Nicolau Santos: Crítica à venda da participação do Estado à chinesa Three Gorges

“(A venda da EDP à Three Gorges) é um erro estratégico, em primeiro lugar por causa do rompimento de uma orientação consensual de três décadas entre os partidos do arco governativo: a Europa é a nossa casa, os Estados Unidos o amigo fiel e o triângulo Portugal, Brasil, ex-PALOP (com destaque para Angola) o espaço onde podemos valorizar as nossas especificidades e diferenças face aos outros 192 países que existem no planeta. Ora até agora nunca a China fez parte dessa orientação, nem se descortina porque boas razões deve passar a fazer.”

Na verdade, a privatização da EDP não passou de um “golpe de mão” alemão que falhou. As privatizações até podem fazer algum sentido no contexto da redução das despesas do Estado se a empresa a privatizar apresenta de forma crónica e continuada, prejuízos. Mas é absurda no caso da EDP e da REN, empresas lucrativas e que representavam um significativo proveito para um Estado cada vez mais empobrecido. Obviamente, a sua privatização resultou das pressões alemães para que as elétricas nacionais fossem vendidas à elétrica alemã, a E.On. Mas os chineses estragaram o arranjo aparecendo – cheios de Cash como estão – com uma proposta financeira imbatível e estragaram a jogada germânica para engolirem as duas lucrativas empresas portuguesas.

“Em segundo, as empresas chinesas não são conhecidas por respeitar as regras ambientais, nem os direitos dos trabalhadores, nem a propriedade inteletual. Por isso, o que tem a ganhar a EDP com o novo acionista, a não ser promessas de linhas de financiamento com abundância?”

E promessas que podem perfeitamente não serem cumpridas… Todos nos recordamos das famosas contrapartidas dos contratos dos Submarinos ou das Pandur e da forma inepta (ou mesmo corrupta) com que os fornecedores (também germânicos, curiosamente) se furtaram a cumprirem as suas obrigações e, sobretudo, da incapacidade do Estado para fazer valer os nossos Direitos. Não é, de todo, provável que agora, com a Three Gorges, o Estado consiga exercer eficazmente a vigilância e resposta em caso de incumprimento… Pelo menos a avaliar pelos exemplos precedentes.

“Em terceiro, a Three Gorges é sobretudo uma empresa ligada à construção e exploração de barragens, onde a engenharia da EDP detém uma sólida base de conhecimentos. Mas na área das energias renováveis, onde a eléctrica portuguesa ocupa a terceira posição a nível mundial, são os chineses que têm tudo a aprender com a EDP. A aprender e, não nos espantemos, a copiar – e sem pagar. O futuro o dirá.”

Por muito dinheiro que os chineses tenham pago pela participação do Estado na EDP, continuamos a ter na mesa uma quantidade que não cobre nem metade da quantidade de dinheiro que Portugal tem que ir buscar num ano ao estrangeiro, sob a forma de empréstimos aos Mercados. Vender a EDP (e a REN) não vai resolver nenhum problema estrutural com a nossa Despesa, apenas reduzir a Receita. E de permeio vamos perder know-how e o controlo estratégico de uma das empresas mais importantes para o país e para a nossa presença no globo. Se a EDP deixar de ser um agente de Portugal no mundo lusófono para ser aqui substituída pela Three Gorges e pelos seus chineses, como sucederá certamente agora no Brasil e em África, então é Portugal que perde também influencia e presença no mundo.

“Em quatro, devemos interrogar-nos se faz algum sentido que o Estado português esteja a privatizar empresas publicas ou com participação pública para as entregar às empresas estatais de outros países.”

Das duas, uma: ou uma elétrica não deve pertencer à esfera das participações do Estado, porque se entende que deve pertencer aquele domínio que os Privados sabem gerir com mais eficiência e qualidade e ai ser privatizada, ou então pensa-se de forma diversa e se acredita que há setores económicos onde o Estado deve manter uma presença ativa por forma a preservar a sua intervenção, controlo e assegurar algum certo tipo de serviços públicos. Mas se assim é, todos os “Estados” são iguais uns aos outros, e o “Estado” chinês ou alemão não é melhor que o português e, se assim é, tal empresa estratégica deve permanecer sob controlo português. A este termo, também, esta venda é um erro colossal.

Fonte:
Nicolau Santos
Expresso, 30 dezembro 2011

Categories: Economia, Política Nacional, Portugal | 12 comentários

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12 thoughts on “Nicolau Santos: Crítica à venda da participação do Estado à chinesa Three Gorges

  1. paulo pires

    Há uma coisa que ainda não consegui entender sobre essa ” negociáta ” entre o Governo Português e a empresa chinesa Three Gorges , os chineses compraram a EDP , mas pelo o que sei mais de 90% da energia electica produzida em Portugal é produzida a partir das barragens , estando essas sobre a salvaguarda do estádo , portanto , sem as barragens não há luz e os chinos ficam a arder com o seu negócio . Esta negociata está muito mal explicada .

    • Nao sera sempre 90… Depende da pluviosidade anual. Nao conheco os limites dessa “clausula de salvaguarda”, admito, mas duvido que sejam suficientes para manter no Estado algum tipo de poder, ja que esta venda é mesmo uma cedencia a toda a linha dos seus interesses (e mal) neste setor estrategico.

  2. Compraram cerca de 20% do capital da EDP e que pertencia ao Estado Português.

    • Exatamente. Mas nao tem controlo acionista, a menos que estabelecam uma alianca com outros acionistas, como o BES (o que parece alias estar a acontecer)

  3. Imagino que essa Privatização não foi muito discutida por muitos meios de mídia no seu país Clavis.

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