Dívida Externa e Bancarrota: As lições da Argentina e da Islândia

Portugal entrou – de facto – em Bancarrota em abril de 2011. O pedido de “ajuda” ao FMI/FEEF/BCE sucedeu em decurso desse processo, e vivemos hoje de facto, já nessa situação concecional. Portugal iludiu essa bancarrota transferindo essa dívida para uma dívida à Troika. Daqui a dois anos, quando a “ajuda” acabar, não é crível que Portugal esteja pronto para dispensar novo endividamento, nem que esteja pronto para começar a amortizar a divida anterior. Pelo contrario, em 2013 a opção de declarar bancarrota tornara a estar sobre a mesa.

Importa assim estudar o que se passou na Argentina em 2000 e 2001. O que aconteceu com a bancarrota argentina e qual é a situação atual de um país que em 2000 parecia completamente acabado?

A Grécia – depois de muita volta e revolta – acabou por conseguir um perdão de 50% da sua dívida. A Argentina em 2000 decidiu unilateralmente não pagar a sua. Os efeitos foram os mesmos, mas em escala diversa… O governo Passos Coelho mantém o discurso “politicamente correto” do “bom aluno” e recusar qualquer Incumprimento. Mas importa descartar os dogmas que nos são atirados para os olhos a partir do norte da Europa e que interessam aos banqueiros holandeses, austríacos e alemães, mas que colidem com o supremo (?) interesse nacional português.

Mas há alternativa. Há sempre o exemplo Argentino. Em 2000, o país sul-americano declarou a sua incapacidade de pagar a dívida externa de 95 mil milhões de dólares e recusou a proposta “ajuda” do FMI que a Europa impôs a Portugal. Foi o fim da economia argentina? Não. Desde então o país não tem parado de recuperar, ano após ano. Esta coragem (que faltou a Sócrates e a Passos) demonstrada pela presidente Cristina Kirschner, agora reeleita, e antes pelo seu marido, Néstor criaram as bases para uma economia saudável, prospera e resiliente. Desde 2000, o PIB cresceu 94%, muito acima de qualquer uma das economias regionais. A pobreza conheceu uma descida sem precedentes, caindo 4 pontos percentuais para 21.5%, quase o mesmo que a muito badalada economia brasileira com o seu índice de 21.4% (dados de 2009) e muito melhor que o México com os seus humilhantes 51.3%.

Cumprindo um percurso diametralmente oposto ao português, a Argentina triplicou as despesas sociais, a desigualdade de rendimentos (onde Portugal é um dos 3 piores exemplos europeus) caiu para metade. Hoje, na Argentina, os 5% mais ricos ganham 17 vezes que a media dos cidadãos. Em 2000, ganham
34 vezes.

O exemplo argentino desfaz desde logo um mito: que uma Recessão criada por uma crise financeira implica sempre uma recuperação lenta e plena de sacrifícios. Depois do incumprimento, a Argentina esteve apenas 3 meses em recessão. Portugal deverá estar pelo menos 3 anos. Com sorte. Em 2003, a economia estava já em regime de cruzeiro e assim permaneceu até aos dias de hoje.

Portugal deve assim contemplar a via argentina. E de seguida, olhar para a grega: Três anos depois da “ajuda” da Troika, a Grécia contraí a uma média de 5% por ano.

Não serei, contudo, demagogo. A via argentina deve ser ponderada, mas riscos. Desde logo, implica um afastamento automático dos Mercados financeiros por um prazo que nunca será inferior a dez anos. É também seguro que no dia em que o Incumprimento for declarado o valor real do dinheiro depositado ou investido em Fundos cairá entre 50% a 75%. Há indícios de que alguns números oficiais do governo de Buenos Aires podem estar “apimentados”, como os da inflação e é por isso mesmo que país está no top 25 do Clube da Bancarrota…

Não olhemos assim para a Argentina com uma visão excessivamente cor-de-rosa e otimista. Mas cruzêmo-lo com o algo semelhante exemplo islandês. Na Islândia, a tremenda dívida da Banca não foi absorvida pelos contribuintes. A economia também recuperou de forma robusta e estável e o desemprego está em queda depois da declaração de Incumprimento. O país investiu de novo no setor produtivo (o mesmo que Cavaco mandou desmantelar) e liberto de uma dívida impagável e do seu pesado serviço de divida pode refinanciar essa recuperação.

Daqui se conclui que alem da opção “mais dívida”, transferindo a divida externa para “dívida à troika”, sem mudar realmente o seu peso, nem a estrutura inquinada da economia, não vai resolver nada. Cedo ou tarde, chegara o momento de declarar bancarrota. E então, as lições (boas e mas) da Argentina e da Islândia têm que ser aprendidas.

