História da Guiné Portuguesa (1444-1850)

O primeiro português a chegar à Guiné-Bissau foi João Fernandes que aprendeu árabe quando esteve preso no norte de África. Em 1444 partiu numa caravela com Antão Gonçalves que o desembarcou no Rio do Ouro (Senegal). Nos sete meses seguintes percorreu o interior do território e acabou por ser recolhido por outra caravela curiosamente também comandada por Antão Gonçalves.

Em 1446 é a vez de Nuno Tristão chegar à Guiné, sendo contudo morto quando subia um dos seus rios. Ainda no mesmo ano, seguem-se a Nuno Tristão, os navegadores Diogo Gomes e Cadamosto, e, Álvaro Fernandes que estabelece o primeiro contacto com os Felupes.

João Fernandes foi seguido pelo navegador Nuno Tristão em 1450 que explorou as costas do país. Em 1456, Diogo Gomes chegou à região de Bissau.

É em 1446 que o Infante Dom Henrique nomeia um governador para o arquipélago de Cabo Verde com o título “Governador e Capitão Geral das Ilhas de Cabo Verde e Distrito da Guiné”, em que a Guiné era colocada na dependência das ilhas, uma situação que persistiu até 1879, de resto, quando foi criada a Província Autónoma da Guiné.
A ocupação do território da Guiné-Bissau por Portugal só começou a ser efetiva a partir de 1558 com a fundação da vila de Cacheu, com a coroa com o monopólio da exploração e impondo uma severa proibição da presença
de colonos.

Cacheu era apenas habitada por alguns escassos comerciantes brancos, sem forças militares ou uma estrutura administrativa com excepção de alguns feitores.

Em 1630 o governador de Cabo Verde nomeia representantes seus na Guiné, em Cacheu que se torna oficialmente numa “Capitania”. Em 1640, nascem os povoados de Farim e Zinguinchor e Dom João IV ordena a construção da fortaleza de Cacheu. Algumas décadas depois – para incentivar a colonização e desenvolvimento do território – a Coroa cria a “Companhia Magestática do Cacheu”, que fracassa, sendo extinta logo em 1697. Bissau, entretanto, crescia. Em 1692 torna-se Capitania Mor, ainda sob a dependência de Cacheu.

Só já perto dos finais do século XVI é que a Coroa reconheceria a presença de colonos, os “lançados”, como eram conhecidos estes colonos e os seus descendentes, quase sempre miscigenados com as populações indígenas.
A partir do início do século XVII, a presença europeia começa a ser mais intensa com a aparição de mercadores de escravos e comerciantes franceses, britânicos, portugueses e suecos.

Na época, o primeiro povoado guineense de fundação europeia, Cacheu, junto ao rio com o mesmo nome, assume um papel central na presença europeia no território ainda que os “lançados” se tenham sempre oposto à elevação da povoação a vila e à formação de um município, porque isso os obrigaria a partilhar o poder local com os moradores de Cacheu.

Em 1630 seria criada a Capitania-Geral da Guiné.

Em 1697, seria fundada a vila de Bissau, com a única verdadeira fortaleza de toda a colónia, assumindo entao o inglório papel de principal entreposto negreiro do território, que de facto só começaria a declinar no século XIX com a abolição da escravatura.

A Companhia Pombalina do Grão-Pará e Maranhão instala-se em Bissau em 1757 e inaugura-se assim um período em que o capitão-mor de Cacheu é forçado a dividir a autoridade com o capitão-mor de Bissau, numa rivalidade irracional que divide o poder português no território até 1852. O objetivo desta repartição da autoridade política e administrativa na Guiné Portuguesa era o de reduzir a influencia dos “lançados” de Cacheu, nem sempre com sucesso já que em 1766 é precisamente um deles, Sebastião da Cunha Souto Maior, quem assume a capitania-mor de Bissau…

