De novo, sobre os “hipogeus” nos Açores (Ilha Terceira), mas também sobre moedas e estátuas equestres no Corvo

Dois "hipogeus" nos Açores (http://www.tvi24.iol.pt)

Dois "hipogeus" nos Açores (http://www.tvi24.iol.pt)

Ultimamente tem-se falado muito dos alegados “hipogeus” descobertos na Ilha Terceira, no monte Brasil. No texto que anteriormente publicámos tivemos ocasião já de exprimir as maiores reservas quanto à identificação das estruturas. Recentemente, o Presidente do Instituto Histórico, Francisco Maduro Dias, veio também acrescentar a sua acha a esta fogueira alegando que os supostos “templos cartagineses dedicados a Tanit” não eram mais do que “estruturas de apoio militar” do século XVI e XVII. Os “hipogeus” seriam assim apenas “cafuas” de suporte às guarnições militares em Angra do Heroísmo, quer para armazenamento de material, quer para a conserva de água.

Os alegados monumentos cartagineses seriam em número de cinco e seriam complementados por diversas estruturas funerárias. E seriam uma prova adicional da presença cartaginesa no arquipélago, como as moedas cartaginesas descobertas na Ilha do Corvo, dentro de um recipiente de barro em 1749. A descoberta seria também compatível com a narrativa de Damião de Góis, que em finais do Século XVI, escrevia na “Crónica do Sereníssimo Príncipe D.João”, que os navegadores tinham encontrado (de novo, no Corvo) encontraram uma estátua equestre no alto da serra. Feita a partir de um único bloco de pedra, a estátua revelava um cavaleiro segurando com a mão esquerda as crinas do cavalo e apontando com a mão direita o caminho para Ocidente.” O rei Dom Manuel I teria ordenado do a Duarte d’Armas que um desenho da estátua equestre e o seu transporte para Lisboa, tendo sido os seus segmentos guardados no Palácio Real, após o que se perdeu o seu rasto. Consta que na base desta estátua, que ficou no Corvo, haveriam carateres numa escrita desconhecida na época e que foram copiadas em 1529 por Pedro da Fonseca.

O problema dos “hipogeus”, contudo, é que não têm estes elementos de contexto arqueológico, como estas moedas os estátua do Corvo. Faltam trabalhos arqueológicos (interessantes, mesmo em se tratando de uma estrutura militar Quinhentista) assim como um rastreamento arqueológico do arquipélago e, sobretudo, da Ilha do Corvo, em busca da base dessa estátua descrita por Damião de Góis. Tal como nos é apresentada esta identificação dos “hipogeus” parece mais feita para chamar a atenção e com fins comerciais do que com fins científicos e históricos. Estamos mentalmente preparados para encontrar vestígios de um povoamento cartaginês semi-permanente nos Açores, como indiciam as moedas enterradas (típicas de um “tesouro” guardado para tempos mais duros ou um eventual regresso) ou uma estátua, colocada para fins propagandísticos ou para “marcar terreno”. Seriam assim os Açores as “ilhas afortunadas” dos clássicos, onde Cartago chegou a ponderar uma evacuação depois da derrota perante as armas romanas? Seriam estes vestígios o testemunho dos trabalhos preparatórios dessa falhada evacuação? Seriam estes “hipogeus”, hipogeus verdadeiros?… Respostas a que apenas um rastreio arqueológico sistemático do arquipélago poderá responder.

Fonte:
http://www.dn.pt/inicio/ciencia/interior.aspx?content_id=1904831&seccao=Biosfera

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Categories: História, Mitos e Mistérios, Portugal | 8 comentários

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8 thoughts on “De novo, sobre os “hipogeus” nos Açores (Ilha Terceira), mas também sobre moedas e estátuas equestres no Corvo

  1. Viriato

    Vivi lá 3 anos e não tive conhecimento de qualquer referência aos cartagineses.

    • Pois, eu sei… ‘E tudo muito vago: moedas perdidas, estatua destruida e cova que podem ser hipogeus… Nada de muito concreto, definitivo ou substancial…

  2. acho que só voce esta interessado em nos informar de tais acontecimentos

  3. Joaquim Fernandes

    Sugiro a leitura do meu romance histórico “O Cavaleiro da Ilha do Corvo” ( ed. Temas&Debates/Círculo de Leitores, 2008) onde elenco largas dezenas de referências documentais sobre a polémica Estátua do Cavaleiro e das moedas cartaginesas estudadas no século XVII pelo epigrafista espanhol Padre Flores e datadas por ele como sendo dos séculos IV e III a.C… A História não é um livro fechado.
    Joaquim Fernandes
    UFP

  4. Helder Costa

    Conheço bem as referidas estruturas, e concordo com o Maduro Dias, não me parecem ser mais do que estruturas criadas para receptar água e servir de apoio ao forte de São Diogo. É necessária muita imaginação para querer ver mais do que isto, como aliás é necessária muita imaginação para tudo o resto que se tem falado. O levantamento arqueológico, nomeadamente da ilha Terceira, é de facto necessário, mas parece-me patético que havendo tanto por onde “cavar” se queira começar pelas possíveis “latrinas” do Forte de São Diogo.

    • Pois… concordo. Apesar de toda a atenção médiatica acho que aqui ha mesmo muito pouco de substancial… agora no Corvo… ja é outra história…

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