Entrevista a Murade Murargy, o novo secretário executivo da CPLP

 Murade Murargy

Murade Murargy

“A CPLP só tem dezasseis anos, é muito jovem. É um edifício inacabado, mas os alicerces são bastante sólidos. Começámos pela concertação político-diplomática, que é o alicerce principal da nossa organização. Um exemplo que posso dar é a eleição do diretor-geral da FAO. Num universo das Nações Unidas de quase 200, oito países conseguiram movimentar o mundo e eleger o diretor da FAO. Não é fácil lutar com uma Espanha que tinha um forte candidato.
O que é que isso significa? Que temos uma força enorme que tem por base a concertação política e diplomática. É verdade que há outros domínios em que ainda temos que avançar – a parte empresarial é ainda muito insignificante se for vista na perspetiva da CPLP, mas não se for vista na perspetiva bilateral. Se formos ver as relações bilaterais dos nossos países, o fluxo é enorme.”

– atualmente, a frente diplomática é de facto a única onde a CPLP expressa alguma relevância internacional. A força concertada de oito países, três dos quais com uma relevância e influência regionais consideráveis (Angola, Brasil e Portugal), não é displicente e a sua eficácia já foi demonstrada inúmeras vezes, sendo caso da FAO apenas um dos exemplos mais recentes. Neste campo da concertação diplomática ainda há muito espaço para crescer. Neste contexto, o regresso à normalidade democrática e legal na Guiné-Bissau é um teste decisivo para a eficácia e concertação diplomática no seio da CPLP. E um desafio crucial para fazer a organização lusófona dar um salto qualitativo importante, alavancando a criação de uma estrutura permanente de segurança e defesa na CPLP que obste a golpes de Estado nos países da organização e que construa mecanismos semi-automáticos de resposta concreta e operativa neste tipo de crises, constituindo, por exemplo, uma força lusófona de manutenção de paz permanente e concedendo-lhe expressamente o mandato de repor a legalidade democrática sempre que um governo legítimo for derrubado por forças estrangeiras ou a partir do interior do próprio país.

“Que frentes económicas da CPLP podem ser trabalhadas?
A grande frente definida na última cimeira da CPLP é a produção de alimentos, o agro-negócio. É uma área fundamental, porque vamos assistir a uma crise alimentar no mundo.”

– nestes tempos de grave crise financeira global e de pré-rutura do euro, a iminência de uma crise alimentar global, conjugada com o pico da produção petrolífera (alcançado já à meses, mas mascarado apenas recessão global), assume proporções tremendas: o principal alvo será África, o continente que menos auto-suficiência alimentar possuir, pela desorganização da sua economia, pela excessiva concentração em produções agrícolas de exportação e pela pura má gestão de muitos governos (em que o pior exemplo é do Zimbabué). Esta crise alimentar far-se-á assim sentir de forma especialmente aguda na África lusófona, no país mais deficitário neste campo: a Guiné-Bissau (que tem problemas crónicos de corrupção e má governação). Os demais têm condições teóricas para suportarem este embate: Angola tem muitas terras agrícolas por explorar, Moçambique está nesta área em melhores condições que Angola, tendo uma produção agrícola já significativa, o Brasil é já uma das maiores agro-potencias globais, Timor tem os fundos das reservas petrolíferas que lhe garantem a prazo capitais para manter as importações alimentares de que necessita. Portugal, com solos classicamente pobres, é de todos talvez um que a prazo mais dificuldades encontrara, especialmente se entrar em bancarrota e se deixar de aceder a empréstimos internacionais. Importa assim – no seio da CPLP – criar mecanismos que permitam uma resposta alimentar integrada se ocorrer uma crise em qualquer um dos países membros, usando o conhecimento disponível, o capital, excedentes e outras virtualidade de forma rápida e concertada, respondendo com eficácia a essas crises futuras que o secretario executivo corretamente antecipa.

