Adriano Moreira: “Será realista falar na divisão entre duas Europas, a Europa rica do Norte, com a Alemanha como ponto de referencia principal, e a pobre mais representada, nesta data de crise, pela Grécia, Portugal, e Espanha?”

Revista Nova Águia

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“Será realista falar na divisão entre duas Europas, a Europa rica do Norte, com a Alemanha como ponto de referencia principal, e a pobre mais representada, nesta data de crise, pela Grécia, Portugal, e Espanha?”

Na verdade, não. Como justamente escreve o mais recente “prémio personalidade Lusófona” do MIL, Adriano Moreira, não só não era justo, mas hoje, países bem menos “periféricos” e “pobres”, como a Espanha, a Itália e até a Áustria e a França estão hoje também mesmo no centro da tempestade, sendo massacrados pelas agências de Rating e pelos anónimos “mercados”.

“Pelo que subitamente parece que as contribuições que referi, com omissões, para o património imaterial da Humanidade, são ensombradas, pela visão menos lisonjeira, vinda do Norte. A Chanceler Merkel, que parece convencida de ter refeito o seu império ao Norte, não apenas pelo exemplo de criatividade e trabalho do seu povo, mas também pela generosidade dos ocidentais que ganharam a II Guerra Mundial, dispensaram gerações de alemães de despesas militares, aguentaram a liberdade da Alemanha Ocidental, criaram as condições de reunificação depois da queda do Muro de Berlim em 1989”

A Alemanha e os alemães de hoje (sim, porque as posições de Merkel representam apenas aquilo que pensa a maioria dos alemães) são acima de tudo ingratas. Esquecem desde logo que os países vencedores da Alemanha a dispensaram de pagar as compensações pelas perdas materiais e humanas terríveis que as divisões alemãs provocaram por todo o continente. As pontes, fabricas, empresas, portos, etc, etc, destruídas ou transferidas para a Alemanha nos países ocupados pelo Reich nunca foram compensados! A Grécia, em particular, viu o seu pais completamente destruído pelo invasor alemão, o ouro do seu Banco Central saqueado e enviado para Berlim e não foi compensada por estas perdas… Mas hoje tem que aturar a intolerância e incompreensão germânicas.

“permitiu-se arriscar um conceito de identificação dos povos do Sul abrangidos pela fronteira da pobreza, dentro da crise global financeira e económica. No fundo viu-nos preguiçosos e amantes dos lazeres, dos feriados, subsídios, sol e férias, desejosos de reformas precoces sem perda de juventude, e parece animada por um criado novo diretório, já por vezes tentado sem êxito, e que seria o fim do processo europeu dos fundadores do movimento de unidade.”

Esta visão que detêm a maioria dos alemães sobre os países do sul são profundamente racistas e reveladoras da natureza agressiva e xenófoba que apenas a má consciência da Grande Guerra mascarou durante algumas décadas. É esta opinião muito generalizada no norte da Europa que está na base da convicção dos norte-europeus de que o sul não é capaz de se governar a si mesmo e carece da tutela colonial-imperial para procurar aceder a um simulacro diminuído dos Estados prussianemente organizados do norte. Obviamente, estão errados e este erro desenvolveu-se no terreno da ignorância histórica e do autismo cultural. Mas está lá e não pode ser negado.

Fonte:
As Culturas dos Povos do Mediterrâneo
Adriano Moreira
Nova Águia, número 8

Categories: Lusofonia, Movimento Internacional Lusófono, Política Internacional, Política Nacional | 2 comentários

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2 thoughts on “Adriano Moreira: “Será realista falar na divisão entre duas Europas, a Europa rica do Norte, com a Alemanha como ponto de referencia principal, e a pobre mais representada, nesta data de crise, pela Grécia, Portugal, e Espanha?”

