Portugal e as bancarrotas

“A primeira bancarrota na Europa foi protagonizada pela Inglaterra. Depois, que o campeão das bancarrotas no Velho Continente é a Espanha. Mas,  em terceiro, há que reconhecer que Portugal está na galeria dos países com maior número de bancarrotas até ao final do século XIX.”
(…)
“O nosso calvário nesta matéria começa com o Mestre de Aviz e a situação de quase-bancarrota a que o país chegou antes do início do processo de Expansão, no início do século XV. Contudo, oficialmente, o primeiro incumprimento da dívida soberana só ocorreria em 1560. O último, no final da monarquia, acabou com uma reestruturação da dívida cuja negociação durou dez anos e que apenas acabou de ser paga em 2010.”
(…)
“As bancarrotas entre 1544 e 1892 têm a ver com o esgotamento dos modelos económicos que dominaram a evolução do país ao longo de séculos.”
(…)
“Portugal mantém hoje um peso das exportações no PIB que é atualmente quase idêntico ao que se verificava quando o pais aderiu à então CEE, em 1 de janeiro de 1986, na casa dos 30%, quando países com populações e dimensão semelhantes (Irlanda, Bélgica) atingem valores acima, respetivamente, dos 90% e 80%.”
(…)
“Esta incapacidade de aproveitar as oportunidades decorrentes dos avanços do sistema capitalista a nível global tem de ser assacada às elites nacionais, provincianas e preferindo viver ao abrigo da asa do Estado e com base em salários de miséria do que em enfrentar a concorrência internacional. “
(…)
“Ou congelamos parte da dívida ou a reestruturamos para conseguirmos sair deste beco em que nos metemos e em que nos meteram. Não equacionar esta solução é condenar Portugal a um definhamento inexorável e mais rápido do que se pensa. “

Nicolau Santos
Expresso, 28 de abril de 2012

Sejamos claros: a Bancarrota apenas é um drama eventualmente (mas nem sempre) terminal para os credores, não para os devedores. Das linhas acima comentadas resulta a constatação evidente que ao longo dos últimos séculos muitos foram os países europeus – mesmo os mais ricos – que declararam várias vezes bancarrota e que esta não é algo que deva ser evitado a todo o custo e cobrando em seu nome todo o tipo de sacrifícios: num dado momento é a única opção razoável para sair de uma situação insustentável.

É assim hoje com Portugal: simplesmente o país não gera produto suficiente, nem exporta (nem exportara) o suficiente para pagar uma dívida externa acumulada ao longo de décadas de investimentos públicos de necessidade questionável (Portugal é hoje o país europeu com mais auto-estradas por habitante) e de crescimento insustentável da despesa do Estado. Para que possa regressar a uma situação sustentável, Portugal tem que expulsar de si o peso morto de uma dívida que não conseguira nunca pagar, recusar o pagamento de juros especulativos e negar-se a um empobrecimento coletivo a favor dos grandes bancos e interesses financeiros internacionais. E declarar bancarrota.

Categories: Economia, Portugal | 4 comentários

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4 thoughts on “Portugal e as bancarrotas

  1. Pedro

    A declaração de bancarrota no sistema globalizado que temos seria um desastre, ainda por cima quando estamos numa época em que os media são já o 2.º poder, Portugal teria de passar mais de um século para limpar o nome associado a essa palavra, seria contraproducente sequer dizer essa palavra.
    Com as privatizações o estado perde digamos os anéis ou as rendas, o que implica que haja mais fiscalização e a malha do fisco aperte transversalmente a toda a actividade económica e por outro lado o estado tem que incentivar que as empresas exportem o que implica uma postura governamental estratégica no sentido de acompanhar de perto esse processo e abrir portas fora de portas, pelo menos um portas já temos 🙂
    As parcerias público privadas forçosamente, a grande maioria desaparecerá o que é bom e torna-se imperioso a captação de capital estrangeiro de preferência fora da Europa e criar condições para a fixação do capital nacional, ou seja benefícios fiscais.
    Na gestão do equilíbrio fiscalização/benefício fiscal é que está o segredo e que este governo não atinou nem creio que vá atinar, porque para isso é preciso ter uma equipa altamente rodada e experiente ao nível do mercado e como ele funciona de facto e não só no aspecto financeiro mas mais importante em estratégia macroeconómica, não vislumbro economistas na nossa praça com essa astúcia necessária, talvez o segredo seja justamente esse não colocar economistas na pasta da economia porque tem a tendência de seguir os gurus que estão na moda, sejam eles americanos ou alemães.
    Outra medida no imediato que o governo terá de fazer para captar mais receita é de criar rendas intrínsecas ao país, pelo seu serviço ao mundo em determinadas áreas específicas e que vão beneficiar a economia global.
    Este último parágrafo daria pano para mangas e é justamente neste ponto que tem de surgir as ideias e as concretizações a muito breve trecho, porque o Zé Povinho já contribuiu e de que maneira para a crise e para a estabilidade do país durante este tempo em que estamos sendo intervencionados pela Troika, agora cabe ao estado desempenhar realmente o papel para o qual foi designado, o de cuidar dos interesses da nação no meio de outras.

    • A argentina está de novo em dificuldades (porque nao aproveitou para reestruturar) mas a sua bancarrota foi a maior bancarrota de sempre e cinco anos depois tinha ja voltado aos Mercados…
      Mas essa é a verdadeira questao: porque é que os governos tem que ir financiar-se aos Mercados? Em que “lei natural” isso está escrito? Porque nao imprimem simplesmente moeda, dentro de certos limites (por causa da inflacao) e se libertam dos “mercados” como acontecia ha algumas decadas atras?

      • Depende da capacidade de comprar moeda estrangeira para comprar artigos vindo do exterior. A moeda interna apenas serve como forma de pagamento interno, pode ainda ser utilizada como pagamento externo mas isso dependo do equilíbrio da balança comercia com um determinado mercado. O irão pode vender à argentino, mas só aceitará receber pesos na medida em que quer comprar igual valor em mercadorias argentinas, cfaso contrário quer numa moeda que possa utilizar em outros mercados.

        • A opção de uma moeda dupla (o Euro para transsacoes externas e o Novo Escudo) para transacoes internas é muito apelativa: promoveria producoes de substituicoes, mantendo a possibilidade de se fazerem poupancas em euros e mantendo o pais no “clube do euro” com a estabilidade de juros e as baixas taxas que houve no comeco.
          É claro que nao resolveria a barreira que o euro é para as exportacoes…
          Apesar do apelo desta solução estou cada vez mais convito que a solução que melhor serve os interesses de Portugal é mesmo o retorno à soberania monetaria absoluta, com a declaração parcial de bancarrota (recusa no pagamento de juros acima da correcao da inflação)

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