António Marques Bessa: “Virar as costas ao mar foi uma decisão desastrosa e cega”

António Marques Bessa (http://farm3.static.flickr.com)

António Marques Bessa

“Virar as costas ao mar foi uma decisão desastrosa e cega. Com um triângulo estratégico importante, com pólos nos Açores, Madeira e território Continental, com uma zona exclusiva invejável, a política orientou-se para minimizar essa vantagem natural, acabar praticamente com a sua frota de pesca, financiar minimamente a Marinha de Guerra, portanto, retirar capacidade de fiscalização de pescas ilegais e mesmo de protecção aos poucos navios ainda em operações. A obliteração desta dimensão marítima e da vida costeira, segundo o teórico almirante Mahan, enfraquece os países e retira-lhes maritimidade. Será pena se esta orientação continuar, porque não há espaços geopolíticos vagos no mundo: quem sai é substituído.”

António Marques Bessa
As Grandes Linhas da Política Externa Portuguesa nos Últimos Anos
Finis Mundi, número 3

Portugal está em crise. Não somente numa crise financeira, moral e económica, mas também numa crise de desígnios estratégicos. Perdido o Império, esquecido o Mar que ligava a metrópole às colónias dispersas pelo mundo fora, Portugal julgou ter encontrado novo rumo através de uma adesão entusiástica à União Europeia.

Mas a União Europeia é apenas uma pálida e deturpada amostra daquilo que o projeto europeu prometia em meados da década de oitenta. Destituída de vigor e dinamismo, a União Europeia deixou-se transformar numa rede clientelar e empregos para boys, com instituições sem poder real e sem competências concretas, como o Parlamento Europeu ou a Comissão Europeia. Sem autoridade nem meios (o orçamento da CE è de menos de 1% do PIB europeu), a União deixou-se tornar no palco onde os germânicos ensaiam os primeiros passos do seu regresso à imperial ribalta europeia.

Perdido que está o sonho europeu, Portugal deve eleger novo rumo estratégico de longo e fundo prazo. Esse rumo só pode passar pelo reavivar dos seus laços económicos e culturais com os povos de fala lusófona e pela reconstrução do seu tecido económico, recusando o papel terciário que para nós desenharam os “herrenvolk” do norte da Europa e fazendo assentar numa plena e ambiciosa economia do mar (pescas, transportes, portos, energia e recursos minerais) a recuperação de Portugal.

Categories: Política Nacional, Portugal | 6 comentários

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6 thoughts on “António Marques Bessa: “Virar as costas ao mar foi uma decisão desastrosa e cega”

  1. Enoque

    “Virar as costas ao mar foi uma decisão desastrosa e cega”
    Concordo com isso. Virar as costas para o mar é uma decisão desastrosa e cega.
    “Mas a União Europeia é apenas uma pálida e deturpada amostra daquilo que o projeto europeu prometia em meados da década de oitenta. Destituída de vigor e dinamismo, a União Europeia deixou-se transformar numa rede clientelar e empregos para boys, com instituições sem poder real e sem competências concretas, como o Parlamento Europeu ou a Comissão Europeia. Sem autoridade nem meios (o orçamento da CE è de menos de 1% do PIB europeu), a União deixou-se tornar no palco onde os germânicos ensaiam os primeiros passos do seu regresso à imperial ribalta europeia.”
    Mas, quem garante que o caminho lusófono também não seguirá o mesmo destino, ou a um destino semelhante? Que certeza temos nós de que a União dos Países de Língua Portuguesa vai ser bem sucedida? Será que não existe a possibilidade de falhar? E será que o projeto europeu realmente está acabado?
    “Perdido que está o sonho europeu…”
    Será que a Europa não encontrará uma saída sem precisar desfazer a UE? Será que está mesmo perdido?

    • Se a uniao (ou “comunidade”) lusofona nao for radicalmente (no mais pleno sentido desta palavra) diferente daquilo que é hoje a UE entao nao merece o esforco de a criar.
      Tem que ser tudo o que UE nao quis, ou nao pôde, ser: solidaria, paritaria, fraterna e assente mais em valores culturais e eticos do que financeiros e economicos.
      A UE nao está ainda “acabada”, mas esta em fase critica, de mutacao profunda e daqui a dois anos sera totalmente diferente do que era antes de 2008… Por dar para qualquer lado, pelo que se sabe hoje: para a dissolucao pura e simples, para o expurgo de todos os paises “impuros” do sul, para uma federacao dominada pela germania, etc.
      Na pratica, ninguem sabe… Nem eu. Mas sei que modelos alternativos para uma estrategia de longo prazo para Portugal estarao cada vez mais na agenda. E a Lusofonia surge aqui, naturalmente, em grande destaque.

