A Língua Portuguesa em Angola

“Existe uma continuidade surpreendente na posição consolidada da língua portuguesa. Durante a luta de libertação, o português foi um dos fatores de unificação que manteve o MPLA junto. Em 1971, quando a expressão “África Portuguesa” parecia inadequada para territórios onde largas porções da população estavam em rebelião contra Portugal, cunhei o termo “África Lusófona” que foi rapidamente adotado pelos media e governos estrangeiros, embora o não fosse pelos movimentos nacionalistas que se referem embaraçosamente às suas nações como “países de língua oficial portuguesa”. Depois da independência, a relevância política da língua portuguesa tornou-se ainda mais crucial em Angola do que o tinha sido durante os longos anos passados nas terras agrestes do chamado “fim-do-mundo”.
(…)
“Um dos papéis da língua na divisão política de Angola dizia respeito à rivalidade entre o MPLA e a FNLA. Os segundos usavam habitualmente o francês como a sua língua franca. Os apoiantes da agora extinta FNLA eram predominante gente do norte, da qual uma grande parte tinha vivido no Zaire por muitos anos.”
(…)
“Em 1974, metade dos “Angolanos” no Zaire eram zairenses de nascimento e quando regressavam à “terra” em Angola, a falar francês em vez de português, eram desdenhosamente tratados de “Zairotas”. (…) Uma primeira tentativa dos exilados de Kinshasa de se apoderar de Luanda acabou num confronto armado e em derrota em 1975. A ajuda militar significativa fornecida pelo presidente Mobutu do Zaire, que emprestou o seu exército à FNLA, e por Henry Kissinger, que permitiu aos serviços secretos americanos recrutar mercenários brutais mas incompetentes para ajudar a FNLA, não foi suficiente para expulsar ao MPLA na batalha de Quifandongo, a 10 de novembro de 1975.”
Portugal e África
David Birmingham

Fica assim explicada a preferência clara dada à língua portuguesa por Angola depois da independência: tratou-se não tanto de opção para afirmar uma união nacional (em que a língua portuguesa era um dos raros traços pontos comuns) mas mais uma afirmação interna do próprio regime do MPLA contra a FNLA (francófona). A existência (única em toda a chamada “África Portuguesa” de pre-1975) de uma considerável colonização portuguesa e de uma extensa classe de letrados e “assimilados” em Luanda (a chamada “elite creoula” de onde provém Eduardo dos Santos) tornaram Angola como o país lusófono onde mais e melhor se fala português, exceção feita a Portugal (matriz original da língua) e do económica e socialmente mais desenvolvido Brasil.

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Categories: Lusofonia, Movimento Internacional Lusófono, Política Internacional, Política Nacional, Portugal | Etiquetas: | 10 comentários

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10 thoughts on “A Língua Portuguesa em Angola

  1. nada assim é visto pelos meios convecionais de midia

  2. otusscops

    “O Reino de Lunda (c.1665-1887), também conhecido como Império Lunda, é uma confederação africana pré-colonial de estados, onde são hoje a República Democrática do Congo, o nordeste de Angola e o noroeste da Zâmbia. O seu estado central ficava no atual Catanga.”

    ou seja, as fronteiras do colonialismo continuam a fazer vítimas…
    houve “alguem” que em 1800 “e troca o passo” em Berlim que traçou a regra e esquadro fronteiras totalmente artificiasi, juntando o que estava separado e separando o que estava unido.
    Angola não é nada assim homogénea como vem nos mapas, é preciso conhecer o país profundo.

    acho que este D.Birmingham percebe pouco do assunto…

    • Esse “Birmingham” é simplesmente uma das maiores autoridades mundiais sobre a História de Angola. Mas sendo, humano (ainda que inglês! 😉 ) pode errar…

      • otusscops

        realmente eu ainda não escrevi nenhum livro…
        mas mantenho o que disse!!!
        :mrgreen:

        (CP, vês como os anglo-saxónicos mandam gente estudar, investigar, espionar a fundo qualquer país do mundo tendo um quadro de especialistas para todos os temas???
        tenho um enorme respeito pelo povo britânico, um modelo, um método)

  3. renators

    Deixei dois comentários neste pos, e nenhum dos dois foi publicado: não foram comentários grandes, e não usei palavrões.

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