O modelo Euro-Escudo de Manuela Ferreira Leite

Manuela Ferreira Leite (http://cdn1.beeffco.com)

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Se compararmos a última valorização do Escudo com a atual valorização do Euro, observamos que a economia portuguesa foi obrigada a absorver uma valorização da sua moeda internacional de troca de mais de 400%! Obviamente, tal movimentação teve efeitos catastróficos ao nível dos setores primário e secundário, destruindo dezenas de milhares de empresas e centenas de milhares de empregos… em troca, tivemos duas décadas de crédito barato e de tercialização da economia.

Mas agora, que o Euro revela as suas fragilidades e que a Europa dá provas sucessivas da sua incapacidade para as resolver, o país tem que começar a procurar alternativas. Entre elas, encontra-se o “Escudo CPLP”, uma moeda internacional de troca (que invoca o ECU da CEE), o regresso puro e simples ao Escudo e uma terceira hipótese, recentemente Ferreira Leite lançou uma interessante terceira hipótese: o relançamento do Escudo, “como moeda instrumental, não convertível. A função dessa moeda não é como antes do euro, com desvalorizações para compensar os aumentos salariais da ordem dos 20%. A desvalorização seria apenas em duas circunstâncias: no caso de haver alguma pressão das importações, e voltar a haver um desequilíbrio comercial que tenha impacto no défice externo e endividamento, ou se Portugal tiver exportações para um determinado mercado que estejam a ser negativamente influenciadas por uma valorização do euro.”

Neste modelo híbrido, Escudo-Euro, haveria um estímulo natural a comprar artigos produzidos ou incorporando produção portuguesa, simultaneamente, o Estado teria reservas internacionais, em moeda forte, que lhe serviriam de reserva e usada nas transações externas (o Escudo teria apenas curso interno).

Esta moeda dupla permitira evitar a perda de nível de vida que se estima ter que ser superior a 70% e estimularia a poupança (feita em Euros) e – na visão de Ferreira Leite – permitiria que Portugal tivesse não um, mas dois orçamentos: um em Euros, o outro em Escudos. No primeiro, teriam que respeitar-se todos os compromissos financeiros (défice, inflação e dívida externa), no segundo, estes limites não existiriam, pelo que seria possível lançar um grande programa de estímulo económico usando apenas Escudos. Este programa seria alimentado por empréstimos obrigacionistas, comprados pela Banca e comprados pelo Banco de Portugal, muito na forma de funcionamento da Reserva Federal. Este programa faria crescer a dívida externa, mas em Escudos, mas se fosse contraído apenas para financiar a economia real e sobretudo empresas dos setores primário e secundário, seria sustentável, a prazo, pelo decorrente crescimento do PIB.

Fonte:
Entrevista de Manuela Ferreira Leite ao jornal Público

Categories: Economia, Política Internacional, Política Nacional, Portugal, união europeia | 4 comentários

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4 thoughts on “O modelo Euro-Escudo de Manuela Ferreira Leite

  1. Pedro

    A ideia é boa mas tem um senão é aplicada apenas à realidade nacional, ou seja o país se comportaria um pouco com aquela bicicleta que tem uma roda pedaleira pequena, muito dar ao pedal e poucos metros andados, a fazer lembrar aquelas bicicletas circenses 🙂
    Mas se nessa ideia alterarmos a realidade portuguesa para a da CPLP aí sim temos uma bicicleta com duas mudanças e ambas com roda pedaleira grande, o que nos permitira galgar metros rentabilizando o esforço colectivo e neste momento o país precisa mais do que nunca de rentabilizar esforços e não de mais desgaste.

    • A questão está em que nao podemos aplicar nenhuma dessas duas soluções sozinhos: precisamos de parceiros e não vejo vontade nem num lado (europa) nem no outro (cplp). Os europeus do norte estão enredados num discurso racista e superiocrata que nos classifica como inferiores, e não ha parcerias com inferiores. Do lado da cplp, vejo uma instituiçao muito burocratizada e excessivamente diplomatica. O isolacionismo internacional do Brasil e a inercia quanto à crise guineense (que continua) indicam isso mesmo. Continuo a acreditar nas suas potencialidades, mas estas, no essencial, continuam por materializar…

  2. Pedro

    Digamos que a força das circunstância forçará a solução, se o governo for precavido neste sentido o que penso pela ideia lançada de uma pessoa muito credível dentro do principal partido do governo quer dizer que está a ser preparado um plano de contingência provavelmente com uma equipa fora do governo e com elementos afectos ao eixo governativo.
    Esta posição de Manuela Ferreira Leite visa essencialmente apalpar terreno e verificar a aceitação primeiro junto das elites representativas do país primeiro e depois caso a ideia comece a passar divulgá-la para o povão através dos media apropriados, uma estratégia previsível diga-se de passagem mas é a única para fazer vingar uma opção que irá mexer com os destinos do país nas próximas décadas.
    A dúvida não é no euro porque é evidente que teremos que trabalhar com essa moeda enquanto estivermos no barco com outros parceiros europeus, uma saída do euro era um suicídio colectivo a menos que queiramos ser masoquistas…
    A dúvida da afirmação está na moeda interna o “escudo”, será que a intenção expressa na ideia será mesmo regressarmos à moeda interna para consumo interno ou haverá já algum trabalho no sentido da moeda CPLP e que essa questão foi levantada apenas para que a sociedade portuguesa e dos outros países lusófonos levante justamente essa questão.
    Bom se a intenção foi essa há que tirar o chapéu a Manuel Ferreira Leite ou quem a esteja a aconselhar nesse sentido porque a partir do momento em haja mais divulgação na imprensa como julgo que irá acontecer até final do ano, iremos ver as sociedades civis do lado de Portugal e de outros lusófonos a questionarem a questão óbvia “Escudo? Então e porque não…”

    • Ferreira Leite tem estado sempre proxima de Cavaco. E sabe-se como Cavaco detesta Coelho, sendo o sentimento… mútuo.
      Nao creio que esta hipotese sejaq mais um balao de ensaio, como aqueles que os governos fazem de quando em vez para sondarem a opiniao publica, mas uma hipotese genuina, dela mesma e de nenhum grupo dentro do psd (nem sequer dos cavaquisstas).

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