António Barreto: o Estado da Medicina Pública em Portugal (entrevista)

António Barreto (http://www.ffms.pt)

António Barreto (http://www.ffms.pt)

“É necessário que o poder político tenha mais firmeza sobre os lóbis e não tem tido há 30 anos. Temos de olhar para os custos. Por exemplo, um bloco cirúrgico deve trabalhar 14 horas por dia e a maioria em Portugal trabalha cinco ou seis porque os médicos estão em duplas funções. Há promiscuidade, não há controlo suficiente sobre o trabalho e há pouca dedicação exclusiva nos hospitais públicos.”

> nesta entrevista, António Barreto desfere algumas farpas certeiras contra uma das mais poderosas e privilegiadas corporações da sociedade portuguesa: a dos Médicos. Sem dúvida que existem nos (falidos) hospitais públicos muitas anomalias com médicos que usam as consultas no sistema público como “captação” de clientes-pacientes para os seus consultórios e hospitais privados. Sem duvida que existem muitos casos de incumprimento de horários e de uso de meios públicos para interesses privados. E que estes abusos (protegidos pela Corporação) têm que acabar.

“Mas muitos especialistas dizem que o SNS está a ficar depauperado…
– É um mito urbano. É verdade que há casos de hospitais privados que contrataram dezenas de médicos do sistema público. Mas dado que o nosso número de médicos é superior à média dos outros países; é minha convicção absoluta que se os médicos trabalharem em exclusivo no privado ou no público não existirá problema. Esse rumor é defendido por quem quer manter a promiscuidade e ter dois empregos em full-time.”

– A dedicação em exclusividade é portanto uma das saídas para a atual insustentabilidade financeira do SNS. Só médicos em regime de exclusividade se poderão dedicar por completo aos doentes que mais deles precisam, sem estarem permanente conflito de interesses com a sua clínica privada, nem sob permanente tentação de abuso dos equipamentos públicos ou de captação de doentes. Em termos financeiros, a obrigação de existirem apenas médicos em exclusividade, pode também representar uma poupança significativa, já que em médicos em regime “livre” na verdade acabam geralmente por apresentar uma produtividade muito baixa e são pouco mais que um peso morte no pesado orçamento do SNS.

“Mas nao há sinais preocupantes, por exemplo, a nível dos transplantes, quando o ministro diz que, se calhar; não há riqueza para manter os números atuais?
– Porque é que damos de barato que para se fazerem transplantes tem de se pagar mais aos médicos? Porque é que os médicos não estão disponíveis para so receberem metade em incentivos?”

– é verdade que Portugal graças a esta política de incentivos muito generosos aos transplantes está nessa área muito à frente da maioria dos países ocidentais, em termos de médias de transplantes por cada mil habitantes. Mas é igualmente verdade que alguns médicos enriqueceram de forma ostensiva e escandalosa por cumprirem aquela que é afinal a sua missão e a razão do seu emprego: salvar vidas! Compreende-se que existam prémios de desempenho e incentivos no sistema publico de saúde, mas os valores dos mesmos, nas áreas de transplantes, passavam todos os limites, especialmente dada a critica situação do país!

“Os falsos atestados médicos. Há milhares passados todos os dias e não há processos. Perdem-se milhões de dias de trabalho.”

– Ninguém sabe (obviamente) quando dinheiro e horas de trabalho se perdem anualmente em baixas fraudulentas. Elas não sendo exclusivas do funcionalismo e das empresas publicas são efetivamente mais comuns aqui, explicando boa parte do elevado absentismo aqui registado. Atualmente, o processo de verificação assenta em inspeções ao estado real de saúde do doente. De futuro, seria desejável, que se estendesse também aos clínicos que passam baixas acima da media ou cujas baixas sejam recorrentemente identificadas como fraudulentas nas inspeções…

Fonte:
Expresso, 8 de outubro de 2011

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Categories: Política Nacional, Portugal, Sociedade Portuguesa | Deixe um comentário

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