“Qual gostaria que fosse, no final, a marca do seu mandato?
Se conseguisse instalar uma televisão de língua portuguesa, como a TV francesa, que expandisse a língua portuguesa por todo o mundo, seria uma grande alegria para mim. Pode ser real, é uma questão de os Estados-membros quererem fazer isso. Uma proposta mais real é a segurança alimentar e nutricional. Vai ser uma grande bandeira. É um tema que toca todos os países.”

– a construção de uma “televisão lusófona” não é – de todo – um objetivo irrealista ou absurdo. Tecnicamente a sua estrutura básica já existe e chama-se “RTP África”. A partir desta estrutura, desenvolvendo-a com investimentos dos outros países da CPLP e estendo-a ao Brasil e a Timor seria relativamente fácil construir essa “televisão lusófona” ambicionada pelo secretario executivo. Obviamente, a Portugal seria do máximo interesse (estratégico e financeiro) desenvolver a “RTP África” e aligeirar o fardo financeiro que esta representa, para os países lusófonos tal desenvolvimento seria ainda mais importante, dando-lhes um meio para chegar às suas diásporas e para promover as suas culturas nacionais a uma escala global. A ideia – de resto – é uma das propostas mais antigas do MIL.

Público
16 dezembro 2012

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Categories: Lusofonia, Movimento Internacional Lusófono, Política Internacional, Política Nacional, Portugal | 6 comentários

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6 thoughts on “Entrevista a Murade Murargy, o novo secretário executivo da CPLP

  1. pgusmao

    Acho esta CPLP uma perda de tempo, apenas é um cabide de empregos inúteis, um órgão composto por um monte de países africanos corruptos, comandados por ditaduras que estão há anos no poder e nunca ouviram falar em democracia. A primeira coisa que este agrupamento devia fazer era democratizar estes países africanos que vivem na mais absoluta miséria, muito graças ao colonialismo atrasado português, que nunca conseguiu administrara nem o seu país.

    • Não concordo de forma alguma com esta deciisão escriba. Portugal é um BOM país e um pequeno Grande país, tem tido azar com politicos apostados no excessivo apoio social que conduz a oportunismos de cartão. EU ACREDITO EM PORTUGAL, até jurei á Bandeira com muirtas lágrimas e dor, ainda não tivesse sido e para sempre um ORGULHOSO FUZILEIRO.

      • Esses politicos foram eleitos (ou deixados ser) pelos portugueses, que sao nisso corresponsaveis.
        E sao transitorios, assim como esta crise… somos um pais quase milenar, nao é esta dificuldade momentanea que nos deitara abaixo. Temos um raro Estado-nacao, fronteiras consolidadas, recursos maritimos e humanos, uma posicao estrategica e lacaos com a lusofonia que nos alavancarao a saida desta crise europeia.

    • Nao vamos comecar a trocar acusações mútuas: Portugal nao foi sempre um pais atrasado e mesmo hoje (apesar das evidentes dificuldades) segue tendo um IDH muito superior ao do Brasil.
      A Africa Lusofona também nao é tao má como a pinta: em todos os paises existe democracia (excepto na Guine-Bissau), com problemas, é certo, mas de forma bem mais consolidade que na maioria. E em nenhum ha hoje guerra ou guerra civil, o que em África ê um feito. De notar, também, que Cabo Verde é um exemplo mundial de boa governanca e desenvolvimento.

  2. pgusmao

    Um exemplo de democracia é Angola, com um presidente eleito para mais de 35 anos de mandato, além de sua filha ser uma das mulheres mais ricas da África, isto que eu chamo de competência. Aqui no Brasil também temos um gênio das finanças que é o filho do Lula, ele de repente ficou milionário através de uma empresa de informática.

    • Eis a frente de desenvolvimento que ainda falta vencer: a de uma sociedade civil vigilante e consciente que puna nas urnas e na vida pública esses fortes indícios de corrupção.
      Que seriam intolerados na europa do norte (onde a vida cívica está mais avançada) e que se repetem ano após ano, nos nossos países.

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