Portugal: Onde estaremos daqui a cem anos?

Perante um clima de aparente decomposição da União Europeia e do projeto de construção europeia que serviu de pilar mono-temático para Portugal nos últimos trinta anos, há que colocar a questão: há alternativas ao processo de integração europeia?

Há sempre alternativas a qualquer curso estratégico já que na diplomacia e nos desígnios estratégicos de uma Nação há sempre vias laterais e outras opções. Perante a presente crise também as há. Aliás, a presente crise (aparentemente fatal e terminal) pode oferecer a oportunidade que a modorra e placitude de um aparentemente bem sucedido processo de integração europeu impediam de surgir. Agora, desafiados perante uma crise que ameaça aquilo que se assumiu como pilar único da própria construção da democracia em Portugal: a Europa, Portugal tem condições para embarcar numa reflexão criadora sobre si próprio e o seu futuro.

Existe em Portugal um grave défice de reflexão sobre o estado do país e sobre os seus desígnios estratégicos. Essa carência de pensamento estratégico ressurgiu na época do Salazarismo, regime paternalista que reservava a uns quantos “iluminados” o exclusivo e monopólio do pensamento enquanto o resto da sociedade seguia bovinamente o pensamento do “líder”, mas radica de forma mais profunda e indelével nas perseguições da Inquisição. A carência de reflexão estratégica foi depois mascarada pela importação de modelos civilizacionais alheios (o comunismo, a social-democracia e a democracia cristã) depois da revolução de 1975. Mais tarde, a “fuga em frente” da adesão europeia, oferecida como ultima saída para um país cronicamente falido e várias vezes intervencionado pelo FMI dispensou as elites inteletuais nacionais da tarefa de produzirem pensamento estratégico original e criativo. O clima do “pensamento único” era então aparentemente claro e não tolerava derivações: a solução para todos os males portugueses era uma só: Europa e mais Europa.

Agora, contudo, chegou o momento de refletir. E de refletir urgentemente, sem desprezar a busca de ações e medidas concretas de curto prazo. E nessa reflexão sobre a via estratégica que Portugal deve agora seguir a CPLP, a Comunidade Lusófona e a Lusofonia têm que assumir um papel central.

O que Portugal for daqui a cem anos, depende daquilo que hoje botarmos à terra, fertilizado pela presente deriva europeia e por uma crise que aparenta no curto prazo ser impossível de vencer. Os caminhos não se traçam de um momento para o outro, perante o imediatismo das crises, mas a prazo e a distâncias tão longas como a de uma centena de anos. O que escolhermos fazer hoje, coletivamente e enquanto indivíduos vai determinar esse Portugal do futuro.

As escolhas de hoje, que têm que ser o produto de pensamento próprio, original e autónomo e não o resultado de qualquer importação conceptual ou de qualquer futuro “chave na mão” são assim determinantes não somente para a saída de Portugal da mais grave crise financeira dos últimos cem anos, mas também para definir o que será Portugal daqui a cem anos.

O que será Portugal daqui a cem anos terá que ser algo substancialmente diverso que somos hoje. O exaurir da dita “opção europeia”, oferecida como “via única” para o desenvolvimento dita uma de duas saídas: a autonomia ou a integração num novo eixo de alianças. Portugal é – em linguagem geopolítica – uma potencia média, logo, uma potencia incapaz de exercer a sua influência regional ou global fora de um circuito internacional de dependências cruzadas e alianças. O despertar do fátuo e insustentável sonho de riqueza europeia, alimentado pela injeção de fundos europeus e pelo crédito barato vai fazer-nos acordar num contexto de maior contenção e racionalidade de consumos e num padrão de vida mais adequado à nossa real capacidade produtiva. Nesse sentido, qualquer destino futuro do país terá sempre que passar por um grau reforçado de autonomia e independência económica, financeira e política que o atual e, naturalmente, por uma redução sensível dos padrões de consumo. Com efeito, décadas de transferência de soberania para um centro europeu ademocrático e livre do escrutínio eleitoral produziram muito pouco além de uma sociedade economicamente insustentável e dependente. O que formos nas próximas décadas dependerá sempre daquilo que formos capazes de produzir e do grau de independência económica que lograrmos conquistar.

