Tiago Pitta e Cunha: “Ao substituirmos a ideia de que habitávamos a terra onde o mar começa pela ideia da terra onde a Europa acaba, começámos a reduzir as nossas opções e deixámos de beneficiar daquele que foi sempre o nosso trunfo principal: a geografia”

Tiago Pitta e Cunha (http://www.cargoedicoes.pt)

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“Ao substituirmos a ideia de que habitávamos a terra onde o mar começa pela ideia da terra onde a Europa acaba, começámos a reduzir as nossas opções e deixámos de beneficiar daquele que foi sempre o nosso trunfo principal: a geografia, que nos faz uma grande plataforma oceânica entre importantes massas continentais. Ao invés, passámos a lutar contra essa geografia, que apelidámos de madrasta, vitimando-nos e lastimando-a. Um exemplo claro dessa luta contra a nossa geografia é bem visível nos esforços nacionais de encurtar, primeiro, pelas auto-estradas e, mais recentemente, pelo comboio de alta velocidade a distância maldita que nos afasta do centro do poder e da economia europeia. Note-se que os esforços na modernização dos transportes terrestres não são negativos em si mesmos. Ao contrário, são até bastante necessários. O que é negativo é quando eles representam um tudo, de que o nada é o mar, os portos ou os transportes marítimos nacionais”.

Portugal e o Mar
Tiago Pitta e Cunha

Portugal não é um “país periférico”. Com a sua imensa zona económica marítima, dezoito (!) vezes maior que o seu território terrestre, Portugal tem que encarar o Mar como o seu novo Centro. O país deve libertar-se do complexo da periferia, que o afasta dos centros de decisão do norte da Europa e encarar o Mar e aquilo que está para além dele (a Lusofonia) como um novo desígnio nacional. Sem virar – de novo – as costas à Europa, o país deve saber complementar esse seu carácter europeu com um atlantismo que lhe é mais natural e inato. Em vez de investir em auto-estradas e TGVs, o país deve investir no transporte marítimo, nas pescas, na produção de energia offshore e nos recursos que se sabe existirem no leito oceânico. Saibamos encontrar no Mar Português o nosso futuro. Antes que outros encontrem nele, o seu…

Categories: Ecologia, Economia, Lusofonia, Política Nacional, Portugal | 14 comentários

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14 thoughts on “Tiago Pitta e Cunha: “Ao substituirmos a ideia de que habitávamos a terra onde o mar começa pela ideia da terra onde a Europa acaba, começámos a reduzir as nossas opções e deixámos de beneficiar daquele que foi sempre o nosso trunfo principal: a geografia”

  1. Odin

    “…a terra onde o mar começa pela ideia da terra onde a Europa acaba…”
    > Isso é pscológico. A Irlanda, a Islândia, a Noruega, a Espanha, a Itália, a Grécia, todos estes estão onde a Europa “acaba” e onde o mar “começa” e também onde o mar “acaba” e a Europa “começa”. É uma questão de ponto de vista, do ângulo que se observa. Semelhante o copo que contém água até a metade. Está “meio cheio” ou “meio vazio” ?

    O Japão é o país mais Oriental da Ásia, junto com a Rússia e a Indonésia. Estão onde a Ásia acaba. Os japoneses têm complexo de periferia ? Não que eu saiba!

    • Psicologico mas crucial, ja que sao os sentimentos, as emocoes e as conviccoes que propelam os povos para o desenvolvimento… Se Portugal perder esta consciencia doentia de que “é periferico”, para passar a considerar-se “central” num contexto geografico de “ponte” entre a europa e o mundo do atlantico sul e de África, isso sera o primeiro passo para desenvolvermos o nosso maior recurso latente, o Mar e para nos aproximarmos desse universo lusofono para o qual temos estado de costas voltadas desde 1975.

  2. Odin

    Sabe, Portugal já é exemplo para muitos países seguirem, em muitos aspectos. O básico de tudo vocês já têm, uma população devidamente alfabetizada. O problema, é a fuga de cérebros para o estrangeiro, perda de mão-de-obra especializada. É claro que não é uma comparação 100% de acordo, pois as realidades japonesa e portuguesa são distintas. O Japão foi uma potência militar que se envolveu numa guerra mundial, foi derrotado, e Portugal não teve tal perfil. Mas em caso de bancarrota, Portugal podia seguir alguns dos passos que o Japão adotou nos anos 50 e 60 do século XX. E Portugal têm mais recursos minerais do que o Japão, o que o torna menos dependente, e já usa energia limpa. E uma população menor também. Portugal podia dar uma guinada para a indústria de tecnologia de ponta, e tal como o Japão, ter parte de sua economia ligada ao mar. Um pacto entre o Estado e os empresários, fazer muita investigação científica. Outros exemplos são a própria Alemanha (Ocidental) quanto à indústria, a Noruega e a Islândia quanto aos oceanos…
    Portugal tem que conseguir mercados para exportar o seus produtos como o Japão conseguiu no passado. Aí que a CPLP entraria em cena.

    • ‘E verdade. Portugal está muito longe de ser um país sem recursos naturais e humanos. O que nos falta é Capital. Ele esteve disponivel durante as primeiras decadas da adesao à UE, mas foi mal gasto (por vontade europeia) em luxo, vias de comunicacao e “obras de regime” quando devia ter sido gasto em novas industrias e no desenvolvimento da agricultura e das pescas.
      Agora, nao está mais, e ha que o tornar a encontrar para explorar esse potencial. E creio que ele existe e começa a chegar… De Angola, desejaria contudo que este novo influxo de Capital fosse em investimentos produtivos e nao em especulativos, como tem sido…

  3. Sinceramente para a era que aí vem toda a Europa vai ser periférica por isso o complexo vai morrer por si próprio à medida que novas realidades económicas vierem à luz.

