Porque é que Passos Coelho não defendeu Portugal na última cimeira europeia?

A última cimeira europeia não foi tão vácua em termos de resultados como tem sido tradição (muito devido a uma coligação entre Espanha e Itália que dobrou os joelhos a Merkel). As decisões saídas da cimeira podem fazer descer – de forma duradoura – os juros de financiamento pagos por Espanha e Itália e a Irlanda está também entre os grandes beneficiados. A péssima prestação dos representantes portugueses na Cimeira (onde anda Portas?!) deixou o país de fora na lista de beneficiários da cimeira, de forma absolutamente incompreensível, mas que apenas um seguidismo acéfalo e bovino aos interesses da Alemanha pode explicar.

Porque é que a Irlanda conseguiu a inscrição no texto final da cimeira onde se promete “uma melhoria da sustentabilidade do programa de ajustamento irlandês, que está a revelar um bom desempenho” e Portugal – que proporcionalmente está a realizar um esforço muito maior – não obteve o mesmo resultado?!

Porque é que Espanha conseguiu uma capitalização direta da sua Banca, enquanto que Portugal tem que a obter através da agiotica “ajuda da Troika”, com juros e pesados pacotes recessivos de austeridade?

Porque é que Itália saiu com a garantia de que a sua dívida soberana será comprada nos mercados primário e secundário (ainda que de uma forma indeterminada)? Até a Grécia – que tem falhado sistematicamente nos seus compromissos – obteve a promessa de “ajustamentos” no seu programa…

Perante esta vaga de sucessos, Portugal e os seus representantes na cimeira parecem – no mínimo – ter dormido na forma. Podíamos (devíamos) ter beneficiado da ajuda direta à Banca. Podíamos (devíamos) ter recebido também a garantia de compra de dívida, que seria essencial para fazer baixar os juros especulativos que ainda pagamos.

Passos Coelho, parece ter vestido a pele de “ovelha negra” imposta pela sua dona, Merkel e assumido – em nome de todos nós – o jugo da austeridade, percebida já (os resultados da execução orçamental provam-no) mais como castigo que receita para nos curar da recessão. Na melhor das hipóteses, o Governo espera apenas que a europa conceda uma extensão de um ano no prazo do ajustamento-castigo que nos foi imposto pelos nossos “amigos” europeus.

Da cimeira, o governo parece ter saído apenas com uma redobrada convicção de seguir o caminho de uma austeridade fundamentalista que trouxe a maior recessão das ultimas décadas, níveis recorde de desemprego (mais de metade sem subsídio: 444 mil pessoas!) E um desvio colossal na execução orçamental. Mas Merkel está contente com Passos e aparentemente só isso importa. Não alinhar com este novo eixo Madrid-Roma-Paris que se desenha no horizonte, ou, pelo menos concertar posições comuns com Irlanda e Grécia. Não, para Passos e para o invisível Portas, importa apenas alinhar com o jugo que de Berlim nos mandam vestir.

Fonte:
http://economico.sapo.pt/noticias/solucoes-para-os-paises-perifericos-deixam-portugal-de-fora_147508.html

Categories: Economia, Política Internacional, Política Nacional, Portugal, Sociedade Portuguesa, união europeia | 40 comentários

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40 thoughts on “Porque é que Passos Coelho não defendeu Portugal na última cimeira europeia?

  1. Thor

    Parte 1: Só tenho a dizer que, não entendo a linha de raciocínio dos líderes europeus de hoje! O Cameron diz que vai lutar pela união do Reino Unido mas praticamente empurra a Escócia para a independência, fica querendo apagar fogo com gasolina. A Merkel parece que toma chá de cogumelo…

    • Thor

      …Parte 2: O Katainen é cego e arrogante, não considera a possibilidade da Finlândia no futuro fazer ***** e precisar da boa vontade e da paciência de outros países. A Islândia já deu uma aula de como sair da crise, mas os líderes europeus cabeças-ocas querem confiar na troika e fazer os seus cidadãos sofrerem. Sinceramente, desisti de entender.

      • Thor

        Clavis Prophetarum, peço desculpas pelas minhas palavras grosseiras. Mas eles são líderes de países desenvolvidos, deviam demonstrar mais sabedoria ao mundo na forma de governar. Os países do sul não são inocentes, mas os países do norte também complicam as coisas em vez de simplificar. Não acho justo os cidadãos comuns do sul pagarem pelos erros de políticos incompetentes, e pra satisfazer banqueiros e especuladores. Não me leve a mal, mas irrita ver a incapacidade de gestão dos atuais líderes europeus.

