Paul Krugman: “A desastrada combinação de união e desuniao no seio da Europa – a adoção pela maior parte das nações de uma moeda única sem se ter chegado a criar o tipo de união política e económica que tal moeda comum exige – tem-se revelado uma gigantesca fonte de enfraquecimento e de crise renovada”

“A desastrada combinação de união e desuniao no seio da Europa – a adoção pela maior parte das nações de uma moeda única sem se ter chegado a criar o tipo de união política e económica que tal moeda comum exige – tem-se revelado uma gigantesca fonte de enfraquecimento e de crise renovada.
Na Europa, tal como na América, a recessão atingiu desigualmente as regiões: os locais que tinham as bolhas especulativas maiores antes da crise estão agora a sofrer as maiores recessoes – pensemos no caso da Espanha como sendo a Florida da Europa, da Irlanda como sendo oo Nevada da Europa. Mas a legislatura da Florida não precisa de se preocupar em arranjar os fundos necessários para pagar ao Medicare e à segurança social, que são pagos pelo governo federal. A Espanha encontra-se entregue a si mesma, bem como a Grécia, Portugal e a Irlanda. Por conseguinte, na Europa a economia em depressão tem causado crises orçamentais e os investidores privados já não estão dispostos a emprestar dinheiro a uma série de países. E a resposta a estas crises orçamentais – tentativas selvagens e desesperadas para cortar nas despesas – empurrou os níveis de desemprego ao longo da periferia da Europa para os níveis da Grande Depressao de 1929, e parece estar também a arrastar a Europa para uma recessão absoluta.”

Fonte:
“Acabem com esta crise, já!”
Paul Krugman (Nobel da Economia)

A conclusão que decorre do pensamento de Krugman é fácil de obter: a Moeda Única na presente situação de “desuniao” da União Europeia é insustentavel. A saída para este beco sem saída em que os decisores (ou melhor, os indecisores) europeus nos colocaram só poda assim passar por uma via dupla, mas completamente divergente: ou mais União, fiscal, orcamental e economica ou menos, abolindo efetivamente a União Europeia, transformando-a num formalismo sem grande papel político ou economico ou pura e simplesmente abolindo-a.

A primeira via é a da federação europeia, uma via que para ser trilhada com sucesso implicaria um amplo apoio popular e uma liderança politica decidida e competente. Ora na Europa de hoje não encontramos sinais nem do primeiro requisito, nem do segundo. Vários inquéritos de opinião realizados nos últimos meses no norte da Europa dão sinais precisamente do fenómeno oposto com um avolumar do discurso anti-países do sul, com reflexos eleitorais diretos e levando os politicos do norte da Europa a um discurso e ação cada vez mais xenofobos.

A segunda via é a da Desuniao Europeia… a inacao, lentidao e evidente desnorte da eurocracia e dos políticos que estão hoje à frente dos países membros aponta cada vez com mais intensidade nessa saída. A insistência suicida na “receita” ideológica dos neoliberais (que dominam o FMI e o BCE) segundo o qual a presente Depressao resulta unicamente dos excessos dos gastos dos Estados e não da desregulacao financeira e comercial desde a decada de 1990 está a arrastar o continente para uma Depressao, quew nao sendo ainda uma segunda “Grande Depressao” ja alcançou os níveis de desemprego da Grande Depressao da década de 1930. A intensificacao dos orcamentos austeritarios, em Espanha, França, Grécia e Portugal está a arrastar cada vez mais para baixos as economias destes países, começando agora a refletir-se também nos países do norte, pela diminuicao constante e interminavel nos níveis da Procura (por via credit crunch e da explosão do desemprego). Numa Europa que caminha decididamente para o abismo de uma segunda Grande Depressao, pela via da redução do Estado a uma minarquia neoliberal e da compressao da Procura e dos Salarios está a criar-se um ambiente propício à erupção de um Caos Social de amplitude e duração difíceis de antever e que, certamente, conduzira à implosão da União Europeia, concretizando assim esta segunda via de saída para o presente beco…

Categories: Economia, Política Internacional, Política Nacional, Portugal, união europeia | 7 comentários

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7 thoughts on “Paul Krugman: “A desastrada combinação de união e desuniao no seio da Europa – a adoção pela maior parte das nações de uma moeda única sem se ter chegado a criar o tipo de união política e económica que tal moeda comum exige – tem-se revelado uma gigantesca fonte de enfraquecimento e de crise renovada”

  1. otusscops

    CP

    estiveste muito melhor que o Krugman!!!

    – “A insistência suicida na “receita” ideológica dos neoliberais”
    – ” pela via da redução do Estado a uma minarquia neoliberal e da compressao da Procura e dos Salarios”
    – “conduzira à implosão da União Europeia, concretizando assim esta segunda via de saída para o presente beco…”
    simplesmente ADOREI!!!

  2. Pedro

    Krugman e outros “gurus” da economia pelos seus artigos de opinião estão a todo o custo influenciar a opinião pública europeia acerca do benefício de uma federação europeia.
    Essa estratégia delineada pode ser feita por duas maneiras, defendendo publicamente a ideia ou de uma maneira mais rebuscada, promovendo por defeito, ou seja sinalizando escalpelizando os defeitos no actual sistema europeu e concluindo com cenários catastróficos acerca do futuro da Europa.
    Esta estratégia está sendo implementada desde 2008 e com uma persistência que creio tem carácter de agenda internacional, o objectivo é vergar os europeus pelo receio e o medo de conjunturas imponderáveis e levá-los a ir para a única saída, o federalismo europeu.
    Claro que depois há aqueles politiqueiros que defendem esta ideia abertamente e que precisamente por isso ninguém lhes dá crédito, o que mais me surpreende é o facto de muitos deles ainda não se terem enxergado acerca disso 🙂

    • Nao creio que andem por ai. Essa é mais a via dos “austriacos” que ,andam hoje nop pensamento do Bundesbank (que por sua vez manda no BCE e na CE).
      Os keynesianos defendem o reforço do papel do Estado na economia, nao a prepoderancia dos mercados, a minarquia e a forca dos “grandes interesses” sobre as sociedades.

  3. Pedro

    Mas não foi este que veio para cá tirar o tirocínio prático e fazer experimentações no pós 25 de Abril? Seja como for qualquer que tenha sido a sua acção, ela não se notou até aos dias de hoje pela positiva claro.

  4. Pedro

    Não teve mas fazia parte de uma equipa não oficial que trabalhava directamente com Silva Lopes no tal período de convulsão muito propenso a experiências.

    • Ok, mas ainda assim acho um tanto excessivo tudo aquilo que de me muito acertado ele hoje diz por causa dessa fugaz atividade passada…
      Desde logo porque ele hoje é claramente “anti-sistema”!

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