Francisco Sarsfield Cabral: O recurso ao FMI/FEEF “pouco ou nada tem resolvido na Grécia e na Irlanda”

Francisco Sarsfield Cabral (https://www.sitiodolivro.pt)

Francisco Sarsfield Cabral (https://www.sitiodolivro.pt)

“A discussão sobre o endividamento externo quase se resume a saber se teremos de (ou, até, se devemos) recorrer ao FEEF – Fundo Europeu de Estabilização Financeira, que traria consigo o FMI – Fundo Monetário Internacional. Ora esse esquema, criado (com atraso) para responder à crise grega, pouco ou nada tem resolvido na Grécia e na Irlanda.
O dinheiro disponibilizado é caro (6% para a Irlanda, por exemplo).”

> Este é um aspecto importante que raras vezes é mencionado: estes empréstimos do FEEF têm – eles próprios – um juro que é mais do dobro daquilo que Portugal (por exemplo) pagava no mercado em 2008. O FEEF não é uma “ajuda” a custo zero ou sem lucro. O FEEF é um negócio e um bom negócio, devido aos juros que pratica.

“E a intervenção do FEEF nao baixou os juros da dívida grega e da irlandesa no mercado secundário – a primeira paga cerca de 11% e a segunda à volta de 9%.”
Além disso, ao impor uma brutal austeridade, a intervenção do FEEF/FMI arrisca um ciclo vicioso: o PIB cai, as receitas fiscais diminuem e a desejada redução do défice orçamental é posta. Mais austeridade poderá levar a um défice crescente, o inverso do pretendido.
Há quem lembre que o FMI já por duas vezes interveio em Portugal e com sucesso. Mas as circunstâncias em 1978 e 1983 eram muito diferentes das actuais. Nessa altura tínhamos moeda própria, o escudo, que de ambas as vezes sofreu uma substancial desvalorização determinada pelo FMI. Agora estamos no Euro.

> Porque emprestar mais, para que o receptor do empréstimo possa pagar juros de empréstimos anteriores nada contribui para resolver na essência o problema da Dívida Externa. Os que os países que recorrem ao FEEF precisam não é de mais empréstimos, é de condições para que possam exportar mais, produzir localmente muito mais e gastarem menos. Isto é feito por outras formas como a saída do Euro, a adopção por parte do Euro de uma gestão cambial mais agressiva que responda ao dumping cambial chinês, o fim do regime de “fronteiras escancaradas” às importações, estímulos à indústria comparáveis aos da agricultura com a PAC, combate às deslocalizações e às fusões e aquisições entre empresas, criação de uma política europeia de Emprego que puna severamente os empregadores que discriminam em função da idade, etc, etc. São medidas assim que faltam. Não o FEEF/FMI.

Francisco Sarsfield Cabral
Sol 4 fevereiro de 2011

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Categories: Economia, Política Nacional, Portugal | 2 comentários

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2 thoughts on “Francisco Sarsfield Cabral: O recurso ao FMI/FEEF “pouco ou nada tem resolvido na Grécia e na Irlanda”

  1. LuisM

    Sobre o FMI um artigo interessantíssimo de alguém que ainda conseva alguma lucidez sobre este assunto:

    http://aeiou.expresso.pt/daniel-oliveira-antes-pelo-contrario=s25282

    Sobre Sarsfield Cabral tenho sempre as minhas reservas dado ter cavalgado até à bem pouco sobre os “ventos politicamente correctos da História”, advogando o mercado sem freio e a libertinagem económica.

    Lembro-me de uma entrevista em que foi quesionado sobre a crescente precariedade dos empregos, tendo respondido que mais valeria ser explorado do que não ter emprego.

    Sobre o parágrafo:

    “Isto é feito por outras formas como a saída do Euro, a adopção por parte do Euro de uma gestão cambial mais agressiva que responda ao dumping cambial chinês, o fim do regime de “fronteiras escancaradas” às importações, estímulos à indústria comparáveis aos da agricultura com a PAC, combate às deslocalizações e às fusões e aquisições entre empresas, criação de uma política europeia de Emprego que puna severamente os empregadores que discriminam em função da idade, etc, etc.”

    Essenciamente isto é o mundo ocidental antes da globalização e é para isto que temos de voltar por muito que berrem os arautos do neoliberalismo, pois se o mundo não mudar gradualmente a bem, acabará por mudar radicalmente, da pior forma possível e com sangue.

  2. Otus scops

    “Quando os neoliberais já nem acreditam no que defendem…”
    (comentário de LuísM)

    http://economia.publico.pt/Opiniao/Detalhe/sofrimento-sem-finalidade_1483623

    Opinião
    Sofrimento sem finalidade

    07.03.2011 – 13:11
    Por J. Bradford DeLong

    Por três vezes na minha vida (até agora), concluí que o meu entendimento do mundo estava substancialmente errado.