    • Toda excepto Portugal que ainda nao se cumpriu… Chamem-me sebastianista ou messianico, se quiserem, mas o mercantilismo e o capitalismo de Estado de Dom Manuel adiaram o cumprimento da vocacao universalista do Infante e estes tempos novos que se avizinham serao uma oportunidade unica (pela reflexao, pela autonomia economica e pela situacao de crise) perfeitos para que Portugal reencontre o seu rumo e destino universais: explorando os recursos do Mar, sarando assim as suas feridas desta “aventura europeia” e lancando as sementes da uniao lusofona que ha de vir.

      • Com todo o respeito Clavis (ainda por cima estando na sua “casa”) mas chamo mesmo. Qual missão universal qual quê. Isso é o tipo de mitos (no mau sentido da palavra) que se cria, quando se tem poder económico e militar relevante, para justificar uma política geoestratégica mais agressiva.

        • Bem, ‘e uma visao perfeitamente legitima: mas o Homem ‘e mais que um feixe de nervos, carne e osso. Tem Espirito: isto é: Vontade e Desejo. A motivacao, a definicao de uma estrategia clara e conduzida por tornar forte a fraca gente de um pais forte. A Historia esta cheia de exemplos assim, desde a Fenicia, Cartago, a pequena Roma e ate Portugal do seculo XV…
          O que digo ‘e que sao os mitos, ou melhor, os mitemas que propelam as sociedades e uma sociedade sem mitos nacionais (Quinto Imperio, Sebastiao, Messias, Artur, Graal, etc) ‘e uma sociedade morta, destinada a ser absorvida pelas rodeantes. E isso eu nao quero para o meu Portugal…

          • Não duvido por um segundo que seja mais que isso mas Vontade é coisa que este povo parece ter abandonado há algum tempo (dada a liderança não será de estranhar)… e não me parece que mitos cripto-católicos (semi-elitistas e tendencialmente iniciáticos) sejam o que vai acordar a maioria para as novas necessidades. Ou seja para o que for.

  4. Odin

    Clavis Prophetarum :
    ‘ De Angola, desejaria contudo que este novo influxo de Capital fosse em investimentos produtivos e nao em especulativos, como tem sido…

    Além de Angola, não há outras opções de investidores?

  5. Odin

    Nicolau Wurmood :
    …para a era que aí vem toda a Europa vai ser periférica…

    Mas será que a Alemanha e a Rússia também serão periféricas?

    • A Alemanha não pode viver isolada, tipo fortaleza, num continente miserável sem se ver arrastada para uma série de situações bem desagradáveis que irão pôr fim a esta ilusão de prosperidade (convém ver que a Alemanha apesar da sua riqueza está industrialmente arruinada, tal como todos nós, simplesmente souberam muito bem fasear as coisas e minimizar os efeitos mas de qualquer forma há uma década que os economistas deles avisam contra este perigoso efeito). O declínio pode ser lento mas será mais ou menos inevitável…

      No caso Russo depende da necessidade que houver numa nova economia mais estável e de menos crescimento dos recursos naturais que tem (e são a única coisa que tem)… quanto mais lenta a economia menos relevância terá o país. Tirando isso e algumas armas o país quase que está fora dos grandes circuitos económicos globais. (nota: A Rússia não é bem Europeia… as diferenças culturais e históricas são muito significativas e a maior parte do seu território não está na península Europeia).

      • A Alemanha acredita hoje que pode viver sem os “pequenos” da Europa, ao lado apenas dos maiores como Franca e eventualmente as nacoes do Leste que sao dela mais dependentes. O resto pode (e vai) cair… Acredita que tem futuro como exportador de bens de luxo para a “fabrica do mundo”, a China, exclusivamente… Mas o caso recente do TGV que os chineses compraram aos alemaes e depois copiaram ja lhes deviam ter ensinado que nao será assim.

        A Russia tem ainda pela frente uns anos de aparente prosperidade. O pico da sua producao devera ter-se atingido em 2007 e agora (segundo alguns especialistas) estao “flat” e prestes a sofrer declinios sensiveis da producao… Isso vai expor as fragilidades que corretamente apontas na economia russa. Quando ‘a Russia ser europeia: creio que sim, que o ‘e: por temperamento, cultural e civilizacao matricial (que ‘e o imperio bizantino, nao o esquecamos…)

        • A economia deles não está virada para ser exportadora desse género de produtos nem a China tem interesse em ter qualquer tipo de dependência que possa ela mesma suprir (e potencialmente pode suprir todas menos as de recursos naturais). Por isso até a poderosa Alemanha poderá ter os seus dias contados e juntar-se à mesa deste continente falido.

          Os picos de prosperidade da Rússia são quase sempre relacionados ou com gastos de infra-estrutura interna (renovações maioritariamente) ou picos de preço em mercado aberto de certas matérias primas. Não são uma economia “completa”…
          Tenho dúvidas quanto à qualidade Europeia da Rússia. Há momentos de aproximação e afastamento ao longo da história (o período anterior a este, o soviético, foi claramente de aproximação ainda que de antagonismo) e alguns dos grandes momentos da civilização ocidental parecem ausentes da sua génese cultural ou muito incipientes, dando só dois exemplos: 1) a influência greco-romana muito pouco sentida e quando o é apenas pelo lado religioso, ou seja, uma greco-latinidade já completamente vandalizada. 2) O iluminismo pouco vivido e essencialmente rejeitado fora da corte de meia dúzia de monarcas absolutos.
          E mesmo no presente não sei até que ponto é que a população russa partilha valores e preocupações similares à de um Europeu normal… a obsessão do Império é quase uma religião nacional…

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