A Companhia Pombalina consegue aplicar o seu monopólio em Bissau e no rio Geba, mas em Cacheu e na região de Casamança, os “lançados” mantêm a sua atividade comercial de forma livre e com o fim da Companhia no final do século XVIII, mas não conseguem estender a sua influencia de volta para Bissau e mais para sul, até ao Geba, porque novos colonos reinóis e caboverdianos ocupam o espaço deixado vago pela Companhia Pombalina.
Durante todo o século XVIII, a Guiné Portuguesa consiste essencialmente em duas praças com alguma importancia económica e militar, Bissau e Cacheu e de outras cinco, de menor relevância: Ziguinchor, Farim, Bolor, Geba e Fá.

Nestas localidades, viviam algumas dezenas de europeus e cerca de 3 a 5 mil indivíduos de origem caboverdiana ou  lusoguineese.

As camadas mais poderosas da população guineense nos séculos XVIII a XIX eram formadas pelos grandes comerciantes e negreiros de origem reinol, afro-portuguesa ou caboverdiana que controlavam o comércio na colónia. O estrato social intermédio era preenchido pelos pequenos comerciantes e pelos proprietários de pequenas embarcações, funcionários da administração colonial e oficiais do exército. As camadas mais baixas da sociedade guineense eram constituídas por soldados, empregados dos serviços e um grupo indígena muito aculturado conhecido por “grumetes”.

Os grumetes eram descendentes de antigos escravos libertos e de populações africanas convertidas ao cristianismo no século XVII e XVIII, em Geba e Bissau. Eram um grupo com grande influencia local, tendo inclusivamente formas de auto-governo reconhecidas pela administração, elegendo o seu juiz do povo, que agia como “governador dos grumetes” em cada feitoria portuguesa na Guiné. Alguns grumetes, eram apoiantes da presença portuguesa, especialmente em Cacheu. Em Bissau, a tensão entre grumetes e a administração colonial era permanente sendo múltiplas as revoltas durante o século XIX, por vezes aliados aos Papéis, etnia dominante na região de Bissau.

Um dos episódios desta relação conflituosa em Bissau é a “Guerra dos Grumetes” ou “Guerra de Bissau” que começa em 1844, depois da detenção de um régulo papel. Uma das consequências da prisão foi a sublevação desta etnia na região de Bissau onde várias centenas de mortos são registadas e se generalizam os saques a lojas e estabelecimentos comerciais. A revolta dos papéis e grumetes arrasta a pequena guarnição portuguesa e apenas a intervenção de navios de guerra ingleses, franceses e norte-americanos, juntamente com um navio português, com 30 soldados da guarnição de Cabo Verde abafam a revolta. Depois de 1844, seguem-se várias “campanhas de pacificação”, já sob o comando de Teixeira Pinto entre 1913 e 1915, onde quase todas as populações mais rebeldes são submetidas, começando pelos balantas de Mansoa, e terminando pelos Mandingas do Oio e pelos Balantas e Manjacos. Os Papéis e os Grumetes da região de Bissau são os últimos a serem pacificados por um contingente que apesar do seu sucesso revela a continuada fraqueza militar da presença portuguesa, já que o exército de Teixeira Pinto é essencialmente formado por auxiliares indígenas e que o governador soube compensar essa fragilidade explorando de forma muito inteligente as rivalidades entre as diversas etnias da Guiné-Bissau.

Socialmente, a sociedade guineense permitia um amplo leque de progressão social: os militares dos mais baixos escalões eram promovidos até às mais altas patentes. Pela via do casamento e pelo casamento com mulheres de famílias indígenas abastadas, sobretudo das etnias Papel e Bijagó (as “Nhás” da Guiné) os comerciantes reinóis, os oficiais do exército colonial e os elementos da administração podiam ascender aos estratos mais altos da sociedade e a cor da pele não era obstáculo sendo a designação “branco” usada não somente para europeus mas para todos aqueles que se destacavam dos demais pela sua posicao social ou económica.