    A primeira vez foi depois da passagem, em 1994, do Acordo de Livre Comércio Norte-Americano (NAFTA na sigla em inglês), quando o fluxo financeiro para o México com vista à construção de fábricas para exportar para o maior mercado consumidor do mundo foi ultrapassado pelo fluxo de capital para os Estados Unidos em busca de um clima de investimento mais amistoso. O resultado foi a crise do peso mexicano no final desse ano (que eu, como secretário adjunto do Tesouro norte-americano, tive de ajudar a conter).

    A minha segunda epifania ocorreu no Outono-Inverno de 2008, quando se tornou óbvio que os grandes bancos não tinham controlo nem sobre a sua alavancagem, nem sobre a contabilidade dos derivados, e que os bancos centrais a nível mundial não tinham nem poder nem vontade para manter procura agregada face a uma grande crise financeira.

    O terceiro momento é agora. Hoje, estamos perante um défice de procura nominal de oito por cento relativa à tendência de pré-recessão, sem sinais de inflação crescente, e taxas de desemprego na região do Atlântico Norte que são, pelo menos, três pontos percentuais mais elevadas do que qualquer estimativa credível da taxa sustentável. E no entanto, embora os políticos que não conseguiram salvaguardar o crescimento económico e elevado emprego tendam a perder as próximas eleições, os líderes europeus e norte-americanos apregoam pôr em prática políticas que, no curto prazo, reduziriam a produção e o emprego.

    O que é que aqui me está a escapar? Eu pensava que as questões fundamentais da macroeconomia tivessem sido estabelecidas em 1829. Nessa altura, já nem Jean-Baptiste Say acreditava na Lei de Say da frequência dos ciclos empresariais. Ele sabia muito bem que um pânico financeiro e uma excessiva procura de activos financeiros podia originar uma deficiente procura de produtos básicos actualmente produzidos e de mão-de-obra e que, embora uma suspensão a curto prazo da Lei de Say pudesse ser temporária, não deixava de ser altamente destrutiva.

    Com essa consciência, a perturbação do ciclo empresarial teria de ser tratada de uma de três formas.

    1. Tentar que não ocorra. Evitar seja o que for – quer um escoamento externo ao abrigo do padrão ouro, quer um colapso da riqueza de longo prazo, como o colapso da bolha da Internet, uma fuga em pânico para a segurança como em 2007-2008 – que crie uma escassez ou um excesso de procura de activos financeiros.

    2. Se não se conseguir evitar o problema, então o Governo terá de intervir e gastar em mercadorias e serviços actualmente produzidos para manter o emprego nos seus níveis normais para contrabalançar os cortes dos gastos do sector privado.

    3. Se não se conseguir evitar o problema, então o Governo terá de criar e providenciar activos financeiros que interessem ao sector privado para que o sector privado retome os seus gastos nas mercadorias e serviços actualmente produzidos.

    Existem inúmeras subtilezas na forma como o Governo deve tentar seguir cada uma destas opções. Tentativas para levar a cabo uma das três podem excluir ou interferir nas tentativas para levar a cabo as outras. E se uma economia for acometida por expectativas inflacionistas, isso poderá impedir que qualquer destas três soluções resulte. Mas não é essa a situação actual.

    Do mesmo modo, se a alegada credibilidade do Governo estiver abalada, poderá ser essencial a intervenção de um líder externo de último recurso para que a segunda ou terceira soluções funcionem. Mas também essa não é a situação que se verifica nas principais economias.

    Todavia, nenhuma destas três soluções está agora na mesa. A probabilidade de reformas na Wall Street ou em Canary Wharf com o objectivo de diminuir a possibilidade de ocorrência ou a gravidade de qualquer pânico financeiro futuro é nula, tal como é nula a probabilidade de intervenção governamental para restaurar o fluxo normal de finanças de risco através do sistema bancário. E também não existe nenhuma pressão política para expandir ou alargar as fracas medidas governamentais de estímulo que foram tomadas.

    Entretanto, o Banco Central Europeu procura activamente formas de diminuir a provisão de activos financeiros que fornece ao sector privado, a Reserva Federal dos Estados Unidos está sob pressão para fazer o mesmo. Em ambos os casos se afirma que mais políticas expansionistas de provisão de activos acarretam o risco de desencadear inflação.

    Contudo, não se vê probabilidades de inflação quando analisamos os índices de preços ou as leituras que o mercado financeiro faz das expectativas previstas. E não existe nenhuma crise de dívida governamental à vista nas principais economias quando se examinar as taças de juro governamentais.

    Ainda assim, quando ouvimos os discursos dos governantes de ambos os lados do Atlântico, ouvimos presidentes e primeiros-ministros dizer coisas como: “Tal como as famílias e as empresas tiveram de ter cuidado com os gastos, também o Governo tem de apertar o cinto.”

    E é aqui que chegamos aos limites do meu horizonte mental como neoliberal, como tecnocrata e como economista neoclássico convencional. Neste preciso momento, a economia global sofre de um grande ataque de fraca procura e elevado desemprego. Sabemos as curas possíveis. Contudo, parecemos determinados a infligir mais sofrimento ao paciente.

    Professor na Universidade da Califórnia

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