      • Enoque

        Clavis Prophetarum,
        para mim, você tem perfil de professor universitário. 😉

        “Se a uniao (ou “comunidade”) lusofona nao for radicalmente (no mais pleno sentido desta palavra) diferente daquilo que é hoje a UE entao nao merece o esforco de a criar.
        Tem que ser tudo o que UE nao quis, ou nao pôde, ser: solidaria, paritaria, fraterna e assente mais em valores culturais e eticos do que financeiros e economicos.”
        R:Eu neste momento, desejo que você venha morar no Brasil por pelo menos um ano. Eu queria muito poder lhe dar um excelente emprego com um excelente salário para que você vivesse no Brasil por pelo menos um ano. Seja no Nordeste, seja em São Paulo (capital ou litoral ou interior), seja no Rio de Janeiro (capital ou outra cidade menor do litoral ou interior), seja em Minas Gerais, seja na região da Amazônia, seja no Sul ou em Brasília. Onde você quisesse. Não importa a sua idade. Para que você conhecesse de perto como é a sociedade brasileira, como é realmente o Brasil, e depois você faria uma melhor avaliação sobre ser viável ou não uma união lusófona que inclua o Brasil. Aliás, você já morou no Brasil? Eu acredito que não, mas se você já tiver vivido no Brasil, então eu lhe peço desculpas. 🙂
        O motivo é para você conhecer a sociedade brasileira de perto, os seus valores, a sua visão sobre o mundo, sobre a realidade, sobre a vida…

        • Nao, de facto, conheco (mal) Africa mas nao o Brasil, embora conheca bastantes amigos brasileiros… O que é uma forma de tambem conhecer o Brasil, penso eu de que…
          Por enquanto a imigracao é para mim uma opcao fora de equacao: ainda tenho emprego e numa funcao de responsabilidade.
          Mas gostaria muito de conhecer e ate viver no Brasil… Nao fosse a vida tao dificil (e incerta) aqui em Portugal colocaria a hipotese de uma viagem turistica ao Brasil este ano. A imigracao depende do andamento da minha empresa… é que todos os nossos clientes sao internos (nao exportamos) e com o mercado interno como está…

          • Enoque

            “Nao, de facto…nao o Brasil, embora conheca bastantes amigos brasileiros… O que é uma forma de tambem conhecer o Brasil, penso eu de que…”
            R: Vou lhe dar um conselho. Não se baseie nas novelas brasileiras e nem nos emigrantes brasileiros que estão na Europa para avaliar o perfil dos brasileiros que vivem no Brasil. Porque distorcem a realidade. O perfil do brasileiro emigrante, da maioria dos que emigram, normalmente costuma ser de extremos. Ou é de indivíduos que odeiam o Brasil e querem vida fácil, querem que as coisas caiam do céu para eles, de pessoas imorais sem princípios, ou é de mão de obra especializada, gente culta que produz. Existem os brasileiros emigrantes que não são especializados porém respeitam princípios, têm educação familiar boa, têm bons modos, mas não são muitos. Sou preconceituoso? Não me acho! Eu avaliei a emigração de brasileiros para outros países. Já conversei com um brasileiro que voltou da Europa reclamando, e de repente ele admitiu sem a mínima vergonha que estava ilegal. Aí, meu amigo, eu não tenho como tomar as dores dele. 😦

            • “R: Vou lhe dar um conselho. Não se baseie nas novelas brasileiras e nem nos emigrantes brasileiros que estão na Europa para avaliar o perfil dos brasileiros que vivem no Brasil.”

              – nao me baseio nas novelas! 🙂 isso é a minha sogra e mae que seguem, Enoque, nao eu! 🙂 a ultima que vi acho que foi mesmo a do “sinhozinho malta” ah, e o “sai de baixo”, mas isso nao é bem uma “novela”, certo?…

              ” Porque distorcem a realidade. O perfil do brasileiro emigrante, da maioria dos que emigram, normalmente costuma ser de extremos. Ou é de indivíduos que odeiam o Brasil e querem vida fácil, querem que as coisas caiam do céu para eles, de pessoas imorais sem princípios, ou é de mão de obra especializada, gente culta que produz. Existem os brasileiros emigrantes que não são especializados porém respeitam princípios, têm educação familiar boa, têm bons modos, mas não são muitos. Sou preconceituoso? Não me acho! Eu avaliei a emigração de brasileiros para outros países. Já conversei com um brasileiro que voltou da Europa reclamando, e de repente ele admitiu sem a mínima vergonha que estava ilegal. Aí, meu amigo, eu não tenho como tomar as dores dele. :(”

              Sao pessoas da diaspora brasileira. Muito trabalhadores, tecnicos de TI, na maioria, mas extremamente criticos com a gestao Lula e Dilma… Facto que tenho sempre que “dar o desconto”, quando os oico! Gente que tenha vindo recentemente, nao, de facto nao conheco. Mas a sensacao que temos ca é que os emigrantes brasileiros que chegaram a Portugal desde 2007-2008 têm vindo de estratos sociais e economicos mais baixos que as vagas anteriores. E alguns estao ligados a gangs criminosos, infelizmente, e isso tem contribuido para a erupcao recente de algum racismo anti-brasileiro em Portugal, admito-o com nao pouca preocupacao.

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