        • Não me digas nada… eu ando furioso com esta cafila toda, do norte e do sul e com essa ansia fanatica de dar “bail outs” a Bancos enquanto se destroem milhões de empregos.

      • Nao ha como entender aquilo que não é entendivel. Eles limitam-se seguir a receita neoliberal, de forma acritica e bovina. Nao pensam, nao refletem nem procuram soluções alternativas, porque nao o sabem fazer e sao deixados governar por um povo bovino e manipulado.

    • É de facto uma geração incrivelmente má de lideres, mas a unica possivel em sociedades globalmente abstencionistas, manipuladas em alto grau pelos media e onde os niveis de cultura civica e geral cairam a niveis ineditos.
      Em suma: os lideres sao muito maus, mas sao aqueles que – exatamente – os europeus merecem.

  2. Thor

    Eu não considero a UE como um erro. A UE foi uma ótima ideia. Já o Euro, eu estou convencido que foi um erro sim. E os líderes europeus vão esperar a França e a Holanda serem socorridas pela Troika para abrirem os olhos?

    • Provavelmente, não… já houve sinais na ultima cimeira de que basta os mercados atacarem a serio Espanha e Italia para essas bestas fazerem alguma coisa.
      Uma coisa é deixarem cair Portugal e a Grécia (que vão deixar), a outra é deixarem cair um ou ambos dessses dois. Isso nao vao deixar acontecer. Não sei é no que vai dar essa “solução”, mas hã sinais de que seja na direção do federalismo e da perda de soberania do sul a favor dos paises do sul, o que de facto, pode até ser oo plano desde o principio desda crise…

  3. Thor

    Acho que a UE só tem duas vias! Ou se torna um único país federal, ou será desfeita graças a incompetência dos atuais líderes europeus. E se a UE for desfeita, o mundo sofrerá as conseqüências, será uma reação em cadeia. Um efeito dominó na economia global. 😦

    • Ha ainda uma terceira opcao: a cisao em duas “unioes europeias”, a do norte (dos ricos) e a do sul (dos paises do mediterraneo). Francamente, atualmente, essa é a opcao que me parece agora mais provavel.

  4. otusscops

    clap, clap, clap…

    muito bem , CP e Thor.
    nada a obstar ao que foi dito, com sentimento mas com clarividência.

    apenas uma coisa, a UE não é “tudo ou nada”, Thor.
    ninguém na Europa, nesta geração, está disposto a federar-se num único pais, há-de haver situações juridico-políticas intermédias.
    e falta escolher uma língua oficial (já sabem qual é a minha – LATIM).

    • Thor

      Otus Scops,
      permita-me explicar o meu sentimento de revolta! Se a Europa não sair logo dessa crise, vai puxar os BRICS pra dentro dela. A China vai acabar entrando em recessão, e por conseqüência, o Brasil também. A Europa e os EUA já estão em crise a tempo demais. Até agora ninguém resolveu o problema. Ai que vontade de arremessar o mjölnir na cabeça da Merkel! Como ela pode ser tão estúpida?!

      • renators

        Muito simples… ela não quer ver uma crise bancária no quintal dela…sabe quanto os bancos franceses e alemães emprestaram de dinheiro para os PIIGS ?

        • Esses bancos ja se livraram de toda a divida grega e de portugal… mas estao na divida espanhola e italiana, sinal de que a europa fara mesmo tudo o que puder (mas pode pouco!) Para impedir um “resgate” a esses países!

    • Thor

      “…e falta escolher uma língua oficial (já sabem qual é a minha – LATIM).”

      😀 Ave César!

  5. Portugal não tem a relevância econômica da Espanha e da Itália; nem está disposto a fazer barulho e criar problemas como a Grécia… acha que iriam levar em consideração o quê ?

    Pode ver, que na hora H, todo mundo pensou no seu quinhão,e não na Europa (é o famoso ditado brasileiro: Pouca farinha ? Meu pirão primeiro…)

    Paciência…

    • otusscops

      RRS

      tens razão, mas a questão de fundo é esta:
      ou a União é dos Povos ou então é dos interesses económico-financeiros…
      se os pequenos “caírem” a seguir vão os médios e no fim os grandes vão por arrasto.
      quando o telhado do edíficio começa a meter ágia, TODOS os condóminos tem de pagar o arranjo, não podem ser apenas os do último andar e é isso que está a faltar à UE, espírito de condomínio.

