. Contudo, apenas o piso térreo data desta época, sendo o piso superior bastante posterior, havendo quem suponha que proveio de outro edifício, desmontado e remontado aqui, na Sé, durante os séculos XV e XVI.

As capelas do Claustro da Sé revelam uma grande variedade de peças de escultura, de vários estilos e épocas, desde o românico, passando pelo gótico, renascimento e barroco. Entre as arcas das capelas do claustro, destacam-se as de Dona Margarida Albernaz (século XIV), com uma estátua jacente e a de Dom João Anes, o primeiro arcebispo de Lisboa (começos do século XV), também do mesmo século, encontramos a capela gótica de São Bartolomeu (segundo o nome do seu construtor, Bartolomeu Joanes), com o túmulo do seu fundador, datado de 1324.

Na capela de Santo Ildefonso encontramos a arca do século XIV de Lopo Fernandes Pacheco, companheiro de armas de Afonso IV e de sua esposa, Maria Vilalobos. Lopo Pacheco, barbudo e de espada na mão, tem um cão aos pés, como sua esposa, a qual, em lugar de uma espada, segura nas mãos um livro de orações. A capela adjacente foi construída para alojar os túmulos de D. Afonso IV e sua esposa D. Beatriz.
Foto 11. Dois pombos que se beijam

O beijo é visto na gramática decorativa medieval como um sinal da alma (sopro de vida), sendo uma marca de transmissão de força e de doação de vida. Nas igrejas cristãs, o beijo fraternal era uma marca de integração na comunidade.

Esta espiga de milho (???), pode datar este capitel do período que se sucede à introdução dessa planta na Europa (século XVI). Símbolo de prosperidade e abastança, assim como de fertilidade, provável razão pela qual aparece aqui associado a este casal amoroso.

Foto 16. Monge em atitude de meditação (de olhos fechados)

A cegueira representa frequentemente a sabedoria e a luz interior, mas na Bíblia é também um castigo por desobedecer a Deus, mas é igualmente um signo de iniciação como quando Cristo cura os cegos (iluminação).

Foto 17. Motivos gráficos idênticos ao elemento anterior, mas sem o monge (que ascendeu? Santo António?)

Sinal da Iluminação alcançada pela oração (ora et labora > laboratorium) e da Alquimia Espiritual.

Foto 18. Pentagramas, oito círculos e quatro quatros

O 5 é a soma do primeiro número par e do primeiro número ímpar, e logo (desde os Pitagóricos), como símbolo do casamento e e da união e da perfeição. Neste contexto, aparece no período medieval como sinal de reconhecimento das corporações de mestres construtores. Na simbólica cristã, representa as cinco chagas de Cristo.

Os pentagramas tinham na época um valor de amuleto, protegendo os locais onde se encontravam contra forças e influências maléficas, cumprindo aqui o papel de protegerem o claustro e os monges que por ele deambulavam contra essas influências.

Os círculos são um símbolo do céu por oposição à terra, ou do espírito em oposição ao corpo. Enquanto “roda”, representa também a infinitude e como o ouroboros, a serpente que morde a própria cauda. O quatro, simbolicamente, está relacionado com o quadrado (a Terra em oposição ao céu, ou a matéria opondo-se ao espírito) e com a cruz (símbolo do centro e do equilíbrio perfeito entre opostos). Número simbolicamente muito rico, o quatro (aqui especialmente reforçado) é o número dos quatro pontos cardeais, dos quatro elementos (fogo, água, ar e terra), dos quatro rios do Paraíso, dos quatro evangelistas, das quatro fases da vida (infância, juventude, maturidade e velhice).

Em Alquimia, o quatro é também o número da “primeira obra” (preparação, conjunção, separação, purificação do mercúrio).

Foto 20. Vieiras com 9 veios

A concha é um símbolo da Virgem Maria, porque abrigou Jesus do seu ventre, como uma concha, a “pérola preciosa”. Na Idade Média acreditava-se que a concha era fecundada pelas gotas de orvalho (“Ennoea”).

Foto 21. Duas aves, uma bebendo do Graal e a outra contemplando o alto

Os cálices são no contexto do imaginário medieval um signo de abundância transbordante, surgindo na Bíblia, em vários contextos: como o cálice da salvação ou do destino, que o homem recebe de Deus. No contexto alquímico, o Cálice é o Ovo Filosófico, o local onde se consumam as núpcias químicas.

