Não chegámos à maior crise financeira dos últimos cem anos sem mais nem menos

Não chegámos à maior crise financeira dos últimos cem anos sem mais nem menos, fruto do infeliz acaso das circunstâncias ou da má vontade alheia. Chegámos aqui, à beira de um precipício económico e financeiro porque falhámos enquanto comunidade e nação.

O problema tripartido:

1. Falhámos ao deixar crescer um abstencionismo cívico e político. Portugal é dos países desenvolvidos que menores taxas de voluntariado, associativismo e militância apresenta. Habituada, desde os tempos do Estado Novo, a ser passiva e indolente, a Sociedade Civil portuguesa é amorfa, imóvel e desmobilizada. Incapaz de organizar uma voz comum ou de exigir em consonância um melhor desempenho da classe política, a sociedade civil portuguesa vegeta, como se fosse um zombie.

2. Falhámos ao re-eleger os mesmos políticos eleição após eleição, desprezando sempre o resultado das suas políticas e considerando apenas as campanhas de “marketing politico”, a sua imagem mediática ou o voto por tradição. Desde 1975, não renovámos o sistema político-partidário, no que fomos em contraciclo com praticamente toda a Europa e num imobilismo que explica parte do abstencionismo crónico das últimas eleições.

3. O grau de cultura cívica e politica do dito “português médio” é extremamente baixo. A Escola republicana trazia no cerne do seu quadro reformista a transformação da Escola numa forja de cidadãos ativos e comunitariamente entrosados. Mas falhou. Portugal tem nos índices internacionais uma posição muito negativa: consome 8% do PIB no setor (a Alemanha consome 4%), tem dos índices de remunerações por aluno e de alunos por turma mais elevados do mundo, mas fica atrás de todo os países desenvolvidos, por exemplo nos testes PISA.

A solução tripartida:

1. O abstencionismo cívico tem que ser combatido. O Estado e as Autarquias devem criar incentivos à aparição, desenvolvimento e promoção da vida associativa e à pertença dos cidadãos a associações ou movimentos cívicos. As autarquias devem inaugurar “fóruns cívicos”, espaços partilhados onde as associações e movimentos possam partilhar serviços administrativos (secretariado, telefones, internet, limpeza, salas de reunião ou de conferencia, etc). O Estado deve criar incentivos fiscais e dotações regulares (cuidadosamente monitorizadas no seu retorno social) que permitam a sustentação financeiras destas organizações. Sobretudo, os donativos a associações ou movimentos de reconhecido interesse público devem poder ser deduzidos por inteiro no IRS.

2. O abstencionismo deve ser encarado pelas instituições democráticas como aquilo que ele efetivamente é: a mais seria ameaça à democracia dos nossos tempos. Devem ser determinadas formas de combater este abstencionismo eleitoral: voto obrigatório (com coimas), reforma do sistema político-administrativo que aproxime o eleito do eleitor, voto eletrónico, referendo, círculos uninominais, etc. devem ser avaliados como formas de reduzir o abstencionismo crónico da nossa sociedade.

3. O divórcio crescente entre a Sociedade Civil portuguesa resulta também numa lacuna no que respeita à educação cívica. Por princípio, discordamos da multiplicação de cadeiras leccionadas no primeiros dois níveis de ensino, defendo uma concentração da carga horária nas disciplinas de matemática, português e música (na esteira deitada por Agostinho da Silva). Mas uma disciplina de “Educação Cívica” deve ser presente – como opção – em todo o Secundário. E estas matérias devem ser o cerne de qualquer passagem pela formação de militares ou agentes da forças de segurança.

Conclusão

Uma Sociedade Civil desperta, vigilante e ativa pode corrigir os percursos nefastos onde gerações sucessivas de políticos e partidos gastos e estafados nos têm conduzido. Onde têm falhado as elites politicas e económicas das últimas décadas, pode suceder a sociedade civil, desperta e ativa, capaz de regenerar essas mesmas elites com sangue novo, dinâmica e fazendo transpor para a agenda política uma série nova de desígnios e uma estratégica para o desenvolvimento e o progresso que seja mais do que uma transposição acéfala e obediente de normativas europeias ou de frios ditames dos “Mercados”.

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Categories: Política Nacional, Portugal, Sociedade, Sociedade Portuguesa | 8 comentários

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8 thoughts on “Não chegámos à maior crise financeira dos últimos cem anos sem mais nem menos

  1. Odin

    Espanha e Itália respondem por 69% da dívida europeia, diz Febraban
    …Portugal (5%)…
    http://economia.ig.com.br/criseeconomica/espanha-e-italia-respondem-por-69-da-divida-europeia-diz-febraban/n1597288425342.html

    • E a Grécia a ainda um pouco menos… por isso é que digo que alemães são burros. Podiam ter contido esta crise à muito, sem grande esforço, tapando o buraco grego e luso e contendo a crise ainda antes de ela tocar a Itália e Espanha, demasiado grandes para falharem…

  2. Educação Cívica e, principalmente, Educação Ética. Em todo lugar se vê muitoconhecimento técnico e pouco conhecimento ético.

    • fada do bosque

      Renato Rodrigues da Silva:

      Tem toda a razão e mais alguma. Mas depois de saber isto: As grandes multinacionais que governam o mundo. como explica aqui, http://octopedia.blogspot.com/search/label/Bilderberg, como poderá a Ética existir à face da Terra se os neoliberais e neocons a estão a destruir?
      Extraio este excerto do link acima:

      Será está super entidade aquela estrutura de que falava John F. Kennedy pouco antes de ser assassinado?

      Vale a pena meditar sobre o que dizia Edgar Hoover, director FBI, pouco antes de deixar o seu posto:
      “O indivíduo está em desvantagem ao enfrentar uma conspiração tão monstruosa que nem acredita ser possível a sua existência. A mente do americanos ainda não tomou consciência do mal que foi introduzido à nossa volta. Rejeitam até a ideia de que os humanos possam apoiar uma filosofia que em última analise deverá destruir todo o que é bom e decente”.

  3. Exato! Era essa a essência da critica de Agostinho da Silva ao sistema atual de educação!

    • fada do bosque

      O sistema de Educação está práticamente destruido, infelizmente Clavis, este governo deu-lhe o golpe de misericórdia… afinal está moribundo há tanto tempo, que acharam melhor acabar com ele. Será apenas para priveligiados “à boa maneira” das ditaduras.

      • Como era alias no Salazarismo… A este respeito, tanto pode e deve ser feito… Mas repugna-me dar o meu dinheiro dos impostos a subsidios para escolas privadas, isso ‘e inaceitavel, absolutamente, ainda que esteja a ser feito agora. Isso e o laxismo sistemico de alguns “sindicalistas” que tudo fazem contra qualquer avaliacao, quando esta devia ser uma forma de melhor remunerar os melhores e de estimular os piores.
        Mas o maior problema da educacao publica em Portugal ‘e a falta de exigencia e rigor. ‘E isso que esta a matar (via facilitismo) toda uma geracao e espero que Nuno Crato faca algo nesta via, ele que no passado, tanto a criticou.

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