    • E é precisamente por nao haver esse “sentimento comum” que esta europpa se ha de finar: este presente feixe de interesses nacionais, opostos e mutuamente contraditorios é insustentável a prazo e so pode resolver-se pela cisao (multipla ou dupla) ou por um federalismo imposto de fora e com aspirações totalitarias.

  6. renators

    Será que alguma vez, à UE, houve espírito de comdomínio, ou só havia este espírito enquanto a coisa foi bem ? O que sinto, no caso de Portugal, é que este correu cedo demais a querer agradar à Europa, e se submeteu muito docilmente…

    Outro ditado, desta vez norte-americano: a dobradiça que range é a que recebe óleo…

    • Os problemas sao sempre adiados ou esquecidos quando ha pao na mesa. So se tornam urgentes quando este comeca a rarear… nas familias e nos paises.

  7. Thor

    O presidente da Comissão Europeia ainda é o Durão Barroso? Qual é afinal a prestatividade daquele gajo? Sobre a liderança europeia, eu começo a dar razão ao Mário Soares, tão mal compreendido pelas pessoas.

    • Pouca… o orçamento que ele gere ascende a uma pequena percentagem da economia europeia e ele pouca autonomia real tem, de facto, alem da de… falar. Uma especie de Cavaco, em suma.

  8. renators

    Durão Barroso ? Come na mão da Merkel …

  9. Pedro

    Passos Coelho não fez nada porque Portugal está sendo o cordeiro para o sacrifício económico da agenda já previamente marcada, antes mesmo de pedir-mos ajuda internacional, a marca do sacrifício foi-nos imposta.
    Solução? Pois que os portugueses não aceitem ser marcados e já que Passos Coelho aceitou tão obedientemente esse fardo e quer ser o Cristo sem ser santo então que responda por ele…

    • Mas eles nao so aceitam, nao somente passos como a propria europa que escreve o guiao que Passos – bovinamente – segue.
      Isso mesmo dizem todas as sondagens.

  10. Quais os sintomas que estão a ter da crise aí em Portugal ? Desemprego ? Mendicância ? Aumento da inadimplência ?

    • otusscops

      sim, esses todos!!!
      além da asfixia democrática, o normal em qualquer país ou povo, apenas com uma nuance, poucos a revoltarem-se – ainda.

  11. A revolta não é da alma portuguesa (nem da brasileira). Por isso leio com tanto interesse sobre a Guerra Colonial (guerra esta muito desconhecida aqui no Brasil).

    Como pode um povo extremamente pacífico e mal armado manter, com relativa eficiência, uma guerra em três frentes, com poder sobre todos os territórios, e encarando guerrilheiros armados pelas superpotências ?

    Nisso, Portugal e os portugueses me deixam intrigado (e com uma pontinha de orgulho, devo confessar…)

    • Pedro

      As restauração foi instaurada pela revolta popular para depor a dinastia dos Filipes de Espanha, Portugal esteve sempre em guerra com alguém até 1974, o problema é justamente a “falta de acção” desde há 38 anos, ou seja nos convertemos desde 74 num país de bananas e neste momento com este governo, temos o privilégio de ter chegado ao fundo ou seja pior já não podemos ser como nação, o que de facto por um lado é deprimente mas por outro é aliciante, é um encerramento de um ciclo e início de um outro noutras bases, agora só podemos começar a subir 🙂

    • Com efeito, parece impossível, sobretudo quando se le sobre a escassez de meios financeiros e materiais (armas) de Portugal na altura. Fica a noção de que foi possivel manter essa guerra em tres frentes, de a vencer em duas (mocambique e angola) e a de a perder numa (guine), tudo com muito sentido de improvisacao e recrutando sobretudo soldados locais (tres quatros do exercito eram negros, em 1975).

  12. Pedro

    Quando a “geração banana” aquela de chamada do Maio de 68 e que ainda influem nos destinos desta nação, sair de cena então este país seguirá seu rumo até lá estaremos sempre num marasmo pantanoso e deveras perigoso.
    Ainda outro dia vi e ouvi um desses dinossauros políticos dessa geração defender com unhas e dentes o federalismo europeu…

  13. CP

    respondi ao Renato RS e não aparece.
    anda muita gente a queixar-se.
    vê -lá isso com a WordPress…

    👿

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