Daily Archives: 2011/12/23

Pedro Nuno Santos e a “bomba atómica” da Bancarrota

Pedro Nuno Santos (http://www.ps.parlamento.pt)

Pedro Nuno Santos (ps.parlamento.pt)

Recentemente, muita celeuma foi criada quando Pedro Nuno Santos, vice-presidente do grupo parlamentar do PS, disse que Portugal devia ameaçar com a “bomba atómica” da suspensão do pagamento da dívida externa por forma a conseguir recolher da Troika melhores condições de ajustamento financeiro. Sendo muito direto, o deputado socialista afirmou que “Estou marimbando-me para os bancos alemães que nos emprestaram dinheiro nas condições em que nos emprestaram. Estou marimbando-me que nos chamem irresponsáveis. Nós temos uma bomba atómica que podemos usar na cara dos alemães e dos franceses. Ou os senhores se põem finos ou nós não pagamos a dívida”.

As palavras (e o tom) podem ser excessivos, mas não andam nem perto de metade daquilo que já escrevi aqui sobre os credores da nossa dívida… E o que diz o deputado socialista é factual: num incumprimento ou bancarrota, quem perde mais é sempre o credor, não o devedor. É certo que tal opção implicaria o afastamento total dos mercados da dívida durante um prazo nunca inferior a dez anos (observando o caso argentino), e que o ajustamento seria mais brutal do que pela via atual, via dinheiro da UE e do FMI, seria também certo que haveria necessidade de reduzir rapidamente e de forma radical as despesas com salários da função pública e pensões, com despedimentos e redução de pelo menos 50%, mas a prazo haverá outra opção? Sim, a de recolocar a economia a crescer pelo menos 2% ao ano até 2020. Mas como o fazer com um pesado serviço da divida e com as politicas de austeridade impostas pela Troika?…

Fonte:
http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=525585

Categories: Economia, Política Internacional, Política Nacional, Portugal | Deixe um comentário

Sobre o interessante movimento “Provo” na Holanda da década de 60

White Bycicle Plan (http://georgemckay.org)

White Bycicle Plan (http://georgemckay.org)

Em época de contestação social em ascensão e espelhada nos EUA pelos movimento “Occupy”, na Europa pelos movimentos de “Indignados” e no mundo Árabe pela “Revolta Árabe” importa utilizar uma ferramenta caída em desuso nos últimos anos: a Memória Histórica e recordar-nos de um dos movimentos contestatários mais interessantes do século XX: o Movimento Provo.

O Movimento Provo nasceu na Holanda, em meados da década de 60. As suas influências radicam no Movimento Hippie Nozem e no próprio – mais difuso – Movimento Hippie. O provo foi fundado oficialmente a 25 de maio de 1965 por um quarteto formado por Robert Jasper, um filósofo e conhecido ativista anti-tabaco, pelo artista plástico Rob Stolk e Roel van Duyn, inteletuais conotados com o Anarquismo. O empresário e inventor Luud Schimmelpennink é também associado em algumas fontes à fundação dos Provos. O movimento empenhava-se particularmente em desafiar todo o tipo de autoridade, mas focava as suas atenções na polícia e na monarquia holandesa, que foi desde o seu princípio, até ao fim, o seu principal alvo.

O termo “Provos” pode ser encontrado numa dissertação do filósofo Wouter Buikhuisen de 1965 onde descreveu a ação de “jovens causadores de problemas, os provos”. O grupo foi sempre mais ativo na cidade de Amesterdão, cidade onde se concentravam a maior parte das suas atividades e das suas reuniões, as quais tinham geralmente lugar em cafés de Jazz.

Segundo o manifesto Provo, escrito em 1965: “Os Provos escolheram entre a resistência desesperada ou perecer de forma apática. Os Provo sabem que eventualmente serão perdedores, mas não vão deixar escapar a última oportunidade de incomodar e provocar as bases mais profundas desta sociedade. Os Provos encaram o anarquismo como uma fonte de inspiração para resistirem. Os Provo queriam renovar o anarquismo e torná-lo mais bem conhecido junto da juventude.”

