Cerco a Portugal

Portugal e os portugueses estão aparentemente cercados por todos os lados: De um lado temos os nossos “amigos” europeus que depois de terem derramado milhões de euros em subsídios em troca do desmantelamento dos setores primários e da aceitação do escancaramento de fronteiras às importações chinesas, exigem agora “rigor” e sacrifícios a um povo cuja riqueza espoliaram e que deixaram que vivesse acima das suas possibilidades porque isso convinha à sua Banca (que nos emprestava) e à sua indústria e agricultura (que exportavam para o nosso país). Incapazes de resistir aos milhões de subsídios com que nos acenavam, cedemos, e torná-mo-nos num estéril país de “comércio e turismo”. Deste crime patriótico, somos todos culpados. Uns porque votaram no bi-partido PS-PSD que nos levou até aqui, outros, porque se abstiveram e deixaram-se ser bovinamente (des)governados.

Mas os subsídios europeus não financiavam tudo. A Europa deixou sempre margem (de 30 a 60 por cento) para que Portugal assumisse os custos. Incapaz de gerar riqueza para suportar a metade sequer das obras faraónicas do cavaquismo e do subsequente desnorte despesista das governações socialistas seguinte, com a duplicação do funcionalismo publico a cada década e o crescimento constante da despesa pública (com salários e aumentos dos mesmos acima da inflação ate 2002), Portugal acumulou défices orçamentais sucessivos, ano após ano, depois de 74, sempre compensados com dívida externa.

Chegamos agora a uma encruzilhada: Daqui em diante não é mais possível continuar a pedir dinheiro emprestado ao estrangeiro para colmatar estes défices orçamentais: os juros são cada vez mais proibitivos e dentro em pouco tempo, ninguém nos quererá mais emprestar seja o que for.

Portugal tem assim duas vias:

A) começa a crescer acima dos 3% de forma consistente, por forma a gerar Emprego e a amortizar divida contraída depois de 1990 e contrai a despesa pública (obras, salários e pensões) abaixo deste valor ou

B) declara Bancarrota, total ou parcial, e assim descarta a dívida externa impagável, abandona o Euro (que sendo uma Moeda Forte dificulta grandemente as nossas exportações) e regressa ao Escudo. Na operação, cria condições para se libertar da canga que é o serviço da Dívida, sai dos Mercados financeiros e assim, cura o atual “vício da Divida” que nos faz pedir por mês uma média de um milhão de euros ao estrangeiro.

Estamos assim – enquanto nação – confrontados com estas duas opções e uma série de nuances entre elas em quantidade quase infinita. Portugal desde 1975 nunca conseguiu crescer mais do que 5% ao ano (e mesmo isso, no raro e irrepetível contexto de baixa de preços de petróleo, na década de 90). A via do crescimento é assim praticamente impossível, embora seja a via “oficial” que os Governos da República têm perseguido sem sucesso. É verdade que é possível repetir o “milagre” da baixa do preço de petróleo, através de um investimento muito ambicioso nas energias renováveis (um dos melhores legados do Socretismo), mas num contexto de impossibilidade de contrair mais divida externa tal opção não se encontra mais à disposição. A saída é assim incontrolável: declarar bancarrota, colocando unilateralmente a zero o nosso défice externo.

O processo será extremamente doloroso, mas afigura-se cada vez mais como o único possível. Implicará uma brutal redução dos padrões de vida de que nos habituámos todos a gozar, um termo súbito aos luxos como a troca de carro de 3 em 3 anos, as férias no estrangeiro, a aquisição do ultimo iPhone ou do mais gigantesco plasma, etc, etc. Aqueles que de entre nós os gozavam, irão perdê-los. E que nunca os teve, tão cedo não poderá sequer sonhar com eles.

A saída do euro só pode ser acompanhada da declaração de bancarrota, porque a moeda seguinte (“Escudo Novo”) terá que ter uma cotação várias vezes inferior ao Euro: entre dez a vinte vezes, de facto, por forma a criar condições de curto prazo para reforçar as nossas exportações e assim compensar a súbita saída dos Mercados. A transição para a nova moeda será dolorosa para todos… Quando fôr declarada, os Bancos serão fechados e anunciado o valor de câmbio (tipicamente num domingo) assim como um valor máximo diário de levantamentos.

Sob esta nova moeda nacional soberana será extremamente difícil no curto prazo comprar os bens essenciais de que nos habituámos a importar para viver. A escassez será crónica, por exemplo, nos alimentos, de que importamos hoje mais de 60% do consumo. Consequentemente, a inflação vai disparar e muito acima dos ajustamentos salariais subsequentes, reduzindo drasticamente o nosso padrão de vida, mas com o efeito positivo de reduzir também as importações de bens transaccionáveis, de reduzir a despesa pública com salários e de incentivar ao surgimento de empresas nacionais capazes de realizar a substituição (com bens sucedâneo) desses bens que agora é impossível importar.