Urge começar uma autêntica revolução de desconsumo. Não há dúvidas de que o atual processo de austeridade imposto pela “Troika” não resolverá o essencial do nosso problema da dívida e que em 2013 estaremos praticamente na mesma situação em que nos encontrávamos em 2010: com uma gigantesca dívida externa e com um crescimento económico anémico que não a permite pagar. Se nada fizermos, a situação em 2111 será basicamente a mesma: uma dívida externa colossal e um serviço da dívida asfixiante. A saída só pode assim passar pela recusa do pagamento da mesma e da devolução aos credores daquilo que eles querem que nós assumamos: o risco de conceder empréstimos. Não duvidemos: o Portugal daqui a cem anos, não pode ser um Portugal esmagado por uma dívida externa colossal, não a podendo pagar, pela nossa pobreza endémica em recursos e pela nossa demografia negativa, só nos resta assim exercer a derradeira liberdade de todos os devedores: declarar a bancarrota e recusar aos banqueiros espanhóis e alemães o continuado saque que querem exercer sobre nós nas próximas décadas. O Portugal de 2111 será um Portugal falido, decerto, mas livre para crescer à custa das suas próprias capacidades e sobre a sua própria potencia produtiva.

Reencontrado o Portugal que consegue viver na direta proporção dos seus reais rendimentos e capacidades, recuperados os alicerces sólidos de um desenvolvimento duradouro e sustentável baseado na soberania alimentar, na autonomia industrial e tecnológica, Portugal, recredibilizado, remoralizado e restaurado depois de décadas de protetorado castrador e moralmente depressivo pode abalançar-se em voos mais altos, olhar mais além, para a outra banda do Mar Oceano e buscar um novo espaço de crescimento e desenvolvimento entre os países da Lusofonia. Acreditamos que esta reaproximação lusófona vai ter lugar ainda antes de 2111 e os primeiros sinais adivinham-se já com a multiplicação dos laços migratórios para os países da lusofonia, com a intensificação do comércio inter-lusófono e com a crescente presença do termo “lusofonia” no discurso mediático, cultural e jornalístico.

Daqui a cem anos, Portugal terá já reencontrado um padrão de consumo mais adequado à sua real riqueza, redescoberto o seu Mar e regressado à agricultura, recusado o pagamento de uma dívida impagável e recentrando os seus desígnios estratégicos sobre o Mar e a Lusofonia, promovendo a evolução dessa instituição bloqueada, burocratizada e artrítica que é hoje a CPLP até à verdadeira Comunidade ou União Lusófona que é hoje um dos principais objetivos do MIL: Movimento Internacional Lusófono. Portugal será assim daqui a cem anos, mais Portugal, mais independente, soberano e livre para se abalançar ao seu grande desígnio estratégico que é o do aprofundamento dos laços com os países lusófonos e a fundação dessa União Lusófona antecipada por António Vieira, Fernando Pessoa, Agostinho da Silva.

Publicado na Revista Nova Águia, nº 9

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Categories: Lusofonia, Movimento Internacional Lusófono, Nova Águia, Política Nacional, Portugal | 12 comentários

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12 thoughts on “Portugal: Onde estaremos daqui a cem anos?

  1. Lendo uma notícia acerca de um conflito entre a armada inglesa estacionada em Gibraltar com pesqueiros espanhóis, e a forma de como as instituições de rating estão actuando relativamente às regiões autónomas espanholas, dando visões individualizadas para cada uma, como que a dissipar o papel de um país chamado Espanha, vislumbra-se de facto de que está para acontecer uma nova repartição da península ibérica.
    Os ingleses já estão a deixar claro que estão para ficar e quem sabe ampliar o seu território acima de Gibraltar e o seu território marítimo, Portugal só terá uma solução, a de ampliar o seu domínio na península ibérica para a sua estabilização, porque enquanto na Grécia não há nada a jogar ao contrário a queda de Espanha será jogo para as potências europeias.
    Vislumbra-se daqui a uns 100 anos um Portugal maior e melhor, reforçando a sua posição na Europa e no mundo por vias da CPLP.