Mas estamos aqui também perante uma nítida referência ao Graal, o cálice da Santa Ceia ou – segundo outra lenda – o cálice em que José de Arimateia colocou o sangue de Cristo. Mas no “Parzifal” de Wolfram von Eschenbach, o Graal aparece como uma pedra miraculosa que alimenta e conceder a juventude eterna que só é acessível ao Homem puro, com o mais elevado desenvolvimento espiritual, prefigurado aqui pela ave que olha para o céu.

As aves são o mensageiro do verbo divino, na iconografia medieval. A ave que eleva o bico invoca a proteção divina para a segunda que ingere o Sangue Real (Sangreal) do Graal e assim recebe a Graça do próprio Espírito Santo que a primeira invoca.

Foto 22. Homem barbudo supliciado

Estes homens barbudos são, antes do mais, uma admissão da pertença dos mesmos ao cristianismo. Mas a barba é igualmente, na época medieval, um signo para a masculinidade e força. Na época clássica, os deuses são quase sempre figurados com barba, sendo a representação de Cristo imberbe uma das primeiras originalidades do Cristianismo.

Foto 23. Demónio alado (ou morcego)

Considerado no Cristianismo como um “animal impuro”, acreditava-se que sugava o sangue das crianças durante o sono. Em alquimia, o morcego é um símbolo (pelo seu carácter híbrido, terrestre e aéreo) do hermafrodito, rebis ou Andrógino, o símbolo da mediação dos opostos (em Platão, surge o mito do Homem com dois sexos). A Matéria Prima e o seu posterior desenvolvimento intitulado Pedra Filosofal, resultam precisamente da religação dos princípios masculino e feminino da matéria.

Foto 24. Ave comendo sapo ou rã

Esta é a águia que representa a parte espiritual da Obra que se liberta da matéria alquímica, enquanto que o sapo vale pelo sedimento, obscuro mas fértil.

Foto 27. Pedras tumulares templárias

Estas pedras tumulares inscrevem a cruz do templo sobre um círculo, o símbolo do Céu por oposição à Terra, e de uma roda, infinita e que representa o templo e a infinitude, a qual é também representada pelo ouroboros que se encontra noutros locais do claustro.

Por outro lado, a lenda diz que os templários praticavam a alquimia (por exemplo, em Tomar) e o próprio maior Adepto do século XX, Fulcanelli, usava, segundo o seu discípulo Eugéne Canseliet, um “anel bafomético, cinzelado em ouro de transmutação e vindo até ele dos templários da comenda de Hennebont, na Bretanha“.

Foto 31. Coruja

Esta ave que – na tradição medieval – não consegue suportar a luz do sol surge representada frequentemente ao lado da Águia. Neste caso, temos o Corvo, uma escolha que sublinha o carácter duplo Solar-Lunar do par e a dualidade sexual que se repete noutros temas decorativos da Sé. Mas a Coruja tem no período medieval outros simbolismos, que aqui podem também estar presentes: é o signo da escuridão espiritual, que aqui surge oposta ao corvo, marca da iluminação (Fulcanelli dizia que em todas as catedrais os mestres construtores tinham colocado um corvo olhando para o local onde tinham escondido uma Pedra Filosofal). Numa interpretação mais convencional, a coruja pode ser o símbolo do conhecimento religioso ou mesmo de Cristo, a luz que vence as trevas, representadas pelo corvo de penas negras no capitel colocado em oposição a este de forma certamente intencional.

Foto 32. Corvo em oposição a coruja

Como todos os demais símbolos aqui presentes, existe aqui um sentido duplo ou mesmo triplo: além de todos os símbolos a que aludimos anteriormente e que resultam da associação deste corvo com a coruja representada no capitel fronteiro a este, o corvo, na Alquimia vale pela Obra ao Negro, ou Nigredo (Albedo e Rubedo), uma fase específica da Obra, em que a matéria se encontra no estado da putrefacção e que surgindo 40 dias depois do começo da Obra (“cabeça de corvo”) promete o sucesso da obra (George Ripley, no “Livro das Doze Portas”). É igualmente – porque é uma ave que vive em solidão voluntária – uma alusão ao carácter ascético e à reclusão exigida ao Adepto para que possa levar a Obra até ao seu bom termo.

Foto 33. Cabeça de cavalo

O cavalo era no período medieval, o signo da alegria e da vitória contra as dificuldades e obstáculos, sendo comuns nas sepulturas dos mártires cristãos. Mas o cavalo, devido ao ser carácter sexual, é no período medieval também uma alegoria de uma sexualidade exacerbada.