Embora exista uma data “oficial” de fundação, um manifesto e uma liderança mais ou menos incontestada, a verdade é que os Provos eram fundamentalmente anarquistas: Não tinha existência formal. Não realizam reuniões ou encontros formais, não tinham uma estrutura ou organização formal, nem sequer “listas” de membros ou simpatizantes. Todas as suas decisões eram tomadas em conjunto, por votação de todos os indivíduos que estavam presentes. Esta desorganização anárquica espantava muito as forças policiais, que até à sua extinção formal sempre acreditaram que existia uma “direção secreta” com uma correspondente cadeia de comando, algo, que de facto, os Provo nunca tiveram, nem quiseram ter…

O principal objetivo era o ataque à autoridade. Fortemente republicanos, na monarquia holandesa apontaram baterias ao rei e à rainha. As cerimónias reais eram um dos seus alvos favoritos sendo a sua intervenção no casamento real da Princesa Beatrix com Claus von Amsberg, especialmente detestado pelos Provos devido ao seu passado como membro de organizações juvenis nazis como a Deutsches Jungvolk e da Juventude Hitleriana, mais tarde em 1944 serviria na 90ª Divisão Panzergrenadier em Itália. Para perturbar o casamento, os Provos puseram a correr o rumor de que teriam contaminado a água pública da cidade com LSD e que os cavalos da carruagem real teriam sido drogados. Obviamente, nenhum dos alertas era verdadeiro, mas a confusão que geraram nas forças da ordem foi muito notável… Não satisfeitos, fizeram correr a notícia de que a Rainha Juliana (mãe de Beatrix), se confessava anarquista e que estava a negociar a transferência do poder para os Provo. Estes rumores faziam parte de um plano, o “Plano do Rumor Branco” e foram a razão pela qual o exército teve que enviar 25 mil homens para guardarem o casamento real. Apesar deste contingente, vários militantes Provo conseguiram infiltrar-se na multidão que assistia ao casamento e lançar bombas de mau cheiro. A polícia reagiu violentamente e carregou sobre a multidão, transformando o casamento numa imensa confusão. Nas semanas subsequentes, a reação exagerada da polícia foi muito criticada, conseguindo assim alcançar-se o objetivo inicial dos Provo: denegrir a imagem das autoridades.

Um dos textos programáticos dos Provos descreve que o seu militante estava “contra o capitalismo, o comunismo, o fascismo, a burocracia, o militarismo, o profissionalismo (!), o dogmatismo e o autoritarismo.”

A legalização das drogas leves foi outra das principais causas dos Provos: para provocarem as autoridades, começaram a espalhar o rumor de que consumiam “chá de marijuana”, chamando de seguida a policia denunciando-se depois a eles próprios… De facto, tratava-se de inócuos chás de ervas. Em certa ocasião, um grupo de Provos alugou um autocarro e partiu para a Bélgica, mas antes telefonaram à polícia dizendo-lhe havia droga no veículo: esta intercetou o autocarro na fronteira levando consigo vários jornalistas e numa busca encontrou o que os Provos lhe diziam ser haxixe, mas que na verdade era apenas comida de cão e alguns chás de ervas perfeitamente legais.

Mas os Provos não foram apenas um movimento de contestação de rua. Chegaram a eleger cinco representantes para o concelho municipal de Amesterdão e tentaram aqui implementar uma serie de medidas muito originais e criativas a que intitularam de “Plano Branco”, que se compunham de facto, de vários “Planos Brancos” setoriais:

“Plano Bicicleta Branca”: Este foi o Plano Branco mais famoso. Concebido por Luud Schimmelpenninck em 1965, propunha a proibição total de veículos poluentes da cidade de Amesterdão e a sua substituição por bicicletas, que seriam gratuitamente fornecidas pelo município. As bicicletas seriam brancas e o uso de cadeados seria proibido, por forma a serem sempre de uso livre. O objetivo era aumentar a frequência dos transportes públicos em 40%, reduzir custos em combustíveis e a poluição urbana. Os Táxis teriam que ser substituídos por veículos elétricos e não poderiam circular a mais de 50 km/h. O Plano previa a disponibilização de 20 mil bicicletas publicas por ano. Infelizmente, a proposta foi recusada pelo município… Isso não fez desistir os Provos, que compraram eles próprios 50 bicicletas, pintaram-nas de branco e as colocaram-nas à disposição dos munícipes. A policia – contudo – confiscou as bicicletas, alegando que violavam o regulamento municipal que proibia os cidadãos de Amesterdão de deixarem bicicletas sem cadeados. Quando, por fim, as bicicletas foram devolvidas aos Provos, estes instalaram-lhes cadeados e pintaram as combinações dos mesmos nas bicicletas…