O processo de regresso a uma divisa soberana, de abandono do Euro não é incompatível com a integração europeia nem com a União Europeia. Mas desde Maastricht que a Europa fez questão de se formatar como se fora mais uma “união económica” do que uma “união politica, social e cultural”. Gastando mais de metade do seu orçamento na Politica Agrícola Comum (PAC) e uma verba tremenda no seu funcionalismo, disperso por várias castas de privilegiados, a europa não tem a força anímica suficiente para resistir à morte da sua maior construção que é o Sistema Monetário Europeu. A europa que sair do funeral do Euro não será a mesma que nele entrou. Muito provavelmente, até, não vai sair de tudo, enfiando-se dentro do mesmo caixão, arrumando-se junto a ele e sendo ambos enterrados juntos.

Portugal não vai morrer. País milenar, que já venceu mais de dez bancarrotas e que enfrentou crises “terminais” muito mais graves que a presente. Será um pais menos “europeu”, mas mais soberano e independente. Mais livre para buscar as suas ligações culturais e emocionais com as nações da Lusofonia, reencontrar o ritmo de despesa e nível de vida que são realmente os seus e redesenvolver a sua industria e agricultura, livre enfim, dos travões impostos pelos europeus do norte e de uma globalização neoliberal que apenas favorece as grandes empresas financeiras e a China.

Portugal tem nesta saída da crise condições para deixar uma marca exemplar no mundo e na Historia: a sua bancarrota vai levar inevitavelmente à bancarrota do seu maior credor, a Espanha, o país “demasiado grande para falhar”, porque sendo uma das maiores economias mundiais, não há dinheiro bastante nos cofres do FMI ou do FEEF para o salvar. A bancarrota portuguesa e a forma como ela for declarada e o necessário “plano de emergencia financeira” que se lhe seguirá e que aqui delineamos nos seus contornos mais grosseiros poderão ser um farol para todos os países que no mundo estão hoje ameaçados pelo Monstro da Dívida. Portugal pode, assim, voltar a ser um farol do mundo. Assim, como hoje, a sua crise financeira ameaça a estabilidade do sistema financeiro globalizante estabelecido desde a década de 90.

Com sacrifício e dor, podemos criar condições para décadas de desenvolvimento económico, lento, mas seguro e comedido. Com essas duas capacidades que nunca perdemos podemos salvar as gerações vindouras desta embriaguez despesista em que nos enclausuraram. Falta liderança, foco e um desígnio nacional para vencer a dívida e assim, salvar a Pátria.

Categories: Agricultura, Economia, Educação, Lusofonia, Política Nacional, Portugal | 7 comentários

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7 thoughts on “Cerco a Portugal

  1. André

    Boa tarde,

    tenho por costume vir ler este blog (se me permitem chamá-lo). No entanto, esta matéria despertou o meu interesse. Sou um cidadão português “normal” (sem licenciatura em nenhum curso nem afiliação partidária).
    Na minha opinião, não penso que este segundo caminho apontado neste post (declarar bancarrota, voltar ao escudo, sair da UE) possa ser o mais benéfico para Portugal. Isto porque, Portugal só, não consegue sobreviver neste mundo onde cada vez mais os (países) ricos são ricos, e os pobres cada vez mais pobres. Para mim, Portugal deve tomar o rumo de desenvolver as suas potencialidades (desde a possibilidade de exportar “energia limpas”, passando pelo turismo rural e cultural, até apostar no desenvolvimento de novas tecnologias) e deixar-se complementar nas suas fraquezas por outros países. No fundo, se a UE tomar esta ideologia, podemos nos tornar não os actuais 27 países, mas “O grande país” capaz de enfrentar grandes potências actuais (EUA) e emergentes (China). Daí que acho que sair da UE seria um grande erro, pois não só nos tornaremos mais pobres como seremos de certo modo classificados como um “país de terceiro mundo”, onde não seremos capazes de suprimir certas necessidades (algumas delas no campo da alimentação básica).
    Gostei bastante do artigo e da frontalidade com que o assunto foi abordado. Quero no entanto salientar que não é minha intenção promover discussões. Cumprimentos.

  2. Renato Rodrigues da Silva

    Ah se Salazar fosse vivo…aliás, deve estar dando voltas no caixão com esta situação toda…

  3. Rui Martins

    Na minha humilde opinião a única saída para essa difícil situação está a médio e longo prazo . A solução passa por obrigar este povo a estudar ciências exactas pois através dessas surgirão os caças , os submarinos , os fármacos para as doenças de difícil tratamento , a agricultura e as pescas de alta e boa qualidade que permitirá ao pais ser auto suficiente , novas energias que possam permitir ao pais declarar independência ao petróleo e ao gás natural entre outras situações . tudo isso dará poder ao pais , dará dinheiro e respeito . Somos um povo inventivo e que quando mobilizado a melhor mão-de-obra do mundo , este pais tem deixar de uma vez por todas o chico-espertismo , a solução para os nossos problemas não está no exterior , não está nos PALOPS , não está na Europa , a solução está em nos próprios como povo .

