Fernando Madrina: “Um país que deve muito mais do que produz num ano inteiro e que precisa de mil milhões todas as semanas não tem que se queixar dos credores: deve dar graças por haver ainda que lhe compre dívida, se bem que a juros incomportáveis”

Fernando Madrina (http://aeiou.expresso.pt)

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“Um país que deve muito mais do que produz num ano inteiro e que precisa de mil milhões todas as semanas não tem que se queixar dos credores: deve dar graças por haver ainda que lhe compre dívida, se bem que a juros incomportáveis.”

Esse é o grande problema de Portugal: a situação atual é absolutamente incomportável e nada – absolutamente nada – foi feito pelo atual governo para mudar a situação: Portugal está viciado na dívida. Para curar esta dependência o país – no seu todo: Estado, Particulares e Empresas – tem que parar de se endividar e começar já a amortizar esta dívida. Para tal há que renegociar com os credores e obter a redução da mesma para um valor que seja comportável e, sobretudo, pagável.

O Bloco de Esquerda fez agora um enfoque no seu discurso para o BCE interrogando-se porque é que este não financiava diretamente os governos – a juros comportáveis – e resolvia o problema dos juros crescentes. Mas tal manobra nada resolveria de essencial: pelo contrário, uma descida dos juros convidaria apenas a um crescimento da dívida, e nada contribuiria para a solução da mesma. Um país não pode viver eternamente com o dinheiro dos outros, e chega sempre um ponto em que já ninguém lhe empresta dinheiro, como sucede, de resto, com as famílias. O momento para parar, chegou. Há que reduzir o nível de vida, artificialmente elevado nas últimas décadas pela miragem do crédito barato e da moeda forte (Euro). Não vai ser fácil, mas está já a ser feito pelos 600 mil desempregados e suas famílias. O resto de nós reduzirá o seu nível de vida pela simples forma do aumento da dificuldade em obter crédito.. o Estado, a partidocracia e toda a sua legião inominável de Boys e Boyas terão que seguir o exemplo e só depois talvez, pela impossibilidade de obter capital no estrangeiro, ocorra uma reindustrialização em Portugal, compensando por substituição aquilo que cedo será impossível comprar no estrangeiro…

(…)
“PS e PSD só pensam em eleições: o CDS, que faz maioria com o PS, é ignorado e, à esquerda, há dois partidos inúteis para efeitos de governação porque consideram que é com greves e manifestações que se baixam os juros da dívida.. (…) os protagonistas não estão à altura do momento. Perdeu-se tempo, gastou-se energia, desbaratou-se a última réstia de credibilidade.”

A grave crise atual demonstra cabalmente uma coisa: não temos uma partidocracia à altura das grandes exigências que se apresentam perante o país. Estes partidos são os mesmos que levaram o país a este estado, desmantelando o setor produtivo desde a década de 90 (Cavaco/PSD), criando então o “monstro da dívida” pelo aumento em 10% da dívida de finais da década de 80. Sob o guterrismo, o desmantelamento do setor produtivo prosseguiu e o Estado engordou a níveis até então inéditos e atualmente, o Socretismo agravou imensamente o problema pela multiplicação de projetos faraónicos e sem retorno e por uma gestão “amiguista” da Res Publica contaminando-a com “parcerias público-privadas” ruinosas para o Estado, negociadas por Boys que depois se teletransportaram para a chefia das mesmas empresas que beneficiaram (coincidentemente…) destes maus contratos.

Este é o ambiente de autêntico saque a que esta partidocracia liderada pelo bi-partido rotativista PS-PSD nos votou. Em seu torno, o PP almeja captar umas migalhas desta dança circular de poder e os partidos da Esquerda, que não se entendem entre si, cronicamente, que estão para sempre excluídos do jogo do poder.

Este é o cenário que urge mudar. Não através dos Partidos que hoje temos – que estão para além de qualquer renovação – nem criando “novos” partidos (como sucedeu em Itália e Espanha), mas renovando pela base o sistema político introduzindo uma radical descentralização municipalista que aproxime eleitos de eleitores, círculos uninominais, transformando o Parlamento não num ninho de abutres fiéis apenas aos seus dirigentes partidários, mas na sede de deputados livres, completamente independentes de hierarquias e fieis apenas aos seus eleitores.

Perante tal Cenário, esta Petição http://www.gopetition.com/online/26885.html faz cada vez mais sentido…

Fonte:
Fernando Madrinha
Expresso 6 de novembro de 2010

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Categories: Economia, Política Nacional, Portugal | 3 comentários

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3 thoughts on “Fernando Madrina: “Um país que deve muito mais do que produz num ano inteiro e que precisa de mil milhões todas as semanas não tem que se queixar dos credores: deve dar graças por haver ainda que lhe compre dívida, se bem que a juros incomportáveis”

  1. Otus scops

    sempre estas conversas gastas…

    “O Bloco de Esquerda fez agora um enfoque no seu discurso para o BCE interrogando-se porque é que este não financiava diretamente os governos – a juros comportáveis – e resolvia o problema dos juros crescentes.”
    claro que não resolvia mas podia ajudar. porque razão o BCE empresta dinheiro à banca a um juro baixíssimo e esta reencaminha-o para a economia (aos governos, às empresas e aos cidadãos) a juros muito superiores??? pelo menos poupava-se algum juro da dívida pública

    mas o GRANDE problema não é nem nunca foram os empréstimos, mas sim a natureza dos investimentos e a subsequente gestão dos mesmos!!! este é que é o problema, a doença crónica.

    quanto ao resto concordo totalmente com as ideias do texto.