“Plano Branco das Casas”: Com a partilha de residências vazias. A especulação imobiliária seria proibida. Incluía também a transformação de uma região de Amesterdão (Waterlooplein) como um mercado livre a céu aberto e o abandono dos planos de construção de uma nova sede para o município.

“Plano Branco das Crianças”: Oferecendo Centros de Dia infantis informais gratuitos. Os centros seriam formados pela agregação de grupos de cinco casais, que depois e por turnos tomariam conta das respetivas crianças a dias diferentes da semana ou a horas diferentes do dia.

“Plano Branco das Chaminés”: Impondo impostos especiais aos poluidores e pintando de branco as suas chaminés.

“Plano Branco das Mulheres: Oferecendo cuidados médicos gratuitos a mulheres. Esta proposta rede de clínicas seria especializada em consultas de planeamento familiar, disponibilizando aconselhamento e contracetivos, com a intenção de reduzir a taxa de gravidez indesejada. O Plano defendia também a existência da Educação Sexual nas escolas.

“Plano Branco das Vítimas”: Todos os que tivessem provocado uma morte, enquanto ao volante deviam construir com as suas próprias mãos um memorial no local do acidente gravando o contorno da vitima no pavimento e preenchendo-o a tinta branca.

“Plano Branco do Carro”: Tratava-se de um projeto de partilha de automóveis proposto por Schimmelpennink. Tratava-se de disponibilizar por parte do município de carros elétricos que podiam ser usados gratuitamente pelos seus cidadãos. O projeto chegou a ser implementado de forma limitada em 1974 pelo sistema Witkar e funcionou de forma limitada até 1986. O Witkar tinha 3 rodas era pintado de branco e foi uma das primeiras aplicações do conceito de “car sharing” de sempre. O Witcar, contudo, não era gratuito, mas disponível por assinatura. A cooperativa Witkar iniciou a sua atividade em 1968, mas como nunca obteve o necessário apoio municipal nunca se tornou realmente parte do sistema de transportes públicos de Amesterdão. Ainda que de forma limitada, continuou a funcionar até 1986, quando a cooperativa declarou a sua extinção.

Porque nunca conseguiram mais do que cinco deputados municipais, nenhum destes planos viu a luz do dia. Muitos deles, contudo, foram inspiração para medidas semelhantes, noutras cidades do mundo. Por exemplo, a cidade Aveiro implementou um projeto semelhante em torno da partilha gratuita de bicicletas.

Os Provos decretaram o seu fim em 13 de maio de 1967. Não tendo conseguido o grau de impacto que ambicionavam estiveram por detrás de uma serie de iniciativas que, depois da sua extinção, se tornaram úteis a outros movimentos e até a partidos políticos. A atual tolerância holandesa para com as Drogas, deve muito à sua influencia, por exemplo. O mesmo se diga dos planos públicos de partilha de bicicletas em pratica em muitas cidades no mundo e das varias empresas de “car sharing” hoje ativas. Os provos foram também o primeiro grupo político com um grande foco no Ambiente e na Ecologia. Pela sua grande originalidade, ousadia e criativa, os Provos foram certamente um dos movimentos sociais mais interessantes do século XX e o seu exemplo e propostas continuam tão atuais hoje, como o eram na década de 60… e num contexto em que as condições para a erupção de níveis inéditos de revolta social, as suas políticas, iniciativas e propostas devem ser estudadas muito atentamente como aquilo que de facto são: Exemplares.

Fontes:
http://www.cuzproduces.com/drupal/node/116
http://www.lib.umich.edu/netherlandic-treasures/provo.html
http://en.wikipedia.org/wiki/Provo_%28movement%29
http://en.wikipedia.org/wiki/Luud_Schimmelpennink

Categories: Política Internacional, Sociedade, Sociedade Portuguesa | 1 Comentário

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