Foto 34. Cabeça de touro, alternando com cabeça humana, que sorri e não apresenta barba

Os chifres invocam a lua crescente e logo, o tradicional simbolismo lunar, feminino e mercurial (no contexto alquímico). Sinal de fertilidade e aqui intensificado pela associação a um homem imberbe (muçulmano?), alegre, que aqui representa o outro lado da dualidade sexual que carateriza o processo da transmutação.

Foto 38. Cruzes templárias grafitadas no claustro

De seu verdadeiro nome, os templários ou Milícia dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão tinham – segundo alguns investigadores – a missão de custodiar o Santo Graal ou a Arca da Aliança, resgatados das ruínas do Templo de Salomão (que tinham escolhido como sua sede, em Jerusalém).

Os templários eram reputados alquimistas. Nos “estatutos secretos” do Mestre Roncelim para os Irmãos do Templo, datados de 1240, escreve-se: “tende em vossas casas lugares de reunião vastos e escondidos a que se terá acesso por corredores subterrâneos para que os Irmãos possam ir às reuniões sem o risco de serem perturbados. É interdito, nas casas onde os Irmãos não são Eleitos, trabalhar certas matérias pela Ciência Filosófica e, portanto, transmutar os metais vis em ouro e prata. Isto nunca será feito senão em lugares escondidos e em segredo.”

De recordar que quem ordenou a construção da Sé, Dom Afonso Henriques era um confrade da Milícia, como declara ele próprio na doação do castelo de Soure à Ordem do Templo, em 1128.

Foto 40. Serpente marinha (ver cauda), que se morde a si própria, em clássico ouroboros

Esta serpente que morde a própria cauda é um dos símbolos alquímicos mais clássicos. Por vezes, é representada na variante de dois dragões que se mordem um ao outro ou de dois pássaros de pescoço longo em idêntico exercício. Símbolo do infinito, do eterno regresso e da unidade da Matéria, no contexto alquímico, é tipicamente uma representação da transmutação da matéria.

Foto 43. “Homem Verde” com barrete frísio de Iniciado e vinhas brotando da sua boca

Este barrete frísio aparece numa estátua que o alquimista Fulcanelli reconhece como sendo um Adepto. Cobrir a cabeça, nas cerimónias de iniciação, era, aliás um sinal de morte no processo iniciático.

Foto 44. “Homem Verde” com flores que brotam da sua boca ao lado de outro com folhas de nascem dos seus ouvidos

Este “Homem Verde” (um dos muitos da Sé) está acompanhado por um companheiro mais original: as orelhas são o símbolo da comunicação e da obediência e memória no período medieval.

Foto 45. Árvore Seca (contraste) com árvore frondosa no capitel ao lado

Estas árvores são uma referencia ao mundo vegetal. A árvore frondosa é um signo do renascimento da vida que vence a “morte” invernal, sendo assim um símbolo da imortalidade. Símbolo contrastante da fertilidade e da Vida (oposta à Morte) este par vegetal significa o Antes e o Depois do processo transmutatório.

A Árvore frondosa é também a “Árvore da Vida”, que simboliza a abundância no Paraíso e a realização da Obra alquímica.

Foto 46. Cordeiro

Alusão ao Cordeiro de Deus, que lava os pecados do mundo.

Foto 47. Águia de asas abertas

Signo das Ascensão de Cristo e da prece subindo até Deus. Segundo Aristóteles, ao subir, a águia olha diretamente o Sol, pelo que é um signo da contemplação e conhecimento espiritual e, por isso, do evangelista João. Ter em conta que a Igreja de João seria a igreja dos cavaleiros templários. Na alquimia, é o símbolo do Hermafrodita, filho do Sol e da Lua e da Sublimação ou dissolução da matéria (passagem do fixo ao volátil), sendo cada Sublimação (na Obra existem várias) uma Águia diferente.

Foto 48. Andorinha

Esta ave migratória é o símbolo da Primavera, mas também da Luz e da Fecundidade. Na Idade Média, um ninho de andorinha numa casa, significava felicidade. Signo medieval, também, da Ressurreição, porque a andorinha regressa com a luz, depois do Inverno e porque se diz que dá a visão aos seus filhos com a seiva de uma erva (a quelidónia) assim como Deus dará a visão aos mortos no Dia do Juízo Final.

