Lições a tirar do atual vigor da economia da Alemanha

Se existe coisa que espanta muitos economistas é a força da economia alemã que em 2010 foi capaz de ultrapassar em crescimento todas as grandes economias do mundo, incluindo – até – a dinâmica economia norte-americana. É certo que a Alemanha não é a única economia do mundo que se está a sair bem no meio de um ano que foi muito mau para muitos países do globo e especialmente para os países do sul da Europa, como Portugal, para os EUA e para a Irlanda.

Estas diferenças de desempenho merecem uma análise e pode indicar a um país como Portugal possíveis vias de saída da crise.

Em primeiro lugar, esta crise veio encontrar a Alemanha já fora do seu grande desafio económico deste século: a absorção da Alemanha de Leste, feita na época de uma forma que se haveria depois de revelar desastrosa e que passou pela equiparação da moeda do Leste ao marco federal. Tal opção (política) iria sobrevalorizar o custo do trabalho a Leste e criar distorções que ainda hoje estão por sanar. Mas a partir de 2005, os subsídios federais ao Leste começaram a diminuir e a integração dos dois Estado alcançou um novo patamar.

O modelo económico alemão é duradouro e o seu bom desempenho foi apenas afetado recentemente pelos custos da integração do Leste. Sinteticamente pode resumir-se a:
1. Custos de trabalho elevados
2. Educação e Treinamento muito importantes, com grande importância social para os cursos de Engenharia e baixa importância social para os cursos mais “financeiros”.
3. O setor financeiro tem pouco peso no sistema económico alemão.
4. As empresas alemãs são em média pequenas e antigas. Os seus proprietários são poderosos dentro da empresa e impedem os gestores de acometerem aventuras muito arriscadas
5. A maior parte da economia alemã não é rápida ou muito inovadora, mas logo que uma dada tecnologia amadurece a Alemanha torna-se um ator mundial no domínio da mesma, fabricando produtos que a utilizam com grande qualidade e a preços competitivos.
6. O modelo chinês de Capitalismo pode ter assegurado impressionantes números de crescimento do PIB mas a China continua sendo um país onde a riqueza é distribuída de forma muito desigual e não é certo que esta panela social se mantenha por explodir durante muito tempo… Bem pelo contrário, a Alemanha é um dos países do mundo onde a desigualdade de rendimentos é menor, criando assim uma camada social de consumidores influentes e com poder de compra e que amortecem todos os embates internacionais resultantes da natural quebra de consumos em época de crise mundial.
7. A Alemanha não optou pelos “pacotes de estímulo” de biliões de dólares dos EUA, França e Reino Unido. Assim, manteve a sua Dívida externa controlada e a política monetária conservadora determinada pelo BCE (que controla) manteve o Euro alto e estável e reduziu os riscos inflacionistas ao mínimo.

Esta abordagem alemã ao “capitalismo” deve fazer-nos pensar: desde logo porque mostra que é possível construir uma prosperidade sólida e duradoura com bases industriais e produtivas e que economias de Serviços e muito financeirizadas (como a dos EUA ou a do Reino Unido). A possibilidade de manter salários elevados e competitividade internacional é também altamente relevante porque mostra que através de uma aposta na Educação de qualidade é possível vencer a batalha dos “preços baixos” imposta pela China. O sucesso atual do modelo alemão mostra enfim que a raiz do sucesso para um país moderno não está na sua tercialização mas no reforço do seu setor produtivo… uma lição que aqueles que ordenaram o abandono dos nossos campos e o abate da nossa frota pesqueira nunca conseguirão compreender.

Fonte:
http://atimes.com/atimes/Global_Economy/LL03Dj02.html

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Categories: Economia, Política Internacional, Política Nacional, Portugal | Etiquetas: | 3 comentários

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3 thoughts on “Lições a tirar do atual vigor da economia da Alemanha

  1. Otus scops

    concordo!
    gostei duplamente de ler este artigo porque chama a atenção para a REALIDADE (que tenho andado a defender) apontando um modelo de comportamento e de excelência a seguir e porque está brilhantemente escrito aquilo que tenho andado a defender por aqui (sempre mal escrito, cada um é para o que nasce…)

    só falta acrescentar que a ÉTICA é um dos pilares (espirituais) do comportamento dos alemães, sobretudo em negócios e na relação entre o Estado e os cidadãos.

    p.s. – estou estupefacto com este proselitismo acordista do CP, não só escreve como já comunica à brasileira – Treinamento NÃO EXISTE em português, chama-se Formação (Profissional para este caso). e para praticar chama-se Treino… arrrghhh. 😦

  2. LuisM

    Também subscrevo a 100% tudo o que foi dito.

    A grande lição que se tira é a necessidade de reequacinar e valorizar o custo do trabalho. Pessoas a ganhar salários de miséria não se sentem motivadas para realizar nada nem assumir responsabilidades ao contrário do que os economistas de pacotilha do nosso rectângulo apregoam indo à ignomínia de propor cortes de 20% mesmo no sector privado.

    Há também um factor importante que tem a ver com o facto de a economia alemã ser uma economia dominante pois possui riqueza, indústria e know-how tão importantes para a produção dos tais bens “transaquessionáveis” como diz com a garganta esticada um antigo cliente da SLN.

    E isto não desmerece em nada os factores anteriores.

    • Otus scops

      “…“transaquessionáveis” como diz com a garganta esticada um antigo cliente da SLN.”
      😀 héhéhé

      a rentabilidade e a “competividade” também…

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