A presença portuguesa na Guiné dependia fortemente das relações com os povos que rodeavam as povoações ou feitorias onde viviam os comerciantes reinóis ou lusoafricanos. Em Cacheu e Bissau, por exemplo, todas as fontes situavam-se no exterior das muralhas e havia uma dependência crónica dos alimentos cultivados pelos povos que rodeavam essas povoações. Esta situação de dependência era agravada pela fraqueza das forças militares à disposição dos governadores: as poucas dezenas de degredados em Cacheu e Bissau não eram completadas por forças navais e sempre que havia conflitos com os povos indígenas, os governadores dependiam totalmente ou dos aliados locais ou de forças de outras nações europeias, como a marinha inglesa que em 1826 em Bissau ajudou os portugueses numa revolta dos Papéis ou em 1844 quando uma corveta dos EUA foi chamada “em defesa dos interesses americanos na Guiné”.

Esta fraqueza militar resultava em grande medida dos escassos recursos financeiros ao alcance dos governadores. Os rendimentos das alfandegas da Guiné estavam arrendados a particulares desde 1842, a cobrança de impostos praticamente não existia devido à escassa atividade industrial e agrícola exportadora. De facto, a maior atividade económica na Guiné até quase aos anos 30 do século XX foi o comércio ilegal de escravos, mas a proibição da escravatura – sob pressão britânica – a partir de 1810 inaugura um período de grande instabilidade local, contando-se entre 1800 e 1832 um total de 22 governadores dos quais apenas 8 foram nomeados pela Coroa, sendo os restantes interinos. A maioria destes governadores terão tido mortes suspeitas, provavelmente envenenados pelas poderosas famílias de “lançados”. Esta multiplicação de governadores dura até aos meados do século XIX e tem muito a ver com a continuação do tráfico ilegal de escravos e com a imensa fraqueza das forças militares de que dispunham os governadores, mal equipadas e ainda pagas quase sempre em géneros (panos e barras de ferro) e ao facto de neste período de terem rebelado várias vezes. Esta situação de fraqueza do governo geral para com os comerciantes locais só termina a partir de 1810 quando Dom João VI, ainda no Rio de Janeiro, declara o fim do comércio de escravos. Em 1836, Sá da Bandeira decreta o fim do tráfego em todo o império português. Mas o comércio ilícito de escravos só começa de facto a reduzir a partir de 1850, o que se deveu em grande medida ao aumento da presença de mercadores europeus na Guiné portuguesa.

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Categories: Guiné-Bissau, História, Lusofonia | 24 comentários

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24 thoughts on “História da Guiné Portuguesa (1444-1850)

  1. Odin

    No passado, a vida era muito menos tediosa e muito mais emocionante do que nos dias de hoje, apesar de todo o conforto que a tecnologia nos proporciona. O João Fernandes, aprendeu árabe numa prisão, e se aventurou na África ainda desconhecida na época, em pleno final de Idade Média. 🙂

    Não aplaudo práticas como tráfico de escravos, entre outras coisas desagradáveis que aconteceram com consequência, mas a coragem dos portugueses do século XV, de encarar o desconhecido numa época de superstições e fanatismo religioso católico, buscar um caminho para a Índia contornando a África, isso eu aplaudo sim. Os portugueses do século XV eram um povo a frente de seu tempo. 😉

    Pena que em 1580, D.Sebastião pereceu sem deixar descendentes. 😦

  2. “pereceu”?… 😉
    Permite-me discordar, Odin… Ele anda aí…
    Vais ver como vamos sair desta crise. Só nos está a faltar o nevoeiro.

    • Odin

      E junto com D.Sebastião aparecerão ressuscitados D. Afonso Henriques, e o Infante D.Henrique. E quando tiverem a informação do rumo que Portugal tomou, não serão misericordiosos. 🙂

      • Podes crer! Precisamos deles todos – juntos – já que enfrentar a maior crise dos ultimos cem anos é coisa que eu nunca esperaria ter de enfrentar…

      • Odin

        Quando vejo a situação de Portugal, tenho a sensação de “Já vi este filme antes, com outros atores e outro cenário”.

