Luciano Amaral: “Grande parte do emprego gerado nas últimas décadas concentrou-se nas formas flexíveis”

“Grande parte do emprego gerado nas últimas décadas concentrou-se nas formas flexíveis (contratos a termo certo e prestação de serviços). Em 2007, cerca de um quarto do emprego existente em Portugal estava abrangido por aquele tipo de contratos. (…) os contratos flexíveis cobrem sobretudo a mão-de-obra mais jovem e qualificada e o fenómeno tem aumentado com o tempo. Se em 1999 cerca de 25% dos trabalhadores entre 20 e 23 anos tinham contratos a termo certo, em 2007, a proporção tinha já subido para 45%.”

Economia Portuguesa, As últimas décadas
Luciano Amaral

Dito isto, como se pode continuar a alegar a “rigidez” do mercado laboral português como fazem os alemães? Em 2007, 25% de todo o emprego já era flexível! Uma percentagem mais elevada do que alemã, de resto… E entre os jovens o valor nesse mesmo ano já quase chegava aos 50%, o que quer dizer que hoje já deve certamente ultrapassar os 60%…

A situação é, a prazo, insuportável e vai criar condições para um conflito intergeracional que o protesto da “geração à rasca” já exprimiu, de certa forma. Daqui a quinze ou vinte anos, a maioria da força laboral ativa será então já precária e sub-remunerada (fala-se hoje da “geração mil euros”) e a massa fiscal que entregará aos cofres da Segurança Social insuficiente para cobrir as reformas da geração que hoje tem entre 40 e 50 anos. Nao é assim difícil imaginar que as reformas sejam então 50% do vencimento atual, ou ainda menos…

Mas até chegar a este equilíbrio passar-se-ão alguns anos em que os reformados com pensões elevadas serão cada vez mais numerosos e a a população ativa menos numerosa e mais mal remunerada. Este fosso de rendimentos poderá ser iludido com défices orçamentais durante alguns anos, tanto mais porque estas pensões elevadas servem tantas vezes para ajudar filhos e netos com empregos precários e mal remunerados, mas estamos a criar condições para uma situação socialmente explosiva e não é improvável que ocorram situações de violência. Por isso defendo que antes de se aumentar ainda mais o peso do jugo fiscal, se devem começar o peso da despesa do Estado, nomeadamente nas pensões e remunerações públicas mais elevadas, trazendo-as de volta para valores compatíveis com o que se paga em funções idênticas no mundo privado e realizando idêntico ajustamento nas pensões mais elevadas. A bem da manutenção do sistema de pensões e da paz social entre as gerações.

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Categories: Política Nacional, Portugal, Sociedade Portuguesa | 12 comentários

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12 thoughts on “Luciano Amaral: “Grande parte do emprego gerado nas últimas décadas concentrou-se nas formas flexíveis”

  1. Viriato

    Proposta:
    – Quem tiver direito a pensão(ões) pagas pela Segurança Social/Estado, não pode auferir mais de 5 Salários Mínimos Nacionais;
    – Quem receber pensões/reformas de sectores Privado (fundos de pensões, etc) e do Público, apenas pode receber do Estado o suficiente para alcançar o tecto acima referido. Se as pensões privadas excederem esse valor, não recebem qualquer valor do Estado;
    – Os políticos não têm direito a qualquer reforma antes de atingirem a mesma idade que o cidadão comum.
    Serviria esta proposta para reduzir os custos com as pensões mais elevadas e moralizar o sector para o passado, presente e futuro. Se acham absurdo, há vários países europeus que usam um tecto muito mais baixo (p.e.: Suíça, €1700 de reforma).