Fonte:
http://economico.sapo.pt/noticias/o-que-pode-a-grecia-aprender-com-o-default-argentino_129803.html

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Categories: Economia, Política Nacional, Portugal | Etiquetas: , | 8 comentários

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8 thoughts on “Dívida Externa e Bancarrota: As lições da Argentina e da Islândia

  1. Subscrevo! …. visão não distante da de Ferreira do Amaral!

  2. Só a grande midia que está ao serviço desses vampiros financeiros é que tenta nos enganar, mas é óbvio que o que está a causar esta crise é esse sistema financeiro delirante, onde já se viu os bancos emprestarem até 300 vezes o valor que têm…e viverem apenas dos juros que cobram de algo que de verdade eles nem emprestaram. Qualquer agiota é um santo perto deles.
    Claro que o certo é virar totalmente costas aos Bancos. É uma imoralidade o que fazem…o Brasil não tem divida nenhuma, e à mais de 100 anos vive a pagar … D.Dinis teria sido muito mais inteligente do que nossos políticos de hoje, porque tinha ética, tinha ideais humanos, tinha Deus no coração. Mas as sementes foram plantadas e o Quinto Imperio vai acontecer, pois a vontade dos homens não é nada perto dos planos Divinos. Quem sabe das profecias, reconhece a ação do Espirito Santo representado pela consciência dos povos, agindo na nossa sociedade neste preciso momento.

  3. E a Banca de Depósitos nunca se devia ter metido a Banca de Investimentos! Isso conspurcou o dinheiro Real com o dinheiro Virtual da economia de casino e das Bolsas.
    Essa mistura (que existia antes de 90) já devia ser sido resolvida, mas não o foi pela influência tremenda dos lobbies financeiros junto dos governos ocidentais…
    O Quinto vai-se cumprir, de certo. Mas começando dentro de cada um de nós, e passando depois para o mundo exterior… assim ele se tenha realizado num número suficiente de nós, nos países da Lusofonia.
    Esse é o mandato principal do http://www.movimentolusofono.org, de resto.

  4. fada do bosque

    Pois mas como os Media não existem para nos informarem, muito pelo contrário, Veja Clavis o que fizeram co a Islandia:

    “Após o crash de Setembro de 2008, o governo da Islândia tomou o comando dos velhos bancos em colapso e criou novos em seu lugar. Os possuidores originais de títulos dos velhos bancos despejaram no mercado os títulos de bancos islandeses em troca de tostões. Os compradores foram fundos abutre. Estes possuidores de títulos tornaram-se os proprietários dos velhos bancos, pois todos os accionistas foram liquidados. Em Outubro, a autoridade monetária do governo nomeou novas administrações para controlar os bancos. Três novos bancos foram estabelecidos e todos os depósitos, hipotecas e outros empréstimos bancários foram transferidos para estes novos bancos, mais saudáveis – com um desconto drástico. Estes novos bancos receberam 80 por cento dos activos, os velhos bancos 20 por cento.

    Então, aos proprietários dos velhos bancos foi dado o controle sobre dois dos novos bancos (87% e 95% respectivamente). Os proprietários destes novos bancos foram chamados abutres não só por causa do desconto drástico com que os activos financeiros e direitos dos velhos bancos foram transferidos mas também e principalmente porque eles já haviam comprado o controle dos velhos bancos a centavos de dólar.

    O resultado é que ao invés de o governo manter o bancos e simplesmente retirarem-nos da bancarrota, o governo pôs-se de lado e deixou que investidores abutres colhessem um gigantesco lucro inesperado – que agora ameaça mergulhar a economia da Islândia na austeridade financeira crónica. A pergunta é: o que pode fazer o governo para sanar a confusão que criou com a sua credulidade ao adoptar o mau conselho do FMI?” (…)

    http://www.resistir.info/islandia/capitalismo_abutre.html

    • Pois… A Islandia acabou por acatar um emprestimo do FMI, eu sei. Nao havera mesmo entao outra alternativa a uma imensa revolta popular e violenta da posicao imperial que o setor financeiro assumiu sobre as democracias? Por temperamento, sou pacifista, mas ha um momento para tudo, em que a defesa contra uma opressao esmagadora se torna a unica saida moralmente justificavel.

      • fada do bosque

        É Clavis… a situação é de tal forma triste e constrangedora, que só dá vontade de chorar… ou então a Revolta. 👿

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