        A História é cíclica. Após a tempestade, vem a bonança. Após cada noite, o sol volta a raiar no amanhecer do próximo dia. Após a crise, Portugal terá um grande crescimento de novo. Espere e verá!

        • Otus scops

          Odin

          é desta que vou para o Brasil – “A História é cíclica”…

          um dos meus avôs viveu aí durante 20 anos, entre idas e vindas totalizou 4.

          está na tradição da família… 🙂

          afinal, segues o CP no Feiçebuque ou não???

  3. Otus scops

    CP

    bom “post”!!!

    curiosa a “linha de tempo” da Guiné-Bissau (GB) que começa a ter relevância depois da independência do Brasil: depois da perda do gigante o Império começou a virar-se para o que restava.

    “o capitão-mor de Cacheu é forçado a dividir a autoridade com o capitão-mor de Bissau, numa rivalidade irracional que divide o poder português no território até 1852. O objetivo desta repartição da autoridade política e administrativa na Guiné Portuguesa era o de reduzir a influencia dos “lançados” de Cacheu”
    não será pelo facto de os Casamances serem uma etnia/nação que queria a sua independência dos restantes povos da região, não querendo submeter-se à autoridade de Bissau???
    (é o caso perfeito do colonialismo europeu em África: “dividiu o que estava junto e uniu o que estava separado”)

    p.s. – CP, a tua escrita está cada vez pior, estás a dar imensos erros ortográficos… 😉

  4. Odin

    Clavis Prophetarum

    Você sabe indicar uma obra de História que conte com detalhes o Périplo Africano? Os Lusíadas é uma obra de Literatura, linda por sinal (estudamos nas escolas do Brasil). Mas um livro de História que mencione com detalhes os contactos dos navegadores com os nativos africanos e indianos? Para se ter uma idéia da diplomacia portuguesa da época com povos nunca antes vistos ou imaginados, talvez. Como foram os primeiros contactos dos navegadores portugueses com os chineses (Macau?) e japoneses (Nagasaki?), na Indochina, as ilhas do sudeste asiático?

    PS: Também respeito os feitos de Marco Polo e Alexandre, o Grande. 😉

    • Otus scops

      Odin

      segues o CP no Feiçebuque???

      quanto a “Também respeito os feitos de Marco Polo e Alexandre, o Grande.” fazes muito bem. um grande mentiroso(*) e o maior general da História (curiosamente era homossexual).

      posso aconselhar-te a Peregrinação de Fernão Mendes-Pinto, as crónicas de Fernão Lopes, História Trágico-Marítima, as crónicas do Zurara, Gaspar Correia e João de Barros.

      (*) é a brincar!

    • Odin

      Otus Scops

      “quanto a “Também respeito os feitos de Marco Polo e Alexandre, o Grande.” fazes muito bem. um grande mentiroso(*) e o maior general da História (curiosamente era homossexual).”

      Segundo o filme que assisti, em que o Alexandre foi interpretado por Colin Farrell, e outras fontes como revistas, o Alexandre gostava de “dois tipos de fruta”, era bissexual. É da cultura do Olimpo aquele costume de ter eromenos, em Ásgard não existe isso. 😀
      Obrigado pelas referências bibliográficas. 😉

  5. No fb ando por aqui:
    http://www.facebook.com/MovV.org
    mas pensava que no Brasil era só orkut, orkut e orkut! 🙂

  6. Gostei muito desse post Clavis fazia tempo que você não falava da guerra colonial ou de temas como o império, bom ver que você não perdeu o talento.

  7. evaldo nascimento

    infelizmente Portugal quebrou e não resta outra alternativa a nao ser mais um estado brasileiro , pois somos gigantes e nao abalaria em nada a divida do seu país.

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