    • Concordo (obviamente!) Com cada uma dessas propostas! De facto, sendo o problema portugues um excesso de despesa em salarios do funcionalismo e em pensoes por comparacao com a riqueza que o pais gera (60 por cento dos 1.2 mil milhoes de novo defice mensal sao para pagar salarios e pensoes), os salarios mais altos e as pensoes mais altas deviam ter sido ja ajustadas. Nao creio que haja legitimidade para descer salarios abaixo da media do setor privado ou pensoes equivalentes, mas os casos extremos? Sem duvida!

  2. Martunis

    Geração 1000 euros?
    Suponho que deverá querer dizer geração 500 euros já que tal valor estará muito mais próximo do valor médio destes contratados…

    • Tem razao… Mil euros era o valor pre 2008. Atualmente, o valor medio (ao que me lembro) ronda de facto os 600 euros, isto para o novo emprego gerado na economia depois da decada de 90.

      • Por acaso penso que anda mais próximo dos 750 euros mas as estatísticas valem o que valem… se eu comer um frango inteiro e o meu vizinho não comer nada a média dá meio frango por pessoa…

        • 750? Bem, continua a muito pouco para media, especialmente quando se sabe quanto custa comprar ou alugar um t1 ou t2 em portugal: quase todo esse valor.
          Alias, continuo a crer que esse ‘e o grande problema da economia portuguesa de curto espetro: o elevado preco do imobiliario, especialmente do arrendamento.

  3. Renato Rodrigues da Silva

    Isto é muito menos um problema intergeracional do que uma bela rasteira que estão aplicando nas sociedades como um todo. Na verdade, o que se quer são custos diminuídos para que os acionistas aufiram mais lucros e os banqueiros possam ter seus empréstimos quitados. Quem paga a conta, como sempre, é a parte mais fraca… até aí, nenhuma novidade, o que é asqueroso é querer jogar a culpa justamente em quem vai pagar a conta, como se ter um bom emprego, como direitos garantidos, fosse um luxo.

    • Na sociedade atual, os interesses dos grandes acionistas sao sistematicamente favorecidos contra todos (menos os gestores): trabalho, consumidores, Estado, etc
      ‘E este desiquilibrio desregulado que esta na direta razao desta grave crise do capitalismo que vivemos desde 2008 e que ainda nao ha sinais de estar a caminho da resolucao!
      Precisa-se regulacao, cidadaos ativos e vigilantes e politicos fortes e independentes, capaz de criarem leis e instituicoes regulatorias e distributivas fortes e atuantes!
      Mas onde estao eles?!

      • Renato Rodrigues da Silva

        Onde eles estão ? No bolso de quem tem dinheiro…

  4. O texto é um bom epitáfio para a classe média.

    • Que ‘e para acabar mesmo… Por esta volta (subida generalizada e constante de impostos e incapacidade na contencao na despesa) a classe media (que paga sempre o essencial deste esforco) vai empobrecer radicalmente e pelas piores duas maneiras: desemprego e carga fiscal.

  5. Fred

    Quem paga a conta sempre foi e sempre será a classe média, os pobres não pagam porque já são pobres, os ricos mudam de lugar o dinheiro para não pagar, quem sobra?

    O problema não é nem nas pensões, o problema é que esse dinheiro é gasto com produtos e serviços não produzidos em Portugal ou que não trazem, odeio esta frase, mais valia para a sociedade. Ai e que está o buraco.

    Se os gastos em geral incentivam a indústria e criam demanda de serviços para produtos portugueses mais pessoas trabalham e mais pessoas consomem, diminuindo a importância das pensões e distribuições de renda na economia.

    Tem que ser um ciclo virtuoso, caso contrário vira bolha.

    Alguns países fizeram isso, com pouco mercado, passaram a ocupar o mercado dos países vizinhos, porém sem distribuir os ganhos advindos desta política por esses países, se a política adotada internamente houvesse sido estendida para os países circunvizinhos, todos estariam bem, porém o país principal não estaria tão rico, nem seria a terceira, quarta ou quinta economia do mundo.

    Minha opinião, claro, posso estar completamente enganado.

    Fred

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