    • Na verdade, o mundo de hoje é tão fluido e incerto (fruto desta dependencia doentia dos “mercados” e da Finança) que ninguem consegue antever o amanha. Os Raters estao a apostar na cisao de Espanha? Acho duvidoso… apostam que algumas regioes vao (como a Madeira) acabar por desistir de pagar as suas dividas impagaveis e declarar bancarrota. Mas isso, de per si, vai levar à cisão de Espanha? Não creio (embore o deseje), vai é levar à falência (merecida) de muitos credores…

  2. Fenix

    Fundo do mar

    No fundo do mar há brancos pavores,
    Onde as plantas são animais
    E os animais são flores.

    Mundo silencioso que não atinge
    A agitação das ondas.
    Abrem-se rindo conchas redondas,
    Baloiça o cavalo-marinho.
    Um polvo avança
    No desalinho
    Dos seus mil braços,
    Uma flor dança,
    Sem ruído vibram os espaços.

    Sobre a areia o tempo poisa
    Leve como um lenço.

    Mas por mais bela que seja cada coisa
    Tem um monstro em si suspenso.

    Sophia de Mello Breyner Andresen
    Obra Poética I

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  4. Enoque

    “Onde estaremos daqui a cem anos?”
    – Boa pergunta! Não faço a mínima ideia!
    “há alternativas ao processo de integração europeia?”
    – Há alternativas pra tudo! Apenas pra morte é que o ser humano ainda não encontrou uma forma de fugir.
    “Portugal tem condições para embarcar numa reflexão criadora sobre si próprio e o seu futuro.”
    – Sim. Com certeza tem.
    “a solução para todos os males portugueses era uma só: Europa e mais Europa.”
    – O melhor caminho é ter um leque de opções. Nem só a Europa, nem só a CPLP…
    “O que Portugal for daqui a cem anos, depende daquilo que hoje botarmos à terra…”
    – Isso aí mesmo!
    “Daqui a cem anos, Portugal terá já reencontrado… recentrando os seus desígnios estratégicos sobre o Mar e a Lusofonia…”
    – E uma terceira opção sem excluir as demais. Assim como fizeram nos oceanos nos fins da Idade Média, fazerem de novo nos céus, no espaço, com o mesmo espírito das grandes navegações.

  5. Fenix

    Haverá uma grande crise vinda das escasses do petroleo por todo mundo.E com ela grandes mudanças a nivel de como vivemos e pensamos o nosso dia a dia.
    Haverá regreso a idade da pedra em muitos sectores que nos afectão em coisas tão simples como o ir de um lugar para outro…
    O comsumo será mais moderado e menos global e mais local pois as distâncias terão de ser menores pois o preso do petrolio a isso vai obrigar e vai-se refletir no preso final de cada produto.

    • POliveira

      @Fenix

      Não me parece. As reservas de petróleo continuam em alta e estão a ser encontrados novos poços todos os anos. O chamado “Peak Oil” só se dará daqui algumas dezenas de anos, pelo menos, e mesmo depois disso continuará a haver petróleo.
      De qualquer forma, mesmo admitindo que isso viesse a ocorrer, a humanidade, através da ciência e da tecnologia, iria encontrar outra forma de energia para substituir o petróleo.

      • é verdade. Houve descoberta que fizeram retardar o pico. Em 2006, tudo indicava que ele chegaria em 2007, mas agora tal foi adiado.
        Contudo, atenção… o maior produtor mundial (a Arábia Saudita) já o tocou e as novas descobertas são quase todas a altas profundidades oceânicas, com altos custos de exploração!

  6. Fenix

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