Foto 52. Homem Verde de boca aberta (mas vazia) e barba bifurcada

Esta boca aberta mas vazia deste (entre vários) “Homens Verdes”, vale aqui pelo órgão da palavra e da respiração, algo que está no mundo medieval associado à alma e – na alquimia – às qualidades espirituais da matéria, mas interrompidas (pela ausência de ligações com a vegetação, aludindo-se aqui, talvez, a uma Obra interrompida por erro do Adepto ou Aprendiz.

A barba era na Idade Média um símbolo de masculinidade e força. Cristo, contudo até ao século VI, era representado sem barba.

Foto 53. Homem coroado que segura vinhas e demónio sorridente. Homem Verde com vegetação que brota da sua boca

A Coroa simboliza a condição real, estando aqui segurando vinhas e ao lado de um demónio que sorri, pode ser uma alusão humorística e crítica à embriaguez, referências comuns nos capitéis medievais. Mas podemos também estar aqui perante uma mensagem de teor hermético, em que a coroa significa “salvação eterna”, vida eterna, o prémio final da Obra.

Foto 54. Homem colhendo vinha

As videiras são, na Idade Média, um símbolo de abundância e vida. Significado que acumula com vários outros (é, aliás, um dos símbolos medievais mais ricos), como símbolo do Povo de Israel (do qual Deus cuida tão bem como o homem da sua videira), a Árvore do Messias, sendo no Antigo Testamento comparado o Messias a uma videira, em que Cristo carrega os fiéis nos galhos, numa alusão a que apenas quem tirar de Cristo a sua força pode dar frutos.

Foto 55. Homens trabalhando nas vinhas

Ver simbologia do capitel anterior.

Foto 60. Gárgula com cabeça de leão

O leão é, no contexto alquímico, o símbolo da parte fixa da Obra, da matéria nos seus vários estádios (leão verde (um líquido espesso), leão vermelho (que converte os metais em ouro, etc). Sem cor, o leão é um símbolo do enxofre dos sábios ou… ouro.

Foto 61. Estrela de David invertida

A estrela de 5 pontas era nos Pitagóricos um símbolo de saúde e conhecimento. No período medieval, tornou-se um signo de proteção contra poderes demoníacos, valendo como Cristo enquanto Alfa e Ómega, na forma das 5 chagas sagradas.

Foto 64. Dois Homens Verdes, um da Boca, outro dos Ouvidos

Um par em tudo semelhante ao de outro capitel, já aqui analisado.

Foto 70. Duas aves apaixonadas, com pescoços entrecruzados

As aves são o símbolo medieval do céu, pela sua natureza volátil, sendo um símbolo do imaterial e do espírito. Neste caso, representarão o amor espiritual, não realizado fisicamente.

No contexto alquímico, as duas aves apaixonadas aludem aos dois elementos que compõem todos os metais: o enxofre, elemento masculino, activo e fixo e o mercúrio, feminino, passivo e volátil. Entre estes, e simbolizado aqui pelo beijo, temos o sal (ou “arsénico”) que sendo o espírito universal, os une.

Foto 82. Sol espiralado (Porta Santa)

A espiral é um motivo gráfico comum até no período pré-histórico, estando aqui relacionado com a morte e o renascimento. Neste caso, e num contexto alquímico, será uma alusão à morte e renascimento da matéria que ocorre no interior do matrás ou ovo alquímico.

Foto 83. Alfa e Ómega na porta exterior

Letras inicial e final do alfabeto grego, entre ambas, está o “todo” (o resto do alfabeto). Signo do Todo, de Deus e de Cristo como o primeiro e último de todos os seres, este símbolo surge em muitos túmulos (por exemplo, no cemitério dos Prazeres).

Foto 85. Flor de Lis

Gravada na Porta Santa, alegoria a Maria, este símbolo expressa a sua Realeza Divina. Lisboa, na expressão do cronista Fernão Lopes era a “Boa Lis“.

Luís VII, de França, terá sido o primeiro monarca a usar este símbolo nos seus decretos (Louis-Lis),  que teria repescado a utilização deste símbolo na época dos Francos, quando Clotilde, mulher de Clóvis, recebeu de um anjo uma flor branca de lírio. Episódio idêntico é descrito na lenda que coloca Gabriel aparecendo a Maria com um lírio na mão, como sinal de que daria à luz o Salvador.

A Flor de Lis, representa assim o caráter divino da Monarquia as e a sua dimensão enquanto agentes temporais do poder de Deus.

Foto 92. S

Este S é o S da serpente (Ofiussa), aqui valendo pela força latente da natureza que a Obra vem completar.