  1. Enoque

    Clavis Prophetarum,
    “Será realista falar na divisão entre duas Europas, a Europa rica do Norte, com a Alemanha como ponto de referencia principal, e a pobre mais representada, nesta data de crise, pela Grécia, Portugal, e Espanha?”
    -Na minha opinião, não! Não é realista. Assim como não é realista a divisão do Novo Mundo em “América Anglo-Saxônica” e “América Latina”. A diversidade é muito maior. No caso europeu, há países mais “pobres” do que Portugal, Espanha e Grécia. A Bulgária, a Romênia e a Albânia são três exemplos. E a Espanha é a 4ª maior economia da Europa em termos de PIB.
    “A Chanceler Merkel, que parece convencida de ter refeito o seu império ao Norte…”
    – Pois ela que tome cuidado com tal idéia, caso realmente pense assim. Os povos do norte da Europa vizinhos da Alemanha não costumam gostar de ser submissos.
    “A Alemanha e os alemães de hoje (sim, porque as posições de Merkel representam apenas aquilo que pensa a maioria dos alemães) são acima de tudo ingratas. Esquecem desde logo que os países vencedores da Alemanha a dispensaram de pagar as compensações pelas perdas materiais e humanas terríveis que as divisões alemãs provocaram por todo o continente…”
    – Meu querido CP. 🙂 Os aliados ocidentais não penalizaram a Alemanha, a Itália e o Japão como normalmente fariam, é porque a experiência do Tratado de Versalhes em 1919 mostrou quais seriam as possíveis consequências. A penalização que a Alemanha sofreu pelo que causou na 2ª Guerra Mundial foi a humilhação de ser divida em dois países inimigos entre si, além de ter perdido território para a Polônia e URSS. Para quem está do lado dos que foram oprimidos, foi leve até demais. Mas para um alemão nacionalista, foi humilhante demais.
    E a punição ao Japão foi os EUA terem jogado as duas bombas atômicas.
    Mas os Alemães provavelmente não consideram necessidade de “gratidão” àqueles que destruíram o 3º Reich, destruíram o sonho alemão. Facilitar a recuperação e o desenvolvimento da Alemanha é “mais do que a obrigação” dos aliados, na mente de um Alemão comum, eu acredito. Provavelmente, eles não se sentem na obrigação de dever gratidão à ninguém.
    “Esta visão que detêm a maioria dos alemães sobre os países do sul são profundamente racistas e reveladoras da natureza agressiva e xenófoba… É esta opinião muito generalizada no norte da Europa que está na base da convicção dos norte-europeus de que o sul não é capaz de se governar a si mesmo e carece da tutela colonial-imperial…”
    – Mas a cerca de 2000 anos atrás aproximadamente, enquanto os do norte viviam como “bárbaros”, os do sul já conheciam a civilização, e lá estava o mais importante império da história da humanidade, lá estava o berço da civilização ocidental. Os Alemães e adjacências são o que são porque foram aculturados pelas civilizações em torno do Mediterrâneo (Romanos, Helênicos e Hebreus). Que eu saiba, nem os Alemães, nem os Holandeses, nem os Finlandeses e outros por ali escrevem seus idiomas com as runas. Escrevem com o alfabeto romano e números indo-arábicos. E tal sistema de escrita permitiu o registro de conhecimento para terem as tecnologias avançadas que hoje têm, e o sistema de leis que regem o Estado e a sociedade. Os do norte terem sentimento de “racismo” contra os do sul só pode ser piada, porque os europeus do sul são raça branca, são indo-europeus. Xenofobia, até é possível. Mas racismo, é para rir deles, dos do norte.

  2. A história é cíclica e deveremos aprender com ela, no caso da Alemanha a história sempre disse que este país nunca seria líder pelo menos político da Europa ocidental e de facto a Alemanha estando neste momento talvez no seu ponto mais alto a nível económico, revela uma incapacidade atroz para resolver politicamente o problema europeu, falta de jeito apenas.
    Ao contrário Portugal que se apresenta débil mais do que nunca economicamente, tem condições para encetar manobras políticas a nível europeu e não só para mudar o curso do panorama político e na forma como se deve pensar a política europeia, introduzindo na equação europeia a constante universalista.
    Ou seja enquanto a Alemanha anda preocupada com a Europa das mercearias e os ingleses preocupados com eles próprios, nós com vista para o Atlântico e para o mundo deveremos dar um novo impulso e redireccionar a Europa, estendendo-a e dotando-a de uma função de charneira no mundo através de Lisboa.

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