Simbolismos esotéricos e alquímicos no túmulo de Dom Fernando no Convento do Carmo, em Lisboa

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1.
Foi Almeida Garrett o primeiro a chamar a atenção para a presença de uma figura a que chamou de “o alquimista”. Não é só esta figura que é excepcional neste túmulo. De facto, toda a iconografia o é, igualmente. Sendo intrigante que não tenha feito escola nem merecido seguidores, o que demonstra o caráter excepcional desta encomenda real.
2.
Como sucede, em muitas obras de arte, este túmulo é uma obra muito complexa, com várias linhas interpretativas possíveis e paralelas. Existem assim várias interpretacoes possiveis, desde a Historica, Artistica e, claro, sem esquecer, a Esoterica ou Alquímica.
3.
Dom Fernando não escolheu Lisboa para local do seu túmulo (onde hoje se encontra, mais especificamente, no Convento do Carmo), mas o convento de São Francisco de Santarém. Esta escolha permite compreender melhor a iconografia do túmulo e exprime a devoção pessoal do monarca pela ordem franciscana e na sua capacidade para contribuir para a salvação da sua alma.
4. 
Em 1844, o convento de São Francisco foi transformado em local de acolhimento para o Regimento de Cavalaria número 4 e então, todos os túmulos são violados, incluindo-se nestes o de Dom Fernando. Foi nessa época que desapareceu a ossada do monarca, provavelmente atirada com a do vice-rei Dom Francisco de Almeida para a cerca do quartal. Na altura (segundo Ramalho Ortigão) o túmulo de Dom Fernando seria tornado num bebedouro para os cavalos do regimento.
5.
No testamento de 1383, Dom Fernando refere-se ao túmulo como “obra acabada” e faz questão de o mandar cobrir com um pano indicando que se trata de “um túmulo sem jacente”. A inscrição, contudo, não estava gravada, e seria colocada apenas depois da morte do monarca.
6.
No tumulo de Dom Fernando, duas molduras com bustos. Do lado direito do rei, um homem homem olha para ele. Pode tratar-se de um franciscano (pela sua tonsura). A importancia da posição da figura no túmulo pode indicar que se trata de algum muito próximo ao monarca ou do ideologo deste túmulo e, logo, responsavel pela escolha da intrigante figura do alquimista.
7.
Encontramos vários “homens verdes” neste túmulo de Dom Fernando. Nestas figuras, a boca é o órgão da palavra e da respiração, por Deus insufla a vida e a alma. 
Os homens-verdes são comuns nas catedrais góticas. A primeira identificacao dos mesmos foi feita por Lady Raglan, em 1939. Especialmente comuns na arte gótica nas igrejas portuguesas, estas figures surgem também no continente europeu e, em Portugal, na Arte Manuelina. 
Segundo o historiador português Paulo Pereira, os Homens Verdes são uma alegoria do tempo e dos ciclos das colheitas, uma ligação que é particularmente clara na igreja de São Baptista de Tomar, cujo orago se liga às festas do solstício. Na Inglaterra medieval, as procissoes medievia incluiam frequentemente homens verdes, cobertos de folhagens. 
A presença destas figuras alude à passagem do tempo, pelo ciclo da “roda da vida”, como surge, por exemplo, no túmulo de Dom Pedro I. 
A figura tem óbvias origens pagas, mas permanece apesar disso muito popular no gótico medieval. Por exemplo, na misteriosa capela de Rosslyn a figura surge nada mais nada menos que 103, contra apenas uma figuracao de Cristo.
8.
Neste túmulo de Dom Fernando encontramos várias figuras híbridas. Estas figuras foram colocadas nos espaços livres da metade inferior da arca tumular. Tratam-se aparentemente de figuras ligados aos Infernos.
9.
Do lado esquerdo da arca tumular de Dom Fernando observamos uma cena de dois guerreiros híbridos que combatem entre si. Uma mostra o corpo coberto de pêlos, com a metade superior humana e asas que brotam das suas costas. Apresentam farta barba e um gorro cónico na cabeça. Uma arremessa uma pedra com uma mão, enquanto segura um escudo com a outra decorado com uma cabeça de leao. 
A segunda figura é semelhante à primeira ,mas tem o corpo escamado, como um inseto, patas de ave, cauda de cavalo, asas de pássaro, mas cabeça e braços humanos. Ostenta também um barrete cónico.
Estas figuras representam a naturalidade e a sensualidade intempestiva. Símbolos do vício e do pecado, e enquanto tal comuns nas iluminuras medievais, são um convite à meditação por parte de quem as observa.
10.
A figura mais intrigante do túmulo de Dom Fernando é, sem dúvida, a do alquimista. 
A figura esta coberta com um chapeu que na arte medieval surge frequentemente na cabeça de alquimistas e tem aqui um especial relevo porque se trata da única peça de vestuário que a figura ostenta. A cadeira com espaldar onde está sentado é um conhecido símbolo de autoridade academica ou política.
Numa mão, o alquimista ergue o Vaso dos Filósofos, onde matura a Pedra Filosofal. 
O alquimista está – numa representacao muito rara, senão mesmo única – preso a uma corda amarrada ao pescoço que depois está presa, a um pesado cepo. A figura está numa sala com vários vasos, frasco, uma ampulheta e um almofariz. Trata-se aqui de um evidente “labor-a-torium” alquimico. 
Podemos estar aqui perante uma referência aos perigos da alquimia, expondo a punição a um alquimista que tenha colocado em risco a vida do monarca, ou porque se revelou um embuste porque o seu Elixir não se revelou eficaz em curar as maleitas do rei, ou seja, uma própria marca do arrependimento do monarca para com a sua crença na Ars Magna.
Recordemos que nesta época o estudo da Alquimia era comum e que a presenca de alquimistas nas cortes europeias, frequente. Em particular, as ordens mendicantes pareciam especialmente interessadas nestas práticas e é preciso não esquecer que neste túmulo houve uma profunda influência franciscana…
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Categories: História, Mitos e Mistérios, Portugal | Deixe um comentário

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