Pedro Cipriano: “A Europa – mesmo a dita “rica” – começa lentamente a redescobrir lentamente a necessidade de tornar a produzir aquilo que os “economistas do sistema” lhe disseram ser incontornável: destruir o seu setor produtivo e passar a fabricar tudo no Oriente”

Lançamento da revista Nova Águia (http://www.porto.taf.net)

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“O poder instituído faz-nos crer que uma economia e moeda globais são a solução para a crise. No entanto, é notório que isso apenas servirá para aumentar o fluxo de riqueza para aqueles que já são ricos, sem que isso melhore em nada a vida dos restantes. Tendemos perigosamente para os ricos ficarem mais ricos e os pobres cada vez mais pobres.”

Uma das explicações para o estado a que chegou a União Europeia é – para além da conhecida incompetência dos seus líderes – é o facto de a crise ter sido planeada e orquestrada a partir dos círculos ocultos de poder que entre a Tripartida e o Grupo de Bilderberg governam o mundo: o seu plano é – sabe-se há muito – construir uma “união mundial” não democrática e governada pelos Grandes Interesses que representam: as “uniões” regionais (NAFTA, Mercosul, UE, ASEAN, etc) são assim passos necessários e graduais para esse modelo malévolo de governação global e a presente recessão global pouco mais que um pretexto para a instaurar, depois de levados os povos – por doses massivas de medo – a aceita-lo como incontornável e como “saída única” para a recessão e para os crescentes níveis de desemprego atuais.

“Um exemplo atual é o caso da União Europeia, em que os estados membros são obrigados a importar produtos que podiam produzir por si mesmos, fazendo com que a sua dívida externa cresça sem parar. As pessoas são obrigadas a aceitar empregos que não querem para pagar os empréstimos que contraíram. Certos países estão lentamente a tornar-se fonte de mão-de-obra barata para outros mais ricos, inclusive dentro da Europa. Os pobres são mantidos pobres para, através do medo, impedirem a classe média de se libertar desta prisão laboral. Em suma, esse ultra-neoliberalismo económico é a escravatura do século XXI.”

Simultaneamente, as Multinacionais ganham fortunas enquanto deslocalizam a produção para a China e entregam o Emprego que ela gera a hordas de escravos passivos e manietados por um regime corrupto e ditatorial. No Ocidente, os Bancos (agentes primeiros desses Grandes Interesses) acumulam imensas fortunas à custa de doses massivas de endividamento, sempre com a benévola cobertura dos Estados e dos impostos (cobrados de forma cada vez mais voraz) dos seus cidadãos.

“A Europa – mesmo a dita “rica” – começa lentamente a redescobrir lentamente a necessidade de tornar a produzir aquilo que os “economistas do sistema” lhe disseram ser incontornável: destruir o seu setor produtivo e passar a fabricar tudo no Oriente. Esta brilhante equação produziu as astronómicas dívidas externas que agora assolam a maioria dos países europeus e tornam evidente hoje que urge reverter esse processo e passar a produzir localmente a maior parte daquilo que foi deslocalizado nas últimas décadas.”

O “Regresso às fábricas” será assim a única via possível para que a Europa possa se livrar das dívidas externas (para o Mundo Árabe e China) que acumulou nas décadas de desregulação comercial e de deslocalizações. Mas esse Regresso vai enfrentar uma furiosa oposição por parte dos Grandes Interesses (sobretudo das Multinacionais) que tudo farão para manter um Status Quo que lhes é muito favorável e que lhes permite continuar a produzir os seus produtos a preços muito baixos, sem considerandos de tipo laboral, humano ou ambiental e abrindo espaço desta forma para elevadas margens de lucro. As Multinacionais tudo farão para impedir a reindustrialização da Europa, não excluindo o – já existente – financiamento de Partidos políticos conformes aos seus interesses e a imposição de “protetorados tecnocráticos” como aqueles que recentemente a UE impôs à Grécia e à Itália.

“Na outra ponta da mesa há a economia e moeda locais, prevendo que a riqueza de uma dada comunidade se mantenha relativamente constante, limitando o fluxo de produtos entre comunidades ao mínimo essencial, sendo exatamente o oposto da economia global, na qual se promove um fluxo contínuo de todo o tipo de bens. “

Pedro Cipriano concorda aqui com aquele que é um dos desígnios económicos mais antigos do MIL: a promoção das virtudes das Economias Locais e da ferramenta indispensável ao seu sucesso que é a Moeda Local. Resposta adequada a esta voragem globalizante, que desumaniza a economia e impõe um foco no “global” e financeiro em vez de na Comunidade e no Homem, um modelo que favoreça a produção para consumo local, coadjuvado regionalmente e usando moedas locais para estimular as trocas económicas intra-comunitárias tem várias vantagens que merecem longa reflexão…

Fonte:
Ensaio sobre o futuro de Portugal, do seu povo e da sua cultura
Pedro Cipriano
Nova Águia, número 8

Categories: Economia, Nova Águia, Política Internacional, Política Nacional, Portugal, união europeia | 3 comentários

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3 thoughts on “Pedro Cipriano: “A Europa – mesmo a dita “rica” – começa lentamente a redescobrir lentamente a necessidade de tornar a produzir aquilo que os “economistas do sistema” lhe disseram ser incontornável: destruir o seu setor produtivo e passar a fabricar tudo no Oriente”

  1. verdades assim nao se ve em todo lugar

  2. Pedro Cipriano

    O seu texto é uma extensão interessante e importante ao que escrevi nesse volume.

    Como português com esperança, fico à espera que se despertem as consciências e que se inicie a mudança. Obrigado por ajudar nesta tarefa hercúlea.

    A quote: “A Europa – mesmo a dita “rica” – começa lentamente .. foi deslocalizado nas últimas décadas.” não é da minha autoria.

    • Obrigado, Pedro. O seu texto foi dos que mais citei e comentei nesse número da Nova Águia… não somente pela relevância aguda do mesmo, mas até pelas concordancias que temos.
      Sim, a frase não é sua… reconheco o meu estilo 🙂

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