    “Estes partidos são os mesmos que levaram o país a este estado, desmantelando o setor produtivo desde a década de 90 (Cavaco/PSD), criando então o “monstro da dívida” pelo aumento em 10% da dívida de finais da década de 80” concordo e até um dos mais pulhas mais bem sucedidos deste sistema vem agora testemunhar esta situação:

    http://jornal.publico.pt/noticia/25-11-2010/cavaco-destruiu-o-psd-de-sa-carneiro–aumentou-o-peso-do-estado-e-foi-autoritario-20691288.htm?utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed%3A+JornalPublico+%28P%C3%9ABLICO+-+Edi%C3%A7%C3%A3o+Impressa%29

    Cavaco “destruiu” o PSD de Sá Carneiro, aumentou o peso do Estado e foi autoritário
    CAVACO “DESTRUIU” O PSD DE SÁ CARNEIRO, AUMENTOU O PESO DO ESTADO E FOI AUTORITÁRIO

    José Miguel Júdice, da comissão de honra da candidatura de Cavaco, reflecte sobre o legado do fundador do PSD. O Presidente foi um dos “coveiros” do pensamento estratégico de Sá Carneiro

    * Excertos de O meu Sá Carneiro, de José Miguel Júdice

    Ao longo dos últimos 30 anos, o pensamento político de Francisco Sá Carneiro desapareceu no PSD, apesar de as sucessivas lideranças invocarem constantemente o legado do fundador do partido. Mas terá sido nos governos de Cavaco Silva (1985/1995) que a mensagem política de Sá Carneiro foi completamente banida. Em 10 anos, assistiu-se à acentuada alteração da “matriz ideológica” do PSD, à “destruição do pensamento estratégico” do antigo primeiro-ministro da AD e à “mudança da natureza sociológica” do partido.

    Um retrato muito pouco simpático de Cavaco Silva e do consulado cavaquista consta do livro O meu Sá Carneiro – Reflexões sobre o seu pensamento político (D. Quixote), do advogado José Miguel Júdice, que, à semelhança do que aconteceu nas últimas presidenciais, voltou a ser convidado para integrar a Comissão de Honra da recandidatura do Presidente da República. A obra chega às livrarias no fim-de-semana e será apresentada no dia 30, às 18h30, no El Corte Inglés, por Manuel Braga da Cruz, reitor da Universidade Católica.

    Cavaco Silva, que “entrou na cena política como o verdadeiro herdeiro” de Sá Carneiro, “procurando assumir o seu estilo frontal e sem cedências”, acabou por transformar o PSD num partido “feito à sua imagem e semelhança: um partido tecnocrático, um catch all party, ou seja, um partido sem fronteiras, onde todos poderiam vir plantar a sua tenda, desde que aceitassem a liderança indiscutida do então primeiro-ministro, e assim ajudassem a conquistar votos e a manter suseranias”.

    O livro, que também reproduz excertos de uma conferência dada por Júdice em 1981, quando se filiou no PSD, serviu para o autor reflectir sobre “o que falhou” nas últimas três décadas. E as falhas, que provocaram a “destruição do edifício” que Sá Carneiro tinha começado a construir, não são notórias apenas nos governos de Cavaco, mas também no Bloco Central, na governação de António Guterres e de Durão Barroso.

    Contudo, Júdice dedica grande parte do capítulo A herança desbaratada a Cavaco, notando que, a partir de 85, as mudanças no PSD aproximaram-no do PS e dissiparam o legado de Sá Carneiro. Ao ponto de o PSD, nos dias de hoje, se apresentar como um partido “feudalizado, com militantes criados aos milhares para as trocas políticas”. “Cavaco Silva fez um partido de consumidores e abdicou da bipolarização”, afirma Júdice ao PÚBLICO, qualificando ainda o Presidente como “um grande político, que não é ideólogo, e que olha para a sociedade civil com uma certa suspeição”. Entre 85 e 95, com duas maiorias absolutas, o então primeiro-ministro “aumentou o peso do Estado e apresentou-se como um líder autoritário, não permitindo a libertação da sociedade civil, como Sá Carneiro sempre defendera”.

    Ou seja, “desperdiçou” 10 anos: “Teve poder e tinha dinheiro a rodos. Se o Estado tivesse emagrecido, se ele tivesse alterado a lei laboral e libertasse a sociedade civil, hoje estaríamos melhor.” “Com Cavaco teria podido ser diferente”, lê-se no final do livro. Não foi.

    • é verdade este texto de Júdice (hipocritamente membro da comissão de honra de Cavaco é demolidor e certeiro para Cavaco…
      O que ainda lhe há ter custos…

  2. LuisM

    Apesar de não ser propriamente um simpatizante de Miguel Sousa Tavares, não posso deixar de concordar e achar genial a sua última crónica de Sábado passado no Expresso.

    Convido todos a ler e a reflectir:

    http://clix.expresso.pt/estou-farto-dos-mercados=f617479

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