O mistério da Estátua Equestre da Ilha do Corvo

Ponta do Marco, na ilha do Corvo (http://www.visitazores.com)

Ponta do Marco, na ilha do Corvo (http://www.visitazores.com)

O humanista Damião de Góis na “Crónica do Príncipe Dom João II”, em 1567 escreve que “numa das ilhas mais extremas dos Açores, no alto de um monte, encontrou-se uma estátua de pedra, assente numa base quadrada que lhe servia de embasamento, representando um homem a cavalo, coberto com um manto mas com a cabeça descoberta (…). Com a mão esquerda agarrava as crinas do cavalo e o braço direito tinha-o estendido e com o dedo indicador apontava o Ocidente.” Dom Manuel I pediu a Duarte de Armas para desenhar a estátua e mandou-a trazer para Lisboa, mas perderam-se o desenho e as peças da estátua.”

Fonte:
Lugares Inesquecíveis de Portugal
Paulo Loução
Eranos

Infelizmente, não restam provas físicas desta interessante estátua… Pode obviamente tratar-se de um mito, de uma espécie de alegoria simbólica erguida por Damião de Góis à saga portuguesa dos Descobrimentos, como se a estátua equestre (símbolo de “conquista”) apontando para ocidente indicasse o Mar Oceano, apontando caminho aos  navegadores.

Existe também a possibilidade de que se trate de um verdadeiro testemunho de navegações passadas… Foram encontradas moedas romanas na Venezuela, existem inscrições lapidares pseudo-fenícias nos EUA e no Brasil e sabe-se que os fenícios mantinham uma feitoria no Marrocos atlântico… Ou seja, os antigos (fenícios, romanos e cartagineses) navegavam no Atlântico e é muito plausível crer que algumas embarcações tenham sido desviadas das suas rotas e levadas até às Américas, onde teriam deixado estes testemunhos.

Mas a estátua equestre não pode ser o testemunho de qualquer malogrado naufrágio. A sua colocação no “alto de um monte, sob uma base quadrada” indicaria uma intenção muito concreta, um plano e um objetivo, algo que não estaria certamente nas prioridades de desafortunados náufragos para aqui abandonados por qualquer tempestade. Mas se a sua colocação era intencional, então que intenção seria esta? Se houvesse uma colónia permanente, a estátua poderia ser um dos seus pontos focais. Mas porque fundar uma colónia na ilha mais longínqua dos Açores? Um grupo de exilados? Na verdade, existe um outro indicio da provável presença de exilados cartagineses no Corvo… Um grupo de moedas cartaginesas encontradas num pote enterrado numa ruínas semidestruídas no século XVIII numa praia não identificada da mesma ilha açoriana do Corvo. Não há indícios de que os dois achados se encontrassem perto um do outro, mas esta “ruína” indicia um qualquer tipo de habitação ou colónia permanente.

Teria assim a ilha do Corvo sido povoada por exilados cartagineses? Refugiados da ultima Guerra Púnica, aquela de “Delenda Cartago” e que levou à destruição total dessa outrora orgulhosa urbe naval e mercantil às mãos das legiões de Roma? A tese é plausível e fascinante…

Por fim, deixamos aqui uma questão: a estátua equestre há muito que se perdeu… Mas a base quadrada ficou muito provavelmente no tal “alto de um monte”… Um monte que não deveria estar muito longe dos primeiros pontos onde aportaram os primeiros exploradores do Corvo e provavelmente não longe de uma praia (aquela onde se encontraram as moedas). Será que ainda hoje é possível encontrar esta base e assim, validar esta lenda?…

Note-se que o local que a tradição indica ser o da estátua (a “Ponta do Marco”) não merece muita credibilidade pela inacessibilidade do local e porque a associação entre a estátua e este local – geograficamente impressionante – resulta de uma eventual semelhança das formações rochosas com a estátua de um cavaleiro, algo improvável, porque o relato de Damião de Góis exclui essa possibilidade e é alias bem claro ao referir que a estátua teria sido levada para Lisboa, algo que certamente não aconteceria com uma “formação rochosa”, por curiosa que fosse…

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Categories: História, Mitos e Mistérios, Os Descobrimentos Portugueses, Portugal | 4 comentários

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4 thoughts on “O mistério da Estátua Equestre da Ilha do Corvo

  1. Fenix

  2. Sobre as supostas inscrições fenícias no Brasil eu conheço as da Pedra da Gávea, mas não sabia da suposta existência das mesmas nos EUA, esse é o tipo de coisa interessante, também vale lembrar-se de um certo vilarejo que desapareceu no Canadá nos anos 30, É bom ver temas interessantes como esses no blog.

    http://orebate-cassioribeiro.blogspot.com.br/2008/05/os-mistrios-da-pedra-da-gvea.html

    http://inconscientecoletivo.net/a-verdade-sobre-o-misterio-do-lago-anjikuni/

  3. Fenix

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