Foto 105. Gárgula com cabeça de águia

A águia, na Bíblia, é o símbolo de Deus Todo Poderoso e da força da fé. Símbolo medieval, também, do renascimento e do baptismo e, pela sua ascensão, da Ascensão de Cristo.

Na Alquimia, a águia levantando voo representa a parte espiritual que se liberta da matéria, enquanto o sapo representa o seu sedimento obscuro, mas fértil.

Foto 122. Porta Santa ou Porta Sancta

A Porta Fechada (e esta está-o na maior parte do ano) representa a existência de um segredo ou mensagem oculta, mas também a proibição na sua revelação. O Alfa e o Ómega (que surgem frequentemente nas portas das igrejas medievais e que são um dos nomes de Cristo), são uma alusão às palavras de Cristo “eu sou a Porta” e que invoca também Maria, a mãe ou “porta” de Cristo, conforme seria recordado aos transeuntes mais atentos pela presença da flôr de Lis.

Esta Porta Santa é a equivalente terrestre da porta celestial guardada pelo Arcanjo São Miguel (presente no pórtico principal da Sé) e representa a intermediação entre o mundo do Homem e o mundo de Deus. Abre apenas em certas datas do calendário religioso (como o Jubileu, que se realiza de 25 em 25 anos, sendo o próximo em 2025), por esta razão, apenas as igrejas mais importantes da cristandade têm Portas Santas. Além da Sé de Lisboa, as 4 basílicas patriarcais ou “Basilica Major” de Roma possuem Portas Santas. Todas as Portas Santas se inspiram na Porta Santa de Jerusalém (Porta Dourada ou Porta de Leão) que Jesus terá atravessado no Domingo de Ramos e por onde, segundo a lenda, tornará a passar o próximo Messias.

A Porta Santa dá acesso quer ao interior da igreja, quer aos aposentos do Cardeal Patriarca, por via de uma pequena porta lateral ao lado da Porta Santa. Sendo, de resto, o Cardeal Patriarca a única pessoa que a pode atravessar.

A sua construção terá sido decidida aquando da fundação do Patriarcado de Lisboa em 1716 e – segundo Vítor Manuel Adrião – esta decisão evoca a presença do Graal nesta catedral (sendo a Sé de Lisboa uma das sete “catedrais do Graal” do Ocidente).

Foto 124. Três elementos de três

Os 3 círculos representam no cristianismo um sinal da Trindade, mas também da perfeição divina (nas três virtudes fé, amor e esperança) e da natureza trinitária da matéria (mercúrio, sal e enxofre).

Síntese do um e do dois, o três representa também o Todo e a mediação e por isso mesmo surge nos contos de fadas (alguns com significado esotérico) como o número de provas ou adversários a superar. Por oposição ao Quatro (Terra), o Três é o número do Céu.

Na Alquimia, 3 é o número de princípios básicos da matéria: Enxofre, Sal e Mercúrio.

Foto 125. Gárgula com cabeça de carneiro

O carneiro era um símbolo medieval da Força e do sacrifício, através do sacrifício de Isaac, como pré-figuração do posterior sacrifício de Cristo. Sinal alquímico do Fogo, ou Sal (união entre Mercúrio e Enxofre). Na Idade Média era visto como um animal maléfico, sendo a montaria obscena das bruxas e a personificação animal da volúpia.

BIBLIOGRAFIA

Lisboa Secreta – Capital do Quinto Império, por Vitor Manuel Adrião. Via Occidentalis Editora, Lisboa, 2007.
Lisboa Insólita e Secreta, por Vitor Manuel Adrião. Editions Jonglez, Versailles, 2010.
Portugal, os Mestres e a Iniciação, por Vitor Manuel Adrião. Via Occidentalis Editora, Lisboa, 2008.
Conversas Makáricas – Volume I. Edição privada da Comunidade Teúrgica Portuguesa.
Igreja de Santa Maria Maior, Sé de Lisboa. Instituto Português do Património Cultural, Editorial Teorema, Lisboa, 1986.
As mais belas Igrejas de Portugal, por Júlio Gil e Nuno Calvet. Editorial Verbo, 1989.
Enciclopédia dos lugares mágicos de Portugal, por Paulo Pereira. Edição do Jornal “Público”, 2006.
Dicionário ilustrado de Símbolos, por Hans Biederman. Editora Melhoramentos, 1993.
Alquimia, por Titus Burchardt, Publicacoes Dom Quixote, 1991.

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