Resposta a comentário sobre o racismo em Portugal referido por um relatório da ONU

Um leitor brasileiro, assíduo leitor do Quintus e adepto convicto de uma maior integração dos povos e países lusófonos desafiou-me a comentar um artigo – algo provocatório – do jornal brasileiro “O Estadão” (ou “Estado de São Paulo”). O artigo trata das críticas da “ONU” sobre o ensino da História em Portugal.

“Alunos portugueses estariam aprendendo uma versão “inexata” sobre o passado colonial do país. O alerta é da Organização das Nações Unidas (ONU), que adverte que o governo de Portugal não estaria explicando suficientemente nas salas de aula o papel positivo que as colônias tiveram na história do país.
A ONU aponta que, sem uma valorização da herança colonial, Portugal terá sérios problemas para combater o racismo, fenômeno que a organização afirma estar em plena expansão no país. Lisboa rejeita a crítica, apontando que Machado de Assis e Carlos Drummond de Andrade fazem parte dos autores obrigatórios nas escolas portuguesas (mais informações nesta página).”

Não sabendo exatamente a que parcela exata dessa gigantesca organização que é a “ONU” é difícil perceber de onde vem essa acusação de que o “racismo está em plena expansão no país”. Bem pelo contrário, sucessivos relatórios e estudos internacionais têm demonstrado precisamente o contrário: Portugal é dos países desenvolvidos com menos ataques de índole racista e onde a discriminação é menor. Existem problemas, decerto. Mas não são muito diferentes em escala ao que se passa no Brasil (com ameríndios e descendentes de africanos) ou em Angola com brancos (portugueses). Ou seja: fenómenos de pequena escala e geralmente de baixa gravidade.

Concordo contudo no ponto em que o impacto do colonialismo português nas populações locais é tratado de uma forma um pouco parcial ou mesmo ingénua em muitas fontes. A bonomia geral da presença lusa no mundo é inquestionável por quem quer que não esteja formatado por uma visão preconceituosa e esta bonomia resulta do cruzamento de vários fatores como a própria natureza miscigenada da Ethnos lusa.

“Segundo a ONU, “os negros no país europeu são marginalizados e excluídos socialmente e Lisboa precisa adotar uma estratégia de multiculturalismo”. Esse grupo, também o mais pobre na sociedade, é discriminado na administração pública, no sistema de Justiça e na busca por trabalho. Racismo. Em uma versão preliminar do documento, obtido pelo Estado, a constatação dos especialistas da ONU é que o racismo ganha força em Portugal, em plena crise econômica. Também afirmam que os negros estão hoje entre as populações que mais sofrem com a pobreza no país. Um dos pontos destacados é o tratamento da questão racial nas escolas.”

Não existe em Portugal essa perceção: pelo contrário, muitos portugueses que vão e regressam frequentemente de Angola, para trabalharem, queixam-se precisamente desse fenómeno, e alguns dos relatos são mais violentos do que algum fenómeno paralelo que já tenha ocorrido em Portugal. A população migrante em Portugal também conheceu um sensível declínio desde 2008, devido à crise e a única que aumento astronomicamente foi a de ciganos romenos, que se dedicam apenas ao pequeno furto e à mendicidade. Aí, de facto, admito algum racismo, mas infelizmente, sobejamente justificado. Em relação a populações africanas, não. (PS: sou caucasiano, mas descendo por via materna dos “negritos do Sado”, descendentes dos escravos negros do Alentejo do séc. XVI).

“Há 500 anos, Portugal foi o pioneiro nas descobertas de novas terras, liderando um processo de colonização seguido pelos europeus por mais de 400 anos. Com o desembarque de navegadores portugueses e o desenvolvimento de cidades vieram também a escravidão, o extrativismo e a imposição da cultura europeia. Segundo a ONU, o problema é que hoje os “textos escolares e os currículos não refletem a contribuição para Portugal de suas ex-colônias nem promove o orgulho de crianças de descendência africana em sua herança”.”

Posso admitir que aqui, de facto, há algum trabalho a fazer, no campo da inscrição da herança multicultural africana nos manuais. Mas o papel da escola é também o de formar cidadãos (não apenas técnicos ou fazedores) e isso faz-se promovendo uma cultura, História e civilização e essa não pode ser totalmente múltipla… tem que ter um fio condutor e esse tem que ser o do país de acolhimento. Multiculturalismo, sim. Descaraterização não.

Fonte:
http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,onu-critica-portugal-por-ensino-inexato-do-passado-,931220,0.htm

Categories: Brasil, Política Internacional, Política Nacional, Portugal | 7 comentários

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7 thoughts on “Resposta a comentário sobre o racismo em Portugal referido por um relatório da ONU

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  2. Guss

    Senhores,
    Por definição, RACISMO é a crença na diversidade das raças humanas e na superioridade de umas em relação a outras.
    Sei de muitos brasileiros e portugueses que, apesar de não acreditarem no conceito de raças humanas e nem na superioridade ou inferioridade de umas em relação a outras, ainda assim defendem a preservação de sua cultura e etinia.
    É digno de nota o fato de que é considerado racista a pessoa branca que procura preservar sua cultura e etnia, mas é louvável a atitude do não branco quando faz o mesmo!
    Sou absolutamente contra a segregação racial, e sei que fujo do escopo deste artigo, mas, eu pergunto:

    – é crime racial a preservação das etnias brancas?

  3. Lusitan

    Uma coisa que também me deixou perplexo é a suposta marginalização e exclusão social dos negros. De facto se compararmos com os brancos das camadas mais baixas em Portugal não vejo qualquer tipo de descriminação. Ambas as etnias vivem com dificuldades extremas, sem acesso a Justiça e discriminados na função pública. Pessoalmente não vejo brancos pobres a ser tratados melhores que negros pobres. Não existindo uma elite negra em Portugal não é possível comparar com o tratamento das elites brancas, mas pelo modo como as elites angolanas são tratadas em Portugal também não vejo qualquer racismo. O facto é de que em Portugal se é discriminado pelo estrato social de que se provém e não pela raça. O facto de a maioria dos negros em Portugal se encontrar na faixa mais baixa deve-se à imigração de mão de obra não qualificada e não a qualquer tipo de discriminação.

  4. João

    A minha opinião sobre a atitude do jornal “O Estadão” é de que, sendo um jornal brasileiro, não tem a mínima moral para criticar o tratamento que a sociedade portuguesa dá aos negros que vivem em Portugal, levando em consideração o tipo de tratamento que os negros e mulatos brasileiros recebem da sociedade do Brasil. Eu não sei se o alerta da ONU é verdadeiro ou se é falso, não sei como as aulas de história são ministradas nas escolas aí de Portugal, não sei o que exatamente se passa aí. Mas não! Lisboa não precisa adotar nenhuma estratégia de multiculturalismo. Alguém de fora exigir algo assim de qualquer país que seja, é desrespeitar a soberania nacional lusa. O povo português é quem decide se concorda ou não com o multiculturalismo. Portugal é a casa dos portugueses! O imigrante que se adapte às regras do anfitrião, ou vá embora! Nem multiculturalismo e nem descaracterização! Sim ao respeito às culturas e tradições dos povos.

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