  4. Concordo com as opiniões do @André e do @Rui Martins.
    A solução apresentada no artigo é, a meu ver, demasiado abrupta. Haveria, por certo, uma enorme contestação social, uma vez que a maioria da população não reagiria bem a esse “abaixamento” do nível de vida. Com o país assim desunido, seria ainda mais complicado começar a recuperação e entra-se numa espiral descendente. Eu compreendo a tua ideia, @Clavis, mas é utópico pensar que todo o mundo (população portuguesa) ia entrar nessa onda de trabalhar no duro e viver pior para “ajudar o país a recuperar”.
    Tal como os anteriores comentadores, julgo que temos de apostar nas nossas potencialidades e na diferenciação. Temos de formar cada vez mais indivíduos com altos graus de conhecimento como disse o @Rui Martins, para nos podermos distinguir em áreas inovadoras como as Energias Renováveis onde podemos, aí sim, ganhar um lugar de destaque a nível mundial e exportar muita tecnologia.
    Devemos apostar no Turismo de qualidade e no Turismo sénior, isto é, criar lares/clubes de alta qualidade que convidem os reformados de toda a Europa a vir para cá passar descansadamente os últimos anos das suas vidas. (Já viram bem o dinheiro que entrava? As pensões desse pessoal todo, recebidas noutros países, a entrarem directamente cá!)
    Naturalmente que a inexistência de auto-suficiência a nível alimentar é um facto negativo, mas hoje em dia, com o mundo globalizado que temos, é mesmo muito difícil, se não impossível, para um país pequeno como o nosso, ser auto-suficiente a nível alimentar. Temos de compensar isso exportando noutras áreas.
    Agora, concordo contigo no aspecto das Pescas. A situação actual é vergonhosa. Com os recursos naturais marítimos que temos, temos a obrigação de desenvolver a nossa frota pesqueira.

    • O abaixamento ‘e inevitavel. Andamos todos a compensar um desvio entre riqueza gerada e padros de consumo desde 1973 que agora caiu sobre as nossas cabecas. ‘E tarde para fugir. Exportar ‘e preciso, mas para onde? ‘E preciso defender o mercado interno e as empresas nacionais, regressar a uma moeda soberana adequada ‘a nossa condicao economica e repor paridade comercial com os paises que acumulam dumpings comerciais, laborais e ambientais (China) pela via das taxas alfandegarias.

  5. Muita pena tenho eu de que o povo português não tenha o espírito de sacrifício como tiveram os islandeses. Para continuarem a ter uma vida que pensam, será confortável… e eu não vejo como, aceitam perder a Soberania e aquilo pelo que nunca se esforçaram, uma verdadeira Democracia! Preferem pagar uma dívida odiosa e manter um falso status. Preferem ser hipócritas e comprar “marcas” feitas em trabalho escravo na China. Esta hipocrisia está a levar os portugueses e ocidentais no geral a serem eles próprios escravos, basta ver como está a ser destruida a classe média. Temos um País priveligiado em comparação com a Islândia, o clima e território para a agricultura, nem é preciso mais nada. Somos o terceiro País da Europa com mais ouro per capita no qual o Estado português não pode tocar…
    A isto se chama a inversão de valores. O Governo Mundial agradece aos portugueses cobardes e invertidos. Espero que desta senda europeia não saia uma guerra, é que se assim for, nós estamos no epicentro e lá se vão os pópós, os ecrãs, as marcas topo de gama e pior… os alimentos. Depois dirão que quem tudo quer, tudo perde…
    Enquanto nos afundamos a velocidade relâmpago, a Islandia começará a crescer lentamente. Neste momento toda a população foi mobilizada para participar numa nova Constituição. Aqui oferecemos a nossa dignidade em troca de conforto. Mais tarde se verá.
    Quanto às pescas a UE já esgotou todas as reservas e pirateiam o mar da Somália, fazendo crer que os piratas são os somalis. Aqui está um vídeo que mostra quem são os verdadeiros piratas:
    http://sustentabilidadenaoepalavraeaccao.blogspot.com/2011/07/quem-sao-os-verdadeiros-piratas.html

    • Nao esquecer tambem que Portugal ‘e o maior consumidor per capita de. Peixe e o terceiro maior mundial. E que o principal exportador desse peixe para Portugal ‘e Espanha que o obtem nas nossas proprias aguas! Essa pirataria ainda ‘e menos falada!
      Do resto, estou certo que a divida ‘e impagavel e a bancarrota inevitavel em 2013. Tal situacao vai mudar tudo assim como a paciencia dos portugueses para continuarem a suportar este rotativismo “democratico” em que vivemos desde 1975.

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